quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

01 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Compromisso com a retomada econômica

Chega o momento de uma ruptura de ciclo. Não há mais como postergar o enfrentamento de todos os gargalos que levaram o Rio Grande do Sul a uma notória perda de dinamismo econômico nas últimas décadas. A hesitação em encarar e remover os obstáculos que freiam o desenvolvimento condenará o Estado à estagnação e à perda de relevância no país. 

É hora de agir porque, além de todas as fragilidades há muito conhecidas, como as relacionadas à infraestrutura, à educação e às finanças públicas, estão agora escancarados os riscos dos eventos climáticos extremos e as implicações do envelhecimento da população e da queda do número de habitantes do Rio Grande do Sul a partir deste ano.

As condicionantes da retomada do desenvolvimento econômico (leia nas páginas 4, 5 e 6) são o tema da última das oito reportagens da série que o Grupo RBS veicula desde o dia 8 de setembro sobre os principais desafios para o futuro do Estado, os quais merecem, portanto, a atenção prioritária do próximo governador ou governadora. 

As conclusões são de que a revitalização está vinculada, em grande medida, a fatores que levem à retenção e à atração de capital humano qualificado, a um ambiente de maior segurança jurídica para os empreendedores, à elevação da produtividade do trabalho e à diversificação da economia, fazendo com que novos setores, em especial os ligados à tecnologia e à inovação, ganhem tração e peso.

Muitos desses fatores estão entrelaçados, como a educação, a formação de recursos humanos qualificados e a capacidade de ser mais eficiente nas tarefas laborais, criando maior valor por hora trabalhada. Infraestrutura adequada gera produtividade e competitividade para manter e conquistar empreendimentos produtivos. 

Mas depende também de ser assegurada segurança jurídica para investidores e de o próprio Estado ter condições financeiras de contribuir para a redução dos custos logísticos. A adaptação às mudanças climáticas fará com que o Estado deixe de ter perda recorrente de PIB por estiagens. O avanço da irrigação, mais do que limitar quebra de safras, amplia a produção por hectare, o que beneficia a indústria, o comércio e os serviços e tem reflexo positivo na arrecadação.

A ampliação da matriz econômica, da mesma forma, está atrelada à disponibilidade de capital humano e à existência de um ambiente de negócios receptivo, que não gere entraves de toda ordem ao estabelecimento de novos setores ou à ampliação dos existentes. O impasse que envolve o Projeto Natureza, da fabricante chilena de celulose CMPC, maior investimento já programado para o RS, é o exemplo acabado do que o Estado precisa evitar. 

Para manter e atrair pessoas, é preciso ainda demonstrar que o Estado é um lugar que proporciona oportunidades de crescimento profissional e entrega qualidade de vida, com ensino público qualificado, saúde digna e segurança pública eficaz, temas tratados nessa série que se encerra. São premissas ligadas à saúde financeira do Estado.

Recolocar o Rio Grande do Sul na condição de um dos Estados mais prósperos do Brasil é uma tarefa de grande envergadura. Exige empenho e responsabilidade compartilhada entre poder público, entidades empresariais, trabalhadores e demais elos da sociedade civil. É um compromisso que deve ser assumido, em especial, em nome das próximas gerações de gaúchos. 

Zucco evita se comprometer com gastos e renúncias

Cautela é a palavra que define a postura de Luciano Zucco, candidato do PL a governador, na sabatina da Rádio Gaúcha. Zucco evitou se comprometer com promessas como o fim da cobrança de contribuição previdenciária dos aposentados, que tiraria R$ 1 bilhão por ano do caixa do Estado. Disse que é "irresponsabilidade" prometer zerar a fila do SUS em um ano e se comprometeu a reduzi-la em 50% em quatro anos.

Crítico do programa Assistir, que tirou dinheiro de hospitais da Região Metropolitana para fortalecer os do Interior, o candidato não deixou claro como fará para contemplar as cidades da Grande Porto Alegre com mais dinheiro. Ao mesmo tempo, defendeu o uso intensivo e universal da telemedicina para evitar a chamada "ambulancioterapia", sem especificar qual seria o custo de contratar uma empresa com médicos suficientes para atender, por chamada de vídeo, os pacientes que precisam de atendimento especializado.

Nem mesmo em relação às escolas cívico-militares, sua bandeira mais conhecida, Zucco topou cravar um número. Exaltou o sucesso dessas escolas, baseado na disciplina, mas não quis dizer quantas serão implantadas no seu governo, nem qual o custo de transformar uma escola regular em cívico-militar.

Cuidadoso para não ser associado a Onyx Lorenzoni - então candidato do seu partido, que em 2022 não admitia conversar com o presidente Lula, se fosse eleito governador, e dizia que o vencedor seria Jair Bolsonaro - Zucco fez um discurso conciliador. Disse que não terá nenhum problema em dialogar com Lula e insistiu na união dos governadores para pressionar o governo federal pela renegociação das dívidas.

Também crítico do modelo de concessões do governo de Eduardo Leite, Zucco citou os leilões que fracassaram por falta de interessados. Prometeu usar R$ 3 bilhões do Funrigs em melhorias nas rodovias dos blocos 1 e 2 e só depois fazer a concessão, com pedágio mais barato. O modelo proposto por Leite previa repassar R$ 1,5 bilhão para cada uma das vencedoras dos blocos 1 e 2, para obras emergenciais, para reduzir o valor do pedágio, o que foi considerado muito alto pelo candidato. _

Como estratégia política, dá para entender a decisão do presidente Lula de não ir ao debate da TV Globo, onde

seria alvo de todos os adversários, mas é inaceitável um candidato ao quarto mandato fugir da raia na hora H.

Quem orientou os candidatos ao Piratini no debate da RBS TV

No debate mais importante do primeiro turno no Rio Grande do Sul, o da RBS TV, na noite de terça-feira, o candidato Gabriel Souza (MDB) levou um assessor de luxo para orientá- lo nos intervalos: o governador Eduardo Leite.

Durante o debate, Leite sentou-se na sala reservada aos assessores, junto a Cleber Benvegnú, que coordena o marketing de Luciano Zucco, Tiago Brum, publicitário da campanha de Juliana Brizola, e Zeca Honorato, que trabalha para Marcelo Maranata.

Nos intervalos, cada um fazia uma rápida avaliação do desempenho do seu candidato e orientava sobre os pontos que podiam ser melhorados. Leite saiu satisfeito com o desempenho de Gabriel, que teve poucas chances de interagir com Zucco e Juliana.

Os dois, que estão à frente em todas as pesquisas, repetiram a estratégia usada desde o primeiro confronto, de escolher um ao outro para debater, excluindo Gabriel e Maranata sempre que possível.

Nas poucas oportunidades que teve para escolher qualquer um, Gabriel optou por Juliana, de quem considera possível tirar votos para chegar ao segundo turno. Mesmo pressionada, a candidata do PDT não se desestabilizou, mas mostrou irritação quando Gabriel fez uma piadinha, dizendo que ela usa o PT como pantufa: é bom para usar em casa, mas não para sair à rua.

Nesse momento, Juliana disse que não estava no debate para gerar cortes para a internet, mas para discutir o futuro do Estado.

