segunda-feira, 14 de setembro de 2026

14 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

Os áudios acelerados

Quando você perde alguém, o santuário imediato a revisitar não são as fotografias, mas os áudios e as conversas. Você sofre de imensa saudade da voz da pessoa. Do sotaque. Do calor do tom. Da pronúncia intensa, coloquial e afetiva. Do jeito de falar e respirar, de cortar as palavras, de pontuar as emoções, de chamar o seu nome.

A voz é a primeira que morre entre tantas mortes reunidas ao longo do pesar. Só que a pressa nos leva a sacrificar a vida enquanto ela é possível de ser repartida. E de ser resgatada.

Um amigo que enfrenta o luto do pai foi procurar sua troca de diálogos no WhatsApp e descobriu que não havia escutado a maior parte dos áudios. Ou porque corria, ou porque precisava cumprir os prazos no trabalho, ou porque simplesmente não valorizava aqueles depoimentos que vinham frescos e cheios de novidades no decorrer da rotina.

Ele se assustou com o quanto havia permitido que lembranças inéditas entrassem no vácuo, sem direito a uma resposta, um riso ou um comentário. Tinha sido avarento, assumindo uma relação parcial, uma receptividade pela metade, uma reciprocidade fraturada.

Nossos familiares são os que menos recebem retorno, postos na vala comum das mensagens não lidas. Números piscam em verde sem esperança.

Ter intimidade é, paradoxalmente, ser deixado para depois. Não há dinheiro, não há sucesso, não há poder, não há negócios por trás das letras e dos sons exigindo prioridade. A banalidade de você contar o seu dia e perguntar "o que tem feito?" sucumbe na hierarquia da agenda.

O descaso de meu amigo não era pensado. Talvez por ele achar que não se tratava de nenhuma urgência. Ou por considerar que o contato jamais cessaria, que seria infinito, facilitando o desperdício constante das notícias de uma alma. Ou por julgar que tudo se resumia a amenidades conhecidas.

Mal sabia que sentiria falta do básico. O básico, retirado de repente, passou a constituir o alicerce da sua alegria, da sua normalidade. Ele percebeu que não ouvia até o fim, deduzia o que o pai iria dizer ou acelerava a gravação em 1,5x ou 2x de velocidade, transformando a dicção num replicante metálico e anônimo. Não se dava por inteiro, já que não se mostrava minimamente atento ou interessado.

Agora que o pai partiu, o que o filho mais quer é responder. E não pode mais. Dói ver arquivos que não foram baixados. Sequer apertou o dedo sobre a mensagem enviada para que ela continuasse disponível. Nem isso realizou. Não houve uma vez para repetir outras.

O conteúdo não será mais decifrado. Um traço insolúvel. Uma pedra na tumba. Uma experiência brutalmente silenciada. Como uma carta escrita em vão. O pai parou seu tempo para o filho que nunca tinha tempo. E o tempo não volta. 

CARPINEJAR

14 de Setembro de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Bola de cristal

Em outubro de 2018, dias depois do primeiro turno das eleições, escrevi uma coluna falando sobre tudo que me preocupava em um futuro governo Bolsonaro. O texto era uma resposta a uma pergunta feita pela minha filha. Eu não devia andar com uma cara muito boa naqueles dias, e ela queria entender do que exatamente eu estava falando quando dizia que a vitória da extrema direita seria um desastre para o Brasil.

Relendo aquela coluna, percebo que não errei nos traços de caráter do então candidato que tornariam excruciantes os intermináveis quatro anos em que ele permaneceu no Palácio do Planalto - já eram evidentes o despreparo, o destempero verbal, o fetiche pela violência, o desprezo por tudo que ele não entendia (muita coisa), a arrogância, a falta de noção -, mas falhei miseravelmente na futurologia. Mesmo se tivesse previsto uma pandemia, não conseguiria imaginar um presidente atrapalhando a chegada das vacinas ou fazendo troça com doentes. 

Mesmo conhecendo a visão predatória do futuro presidente em relação à Amazônia, não calculei que a política de "passar a boiada" seria tão escancarada, diligente e criminosa. Mesmo sabendo que o capitão era fã do regime de 64, não esperava que ele tivesse a insolência de tramar um golpe militar. A realidade, quem diria, superou meu pessimismo.

Para o bem e para o mal, hoje ninguém precisa de bola de cristal para imaginar como seria um segundo governo do clã Bolsonaro. Basta observar como Donald Trump tem se comportado em seu retorno à Casa Branca para conferir, na prática, a tese que os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt desenvolveram no best-seller Como as Democracias Morrem: líderes populistas autoritários usam o primeiro mandato para testar os limites do sistema, mapear os nós institucionais e identificar quem oferece resistência. No segundo mandato, eles já sabem exatamente onde e como atacar. Azar da torcida.

Desde que tomou posse, o ídolo dos Bolsonaro não deu um segundo sequer de descanso para o planeta. Em sua versão turbinada de mal temperado com pitadas de psicopatia, Trump avança com suas (muitas) pautas particulares ao mesmo tempo em que mete o louco com a agenda da extrema direita norte-americana: guerras, tarifaços, ataques à liberdade de expressão e à democracia, negacionismo - sem falar do objetivo confesso de transformar a América Latina na casa da Mãe Joana. 

Eleger um candidato que não apenas bajula, mas se espelha no maior amigo da onça com o qual o Brasil já teve a infelicidade de lidar não seria apenas um desastre, como em 2018, mas o mais melancólico harakiri moral que o nosso país poderia cometer. 

14 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

Investigação sem subterfúgios

O Supremo Tribunal Federal terá nesta terça-feira uma oportunidade histórica para começar a recuperar sua imagem e sua credibilidade perante a Nação - ou para maculá-las ainda mais, se alguma formalidade processual impedir ou postergar o exame transparente das graves acusações que recaem sobre um de seus integrantes. A sessão extraordinária e aberta convocada pelo presidente da Corte, ministro Luiz Edson Fachin, tem como pauta específica o pedido de investigação criminal contra o ministro Alexandre de Moraes por seu relacionamento suspeitoso com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso preventivamente por comandar um esquema de fraudes financeiras no Banco Master.

O que será julgado amanhã, portanto, é se o STF abre ou não inquérito para apurar a veracidade e a gravidade de informações extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal e que indicam 52 mensagens entre o banqueiro e o ministro referido. Pelas regras processuais, um magistrado investigado não vota no próprio julgamento, mas Alexandre de Moraes deveria ser o primeiro a pedir a abertura de investigação para apresentar sua defesa ou questionar a validade das provas. Aliás, ele já está devendo ao país uma explicação coerente para o contrato milionário do escritório de sua esposa com o banco liquidado extrajudicialmente no ano passado.

Merece reconhecimento o ministro Fachin pela firmeza com que vem conduzindo a crise no STF. Mas a recuperação da imagem da principal corte de Justiça do país não é tarefa exclusiva de um magistrado. Todos os seus integrantes, independentemente de correntes internas ou de relações políticas com os presidentes que os indicaram, devem se comprometer com essa causa institucional. No atual contexto, é inadmissível que algum ministro apele para preliminares ou recursos processuais que obstaculizem a abertura da investigação.

