19 Fevereiro 2026
Inovação
IA impulsiona startups gaúchas no mercado de combustíveis
Iniciativas desenvolvem soluções tecnológicas que atendem diferentes frentes da cadeira produtiva do combustível
O avanço da Inteligência Artificial tem transformado setores tradicionais da economia e, no segmento de combustíveis, a tecnologia vem ganhando espaço como ferramenta estratégica para aumentar eficiência operacional, reduzir custos e melhorar indicadores ambientais. Um relatório de 2016 da McKinsey & Company apontou que a adoção de novas tecnologias elevava a eficiência operacional em até 20% no setor de petróleo e gás, além de reduzir custos de manutenção entre 10% e 40%. Uma década depois, startups gaúchas são a prova de um cenário ainda mais otimista, já que ocupam um espaço relevante ao desenvolver soluções tecnológicas voltadas à cadeia produtiva do combustível. Entre elas, está a EvcomX.
Atuando no mercado desde 2021, a EvcomX nasceu a partir da experiência acadêmica e profissional de Rodrigo Dalla Vecchia, CEO e um dos fundadores da startup. Pesquisador no departamento de matemática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), o empreendedor já atuava com projetos de consultoria para empresas quando identificou a possibilidade de transformar o conhecimento científico em soluções aplicadas ao mercado.
A empresa foi criada após um projeto desenvolvido em parceria com o setor industrial, que reuniu Dalla Vecchia e dois alunos pesquisadores. “Começamos com três pessoas e hoje já passamos de 50 colaboradores, com previsão de chegar entre 60 e 70 nos próximos meses”, afirma o CEO.
Especializada em ciência de dados, a EvcomX combina diferentes técnicas tecnológicas, como Inteligência Artificial, modelagem matemática e pesquisa operacional. A startup é formada por Rodrigo e outros cinco sócios: Lucas Siviero Sibemberg, Alexandre Moreira Kappel, Fernando Ferreira Souza, Lucas Gabriel Seibert e Eduardo Coelho.
Com matriz localizada em Encantado, no Vale do Taquari, a empresa iniciou as atividades em formato remoto durante a pandemia. Em 2023, a startup passou a contar com uma sede física no Instituto Caldeira, em Porto Alegre. Atualmente, a equipe atua de forma distribuída, com profissionais em diferentes regiões do Brasil. “Temos pessoas atuando em todas as partes do País e fora também, em países como a Alemanha”, afirma Rodrigo, destacando a presença da startup em empresas de grande porte.
A EvcomX atende principalmente grandes empresas dos setores de siderurgia, mineração, energia, logística e petróleo e gás. No segmento de combustíveis, a atuação envolve soluções para diferentes etapas da cadeia produtiva, desde processos operacionais até a distribuição logística.
Um dos principais exemplos é o trabalho desenvolvido para a Petrobras, cliente da startup desde o início das operações. A solução utiliza modelos de linguagem natural — conhecidos como LLMs — para analisar e classificar milhares de notas de manutenção geradas diariamente em plataformas offshore.
Soluções no segmento de gás e petróleo
Segundo Dalla Vecchia, a complexidade está no fato de que as ocorrências são registradas em linguagem natural, o que faz com que o mesmo problema possa ser descrito de maneiras diferentes. “São nove Inteligências Artificiais que analisam mais de 40 tipos de ocorrências. A tecnologia identifica duplicidades, erros de preenchimento e outras inconsistências, aumentando a segurança das operações e reduzindo custos”, explica.
A ferramenta analisa dados de mais de 100 plataformas e atende cerca de 1,5 mil usuários. De acordo com a empresa, a solução já gerou uma economia estimada em R$ 180 milhões ao cliente, além de reduzir significativamente o tempo de análise dos relatórios.
Outro foco da startup está na previsão de consumo de gás para indústrias. A tecnologia desenvolvida pela empresa aumentou em cerca de 80% a precisão das projeções, evitando multas aplicadas quando há divergência entre consumo previsto e real. O resultado chamou a atenção de companhias do setor energético, incluindo a Cemig, que passou a utilizar as soluções para melhorar o planejamento do abastecimento.