Zucco também tentou embretar Juliana, perguntando por que ela votou a favor das escolas cívico-militares e agora é contra. Ela respondeu que apoiou por achar que seria uma escola como o Colégio Tiradentes, mas descobriu que era muito diferente. _

Leite anuncia pagamento de 90% do 13º em novembro

Se não fosse o precedente dos anos anteriores, a medida seria chamada de eleitoreira, por ter sido anunciada às vésperas da eleição. O governador Eduardo Leite anunciou o pagamento de 90% do 13º salário dos servidores públicos no dia 3 de novembro. O restante será pago em 18 de dezembro.

No ano passado, o pagamento da gratificação natalina também ocorreu em novembro. No ano anterior, o pagamento foi antecipado para junho, por causa da enchente.

Em vídeo publicado nas redes sociais, celebrou o fato de que o governo do Estado "fechou cinco anos com o 13º pago em dia":

- Muito importante celebrarmos juntos essa grande conquista, em respeito aos nossos servidores que nos ajudam a entregar o serviço para a nossa população. Então, é isso, no dia 3 de novembro cai na conta já a primeira parte do 13º, 90% do valor para os nossos servidores.

Quando assumiu, em 2019, o salário e o 13º estavam atrasados. 

Zucco e Gabriel sobem o tom

Assim como ocorreu no debate da RBS TV, na noite de terça-feira, os candidatos Gabriel Souza (MDB) e Luciano Zucco (PL) discutiram em tom áspero no confronto da Rádio Guaíba. O motivo foi o mesmo: a cobrança por Zucco ter indicado a ex-secretária de Bem-Estar Animal de Canoas Paula Lopes, acusada de praticar eutanásia em massa.

Zucco chamou Gabriel de mentiroso e cobrou a apresentação de provas. O candidato do MDB citou as publicações da própria Paula nas redes sociais agradecendo a Zucco pela indicação. 

Nem candidatos do Novo apoiam Zema

Diante do baixo engajamento e da possibilidade de desistência ventilada nos últimos dias, a candidatura de Romeu Zema (Novo) à Presidência começou a perder aliados internos. Candidatos da sigla no RS estão abandonando a campanha de Zema, que não sai de 1% nas pesquisas eleitorais, e pedindo voto em Flávio Bolsonaro (PL).

Internamente, Zema diz que toparia abrir mão da candidatura caso houvesse um movimento em bloco ao redor de Flávio, com desistências de outros nomes da direita. Mas a chance de isso ocorrer a três dias do primeiro turno é muito remota. 

POLÍTICA E PODER 

 

01 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Enfim, propostas

Enfim, os candidatos ao governo do Estado abordaram, em debate, os assuntos que mais preocupam os gaúchos. O encontro na noite de terça-feira, na RBS TV, trouxe temas dos quais a coluna havia sentido falta no duelo anterior, na Rádio Gaúcha, na última sexta-feira: educação, enchentes e meio ambiente, agronegócio, empreendedorismo e infraestrutura.

Encontros em TV aberta ajudam o eleitor indeciso - e o percentual, segundo a última pesquisa Quaest, chega a 25% na eleição para governador. Entre os que já escolheram um candidato, 33% dizem que ainda podem mudar o voto. É alto. E, embora nem sempre seja possível aprofundar temas, é viável, ao eleitor, reconhecer a performance do candidato no palco. Debate serve sobretudo para isso: testar o candidato sob pressão, sua capacidade de raciocínio rápido e perspicácia.

Após vários debates, algumas estratégias foram repetidas: a dobradinha entre Luciano Zucco (PL) e Juliana Brizola (PDT), a fim de isolar Gabriel Souza (MDB) e Marcelo Maranata (PSDB), obrigados a debater quase somente entre si. Os dois momentos mais tensos ficaram por conta de Zucco e Gabriel. O emedebista citou relações do adversário com o caso de animais domésticos eutanasiados em Canoas. Zucco disse que o adversário mentiu. Gabriel pediu direito de resposta, mas não foi contemplado. Antes, os dois se engalfinharam em razão da chamada "PEC da Blindagem": Gabriel acusou Zucco de ter apoiado a iniciativa, que acabou arquivada, enquanto Zucco desafiou Gabriel a identificar erros na atual gestão.

Voltando aos temas que, finalmente, apareceram: no agronegócio, o produtor endividado; nas enchentes, o temor da repetição de tragédias; na educação, a escola em tempo integral, o modelo cívico-militar e a progressão parcial; na segurança, o feminicídio e o combate às facções; na infraestrutura, os pedágios. Foi um bom debate. Houve propostas mais concretas do que nos anteriores, maior diversidade de temas, menos bate-boca e críticas. Teve mais propostas, mas ainda faltou dizer como fazer. _

Testes do novo submarino da Marinha

O submarino Almirante Karam, o mais novo meio naval da Classe Riachuelo da Marinha do Brasil, concluiu sua primeira imersão estática na área marítima de Itacuruçá, próximo ao Complexo Naval de Itaguaí (RJ). Sua incorporação ao setor operativo está prevista para 2027.

Com 72 metros de comprimento e autonomia para até 70 dias submerso, o submarino foi projetado para operar com uma tripulação de 42 militares. Segundo a Marinha, a imersão de maneira controlada foi feita sem o uso da propulsão principal (sem deslocamento).

Nas próximas fases, ocorrerão testes de navegação de superfície, imersão dinâmica e verificação do desempenho de lemes, propulsão e equipamentos de navegação e comunicação. _

Entrevista  - Borja Castelar

Ex-diretor do LinkedIn para a Europa e América Latina

"Quem triunfa não é quem mais sabe, é quem melhor comunica"

Talvez você já tenha ouvido falar sobre soft skills - as habilidades comportamentais. Borja Castelar, ex-diretor do LinkedIn para a Europa e América Latina, prefere chamá-las de human skills, ou habilidades humanas. O executivo, que é referência mundial em liderança, inteligência artificial e vendas, estará amanhã no CONGREGARH, um dos maiores congressos de gestão de pessoas do sul do Brasil, em Porto Alegre.

Qual o principal assunto que você vai abordar no evento em Porto Alegre?

Será sobre o que as pessoas chamam de soft skills, de habilidades sociais. Mas falo de human. Gosto de falar de human skills, de habilidades humanas. São as habilidades mais importantes para triunfar na carreira. E nunca aprendemos sobre esse tipo de habilidade, porque, no sistema educativo, só aprendemos sobre habilidades técnicas. Há pesquisas, uma delas de Stanford, que diz que 85% do sucesso profissional depende de habilidades humanas. E não deveria ser uma surpresa. Comunicação é uma human skill. Quem triunfa não é quem mais sabe, é quem melhor comunica.

Há outros exemplos e explicações que podemos trazer de human skills?

Basicamente, são as habilidades que nos ajudam a nos relacionarmos com outras pessoas. Ou com nós mesmos. Comunicação, colaboração, inteligência emocional, criatividade, pensamento crítico. Por outro lado, há as habilidades técnicas, o que você aprendeu a vida inteira: matemática, inglês, geografia. Todos sempre têm dois mundos na hora de aprender. O mundo das hard skills, das habilidades técnicas, e o mundo das human skills. E aí está a chave do sucesso: como você se comunica, como você se conecta com outros seres humanos, sua criatividade, colaboração, persuasão. O problema é que o sistema educativo só ensina habilidades técnicas.

Por que o sistema educativo foca mais nas hard skills?

