quinta-feira, 22 de outubro de 2026


22 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Odeio encomendas

Não gosto de me comprometer com encomendas. Você tem a responsabilidade de acertar o item, de levar exatamente o que a pessoa quer. Porque o que ela pediu de repente não é o que ela quer. Você não recebeu detalhes. Pode falhar com a marca, o tipo, a especificidade do produto.

Entro em pânico se minha esposa me solicita algo da farmácia. Artigos íntimos são cheios de minúcias, bem como cremes, hidratantes, xampus. Até remédios: será que ela desejaria de um laboratório ou aceitaria um genérico?

Quando vem a dúvida, quando você está na frente do funcionário, o vivente nunca atende ao telefonema. Sequer responde às mensagens. Ele só dá sinal de vida depois que você saiu dali, tarde demais, numa Lei de Murphy implacável.

Se erro para mim, não preciso prestar satisfações ou retornar ao estabelecimento. Já para o outro, vejo-me culpado e com a urgência de reparação.

A indisposição descende da lista materna, da época em que eu cumpria o papel de estagiário de compras no armazém. A mãe demandava farinha, escrevia "farinha" numa folha, e eu escolhia farinha de mandioca, enquanto ela ansiava pela tradicional de trigo.

- Mas você não disse qual! - Desde quando se faz bolo com farinha de mandioca? - Você também não disse que era bolo!

Para qualquer um, seria óbvio buscar a farinha de trigo, menos para mim. As informações incompletas aumentavam a minha vergonha de perguntar, e eu apostava na opção equivocada. A mãe jurava que estava na cara, supunha que o ato não dependia de explicação. Assim eu me ferrava.

No fim, ela me criticava, como se eu não servisse para a tarefa: - Seria melhor eu mesma ter ido. Já confundi creme de leite com leite condensado, fermento químico com o biológico, maisena com polvilho doce.

Custava me esclarecer visualmente? - Pegue aquele potinho de fermento em pó Royal, de tampa vermelha. Ficaria mais fácil de identificar. Nas viagens, então, sinto calafrios com incumbências de algum familiar ou amigo. Não nego, tampouco relaxo nas férias.

Em nossa estada na Grécia, minha esposa assumiu uma missão: conseguir um busto de Platão para sua prima Maria Dulce Reis, professora da PUC Minas. Como sua parente traduz o pai da Filosofia diretamente do grego e é apaixonada pela obra dele, Beatriz tomou a expedição como uma questão de honra.

Passamos por várias lojinhas de lembranças e souvenirs locais. Encontramos miniaturas de todos os pensadores gregos. O problema é que eles eram muito parecidos: Tales de Mileto, Pitágoras, Heráclito, Parmênides, Epicuro, Zenão, Sócrates, Demócrito, ainda mais no vulto cavado no gesso branco, ainda mais que ostentavam barba em sua maioria.

Seguimos o instinto. Ao entregarmos o presente, Dulce elucidou: - Obrigada, mas não é Platão. É o seu discípulo, Aristóteles.

Não havia como voltar para Atenas. Cansado de uma existência inteira de gafes, desabafei:

- É da turma! Está valendo. _

CARPINEJAR

22 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Um aeroporto para a Serra e o RS

A assinatura da ordem de início das obras do Aeroporto da Serra Gaúcha, no distrito de Vila Oliva, em Caxias do Sul, é um passo animador para um Estado que tem entre os seus principais desafios qualificar a sua infraestrutura. O ato ocorreu ontem, na 35ª Mercopar. O projeto, que cria uma nova alternativa capaz de impulsionar o modal aéreo no Rio Grande do Sul, por óbvio tem especial relevância para a região serrana. Facilita e amplia o transporte de passageiros, favorece o turismo local e aumenta o potencial e dá maior agilidade ao escoamento de cargas. Os menores custos logísticos tornarão a economia dos municípios do entorno mais competitiva.

Convém lembrar que o projeto, no local definido, é aguardado há mais de 20 anos. O ponto escolhido, em uma área de 450 hectares, é menos propenso à neblina diurna, o que diminui o risco de interrupção das operações, como ocorre com maior frequência no Aeroporto Regional Hugo Cantergiani, também em Caxias do Sul.

A permissão dada ontem refere-se à primeira etapa do projeto, de construção de estruturas como a pista de pouso e decolagem, com 1,9 mil metros, pátio de aeronaves e estacionamento para 500 veículos. O aeroporto poderá receber aviões de grande porte. Os recursos, cerca de R$ 145 milhões, são do governo federal.

Em entrevista ontem à Rádio Gaúcha, o prefeito de Caxias do Sul, Adiló Didomenico, disse esperar que as máquinas do consórcio responsável pelas obras iniciem o trabalho na área no próximo mês. A expectativa é de que o complexo comece a operar em um prazo de cinco anos. Não há definição ainda sobre se o aeroporto será concedido ou administrado pela Infraero. 

Espera-se que não surjam contratempos, comuns em contratações públicas, que costumam prejudicar o cronograma de execução, como a falta de recursos. Embora o começo da obra seja alentador, é um anúncio feito às vésperas da eleição presidencial e sabe-se que, no próximo ano, as verbas federais tendem a ficar mais disputadas pela inevitabilidade de um ajuste nas contas federais. O terminal de passageiros, que será objeto de uma nova licitação, deve custar mais R$ 40 milhões.

É importante ainda assegurar o acesso rodoviário ao futuro aeroporto. O governador Eduardo Leite detalhou, na terça-feira, como deve ser a estrada destinada a ser a principal conexão com o terminal. O estudo para a obra da ERS-466 indica um traçado que ligará a Rota do Sol a Canela, passando pelo distrito de Vila Oliva. O custo estimado é de R$ 288 milhões. O projeto ainda está em fase preliminar e sabe-se também que, nos próximos anos, o Piratini não terá caixa folgado para realizar investimentos.

O novo aeroporto, por ter maior capacidade em relação ao Hugo Cantergiani, ganha relevância por se tornar uma alternativa ao Salgado Filho, na Capital. Cumpre recordar que, com a enchente de 2024, o terminal de Porto Alegre ficou quase seis meses sem operar. Resta esperar, agora, que os prazos previstos sejam cumpridos e, no início da próxima década, os gaúchos já contem com esse novo ativo logístico a serviço do desenvolvimento da Serra e do Estado. 



22 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Flávio responde a bravata de Lula com outra bravata

Três dias depois de o presidente Lula desafiar seu concorrente, Flávio Bolsonaro, a abrir os sigilos bancário e telefônico, o candidato do PL respondeu à bravata com outra bravata. Flávio protocolou no Tribunal Superior Eleitoral um documento no qual autoriza a quebra do seu sigilo telefônico e bancário dos últimos 20 anos, desde que Lula abra os sigilos de seu ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola - que teve envolvimento com a empresária Roberta Luchsinger, investigada pela Polícia Federal -, do Instituto Lula e do cartão corporativo usado pelo Planalto.

A réplica de Flávio é uma reação ao crescimento da campanha dos petistas pressionando para que ele abra o sigilo. Sabe o que vai acontecer? Nada. E ainda que se quebrasse os sigilos de todos os parentes dos dois, é possível que nenhuma irregularidade fosse encontrada.

Dinheiro ilegal não costuma passar pela conta bancária, basta ver o quanto a Polícia Federal encontra de dinheiro vivo nas operações contra a corrupção. De mais a mais, nem Lula nem Flávio têm poder para autorizar a quebra de sigilo de terceiros, todos maiores de idade, vacinados ou não.

Flávio faria melhor se respondesse objetivamente como comprou imóveis com dinheiro vivo e como conseguiu antecipar a quitação da mansão financiada pelo BRB, com salário de senador - uma das perguntas feitas por Lula no debate da Band. Ou prestar contas do dinheiro de Daniel Vorcaro, supostamente aplicado no filme Dark Horse. Ou, ainda, dos R$ 14 milhões que teria recebido a título de honorários do escritório de advocacia onde não advoga.

