Dados mostram que não se trata apenas de reduzir a criminalidade no Estado, mas de ajustar as estruturas existentes às novas formas de violência e a problemas que se agravaram nos últimos anos. Alta nos feminicídios, avanço dos golpes virtuais e presídios superlotados desafiam a proteção pública, aponta a quinta reportagem da série Desafios do Rio Grande do Sul
Em 2017, há menos de 10 anos, o RS viveu o período mais violento de sua história recente. Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado, foram 3,1 mil vítimas de crimes violentos letais intencionais, como homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte. Em 2016, foram registrados os maiores números de roubos (88,5 mil) e latrocínios (169) da série histórica que remonta a 2002.
Estes crimes tiveram quedas significativas de lá para cá. O ano de 2025 teve os menores registros de vítimas de crimes letais intencionais (1,1 mil) e roubos (18,7 mil) nos 23 anos de dados.
Mas, o cenário da segurança pública mudou. Se os homicídios dolosos tiveram quedas recordes, a violência contra a mulher continua fazendo vítimas. Se os assaltos diminuíram, a vivência no ambiente digital é ameaçada pelos golpes - os registros de estelionato cresceram quase 372% em 10 anos. E a população carcerária cresce em ritmo superior ao da criação de novas vagas.
Esta é a quinta reportagem da série Desafios do RS, do Grupo RBS, a partir de ouvidorias realizadas pelo Conselho Editorial da RBS junto a diferentes setores da sociedade e da consulta a fontes independentes. _
1| Violência contra a mulher
Após atingir o menor número da série histórica em 2024, os feminicídios voltaram a crescer. Em 2025, foram 80 casos, aumento de quase 10% em relação ao ano anterior. A alta também aparece nas tentativas de feminicídio. Em 2025, foram 263 casos, contra 236 em 2024, crescimento de 11,4%.
E o cenário permanece preocupante em 2026. Até agosto, o RS contabilizou 55 feminicídios, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública.
Atualmente, cerca de 1,5 mil homens são monitorados por tornozeleiras eletrônicas, enquanto mulheres sob medida protetiva podem receber telefones que emitem alertas quando o agressor se aproxima. Mas a rede de proteção e as estruturas estatais para enfrentar o problema ainda estão concentradas em algumas regiões, sem acompanhar a migração populacional recente, especialmente impulsionada pela pandemia. O RS tem 25 delegacias da Mulher. Duas ficam em Porto Alegre e só uma, também na Capital, funciona 24 horas - contrariando legislação federal que exige o funcionamento ininterrupto. Cinco delegacias tiveram o horário ampliado até as 20h em 2025.
Em 2026, o Estado anunciou a criação de nova delegacia especializada em Santiago, na Região Central. Outras áreas ainda carecem dessa estrutura: é o caso do Litoral Norte, que não tem nenhuma, e do Vale do Paranhana.
Outra política fundamental no campo da polícia é a Patrulha Maria da Penha. São 63 equipes, que atuam em 114 municípios e acompanham quase 16 mil vítimas. Isso significa presença em cerca de 23% das cidades gaúchas.
Um gargalo importante está na rede de acolhimento: não há abrigos para vítimas em todas as cidades. O desafio, portanto, extrapola a atuação das forças de segurança. Envolve assistência social, saúde, educação e políticas específicas para mulheres. _
2| População carcerária
Em setembro de 2026, a população carcerária chegou a cerca de 57 mil pessoas, o maior número da história do Estado. O avanço ocorre mesmo com a inauguração de novas unidades prisionais, como a Cadeia Pública de Porto Alegre, a Penitenciária de Charqueadas 2 e uma nova prisão feminina em Caxias do Sul.
O último relatório da Secretaria Nacional de Políticas Penais aponta que o RS tem o quinto maior déficit de vagas prisionais do país. Dados do governo mostram que faltam 15.352 vagas. Hoje, o RS tem 104 casas prisionais, o quarto maior número entre os Estados brasileiros.
Para a defensora pública Mariana Py Muniz, o problema é que o número de presos cresce em ritmo superior à capacidade de criação de novas vagas. Segundo ela, uma nova unidade pode começar a funcionar já próxima da lotação.
A expansão do número de presos é ligada ao aumento no rigor de penas com novas legislações, como a Lei Antifacção, e à qualificação de inquéritos policiais. Também há o problema dos presídios mistos masculinos e femininos. Hoje, são 4.150 mulheres presas no Estado, sendo 1.120 em presídios exclusivos para mulheres, 1.202 em presídios mistos e 1.828 monitoradas por tornozeleiras.
O bloqueio do sinal telefônico nos presídios também precisa ser resolvido. A empresa contratada para operar o sistema na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas teve o contrato rompido e a nova vencedora não conseguiu resolver o problema, admite o Estado.