Porque surgiu na Revolução Industrial e quase não mudou. Naquela época, o importante eram as habilidades técnicas. No mundo da fábrica era muito importante seguir horários, ser obediente, muito técnico. Mas o mundo mudou completamente. Esse mundo já não existe, mas o sistema educativo ficou igual. Continuam ensinando o mesmo. Ficaram na época industrial. O que está acontecendo agora? A inteligência artificial está, cada vez mais, reduzindo a importância da parte técnica dos trabalhos. A dimensão humana está aumentando em importância.

Há pesquisadores que apontam que a geração Z hoje dá mais importância para chefes com características mais humanísticas. Hoje os líderes devem ficar mais atentos a isso?

Totalmente. As novas gerações, se elas não estão contentes e não têm um líder humano, empático e comunicativo, vão embora (das empresas). Elas não têm a paciência de outras gerações. Estão muito mais empoderadas também. Como líderes, temos de ser mais humanos do que nunca. Um bom líder tem de entender como dar propósito ao trabalho, dizer para que estamos trabalhando.

Todas as empresas terão de encarar esse novo cenário?

É seleção natural, vai acabar acontecendo, porque as gerações mais antigas vão se aposentando e vão entrando as novas gerações. É a mesma coisa com as human skills, com as habilidades humanas. Cada vez mais as empresas vão contratar por habilidades humanas. No velho paradigma industrial, contratavam principalmente por habilidades técnicas.

É possível conciliar a IA e as human skills?

Está aí nosso melhor investimento: as human skills. Quanto mais avança a inteligência artificial, mais a parte técnica é menos relevante. E a parte humana vai aumentar. A gente não vai ser substituído nessa parte. A empatia humana nunca se vai perder. Em um mundo tão dominado pela inteligência artificial, nosso melhor investimento na carreira é melhorar como nos conectamos com outros seres humanos, como avançamos nossa criatividade. 

INFORME ESPECIAL

30 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

Meu medo das marquises

Quando chove e estou andando pelo centro de Porto Alegre, evito passar debaixo das marquises.

Prefiro enfrentar o aguaceiro de modo solitário com meu guarda-chuva no meio da calçada, sem o auxílio das pedras e dos refúgios das lojas. Prefiro me molhar.

É que conservo um trauma. Na verdade, um trauma coletivo. A capital gaúcha nunca mais voltou a ser a mesma depois daquela quinta-feira, daquele 6 de outubro de 1988.

O medo congelou a data, a ponto de transformá-la em uma referência temporal da nossa história: onde você estava? O que estava fazendo?

Eu tinha 15 anos, cursava o primeiro ano do Ensino Médio no Colégio de Aplicação, que na época ficava no Centro. Fui buscar material escolar na Livraria do Globo, no contraturno, pelas 16h30min.

De repente, caminhando pela Voluntários da Pátria, desviando-me da aglomeração dos terminais de lotação, escuto uma explosão e uma gritaria inominável.

A estrutura da marquise das Lojas Arapuã, na ladeira da Doutor Flores, veio abaixo enquanto o personagem-símbolo da rede, Arapinho, distribuía balas e chocolates para os clientes que circulavam por ali.

A queda da marquise, de 16 metros de comprimento e um de largura, matou nove pessoas, sendo duas crianças. Era a semana de véspera do Dia das Crianças. O boneco estava brincando com vários meninos e meninas, de famílias a passeio. Ele realizava um show para atrair os transeuntes.

O desabamento foi cruel e aconteceu em duas etapas; o resto do concreto cedeu justamente quando curiosos se detinham e pedestres socorriam os feridos, aumentando o contingente de horror e sangue.

Bombeiros levantavam as vítimas dos destroços. Ambulâncias e táxis saíam em disparada da rua estreita. O comércio inteiro fechou. O mundo parou por um instante.

Não sabíamos como agir. A incredulidade sequestrou nossa respiração. Uma multidão atrás do cordão de isolamento prendia o suspiro. Nem conseguíamos explicar o fato a quem chegava. Parecia obra de uma bomba, de terrorismo. Demoramos a captar que a marquise se encontrava condenada. Não havia como se defender do tombamento súbito de suas quatro toneladas.

Tanto que a tragédia mudou as regras de segurança urbana em Porto Alegre. Motivou a criação do Decreto nº 9.425/1989, que exige a apresentação periódica de laudos estruturais de marquises, fachadas e sacadas dos prédios da cidade.

O prefeito Alceu Collares declarou luto oficial por três dias, mas o luto jamais acabou. Continua em mim até hoje, como uma hesitação, um ressaibo, um pavor mudo.

A escritora amiga Carla Madeira, em seu novo livro Quando, trouxe à tona um termo da neuropsicologia: "engrama", que significa uma "cicatriz no sistema nervoso" ou uma "chaga da memória".

É uma vivência tão forte que permanece no corpo, atravessa os afetos e não se apaga com o tempo, migrando de geração a geração. Vira traço no seu DNA, informação genética.

Como esse fatídico 6 de outubro de 1988. 

CARPINEJAR

 

30 de Setembro de 2026
MARIO CORSO

Namastê

Recebi uma mensagem positiva, dessas que derramam energia de bons fluidos amorosos. Nela estava a palavra Namastê que seria, segundo o remetente, um cumprimento e a seguinte mensagem: - o deus que habita em mim, saúda o deus que habita em você.

Fui pesquisar e parece que não é bem isso. Significa em sânscrito: eu me curvo diante de ti. Desconfiei de tanto sentido em apenas uma palavra, mas é daquelas fake news que deveriam ser verdade. Gostei da saudação, é uma reverência que convoca ambos para um outro plano.

Graças às redes sociais, nossas interações estão cada vez mais frenéticas e menos profundas. Invocar a divindade sempre nos ajudou a preencher as inconsistências da vida. Para tanto, com o objetivo de tornar os encontros humanos mais verdadeiros, sugiro umas variações deste cumprimento.

Poderíamos começar com Diaboletê: o deus que habita em mim, odeia o deus que habita em você. Podemos não concordar com o sentido, mas conhecendo a história humana, esse seria largamente usado.

Para quem não é religioso, por que não Nemastelar: o cosmos que habita em mim saúda o cosmos que existe em você. Ou ainda, para os agnósticos: O Nemastério: o mistério que habita em mim saúda o mistério que habita em você.

Para pessoas meio perdidas, confusas, Nemastranhô: o esquisito que habita em mim, saúda o esquisito que habita em você. Nemasteless, o deus que habitava em mim largou fora, não me aguentou. Tem lugar para mim no deus que habita em ti?

Maconheretê: o deus que habita em mim é distraído. Paz e amor antes de mais nada - mas eu te conheço?

Sinceretê: o deus que habita em mim não enxerga nada dentro de você. Vorcaretê: o diabo que habita em mim, reconhece o demônio que habita em você - creio que podemos nos dar bem em negociatas.

Egocentrê: o deus que habita em mim é só meu, não o divido com ninguém. E sai da minha frente. Superioritê: sinto muito, mas o deus que habita em mim é muito mais deus do que o deus que habita em você.

Solidaretê: a solidão que habita em mim reconhece a solidão que habita em você, vamos ficar juntos? Com a gritaria das eleições, acho que o mais útil deveria ser: Colinhotê: o deus que habita em mim só quer descansar perto do deus que habita em você. 

