segunda-feira, 3 de agosto de 2020



03 DE AGOSTO DE 2020
DAVID COIMBRA

A pergunta do meu filho que eu não soube responder

"Da mão para a boca", eu dizia para o meu filho. É assim que vem esse troço, o corona: da mão para a boca. Não acredito muito nisso de que o vírus fica flutuando um tempão no ar, como um colibri da morte. Não. Isso não tem lógica. Ele é leve, mas não é um vírus voador. Ele é como qualquer um dos grandes clubes brasileiros: uma hora cai.

Então, o importante, Bernardo, é saber como é que você pega essa porcaria: se ficar durante muito tempo em um ambiente fechado com um contaminado, ou se algum encoronado desgranido tossir ou espirrar bem na sua cara. Fora isso, da mão para a boca. Ou seja: é preciso lavar sempre a mão ou lambuzá-la toda com álcool gel.

Ele ouvia, quieto, e eu insistia: o contágio se dá pelas vias respiratórias, entende? Pelos cinco buracos do rosto. "Mas os olhos não são vias respiratórias", ele argumentou.

Pensei um pouco. Não são, de fato. Mas se pega pelo olho também, por algum motivo. Então, nada de esfregar o olho."E os ouvidos?"

Fiquei em dúvida. Acho que pelo ouvido o corona não entra. Mas, sei lá, também é um buraco do corpo. Assim, melhor não meter o dedo no ouvido.

Enquanto eu falava, percebi que meu filho estava refletindo. Senti que viria uma pergunta incômoda. Veio: "E se alguém sentar pelado em uma cadeira que tenha corona, o vírus não pode entrar pelo... por ali?"

Maldição. E agora? Será que o corona seria tão solerte e traiçoeiro a ponto de invadir o corpo de um ser humano pelo ânus? O ânus, definitivamente, não participa do sistema respiratório. Embora possa soltar ventos, ele não os engole. Além disso, ele está a boa distância dos pulmões e tudo mais. Agora, vamos supor que você esteja num vestiário e vá tirar a roupa e, para tanto, se senta, completamente pelado, em um banco cheio de coronas frementes. Será que eles podem escalar por suas nádegas adentro e se infiltrar no seu, digamos, âmago e marchar pelo intestino e se espalhar pelo seu corpo? Tenho que perguntar isso para um infectologista. Olhei para o meu filho. Fui taxativo: "Melhor não se sentar quanto estiver sem roupa."

O problema é que a todo momento surge uma exceção nova nessa história do coronavírus. Sei de casos de pessoas que estavam cercadas de gente contaminada e que não contraíram a doença. Sei de casos de pessoas que contraíram a doença sem nunca sair de casa. Em alguns casos, a pessoa pega e não sente nada. Em outros, sente bem pouquinho. Mas há os que sentem muito, os que são hospitalizados e os que morrem. Uns perdem o olfato e o paladar, outros ficam com feridas nos pés e nas mãos, outros sentem dores no corpo, outros tossem e espirram, outros têm dor de cabeça, outros ficam com falta de ar, qualquer coisa que você sentir pode ser sintoma da covid. Que desgraça de doença sem regras é essa? É preciso ter um parâmetro. É preciso um pouco de ordem. Muito irritante.

Seja como for, não ponho mais a mão no rosto. Está tudo me coçando agora mesmo: os olhos, a orelha, o nariz. Tudo. Não coço. Sofro, mas me contenho. A Bíblia diz: "Se te mostraste insensato, depois de exaltado, e te arrependeste, põe a mão à boca". Hoje, um mau conselho. Hoje, o maior mal é o que vai da mão para a boca.

DAVID COIMBRA

03 DE AGOSTO DE 2020
ARTIGOS

MÍDIAS SOCIAIS E MEDICINA


As mídias sociais vêm se incorporando aos hábitos dos indivíduos de forma rápida. Em tempos de covid-19, onde o distanciamento não é opcional, a busca por essa espécie de reality show, através de fotos, vídeos e lives, vem determinando um interesse ainda maior por esses meios de comunicação. Sopros de resistência a sua utilização baseados em críticas pela hipervalorização da imagem se enfraquecem diante da constante mudança de valores da sociedade atual. Por todos esses aspectos, essas mídias vêm se tornando, inclusive na medicina, um instrumento com potencial de abrangência exponencial e, associado ao baixo custo, uma das mais potentes ferramentas de marketing da atualidade.

Mas, afinal, se o verdadeiro limitador para abusos no campo da propaganda médica seriam os históricos princípios éticos da profissão, qual seria a diferença entre essas mídias em relação ao rádio, TV e jornal nesse contexto? Provavelmente os elevados custos das mídias tradicionais serviam como limitadores, e o reduzido número de inserções permitiam um melhor controle pelos órgãos responsáveis. Ou seja, conceitos tais como boa propaganda médica é aquela do boca a boca vão se tornando lendas, e nossos alicerces éticos, lamentavelmente, ruínas. Não deveria servir como justificativa, entretanto, é inegável que o aumento da competitividade e dos custos da medicina moderna, a transformação de médicos em pessoas jurídicas e, por fim, a consolidação dos intermediários planos de saúde na relação médico-paciente têm corroborado para essa mudança.

A questão aqui não é lutar contra a correnteza e impedir que as mídias sociais sigam crescendo e de forma democrática permitam que cada um expresse, compartilhe e discuta o que bem entender. Todavia, a medicina não deveria ser um produto no qual a informação científica sirva de camuflagem para propaganda médica e não haja limites entre a vida particular e profissional dos indivíduos. Se faz necessário, urgentemente, que os órgãos fiscalizadores façam proposições resguardando aspectos éticos essenciais a essa profissão e, concomitantemente, as faculdades de Medicina percebam a importância desse tema na formação dos futuros médicos.

Da forma como está evoluindo, o passeio digital pelo celular parece mais uma caminhada por uma rua comercial sedutora, e isso na área médica não é somente um problema, mas a sinalização de uma doença contagiosa no campo da saúde. Doença esta que deve ser tratada enquanto não formamos um exército de novos médicos que acreditem haver um atalho para o sucesso através do qual saber fazer propaganda seria sinônimo de fazer boa medicina.

Médico otorrinolaringologista e professor de Medicina na UFRGS otaviopiltcher@gmail.com - OTAVIO PILTCHER, MÉDICO OTORRINOLARINGOLOGISTA E PROFESSOR DE MEDICINA NA UFRGS


03 DE AGOSTO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

LIBERALISMO ILUSÓRIO

As evidências são cada vez mais cristalinas. De liberal, o governo Bolsonaro tem muito mais discurso do que a prática. Após um início que parecia promissor, com medidas desburocratizantes e que buscavam facilitar negócios, como a Lei da Liberdade Econômica, o Planalto travou. Apesar do reiterado otimismo muitas vezes exagerado do ministro da Economia, Paulo Guedes, se solidifica a percepção de que falta um verdadeiro engajamento do presidente Jair Bolsonaro em temas como privatizações, enfrentamento de privilégios de corporações e envio de uma proposta de reforma administrativa para o Congresso.

A promessa de desestatização é um símbolo desta frustração. Guedes, no início do governo, acenava com R$ 1 trilhão em venda de ativos, mas até a chegada de 2020, o resultado foi inferior a R$ 100 bilhões, e as privatizações se resumiram a controladas e subsidiárias das maiores estatais, além de participações acionárias, sem de fato deslanchar a alienação das maiores empresas públicas. Há menos de um mês, Guedes prometeu, para um prazo de até 90 dias, "três ou quatro" grandes privatizações, algo que até agora não há sequer rastro e talvez nem o ministro sinceramente acredite.

Levantamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) feito a pedido do jornal Folha de S.Paulo mostrou que, atualmente, apenas 18 das 614 estatais fazem parte da lista de privatizações do governo, mas nenhum processo está de fato estruturado. Ou seja, muito distante de uma efetiva venda à iniciativa privada. O resultado do ano passado muito abaixo do esperado, ressalte-se, foi admitido pelo próprio secretário especial de Desestatização, Salim Mattar. A crise do coronavírus de fato afeta o apetite de possíveis interessados e deprecia o preço dos ativos, mas este poderia ser um tempo precioso a ser empregado em etapas anteriores à oferta no mercado. Quase nada foi feito. E, ao contrário, o governo Bolsonaro criou uma estatal ano passado, a NAV Brasil, e ainda injetou R$ 7,6 bilhões na Emgepron, empresa da Marinha.

