O Brasil pode ser produtivo e rico?
Jaime Cimenti
Neste ano de eleições, o lançamento da obra mais recente de Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda (1988-1990) , intitulada O Brasil ainda pode ser um país rico? ( Matrix, 373 pp., R$ 69,00) sem dúvida é oportuno. Maílson é um dos principais economistas brasileiros, sócio da Tendências Consultoria, colunista da Veja e professor e conselheiro de administração de várias empresas brasileiras. Aos 83 anos ele passa sua experiência na área pública, acadêmica e empresarial para que o Brasil possa reencontrar o rumo do crescimento sustentável e finalmente deixar de ser a eterna pátria da semana que vem e o eterno país do futuro.
Nas primeiras partes da obra o autor conduz os leitores para uma jornada de conhecimento , análise e reflexão,desde a Antiguidade , percorrendo a história econômica mundial, mostrando a Revolução Industrial , a ascensão da China e a estagnação latino-americana. Nos capítulos finais o autor dedicou-se a analisar o Brasil. Maílson revela que prosperaram os países que combinaram estabilidade institucional, meritocracia, inovação e eficiência.
Maílson aponta para a necessidade de modernização do PT e de uma esquerda que esteja afinada com a realidade do século XXI. Ele entende que os juízes devem compreender melhor, com suas decisões, a economia e os impactos sociais e defende medidas para elevar a produtividade, que constitui o principal fator de geração de riqueza de um país.
Maílson identifica as causas do baixo crescimento, examina as questões fiscais e reflete sobre a baixa eficiência de nosso país, falando de questões educacionais e apontando soluções.
Nosso país precisa encarar o desafio do declínio populacional e suas implicações para o mercado de trabalho e devemos enfrentar a fragilidade fiscal, ensina Maílson. Maílson entende também que o futuro brasileiro depende de uma profunda revisão de estrutura, de políticas que incentivem o investimento e a inovação e de uma infraestrutura capaz de gerar riqueza de modo duradouro.
O primeiro relógio
Hoje completo 72 anos. Às vezes acho que estou com oito, outros dias com 34, e tem momentos que visto o traje preto solene do septuagenário, que hoje em dia pode ser uma roupa moderna e colorida. Os novos velhos da atualidade presentificada podem ter novas ideias, novos planos , se "reinventar", ter curiosidade e bom humor, que é o que tornam as pessoas melhores.
Como escreveu Mario Quintana, o tempo é só um ponto de vista dos relógios. Na memória, que é onde as coisas acontecem muitas vezes, certas primeiras experiências são inesquecíveis. O primeiro beijo na boca, o primeiro orgasmo, o primeiro sutiã, o primeiro Chicabom, a primeira professora marcante, o primeiro pé na bunda, a primeira morte de um familiar, o primeiro olhar para o mar, a primeira cereja fresca e o primeiro relógio ficam na memória, especialmente na memória remota dos que, como eu, estão no modo NOLT: New Older Living Trend, ou Nova Tendência de Viver a Maturidade, para você que não fala inglês.
Quando eu tinha nove anos, queria um relógio de pulso. Meus pais me disseram que me dariam quando eu fizesse dez. Só que apesar dos apenas nove, determinaram que eu fosse crismado. Meio cedo para a confirmação como católico, eu que fui batizado bebê e fiz a Primeira Comunhão com sete. Não fugi do óleo perfumado e do tapinha na testa, praticado pelo Bispo para que eu recebesse os dons do Espírito Santo, me tornando um cristão adulto e um soldado de Cristo .
Meus pais tiveram a ótima ideia de me pedir para convidar o Dr. Elias Japur e sua jovem noiva, Rosa Maria Baldissera, para padrinhos. Contei para algumas pessoas próximas que eu queria um relógio de presente de Crisma. Sem contar para ninguém, fiz uma promessa para ganhar o relógio. Prometi ir todos os dias na Matriz de Bento Gonçalves e rezar dez Ave-Marias. Cumpri religiosamente. Não sei se alguém contou para meu padrinho o desejo do relógio.
No dia da Crisma, o padrinho foi lá em casa pilotando um flamante Aero-Willys e me levou para a Matriz. Depois do tapinha do Bispo e antes de passar na casa da minha madrinha, que surgiu linda e elegante vestindo um tailleur rosa, ele me entregou uma caixinha retangular, da lendária Joalheria Gehlen e, quando abri, estava lá o relógio Diorex, com 17 rubis. A promessa tinha dado certo ou alguém tinha contado para o padrinho que eu queria muito o relógio. Nunca quis descobrir isso. Na vida a gente não deve saber tudo. Usei o relógio por muitos anos. Ainda o guardo com carinho. O primeiro relógio, que ganhei antes da hora, resiste ao tempo e ainda vive na minha memória de idoso. Ele está parado - preciso mandar consertá-lo. O tempo dos nove anos aquela manhã de abril parece guardado ali. Não preciso dar corda no relógio para recordar. O presente vai ficar comigo para sempre.
Hoje não uso mais relógio de pulso. Consulto o horário no celular. Não uso esses cebolões caros porque tenho medo de sofrer mais um assalto, e que os fiscais da Receita pensem que eu tenha grana. propósito
Pensando bem, nem sei se vou mandar consertar o relógio do meu padrinho - que hoje vive na minha memória. Melhor deixar seus ponteiros quietinhos, aí eles não ficam costurando o tempo e revelando que a arte e a memória são longas, mas a vida é breve. O relógio me olha fixo, como se dissesse que as coisas mais importantes da existência são os desejos e sonhos infantis, e que ele está quase que totalmente inteiro, como seu dono, ao contrário dos relógios derretidos do Salvador Dali. Meu relógio persiste, sem pressa e sem dar a mínima para a velocidade enlouquecida de nossos dias. Nele mora o tempo de sempre, despacito. ( Jaime Cimenti )
Lançamentos
Exaustos (Buzz Editora, 208 pp.) de Lucas Freire. O psicólogo do trabalho, professor e palestrante, autor de Playfulness: trilhas para uma vida resiliente e criativa! e do livro infantil O leão da bochecha de balão, imagina saídas para cansaço diário, hiperprodutividade, controle e vigilância emocional, e traz um olhar sobre a nossa relação com os algoritmos e as métricas que controlam o tempo e nossa atenção.
Canção de ninar (Planeta, 192 pp., R$ 56,90), da escritora franco-marroquina Leila Slimani. Romance vencedor do Prêmio Goncourt, traz Myriam, mãe de duas crianças pequenas, que decide retomar à advocacia. O marido é contra. Contratam uma babá perfeita, eficiente, discreta e disponível. Cria-se uma dependência exagerada e problemas sérios surgem. O livro será adaptado para a HBO, com Nicole Kidman.
Sabedoria é dedicação - aprenda, pratique, repita (Intrinseca, 336 pp., R$ 62,90) de Ryan Holiday, renomado escritor e palestrante, autor de O Ego é seu inimigo e Diário estóico. O livro ensina que sabedoria requer trabalho árduo, disciplina, ouvir mais e falar menos, e cita o uso de leitura, autodidatismo e experiência, além de curiosidade e prudência. No final, conquistar a sabedoria vale a pena.

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