MARIO CORSO

 

Reta final desanimadora

Para um país com tantos desafios como o Brasil, é desanimador constatar o quanto foi desperdiçada a oportunidade de a campanha para a Presidência da República proporcionar um debate produtivo sobre ideias e propostas para o futuro. Às vésperas do primeiro turno, a principal pauta é um tema religioso, assunto que nem sequer deveria estar misturado à eleição. 

Para piorar, nasceu pela via da desinformação, após a disseminação de um boato que associava o candidato Flávio Bolsonaro (PL) a um projeto para tirar o título de Nossa Senhora Aparecida de Padroeira do Brasil. O episódio voltou a escancarar a politização da cúpula do Judiciário, com uma guerra de decisões individuais de ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Enquanto as candidaturas de Flávio e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se digladiam na disputa para ver quem consegue fustigar mais o adversário, questões verdadeiramente prioritárias e com repercussão na vida real da população, como a situação das finanças públicas, da saúde, da educação e da segurança, praticamente desapareceram da discussão ou são tratadas de forma rasa. 

Em vez de ser uma concorrência por inspirar mais esperança, a eleição se transformou outra vez em uma batalha de rejeições e de esforços para desgastar o oponente. A discussão programática foi esvaziada em meio às trocas de acusações. A eleição não será decidida pelo mérito das propostas.

Até aqui, grande parte das energias foi empregada para demonstrar que o adversário, familiares dele ou o grupo político rival estariam mais vinculados a escândalos como o do INSS e do Banco Master. O agravante é que a batalha por atingir o rival teve a colaboração dos gabinetes de alguns ministros do STF, com o repasse seletivo de informações de inquéritos, postura que degrada a instituição e mina a confiança em uma Justiça imparcial.

As práticas abusivas e as dúvidas que cercam os candidatos apontados como favoritos pelas pesquisas também depõem contra uma disputa virtuosa. Flávio é formalmente investigado por crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no inquérito que apura repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao filme Dark Horse. 

Na busca desesperada pela reeleição, Lula não hesita em lançar mão, até a undécima hora, de todas as medidas eleitoreiras possíveis. Usa o poder do cargo de forma temerária tanto do ponto de vista legal quanto da responsabilidade que deveria ter com as contas públicas.

As demais candidaturas, esmagadas pela polarização entre PT e PL, não encontraram espaço para crescer. Fez falta também um nome viável de centro que ao menos ajudasse a qualificar o debate. A eleição para o Congresso, que deveria receber maior atenção pelo poder excessivo acumulado pelo Legislativo, foi negligenciada. O foco se resumiu ao Senado e foi limitado demais no impacto do resultado para o impeachment de ministros do STF.

Ainda há a chance, em um eventual segundo turno para a Presidência, de um confronto de ideias mais elevado e que aponte mais para o futuro do que para o passado. Mantido o nível atual, haverá mais certeza na continuidade da radicalização social e política do que no endereçamento de reformas e transformações que o país precisa para fazer jus ao seu potencial de desenvolvimento. 


Flávio, Lulinha e os esqueletos no armário

Aos eleitores convictos do presidente Lula e do senador Flávio Bolsonaro pouco importam as revelações de delitos pretéritos. O mesmo não se pode dizer dos indecisos, ainda mais quando os dois candidatos estão tecnicamente empatados e precisando conquistar eleitores a qualquer custo. Por isso, os esqueletos que saltaram dos armários de Flávio e do filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ontem, não podem ser tratados como simples futrica.

Quem abriu a porta do armário de Flávio foi Alexandre Santini, ex-sócio na franquia de chocolates Kopenhagen, aquela usada para explicar as montanhas de dinheiro vivo para a compra de imóveis e no pagamento de boletos. De acordo com o portal Platô.br, o ex-sócio e agora inimigo de Flávio expôs mensagens que indicam participação em orgias com prostitutas e pedido de perdão à esposa Fernanda, que tomou conhecimento das traições.

Pela lei brasileira, traição não é crime. As revelações atingem o candidato no aspecto moral, já que se apresenta como defensor da família tradicional. O problema maior das revelações do ex-sócio é outro: o recebimento de dinheiro de origem suspeita e de um relógio da marca Rolex e o lobby junto ao ministro Kassio Nunes Marques no Supremo Tribunal Federal.

Lobista

Já o esqueleto que assombra a campanha de Lula saiu do armário pelo celular da lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e suspeita de pagar propina a funcionários públicos. No telefone apreendido pela Polícia Federal, foi encontrado o orçamento de uma viagem de luxo para a Europa, em janeiro de 2025, com passagens por Suíça, Suécia e Finlândia. No programa, uma semana de esqui nos Alpes suíços e a observação da aurora boreal na Finlândia, com direito a chef de cozinha e mordomo. No telefone, foram encontradas fotos dos amigos na Suíça. Custo do passeio: R$ 1,8 milhão, mais R$ 220 mil pelo fretamento de um jatinho para ir da Suíça para a Suécia.

Lulinha se defende dizendo que as informações foram tiradas de contexto e que não cometeu crime algum. Pode ser, mas pega muito mal viajar à custa de uma lobista que usava a proximidade com o filho do presidente para fazer tráfico de influência e tinha negócios com o Careca do INSS, aquele personagem investigado por lesar aposentados e pensionistas. _

Lula reúne multidões no Nordeste, mas se atrapalha ao falar do exame de próstata

Lula (PT) dedicou sua agenda para fortalecer a base eleitoral no Norte e também no Nordeste, de onde historicamente ganha boa parte dos votos. Na segunda-feira, em Belém, se atrapalhou ao falar sobre exames de câncer de próstata:

- O homem é covarde, ele não gosta de fazer teste de próstata. Ele não gosta de toque. As mulheres aprendem a tomar toque desde quando são pequenas. Segundo o PT, Lula falava sobre exames ginecológicos, mas a frase repercutiu em perfis de direita. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) foi um dos que deram conotação sexual à fala. Ontem, na Bahia, Lula explicou sua declaração, dividindo a fala com a primeira-dama, Janja. Também chamou Nikolas de "canalha". _

Só as promessas de Juliana custariam mais de R$ 4 bi

Se for eleita governadora do Estado, Juliana Brizola (PDT) terá de correr atrás de cerca de R$ 9,5 bilhões para cumprir com suas promessas. O valor é o resultado da soma do déficit de R$ 4,8 bilhões previsto na proposta de orçamento de 2027 com as renúncias fiscais anunciadas pela candidata e o aumento de gastos em saúde e educação.

Na sabatina da Rádio Gaúcha, Juliana prometeu acabar com o desconto previdenciário dos servidores aposentados no primeiro ano de mandato, abrindo mão de R$ 1,1 bilhão de receita. A candidata anuncia o fim das filas do SUS e aponta como fontes de financiamento o aumento das verbas para a saúde e o programa Pró-Hospitais, que permite às empresas aplicar até 5% do ICMS devido nas santas casas e hospitais filantrópicos. Pelos cálculos dela, seria possível arrecadar até R$ 1 bilhão com o Pró-Hospitais, o que significa abrir mão dessa receita no orçamento. E, se a candidata elevar no primeiro ano as verbas para a saúde e a educação, até chegar a 12% e 25% respectivamente, serão R$ 692 milhões a mais para a saúde e R$ 1,9 bilhão para a educação. _

Maranata atrela reajustes salariais a aumento da receita

O candidato Marcelo Maranata (PSDB) se comprometeu a, se for eleito governador, cortar 30% das despesas do Estado, incluindo os poderes Legislativo e Judiciário, para conseguir bancar a conta de promessas feitas para a saúde e a infraestrutura. Na sabatina da Rádio Gaúcha, o tucano não detalhou como faria a redução dos gastos.