A intenção de levar a cabo ao menos a privatização da Eletrobras, por meio de uma diluição da participação da União que poderia ocorrer com uma capitalização, trava por interesses políticos. Ou seja, o Planalto está na realidade preso aos grilhões do toma lá dá cá, sem poder ou verdadeira disposição para levar o processo adiante. Na prática, se dobra aos discursos demagógicos e populistas voltados apenas para arrebanhar votos fáceis nas urnas e a práticas que visam à acomodação de aliados. A venda de companhias como a própria Eletrobras, os Correios e a Casa da Moeda precisa passar pelo Congresso, mas a resistência de parlamentares, especialmente no caso da elétrica, e a desarticulação política do Planalto não inspiram esperança de que possam ter desfecho em breve.

É preciso admitir que diversos ativos encontram pouco interesse de investidores. A estes, é preciso encontrar outro caminho, como a pura e simples liquidação se seus custos são muito maiores do que os benefícios que trazem à sociedade. Ao menos, de alguma forma caminham de forma razoável os projetos de concessões, como rodovias e portos, estes sim atrativos pela certeza da receita que vão gerar, ainda mais em um país que clama por uma melhora substancial em sua infraestrutura. A maior parte dos projetos, porém, ainda é da carteira montada pelo governo Michel Temer.

Enquanto a proposta de reforma administrativa, essencial para racionalizar gastos e melhorar a produtividade do setor público, dormita em alguma gaveta do Planalto, levantamento do portal Poder 360 indica que, nos últimos 20 anos, o gasto com o funcionalismo federal subiu mais do que o dobro da inflação. Enquanto se aguardava uma proposta de reforma tributária abrangente, o governo acena com uma ideia tímida e ainda tenta ressuscitar uma CPMF repaginada. A abertura comercial e o fim de uma série de desonerações setoriais, da mesma forma, ficaram na promessa. A tentação para burlar o teto de gastos para aumentar despesas, sintoma de impulsos populistas, parece a cada dia maior. Aos poucos, a pregação liberal se transforma apenas em ilusórias palavras ao vento que pouco encontram amparo nas ações efetivas do Planalto.


03 DE AGOSTO DE 2020

CLAUDIA LAITANO

Tios do zap


Em 2020, qualquer um pode comprometer a própria reputação agindo como um tio (ou tia) do zap. Ninguém, nem mesmo um artista famoso, está livre do risco de se transformar nesse personagem folclórico, muitas vezes ingênuo e até bem-intencionado, que acredita em qualquer conteúdo de procedência duvidosa que recebe e ajuda a espalhar mentiras pelas redes sociais.

Na semana passada, a mulher que já foi a cantora mais famosa e influente do mundo ingressou, "like a virgin", na categoria dos tios do zap. Madonna compartilhou com seus 15 milhões de seguidores um vídeo de Stella Immanuel, uma médica que acredita em aliens, espíritos do mal e, claro, nos milagres da cloroquina. O post foi marcado como "informação falsa" pelo Instagram e logo em seguida foi deletado pela própria plataforma. A biografia de Madonna e a nostalgia dos fãs podiam ficar sem essa.

Não há, no Brasil, um jornal com 15 milhões de leitores diários. Isso dá uma ideia da responsabilidade concentrada nas pontas dos dedos de uma celebridade como Madonna. Quando uma informação falsa envolve, como neste caso, saúde pública, o que está em jogo não é apenas a imagem de quem compartilhou o conteúdo ou sua liberdade para se expressar, mas a vida de outras pessoas. Se a liberdade de expressão é um valor pelo qual vale a pena lutar, o interesse público não é menos importante. Assim como não posso exercer minha liberdade de ir e vir ultrapassando o sinal vermelho, não posso compartilhar conteúdos que ameaçam o bem-estar da sociedade sem ser cobrada, de alguma forma, pela minha irresponsabilidade.

Redes sociais são uma forma de comunicação de massa que ninguém sabe exatamente como regular sem se aproximar perigosamente da censura. Madonna, em seu dia de "tia do zap", encontrou uma barreira: o filtro do Instagram que combate informações falsas. Mas quantas vezes vídeos igualmente enganosos circulam no WhatsApp, por exemplo, sem que ninguém possa conter o estrago? 

Iniciativas das próprias plataformas ou mesmo da Justiça para combater as fake news ainda são incapazes de conter ataques covardes como o que o youtuber Felipe Neto sofreu na semana passada. Trata-se de uma nova modalidade de delinquência financiada por dinheiro que não se sabe de onde vem e ampliada por usuários manipulados de forma a passar a mentira adiante sem refletir. Tias e tios do zap menos famosos do que a Madonna, mas igualmente imprudentes, trabalhando de graça para bandidos que sabem muito bem o que (e por que) estão fazendo.

CLAUDIA LAITANO

sábado, 1 de agosto de 2020



01 DE AGOSTO DE 2020
LYA LUFT

Como não falar no assunto

Acho que ninguém mais aguenta falar, ler, ouvir sobre o corona. Ninguém mais - eu pelo menos não - aguenta as opiniões, estudos, pesquisas, experiências, de grandes cientistas e médicos do mundo inteiro.

E poucos se interessam por receitas de charlatães, que vão de rezas, ervas, pílulas e sabe Deus o que mais. Tudo para evitar ou curar a maldita Peste, que mal se acende uma esperancinha num país, e se relaxam as regras, para tudo piorar de novo, orelhas e autoridades alertas - nesse inaudito jogo de vai e vem, abre e fecha, libera e estrangula, nós cada vez mais confusos e pobres e... doentes.

Não porque os cientistas sejam incompetentes, mas porque ninguém sabe direito que vírus é esse, que magias, que bruxarias e diabruras ele faz.

Pessoas aparentemente curadas depois de uma forma leve, de repente vão para o hospital e morrem, ou, vivas, apresentam graves sequelas - algumas permanentes.


A coisa não é brincadeira, nem mania, nem pânico, nem histeria. Nem adianta provar por estatísticas que tal e tal gripe ou diabetes etc. matam mais. Ou que em tal e tal país morrem menos ou mais. Tudo isso é tentativa de autoengano ou óculos cor-de-rosa.


Diminuiu um pouco? Em vez de mil e cem mortes diárias, agora são novecentas, por exemplo? Maravilha, vamos celebrar... Vamos deixar de ser bobos agarrados freneticamente a alguma ilusão.


É sério. Fique em casa se puder. Use máscara sempre se tiver de sair de casa. Desista da bobagem de shopping ou passeios e festinhas e jantares fora, como se vivêssemos em tempos normais. Sim, muuuuito mais gente se cura do que morre. E daí? Vamos arriscar?

Estes não são tempos normais, nem vejo tempos normais tão cedo. Melhor ficar sensato e tranquilo e saudavelmente resignado no melhor sentido. Sem dar murro em parede de concreto. Mais cedo, talvez, poderemos retomar nossas vidinhas... saudáveis.

Acabo de ver que nos Estados Unidos se apresenta a um público respeitável uma senhora que atribui o vírus a "influências do Diabo, ou DNA de alienígenas que nos foi mandado". Pobres de nós.

LYA LUFT


01 DE AGOSTO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

In natura

Fique em casa, fique em casa. Alguém acha que isso não interfere na nossa respiração? Tem muita gente sentindo falta de ar sem ter sido contaminado pela covid-19. Eu mesma, outro dia, acordei no meio da noite me sentindo sufocada. É por isso que as pessoas, contrariando as recomendações das autoridades, fogem para parques, para as margens dos lagos, para qualquer lugar onde haja vegetação, água e muito, muito ar, este ar que não respiramos direito por trás das máscaras, o ar que nos falta diante desta pandemia interminável que bagunçou nossas vidas.

Não estou incentivando rebeliões, nem pense nisso. Usar máscara é incômodo (já nem acho tanto), mas é preciso usar mesmo assim, e saia de casa o mínimo possível, só quando for necessário, mantendo distanciamento das pessoas que encontrar. Continuam sendo essas as regras de comportamento civilizado e preventivo. Enquanto a vacina não chega, paciência, paciência e paciência, nesta ordem.

Mas bendito aquele que conta com uma rota de fuga. Se você tem uma tia que vive numa chácara, visite-a e leve um bolo de presente. Se ela reconhecer você ("como cresceu!"), mude-se para a casa dela, provisoriamente.