Lula, em vez de "autorizar" a quebra de sigilo de Janja e dos filhos, faria melhor se explicasse como Lulinha se sustenta na Espanha todo esse tempo e pedisse ao filho para apresentar os extratos de suas contas e de suas ligações telefônicas. Deveria, lá atrás, ter liberado os parlamentares da base do governo para que votassem a favor da quebra de sigilo do filho que jura ser inocente.

Colegiais

Ninguém vai apreender telefones celulares de A ou B para satisfazer dois candidatos que disputam o segundo turno, mas se comportam como colegiais, discutindo quem botou papel picado no ventilador. _

O que chama atenção na Quaest

É preciso prestar atenção aos dados secundários da Quaest divulgada ontem para tentar entender o que está acontecendo neste final de campanha. Na espontânea, o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Lula (PT) estão empatados em 40%. E os indecisos chegam a 14%, índice altíssimo a tão poucos dias da eleição. Na estimulada, Flávio tem 45% e Lula, 44%. Brancos, nulos e não vão votar somam 9% e os indecisos, 2%.

É uma eleição disputada voto a voto e confirma que não tem "já ganhou" nem "tudo está perdido". _

Heinze cotado para a Agricultura

O governador eleito Luciano Zucco (PL) ainda define a equipe, mas o senador Luis Carlos Heinze (PP) tem lugar assegurado no primeiro escalão. Ele é cotado para a Agricultura, pela conexão com o agronegócio.

O senador, porém, está abalado emocionalmente com a doença da esposa Sandra, que sofreu um AVC em maio. Questionado pela coluna, Heinze confirmou que foi convidado por Zucco, mas explicou que no momento seu foco é cuidar da esposa. _

Base de Melo vota para manter emendas impositivas na Capital

Protocolado após a prisão do vereador Giovane Byl (Podemos), suspeito de envolvimento em esquema de desvio de recursos destinados para a saúde, o projeto que acaba com as emendas impositivas em Porto Alegre recebeu votos contrários dos vereadores que integram a base de Sebastião Melo. Ontem, os vereadores fizeram reunião conjunta das comissões, em plenário, e deliberaram sobre a medida, com rejeição de 15 parlamentares aliados do prefeito.

Em quatro das seis comissões da Câmara, houve empate no resultado. A Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) rejeitou o projeto, enquanto a Comissão de Urbanização, Transportes e Habitação (Cuthab) aprovou.

O resultado empatado permite que a medida seja incluída na ordem do dia e pautada para votação no plenário.

Inicialmente, a Cuthab havia rejeitado a proposta, mas o vereador Idenir Cecchim (MDB), líder do governo, retificou seu voto e autorizou a sequência da tramitação. Quando Roberto Robaina (PSOL) sugeriu o projeto, há um mês, Cecchim deu aval para o andamento. O próprio prefeito defende, pessoalmente, que não cabe ao Legislativo definir o destino de parte do orçamento, mas deixou a decisão para o parlamento.

Robaina argumenta que o sistema de distribuição de emendas no Poder Legislativo, desde o âmbito municipal até o federal, se tornou um "esquema corrupto" e por isso pretende acabar com a medida.

- É uma vergonha que a Câmara de Vereadores não dê o exemplo, porque se trata de derrubar um mecanismo corrupto, que transforma os processos eleitorais, dando enorme vantagem a quem tem mandato. É uma vergonha que tenhamos uma política dominada pela distribuição de recursos públicos - criticou o vereador.

Justificativa

Parlamentares da base que se manifestaram na tribuna a respeito do projeto justificam que o dinheiro indicado é importante para apoiar áreas como a saúde e projetos locais, admitindo a necessidade de ampliar a fiscalização do destino do dinheiro. _

Pasin pode assumir Desenvolvimento Econômico

Reeleito com 99.470 votos, o primeiro lugar no PP, o deputado Guilherme Pasin é hoje o mais cotado para assumir a Secretaria do Desenvolvimento Econômico. No governo de Eduardo Leite, Pasin chegou a ser convidado para ser titular do Turismo, mas acabou optando por exercer o mandato. Agora, o ex-prefeito de Bento Gonçalves tem o apoio do partido e de setores produtivos da Serra para assumir uma das secretarias mais importantes do governo Zucco. 

POLÍTICA E PODER


22 de Outubro de 2026
CONEXÃO BRASÍLIA - Matheus Schuch

Três sinais da Quaest para Flávio e Lula

As principais pesquisas eleitorais divulgadas nas últimas semanas mostram Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Lula (PT) na disputa pela Presidência. Na Quaest divulgada ontem, a vantagem numérica do senador do PL se mantém e não há sinais de mudança de rumo expressiva. Mas há pelo menos três pontos do levantamento que entraram no radar das campanhas de ambos os candidatos.

A primeira questão envolve as taxas de rejeição. Os eleitores que não cogitam votar em Lula passaram de 53% para 47% entre as duas últimas pesquisas. No caso de Flávio, a queda foi de 54% para 52% de rejeição.

Outro ponto que salta aos olhos é o aumento expressivo no percentual de indecisos na espontânea. Na semana passada, eram 7%. Agora, 14%. As campanhas agressivas de ambos os lados, que afetam a imagem dos candidatos, podem ser uma explicação para o comportamento dos eleitores.

O conjunto das pesquisas e a vantagem de mais de 2 milhões de votos no primeiro turno ainda colocam Flávio Bolsonaro como favorito para o pleito de domingo.

Mas a disputa mantém uma margem considerável de imprevisibilidade porque 10% dos eleitores ainda admitem a possibilidade de mudar de voto - para um lado ou para o outro. _

CONEXÃO BRASÍLIA

22 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

A expectativa da Argentina para a visita do Papa

Em menos de três semanas, o papa Leão XIV deve dar início a uma longa viagem apostólica pela América do Sul. A expectativa é de que o Pontífice visite o Uruguai, a Argentina e o Peru entre 6 e 17 de novembro. Entre os dias 8 e 11, ele deve estar em solo argentino, circulando por Buenos Aires, Córdoba e Luján.

Esta será a primeira vez que um papa vai à Argentina em 39 anos. Para o padre Máximo Jurcinovic, diretor de Comunicação e Imprensa da Conferência Episcopal Argentina (CEA), a expectativa é de muita emoção:

- Estamos realmente muito contentes. Vê-se uma grande esperança no povo e percebe-se a enorme solidariedade das pessoas que se aproximam querendo ajudar e colaborar com muitas coisas. O Papa está sendo esperado na Argentina com um grande espírito e uma energia muito boa - afirmou à coluna. - Nós cremos que o pastor vem encontrar com o seu povo e que esses momentos vão ser os mais importantes: a ocasião em que o Papa possa celebrar e confirmar a fé da nossa gente nas missas, nas celebrações e nesses momentos que consideramos que serão realmente massivos - completou.

Segundo o religioso, a Conferência Episcopal Argentina se organiza para a viagem com dois grupos: a Comissão Nacional da Visita do Papa, que é formada por bispos e sacerdotes, e uma equipe de articulação, composta por leigos e leigas que coordenam as diferentes áreas de trabalho. Além disso, há distintas equipes de trabalho em cada uma das cidades que Leão XIV vai visitar.

- Isso é trabalhado com uma grande articulação e, sobretudo, em conjunto com o governo nacional e com os governos provinciais. Foi um trabalho muito articulado.

Antes de Leão, a era de Francisco

O antecessor de Leão XIV foi Francisco. Ele era natural de Buenos Aires, liderou por anos os jesuítas locais e esteve à frente do arcebispado da capital portenha por 15 anos. Desde que assumiu o papado, em 2013, até a sua morte, em 2025, nunca voltou à capital argentina. Para o padre Jurcinovic, contudo, Jorge Mario Bergoglio ainda está presente no país.

