4| Aeroportos regionais tiveram pico em 2021
Outro modal de transporte fundamental para a integração logística estadual é o aeroportuário. Na última década, além do aeroporto internacional de Porto Alegre, o Rio Grande do Sul passou de cinco para seis terminais regionais em operação, mas chegou a ter um pico de 15 com voos regulares em 2021.
Até 2015, recebiam voos comerciais regulares os de Caxias do Sul, Pelotas, Santa Maria, Passo Fundo e Uruguaiana - o aeroporto de Santo Ângelo voltou a operar em 2017. Por outro lado, conforme a Secretaria Estadual de Logística e Transportes (Selt), deixaram de ter operações comerciais frequentes desde 2021 os de Bagé, Santa Rosa, São Borja, Torres, Canela, Vacaria, Santa Cruz do Sul, Alegrete e Erechim.
Também segundo a secretaria, a diminuição da utilização das estruturas regionais se deu por uma questão mercadológica do setor da aviação civil, que passou a operar com aeronaves maiores nos últimos anos. Assim, as companhias foram deixando de realizar voos com aeronaves menores, e então os aeroportos menores também foram deixando de ter uso.
Ainda de acordo com a Selt, o movimento de passageiros passou de 435.971 em 2016 para 713.215 em 2025, crescimento de 63,6%. Já o número total de decolagens cresceu de 5.784 voos para 6.566 (13,5%).
Mais terminais
O transporte de cargas, que nos aeroportos regionais ocorre predominantemente nos porões das aeronaves de passageiros que realizam os voos regulares, também cresceu no período: passou de aproximadamente 0,7 mil toneladas em 2016 para 1,45 mil toneladas em 2025.
- O Estado precisa de mais opções de terminais, para voos de longa distância e de curta distância. É uma questão estratégica, já vimos como é arriscado ficar dependente só de um aeroporto de maior porte. Tem agora o projeto do novo aeroporto da Serra, em Caxias, que deve começar as obras em breve. Precisamos desse e, se possível, outros. Esse reforço da malha é fundamental para melhorar a logística com o transporte de passageiros e cargas - observa Ricardo Portella, coordenador do Conselho de Infraestrutura e vice-presidente do Sistema Fiergs. _
Soluções incluem recuperação de vias, hubs logísticos e integração entre modais
Especialistas destacam como essencial para a evolução da infraestrutura logística do RS que os investimentos no setor sejam contínuos e superem gestões administrativas específicas, propiciando maior diversificação da matriz de transportes. Além disso, apontam a importância da tomada de decisão integrada entre governo estadual e federal, e também com as administrações municipais.
- A nova concessão da malha ferroviária é um exemplo de como é importante que os governos estaduais e o governo federal consigam chegar a um acordo pensando principalmente no desenvolvimento das regiões impactadas - argumenta Paulo Menzel.
O término das obras de recuperação após a enchente de 2024 também é apontado como prioridade. Além das estruturas de contenção contra cheias, os projetos aprovados no Plano Rio Grande e com recursos do Funrigs preveem a restauração de rodovias e também de equipamentos portuários, serviços de dragagem e outras atividades estruturantes.
- É preciso entender que investimento em infraestrutura é um vetor de desenvolvimento: reduz custos de transporte, deixa os negócios mais competitivos, geram-se mais empregos, aumenta-se a efetividade e a produtividade das empresas e atrai investimentos - afirma o economista Lucas Schifino, gerente de Relações Governamentais da Fecomércio-RS.
Para Ricardo Portella, coordenador do Conselho de Infraestrutura da Fiergs, a possibilidade de utilizar diferentes modais é fundamental para ter um transporte de cargas mais eficiente.
- Onde há competição e complementariedade de modais, o empresário consegue reduzir seu custo logístico. O Rio Grande do Sul já é o Estado com o maior custo logístico proporcional do Brasil - acrescenta.
Em complemento, o reforço geral e a integração estratégica dos diferentes modais de transporte também são aspectos apontados como demandas do setor produtivo para o avanço das condições logísticas.
- No agro, temos muito a questão da sazonalidade, então concentramos muito transporte em determinadas épocas do ano, e você precisa dar as melhores condições para o escoamento dessa carga - aponta o presidente da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Domingos Velho Lopes.