Além disso, a empresa trabalha no desenvolvimento de soluções voltadas à organização e digitalização de documentações técnicas relacionadas à manutenção de tubulações submarinas de gás. O objetivo é garantir acesso rápido a informações críticas de segurança e reduzir riscos operacionais.
De acordo com o CEO, a aplicação de ciência de dados permite transformar processos produtivos ao substituir modelos teóricos por análises baseadas em grandes volumes de dados operacionais. “Hoje, conseguimos analisar milhões de dados para tornar equipamentos e processos mais eficientes. Isso gera economia e aumenta a segurança das operações”, afirma o empreendedor.
Desperdício e ESG
A otimização também pode ser aplicada à logística de distribuição, ajudando empresas a encontrar rotas mais eficientes para transporte de combustíveis e dimensionar estoques de forma mais precisa, evitando faltas ou excessos. O Bernstein SocGen Group, joint venture global líder em pesquisa de ações e corretagem, apontou que iniciativas digitais poderiam gerar uma economia global avaliada em US$ 320 bilhões entre 2026 e 2030, com os maiores benefícios em perfuração, manutenção preditiva, gerenciamento de reservatórios, logística e robótica autônoma.
Outro impacto relevante ocorre na agenda ambiental das empresas. Segundo Rodrigo, ao tornar processos produtivos mais eficientes, a tecnologia contribui diretamente para a redução do consumo energético e das emissões de carbono. “Quando uma empresa produz mais utilizando menos recursos, ela consome menos energia e, consequentemente, reduz a emissão de gases. A eficiência operacional acaba se tornando também uma estratégia ambiental”, explica.
Apesar de atuar em um segmento tradicional, o executivo afirma que não há resistência das grandes empresas à adoção de novas tecnologias. Pelo contrário, segundo ele, existe uma demanda crescente por soluções capazes de resolver problemas complexos e melhorar a tomada de decisão estratégica.
O movimento acompanha uma tendência global de digitalização da indústria, conhecida como quarta revolução industrial, que prevê a criação de “gêmeos digitais” — modelos matemáticos capazes de simular cenários produtivos e prever impactos operacionais antes da implementação de mudanças reais.
Conquistas e expansão
No campo estratégico, a EvcomX também vive um momento de expansão. Em 2025, a startup foi reconhecida nacionalmente ao ficar entre as 10 melhores empresas de Inteligência Artificial no ranking do Open Startups. A empresa também recebeu premiação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) por projetos desenvolvidos em parceria com o setor petrolífero.
Segundo o CEO, a empresa projeta crescimento superior a 200% e pretende ampliar sua atuação internacional, com foco inicial no mercado norte-americano, especialmente em soluções voltadas à logística industrial e ao setor siderúrgico.

Em 2025, a startup foi reconhecida nacionalmente ao ficar entre as dez melhores empresas de IA EVCOMX/DIVULGAÇÃO/JC
“O papel da Inteligência Artificial nos próximos anos será habilitar uma nova forma de tomada de decisão nas empresas, permitindo simular cenários e prever impactos com muito mais precisão. A tecnologia não substitui o humano, mas amplia a capacidade de análise e geração de insights”, afirma.
Com 6 mil clientes em 16 países, empresa gaúcha otimiza gestão de combustíveis
A CTA Smart nasceu em 2012 a partir de demandas de pequenas empresas distribuidoras de diesel
Diversos veículos de grande porte, como ônibus ou máquinas colheitadeiras, não abastecem seus tanques de combustível em postos comuns. Movidas a óleo diesel, as frotas são abastecidas por bombas internas, administradas por distribuidoras menores, os Transportadores Revendedores Retalhistas (TRR). Até hoje, alguns desses registros são feitos manualmente por funcionários, que anotam as quantidades de diesel num papel para que os dados sejam digitalizados posteriormente. Em meio a este processo, no entanto, erros humanos e fraudes podem acontecer, gerando desperdício de combustível às empresas.