Além disso, a gravidade da situação exige que o julgamento seja conduzido à vista da sociedade. Se as conversas que resultaram no afastamento do ministro Dias Toffoli da relatoria do mesmo processo ocorreram a portas fechadas, desta vez é crucial que os debates tenham transparência. Sonegar dos brasileiros a completa apuração das ações praticadas pelos ministros, sob qualquer justificativa, servirá somente para alimentar as suspeitas e deteriorar ainda mais a imagem do Supremo.

A depuração do Tribunal não depende apenas de uma resposta legal e moral para a suspeição de Alexandre de Moraes. Há mais coisas a corrigir no Judiciário, como também nos demais poderes da República. Porém, parece inquestionável que o STF acumula poderes demais, que a implantação de um Código de Ética já tarda e que até o atual sistema de indicação de ministros para a Corte precisa ser rediscutido e aperfeiçoado. Mas o passo urgente a ser dado, neste momento, é a abertura de uma investigação rigorosa, sem subterfúgios, que possa comprovar a culpa ou a inocência do ministro suspeito de usar a toga para favorecer o homem que comandava uma rede milionária de corrupção no país. 

OPINIÃO RBS

 

Manobras podem retardar julgamento de Moraes

Às vésperas da sessão em que o Supremo Tribunal Federal vai decidir se o ministro Alexandre de Moraes deve ser investigado por suas ligações com Daniel Vorcaro, o Brasil assiste a uma guerra sem precedentes dentro da Corte. São tantos os pedidos feitos e as decisões tomadas durante o fim de semana que qualquer previsão sobre desfecho pode envelhecer precocemente.

O desafio do presidente do Supremo, Edson Fachin, é evitar que as manobras em curso criem o ambiente para a impunidade. O embaralhamento das cartas mostra que são reais as chances de o julgamento de Moraes e André Mendonça ficar para depois da eleição. É esse o jogo de Moraes e seus aliados.

O mais recente pomo da discórdia é o pedido de acesso à íntegra do conteúdo extraído do celular principal de Daniel Vorcaro. Em resposta ao pedido dos colegas que querem acesso a todas as trocas de mensagens, Mendonça primeiro disse que não as tinha. Depois, alertou que não seria conveniente entregar esse calhamaço de documentos aos ministros, sob pena de tumultuar o julgamento de Moraes, marcado para amanhã , e prejudicar a investigação com a divulgação de trechos que não estão nos autos.

Estudo de telefone requer força-tarefa

A Polícia Federal afirma o contrário: que encaminhou a íntegra ao gabinete do relator. Desconfiado de que Mendonça não entregaria os documentos, o ministro Cristiano Zanin buscou um atalho e determinou à Polícia Federal a entrega do material em seu gabinete até as 23h de ontem. Nos "considerandos" de sua decisão, Zanin assinalou que Mendonça não só recebeu a íntegra da Polícia Federal como disponibilizou cópia para a CPI do Master.

Se todos os ministros que pediram acesso ao conteúdo do telefone de Vorcaro quiserem fazer um estudo detalhado do que é público e do que não foi revelado até agora, dificilmente estarão aptos a julgar Moraes na terça-feira, a menos que montem uma força-tarefa para buscar as respostas em menos de 48 horas, usando a inteligência artificial. Não será surpresa se houver um pedido de adiamento, comprometendo o cronograma do ministro Edson Fachin, que marcou para o dia 23 o julgamento de Mendonça. _

Em live neste domingo, o presidente Lula disse que o filho "pagará um preço muito alto" se tiver envolvimento no escândalo do INSS, mas destacou que "quem tem escritório junto com o Careca é Flávio Bolsonaro".

Zucco faz caminhada na Redenção, o parque preferido da esquerda

Para mostrar que não é só a esquerda que circula pelo Parque da Redenção nas manhãs de domingo, o candidato do PL a governador, Luciano Zucco, participou de caminhada na Avenida José Bonifácio, junto ao Brique.

Acompanhado da vice, Silvana Covatti, e dos candidatos da coligação ao Senado, Marcel van Hattem e Ubiratan Sanderson, Zucco circulou entre os frequentadores.

Depois de uma hora de caminhada, a mobilização foi encerrada com um ato na esquina com a Avenida João Pessoa. No carro de som, o candidato voltou a defender mudança na condução do Estado, com redução das secretarias, melhoria da gestão e prioridade para medidas capazes de retomar o desenvolvimento econômico.

Zucco também citou propostas para áreas como infraestrutura, saúde e segurança pública. Disse que, se for eleito, dará prioridade à melhoria das estradas, à redução das filas por consultas, exames e cirurgias e ao fortalecimento das políticas de proteção às mulheres.

Depois, o candidato do PL visitou o Acampamento Farroupilha de Sapiranga. Em conversa com jornalistas, descartou a privatização do Banrisul:

- O Banrisul está dando resultado e é um banco que usamos para fomentar o agro, a indústria e o comércio. É um banco parceiro. Não temos intenção nenhuma de privatizá-lo.

Neste início de semana, Zucco vai a Lajeado e Dois Irmãos. Na sexta-feira, viaja para a Fronteira, onde participa de desfiles farroupilhas. Os 10 dias finais da campanha serão focados na Região Metropolitana. _

Aliados de Moraes insinuam que Mendonça é parcial

O que os aliados do ministro Alexandre de Moraes insinuam é que André Mendonça tentou direcionar as investigações para defender os interesses da família Bolsonaro.

A situação do ministro ficou mais delicada com a revelação de que a defesa de Flávio Bolsonaro acionou o STF para tentar tirar de Flávio Dino a investigação sobre suposto uso de emenda parlamentar do deputado Mario Frias para financiar o filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro.

O presidente Edson Fachin não cedeu porque até os estagiários do Supremo sabem que não cabe ao investigado escolher o juiz que vai julgá-lo.

Fachin foi elogiado por ex-ministros e por juristas pela forma como está conduzindo a crise na instituição e adotando medidas que possam impedir manobras da turma que quer deixar tudo como está. 

Manuela tem de apagar vídeo

A desembargadora federal Vânia Hack de Almeida determinou que a candidata do PSOL ao Senado, Manuela d?Ávila, remova publicações em que associa o empresário Rui Denardin, doador da campanha de Marcel van Hattem (Novo), à lavagem de dinheiro para o PCC.

Manuela teve duas horas após a intimação para retirar as publicações do Instagram, do Facebook e do X, sob pena de multa de R$ 1 mil por hora de atraso. Ao analisar as publicações, a juíza destacou que a acusação ultrapassa a crítica política e atinge diretamente Van Hattem. _

Rigotto obtém vitória na Justiça

Por decisão da desembargadora Jane Maria Kohler Vidal, o deputado federal Maurício Marcon (PL) teve de tirar do ar um vídeo com informações falsas sobre o ex-governador Germano Rigotto, candidato do MDB ao Senado.