Ele planeja obter recursos para financiar suas propostas a partir do enxugamento da máquina pública, da atração de empreendimentos privados, com foco na geração de energia renovável e na renegociação da dívida com a União. Do governo federal, inclusive, é de onde Maranata planeja atrair mais recursos, negociando a criação de um fundo constitucional do Sul.

Na saúde, o tucano evitou prometer zerar a fila do SUS, como fizeram os adversários Gabriel Souza (MDB) e Juliana Brizola (PDT), classificando a ideia como "irresponsabilidade". Maranata pretende enfrentar o problema sendo ele próprio o secretário da Saúde nos primeiros seis meses de mandato, período em que planeja dividir o Estado em sete polos descentralizados para organizar os atendimentos e reajustar a tabela SUS Gaúcho.

No funcionalismo, acenou com reajustes para professores e policiais, mas deixou claro que a concessão de aumentos está condicionada ao incremento real da arrecadação. Também garantiu que extinguirá o salário mínimo regional, apontando a medida como entrave burocrático que afasta investimentos privados. _

RS-118 duplicada e sem pedágio

Quem se eleger para governar o Estado vai herdar o anteprojeto do Lote 1 da obra de ampliação da RS-118, um trecho de 5,1 quilômetros entre Gravataí, Alvorada e Viamão.

A duplicação, com recursos públicos, era promessa do governador Eduardo Leite, que não terá tempo de realizar a obra, mas incluiu a RS-118 entre os projetos que terão recursos do Fundo Rio Grande (Funrigs). O investimento será superior a R$ 224 milhões. _

Comissão de Ética deve investigar Byl

A bancada do PSOL na Câmara de Vereadores da Capital protocolou representação na Comissão de Ética contra o vereador Giovane Byl (Podemos), preso neste mês por suspeita de envolvimento em esquema de desvio de emendas para a saúde. Os parlamentares requerem a apuração dos fatos para identificar se houve quebra de decoro parlamentar, corrupção ou improbidade administrativa, para embasar eventual perda de mandato. 

POLÍTICA E PODER

30 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

A religião instrumentalizada para fins eleitoreiros

A religião é parte estruturante da identidade nacional. No livro Brasil no Espelho, o cientista político Felipe Nunes aponta, a partir de pesquisas realizadas pela Quaest, que 96% dos brasileiros concordam que Deus está no comando de suas vidas. Logo, não surpreende que a maior polêmica da última semana deste país pré-eleitoral - virado de cabeça para baixo - seja em torno de símbolos... religiosos.

Seja quem for que tenha criado a informação falsa - segundo a qual o candidato Flávio Bolsonaro (PL), se eleito, decretaria "que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo" e que retiraria o posto de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do país - sabe muito bem como a espiritualidade mobiliza rebanhos. Fez girar, de forma engenhosa, a roda insana das fake news.

A mesma pesquisa da Quaest mostra que a prática das religiões mudou ao longo dos anos e que mais pessoas passaram a se declarar evangélicas. Se, em 1872, 100% dos brasileiros se declaravam católicos, esse percentual caiu para 65% em 2010, quando 22% se diziam evangélicos. Em 2023, a proporção estava em 51% para 31%. Sem falar dos "sem religião", dos espíritas e daqueles que seguem fé de matriz africana e outras.

Então, falar de Deus dá voto porque religião significa muito mais do que ir à missa ou ao culto. Está mimetizada nos hábitos familiares, na forma como as pessoas trabalham, nas relações de amizade e na maneira como consomem cultura. Ainda que o Estado seja laico, o crucifixo está nos plenários da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Histórico

Também não é novo o uso político da fé. A própria definição de Nossa Senhora Aparecida como padroeira ocorreu em um momento em que a Igreja, que havia perdido sua condição de religião oficial com a República, buscava recuperar influência na sociedade e no Estado. O pedido ao Vaticano partiu dos bispos brasileiros, após o Congresso Mariano de 1929, e foi dirigido ao papa Pio XI. O Pontífice reconheceu, em 16 de julho de 1930, Nossa Senhora da Conceição Aparecida como padroeira do país.

Era parte da construção de um símbolo religioso de dimensão nacional. A grande proclamação pública ocorreu no Rio de Janeiro, em maio de 1931, diante de uma multidão e com a presença de Getúlio Vargas, então chefe do Governo Provisório.

Os mais antigos irão se lembrar de como grupos políticos exploraram o episódio em que Sérgio von Helder, então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida em 12 de outubro de 1995. O episódio foi condenado tanto por católicos quanto por setores evangélicos.

O Brasil deixou de ser um país de hegemonia católica quase absoluta e caminha para uma configuração religiosa muito mais plural. Há, nos bastidores da Igreja Católica, preocupação com a perda dessa hegemonia, conforme já confidenciaram à coluna altas autoridades do clero brasileiro. Mas isso não transforma, necessariamente, católicos e evangélicos em adversários.

O Brasil é, tradicionalmente, um território pacífico em termos de fé. Não pode permitir que a religião seja instrumentalizada para fins eleitoreiros. A exploração política da religião faz aflorar sentimentos profundos de ancestralidade, pertencimento e identidade, e pode torná-la perigosa quando mobilizada para dividir. Foi assim na Irlanda do Norte. É assim no Oriente Médio. _

Avião da captura de Maduro esteve no Brasil

A aeronave de guerra Lockheed Martin HC-130J Combat King II esteve no Brasil nos últimos dias para participar do Exercício Conjunto Tápio 2026, realizado pela Força Aérea Brasileira (FAB) na Base Aérea de Campo Grande (MS).

O modelo, da Força Aérea dos Estados Unidos, ganhou relevância internacional por ter integrado a operação militar que resultou na captura do ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro, em janeiro deste ano.

Segundo a FAB em conversa com a coluna, o exercício reuniu militares brasileiros e de países aliados com foco em treinamentos de ajuda humanitária, busca e salvamento em combate.

Especializada em operações de busca e resgate em combate, a aeronave é um quadrimotor turboélice modificado a partir do clássico cargueiro C-130J Super Hercules, projetado para atuar em cenários de alto risco e de difícil acesso.

Uma de suas missões é servir como um "posto de combustível" para reabastecer helicópteros de resgate e aeronaves em pleno voo. _

Bebidas alcoólicas e eleição

A cada eleição surge a dúvida: é permitida a venda e o consumo de bebida alcoólica no dia da votação? A chamada Lei Seca Eleitoral não é uma regra federal única, mas uma decisão tomada individualmente por cada Estado.

No Brasil, o Código Eleitoral não proíbe automaticamente a comercialização nem o consumo de álcool durante o pleito. A aplicação da medida cabe a cada Estado e seus Tribunais Regionais Eleitorais (TREs).