- Francisco está na Argentina de muitas maneiras: com seu magistério, sua palavra e sua histórica proximidade, e o povo o valoriza assim. Ninguém neste momento na Argentina está pensando se Francisco veio ou não veio. O papa Francisco esteve sempre e está na memória agradecida de todo o povo argentino, porque foi o argentino mais importante da história.

Leão XIV deve se encontrar com o presidente da Argentina, Javier Milei, logo na sua chegada ao país, cumprindo agendas na Casa Rosada, sede oficial do governo. À coluna, Jurcinovic afirmou acreditar que política e religião não serão misturadas:

- Parece-me que pensar que o Papa pode cair em instrumentalizações político-partidárias é subestimá-lo. Ele tem uma mensagem que está acima de qualquer conjuntura e estamos trabalhando nisso, o governo nacional, a Igreja e todos, justamente esperando uma mensagem que sabemos que não tem nada a ver com as nossas questões conjunturais do dia a dia; é uma mensagem universal e, sobretudo, uma mensagem que tem a ver com a unidade. _

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou em entrevista ao Estadão que figuras do governo Donald Trump "tomaram lado" nas eleições do Brasil.

Leão XIV retoma atividades sem precisar de tratamentos

O Vaticano informou ontem que o papa Leão XIV não precisará passar por tratamentos adicionais contra o câncer de pulmão diagnosticado na semana passada. Segundo nota divulgada pela Santa Sé, o adenocarcinoma pulmonar estava localizado e a cirurgia foi suficiente para removê-lo. Uma avaliação oncológica posterior confirmou que nenhuma terapia complementar será necessária.

Mais cedo, o Pontífice realizou sua primeira audiência semanal no Vaticano após o procedimento. Ele circulou de papamóvel na Praça de São Pedro, acenou para os fiéis e foi ovacionado pelo público. Leão XIV teve o lobo inferior do pulmão direito removido durante a operação. No último domingo, na oração do Angelus, prometeu retomar gradualmente suas funções à frente da Igreja Católica. _

Redução da maioridade: solução ou problema?

O tema da redução da maioridade penal virou uma das pautas centrais na última semana das eleições de 2026. O Conversas Cruzadas, de GZH, desta terça-feira, debateu o assunto e buscou responder:

A redução para crimes hediondos (homicídio, latrocínio e estupro, por exemplo) e seus possíveis impactos na segurança pública são uma solução?

- Ajuda, seja a redução, seja o estabelecimento de um direito penal juvenil, ou outra medida possível, como o aumento dos prazos de internação previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Não se reduziria propriamente a maioridade, mas se estenderia o prazo máximo de internação. É um assunto complexo. Temos de pensar de uma forma séria, técnica, não populista - afirmou o promotor de Justiça e professor de Direito Constitucional André Coelho.

Reduzir, levando em conta que temos hoje em torno de 900 mil presos no Brasil e em torno de 12 mil adolescentes em internação, teria que impacto sobre a criminalidade?

- Existe a utilização do tema que é sensível e que tem muita aderência na opinião pública para angariar vantagens eleitorais. E me parece que a mudança de posição do presidente Lula é uma estratégia de evitar danos maiores, porque, na verdade, a posição histórica do campo progressista e democrático é que precisamos apostar no sistema socioeducativo - disse o sociólogo, professor e pesquisador associado sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Rodrigo Azevedo.

ONU alerta para restrições nas redes

Às vésperas do segundo turno das eleições de 2026, especialistas da ONU emitiram um alerta sobre desequilíbrio digital e possíveis restrições à expressão política nas plataformas de redes sociais da Meta nas eleições brasileiras. Segundo o grupo, episódios envolvendo Instagram, Facebook e WhatsApp levantaram graves preocupações sobre a liberdade de expressão e a igualdade de tratamento entre as frentes políticas.

Os peritos apontam que observadores internacionais registraram incidentes que evidenciam um tratamento desigual no ecossistema digital. Para o grupo, impedir que cidadãos alcancem suas audiências sem justificativa transparente compromete a essência da participação política. _

INFORME ESPECIAL

quarta-feira, 21 de outubro de 2026


As voltas dos ponteiros no relógio

Na infância, comunicávamo-nos com nossos amigos pelas visitas. Aparecíamos. Sem hora marcada.

Ou para jogar futebol, ou para pular corda, ou para arremessar pião e bolitas, ou por tédio mesmo, para emprestar a solidão e empreender uma expedição pelo bairro, achando o que fazer junto.

Assumíamos o risco da viagem perdida. Algumas vezes ninguém nos atendia. E regressávamos com a porta na cara. Pensávamos em tentar mais tarde. Não levávamos para o lado pessoal o fato de caminhar um monte ou pegar uma outra condução para ir de novo. Não sofríamos com a repetição. Não havia preguiça.

Batíamos palmas, assoviávamos na frente do portão, gritávamos o apelido de quem procurávamos, alongando a última sílaba.

A família do amigo provavelmente nos odiava. Nem tanto pela algazarra comum nos anos 70, que servia como campainha informal, mas porque sempre interrompíamos o almoço ou o planejamento espartano do dia.

Quando avistávamos uma alma se mexendo na janela, nossa pergunta não mudava: - Fulano pode sair?

Nada acontecia de imediato. Amargávamos o suspense. - Espere aí! Sequer éramos convidados a entrar. A gurizad a medonha se mantinha de pé na rua. Não desfrutava dos privilégios de gente grande, dos vendedores de enciclopédia, de cosméticos, de frutas.

Aguardávamos no meio-fio da calçada.

O amigo precisava terminar o tema escolar antes. Ou lavar a louça. Ou arrumar sua cama e organizar sua escrivaninha. Ou tomar banho. Ou recolher as necessidades do cachorro no pátio. Ou varrer o quintal. Os pais aproveitavam nossa presença para cobrar tarefas domésticas e pendências. Para recuperar o atraso nas responsabilidades.

Não testemunhávamos o que estava sendo solicitado nos bastidores. Pelo tempo excedido, adivinhávamos que existia uma exigência em vigor: um pedágio para a liberdade inusitada.

Acabávamos como pretextos perfeitos. O filho queria se divertir? Então que cumprisse primeiro o que tinha prometido.

Melhor a série de atividades do que estar de castigo, que consistia numa prisão domiciliar, de prazo indefinido, por causa de notas baixas, ou mau comportamento com o irmão, ou quebra de um objeto de valor.

O castigo alheio nos obrigava a passar lá todo santo dia para descobrir se o colega já estava liberado.

Naquela época, criança brincava com criança. Adultos não nos entretinham. Deveríamos nos virar entre nós. Não se via pai ou mãe dividindo passatempos com o seu rebento. Não nos misturávamos. Não sentávamos com eles para Super Trunfo ou Banco Imobiliário. Eles se mostravam ocupados demais para se interessar pelo nosso ócio.

Quando o amigo vinha em nossa direção, esquecíamos a areia da ampulheta, as voltas dos ponteiros no relógio. A felicidade da parceria apagava o sacrifício. Corríamos, e escutávamos ao fundo o eco materno, pouco a pouco enfraquecido pelo som de nossos Kichutes:

- Fiquem por perto! 

CARPINEJAR 

21 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Além da disputa por influência

O resultado da eleição para a Câmara e o Senado, com significativo avanço do PL, deflagrou uma mobilização da cúpula do Congresso e dos partidos do centrão para manter o poder de influência a partir da nova legislatura. O ideal seria que o bloco, diante da continuidade da polarização política no país, se articulasse também em nome de objetivos mais nobres.