No vídeo, Marcon dizia que votar em Rigotto seria eleger Manuela D?Ávila (PSOL) e pautas de esquerda, como aborto, compartilhamento de banheiros entre homens e mulheres e liberação de drogas.

A remoção do conteúdo determinada pela desembargadora se estendeu a todas as plataformas onde o conteúdo foi publicado. 

POLÍTICA E PODER

14 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

O desafio de Trump com as "midterms"

Daqui a 50 dias, os Estados Unidos vão às urnas para uma eleição que pode mudar os rumos do governo do presidente Donald Trump. São as midterms, as eleições de meio de mandato. O pleito recebe esse nome por ocorrer no meio do mandato presidencial e será realizado em 3 de novembro.

Na votação, os americanos vão escolher os representantes do Congresso dos Estados Unidos. Serão eleitos todos os 435 membros da Câmara dos Representantes e 35 dos 100 senadores.

Mestre em Relações Internacionais, professor de Política Internacional e fundador do podcast Petit Journal, Tanguy Baghdadi explica que as eleições são importantes para a governabilidade do presidente, já que, para aprovar as pautas do Executivo, é necessário contar com o apoio das duas Casas do Congresso.

- Se você tem um governo impopular, a tendência é que ele tenha um resultado ruim nas midterms e possa se tornar um presidente enfraquecido na segunda metade do mandato. Se o partido do presidente não consegue um bom resultado, ele pode acabar ficando relativamente emparedado - explicou à coluna.

Atualmente, o Partido Republicano, legenda de Trump, mantém o controle das duas Casas do Congresso. Projeções, no entanto, apontam os democratas como favoritos.

- Praticamente todas as projeções colocam a retomada da maioria na Câmara por parte dos democratas. O tamanho dessa maioria é difícil dizer. Pode não ser tão pequena assim, mas, de qualquer forma, isso coloca Trump em uma posição muito mais difícil.

Promessa de US$ 5 mil

Na última semana, Trump prometeu pagar US$ 5 mil - cerca de R$ 25,5 mil - a cada adulto do país caso o Partido Republicano vença as midterms. A legislação americana proíbe autoridades de oferecer benefícios ou verbas a eleitores em troca de resultados eleitorais.

- Essa promessa tem um nome: compra de votos. A impressão que tenho é que o trumpismo, como faz tudo às claras, dá a ideia de que é legal. Mas é obviamente ilegal e dá a visão realmente de ser um certo desespero. As pesquisas estão mostrando que o resultado dele tende a ser muito ruim. E, se você tem um governo que não consegue avançar com as próprias pautas, a tendência é que entregue menos. Acaba tornando mais difícil também a possibilidade de o Trump fazer um sucessor - afirmou Baghdadi.

O professor lembra que a perda da maioria no Legislativo pode dificultar a agenda de Trump na segunda metade do mandato.

- De fato, é uma consequência grande. Ele pode ser travado, pode ser barrado, pode ser questionado. Pode ter uma série de constrangimentos para o governo que, naturalmente, podem dificultar bastante a vida do presidente e do seu partido. _

Parceria internacional

A parceria entre o Hospital Moinhos de Vento e organizações de saúde do Uruguai gerou frutos. Na última semana de agosto, Ricardo Araujo Abimorad, de 60 anos, otorrinolaringologista e morador de Rivera, foi submetido a uma cirurgia pela equipe do Serviço de Ortopedia e Traumatologia.

Ele está entre os primeiros pacientes atendidos dentro desse modelo de cooperação, no qual o hospital de Porto Alegre mantém acordos de cooperação com o Sanatorio SEMM Mautone, na região de Punta del Este, a Sisamérica e a Medicina Personalizada. _

Entrevista

Roberto Padovani

Economista-chefe do BV

"A visão do gaúcho sobre o RS é mais

dura do que a do resto do país"

Roberto Padovani é economista formado pela USP, administrador pela Fundação Getúlio Vargas e economista-chefe do Banco Votorantim, atual BV. Foi sócio por 10 anos da Tendência Consultoria e assessor do Ministério da Fazenda durante o Plano Real. Ele esteve em Porto Alegre em agosto e conversou com a coluna.

Há otimismo após a retomada das negociações entre Brasil e EUA sobre o tarifaço?

A avaliação de uma consultoria nossa em Washington é de que o tema vai continuar no radar, com idas e vindas. É um tema sobre o qual temos um viés mais negativo. Não que não possa haver negociações, que as coisas não possam ser conversadas. Mas achamos difícil haver uma mudança radical de cenário a favor do Brasil. Isso porque a política tarifária americana reflete uma estratégia geopolítica, que é o redesenho da ordem internacional. Esse redesenho é de um mundo fragmentado: estão sendo criadas zonas de influência dos EUA e da China. 

Pode haver conversas indo bem com os EUA porque estamos na zona de influência deles e, em tese, não teriam interesse em atrapalhar seus aliados. Mas o que temos visto na gestão Trump é justamente o confronto com aliados. Impõe tarifas, percebe os custos, volta atrás, depois impõe novas... É um tema que se arrasta. Não vemos perspectiva de que essas coisas mudem rapidamente.

A menos de um mês das eleições brasileiras, economistas estão de olho nos programas de governo dos candidatos ou estão em compasso de espera?

O que acaba movimentando os mercados financeiros é sempre o fluxo global. Se você tem uma situação global tranquila, favorável, pode haver o desafio que for no Brasil, do ponto de vista econômico ou político, que os mercados não costumam reagir muito. A não ser em casos muito agudos, crises políticas muito agudas. Era o caso do boom das commodities, no início dos anos 2000. O cenário era favorável. Assumisse quem assumisse, estava tranquilo. Aqui no banco, prestamos muito mais atenção em certos eventos americanos. 

Tem um debate fora do país sobre se o Banco Central americano irá manter os juros parados ou se subirá. Teremos pela frente, em 2027 e 2028, um ambiente global que não nos ajuda. Quando a situação global vai bem, o estrangeiro nem olha para o que está acontecendo aqui. Mas, quando o ambiente é de cautela, ele olha mais os detalhes: "Vou investir no Brasil? Vou, mas quero mais informações, quero estar mais seguro". Se olharmos para fora e a situação está instável, os temas locais ganham relevância, como a dívida pública.

Passada a tragédia de 2024, qual é a percepção de risco dos investidores sobre o Estado?

Uma coisa que acho curiosa é que a visão do gaúcho sobre o RS é muito mais dura do que a do resto do país em relação ao Estado. O local tende a ser muito mais ácido, muito mais crítico. Olhamos Santa Catarina e RS: são Estados com uma característica peculiar e incomum no Brasil. Há uma conexão do agro com a indústria. A agroindústria é para valer. Pega a indústria metalmecânica no norte do Estado. Estive em Panambi. É impressionante essa indústria na cidade. O pessoal reclama: "Precisava ter uma cadeia de insumos mais bem estruturada". 