Multimodalidade
O desenvolvimento e o fortalecimento dos diferentes canais de transporte podem ainda propiciar o estabelecimento dos hubs logísticos, pontos estratégicos de concentração, conexão e distribuição de cargas e mercadorias entre diferentes origens e destinos. Nessa concepção, o município de Santa Maria, na Região Central, desponta com um projeto já em andamento dentro deste modelo.
O projeto do Hub Logístico da Região Central começou a ser desenvolvido há cerca de quatro anos, impulsionado pela Agência de Desenvolvimento de Santa Maria (Adesm) e por parcerias com instituições como a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Conforme as lideranças do projeto, o objetivo é transformar a logística e impulsionar o desenvolvimento socioeconômico da região, estabelecendo um sistema integrado de transporte multimodal, criando um novo polo de crescimento econômico.
- Temos uma localização privilegiada, a cerca de 300 quilômetros de todos os principais centros econômicos e do porto de Rio Grande, além de conexões rodoferroviárias e aeroportuárias. Isso nos credencia a ser um polo de distribuição de cargas para o Estado e além de nossas fronteiras - afirma Evandro Behr, presidente da Adesm. _
Série aborda os principais desafios que o Estado precisa enfrentar para avançar. Na quarta reportagem das oito previstas, especialistas ressaltam quatro pontos que merecem a atenção do eleitor em transportes e logística e apontam soluções
Como tornar a infraestrutura do RS mais eficiente e resiliente
Mathias Boni
mathias.boni@zerohora.com.br
Há décadas o Rio Grande do Sul sofre com gargalos de infraestrutura e logística que elevam os custos de transporte, dificultam o escoamento de cargas e reduzem a competitividade do setor produtivo. As limitações no uso de hidrovias, ferrovias e aeroportos regionais intensificam a dependência das rodovias - alternativa que encarece ainda mais as operações devido às condições inadequadas de parte da malha viária, reduzindo a competitividade do Estado.
Esse cenário foi agravado pela enchente de 2024, que devastou de forma dramática a capacidade logística estadual - gerando prejuízo de R$ 4,1 bilhões estimado pelo Banco Mundial por perdas na infraestrutura de transportes.
O desastre climático provocou deslizamentos em estradas, derrubou pontes e reduziu as possibilidades operacionais de ferrovias e hidrovias. Além disso, deixou fora de operação por vários meses o Aeroporto Internacional Salgado Filho, na Capital, o principal do Estado.
A magnitude da tragédia expôs vulnerabilidades e evidenciou a urgência de reforçar e expandir a rede logística.
Segundo especialistas, as estruturas precisam se tornar mais resilientes e contemplar alternativas de integração entre os diferentes modais. O objetivo é suportar novos eventos climáticos, consolidar hubs logísticos, garantir condições adequadas de competitividade e alavancar o crescimento econômico.
Esta é a quarta de uma série de oito reportagens do Grupo RBS sobre os principais desafios que o Estado precisa enfrentar para avançar nos próximos anos. Zero Hora selecionou, a partir de ouvidorias realizadas pelo Conselho Editorial da RBS e da consulta a fontes independentes, questões centrais que merecem a atenção dos representantes do eleitor na área de infraestrutura e logística.
A reportagem apresenta um panorama atual e reúne soluções e caminhos apontados por especialistas. _
1| Melhorias no sistema rodoviário
Enquanto o modal rodoviário responde por cerca de 90% do transporte da produção gaúcha, conforme a Câmara Brasileira de Logística e Infraestrutura (CâmaraLog), aproximadamente 73% das rodovias estaduais e federais foram consideradas "regulares, ruins ou péssimas" na pesquisa anual da Confederação Nacional do Transporte (CNT) de 2025.
Como destaca Paulo Menzel, presidente da CâmaraLog e CEO do Grupo Intelog, o avanço logístico necessário depende tanto da melhoria rodoviária quanto da maior utilização dos modais ferroviário, hidroviário e aeroportuário:
- O custo logístico do RS, hoje, é um dos maiores do país, e isso se deve, principalmente, ao atraso que enfrentamos em termos de infraestrutura. Pela falta de desenvolvimento dos equipamentos e uso dos outros modais, o rodoviário acaba assumindo uma carga que não é do seu DNA, gera preços mais caros pela falta de opções complementares e sobrecarrega as estradas.