O PL passou de 97 deputados federais para 121. No Senado, pulou de 15 para 28 representantes. São bancadas que dão suporte à pretensão da legenda de eleger os presidentes das duas Casas. A força do partido será ainda maior caso Flávio Bolsonaro vença a corrida para o Palácio do Planalto, neste domingo.

O centrão, enquanto isso, minguou. Juntas, as agremiações União Brasil, PP, PSD, MDB e Republicanos elegeram 207 deputados, 19 a menos do que têm hoje. A reeleição de Davi Alcolumbre (União-AP) para o comando do Senado e de Hugo Motta (Republicanos-PB) para a presidência da Câmara está em xeque. Um dos primeiros movimentos da dupla que dirige o Congresso foi ajudar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em busca da recondução, com a votação de pautas de interesse do petista, como o fim da escala 6x1 e o pacote de ajuda aos microempreendedores individuais (MEIs). Com Lula vitorioso, teriam maiores chances de manter as suas posições.

Na semana passada, 10 partidos de centro e centro-direita anunciaram apoio à reeleição de Motta. Para barrar as ambições do PL, os deputados de esquerda seriam atraídos para a estratégia. Nos bastidores, lideranças do centrão também se articulam para votar, ainda na atual legislatura, uma reforma política que altere o sistema eleitoral atual e reduza a influência dos puxadores de votos no resultado. Com a regra do quociente eleitoral, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), por exemplo, com seus 3,1 milhões de votos, carregou para a Câmara mais de uma dezena de candidatos com desempenho eleitoral bastante inferior.

É legítimo que o centrão, conhecido pela falta de identidade ideológica, aja para continuar a dar as cartas no Congresso diante da nova correlação de forças. Mudar o sistema eleitoral para preservar apenas seus interesses, no entanto, é reprovável. Mobilizar-se com a motivação apenas de preservar a capacidade de influência, mantendo o poder de barganha no processo de toma lá dá cá, tampouco é elogiável. Melhor seria se, diante da manutenção da polarização entre PT e PL, os partidos de centro e centro-direita evoluíssem de uma atuação meramente fisiológica e corporativa para uma conduta mais programática. Talvez com uma linha de atuação que também se mostrasse capaz de, nos próximos anos, oferecer uma alternativa eleitoral de poder viável aos brasileiros, com uma candidatura competitiva, verdadeiramente de terceira via.

A cláusula de barreira, que será ainda mais exigente quanto ao desempenho eleitoral em 2030, cumpre o objetivo de diminuir o número de partidos e incentivar incorporações, fusões e federações. Um sistema político mais funcional requer a existência de menos siglas, mas que sejam mais coesas e tenham doutrinas claras. Há um espaço que pode ser ocupado pelo centro, desde que exista disposição genuína para oferecer um projeto de país, e não apenas preocupação com trocas de favores, emendas e interesses paroquiais. 


21 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Zucco planeja corte e fusão de secretarias

A reforma que o governador eleito Luciano Zucco fará na estrutura do secretariado segue a lógica da eficiência. Zucco e seus principais conselheiros acreditam que é preciso reduzir o número de secretarias para poder despachar regularmente com todos os secretários. Por isso, a ideia é enxugar o primeiro escalão, reduzindo o número de pastas de 28 para no máximo 20. 

Há pastas que podem perder ou ganhar apêndices e até mudar o nome, mas que são estruturais em qualquer administração: Casa Civil, Casa Militar, Fazenda, Segurança Pública, Educação, Saúde, Agricultura, Obras, Transportes, Meio Ambiente, Defesa Civil, Desenvolvimento Econômico e Desenvolvimento Social. A Procuradoria-Geral do Estado está na conta das 28 secretarias, mas tem vida própria.

Turismo deverá voltar para o Desenvolvimento Econômico. Também deve passar para o Desenvolvimento Econômico o que hoje é tarefa da Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia.

Ainda não está definido se a Comunicação terá status de secretaria ou se será uma assessoria ligada ao gabinete do governador. Na transição, chegou-se a discutir a possibilidade de junção do Planejamento com a Fazenda, uma ideia que divide o futuro governo e que não tem sentido em uma gestão que promete colocar em prática "um plano de Estado". O mais provável é manter a atual estrutura.

Novo desenho

A área social será redesenhada e deverá reunir sob este guarda-chuva o trabalho hoje realizado em quatro secretarias - Desenvolvimento Social; Trabalho e Desenvolvimento Profissional; Habitação e Regularização Fundiária; e Justiça, Cidadania e Direitos Humanos.

O Meio Ambiente passará a ter autonomia, e as áreas de energia e saneamento devem ir para a Secretaria de Infraestrutura, à qual caberá cuidar de rodovias, hidrovias, ferrovias e tudo o que envolva logística e mobilidade. Reorganizada no governo de Eduardo Leite, a Secretaria de Obras deve ser mantida como está, com a possibilidade de Zucco convidar a atual secretária, a arquiteta Izabel Matte, para continuar no cargo. Por uma questão simbólica e pela necessidade de mostrar que a prioridade ao combate ao feminicídio é verdadeira, Zucco deve manter a Secretaria da Mulher. _

Governador e sucessor no mesmo helicóptero

Depois de esbanjarem sintonia na abertura da Mercopar, em Caxias do Sul, onde circularam juntos e almoçaram na mesma mesa ontem, o governador Eduardo Leite convidou o sucessor para voltar com ele no helicóptero do Estado. Do alto, Leite mostrou a Luciano Zucco obras e intervenções em andamento no Estado, compartilhando informações sobre projetos e ações do governo.

Na chegada, pelo heliponto do Centro Administrativo Fernando Ferrari, Leite apresentou ao futuro governador a estrutura do 21º andar, incluindo as salas utilizadas no acompanhamento de projetos estratégicos. Leite despacha parte do tempo em uma sala no 21º andar do Caff, com vista para o Guaíba, e parte no Palácio Piratini. O gabinete principal é usado apenas para receber visitas ilustres. O gabinete de trabalho fica na ala residencial.

A visita se soma às reuniões que os dois já vêm realizando no âmbito da transição e, segundo o governador, reforça a disposição de conduzir o processo de forma republicana, com diálogo, transparência e compartilhamento de informações para assegurar uma passagem de governo responsável e organizada. _

Leite anuncia detalhes do acesso ao novo aeroporto da Serra

Mesmo se aproximando do fim do mandato, o governador Eduardo Leite está disposto a honrar com seus compromissos. Um deles é a construção da estrada de acesso ao novo aeroporto de Caxias do Sul, em Vila Oliva, promessa antiga feita à serra gaúcha. Ontem, na abertura da Mercopar, Leite apresentou aos líderes da indústria o estudo de viabilidade técnica da obra, com cronograma e custo de execução.

A RS-466 vai conectar a Rota do Sol à RS-235, perto de Gramado e Canela, no trecho conhecido como Estrada do Juá. Da nova rodovia, haverá uma ligação ao novo aeroporto de 5 km. Serão R$ 288 milhões investidos na obra, que incluirá três pontes.

A próxima etapa é a conclusão do anteprojeto, prevista para até o final do ano. Depois, é preciso fazer o licenciamento ambiental, o projeto executivo e então a licitação. A previsão é de que as obras durem 36 meses.

- Esse é um comprometimento do Estado para o acesso ao aeroporto que será transformador da realidade da região - ressaltou Leite. _

Moro convida Pricilla Santana

A secretária da Fazenda do RS, Pricilla Maria Santana, foi convidada pelo governador eleito do Paraná, Sergio Moro, para ocupar o mesmo cargo no Estado vizinho. Ela é o primeiro nome anunciado por Moro para compor seu governo.