Se namora alguém que mora na beira do rio, peça-o em casamento (estou brincando, Pedro). Se você tem um sítio ou um refúgio no meio do mato, fique lá com seus livros e discos, volte a acampar. Possui seis metros quadrados de jardim? Serve. Uma casa na praia? Não humilhe. Eu seria capaz de matar para estar na frente do mar neste exato instante.

Quase invejo o presidente por ouvir tantos "Fora! Fora!". Não consideraria um xingamento, e sim um incentivo amoroso.

Em vez de restaurantes fechados, que se volte a fazer piqueniques sobre a grama. Em vez de lojas de roupas e salões de beleza, consumir flores nativas e lavar nós mesmas o nosso cabelo. Está com saudade das avenidas barulhentas e lotadas? Antes o céu silencioso e lotado de estrelas: as verdadeiras luzes necessárias, longe das luzes produzidas.

Não me faz falta igreja se conto com árvores, dunas, riachos e colinas, que são a representação máxima de Deus, o seu verdadeiro templo, onde ele convoca a todos, de qualquer religião, incluindo os sem religião.

Se você tem um naco de ar livre a seu alcance, e seu trabalho (ou ausência de trabalho) permite, pegue a estrada, se mande. Durma a céu aberto, caminhe sobre o verde, mergulhe e dê muitas braçadas até os pulmões rebentarem de prazer pelo reencontro com sua natureza humana, finalmente em harmonia com a natureza ambiental.

O oceano é vasto. As montanhas são enormes. Há campos a perder de vista. Habitemos de forma mais bem distribuída este planeta que teima em se confinar nas metrópoles infestadas de gente.

MARTHA MEDEIROS


01 DE AGOSTO DE 2020
CLAUDIA TAJES

O João que não era de Deus

Primeiro eu li A Casa - A História da Seita de João de Deus, livro-reportagem do jornalista paulista Chico Felitti sobre a história de João Teixeira de Faria, o sujeito que por décadas se apresentou como o médium João de Deus. E, em cima da fé de seus seguidores, construiu um reino a partir da cidade goiana de Abadiânia. João Teixeira - não vamos usar o nome de Deus aqui para não associá-Lo a quem não merece -, figurinha fácil em programas de auditório, volta e meia operando desenganados em matérias de TV, sempre com uma tesoura ou uma faca de cozinha, as mãos sujas do sangue de um doente já tocando no outro.

O livro de Chico começa nos anos 1970, quando João passou a fazer suas curas - entre aspas. Em 1977, quando se estabeleceu em Abadiânia, João Teixeira já acumulava uma acusação comprovada de homicídio e muitos seguidores em busca de seus autoproclamados poderes para acabar com males físicos e espirituais.

João Teixeira atendia milhares de pessoas tanto em sua sede, a casa Dom Inácio de Loyola, quanto nas filiais que mantinha pelo país e em seus tours pelo Exterior. Enquanto sua fama e sua fortuna aumentavam, rumores sobre os abusos que ele cometia se mantinham milagrosamente escondidos. Desde os anos 1980, mulheres denunciavam os assédios praticados durante as sessões, estupros que João Teixeira apresentava como parte dos processos de cura e purificação. As mulheres chegavam lá frágeis, muitas desesperadas, em busca de uma solução que a Medicina não podia mais garantir. E encontravam um tarado que se dizia médium.

O livro de Chico saiu na mesma época em que o programa Conversa com Bial colocou no ar uma entrevista com algumas das vítimas de João Teixeira. Só então o silêncio começou a ser rompido. Quatro mulheres relataram a Bial os abusos que sofreram em Abadiânia. Apenas a holandesa Zahira Lieneke Mous aceitou mostrar o rosto.

O depoimento dela, no fim das contas, revelou-se o retrato do que mais de 500 mulheres denunciariam nos dias seguintes à exibição do programa.

As escolhidas por João Teixeira eram sempre as mais jovens e bonitas, sem mazelas físicas, acompanhantes de doentes ou com problemas psicológicos. Sozinhas com ele no escritório, eram subjugadas mediante ameaças do tipo "se você não fizer, o câncer do seu marido volta" ou "você tem que fazer para sua mãe não morrer" ou "faça, senão você nunca mais vai ter paz", variações sobre o assunto que as havia levado até lá. De uma de suas filhas ele teria abusado desde que ela tinha dez anos de idade. Com mais de 50, a mulher denunciou o pai.

Era tanto material que o programa de Bial acabou originando a série Em Nome de Deus, seis episódios disponíveis no Globoplay. As entrevistas, conduzidas pela repórter Camila Appel, são duras de ouvir, mas fazem pensar sobre o mercado da fé, esse que promete a cura fácil e acaba contribuindo para o estado de negacionismo em que nos encontramos.

João Teixeira de Faria chegou a manter uma filial da casa Dom Inácio de Loyola aqui no Estado, em Parobé, de onde foi corrido sem maiores explicações, tudo indica que por um caso de abuso contra uma menina. O suposto médium estava preso, condenado a mais de 200 anos de prisão, quando sua defesa conseguiu o recurso da prisão domiciliar por conta da covid-19. Como disse uma de suas vítimas: todas nós estamos presas em casa. Isso não é um castigo para ele. A Casa - A História da Seita de João de Deus e Em Nome de Deus. Leia o livro, veja a série. E abra o olho.

CLAUDIA TAJES


01 DE AGOSTO DE 2020
LEANDRO KARNAL

O NOVO NORMAL

Ana Paula leu a frase em Euclides da Cunha: "A vida normalizara-se naquela anormalidade". Ela baixou o tablet onde estava lendo Os Sertões e ficou pensativa. Não era a tragédia de Canudos que a intrigava, nem a destreza narrativa do autor fluminense. Ao retirar os olhos da leitura, ela viu o marido no sofá, de pijama e coberto por alguns pacotes de salgadinhos semiconsumidos.

O termo pijama era um exagero retórico. Era uma camiseta esgarçada e lavada centenas de vezes. O calção fora, originalmente, parte de um conjunto de dormir. Agora, era uma peça perfurada e de cor duvidosa, com algumas manchas indeléveis. O conjunto era deplorável, quadro agravado pelo abdômen protuso daquele que Ana Paula, um dia, tinha chamado "meu gato de abdômen definido".

Ela pensou sobre o novo normal do companheiro. Tinha começado na quarentena de coronavírus. Trabalhador incansável e com uma cultura familiar workaholic, Rodolfo ficou muito perdido no início do isolamento. Andava, inquieto, de um lado para outro da sala. A pandemia quebrara anos do hábito de se levantar cedo e ir para o escritório antes de todos os outros advogados. Começou a analisar os processos nos mesmos horários, arrumado e até com gravata. Fez um home office exemplar. Postou fotos fazendo atividades físicas, estudando italiano, cozinhando e limpando a casa. Suas redes sociais receberam milhares de likes! Era um marido exemplar e cidadão zeloso. As duas primeiras semanas do "novo normal" incrementaram o conhecimento, o companheirismo e até a vida lúdica-erótica do jovem casal.

Com o tempo passando, o efeito "dia da marmota" foi-se acentuando. Dos pães sovados com farinha orgânica de abril de 2020, pouco restou. Despontou a comida pedida da rua, prática, gostosa e opulenta em calorias. Para que colocar blazer se o escritório fazia reuniões apenas pelo áudio? Ele começou a trocar, de forma sutil, o dia pela noite. Sem a luz, tudo era mais silencioso. Rodolfo perdeu interesse em abastecer redes sociais. Metade do tempo acordado, ficava vendo séries a esmo na TV a cabo. A outra metade era consumida com processos. 

Nos dois momentos, pacotes ultraprocessados de algo com sabor bacon eram amolecidos com litros de refrigerante efervescente. "Pelo menos, eu não bebo", defendia-se quando a mulher insistia em algo mais saudável. O marido elegante dava lugar a outro ser. Em junho, a proporção foi restabelecida. Não era mais só a barriga volumosa: braços, coxas e papada harmonizaram-se aptas ao pincel de Fernando Botero.

Ela evitava excesso de críticas. "Era um momento atípico", pensava para si. O mundo se debatia em trágica agonia e ela ainda infernizaria a vida daquele homem em casa? Ana Paula assistiu, resignada, ao marido capitular diante de qualquer demanda estética - "Pelo menos, ele não bebe", ela ecoava o mantra para encontrar algum consolo no quadro trágico que se repetia diariamente.