A tradicional pesquisa da CNT avalia todas as rodovias federais e grande parte das estaduais, analisando 8,8 mil quilômetros de estradas gaúchas ao total, levando em consideração aspectos como pavimento, sinalização e geometria da via. O levantamento de 2025 classificou 46,7% dos trechos como regulares, 20,2% como ruins e 6,1% como péssimos. Os trechos em boas condições somaram 25,2%, e os ótimos, apenas 1,8%. Os índices deixam o Estado atrás da média nacional (37,9% de trechos bons ou ótimos) e de vizinhos como Santa Catarina (36,8%) e Paraná (38,6%).
- Os impactos das enchentes mostram como o planejamento dessa malha também tem de levar a questão climática em consideração para ser resiliente. Na nossa pesquisa, englobamos os trechos avaliados como regulares junto aos ruins e péssimos porque neles as rodovias começam a apresentar buracos, sinalização ruim e entraves ao tráfego - aponta Fernanda Rezende, diretora- executiva da CNT.
Mesmo antes da enchente de 2024, 72,2% do estado geral das rodovias estava em condições regulares, ruins ou péssimas, mas a tragédia climática agravou a situação: atingiu 13,7 mil quilômetros de estradas, derrubou dezenas de pontes e causou centenas de pontos de bloqueio. Inúmeras rodovias fundamentais para o escoamento de cargas foram severamente impactadas.
15% de custo a mais
No laticínio Sans Souci, em Eldorado do Sul - um dos municípios mais afetados pelo evento climático -, as dificuldades logísticas geram prejuízos contínuos. A empresa, além de ter sido inundada durante a enchente, também fica em uma região que sofre há tempos com dificuldades logísticas.
- Para receber a matéria-prima e distribuir nossos produtos, dependemos totalmente das rodovias, mas vemos muitas com obras de duplicação inacabadas, más condições de pista, sinalização. Fazemos uma estimativa de 15% de custo extra de produção e distribuição, em relação a tempo perdido de deslocamento e manutenção de veículos - diz Sigrid Pesenatto, sócia do laticínio junto ao marido, Enio Pesenatto.
Falta de trechos duplicados
Outro gargalo histórico relacionado às rodovias é a pouca quantidade de quilômetros duplicados, o que também impacta diretamente as condições de tráfego e a eficiência do transporte. Nas rodovias federais, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) afirma que, entre 2016 e 2026, realizou a duplicação de 180 quilômetros da BR-116 entre Guaíba e Pelotas, 28 quilômetros da BR-290 entre Eldorado do Sul e Pantano Grande e 34 quilômetros da BR-386 entre Tabaí e Estrela.
Contudo, a totalidade das obras de ampliação da capacidade das rodovias, tanto da BR-116 quanto da BR-290 e da própria BR-386, ainda não foi concluída e segue em andamento. A autarquia também empenhou R$ 1,1 bilhão para intervenções emergenciais e reconstrução de vias após a enchente de 2024.
De acordo com o presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga e Logística (Setcergs), Delmar Albarello, essa deficiência estrutural gera prejuízos diretos à competitividade do setor produtivo por meio do aumento no tempo de viagens, custos elevados de frete e maior desgaste da frota.
Além do impacto logístico imediato, o déficit de infraestrutura compromete o desenvolvimento econômico global do território gaúcho, uma vez que novos investimentos industriais costumam migrar para regiões com maior facilidade de escoamento e custos operacionais reduzidos.
Albarello reforça que, por estar localizado na extremidade sul do país, o Estado deveria tratar a eficiência logística como uma prioridade absoluta para mitigar as desvantagens geográficas.
Insuficiência de recursos
Já na malha do Estado, até 2015, havia 146 quilômetros duplicados. De lá para cá, conforme a Secretaria Estadual de Logística e Transportes (Selt), entre trechos concedidos e não concedidos, foram duplicados mais 38 quilômetros: 12 quilômetros na RS-287, 21 quilômetros na RS-118 e cinco quilômetros na RS-734. A secretaria aponta ainda que, com recursos do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), foram investidos cerca de R$ 3,1 bilhões para recuperação viária após a enchente de 2024, com obras ainda em andamento em 32 lotes de rodovias e 14 pontes.