Curiosamente, o primeiro nome conhecido do futuro secretariado do governador eleito Luciano Zucco vem do Paraná. É o atual secretário da Educação, Roni Miranda Vieira. _

Frente do Agro na campanha de Flávio

A Frente Parlamentar da Agropecuária realiza hoje, às 18h30min, no Hotel Deville, Capital, um evento de mobilização para aumentar a votação de Flávio Bolsonaro (PL) no RS. A senadora Tereza Cristina (PP-MS) e o deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), presidente da Frente Parlamentar, estão à frente da caravana que terá o governador eleito Luciano Zucco no palco. O presidente da Farsul, Domingos Velho, estará presente. _

Advogado sondado para gerir Banrisul

O advogado Sebastian Watenberg, que já integrou a equipe da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e hoje trabalha na iniciativa privada, foi sondado para assumir uma diretoria do Banrisul no governo de Luciano Zucco. Watenberg confirmou o convite à coluna e disse que ainda não deu uma resposta:

- Eu brinco que é maravilhoso e horrível receber um convite desses, porque a gente fica dividido. E o Banrisul é uma joia do Estado. _

A secretária de Planejamento, Governança e Gestão do Rio Grande do Sul, Danielle Calazans, está no radar da equipe de Flávio Bolsonaro para um cargo na área econômica, se ele for eleito. Funcionária de carreira da Caixa, ela é próxima da coordenadora da área econômica de Flávio, Daniella Marques.

POLÍTICA E PODER

21 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Como as redes sociais estão impactando a eleição

Qual é o peso das redes sociais na disputa? Essa foi a pergunta que se tentou responder dentro do Conversas Cruzadas de segunda-feira.

A internet é um componente de extrema importância para o pleito. Além disso, há grande interferência do sistema Judiciário no processo e nas relações digitais e eleitorais.

Para Francieli Campos, advogada especialista em inteligência artificial, a eleição de 2026 é superlativa em diversos aspectos, principalmente relacionados a processos judiciais.

- Fiz um questionamento à assessoria do TRE- RS após o primeiro turno sobre quais foram os principais processos, porque tínhamos o receio de que a inteligência artificial tivesse alguma influência, o que ficou abaixo do que se esperava. O processo número 1 foi impulsionamento negativo nas redes sociais. 

Temos no Brasil uma hipernormatização das regras eleitorais. Nossa resolução de propaganda tem mais de 120 artigos. No Japão, em Portugal, na Argentina, nos Estados Unidos, vamos ver quatro, cinco, 10 artigos para legislar tudo. Com hipernormatização, colocamos a nossa eleição em uma hiperproblematização, porque tudo vira um problema - afirmou.

Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFRGS, Silvana Krause aponta que o fenômeno não é exclusivo do Brasil. O processo se globalizou.

- A Justiça brasileira não consegue acompanhar as enormes e rápidas mudanças que observamos nas formas de se fazer campanha. Faço uma crítica também em relação à nossa tradição jurídica, que se sustenta na desconfiança e na resolução a partir do mundo jurídico. Há um excesso de incapacidade dos atores políticos resolverem os conflitos no lugar onde têm que ser resolvidos, nas instituições políticas. Concordo que temos uma hipertrofia e uma imaturidade da classe política de conseguir resolver as suas incapacidades dentro da dimensão política - explicou.

Para Carla Rodrigues, coordenadora de Plataformas e Mercados Digitais da Data Privacy Brasil, as redes sociais têm um papel importante na forma como as pessoas se informam:

- Elas constroem as percepções de como as pessoas veem os mundos, os candidatos, suas propostas, as formas como lidam também com o eleitorado. Quando nos perguntamos sobre a responsabilização das plataformas digitais, é importante identificarmos que são empresas, e elas sempre têm o dever da conformidade com o TSE, para que todas essas políticas sejam cumpridas. Enquanto sociedade civil, sempre devemos identificar onde há, de fato, esse "escorrego" das plataformas digitais e, principalmente, qual o dano levado para o público maior.

João Senna, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, lembra que, no Brasil, a utilização das redes sociais é muito mais ampliada do que no restante do mundo, o que pode apresentar o país como um "laboratório" da dinâmica envolvendo política e internet:

- Essa é a grande diferença das redes sociais e do nosso atual Estado em relação às campanhas anteriores. A campanha não começou na data que o TSE disse e não vai terminar quando o resultado for anunciado. Vai continuar. Estamos vivendo um momento em que as campanhas são permanentes e constantes, e os candidatos precisam manter essa atividade acontecendo. Não estamos trabalhando simplesmente com os cortes para ganhar agora essa eleição. Isso vai virar material para seis meses, um, dois anos. Porque o Brasil é um lugar muito intenso no seu uso (das redes sociais). Estamos vivendo um laboratório acelerado do que vai acontecer em outros lugares. Alguns apontam para os EUA como o primeiro lugar, mas o Brasil está vivendo um ambiente de um espelho do futuro. _

Para estimular reflexões sobre a democracia

Democracia se ensina desde cedo. Com esse princípio em mente, o Colégio Santa Inês, de Porto Alegre, aproveitou a semana eleitoral para mobilizar estudantes da Educação Infantil e dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental em dois processos para escolher os mascotes literários da escola. Com urna e tudo! A votação começou na segunda-feira e vai até a próxima sexta. Os candidatos são personagens retirados de livros que foram trabalhados com as turmas e devem ser escolhidos pelos estudantes com base nas características de cada um apresentadas nas atividades.

Brasileiras relatam tensão na França

A França vive, desde semana passada, uma onda de intensos protestos por melhores condições para o custo de vida e educação. Em Paris, três brasileiras relatam como o movimento tem afetado a rotina nas universidades e fora delas.

Na Sorbonne Nouvelle, a segunda-feira começou com mais uma assembleia no campus. Sofia Tonial, 23 anos, mestranda em Cinema, acompanha as discussões sobre a continuidade dos bloqueios e a retomada das aulas. A mobilização ganhou força na instituição após uma intervenção policial durante uma assembleia em 5 de outubro. Estudantes e professores denunciaram agressões. Sob pressão, o presidente da universidade, Daniel Mouchard-Zay, anunciou que deixará o cargo em dezembro.

Inspirados na Universidade de Vincennes, criada após Maio de 1968, os alunos organizam cursos livres abertos à comunidade.

- Não queremos parar as aulas, não é o objetivo. Queremos continuar tendo aula, mas que esse conhecimento seja democratizado e que a universidade seja nossa de verdade - explica Sofia.

Na Universidade Paris Nanterre, onde nasceu o movimento estudantil que antecedeu Maio de 1968, a doutoranda Laura Coelho, 25 anos, também acompanha assembleias e atividades organizadas pelos alunos. Ela leciona na graduação e relata cortes de recursos e salas superlotadas.

- Estávamos em uma turma de 40 pessoas, em uma sala que poderia ter 20 - conta.

Com as aulas regulares interrompidas, estudantes de Nanterre organizam atividades de forma autônoma. Segundo Laura, embora os prédios estejam bloqueados, o campus continua ativo.

Outra brasileira que vive em Paris há três anos e pediu para não ser identificada por questões de segurança está há duas semanas sem aulas. Ela apoia os protestos, principalmente os pacíficos que são majoritários no país, mas mesmo assim teme que uma eventual detenção prejudique a renovação de seu visto.

- Eu gostaria muito de ter participado, mas, como sou estrangeira, fiquei com um pouco de medo. Nunca vamos ser franceses, nunca vamos ter os mesmos direitos que uma pessoa daqui - afirma.

A situação dos estrangeiros está entre as reivindicações. Neste ano, a França restringiu o acesso ao auxílio-moradia para parte dos estudantes de fora da União Europeia (UE) e reduziu as possibilidades de isenção das taxas universitárias. 