No RS, por exemplo, o consumo e a venda ocorrem normalmente. De acordo com o secretário judiciário do TRE-RS, Rogério Vargas, o Estado não aplica a vedação desde 1994.

- A Lei Seca não tem amparo na legislação eleitoral e não é mais aplicada de forma geral no Estado, tanto no sábado quanto no próprio dia do pleito. Isso não quer dizer que, diante de uma situação específica vivenciada em um determinado município, um juiz eleitoral não possa vetar a venda se achar necessário, tendo em conta o acirramento dos ânimos. Trata-se de uma prerrogativa do poder de polícia do magistrado para garantir o bom andamento da votação - explicou o secretário à coluna. _

Porto Alegre divulga a Copa do Mundo

Com o objetivo de atrair o público argentino durante a Copa do Mundo Feminina de 2027, Porto Alegre marcou presença na Feira Internacional de Turismo (FIT) de Buenos Aires, considerada uma das maiores e mais importantes feiras do setor na América Latina.

Pela primeira vez no estande da Embratur, a Capital se apresenta como uma das oito cidades-sede do torneio, ao lado de Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

O Beira-Rio receberá sete partidas da competição, sendo seis na fase de grupos e uma nas oitavas de final. Para incentivar o torcedor a explorar a cidade no intervalo entre os jogos, Porto Alegre destaca atrações que combinam passeios de barco pelo Guaíba, gastronomia típica, churrasco, corridas de rua, shows e grandes eventos. 

A Organização dos Estados Americanos enviará 90 observadores de 23 países para acompanhar as eleições. Entre eles, diplomatas do Chile, Uruguai e Paraguai.

INFORME ESPECIAL

terça-feira, 29 de setembro de 2026

29 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

Não poderia ser coincidência

Eu estava no barbeiro. Na cadeira ao meu lado, sentou-se um jovem. O cabeleireiro perguntou qual corte queria.

O rapaz mostrou uma série de imagens preparadas pelo ChatGPT, indicando como deveria ficar seu cabelo ao longo de cinco meses, fotograma por fotograma. Não orientou verbalmente como desejava seu novo penteado; serviu-se de uma insólita fotonovela no celular. Peguei um Uber para o supermercado.

Não consegui identificar as músicas que tocavam no carro. Parecia Bon Jovi, mas não era. Tirei a cisma: - O que anda ouvindo?

O motorista me respondeu que só colocava canções geradas por inteligência artificial, que não perdia mais tempo com bandas reais. A interpretação, as melodias e o fundo sonoro correspondiam a uma ficção engendrada de acordo com os seus comandos.

Imaginei que ele dominava o inglês. Ele disse que não. Então, reproduzia músicas biônicas sem sequer entender a letra. Achei muito estranho. Não censurei. Não comprei discussão. A minha nota no aplicativo já andava baixa.

Parei no supermercado. Num dos corredores, um homem atendia ao telefone no viva-voz. Assumi que estava falando com a esposa, conferindo sua lista. Mas eu conhecia aquele timbre. Ele conversava com sua Alexa, questionando o preço de cada produto que apanhava das estantes, checando se valia a oferta. Efetuava uma comparação minuciosa de valores antes de encher o carrinho. Raciocinei: "Que loucura!".

Encontrei no caixa um colega de academia. Ele me cumprimentou e comentou que vinha se tornando escritor como eu. Dei os parabéns. Pedi para antecipar o assunto da obra. Tratava-se de uma história de terror que havia feito num dia.

- Um dia? - eu me espantei. Daí ele explicou que usou o ChatGPT.

Ou seja, não foi ele que escreveu. Apenas passou uma sinopse para que a máquina realizasse o trabalho em seu lugar, sob encomenda. Jamais desconfiou de quais autores o assistente virtual havia se alimentado para simular um estilo. Afinal, a ferramenta elabora suas sugestões a partir de uma imensa massa de textos existentes. Nada se cria, tudo se copia.

Voltei para casa com a certeza de que convivo com androides. Abdicamos da espontaneidade e da autonomia para ações banais. Delegamos a maioria de nossos prazeres e funções ao pensamento robotizado. Não suportamos as dúvidas, não aprendemos com as hesitações, não inventamos saídas.

A pressa nos substituiu.

Eu me lembrei de uma entrevista com Dario Amodei, CEO da Anthropic. O físico americano defende que as empresas desacelerem o desenvolvimento dos modelos mais avançados de IA para que os mecanismos de segurança acompanhem a evolução da tecnologia.

O padrinho da IA, Geoffrey Hinton, também alertou sobre os crescentes perigos decorrentes dos progressos na área: - No momento, pelo que posso perceber, eles não são mais inteligentes do que nós. Mas acho que em breve serão.

O que eu sei é que ninguém mais corta o cabelo sem IA. Ninguém mais escuta música sem IA. Ninguém mais faz compras sem IA. Ninguém mais concebe livros sem IA. Não poderia ser coincidência. 

CARPINEJAR

29 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

Tarefas à frente na segurança pública

Entre os serviços essenciais prestados pelo Estado à população, é inequívoco que a segurança pública tem apresentado os melhores resultados. As estatísticas mostram que 2025 foi, pela terceira vez consecutiva, o ano mais seguro da atual série de indicadores, com a continuidade da queda de assassinatos e de outros crimes, como roubos e furtos. Em 2017, no ápice da violência no Rio Grande do Sul, foram 2.706 homicídios dolosos. No ano passado, recuaram para 985, redução expressiva de 63,3% no período. Foi o resultado de políticas como o RS Seguro, programa baseado em evidências e voltado a sufocar a delinquência nos municípios com maiores índices de criminalidade.

Esse reconhecimento, porém, não significa que a segurança pública tenha vencido todos os seus principais desafios, como aponta a sétima reportagem da série (leia nas páginas 4 e 5) que o Grupo RBS está produzindo sobre prioridades do próximo governo gaúcho para o RS alcançar maiores patamares de desenvolvimento socioeconômico. Apesar dos avanços, há frentes em que o Estado ainda precisa entregar melhores resultados.

Um deles é o combate aos feminicídios. O delito voltou a crescer em 2025 e segue em alta em 2026. Outro é o enfrentamento aos golpes. Se tornaram o principal crime patrimonial no país, notadamente por meios virtuais. O crescimento da população carcerária em um ritmo muito superior à criação de vagas também é um gargalo à espera de soluções.

Os esforços contra a violência doméstica são evidentes, mas não têm sido suficientes. O programa de monitoramento de agressores por tornozeleira eletrônica é exemplar e pode ser expandido. As patrulhas Maria da Penha prestam um serviço reconhecido, mas estão em menos de um terço das cidades do Estado. 

As Delegacias da Mulher podem ter o número ampliado. É preciso ainda que uma quantidade maior funcione 24 horas por dia, como exige a legislação federal, o que acontece apenas com uma, na Capital. Também faltam abrigos para mulheres sob ameaça. São medidas preventivas necessárias para interromper o ciclo da violência doméstica. Mas sabe-se que uma solução estrutural depende de um processo educativo de longo prazo que dilua a cultura do machismo.

Os golpes virtuais são outra fonte de dor de cabeça para os cidadãos. Não envolvem violência física, mas causam prejuízos e deixam sequelas psicológicas nas vítimas. Essa nova realidade exige aparelhamento tecnológico da Polícia Civil e capacitação dos recursos humanos para investigar, identificar e alcançar os responsáveis pelos estelionatos online. 