Mas é inacreditável a história da cidade. Como você tem essa integração agroindustrial muito sólida, isso cria no Estado um tecido industrial e econômico muito poderoso. A principal conclusão disso é o mercado de trabalho no sul do país, com taxas de desemprego abaixo da média nacional. Você conversa com qualquer empresário, todos relatam dificuldade para encontrar mão de obra. Isso tem um lado ruim, que é a pressão de custos nas empresas, mas tem o lado bom: salário para cima, renda alta. 

E, por conta disso, como você tem um tecido industrial e uma renda persistentemente mais alta, os índices de inadimplência são historicamente mais baixos. Portanto, as condições de oferta de crédito são muito melhores no RS. É um Estado industrial muito completo. _

INFORME ESPECIAL

sábado, 12 de setembro de 2026

 

12 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

O galo que mandava em casa

Eu encontrei, num brechó, aquele galo que já me anunciou muitos amanheceres. Um pequeno galo que cabia na palma da mão e determinava nossas roupas, se sairíamos de casaco, de guarda-chuva, de galochas.

Nem a minha mãe ou o meu pai mostravam tanta influência. Ele mudava de cor conforme a umidade do ar. Não media propriamente a temperatura, mas era como se fosse nosso meteorologista.

Ficava numa base arredondada, num poleiro particular, pronto para farejar os ventos.

Se o galo de verdade cantava quando a claridade do dia chegava, aquele detectava o minuano silenciosamente. Azul indicava clima seco; rosa nos orientava para o toró e para o frio. A percepção dessas alterações vinha de sais de cobalto em sua plumagem.

O galinho ocupou, durante longo tempo em nosso Pampa, o posto do pinguim em cima da geladeira. Uma superstição doméstica que virou decoração, ou uma decoração que se tornou crendice.

Poderíamos observar as nuvens tomando o céu, e somente acreditávamos no seu aspecto violeta. Poderíamos estar debaixo de um sol acachapante, mas somente confiávamos no seu perfil rosado.

No nosso terreiro, ele mandava.

Fazia parte de uma família de utensílios que modelavam o nosso comportamento no interior do Estado: a maçã de plástico no filtro de barro; a folhinha do calendário atada por uma chapinha metálica; o descanso do pano de prato na tampa de vidro do fogão; o bordado com miçangas nas pontas para espantar as moscas e cobrir a cesta de pão ou o bolo recém-tirado do forno; 

a passadeira de plástico transparente sobre a mesa, para não sujar a toalha bonita; a saboneteira com sabonetes cenográficos, perfumados, que ninguém tinha autorização para usar; o rolo de papel higiênico reserva escondido na bonequinha de crochê; o porta-fósforos preso à parede da cozinha; o porta-pente de tecido pendurado no banheiro, em que cada andar ou bolso trazia um pente de um tamanho diferente; 

a cortina de contas na porta, denunciando quem passava; o tijolo segurando a porta dos fundos para não fechar; o escorredor de louça com pratinho em pé; a garrafa térmica com café açucarado para a manhã inteira; o tapete da área de serviço feito de retalhos, que se enrodilhava numa leve pisada.

Somos vulneráveis para a nostalgia. Uma miniatura me devolveu os anos da minha formação. Ativou a memória involuntária. Num secreto estímulo sensorial, reconstituiu a minha casa da infância de maneira repentina.

Não revisitei apenas os objetos, mas os ruídos, os cheiros, as vozes, a sensação de transitar por um mundo extinto, como se houvesse uma ressurreição possível ao menino que fui.

Jamais é só um galo. Puxei uma pena e recebi toda a residência de volta. Metade construção, metade madeira; metade verão, metade inverno.

Ele deve ter também o poder de regular a temperatura do meu corpo. Aqueceu-me como nunca de frentes geladas da ausência. Ou de uma presença remota, sempre prestes a aparecer. _

CARPINEJAR

12 de Setembro de 2026
Fayda Belo - Advogada e comunicadora

"Não adianta só prender o homem quando o corpo da mulher já está estirado no chão"

Fayda Belo da Costa Gomes nasceu na periferia de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, em 1981. Por presenciar opressões desde a infância, aos oito anos já sonhava em ser advogada.

Começou a realizar esse sonho ao cursar Direito por meio do Prouni, já mãe de dois filhos. Tornou-se criminalista e virou referência em casos de crime de gênero e direito antidiscriminatório. Apesar da gagueira, amealhou milhões de seguidores nas redes sociais com seus vídeos "descomplicando o juridiquês".

Em agosto, esteve na Capital como uma das mais aguardadas palestrantes do Cidade da Advocacia, evento organizado pela OAB/RS, e conversou com Zero Hora.

Mathias Boni

Quando você começou a pensar em ser advogada, e depois se especializar em direito criminal e antidiscriminatório?

Ocupar esse lugar sempre foi o sonho da minha vida. Veja, além de ser uma mulher, sou negra, e vim de um lugar muito pobre. Cresci vendo todo tipo de opressão, contra mulheres, contra homossexuais, contra pessoas negras, pessoas pobres. E, já muito cedo, com uns oito aninhos, comecei a ter esse sonho de ser advogada e atuar contra essas opressões, que é o que eu faço hoje. Tive que enfrentar muitas barreiras para entrar na faculdade, mas consegui me formar e finalmente virar advogada.

Aqui no Rio Grande do Sul, e no Brasil como um todo, são muito preocupantes os atuais índices de feminicídio. O que é possível fazer?

A primeira reflexão é que esse crime é o último grau, é um crime que avisa antes que vai vir. Se é o último grau, houve alertas anteriores que foram ignorados. É uma obrigação do Estado desenvolver de forma efetiva políticas públicas que atentem para esses alertas, e que previnam que o crime seja consumado. Se é um crime que avisa antes, significa que essa rede que, em tese, tinha que dar amparo e proteção a essa mulher, falhou. Não adianta só prender o homem quando o corpo da mulher já está estirado no chão, ela não vai voltar à vida. É preciso intensificar a proteção nas fases anteriores ao crime.

Tramita no Congresso o projeto de lei que ficou conhecido como PL da Misoginia. Como você avalia a proposta?

A gente vive em um mundo que está cada vez mais online, que também abriu espaço para muitos discursos de ódio, e um desses é contra as mulheres, com essa onda red pill, por exemplo. É um discurso misógino que se reflete em crimes contra as mulheres, em opressão contra as mulheres, e isso tem que ser coibido. O PL é muito necessário e vai além do combate ao discurso digital. É amplo e se propõe a combater todas as formas de discursos de ódio e discriminação contra a mulher, que é a pólvora que alimenta crimes como os feminicídios. O PL cria um dispositivo jurídico que facilita o reconhecimento e a punição desse discurso de ódio como crime.

Em agosto se completaram 20 anos da Lei Maria da Penha. Qual foi a importância dessa legislação para reforçar a proteção às mulheres nas últimas duas décadas?