Colaborou João Vitor Debiasi

INFORME ESPECIAL

terça-feira, 20 de outubro de 2026


20 de Outubro de 2026
INVESTIMENTOS - Anderson Aires

Estudo indica cidades do RS com potencial para novos empreendimentos imobiliários

Levantamento do Secovi-RS considera fatores econômicos e de desenvolvimento social e ajuda a identificar municípios com características favoráveis em várias regiões. Porém, conversão em obras depende de critérios como infraestrutura e renda, apontam especialistas. 

Em um cenário em que o mercado imobiliário enfrenta gargalos como juros altos, crédito restrito e endividamento da classe média, estudar o comportamento das economias locais ganha ainda mais peso na tomada de decisão do setor. Pesquisa do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis do Rio Grande do Sul (Secovi-RS) aponta que a atratividade imobiliária está espraiada pelo RS, com destaque para Serra, Região Metropolitana, Sul e Região Central.

O estudo mostra que os municípios de Caxias do Sul, Canoas, Pelotas, Santa Maria e Passo Fundo ocupam o top 5 em atratividade imobiliária. O estudo do Secovi-RS leva em conta 15 variáveis divididas entre dimensões econômicas, demográficas, educacionais e habitacionais, além do Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese). O raio X passa por 496 dos 497 municípios do RS - a Capital ficou de fora por ser alvo de investimentos em todos os padrões.

- Quando há uma região que tem uma organização no sentido de ter a iniciativa privada buscando empreender, atraindo investimentos, que tem um PIB mais relevante, onde a infraestrutura e a gestão pública conversam melhor, isso faz com que algumas regiões despontem nessa questão de desenvolvimento econômico. E a construção civil está intrinsecamente ligada nisso. Esse contexto movimenta uma cadeia - explica o vice-presidente de Comercialização do Secovi-RS, Rafael Padoin Nenê.

O professor da Faculdade de Arquitetura e da pós-graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Eber Pires Marzulo destaca que a atratividade imobiliária gaúcha é impulsionada por uma rede de infraestrutura, educação e outros serviços públicos essenciais.

Enquanto a Região Metropolitana e os polos regionais concentram a produção para moradia e investimento alavancada, outras regiões sofrem com o déficit de infraestrutura urbana consolidada e a ausência de grandes centros atratores. _

Capacidade por padrão imobiliário

Um segundo indicador exposto na pesquisa do Secovi-RS é a capacidade e potencial dos municípios de receber empreendimentos por padrão construtivo (baixo, médio ou alto). Nessa análise, leva-se em conta o potencial de investimento de cada município, e a dimensão utilizada para essa classificação são as faixas de rendimento. Por exemplo, são classificados com potencial "forte" os municípios que apresentam resultados mais expressivos proporcionalmente nas faixas de rendimento correspondentes a esse padrão.

Nesse recorte, quando olhamos o segmento de alto padrão, o levantamento coloca no mesmo campo grandes cidades e municípios com número menor de habitantes. Por exemplo, estão no grupo de potencial forte para esse segmento cidades como Caxias do Sul, Pelotas e Santa Maria, mas também Nova Ramada e Ipiranga do Sul.

- O investidor que queira focar em um perfil de imóvel de classe A, de alto padrão, também vai ser mais certeiro quando investir nessas regiões, que é uma coisa que já acontece no âmbito nacional. Então, é a mesma coisa que a gente tem que aplicar no âmbito regional - destaca o vice- presidente de Comercialização do Secovi-RS sobre como esse tipo de dado pode ser usado por empresários da construção civil.

Essa classificação não significa que o município necessariamente receberá imóveis de determinado padrão, mas, sim, que a cidade apresenta características de renda que podem favorecer a existência de público consumidor para esse tipo de imóvel.

O professor da UFRGS Eber Pires Marzulo afirma que, para converter a atratividade urbana em construção de novos empreendimentos, os municípios precisam dispor de uma boa base econômica e de infraestrutura: - Quando o mercado imobiliário chega, ele não tende a ser ponta de lança no sentido de puxar os outros setores. Ele vai atrás do que já tem: é atraído para onde já existe uma economia mais pujante.

No ramo de baixo e médio padrão, são fundamentais a demanda demográfica e o potencial de geração de empregos, além de serviços básicos bem estabelecidos. Já no alto padrão, o perfil muda:

- O alto padrão é um imóvel basicamente voltado para o investimento. Por isso, depende da existência de estoque de terra, legislação urbana e conexões viárias consolidadas com os grandes centros.

Na prática, o levantamento pode ajudar a identificar municípios com características favoráveis ao desenvolvimento imobiliário, mas não garante que novos empreendimentos serão viáveis. A conversão desse potencial em obras, segundo especialistas, depende de fatores como demanda, renda, infraestrutura, disponibilidade de terrenos e regras de ocupação urbana. 

Em um cenário de crédito caro e juro básico estacionado em dois dígitos, esses elementos são decisivos para que a atratividade apontada pelos indicadores se converta em investimentos efetivos. 


20 de Outubro de 2026
NÍLSON SOUZA

As cortinas do espetáculo

Sei que o país está explodindo de tensão política e que os clubes gaúchos agonizam na beira do precipício, mas, até para distrair um pouco meus leitores de pressentimentos apocalípticos, convido-os para uma breve incursão ao país da infância a partir deste episódio que testemunhei recentemente.

Cenário: o menino, a bola e a parede: - Lá vai o número 10, ídolo da torcida. Dribla um, dribla dois, dá uma caneta no zagueiro. Entra na área e solta a bomba! A bola bate no paredão de alvenaria e volta forte na direção do chutador. Ágil, o garoto usa as duas mãos para proteger o rosto.

- Defesa es-pe-ta-cu-lar do goleiro! - acrescenta com igual agilidade verbal.

E dá sequência ao seu show solitário de palavras e movimentos. Antes de colocar a bola em jogo novamente, imita o som de um apito. - Prrriiiii! Retorna para o locutor improvisado: - Penalidade máxima! - grita.

Agora parece que o placar do jogo imaginário sairá do zero. Mas o artilheiro/goleiro/árbitro/narrador tem mais surpresas. Começa botando suspense na descrição da cobrança do pênalti: - Toma longa distância. Caminha devagarinho para a bola. Para. Corre. Ameaça bater. O goleiro não se mexe. Chuta... Silêncio total no estádio do fundo do quintal, lotado por um homem só.

- Isolou! Isolou! - grita o narrador. E inventa um bordão de sua própria lavra para impressionar o público, que vem a ser ele mesmo.

- Bateu lá onde o diabo perdeu as chuteiras. Bota no forno esse pé, ô ruindade! Apesar da indignação, o jogo continua. O menino polivalente pisa na bola, levanta com um toque de ponta de dedos, lança para o alto, apara no peito e arremata sem deixar cair:

- Craque! Esse é craque! - diz para si mesmo. Só que desta vez a bola não volta. Fica presa no caibro que segura a ponta do telhado. Num primeiro momento, o narrador comemora:

- No ângulo. Lá onde a coruja dorme! Golaço! Golaço! Sabe de quem? Sabe de quem? Porém, antes de sair o nome do artilheiro, ouve-se um chiado no estádio, que fica novamente silencioso. O menino olha pra cima e se dá conta de que a bola ficara presa num prego.

- Fim de jogo! - exclama, desapontado. Mas ainda encontra ânimo para um fecho solene: - Fecham-se as cortinas do espetáculo! 

NÍLSON SOUZA

20 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Incentivo a mais divisão social

O confronto entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na noite de domingo, na Band, desalenta não apenas pela frustração com o baixíssimo nível do encontro entre os dois candidatos à Presidência da República. Tão desanimador quanto a falta de disposição para uma discussão séria sobre os grandes desafios do país é a constatação de que o tom do embate prenuncia a continuidade da profunda fratura na base da sociedade brasileira.