O dia chegou! O escritório reabriu! Rodolfo saiu de casa cedo. O terno ficara apertadíssimo. O último botão da camisa não podia ser abotoado. Todavia, Ana Paula deu um beijo sincero naquele homem que, enfim, voltaria ao mundo do olhar alheio. A alegria da esposa durou até o crepúsculo.

Rodolfo voltou com sorriso radioso. Os sócios tinham concordado! As análises de processos e os pareceres jurídicos despachados de casa eram extraordinários. Ele tinha demonstrado uma capacidade de análise que fez muita diferença para as demandas da firma. Não foi difícil negociar: o rotundo advogado poderia continuar em casa. Ana Paula controlou um grito de horror.

Ela havia suportado as intermináveis semanas da quarentena porque eram um Purgatório, jamais um Inferno. As almas imperfeitas que sofrem no primeiro lugar sabem que é passageiro. Tudo incomoda, porém haverá um upgrade para o Paraíso. O domínio do demônio é terrível porque eterno e, entrando nele, deixa-se "toda a esperança", como a culta esposa tinha lido em Dante Alighieri. Ela fora puxada para um gorduroso, monótono, desagradável e repetitivo tártaro profundo. Houve choro e ranger de dentes. Era como ser reescravizada no entardecer do domingo da Lei Áurea.

Rodolfo pouco percebera a náusea horrorizada de Ana Paula. Comemorou pedindo três pizzas. O mesmo entregador de sempre trouxe os discos solicitados. Era de poucas letras, mas de sorriso largo. Quase bonito, cheirava a limpeza. Rodolfo, grosseiro, havia classificado o rapaz como um jumento muitas vezes. Ana Paula teve um breve diálogo com o rapaz na portaria. Pediu ao porteiro que entregasse o jantar calórico no apartamento. Ao receber a encomenda e estranhando a falta de sua mulher, o advogado foi até a sacada e a viu na garupa da moto do entregador. Agarrada e feliz ao jovem, Ana Paula sorria e pensava: "Este sairá todos os dias para trabalhar, mesmo na epidemia". Ela chegara à mesma conclusão de Inês Pereira na obra de Gil Vicente. É preciso ter esperança com cada novo normal da vida.

LEANDRO KARNAL



01 DE AGOSTO DE 2020
FRANCISCO MARSHALL

MARCHA, SOLDADO


...cabeça de papel. Todos lembramos dessa música marcial de imagens confusas, e que Francisco deu sinal. Ora não apenas a bandeira nacional prende fogo, mas a pátria toda, tomada por chamas letais, o coronavírus e a ignorância fascista. Enquanto a nação arde e a estupidez campeia, eis que soam trombetas e decretos com o teor daquela cantiga, e, onde cabiam providências lúcidas, o que se ouve é um tenebroso marcha, soldado com toada fúnebre. Francisco (o Buarque, e outros) deu sinal, mas parte da nação optou pelas tochas do ódio e a dura percussão de marchas militares. Eis a receita miserável com que o Brasil hoje encara seus desafios, mascara seus problemas e sufoca as soluções necessárias. O preço desse desatino é pago com mortes, desalento e decadência, enquanto a bandeira nacional é raptada para camuflar zumbis e ocultar o roubo do destino e da maior riqueza desta nação: as vidas de brasileiras e brasileiros.

Caso o aluno apresente problemas de aprendizagem, antes de se apurarem causas, seja subnutrição, falta de logística ou desafios metodológicos, o marcha, soldado provê solução simples: marchem, todos, para uma escola cívico-militar, e a disciplina e ritos cívicos tudo resolverão, com ordem e progresso. Vale o mesmo para o problema central do Brasil hoje, a maior crise sanitária de nossa história. Para que ciência, esclarecimento, comunicação, cooperação e eficiência em políticas de saúde? O marcha, soldado resolve tudo. Controlam-se as informações e atitudes, suprime-se o valor do conhecimento em favor da arrogância, e o inimigo está dominado, basta declarar vitória. Não faltará soldado para acudir, nesta hora em que todos ganham credencial instantânea e plena em qualquer ofício, e milhares de empregos públicos vantajosos de Norte a Sul.

Chega-se, então, à face nada infantil da cantiga. Para onde marcham os soldados hoje? Para onde querem levar a nação em chamas? Recentemente, autoridades militares desdenharam, ofendidas, o alerta de juiz do Supremo, sobre sua responsabilidade no genocídio em curso. Crescem as evidências de que negligência, erros políticos e culturais, improbidade e outros delitos estão relacionados à morte de milhares de pessoas; isto é genocídio: mortes em massa, por ação política. Enquanto isso, não cede a marcha em busca de contracheques engordados, usurpando-se posições que caberiam a especialistas. Generais tornados soldados de um tenente proscrito, para onde marchais? O amor às vantagens e a ambição de poder são maiores que a honra e o valor cívico?

Há um ponto em que poderes militar e religioso se encontram, e não é apenas na ausência de luzes. Na psicologia das massas, há carência de autoridade patriarcal, disciplinadora, e, por isso, atribui-se poder mágico ao Estado repressor ou à cura milagreira. Eis a base do atual governo. Pela ótica do Estado e da nação, todavia, essa ilusão é desprezível, mero acidente da demagogia, jamais critério para a função pública.

Marcha, soldado, para seu devido lugar. Queremos sobreviver.

FRANCISCO MARSHALL


01 DE AGOSTO DE 2020

COM A PALAVRA

"DE FORMA REALISTA, PRECISAMOS TER ESPERANÇA"

Uma das principais vozes da ciência e no enfrentamento ao coronavírus no Brasil, Margareth Dalcolmo vem traduzindo o rigor dos termos técnicos para o público em suas análises na Globonews e no jornal O Globo. Observadora perspicaz, ela previu, em março, o fenômeno do "rejuvenescimento" da pandemia no Brasil, ao contrário do que se observou em países como a Itália, onde os idosos foram as grandes vítimas.

Depois de padecer de uma forma moderada da covid-19, a médica conta que temeu sentir falta de ar e que passou a haver um entendimento recíproco entre ela e os pacientes que nunca deixou de atender. Nesta entrevista, ela fala sobre a rapidez no desenvolvimento de vacinas, condena a propaganda "lamentável" de drogas sem comprovação de eficácia por parte de figuras públicas e destaca o reconhecimento dos cientistas do país.

- Acredite em nós, acredite nos pesquisadores, acredite nos médicos que têm credibilidade quanto ao que estão dizendo - pede Margareth.

DESENVOLVER UMA VACINA É UM PROJETO DEMORADO. AINDA QUE EXISTA UM ESFORÇO MUNDIAL, COM RESULTADOS PROMISSORES ATÉ AQUI, A SENHORA ACREDITA QUE ESTEJA HAVENDO UM EXCESSO DE OTIMISMO PRECIPITADO?

Nós já começamos a produção da vacina no Brasil. É preciso deixar claro que a produção que está sendo feita agora, em todos os lugares do mundo, é a chamada produção sob risco porque estamos diante de uma tragédia humanitária. O Brasil deu um passo muito significativo na negociação de testagem em fase 3 das vacinas chinesa, da Sinovac, e a da AstraZeneca com a Universidade de Oxford, que estamos fazendo pela Fiocruz. Nunca houve, na história, uma vacina aprovada em tão pouco tempo. Estamos falando de uma doença que conhecemos há sete meses.

A vacina mais rápida que já houve, de influenza, levou quatro anos para ser liberada. Iniciamos a produção, paralelamente ao estudo de fase 3. Assumiremos, sob risco, dois lotes de 15 milhões de doses cada. O que quer dizer isso? Se a vacina for ruim, vai tudo fora. Existe sempre um risco. Mas tudo indica que esse risco é muito pequeno porque a publicação dos estudos de fase 1 e 2 mostrou um resultado de muita esperança. Existe um cronograma muito bem ajustado. É impossível ser mais rápido. Pensar em vacina para 2020 não é realista. Temos 13 vacinas em fases clínicas já iniciadas no mundo. Em um ano, provavelmente, teremos resultados de eficácia, segurança e efetividade. Quando falo efetividade, estou falando de mundo real, de gente vacinada e protegida.