Foi pensando em modernizar e otimizar esse trabalho que surgiu a ideia da CTA Smart, empresa que automatiza a contagem de diesel e digitaliza os dados para que as distribuidoras possam ter total controle sobre seu combustível. "Um dos sócios conhecia um cara que tinha uma empresa TRR. Ele se queixava, porque essas empresas têm muitas bombas em vários lugares diferentes, e não havia um sistema que dissesse a elas quanto de combustível havia em cada bomba, de forma integrada", conta Bruno Lopes, sócio e CEO da CTA Smart. "Eles foram num cliente, que tinha uma pequena frota de ônibus. Estava chovendo, e tinha um senhor anotando os dados na chuva. Data, hora, volume abastecido, veículo, quilometragem. Ele disse que depois um estagiário passava os dados para uma planilha e aí faziam a análise. A ideia então foi resolver os dois problemas: o do registro dos dados e o da digitalização", conclui Bruno.
A tecnologia desenvolvida pela CTA Smart trata-se de um aparelho semelhante a um totem com um teclado de números, plugado às bombas de combustível. Nele, os funcionários se identificam através de um código pessoal e digitam o código da bomba e a quantidade de combustível que será utilizada. A bomba trava automaticamente ao atingir o número determinado, a fim de evitar desperdícios e fraudes. Em tempo real, os dados são enviados a um site de acesso da distribuidora, no qual são disponibilizados relatórios e gráficos.
O papel da IA
A Internet das Coisas (IoT - sigla em inglês) é a integração de diferentes objetos físicos interligados por uma rede. Um exemplo comum são as casas conectadas, com funcionalidades como a ativação da cafeteira minutos após o despertador, para que o usuário acorde com o café pronto. De acordo com Bruno, a CTA Smart é "IoT na veia". "Nós transformamos um dado que era totalmente analógico em algo digital. Abastecemos a IA com aquilo que ela precisa: dados. E a IA organiza isso para entregar tudo pronto ao cliente. Isso facilita as análises financeiras, de manutenção, de eficiência. É o que permite essa conectividade", explica.
De acordo com Bruno, muitas variáveis passam pelos dados no setor de combustíveis, e a IA é uma excelente ferramenta para a detecção de mudanças de padrão, acelerando a velocidade da tomada de decisões estratégicas. "No setor de combustíveis, os ganhos e perdas são medidos na terceira casa depois da vírgula, então o uso de IA dando qualquer tipo de ganho de eficiência já é muito significativo", destaca.
Sustentabilidade e futuro
A indústria de combustíveis passa por mudanças importantes com o surgimento de veículos elétricos. Por mais que trabalhe majoritariamente com diesel, Bruno defende que a sustentabilidade é um pilar da CTA Smart. "Brinco que é o 'no bullshit ESG', porque é sustentabilidade de verdade, não só no discurso. Nosso negócio, pela eficiência do controle de abastecimento, gera uma economia de até 20% nos nossos clientes. Ou seja, é um material altamente poluente sendo menos utilizado na operação", afirma.
Atualmente, veículos pesados estão num estágio inicial de transição de combustíveis. Caminhões e colheitadeiras, por exemplo, ainda dependem quase que exclusivamente do diesel. No entanto, a CTA Smart se prepara para o futuro. "Quando ocorrer essa transição, nós continuaremos sendo a empresa que fará essa inteligência. Isso não acontece de um dia para o outro, então estamos nos adaptando junto, automatizando a operação de outros combustíveis", projeta Bruno.
Brasil tem formação robusta em tecnologia, afirma especialista
Dados de uma pesquisa da AllianceBernstein indicam que os gastos com tecnologia da informação no setor de petróleo e gás devem crescer, em média, 7,4% ao ano
A aplicação de IA no setor de combustíveis avança rapidamente e já se estende por toda a cadeia produtiva, da exploração do petróleo ao abastecimento final nos postos. Segundo o coordenador do curso superior de Tecnologia em Inteligência Artificial e Ciência de Dados do UniSenac, Vitor Hugo Lopes, a tecnologia deixou de ser uma tendência futura para se tornar uma ferramenta estrutural na operação do segmento.
"Hoje, temos um atravessamento de Inteligência Artificial em todas as etapas do processo, desde a extração do combustível até a ponta, quando o cliente está realizando o pagamento", afirma. Ele explica que boa parte das soluções aplicadas ao setor não foi necessariamente criada para o mercado de combustíveis, mas adaptada a partir de tecnologias já utilizadas em outras áreas.