Na prática, não houve debate, no sentido de confronto de ideias e proposições, com perguntas, respostas, réplicas e tréplicas. Flávio e Lula protagonizaram quase dois monólogos. Quando não estavam se engalfinhando em trocas virulentas de acusações, falavam apenas sobre o que lhes interessava. Flávio abusou da fuga aos questionamentos do adversário e Lula mostrou dificuldade de formular suas argumentações. É possível que tenha sido o debate presidencial televisionado mais deprimente e dominado por baixarias já visto no país.

As performances pareceram pensadas mais para gerar cortes para as redes sociais e elevar a rejeição do oponente do que inspirar esperança. Em vez de tentarem convencer os eleitores de que têm os melhores projetos para desenvolver o Brasil, se esforçaram para tirar votos do antagonista e energizar as suas bolhas virtuais.

Não foi à toa que os telespectadores acompanhados em grupos focais de pesquisas qualitativas durante o encontro demonstraram, de forma predominante, desencanto com os candidatos e o resultado do embate. Vergonhoso, triste e decepcionante foram algumas definições desses eleitores para o debate e o comportamento dos candidatos. Não será surpresa se a consequência for o aumento da apatia e uma ausência maior das urnas no próximo domingo, pelo desencanto justificado de quem não é bolsonarista nem lulista convicto ou então antipetista e antibolsonarista empedernido.

A incapacidade de Flávio e de Lula de oferecer aos eleitores um choque de ideias minimamente civilizado e respeitoso é combustível para dar prosseguimento à polarização radicalizada dos cidadãos comuns que convivem nas ruas, no trabalho e nos ambientes familiares. A preferência dos candidatos por fustigar o adversário, em vez de debater de forma racional, vai se refletir no comportamento da população. O acirramento dos ânimos na reta final da campanha realimenta o estímulo à manutenção da divisão social, à desconsideração da opinião de quem pensa diferente e à cristalização de posturas refratárias ao diálogo. A agressividade do debate reforça a conclusão de que o país sairá da eleição sem perspectivas de conciliação e de convivência pacífica de ideias.

Flávio e Lula têm um novo encontro marcado na sexta-feira à noite, no debate da Rede Globo, antevéspera do dia da eleição. São escassas as perspectivas de um encontro em termos mais elevados. Mas, em respeito ao eleitor, as campanhas bem que fariam se reavaliassem suas estratégias e não prestassem um novo desserviço à relevância dos debates como um dos símbolos da saúde e da vitalidade da democracia brasileira. 


20 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Primeiro confronto entre Lula e Flávio foi vazio de ideias

Foi por um debate desses que esperamos tanto? O nível do confronto a que os brasileiros assistiram na noite deste domingo, na Band, foi um dos mais lamentáveis da história do Brasil.

Frente a frente, Lula e Flávio Bolsonaro protagonizaram um debate cansativo, chato e inútil. É improvável que tenham conseguido alguma troca de voto. No máximo, os dois candidatos conseguiram aumentar o contingente de eleitores dispostos a votar branco ou nulo ou ficar em casa no dia 25 de outubro.

Em vez de propostas factíveis, baseadas na realidade do Brasil, o que preponderou foram os ataques de parte a parte, com um candidato acusando o outro de mentir - e ignorando as perguntas do adversário.

A batalha de rejeições, já verificada no primeiro turno, se intensificou com os dois querendo mostrar que o outro é pior. Lula perdeu tempo demais tentando arrancar de Flávio uma resposta comprometedora sobre sua relação com Daniel Vorcaro, a quem pediu R$ 134 milhões. Flávio, da mesma forma, insistiu em arrancar de Lula uma resposta comprometedora sobre Roberta Luchsinger, a amiga lobista de seu filho Lulinha. 

O presidente disse que Roberta é assunto para a Polícia Federal e Flávio seguiu no assunto como se todos os espectadores tivessem assistido à entrevista de Roberta à CNN na noite de sábado. Quem não assistiu, ficou boiando, mas ele conseguiu desestabilizar o adversário.

Faltou educação, respeito e civilidade

Mesmo nas perguntas da produção, as respostas foram vagas e sem fundamento. Teve momento 5ª série, deboche, cara de mau, tentativa de atrapalhar o concorrente. E o eleitor em casa? Foi tratado como um tolo, em generalizações que desconsideraram o Brasil real.

Flávio atingiu o objetivo de atrapalhar o adversário, caminhando atrás de Lula e fazendo caras e bocas enquanto o presidente falava. Passou uma imagem de arrogante e, ao mesmo tempo, infantil. A plateia contribuiu para piorar o que já estava ruim, fazendo manifestações que obrigaram os mediadores a intervir, pedindo silêncio. Faltou educação, faltou civilidade, faltou respeito. _

Presidente faz bravata com quebra de sigilos bancário e telefônico

A autorização para a quebra do sigilo telefônico e bancário dele e dos cinco filhos, anunciada pelo presidente Lula ao chegar ao Largo dos Açorianos, ontem, é bravata. Um ato meramente político, continuação de uma provocação feita ao adversário Flávio Bolsonaro no debate da Band (domingo à noite).

No confronto, Lula desafiou Flávio a abrir mão dos sigilos bancário, fiscal e telefônico. Flávio não respondeu se abriria, só riu e disse que Lula "nem tem celular".

Se alguém quer expor seus dados pode pedir extratos aos bancos, à Receita Federal e à companhia telefônica e colocar na internet. A Justiça não quebra sigilos a pedido de uma pessoa que deseja provar honestidade.

Lula trouxe impressa uma cópia da autorização e a entregou ao ex-governador Tarso Genro. Sob aplausos de militantes do PT e do PSOL, Lula atacou o adversário e disse que não admitia ser chamado de corrupto por um miliciano que não consegue explicar como comprou uma casa de R$ 10 milhões, ganhando o mesmo salário dele, o presidente. 

Juliana veste camiseta vermelha na manifestação

Derrotada no primeiro turno da eleição, Juliana Brizola (PDT) chamou atenção ao aparecer no Largo dos Açorianos vestindo uma camiseta vermelha com a foto de Lula. É que na campanha ela evitou a cor vermelha e a associação ao PT, com medo de perder votos.

A estratégia não deu certo. Lula fez 2.294.959 votos no Rio Grande do Sul e Juliana, 1.917.374.

Mesmo que ela tivesse acompanhado a votação do presidente, teria ficado mais de 1 milhão de votos atrás de Luciano Zucco (PL), eleito governador no primeiro turno. Zucco fez 3.516.048 votos.

Ontem, Lula se confundiu e chamou a candidata de Júlia. _

Prefeituras temem rombo de R$ 35 bi

Promulgada na semana passada, a emenda à Constituição que acabou com a escala de trabalho 6x1 e reduziu a jornada semanal para 40 horas preocupa prefeitos. O principal temor é com o fechamento das contas, já que, segundo estudo contratado pela Frente Nacional de Prefeitos e Prefeitas (FNP), o impacto negativo poderá alcançar até R$ 34,7 bilhões no orçamento das cidades.

A estimativa é ainda mais pessimista do que o estudo realizado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), que calcula prejuízo de R$ 6,6 bilhões. Realizado pela Finance Consultoria, o levantamento da FNP obteve resposta de 28 municípios, que representam 16,5% da população brasileira e mais de 22% do PIB nacional. 

Uma baixa na hora decisiva

Responsável pela criação do Exército do Lula, que sacudiu as redes sociais até então dominadas pelos influenciadores do PL, o deputado federal André Janones foi parar na UTI depois do debate na Band.

Janones teve uma arritmia cardíaca grave e foi levado às pressas para o Hospital Vila Nova Star, em São Paulo. Foi dele a ideia de sugerir aos seguidores que inundassem o Google, buscando termos como "Flávio miliciano". 