O momento é promissor. Não falaria nem em excesso, nem em falta de otimismo; falaria em realismo. De forma realista, nós precisamos ter, nós todos, médicos, cientistas, opinião pública, todo mundo precisa ter um laivo de esperança no meio dessa tragédia, com tantas mortes, com uma doença sem tratamento nenhum. Nenhum fármaco, até o momento, sendo eficaz para tratamento, muito menos ainda para prevenção. E, teoricamente, também quero deixar isso registrado, sabemos que, para as doenças virais, a grande arma são as vacinas, e não os medicamentos. Não há dúvida.

O QUE A SENHORA ACHA DO PRESIDENTE JAIR BOLSONARO FAZENDO PROPAGANDA OSTENSIVA DA HIDROXICLOROQUINA E DE OUTROS MEDICAMENTOS SEM EFICÁCIA COMPROVADA PELA CIÊNCIA CONTRA A COVID-19, COMO A IVERMECTINA?

Acho lamentável, muito constrangedor, profundamente constrangedor. Acabo de ler (a entrevista foi concedida na manhã de 22 de julho) que o presidente testou positivo pela terceira vez. Isso prova, no próprio Bolsonaro - a quem eu desejo que tenha a melhor evolução, naturalmente -, que ele vai ficar bom, e apesar de ter usado esse remédio que não tem ação alguma (no dia 25 o presidente testou negativo). Eu já disse algumas vezes e estou dizendo mais uma: Bolsonaro ficará bom, mas a prova de que isso não funciona, de que não é capaz de fazer a eliminação viral, está nele mesmo.

Considero a cloroquina uma opção eliminada. A cloroquina foi o fármaco da esperança. E foi mesmo, no início, na China ainda. Depois começaram a ser publicados os estudos observacionais, que não podem ser utilizados como prova de validade para adoção de medicamentos em larga escala. Para isso se exigem ensaios clínicos randomizados e controlados. A partir daí, vários ensaios clínicos randomizados foram finalizados e, em nenhum deles, foi possível encontrar benefícios da cloroquina ou da hidroxicloroquina em qualquer fase da doença. A hidroxicloroquina não tem ação provada e, portanto, consideramos temerários esse discurso e essa utilização de maneira mais política do que como uma medida sanitária defensável.

E QUANTO AOS OUTROS REMÉDIOS?

A situação é pior. A história da ivermectina é mais lamentável ainda. Ficamos muito tristes quando vemos prefeituras fazendo política com isso, utilizando isso de maneira politizada, a meu juízo demagógica. A ivermectina, que é um vermífugo, foi estudada em um processo de remodelamento de fármacos para bloquear a replicação viral. In vitro (em laboratório), em uma dose 10 vezes maior do que esta que é usada, ela teve alguma ação. Portanto, consideramos a utilização atual não só inadequada como indefensável. Se fôssemos utilizar a dose que teve ação in vitro, seria altamente tóxica. Como as pessoas que estão usando e nem sabem disso, acabam tomando a dose padrão, para tratar piolho, verme, sarna. É um fármaco muito conhecido, mas não tem ação contra a covid-19. É um uso inadequado que não tem nenhuma defesa.

HÁ UM ESTUDO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO (UFPE) COMEÇANDO EM BREVE, COM UM BRAÇO NA SANTA CASA DE PORTO ALEGRE, COM IVERMECTINA. ACREDITO QUE A SENHORA DEVE TER OUVIDO FALAR.

Sim. Vamos esperar os resultados para ver se tem alguma ação. Se o objetivo é verificar se, em pacientes sem gravidade o medicamento impede que o quadro se agrave... É muito difícil essa análise, inclusive. Estamos falando de uma doença que é leve em 80% a 85% das formas. Então, as pessoas vão melhorar de qualquer maneira. O problema da covid-19 é que se trata de uma doença que demanda cuidados, independentemente do grau de gravidade, porque é uma doença longa. Não é uma doença como uma virose qualquer por outros coronavírus, que são nossos velhos conhecidos, responsáveis por grande parte dos resfriados que temos ao longo do ano.

O Sars-CoV-2 é um vírus que perdura no corpo, mesmo com sintomas leves. Exige o uso de medicação sintomática, distanciamento da família, cuidados pessoais. Em casos moderados, até o uso de oxigênio em baixo fluxo. Por isso que venho defendendo a utilização desse investimento enorme que foi feito em hospitais de campanha para albergar pacientes com formas leves e moderadas que não tenham condições de ficar em suas casas de maneira adequada. A epidemia diminuiu nas classes altas porque as pessoas fizeram o isolamento social e cresce nas periferias e comunidades mais carentes.

EM MARÇO, A SENHORA PREVIU O REJUVENESCIMENTO DA PANDEMIA NO BRASIL. QUE AVALIAÇÃO FAZ AGORA?

Eu estava certa, né? Houve um momento em que, no Rio de Janeiro, por exemplo, havia 50% dos leitos hospitalares ocupados por pessoas com menos de 50 anos. Por que a epidemia rejuvenesceu? A letalidade, melhor dizendo, ou seja, mortes sobre o número de casos, foi maior em pessoas acima de 75 anos com comorbidades, na maior parte dos locais. Mas a morbidade, ou seja, casos internados, pacientes doentes, se distribuiu entre gente mais jovem. A nossa pirâmide de população não tem a proporção de idosos como a da Itália ou a da Espanha. Ela é menor. E, mais do que isso, a doença toma um caráter social e econômico, e a população que vive nas periferias é, sabidamente, de menor idade. É aquela que sai para trabalhar e, portanto, fica mais exposta à contaminação e não tem condições adequadas de fazer o distanciamento social. Hoje é o que estamos vendo em todas as cidades.

FALA-SE QUE A PANDEMIA ESCANCAROU A DESIGUALDADE SOCIAL DO BRASIL. A SENHORA CONCORDA OU ACREDITA QUE TUDO JÁ ERA VISÍVEL PARA QUEM ESTIVESSE DISPOSTO A ENXERGAR?

Na primeira entrevista que dei, publicada em 16 de março, eu disse: a epidemia vai colocar a nu a absolutamente obscena desigualdade social do Brasil. E colocou. A concentração de renda é tão iníqua que os programas de suplementação social que havia não resolvem. A epidemia também trouxe duas coisas novas. Primeiro: falamos várias vezes que não cabia só ao governo comparecer para amenizar essa desigualdade, mas careceria também de um robusto comparecimento da iniciativa privada. É a primeira vez, pelo menos na minha geração, que vejo a iniciativa privada tão presente. Bancos doando testes diagnósticos, respiradores.

PORTO ALEGRE ASSISTIU À CONSTRUÇÃO DE UM HOSPITAL EM 30 DIAS.

A Rede D?Or compareceu fazendo hospitais de campanha, e estes são os que têm os melhores resultados, inclusive quando comparados aos construídos por redes contratadas pelas companhias da saúde. Vimos fornecimento de insumos, de equipamentos de proteção individual. E, agora, empresas privadas financiando estudos de vacina. Portanto, estamos vendo uma sensibilização, e quero ser otimista ao dizer isso: que seja uma coisa permanente, e não gestos esporádicos que, ao passar a pandemia, deixem de existir.

O Brasil precisa que essas iniciativas sejam mantidas para amenizar essa desigualdade. A segunda coisa que considero também muito positiva é o reconhecimento de que o país tem uma ciência nacional. Embora tenhamos perdido muitos cérebros preciosos, que foram embora do país pelo desestímulo e pela falta de condições adequadas dos últimos anos, tivemos um grande reconhecimento. Vocês estão vendo aí a Fiocruz fabricando milhões de testes RT-PCR, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade de São Paulo (USP) fabricando respiradores a baixo custo. A comunidade científica ganhou muito reconhecimento neste período, e isso funciona como um estímulo grande para que continuemos com o nosso compromisso de produzir conhecimento aplicável a nossa população.

VI UMA IMAGEM CURIOSA NAS REDES SOCIAIS: UM CALENDÁRIO COM OS MESES DE MARÇO A NOVEMBRO EMBARALHADOS, SOB A PALAVRA QUARENTENA. A SALVO, APENAS JANEIRO, FEVEREIRO E DEZEMBRO. FICAREMOS TRANCADOS ATÉ O FINAL DO ANO, COM ATIVIDADES ECONÔMICAS E SOCIAIS DIMINUÍDAS E MOVIMENTAÇÃO RESTRITA?

Acho que teremos ainda, durante o segundo semestre, esse fluxo de fechamento e abertura de maneira muito dinâmica. Todas as cidades e prefeituras têm de estar preparadas para isso. Considero ainda profundamente precoces, neste momento, a abertura de escolas e as atividades coletivas. Os estudos que estão saindo mostram que não dá para abrir escola de criança. As condições logísticas são muito complexas. O padrão ouro é testar todo mundo. Quem vai arcar com esse custo? E tem que ser o RT-PCR, que não é feito uma vez só.