Sabe-se também que não são praticados por criminosos dispersos. Nota-se o envolvimento das facções e o surgimento de estruturas sofisticadas para aplicar esses golpes, com divisões de tarefas e metas de faturamento.

Por fim, chama atenção que, entre 2018 e este ano, enquanto a quantidade de detentos cresceu em 17 mil, somente 5,2 mil vagas foram criadas no sistema prisional gaúcho. Assim, o RS voltou a registrar presos em viaturas, o que se imaginava superado. 

Não é apenas o custodiado pelo Estado que é afetado pelas más condições. Quando os presídios facilitam a cooptação de detentos por facções e não propiciam a ressocialização, o resultado é a realimentação da criminalidade. 

29 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER

Juliana promete fim de desconto previdenciário

Os compromissos assumidos por Juliana Brizola (PDT) na sabatina da Rádio Gaúcha combinam redução de receita e aumento de despesas, sem indicar uma fonte certa de financiamento. A candidata se comprometeu a, no primeiro ano de governo, acabar com o desconto previdenciário dos professores aposentados, para tornar mais atrativa a carreira do magistério. Ao mesmo tempo, acenou com reajuste salarial para professores e servidores de diferentes carreiras e com a realização de concurso para acabar com os contratos temporários no magistério.

A candidata disse que tem a palavra do presidente Lula de que, se reeleito, prorrogará o Funrigs para que o Rio Grande do Sul possa se reerguer.

Outra fonte de recursos, esta ao alcance de uma assinatura, é a adesão ao Propag, que, porém, significa retomar o pagamento da dívida e usar a parte relativa aos juros para investir em áreas estratégicas. Juliana quer empregar essa diferença em saúde, educação e irrigação.

Repetidas vezes a candidata citou a abertura de "uma mesa de diálogo", como se os governos até aqui não conversassem com as partes interessadas. Ao garantir que manterá o salário mínimo regional, por exemplo, disse que vai dialogar com empresários e trabalhadores, o que os governos fazem desde a instituição do piso. Sem acordo, acabam arbitrando um percentual entre a demanda dos sindicalistas e a pressão dos empresários contra qualquer aumento. _

Falsa polêmica sobre Aparecida tira foco do que importa na campanha

Enquanto os dois candidatos que lideram as pesquisas de intenção de voto seguem discutindo a falsa polêmica que envolve o título de "padroeira do Brasil", dado a Nossa Senhora Aparecida pelo papa Pio XI em 1930, os assuntos relevantes para a definição dos indecisos seguem em segundo plano. Sem provas, Flávio acusou setores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de estimularem a divulgação de fake news. A CNBB rebateu dizendo que "não se combate uma mentira com outra mentira".

- Não fico dando pitaco (sobre) como é que a Igreja Católica tem de seguir as suas regras. O Estado não tem de se meter nisso, e o Lula, num ato de desespero, ele inclusive foi desmoralizado, foi desmascarado ao vivo ontem numa entrevista na Band, onde ele tentou insistir com isso e o repórter prontamente falou: "Ó, presidente, isso é uma fake news". _

Virou moda no Brasil o réu ou o autor de uma ação querer escolher o juiz. As bets entraram com ação no Supremo contra a proibição dos jogos, determinada pelo presidente Lula, e pediram que o ministro Luiz Fux seja designado relator.

Rigotto entra na mira da direita

Preocupados com o empate indicado em todas as pesquisas na disputa pelo Senado, candidatos e aliados da direita deram início a uma ofensiva contra o ex-governador Germano Rigotto, que concorre a senador pelo MDB.

Aliados dos dois candidatos partiram para o ataque, dizendo que "quem vota no Rigotto está ajudando a eleger a Manuela" ou "a eleger Manuela e Pimenta". _

Campanha à sombra de maridos

No Rio Grande do Sul, há candidatas que não usam o nome do marido no documento de identidade, mas escolheram o sobrenome para tentar conquistar votos do cônjuge. Regina Becker usa o "apêndice" Fortunati (referência ao marido e ex-prefeito da Capital) há várias eleições.

Ricardo Salles repete atitude de Comandante Nádia

Os gaúchos já viram em 2022 o filme que Ricardo Salles protagonizou ontem em São Paulo, ao abrir mão da candidatura ao Senado pelo Novo. No RS, foi a Comandante Nádia, à época candidata pelo PP, quem desistiu da candidatura ao Senado às vésperas da eleição em favor de Hamilton Mourão (Republicanos), que acabou eleito. O temor era de que a divisão da direita acabasse elegendo o ex-governador Olívio Dutra (PT). À época, Nádia havia gasto R$ 3,7 milhões recebidos do diretório nacional do PP.

Salles desistiu da candidatura a menos de uma semana da eleição, convencido pelo governador Tarcísio Gomes de Freitas a ajudar Guilherme Derrite (PP), o candidato da direita que está empatado com Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede). Salles, ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro, já tinha recebido mais de R$ 4,4 milhões para a campanha, sendo R$ 3,1 milhões do fundo eleitoral do Novo e R$ 470 mil da direção estadual do partido. 

POLÍTICA E PODER

29 de Setembro de 2026
EM FOCO

Sob a pressão de se adaptar para ter mais segurança

Dados mostram que não se trata apenas de reduzir a criminalidade no Estado, mas de ajustar as estruturas existentes às novas formas de violência e a problemas que se agravaram nos últimos anos. Alta nos feminicídios, avanço dos golpes virtuais e presídios superlotados desafiam a proteção pública, aponta a quinta reportagem da série Desafios do Rio Grande do Sul

Em 2017, há menos de 10 anos, o RS viveu o período mais violento de sua história recente. Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado, foram 3,1 mil vítimas de crimes violentos letais intencionais, como homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte. Em 2016, foram registrados os maiores números de roubos (88,5 mil) e latrocínios (169) da série histórica que remonta a 2002.

Estes crimes tiveram quedas significativas de lá para cá. O ano de 2025 teve os menores registros de vítimas de crimes letais intencionais (1,1 mil) e roubos (18,7 mil) nos 23 anos de dados.

Mas, o cenário da segurança pública mudou. Se os homicídios dolosos tiveram quedas recordes, a violência contra a mulher continua fazendo vítimas. Se os assaltos diminuíram, a vivência no ambiente digital é ameaçada pelos golpes - os registros de estelionato cresceram quase 372% em 10 anos. E a população carcerária cresce em ritmo superior ao da criação de novas vagas.

Esta é a quinta reportagem da série Desafios do RS, do Grupo RBS, a partir de ouvidorias realizadas pelo Conselho Editorial da RBS junto a diferentes setores da sociedade e da consulta a fontes independentes. _

1| Violência contra a mulher

Após atingir o menor número da série histórica em 2024, os feminicídios voltaram a crescer. Em 2025, foram 80 casos, aumento de quase 10% em relação ao ano anterior. A alta também aparece nas tentativas de feminicídio. Em 2025, foram 263 casos, contra 236 em 2024, crescimento de 11,4%.

E o cenário permanece preocupante em 2026. Até agosto, o RS contabilizou 55 feminicídios, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública.