Segundo o doutor em transportes e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Luiz Afonso Senna, o orçamento histórico do Departamento Autônomo de Estradas e Rodagem (Daer) destinava apenas R$ 150 milhões anuais ao setor, montante insuficiente diante da demanda estimada em cerca de R$ 2 bilhões por ano apenas para a manutenção das estradas estaduais:
- No caso das rodovias, temos um grande problema que é a insuficiência de recursos para que o Estado possa fazer os investimentos necessários. Há uma situação hoje absolutamente crítica. _
2| Degradação ferroviária
O processo de precarização das ferrovias gaúchas é histórico. Desde a privatização, em 1997, e o estabelecimento da Malha Sul, a extensão utilizada no RS diminuiu 75%, passando de 3,8 mil para os atuais 921 quilômetros - até a tragédia climática de 2024, eram 1,6 mil quilômetros. Hoje, os trens transportam só cargas, mas o volume despencou 50% entre 2007 e 2025, caindo de 4 milhões para cerca de 2 milhões de toneladas anuais. Atualmente, o único trajeto em operação sai de Cruz Alta para o porto de Rio Grande.
A concessão da Malha Sul, administrada pela empresa Rumo e que inclui também as ferrovias de Paraná e Santa Catarina, vence em fevereiro, mas será prorrogada em até dois anos até que uma nova empresa possa assumir. O que acabou se tornando um imbróglio: o governo federal, por meio da Agência Nacional dos Transportes Terrestres (ANTT), defende o fatiamento da nova concessão em três lotes: Corredor Paraná-Santa Catarina, com 1.502 quilômetros concentrados nesses Estados, Corredor Mercosul, com 1.865 quilômetros, ligando SP até a fronteira com a Argentina, passando por PR, SC e parte do território do RS, e o Corredor Rio Grande, com 880 quilômetros, entre o noroeste gaúcho e Rio Grande.
O governo pretende realizar o leilão já em 2027, mas representantes gaúchos e catarinenses do setor defendem novo estudo e que a malha siga com apenas um grupo na administração.
- Depois da enchente, as ferrovias ficaram para trás, num empurra-empurra entre governos e concessionária. Na nova proposta, quem vai querer assumir um trecho concentrado no Estado com boa parte da estrutura destruída? - questiona João Edacir Calegari, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias do RS. _
3| Subutilização das hidrovias
Outra forma de transporte de cargas que especialistas consideram atualmente subutilizada no Rio Grande do Sul é a hidroviária. A situação do modal também se agravou após a enchente de 2024.
Segundo a Associação Hidrovias do Rio Grande do Sul (Hidrovias RS), o Estado chegou a ter 1,2 mil quilômetros navegáveis até cerca de 30 anos atrás, mas o percurso foi sendo reduzido com o passar do tempo, principalmente por falta de dragagem e manutenção. Em 2023, eram em torno de 700 quilômetros, número que voltou a cair após a cheia.
Redução de portos
De 12 portos internos espalhados por cidades durante o auge da operação das hidrovias, restaram em operação regular somente os de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre - deixaram de operar com regularidade para o transporte de cargas os de Venâncio Aires, General Câmara, Tapes, Cachoeira do Sul, Estrela, Montenegro, São Lourenço do Sul, Rio Pardo e Santa Vitória do Palmar. Além disso, dos 21 terminais privados ao longo do traçado, sobraram 14.
Nos esforços de recuperação do Estado após a cheia, foram destinados R$ 731 milhões de recursos do Funrigs para dragagem e outras obras de reforço estrutural das hidrovias. Com os recursos, o governo estadual, via Portos RS, contratou serviços de dragagem para 22 canais hidroviários, divididos em sete lotes de execução, para serem realizados principalmente no canal de acesso ao porto de Rio Grande e aos canais de acesso da Lagoa dos Patos e do Guaíba - dos sete lotes, pelo menos três já foram finalizados, três estão em andamento e o sétimo, que envolve trechos dos rios Gravataí e Sinos, ainda está em fase de contratação.
- As coisas voltaram a evoluir com os investimentos realizados após 2024, o retorno da navegação noturna já foi uma conquista. Com as dragagens e os outros investimentos de infraestrutura portuária, poderemos aumentar o percurso navegável de volta, pelo menos, a 700 quilômetros, aumentar os cerca de 6 milhões de toneladas movimentadas para uma faixa entre 9 milhões e 12 milhões, retomar o uso de outros portos internos, já que continuamos apenas com Rio Grande como porto marítimo. A hidrovia é o modal mais barato, e o RS precisa explorar esse potencial - defende Wilen Manteli, presidente da Hidrovias RS.