É um marco histórico na vida de todas as mulheres brasileiras. Foi com essa lei que começou no Brasil a se reconhecer que o ambiente de casa também é perigoso para a mulher, para a esposa, que o marido não pode enxergar a esposa como sua posse, que ele também pode violentar e matar essa mulher. A lei também não nasce a partir de uma vontade voluntária de proteger as mulheres e, sim, da omissão na proteção dessas mulheres, que já tinha produzido tantos casos terríveis de sofrimento. A contribuição que a lei trouxe para a proteção às mulheres, e mesmo para o debate da violência de gênero no Brasil, foi inestimável, mas mesmo assim ainda vivemos em um país onde, em média, são assassinadas quatro mulheres por dia. Se não fosse a lei, a proteção jurídica e a evolução no debate e na consciência das mulheres que promoveu, esse número seria muito maior.

Nesse cenário de violências contra a mulher, o panorama é ainda mais sensível para mulheres negras?

A mulher negra é duplamente vulnerável: sofre com a opressão relativa ao gênero e com a opressão relativa à raça. Esse fato faz com que as mulheres negras sejam as maiores vítimas desses crimes de violência. O Brasil é um país com muitas violências machistas, e o peso dessa violência recai sobre a mulher. E o Brasil também é um país com muitas violências racistas, e o peso dessa violência recai sobre os negros. A mulher negra, portanto, acumula esses dois pesos. Por isso, quando crio uma ação ou uma política pública de proteção às mulheres sem o recorte racial, será uma política falha, incompleta

Nos seus anos de atuação no âmbito do direito antidiscriminatório, o quanto acha que evoluiu o combate ao racismo no Brasil?

Se avançou muito no Brasil nas últimas décadas, mas, da mesma forma, ainda há muito a ser feito. Mais recentemente, do ponto de vista legislativo, a lei que equipara a injúria racial ao racismo, em 2023, foi um avanço importante. Por outro lado, as principais instituições do Judiciário continuam tendo autoridades majoritariamente brancas. Os tribunais de Justiça, ministérios públicos, mesmo as delegacias, ainda seguem com uma grande maioria de autoridades sendo homens brancos. É inegável que ocorreram avanços de inclusão social no Brasil nas últimas décadas, teve a Lei de Cotas, que foi fundamental para isso, e também avançaram as leis de combate aos atos de racismo. Estamos avançando, mas não podemos parar.

Como você define a importância de sua presença digital dentro do trabalho?

Quando participamos de congressos e palestras, a mensagem chega só para aquele público. No mundo online, um vídeo, uma postagem nas redes sociais chega a milhões de pessoas. Então é muito importante se apropriar desse espaço e usar esse alcance para reforçar a mensagem da igualdade de gênero, de raça. Depois que meu primeiro vídeo viralizou, entendi que é uma plataforma que pode ser usada para levar informação ao público, falando sobre leis, conscientização, direitos, e que, muitas vezes, se não for pelas redes sociais, muitas pessoas não têm acesso a esse tipo de conhecimento. 



12 de Setembro de 2026
MARCELO RECH

Depois da terça-feira

Em um mundo normal, que hoje mais parece um mundo da fantasia, o plenário do STF se reuniria na próxima terça-feira e, diante das evidências da promiscuidade de pelo menos um de seus membros com um gângster financeiro, o afastaria, por unanimidade, até que tudo tenha sido esclarecido. Nesse mundo, o zelo pelas biografias dos ministros, a reputação do STF e a ordem institucional estariam acima de quaisquer mesquinharias e interesses privados.

Pois infelizmente esse mundo da carochinha só existe na empolação dos discursos oficiais. Na penumbra, a Suprema Corte se transformou em arena partidária, como se estivesse dividida em partidos que se digladiam pelo poder, quando não pela opulência que se abre a togas mais flexíveis. Para a confiança na democracia e no sistema de pesos e contrapesos no qual ela se assenta, a partidarização do STF é uma tragédia que não tem apenas um culpado: ela teve início quando as indicações a ministros passaram a privilegiar lealdade política antes do virtuosismo jurídico.

Não que a origem política comprometa de saída a composição da Corte. Um ex-ministro de peso como Paulo Brossard tinha larga trajetória partidária quando indicado por José Sarney, em 1989. Curiosidade dos tempos sem tanta polarização: no MDB, Brossard havia sido um dos críticos mais vocais da Arena, que fora presidida pelo mesmo Sarney. O problema mesmo foi quando alguns ministros, mesmo sem votações anteriores, não se furtaram a fazer política no STF.

Veja-se o caso de um jurista do quilate de Ricardo Lewandowski. Ao presidir o impeachment de Dilma Rousseff, ele passou por cima do Artigo 52 da Constituição, que inabilitaria a ex-presidente para qualquer função pública por oito anos. Ignorada a Constituição, Dilma disputou o Senado por Minas Gerais e foi humilhada com um quarto lugar na eleição de 2018. Mais tarde, Lewandowski viraria ministro da Justiça de Lula.

De drible em drible na Constituição, chegamos ao ponto em que decisões de ministros são vaiadas ou comemoradas por torcidas vendadas pela paixão política. Cada atropelo constitucional é saudado como gol por um lado e denunciado como pênalti pelo outro. O que falta de ética dentro do STF ecoa no placar das repercussões eleitorais do lado de fora. Difícil dar certo assim.

Tais analogias do STF com o futebol têm suas limitações óbvias. No futebol, uma falha do juiz é aceita pelo time favorecido como parte da disputa esportiva. Em uma decisão do STF, que deveria ser imune a manipulações e influências externas, o erro jurídico - ainda mais aquele movido por inclinações políticas - é um arranhão na democracia. A continuar assim, o STF, quem diria, corre o risco de passar de fiador a verdugo do Estado de direito. Veremos como será o pós-terça-feira.


MARCELO RECH

12 de Setembro de 2026
EDITORIAL

O peso da eleição para o Senado

Diz-se que grande parte do eleitorado define o voto para o Senado às vésperas de comparecer na urna. Essa constatação revela a importância secundária que a população parece dar para essa escolha diante das disputas que despertam mais as paixões políticas, como para governador e para a Presidência da República. Trata-se de um costume que deveria ser revisado.

O Senado tem características e atribuições específicas que conferem à Casa grande responsabilidade. Assim, é uma competição que mereceria maior atenção e uma análise mais profunda de triagem dos nomes a partir de suas ideias, propostas e trajetórias. No pleito deste ano, 54 das 81 cadeiras estarão em jogo. Com isso, em cada Estado e no Distrito Federal serão dois eleitos e os cidadãos aptos poderão votar em dois postulantes.

Com o propósito de contribuir para uma escolha consciente, a Rádio Gaúcha promoveu na sexta-feira um debate com os candidatos de partidos, federações e coligações com pelo menos cinco representantes no Congresso. Foram convidados Frederico Antunes (PSD), Germano Rigotto (MDB), Manuela d?Ávila (PSOL), Marcel van Hattem (Novo), Milton Cardoso (PSDB), Paulo Pimenta (PT), Renato Jaguarão (Cidadania) e Ubiratan Sanderson (PL). 

O encontro, em tom às vezes duro mas civilizado, como requer a democracia, teve a apresentação de esboços de propostas e o confronto de visões sobre temas como Supremo Tribunal Federal (STF), apostas esportivas, renegociação da dívida do Estado com a União, feminicídios e proteção de fronteiras, entre outros. Debates são oportunidade singular por proporcionarem o embate direto.