Atualmente, cerca de 1,5 mil homens são monitorados por tornozeleiras eletrônicas, enquanto mulheres sob medida protetiva podem receber telefones que emitem alertas quando o agressor se aproxima. Mas a rede de proteção e as estruturas estatais para enfrentar o problema ainda estão concentradas em algumas regiões, sem acompanhar a migração populacional recente, especialmente impulsionada pela pandemia. O RS tem 25 delegacias da Mulher. Duas ficam em Porto Alegre e só uma, também na Capital, funciona 24 horas - contrariando legislação federal que exige o funcionamento ininterrupto. Cinco delegacias tiveram o horário ampliado até as 20h em 2025.

Em 2026, o Estado anunciou a criação de nova delegacia especializada em Santiago, na Região Central. Outras áreas ainda carecem dessa estrutura: é o caso do Litoral Norte, que não tem nenhuma, e do Vale do Paranhana.

Outra política fundamental no campo da polícia é a Patrulha Maria da Penha. São 63 equipes, que atuam em 114 municípios e acompanham quase 16 mil vítimas. Isso significa presença em cerca de 23% das cidades gaúchas.

Um gargalo importante está na rede de acolhimento: não há abrigos para vítimas em todas as cidades. O desafio, portanto, extrapola a atuação das forças de segurança. Envolve assistência social, saúde, educação e políticas específicas para mulheres. _

2| População carcerária

Em setembro de 2026, a população carcerária chegou a cerca de 57 mil pessoas, o maior número da história do Estado. O avanço ocorre mesmo com a inauguração de novas unidades prisionais, como a Cadeia Pública de Porto Alegre, a Penitenciária de Charqueadas 2 e uma nova prisão feminina em Caxias do Sul.

O último relatório da Secretaria Nacional de Políticas Penais aponta que o RS tem o quinto maior déficit de vagas prisionais do país. Dados do governo mostram que faltam 15.352 vagas. Hoje, o RS tem 104 casas prisionais, o quarto maior número entre os Estados brasileiros.

Para a defensora pública Mariana Py Muniz, o problema é que o número de presos cresce em ritmo superior à capacidade de criação de novas vagas. Segundo ela, uma nova unidade pode começar a funcionar já próxima da lotação.

A expansão do número de presos é ligada ao aumento no rigor de penas com novas legislações, como a Lei Antifacção, e à qualificação de inquéritos policiais. Também há o problema dos presídios mistos masculinos e femininos. Hoje, são 4.150 mulheres presas no Estado, sendo 1.120 em presídios exclusivos para mulheres, 1.202 em presídios mistos e 1.828 monitoradas por tornozeleiras.

O bloqueio do sinal telefônico nos presídios também precisa ser resolvido. A empresa contratada para operar o sistema na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas teve o contrato rompido e a nova vencedora não conseguiu resolver o problema, admite o Estado.

Por outro lado, especialistas apontam como avanço a transferência para a Polícia Penal da gestão de unidades que ficaram sob responsabilidade da Brigada Militar por décadas. A corporação assumiu a administração do Presídio Central e da Penitenciária Estadual do Jacuí em 1995. A transição começou a ser retomada nos últimos anos e foi concluída na PEJ em junho. _

3| Golpes virtuais

Os registros de golpes virtuais aumentaram cerca de 8% no último ano, e uma parcela dos casos nem chega ao conhecimento da polícia. O crescimento da criminalidade digital também pressiona uma estrutura policial que foi organizada para investigar crimes praticados de forma mais tradicional.

Dados obtidos pela reportagem, por meio da Lei de Acesso à Informação, mostram que, entre 2020 e 2025, a Polícia Civil remeteu 77.326 inquéritos de estelionato à Justiça. Em cerca de sete em cada 10 casos, não houve indiciamento de um suspeito. Além da especialização dos agentes, outro desafio está na troca de informações entre o setor público e empresas privadas. Parte do conhecimento sobre métodos usados pelos criminosos permanece dentro das empresas que identificam os ataques. _

Soluções passam por especialização e inteligência

Os desafios são diferentes, mas as potenciais soluções têm um ponto em comum: não dependem apenas do aumento do efetivo policial ou da construção de novas prisões. Para enfrentar a violência contra a mulher, especialistas defendem ampliar a rede de proteção e levar o atendimento especializado a mais regiões. Nos crimes virtuais, a aposta é na especialização das investigações e na integração com empresas de tecnologia. No sistema prisional, a prioridade é controlar a ocupação das unidades de maneira inteligente e criar políticas para reduzir a reincidência.

A pesquisadora Marlene Spaniol, com pós-doutorado em Segurança Pública e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, defende a expansão da Patrulha Maria da Penha. Hoje, são 63 equipes atuando em 114 municípios. Uma das dificuldades para a expansão era a necessidade de formação específica dos policiais, exigência que, segundo ela, tende a ser superada porque o conteúdo passou a integrar os cursos de formação de todos os brigadianos.

A expansão da proteção também depende da existência de lugares seguros para mulheres ameaçadas. Para a promotora e coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher do MPRS, Ivana Battaglin, quando uma mulher em situação de violência não encontra abrigo no município onde vive, o Estado precisa oferecer alternativa, seja por meio de vagas em outras estruturas ou de outras formas de acolhimento. Para ela, a política precisa envolver também saúde, educação, assistência social e a Secretaria de Políticas para Mulheres.

Maior preparação

O programa de tornozeleiras eletrônicas para agressores é considerado um acerto. A ampliação do monitoramento é apontada como alternativa pelas especialistas. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, nunca houve feminicídio praticado por um dos agressores acompanhados por tornozeleira.

Nos crimes virtuais, os especialistas defendem que o Estado aproveite estruturas que já existem e aumente a especialização dos policiais. Para o doutor em Segurança Pública e professor da PUCRS Rodrigo Azevedo, investigar delitos cometidos por celulares, redes sociais e outras plataformas digitais exige conhecimento específico.

- É preciso que haja investimento na especialização da Polícia Civil, para que ela possa ter grupos especializados na investigação de crimes online de maneira descentralizada - argumenta.

O delegado, ex-chefe de Polícia Civil e doutor em Segurança Pública Emerson Wendt defende aproveitar estruturas que já existem na Polícia Civil, como as 27 delegacias de repressão às ações criminosas organizadas. Para ele, fraudes, extorsões, furtos e vazamentos de dados não devem ser tratados só como crimes isolados praticados na internet. Há, em muitos casos, organizações criminosas por trás das operações. E Wendt prega aproximação maior entre poder público e empresas privadas, que acumulam informações sobre fraudes, ataques e vazamentos de dados.

Controlar a ocupação

No sistema prisional, a defensora pública Mariana Py Muniz defende o controle do fluxo de entrada e saída dos presídios e a criação de uma central de regulação de vagas. A proposta inclui também revisar prisões provisórias nos casos previstos em lei, acelerar progressões de regime e utilizar alternativas penais quando cabíveis.

Para a doutora em Ciências Criminais Ana Carolina Proença, é preciso ampliar o acompanhamento de quem deixa o sistema prisional. Ela defende o fortalecimento dos chamados escritórios sociais, que ajudam na busca por emprego, qualificação profissional e acesso à assistência.

O professor Rodrigo Azevedo chama atenção especialmente para os primeiros meses após a saída. Para Azevedo, é necessário oferecer condições de empregabilidade e acompanhamento com participação do poder público e da iniciativa privada.