PGR dá aval a ação de Mendonça

O ministro Alexandre de Moraes sofreu mais uma derrota ontem na queda de braço com o colega André Mendonça, relator do caso Master.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifestou contra a abertura de uma investigação por abuso de autoridade por parte de André Mendonça.

A representação tinha sido apresentada por Moraes, que pedia para ser julgado junto com o colega. 

POLÍTICA E PODER
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Resultados das atuais eleições já projetam sinalizações para o pleito de 2028. Em Caxias do Sul, o fim do ciclo de Adiló Didomenico abre espaço para disputa polarizada. Já o prefeito em Canoas, Airton Souza, deverá tentar reeleição, mas o grupo político poderá rachar, diante do distanciamento do vice, Rodrigo Busato

O que as urnas indicam para as principais prefeituras do Interior

O resultado das eleições em 4 de outubro ensaia o cenário para a disputa das prefeituras em alguns dos maiores municípios do RS além de Porto Alegre. Em Caxias do Sul, Canoas, Pelotas e Santa Maria, parlamentares bem votados e até mesmo quem não obteve êxito nas urnas projetam candidaturas em 2028.

Com 342 mil eleitores, Caxias do Sul é o segundo maior colégio eleitoral gaúcho. O fim do ciclo do prefeito Adiló Didomenico (PSD), que exerce o segundo mandato, abre espaço para uma disputa polarizada na principal cidade da Serra. Mais votado na bancada gaúcha, com 379 mil votos, o deputado federal reeleito Maurício Marcon (PL) desponta como um expoente da direita. Com ele também emerge Maurício Scalco (PL), que perdeu o segundo turno para Adiló em 2024 por apenas 6 mil votos e agora se elegeu deputado estadual também com expressiva votação na cidade.

Outros dois nomes cotados no PL são a vereadora Daiane Mello, forte liderança comunitária do bairro Fátima e eleita para a Assembleia Legislativa, e o deputado estadual reeleito Claudio Branchieri, apontado como favorito para assumir a Secretaria da Fazenda do governo Luciano Zucco.

Na esquerda, a deputada federal Denise Pessôa se consolidou como principal nome do PT ao conquistar o segundo mandato na Câmara, agora como a terceira mais votada do partido, quase metade em Caxias. Em 2024, ela havia ficado de fora do segundo turno por uma diferença de 2,8 mil votos.

Mais tradicional partido local, pelo qual três caxienses se elegeram governadores (Pedro Simon, Germano Rigotto e José Sartori), o MDB não tem um candidato natural. A crise vem desde 2024, quando a sigla não conseguiu eleger nenhum vereador.

No governo, Adiló não tem um candidato natural. O atual vice, Edson Néspolo (UB), e a vice no primeiro mandato, Paula Ioris, que concorreu a suplente de senador na chapa derrotada de Frederico Antunes (PSD), são dois nomes cogitados.

Prestígio do pai

Em Canoas, na Região Metropolitana, o prefeito Airton Souza (PL) está em primeiro mandato e deve tentar a reeleição. Seu grupo político, porém, começa a se dividir. Nos últimos meses, houve um distanciamento do vice, Rodrigo Busato (União).

Filho do deputado federal reeleito e ex-prefeito Luiz Carlos Busato, Rodrigo tem pretensão de apresentar seu nome à sucessão municipal, escorado no prestígio do pai, o segundo mais votado no município para a Câmara dos Deputados, com 10 mil votos. O partido também abriga Eric Douglas, vereador que obteve 23 mil votos para deputado estadual, mais do que o dobro de Busato. Todavia, Douglas esbarra no domínio que a família Busato tem sobre o partido na cidade.

Considerado um dos políticos mais populares de Canoas, o ex- prefeito Jairo Jorge anunciou em julho sua saída da vida pública, abrindo caminho para novos nomes ligados à esquerda. No PT, o vereador Gabriel Constantino, de 26 anos, é aposta de renovação, enquanto a ex-vereadora Maria Eunice, vice de Jairo Jorge na última eleição, perdeu força nas urnas após obter só 3 mil votos no município ao concorrer a deputada estadual. Nomes como Jonas Dalagna (PP) e Alexandre Gonçalves (PDT) correm por fora. _

Os concorrentes em Santa Maria

Em Santa Maria, na Região Central, o atual prefeito Rodrigo Décimo (PSD) é postulante natural à reeleição. Eleito com o apoio do ex-prefeito Jorge Pozzobom (PSD), de quem era vice, Décimo enfrenta desgastes locais, com a tentativa de aprovação de uma reforma da previdência dos servidores municipais.

Agora ele vive sob a sombra de Pozzobom, que é cotado para tentar um novo mandato à frente do Executivo após tentativa frustrada de se eleger deputado estadual. Duas vezes prefeito e secretário do governo Leite, Pozzobom ficou apenas na sétima suplência do PSD, com 22 mil votos, mas 17 mil deles em Santa Maria. No governo, outro nome que desponta é Lúcia Madruga, vice de Décimo e que foi secretária de Educação de 2018 a 2024.

Cogitações

Na direita, Roberta Leitão surge como principal nome do PL. Presidente do partido no município e ex-vereadora, ficou em terceiro lugar na eleição passada à prefeitura. Agora ela tentou uma cadeira na Assembleia legislativa, mas obteve somente 18 mil votos, 14 mil em Santa Maria, e ficou de sexta suplente. Giuseppe Riesgo e Ricardo Jobim, ambos do Novo, também podem concorrer. Riesgo não conseguiu se eleger deputado estadual e Jobim é suplente de Marcel van Hattem no Senado.

Na esquerda, a derrota de Paulo Pimenta ao Senado suscita cogitações de que ele possa concorrer a prefeito, sobretudo se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva perder a eleição. Deputado federal mais votado da história do PT, Pimenta fez 60 mil votos na cidade e é o maior nome de seu campo político. Outro expoente do partido é Valdeci Oliveira, duas vezes prefeito e agora eleito deputado federal. Por fora, corre o nome do vereador Sidi Cardoso, segundo suplente do PT à Assembleia Legislativa. _

Disputa entre PT e PL em Pelotas

Ao Sul, em Pelotas, as urnas projetam nova disputa entre o prefeito Fernando Marroni (PT) e o deputado federal eleito Marciano Perondi (PL). Eleito em 2024, Marroni é nome certo à reeleição. Ele governou a cidade entre 2000 e 2004 e exerceu mandatos de deputado federal e estadual antes de voltar ao comando do município.

Na última disputa pela prefeitura, ele venceu Perondi no segundo turno numa das mais acirradas disputas do país. Marroni teve 50,36% dos votos, ante 49,64% de Perondi, uma diferença de 1.236 votos. Sem nomes fortes de centro, a tendência é de que eles voltem a se enfrentar, ainda mais agora que Perondi conquistou 73,9 mil votos para a Câmara, 51,7 mil deles em Pelotas.

Alternativas

Uma alternativa a Perondi seria o deputado federal Daniel Trzeciak (PSDB), que não conseguiu renovar o mandato. Em 2024, Daniel não seguiu a orientação do PSDB de apoiar Marroni no segundo turno e fez campanha para Perondi.

Na época, ele foi alertado de que poderia estar dando suporte a um candidato que poderia lhe tirar o mandato na eleição seguinte. Abertas as urnas, Daniel colheu 29 mil votos na cidade, uma redução significativa perto dos 43 mil obtidos em 2022. Agora ele deve trocar de partido e já falou em postular uma candidatura a prefeito.

No PSD, a ex-prefeita Paula Mascarenhas também é citada como possível candidata. Ela tentou uma vaga na Assembleia Legislativa, mas ficou na segunda suplência, com 35 mil votos - 24 mil em Pelotas.

Nos bastidores, porém, PT e PSD já começaram as primeiras conversas em torno de uma eventual aliança para enfrentar a direita no município em 2028.