A eleição para o Senado ganhou foco adicional neste ano pelo fato de a Casa ter a atribuição de analisar o impeachment de membros do STF. A descoberta, desde o final do ano passado, de comportamentos incompatíveis com o cargo de alguns ministros, enredados no escândalo do Banco Master, tornou o tema mais palpitante. É possível que um processo de impedimento tenha de ser enfrentado. Mas cumpre lembrar que o papel do Senado é bem mais amplo. Há outros fatores que o eleitor deve considerar para enriquecer a construção da sua escolha.

A Constituição define que os senadores são representantes de seus Estados. Isso determina que sejam apenas três vagas por unidade da federação. É de extrema importância ter uma representação qualificada e atuante, à altura do desafio de defender os interesses do Rio Grande do Sul em Brasília.

O Senado é a Casa revisora da República pois, em regra os projetos de lei do Executivo tramitam primeiro na Câmara. Assim, é de onde se espera maior maturidade e sabedoria. Até por isso a idade mínima para exercer o cargo é maior, de 35 anos, ante 21 para a função de deputado federal e de 30 para ser governador. Outras competências exclusivas são aprovar ou rejeitar indicações para posições relevantes como diretores do Banco Central, procurador-geral da República e ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) e do próprio STF.

Com o intuito de auxiliar o eleitor, Zero Hora publicou uma série apresentando os oito candidatos, escolhidos pelos mesmos critérios do debate. O Bom Dia Rio Grande, da RBS TV, apresenta a partir de segunda-feira entrevistas individuais com postulantes. No dia 25, a RBS TV promoverá um novo debate. Vale lembrar que o mandato de senador é de oito anos. Uma escolha equivocada tem um custo maior para o Estado. 

12 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

André Mendonça retira sigilo de relatórios. Inquérito apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no financiamento do filme Dark Horse. Eduardo Bolsonaro é apontado como gestor de recursos nos Estados Unidos

Flávio Bolsonaro é investigado no caso Master

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de um inquérito policial para apurar a participação do senador e candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em supostos crimes no financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai, o ex- presidente Jair Bolsonaro.

Flávio foi incluído em 22 de julho na investigação que apura o repasse para custear a produção do filme de R$ 62 milhões pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mas isso só veio a público na manhã de sexta-feira. A investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Flávio rechaça qualquer irregularidade na captação dos recursos (confira ao lado).

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro também é alvo da investigação. Ele é apontado como possível beneficiário de parte do dinheiro. Eduardo foi citado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por orientar a gestão dos recursos do filme nos Estados Unidos. O inquérito foi aberto a pedido da Polícia Federal (PF) e recebeu o aval da PGR.

A existência de inquérito tendo Flávio como alvo direto veio à tona após Mendonça levantar o sigilo, na noite de quinta-feira, de procedimentos de investigação derivados da Operação Compliance Zero, que apura a corrupção de agentes públicos e fraudes financeiras bilionárias supostamente praticadas por Vorcaro e seu grupo.

Após a autorização para a abertura da investigação de Flávio ter sidoo tornada pública, o teor do inquérito também foi liberado, assim como outras apurações envolvendo o Master (veja na página 6). Mendonça tirou o segredo de Justiça dos documentos a pedido do presidente do STF, ministro Edson Fachin, que na noite de quinta-feira requereu a publicidade da investigação do Master, "ressalvado apenas o que diga respeito a diligências cujo sigilo seja imprescindível à realização da medida".

Veio a público também, por exemplo, relatório enviado ao Supremo apontando suspeitas envolvendo o ministro Dias Toffoli e um fundo que recebeu R$ 35 milhões ligados a Vorcaro (leia mais na página 6). Além disso, os relatórios indicam que Vorcaro soube antecipadamente da operação e apontam que dois ex-servidores do Banco Central (BC) teriam atuado como consultores do empresário mediante pagamento (leia mais na página 7).

Em áudios revelados pelo Intercept Brasil, Flávio pediu R$ 134 milhões a Vorcaro para custear o projeto da produção do filme Dark Horse. Desse total, mais de R$ 60 milhões foram pagos, segundo a PF.

No Supremo, correm duas investigações distintas sobre o financiamento do filme: uma sobre o custeio da obra com emendas parlamentares, que tramita no gabinete de Flávio Dino, e outra que acompanha os desdobramentos do caso Master, sob a alçada de Mendonça. É nessa segunda investigação que está inserida a apuração que atinge Flávio.

Segundo a PF, Flávio teria se encontrado com Vorcaro em agosto do ano passado, pouco mais de duas semanas antes de o senador cobrar o empresário sobre os pagamentos previstos para a produção do longa sobre Jair Bolsonaro. Conforme a PF, dados extraídos do celular de Vorcaro mostram que o banqueiro enviou a Flávio uma mensagem com um horário para um "provável encontro presencial entre ambos". Na sequência, o senador respondeu: "A caminho".

Recentemente, Mendonça homologou a delação premiada de Antonio Carlos Freixo Júnior. O empresário é dono da Entre Investimentos e Participações, que, segundo a investigação, foi usada para repasses de dinheiro entre Vorcaro e a produção do filme. Segundo o jornal O Globo, Freixo Júnior confirmou à PGR ter feito, a pedido de Vorcaro, sete transferências para o fundo Havengate que somaram US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 62 milhões.

Os investigadores apuram o destino final desses recursos e se o dinheiro serviu para cobrir despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Documento da Procuradoria destacou mensagens enviadas por Eduardo a Thiago Miranda, que seria o contato entre o ex-deputado federal e Vorcaro.

"O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para os EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de seis meses, calculamos", escreveu Eduardo.

Segundo a PGR, o ex-deputado teria coordenado o dinheiro para o filme do pai nos Estados Unidos, onde mora desde março do ano passado. "A autoridade policial levanta a hipótese de que Eduardo Bolsonaro orientou a gestão dos recursos em solo estrangeiro", diz o órgão. _

Candidato nega irregularidade e diz que repasses são "relação privada"

O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) afirmou na sexta-feira que considera "positivo" o fim do sigilo do inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) que investiga o financiamento do filme Dark Horse.

Segundo Flávio, a abertura dos dados deve confirmar que não houve irregularidades na produção e que os pagamentos se tratam de uma "relação privada".

- Quero transparência em tudo, porque vou só confirmar o que eu sempre falei, que não tem justamente nada de errado com relação ao filme, diferente de relações de muita gente do atual governo que tentaram de alguma forma beneficiar o Banco Master - afirmou.

A declaração foi dada pelo presidenciável durante entrevista coletiva após visita a uma fábrica de motocicletas em Manaus.

O senador evitou responsabilizar o ministro André Mendonça pela decisão que autorizou a abertura de investigação sobre sua relação com o financiamento do filme Dark Horse.

Ele afirmou que o ministro "está certo" e que apenas cumpre seu papel de juiz.