Por outro lado, especialistas apontam como avanço a transferência para a Polícia Penal da gestão de unidades que ficaram sob responsabilidade da Brigada Militar por décadas. A corporação assumiu a administração do Presídio Central e da Penitenciária Estadual do Jacuí em 1995. A transição começou a ser retomada nos últimos anos e foi concluída na PEJ em junho. _
3| Golpes virtuais
Os registros de golpes virtuais aumentaram cerca de 8% no último ano, e uma parcela dos casos nem chega ao conhecimento da polícia. O crescimento da criminalidade digital também pressiona uma estrutura policial que foi organizada para investigar crimes praticados de forma mais tradicional.
Dados obtidos pela reportagem, por meio da Lei de Acesso à Informação, mostram que, entre 2020 e 2025, a Polícia Civil remeteu 77.326 inquéritos de estelionato à Justiça. Em cerca de sete em cada 10 casos, não houve indiciamento de um suspeito. Além da especialização dos agentes, outro desafio está na troca de informações entre o setor público e empresas privadas. Parte do conhecimento sobre métodos usados pelos criminosos permanece dentro das empresas que identificam os ataques. _
Soluções passam por especialização e inteligência
Os desafios são diferentes, mas as potenciais soluções têm um ponto em comum: não dependem apenas do aumento do efetivo policial ou da construção de novas prisões. Para enfrentar a violência contra a mulher, especialistas defendem ampliar a rede de proteção e levar o atendimento especializado a mais regiões. Nos crimes virtuais, a aposta é na especialização das investigações e na integração com empresas de tecnologia. No sistema prisional, a prioridade é controlar a ocupação das unidades de maneira inteligente e criar políticas para reduzir a reincidência.
A pesquisadora Marlene Spaniol, com pós-doutorado em Segurança Pública e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, defende a expansão da Patrulha Maria da Penha. Hoje, são 63 equipes atuando em 114 municípios. Uma das dificuldades para a expansão era a necessidade de formação específica dos policiais, exigência que, segundo ela, tende a ser superada porque o conteúdo passou a integrar os cursos de formação de todos os brigadianos.
A expansão da proteção também depende da existência de lugares seguros para mulheres ameaçadas. Para a promotora e coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher do MPRS, Ivana Battaglin, quando uma mulher em situação de violência não encontra abrigo no município onde vive, o Estado precisa oferecer alternativa, seja por meio de vagas em outras estruturas ou de outras formas de acolhimento. Para ela, a política precisa envolver também saúde, educação, assistência social e a Secretaria de Políticas para Mulheres.
Maior preparação
O programa de tornozeleiras eletrônicas para agressores é considerado um acerto. A ampliação do monitoramento é apontada como alternativa pelas especialistas. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, nunca houve feminicídio praticado por um dos agressores acompanhados por tornozeleira.
Nos crimes virtuais, os especialistas defendem que o Estado aproveite estruturas que já existem e aumente a especialização dos policiais. Para o doutor em Segurança Pública e professor da PUCRS Rodrigo Azevedo, investigar delitos cometidos por celulares, redes sociais e outras plataformas digitais exige conhecimento específico.
- É preciso que haja investimento na especialização da Polícia Civil, para que ela possa ter grupos especializados na investigação de crimes online de maneira descentralizada - argumenta.
O delegado, ex-chefe de Polícia Civil e doutor em Segurança Pública Emerson Wendt defende aproveitar estruturas que já existem na Polícia Civil, como as 27 delegacias de repressão às ações criminosas organizadas. Para ele, fraudes, extorsões, furtos e vazamentos de dados não devem ser tratados só como crimes isolados praticados na internet. Há, em muitos casos, organizações criminosas por trás das operações. E Wendt prega aproximação maior entre poder público e empresas privadas, que acumulam informações sobre fraudes, ataques e vazamentos de dados.
Controlar a ocupação
No sistema prisional, a defensora pública Mariana Py Muniz defende o controle do fluxo de entrada e saída dos presídios e a criação de uma central de regulação de vagas. A proposta inclui também revisar prisões provisórias nos casos previstos em lei, acelerar progressões de regime e utilizar alternativas penais quando cabíveis.
Para a doutora em Ciências Criminais Ana Carolina Proença, é preciso ampliar o acompanhamento de quem deixa o sistema prisional. Ela defende o fortalecimento dos chamados escritórios sociais, que ajudam na busca por emprego, qualificação profissional e acesso à assistência.
O professor Rodrigo Azevedo chama atenção especialmente para os primeiros meses após a saída. Para Azevedo, é necessário oferecer condições de empregabilidade e acompanhamento com participação do poder público e da iniciativa privada.