Quem vai fazer isso, quem vai arcar com esse custo nas escolas? Tem de ser feito, idealmente, a cada semana. Imagina abrir uma escola de crianças ou adolescentes... Os adolescentes são muito mais propagadores do que as crianças pequenas. É um risco. Eles vão voltar para as suas casas, onde estão pais, avós, avôs, pessoas idosas que são altamente suscetíveis, e eles podem transmitir a doença estando assintomáticos. Nós - e estou falando nós porque já tive a doença -, começamos a transmitir antes de ter o primeiro sintoma. É a fase da viremia, quando ela está alta e nós estamos liberando o vírus e nem sabemos. A doença é perigosa por isso.

LI UM DEPOIMENTO EM QUE A SENHORA DIZIA, QUANDO ESTAVA COM A COVID-19, QUE NÃO DORMIA DIREITO ESPERANDO A FALTA DE AR. COMO FOI, PARA A MÉDICA ESPECIALISTA, ENFRENTAR ESSA DOENÇA?

Não tive forma grave de covid-19, foi moderada. E o fato de ser médica aumenta a inquietude, aumenta a angústia e dá medo. É uma doença que dá medo porque é bifásica. Tem essa fase virêmica inicial, nos primeiros dias, e, após a primeira semana, entra na chamada fase inflamatória, que é quando liberamos enorme quantidade de citocinas, tem até o termo "tempestade de citocinas", que é quando o nosso organismo está brigando com ele mesmo: quem vai ganhar, o nosso sistema imune ou as citocinas tóxicas liberadas pelo corpo?

Nesse momento é que tememos entrar em insuficiência respiratória aguda. Não quer dizer que estivesse com falta de ar, mas passei umas duas noites em que acordava com medo de que ela chegasse. Quando tratamos nossos pacientes, temos de entender que eles têm medo. Eles estão em casa, sozinhos, porque é uma doença com a qual você fica completamente só, é você e você mesmo, e se você tem um médico ao qual pode recorrer e dizer "doutor, eu estou com medo", o médico tem de estar aberto a entender, orientar, conversar. A tecnologia tem ajudado muito, fazemos consultas online. Vejo o rosto deles, eles veem o rosto do médico. Isso faz muita diferença.

A SUA INTERAÇÃO COM OS PACIENTES CONTAMINADOS MUDOU DEPOIS QUE TEVE A ENFERMIDADE?

Tratei tanta gente desde o início da epidemia... Tinha um entendimento grande da doença. Quando fiquei doente, continuei fazendo as consultas online, e eles sabiam que eu estava doente, até porque isso se tornou público, foi noticiado. Infelizmente, não foi uma coisa privada. Ficava muito cansada, falava com muito esforço e tive um comprometimento muscular bem importante, mas fazia uma consulta ou outra com meus pacientes. Em um momento melhor, ligava, conversava com eles. Havia um entendimento recíproco.

MINHA IMPRESSÃO É DE QUE GRANDE PARTE DA POPULAÇÃO ADERIU RAPIDAMENTE AO USO DA MÁSCARA, MAS ME ESPANTAM AS MUITAS MANEIRAS DE UTILIZÁ-LA DE FORMA ERRADA: TOCANDO-A O TEMPO TODO, DESCENDO-A PARA O QUEIXOU OU O PESCOÇO. A SENHORA TAMBÉM TEM ESSA IMPRESSÃO?

A gente precisa continuar nessa saga de educar as pessoas, orientá-las e fazê-las entender que, quando elas põem uma máscara de maneira correta no rosto, estão não só se protegendo como protegendo aquelas pessoas queridas com as quais convivem. A máscara passou a ser, com essa epidemia, uma indumentária, e continuará fazendo parte da nossa indumentária por muito tempo ainda. Não dá para vir da rua e ter contato com o avô ou a avó sem máscara. Isso é falta de solidariedade. O uso da máscara é um gesto solidário.

Não é só para se proteger, é para proteger os outros. Quando dou um espirro, estou liberando 200 milhões de partículas virais. É uma doença transmitida pela fala. Quando nós falamos, conversamos, liberamos micropartículas transmissoras. Distância de um metro, um metro e meio é o que recomendamos em todas as relações. Muita gente tem me perguntado: "Não dá ainda para fazer uma festinha?". Não, não dá para fazer festinha nem de aniversário de um ano. Não dá para fazer casamento, não dá para fazer churrasco. Churrasco ao ar livre, dá para fazer? Estou falando com os gaúchos, né? Dá para fazer churrasco ao ar livre, mas com pouquinha gente, entendeu? Porque ninguém fica de máscara para comer. Não pode ser um grupinho maior do que uma pequena família, senão vocês estarão sob risco.

A SENHORA TEM 63 ANOS, O QUE SERIA O SEU ÚNICO FATOR DE RISCO, E ESTÁ NA LINHA DE FRENTE. PENSOU EM SE RECOLHER?

No começo da epidemia, internei muitos pacientes, mas evitei entrar em centros de terapia intensiva, onde a carga viral é muito alta. Eu e muitos colegas acima de 60 contávamos com a cooperação dos colegas mais jovens, valorosos, por quem sinto enorme gratidão. E a tecnologia ajuda muito. Controlava todos os pacientes, e os que não estavam entubados ficavam com seus celulares para que pudessem falar com a família e amenizar a solidão. Depois que o paciente entra no hospital e aquela porta se fecha, acabou, ele não vê mais ninguém. Se morrer, vai morrer sem ver ninguém da família nunca mais. Aos meus pacientes não entubados, eu dizia quem era o médico que passaria lá para vê-lo. Havia interação. E eu via os pacientes que estavam fora da terapia intensiva. Agora está mais tranquilo, tenho muito menos pacientes em terapia intensiva e já passei pela doença.

MAS, ANTES DE ADOECER, A SENHORA NEM PENSOU EM FICAR EM CASA, LONGE DO TRABALHO?

Não. Eu não tinha nada. Não só não me recolhi como estimulei que outros colegas de grande experiência também não o fizessem. Faço pesquisa clínica e tenho doentes que estão, neste momento, em tratamento de tuberculose. Meu ambiente de trabalho é muito bom, com muita biossegurança. Tínhamos equipamentos adequados e continuamos a atender até hoje. Nunca paramos.

QUE CONSELHO A SENHORA DARIA A ESSA ALTURA DOS ACONTECIMENTOS?

Acredite em nós, acredite nos pesquisadores, acredite nos médicos que têm credibilidade quanto ao que estão dizendo. Não acredite em remédios que não funcionam. Usem máscara como gesto de solidariedade. Cuidem dos seus queridos.

LARISSA ROSO


01 DE AGOSTO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

INSÔNIA CRÔNICA

Tanta gente toma remédio para dormir que o sono espontâneo virou extravagância. Na vida urbana, vivemos tão atormentados por compromissos e preocupações que até me surpreende nossa capacidade de fechar os olhos e pegar no sono, à noite. Estudos multinacionais mostram que a prevalência de insônia crônica entre os adultos varia de 3,9% a 22%, a depender da definição adotada. Quando usamos a classificação ICSD-3, a prevalência oscila entre 9% e 12%. A ICSD-3 define como insônia crônica a condição que se instala quando surge um ou mais dos seguintes problemas, pelo menos três vezes por semana, por pelo menos três meses:

1) dificuldade para iniciar o sono

2) dificuldade para mantê-lo

3) acordar mais cedo do que o desejado

4) resistência para deitar num horário razoável

5) dificuldade para dormir sem um parente ou um cuidador

Quando a duração desses transtornos é menor do que três meses, a insônia é classificada como de curta duração. A primeira recomendação para os insones - crônicos ou não - é adotar o conjunto de medidas conhecido como higiene do sono. Entre outras:

1) não tomar café, bebidas alcoólicas, refrigerantes, ou energéticos, pelo menos seis horas antes de deitar

2) não assistir à TV na cama

3) não deitar com o estômago repleto

4) em vez de rolar na cama, ler com a luz indireta de um abajur

5) abandonar a vida sedentária

Insônia não é mera inconveniência; é um distúrbio associado ao aumento do risco de morte, doença cardiovascular, depressão, obesidade, dislipidemia, hipertensão, fadiga e ansiedade. Nos quadros crônicos, está associada a acidentes automobilísticos, domésticos e no trabalho.