- Eu queria muito que todos no Supremo fossem iguais ao André Mendonça, que não pesassem para lado nenhum, investigassem tudo, todo mundo com transparência - declarou, completando:

- Peço ao ministro André Mendonça, abra sigilo, sabe, tira o sigilo de tudo, mostra tudo para o povo.

"Nada a esconder"

Flávio afirmou que não tem "nada a esconder" e voltou a sustentar que o dinheiro recebido foi um patrocínio privado para a produção do filme.

- No filme do Bolsonaro, não tem um real, não tem nada pra Flávio, tem patrocínio pra um filme privado - insistiu o candidato.

Ele disse ter "muita tranquilidade" a respeito da investigação e que o caso será "sempre mais do mesmo". E classificou a apuração como uma tentativa de desestabilização de sua candidatura durante a eleição presidencial. 

Preferência pelas "suíças"

Rosane de Oliveira

A investigação sobre o escândalo do Master contém fartas referências a festas patrocinadas por Daniel Vorcaro para homens a quem ele pretendia agradar - ou corromper. A principal atração dessas festas, regadas a bebidas caras, eram as mulheres, jovens e bonitas, brasileiras e estrangeiras, para animar os convidados.

Com base nas mensagens encontradas no celular de Vorcaro, a revista Piauí reconstituiu a organização de uma dessas festas, no Halloween de 2023, em São Paulo. O responsável pelos convites era Fábio Faria, ex-ministro de Jair Bolsonaro, convertido em uma espécie de "personal cafetão" de Vorcaro.

A contratação das modelos ficou a cargo do promotor de eventos Tiago Polo. Pela troca de mensagens, sabe-se que eram 20 homens e 120 mulheres. "Só novinhas", recomendou Vorcaro a Polo, resumindo uma exigência para a seleção das contratadas.

De acordo com a troca de mensagens, entre os convidados estavam o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, o atual, Davi Alcolumbre, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, e um certo Wesley, que pelo contexto seria o empresário Wesley Batista.

Dois outros nomes são citados sem o sobrenome - Arthur e Alexandre, que, também pelo contexto da conversa com Fábio Faria, seriam Arthur Lira, ex-presidente da Câmara, e o ministro Alexandre de Moraes. Todos os que responderam aos questionamentos da Piauí juram que não foram à dita festa, realizada na casa noturna Madame Satã, no bairro Bela Vista.

Quando discutiam sobre os convites, Faria escreveu a Vorcaro: "Davi tá louco perguntando se as suíças vão vir. Se der vms trazer". Em resposta à presença das "suíças", Vorcaro respondeu: "Virão, sim". As contratadas e os convidados não podiam entrar com celular, para evitar a exposição.

A preferência pelas "suíças" tinha uma razão de ser: não falavam português e, portanto, não tinham como passar adiante o que os homens conversavam. 

12 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

Olhos voltados para mais um estreito no Oriente Médio

Dez países debatem transição energética

Trata-se da terceira edição do Wind of Change - Encontro de Investidores em Eólicas Onshore, Offshore e Hidrogênio Verde, que busca a retomada de investimentos e obras na área eólica no RS, além do avanço de uma agenda inédita para o hidrogênio verde no Estado.

O evento, realizado pelo Sindienergia-RS em parceria com a Viex, promoverá um debate de alto nível sobre energias renováveis, competitividade, segurança energética, descarbonização e novas oportunidades de investimento. Entre os temas em pauta estão as rotas de descarbonização, a transição energética como propulsora da competitividade econômica e os potenciais de investimento em energia eólica, hidrogênio verde, armazenamento e conexões.

Entre os participantes confirmados está Chris Hoornaert, embaixador da Bélgica no Brasil. A Bélgica é uma das referências internacionais em energia eólica, especialmente no setor offshore (em alto-mar).

As inscrições podem ser feitas pelo link gzh.digital/WindofChange. _

O presidente do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (Isape), Fabrício Ávila, avalia que a possibilidade de um fechamento do estreito existe, porém, destaca que, por serem um grupo insurgente, a capacidade dos houthis de sustentar uma ação é limitada:

- Já é uma façanha eles terem tomado a ilha, mas temos de ver se eles têm capacidade de utilizar helicópteros para fazer assaltos aos navios ou instalar baterias de mísseis. O bloqueio em si talvez eles não façam, o que podem fazer é algo até considerado pirataria pelo direito internacional - explicou à coluna.

Ávila diz que um bloqueio naval convencional exigiria a instalação de minas marítimas, além de uma força aeronaval de superfície para patrulhar a região e submarinos para escoltar comboios:

- Poderia ser um bloqueio naval assimétrico, para diminuir o movimento em vez de um bloqueio realmente feito por uma força naval tradicional. Os navios passariam escoltados, algo assim.

O especialista também destaca a forte presença da Otan e dos Estados Unidos na região como um fator determinante:

- Há cerca de 4 mil militares americanos e forças especiais na região do Djibuti que podem retomar Perim. Talvez seja a operação que Donald Trump necessita para as midterms (eleições de meio de mandato). É uma oportunidade para uma ação militar bem-sucedida sob o pretexto de combater a pirataria. Além disso, há cerca de 1,5 mil soldados franceses posicionados ali.

Sobre o impacto na dinâmica mais ampla entre Teerã e Washington, o pesquisador aponta diferentes horizontes temporais:

- No curto prazo, a tomada da ilha é um fato consumado. No médio prazo, o Irã parece estar ganhando por projetar algum controle no Mar Vermelho e em Ormuz. No longo prazo, porém, isso beneficia os Estados Unidos, pois dá aos americanos um motivo claro para intervir no conflito. Ao mesmo tempo, beneficia a Arábia Saudita, que pode transferir para os EUA a gestão de uma crise que não conseguiu resolver. 

Memória da tuberculose no RS

Melo aborda transporte e reforma tributária

O acervo exposto inclui imagens, além de vídeos históricos, teses acadêmicas do início do século 20, equipamentos médicos da época e livros raros - entre eles o "Livro de Ouro" da instituição.

A instituição começou a receber os primeiros pacientes em 15 de maio de 1940, mas a inauguração oficial ocorreu em 12 de outubro de 1943. Com a mudança na política pública de combate e tratamento da tuberculose na década de 1970, o complexo foi reestruturado.

Em 1975, passou a atuar como hospital geral sob o nome de Hospital Parque Belém, mantendo o atendimento à comunidade até o encerramento definitivo de suas atividades, em maio de 2017. 

O evento debateu os impactos das mudanças tributárias para os municípios e a adaptação das gestões locais às novas regras do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). No painel, Melo defendeu o fortalecimento do municipalismo nas discussões da reforma e demonstrou preocupação com os custos de eventuais mudanças na jornada de trabalho, como o fim da escala 6x1.

Na quinta-feira, o prefeito participou, em Florianópolis, do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Mobilidade Urbana. Na ocasião, voltou a defender a criação de um "SUS do Transporte Público", modelo focado no financiamento continuado, na integração do sistema e no avanço para uma matriz energética sustentável

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

10 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

Enfim, Fachin tenta pôr ordem na casa

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, tardava em usar o peso de seu cargo para se impor e colocar um freio na guerra autodestrutiva entre membros da Corte. No fim da tarde de ontem, sob pressão, enfim agiu para estancar a escalada de uma crise sem precedentes, composta por uma sucessão alucinante de determinações conflitantes de ministros e manobras das alas antagonistas do STF.