Entre os principais modelos aplicados, destacam-se sistemas de análise preditiva e monitoramento por sensores, usados para otimizar operações e reduzir falhas. "Quando a gente fala de modelos de predição, estamos falando de tecnologias que já existem há bastante tempo. Muitas vezes, a inovação acontece quando esses modelos são aplicados em um novo segmento com um olhar diferente", diz o professor.
A presença da IA também tem ampliado a capacidade de fiscalização e controle de qualidade. Sistemas inteligentes podem monitorar equipamentos, prever falhas em bombas e garantir maior precisão nas medições, aumentando a eficiência operacional e a segurança dos processos. "Um exemplo é a Pix Force, startup com visão computacional e IA, que oferece soluções para o processo de inspeção visual de EPIs", comenta.
O crescimento do investimento em tecnologia reforça esse cenário. Dados de uma pesquisa da AllianceBernstein indicam que os gastos com tecnologia da informação no setor de petróleo e gás devem crescer, em média, 7,4% ao ano a partir de 2025 até 2029. O levantamento também aponta que apenas 13% das empresas já implementaram soluções de IA agêntica, enquanto 49% planejam adotar a tecnologia em 2026. Questões relacionadas à segurança, governança e proteção de propriedade intelectual ainda aparecem como entraves para uma adoção mais acelerada.
Outro desafio relevante está na formação de profissionais especializados. Para Vitor Hugo, o mercado enfrenta escassez de mão de obra capaz de compreender as tecnologias existentes e desenvolver novas soluções. "O maior desafio é encontrar profissionais que tenham noção das tecnologias já aplicadas e consigam criar a partir do que já existe", destaca.
Apesar dos desafios, o Brasil desponta como um polo estratégico na formação de talentos. “Acho que temos, embora a gente ainda sofra com o acesso desigual ao ensino superior, uma formação de muita qualidade. O Brasil é um país que consegue inovar, consegue construir tecnologias novas”, destaca Vitor Hugo. Segundo o especialista, isso é um ponto forte, pois evita que o País se torne somente um consumidor de tecnologias, mas que consiga de fato ser um criador de novas tecnologias também.
Apesar disso, Vitor Hugo ressalta algumas questões referentes à educação na área. “O Brasil ainda precisa tratar a formação tecnológica com mais respaldo. Precisamos de um investimento maior, programas que incentivem a criação de novos cursos de tecnologia”, comenta Vitor Hugo afirmando que nos últimos anos houve um aumento expressivo de novos cursos na área de IA surgindo no Rio Grande do Sul e no País.
Outro movimento que se destaca no cenário atual são empresas estrangeiras que têm buscado profissionais brasileiros devido à qualificação técnica e ao custo competitivo. "O País tem uma formação muito robusta em tecnologia e acaba exportando talentos para o exterior", diz. Apesar disso, o professor salienta que o Brasil tem um modelo econômico que ainda dificulta o crescimento de empresas inovadoras.
“Temos muito essa ideia de que o capital global está concentrado nos Estados Unidos. Então, temos muitas startups brasileiras que criam soluções excelentes, mas quando chega a hora de escalar tem um cenário de crédito caro, pouco investimento de longo prazo, é um mercado que tem baixa disposição para assumir risco. Isso acaba enfraquecendo a inovação que foi criada aqui dentro”, reflete.
Sobre as tendências tecnológicas futuras no segmento de combustíveis, Vitor Hugo destaca três pontos. Primeiramente, o professor cita a consolidação da IA no setor. “Isso vai se tornar uma estrutura básica, não vai mais ser um diferencial, mas uma parte obrigatória do modelo operacional das empresas”, afirma.
Outro ponto observado pelo especialista é a segurança. De acordo com ele, as empresas estão cada vez mais preocupadas com a segurança de dados. “O terceiro ponto é o papel da tecnologia que vai estar ligada diretamente à transição energética e à sustentabilidade. Acredito que soluções de IA que vão envolver a estabilidade de carbono, eficiência energética, gestão de cadeia logística de forma mais inteligente, biocombustíveis, energia renovável, serão fundamentais para fortalecer também a transição energética nesse sentido”, conclui.