O principal tratamento não farmacológico é a terapia cognitivo-comportamental, que envolve: higiene do sono, técnicas de relaxamento e controle dos estímulos que mantêm a vigília.

Dezenas de estudos mostram que ela é superior ao uso de medicamentos, tanto na eficácia como na duração dos efeitos benéficos. Na literatura médica, a melhora está documentada mesmo na presença de dores crônicas, artrites, enxaqueca, depressão, estresse pós-traumático, câncer, doenças pulmonares obstrutivo-crônicas e esclerose múltipla.

Os entraves são os custos, a falta de profissionais treinados e o acesso pelo sistema público ou por meio dos planos de saúde. Para contorná-los, surgiram as terapias em grupo e as plataformas online que trazem os ensinamentos básicos, passo a passo, em programas de seis a oito semanas.

O mais eficiente dos componentes da terapia cognitivo-comportamental é a restrição de sono, estratégia através da qual o tempo de permanecer na cama é reduzido. A privação aumenta a pressão para dormir na noite seguinte.

Há muito, a atividade física é recomendada como parte da higiene do sono. Até 2014, as recomendações eram as de que os exercícios deveriam ser evitados no período que antecede a hora de deitar, porque alterariam o ritmo circadiano do organismo, aumentariam a temperatura corpórea e estimulariam a vigília.

Neste ano, foi publicado um estudo com mais de mil participantes de 23 a 60 anos. Não houve diferença na avaliação das características do sono entre aqueles que faziam, ou não, exercícios de intensidade moderada ou vigorosa à noite, menos de quatro horas antes de deitar. Com base nessa e em outras observações, os especialistas consideram não haver razão para contraindicar a prática de exercícios à noite.

Em estudos randomizados, ioga, tai chi, meditação e técnicas de relaxamento demonstraram melhorar a qualidade subjetiva e a duração do sono. No entanto, a falta de uniformidade na escolha dos participantes, nas intervenções e nos critérios de avaliação, confundem a interpretação dos resultados e a indicação dessas técnicas como tratamento exclusivo.

E os remédios?

Devem ser prescritos apenas nos casos refratários, em que os demais recursos foram esgotados. Os efeitos colaterais não são alarmantes como imaginávamos no passado, mas estão longe de ser desprezíveis. O impacto do uso prolongado na cognição e na incidência de quadros demenciais não está claro. O ideal é que o uso seja intermitente, reavaliado a cada três ou seis meses, no máximo.

DRAUZIO VARELLA


01 DE AGOSTO DE 2020
MONJA COEN

ZEN

Zen tem a haver com cuidar, com querência. Zen tem a ver com educar nossos desejos. Zen tem a ver com transformar. Zen tem a ver com saber. Zen tem a ver com compaixão. Conhecer a si mesmo é o princípio básico do Zen.

Sentar em silêncio, adotar uma postura alinhada e observar a própria mente, incessante e luminosa. Eletricidade pura nas conexões neurais.

Há pensamentos e não pensamentos. Há memórias e momentos presentes. Há nostalgia e ansiedade. Há sensações, percepções, sentimentos - tudo são sinapses neurais. Conhecer o funcionamento é o princípio para que possamos escolher o que estimular e o que desestimular. Podemos educar nossos desejos, orientar nossas vontades. Para o bem - não só pessoal, mas social.

Não é fácil. Treinamento Zen é treinar a si mesmo. Difícil. Exigente de esforço, paciência, diligência, resiliência. Conhecer em profundidade o que é o mais íntimo de nós mesmos - o corpomente. Unidos, indivisíveis.

Você se conhece? Sabe como funciona seu corpomente, sua mentecorpo? Percebe estarmos todos interligados, interconectados com tudo que é, foi e será? Poderia separar-se da totalidade da vida?

Perguntas e perguntas. Necessárias, importantes. Elas devem ser feitas, estimuladas. Pensar, refletir, filosofar. O que é a vida? Por que nascemos onde nascemos? Por que estamos passando por esta pandemia? Por que neste momento os insetos também estão vindo nessa direção? Que mal fizemos? Que compromisso rompemos com nossa mãe, nossa casa, nosso corpo comum, nosso planeta Terra?

O Rio Grande do sul está sofrendo muitas mortes e muita contaminação. Faltam leitos. Cuidado!

"Ninguém manda em mim" é uma frase boa, forte e perigosa. A independência perde muito para a interdependência. Ninguém está separado, independente.

Reflita, observe em profundidade, perceba.

Intersomos. Coexistimos. Nada existe por si só. Ninguém morre sozinho. Cada morte leva consigo muitas mortes. Não de vinganças e retaliações - isso é para os tolos.

Cada pessoa se relaciona com muitas outras pessoas. Uma trama, uma teia de relações. Com seres humanos, plantas, animais, objetos, situações. Uma morte afeta muitas vidas, e todas um tanto morrem com quem morreu. Mas também a pessoa que morre viverá naqueles que conheceu, amou, cuidou.

Cuidado! Estamos interligados a tudo e a todos, somos mantidos vivos por todas as outras formas de vida. Cuidar da Terra e de todos os seres com o mesmo respeito que cuidados de nossos braços agora sem abraços, nossos olhos, agora visíveis acima das máscaras de proteção. Cuidar do solo e do ar, das águas e das matas, das plantações e do gado.

Cuidado! Se os ventos não os desviarem, os gafanhotos podem chegar e acabar com os pastos e as plantações. Seriam as pragas do passado longínquo castigando a humanidade? Oremos com os inseticidas preparados.

Será suficiente e adequado? Protejam-se. Da covid-19, do contato, das aglomerações.

Queremos transgredir. Ninguém manda em mim. Festas e contaminações. Compras - sou livre para ir e vir. Cuidado! Somos livres para escolher ficar em casa, manter distanciamento social, usar máscaras de forma adequada, proteger as matas e as plantações, os pastos e evitar contaminações. Contaminação de raiva, de rancor. Contaminação de medo e ansiedade. Contaminação de fake news, de falsa liberdade que pode levar à morte e a dor. Contaminação da ganância, da propaganda nefasta.

Não está na hora de voltar às aulas, nem de festejar. Cuidado cuida de cuida. Mãos em prece

MONJA COEN



01 DE AGOSTO DE 2020
J.J. CAMARGO

QUANDO A INÉRCIA É UMA ESCOLHA

Conquistar o afeto de uma criança é mais simples, porque a alma infantil está mais disponível às manifestações carinhosas de quem se aproxima. Quando o alvo da conquista afetiva é um adulto, dá muito mais trabalho porque, por ter vivido mais, este está potencialmente contaminado pela desconfiança. Como toda desconfiança é amarga e triste, sempre me encantou a descoberta de adultos que, tendo vivido longe da hipocrisia da chamada civilização moderna, se conservaram irretocavelmente puros.

E muito deprime ver que essa pureza, tornando-os mais vulneráveis, abriu a porta aos aproveitadores da inocência.

Numa tarde, pouco inspirado, atendi no consultório a um nordestino que tinha sido encaminhado para tentar um transplante que lhe substituísse os pulmões destruídos por inalação de pó de pedra durante os 13 anos em que trabalhara como perfurador de poços artesianos. Quando, estupidamente, lhe perguntei se a experiência prévia de perder três irmãos da mesma doença não lhe motivara a fazer outra coisa, ele respondeu:

- Bem se vê que o senhor não sabe nada do sertão. Lá a gente tem que escolher entre a fome e a falta de ar, e a gente acaba escolhendo a falta de ar, porque a fome mata mais rápido!

Meu desconforto foi tão grande, e tão persistente, que resolvi mergulhar nesse mundo em busca de redenção - e descobri que Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é o caminho mais curto para entender um pouco da vida miserável desses nossos concidadãos.

Claro que a maneira mais eficiente de se manter afastado de um drama real é tratá-lo como se fosse ficção. Mas quem quiser saber um pouco mais só precisa acompanhar a odisseia do Fabiano e sua pequena família, em obstinada peregrinação pela inclemência do nordeste, cumprindo o mais primitivo dos instintos, a busca de comida para a sobrevivência. E ainda ter tempo de se encantar com o afeto que dedicavam à Baleia, uma cadelinha de estimação, parceira indefectível na via crucis daquela família. O objetivo desse mergulho numa realidade que desconhecemos é resgatar algum resíduo de sensibilidade que possa ter resistido às estratégias mais insensíveis, de como vencer na vida a qualquer preço, ensinadas em manuais de autoajuda, entre os quais o Seja Foda! é o maior sucesso de vendas.