Após ser atropelado por decisões de colegas, Fachin reagiu para recolocar ordem na Casa com uma série de deliberações. Suspendeu a ordem de quarta-feira do ministro André Mendonça de afastar dos cargos o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada. Também anulou a resposta do ministro Flávio Dino, da manhã de ontem, que recolocou Rodrigues e Almada em seus postos e elevou ainda mais a tensão no Supremo. Ambos seguem em suas funções.

Merece o devido destaque também a decisão de Fachin de convocar uma sessão do plenário da Corte, para a próxima terça-feira, para analisar relatório da PF sobre a relação promíscua demonstrada nas mensagens enviadas ao ministro Alexandre de Moraes pelo ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Será discutida a validade do documento, e deve ser deliberado se será aberta uma investigação formal contra Moraes. O teor escandaloso da conversa não poderia ser ignorado pelo STF, se é que o Supremo pretende recobrar sua credibilidade perante a sociedade brasileira.

É relevante ainda a definição de Fachin de assumir a relatoria do excrescente inquérito das fake news, há sete anos sob a guarda de Moraes. O presidente do STF indica a intenção de remeter o caso, em seguida, à PF e à Procuradoria-Geral da República (PGR), o que sinaliza, finalmente, um desfecho. Parece ser o início do fim.

Fachin demorou para assumir suas responsabilidades e reagir para tentar debelar a batalha intestina no STF, com nítido fundo político, protagonizada pelas alas lideradas por Moraes e Mendonça. A crise, que deixava os brasileiros estupefatos a cada capítulo, exigia uma intervenção imediata, com instrumentos jurídicos e regimentais. A tentativa do presidente do STF de costurar um acordo interno para acomodar os ânimos e ganhar tempo fracassou. 

A procrastinação deixava a instituição sangrar em praça pública, a enfraquecia como alicerce do Estado democrático de direito e erodia a própria autoridade de Fachin. A prova é a forma como vinha sendo atropelado por outros ministros. Teve oportunidade de tomar providências ainda na terça-feira, quando a Advocacia-Geral da União (AGU) fez um pedido de suspensão de liminar para recompor a direção da PF diretamente ao presidente do STF. Fachin decidiu não decidir e deu 72 horas para Mendonça se manifestar, sinalizando hesitação e fraqueza.

A gravidade da situação exigia uma solução extraordinária que demonstrasse pulso firme. Espera-se que a atitude tomada ontem resulte na contenção da guerra de liminares. O caos jurídico em andamento fazia Vorcaro e outros enrolados em escândalos, inclusive com assento no STF, esfregarem as mãos na expectativa de a balbúrdia levar à anulação de todos os processos e à impunidade generalizada. 

10 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Presidente da Corte suspende decisões de Mendonça e Dino sobre cúpula da PF e mantém, por ora, delegados em seus cargos. Também tira Moraes do inquérito das fake news e assume o caso. E convoca plenário para analisar no dia 15 a decisão de Mendonça sobre a relação de Moraes com Vorcaro

Para conter a crise no Supremo, Fachin anuncia medidas para enquadrar ministros

Em uma série de decisões ontem, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, busca conter a grave crise que atinge a Corte.

Ele suspendeu as determinações dos ministros André Mendonça e Flávio Dino que haviam, sucessivamente, afastado e restaurado Andrei Rodrigues e Leandro Almada dos cargos de diretor-geral e diretor de Inteligência da Polícia Federal (PF), respectivamente.

Na prática, os dois voltam aos seus cargos, mas em atendimento à liminar da Advocacia-Geral da União (AGU), e não em virtude da decisão de Dino, até que a decisão final sobre o caso seja tomada pelo presidente do Supremo.

Fachin também tirou o ministro Alexandre de Moraes da relatoria do inquérito das fake news e transferiu o caso para a presidência da Corte. Além disso, convocou para a terça-feira uma discussão em plenário sobre o relatório da PF que apontou suposta relação entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Na sessão, os ministros devem discutir se o documento da PF feito a pedido de Mendonça tem validade e se Moraes será investigado.

Em trâmite há sete anos no gabinete de Moraes, o inquérito das fake news é considerado uma das investigações mais controversas em curso no Poder Judiciário. Instaurado no início do governo Jair Bolsonaro (PL), em meio à primeira grande onda de ataques antidemocráticos ao STF, o caso reúne uma série de particularidades, como a abertura de ofício, a escolha do relator pelo então presidente da Corte, Dias Toffoli, o sigilo máximo mantido ao longo do processo e a concentração de poderes em Moraes, que passou a receber, por prevenção, ações ligadas a desinformação.

Segurança jurídica

Ao assumir a relatoria do inquérito das fake news, Fachin argumentou que a decisão "decorre da necessidade de estabelecer segurança jurídica e adequada delimitação institucional dentro do regime de exercício da atribuição prevista no art. 43 do regimento interno do Supremo Tribunal Federal por esta Presidência". O artigo citado por Fachin estabelece que, quando houver infração penal na sede ou em dependências do tribunal, cabe ao presidente instaurar o inquérito, caso o episódio envolva autoridade ou pessoa sujeita à jurisdição da Corte (foro privilegiado), ou delegar essa atribuição a outro ministro.

Fachin pediu que a Procuradoria-Geral da República (PGR) decida quais frentes investigatórias serão alvo de denúncia e quais serão arquivadas. Em seguida, o presidente pretende encerrar o inquérito, o que representa perda de poderes de Moraes dentro do tribunal.

Já no despacho em que suspendeu as decisões de Mendonça e Dino sobre a cúpula da PF, Fachin destacou que os conflitos e "sobreposições processuais" configuram "grave lesão à ordem pública e à integridade do Supremo". O presidente criticou a guerra de decisões entre colegas.

"O afastamento das autoridades policiais que ora se examina encadeou decisões monocráticas sucessivas com comandos normativos incompatíveis entre si", disse Fachin. "É grave o quadro em que decisões de ministros passam a ser desafiadas horizontalmente, mormente quando pendentes, tanto o julgamento em curso no âmbito da Segunda Turma deste tribunal, quanto o pedido de suspensão de liminar que se encontra sob apreciação desta Presidência", acrescentou, ainda em sua decisão.

Ontem de manhã, antes que o presidente da Corte se manifestasse, Dino determinou a reintegração de Andrei e Almada. Entre os argumentos apresentados, o ministro afirmou que o partido Novo não tinha legitimidade para fazer tal pedido a Mendonça.

Também argumentou que a interrupção na produção de relatórios pela PF traria prejuízo às investigações sob sua relatoria. A decisão de Dino foi tomada no processo em que a PF analisa o material apreendido pela Polícia Civil de São Paulo em investigações sobre o desvio de emendas parlamentares para financiar a produção do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.