Se você, que me acompanhou até aqui, ainda não se sentiu de nenhuma maneira sensibilizado, vamos fazer uma última tentativa: entre no YouTube e ouça durante 5min01s o relato de Leonardo Bigio, descrevendo a morte da Baleia, numa eutanásia executada por Fabiano quando suspeitou de que o pobre animal estava com hidrofobia. Chorar ao ouvir é a nossa expectativa básica.

Claro que sempre haverá a possibilidade de que esse relato também não lhe comova, e encerramos o experimento.

E, por favor, sem nenhuma crítica, siga em frente com a indiferença que lhe trouxe até aqui.

Existem, e merecem todo respeito, aqueles que optaram por cuidar apenas das suas próprias vidas. Mesmo com a evidência do quanto monótono e solitário deve ser o ocaso, de quem escolheu envelhecer com os olhos secos.

J.J. CAMARGO



01 DE AGOSTO DE 2020
DAVID COIMBRA

Por que quase abandonei Spartacus

Quase deixei de assistir à série Spartacus por causa do personagem que "devia" ser Júlio César. Entendo que se trata de uma série de ficção baseada em fatos reais e, por isso, os autores tomam certas liberdades, mas o exagero no apelo dramático dissolve a verossimilhança. E nem precisava! As histórias de Roma Antiga já são por si dramáticas, cheias de episódios de sexo e sangue. Basta a realidade para embasbacar o espectador do século 21.

Mas o Júlio César que eles apresentaram é um guri enfatuado, presunçoso e violento. Um tolo, e César não era tolo. Ao contrário, César era um político habilidoso, um sedutor, um homem que conhecia as pessoas e que muitas vezes usava o perdão como forma de cooptação, o que era raro na época. César, certa feita, admitiu que queria ser o novo Alexandre. Queria ser o maior homem do seu tempo. E foi.

Há um episódio absurdo na série, em que César é estuprado pelo filho de Crasso. Isso não aconteceu, nem poderia. Os dois filhos de Crasso eram amigos de César e serviram sob seu comando na Gália. Esse, que surge na série, um tipo sórdido e traiçoeiro, é totalmente fictício.

Talvez os diretores estivessem pensando nos rumores que grassavam por Roma a respeito das preferências sexuais de César. Dizia-se, então, que César havia "conquistado os gauleses, mas havia sido conquistado por Nicomedes", rei da Bitínia. Intriga da oposição. César sempre negou esses boatos, inclusive sob juramento.

As pessoas fazem certa confusão entre gregos e romanos quando o tema é a forma de aceitação da homossexualidade. Os gregos sempre foram muito mais liberais nesse quesito. Quanto aos antigos romanos, nós estamos falando de uma história de mil anos. Quer dizer: a moral e os hábitos mudaram várias vezes. Na velha república, as relações homossexuais eram encaradas com grande preconceito. No tempo de César, o homossexual passivo é que era visto como vergonhoso; o ativo, nem tanto. No império, os costumes já tinham se tornado muito mais progressistas, sobretudo em meio à nobreza sofisticada. Tanto que os historiadores relatam que, dos 12 primeiros césares, só Cláudio gostava apenas de mulheres.

Essa evolução não é diferente da que ocorreu nos tempos modernos. Imagine que, às vésperas do século 20, Oscar Wilde foi condenado à prisão por manter um relacionamento amoroso com um homem.

Cláudio, em compensação, pode ser considerado o maior corno da história, porque ele foi casado com ninguém menos do que Messalina, mulher tão dada aos prazeres carnais, que seu nome se tornou sinônimo de luxúria. "Aquela ali é uma Messalina", diziam as nossas avós. Eu, pessoalmente, sinto a maior simpatia por Messalina. Era uma mulher de personalidade. Seu corpo, suas regras.

Outro personagem que me irritou foi Crasso. Porque, na série, ele manifesta certa honradez, certa retidão de caráter, e o Crasso real foi um canalha. Era o homem mais rico de Roma e há historiadores que suspeitam ter sido ele o ser humano mais rico de todos os tempos. Pois sabe como ele amealhou tal fortuna? Assim: grande parte dos prédios de Roma eram construções precárias, sem condições de segurança, suscetíveis a incêndios. Crasso treinou homens para combater esses incêndios. Na prática, foi o inventor do corpo de bombeiros. Então, quando um prédio estava em chamas, ele aparecia com sua equipe, identificava o proprietário e fazia a proposta: salvava a construção, desde que a comprasse. Desesperado, o proprietário vendia ali mesmo, pelo preço que Crasso estabelecesse. Essa tática dava tanto lucro, que Crasso montou outra equipe, essa não para apagar o fogo, mas para produzi-lo. Canalha, canalha.

Crasso, você já sabe, derrotou Espártaco, mas, na ânsia de glórias, atacou um povo feroz, os partos, e foi batido e capturado, o que os romanos consideraram um erro grave "crasso". Sua cabeça foi separada do corpo, banhada em ouro e transformada em atração especial nas festas partas. Bem feito.

O erro dos filmes históricos é tentar se adaptar às expectativas de um público que vive 2 mil anos depois de os fatos terem ocorrido. Muito muda em 20 séculos: a moral, os costumes, os gostos, até as vontades. Mas a essência do ser humano sempre será a mesma. Homens corajosos e libertários, como Espártaco, sempre terão a têmpera de aço dos heróis. Homens gananciosos, como Crasso, sempre terão a alma mole dos infames. Homens que conhecem os outros homens e que sabem o que querem, como César, sempre serão destinados à grandeza.

DAVID COIMBRA

01 DE AGOSTO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

MERCADO PÚBLICO


A discussão em torno da decisão do prefeito de transformar o Mercado Público em privado é como reinventar a água morna. Nos primórdios, só existia água fervente e água fria, até que um estranho, por descuido, tirou a chaleira do fogo e viu que tinha descoberto a água morna...

Sabemos todos que até o mais rude armazeneiro de bairro é melhor administrador do que um engravatado burocrata público. O caso do Mercado Público de Porto Alegre, porém, foge a essa opção.

No mais sofisticado centro de abastecimento da Capital, só o prédio é municipal. Todas as bancas estão entregues a permissionários, pequenos empreendedores que lá investiram dinheiro, trabalho e experiência ao longo de anos, servindo à população. Além disso, em fins de semana, o prédio do século 19 reúne artesãos e vendedores de antiguidades, numa espontânea feira em que o passado ressurge como presente. Ali já encontrei, até, documentos do tempo de Hitler na Alemanha, reveladores do horror dos campos de extermínio nazistas.

Nenhum burocrata público gerencia ou trabalha em qualquer banca no Mercado, que - de fato - já é privado. Ou, por acaso, o que são os atuais permissionários?

A prefeitura da Capital, porém, trata o prédio com descaso. O piso superior junto ao rio, danificado no incêndio de 2013, segue igual, mesmo que o prefeito veja o dano todo dia do seu próprio gabinete. O desleixo provocou o incêndio, pois não havia (nem há) alguém da prefeitura que supervisione o prédio. A única ação do município é recolher as contribuições dos permissionários, como se o belo e histórico edifício fosse um traste apodrecido por cupins.

Agora, para livrar-se de tudo, querem privatizar o que já é privado, através de "concessões" em troca, apenas, de dinheiro. De fato, querem entregar a estranhos o que, há dezenas de anos se tornou o mais atrativo ponto de abastecimento da cidade. Lá se encontra tudo, de comestíveis a ervas medicinais.

Tudo isso se formou ao longo de anos de prática e experiências que, agora, podem se desfazer num equívoco que lembra o descobrimento da água morna.

Em pleno horror da pandemia, desponta agora o "lobo-guará" como possível nova ameaça incontrolável. As futuras novas cédulas de R$ 200 podem ser sinal prévio da inflação, que pensávamos ser coisa do passado, tal qual a peste atual. O lobo-guará (ou vermelho, em guarani) devasta a fauna - come tudo, do grande ao pequeno, tal qual a inflação, da qual não pode ser símbolo.

Governo e setor privado devem unir-se em busca de soluções comuns para evitar o retorno da velha peste que o Brasil conheceu (e padeceu) durante décadas.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES, JORNALISTA E ESCRITOR