sexta-feira, 9 de outubro de 2026

09 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Problemão

Visitei minha mãe. No corredor do seu edifício, encontrei um morador. - Ah, você é filho da Maria Carpi, a poeta? - Sim - respondi.

Eu já estava pronto para ouvir elogios e lustrar o brilhante orgulho pela minha mãe. Mas ele estava um pouco assustado. - Você pode falar com ela? Ela está causando um problemão.

Fiquei matutando: o que uma senhora de 87 anos, feliz da vida, é capaz gerar de incômodo na vizinhança? Música alta? Não escuta. Visitas tarde da noite? Acho que não vem fazendo festas. Infiltração? Tampouco fui informado de algum vazamento em seu banheiro.

Perguntei: - O que houve?  Ele coçou a cabeça como que procurando as melhores palavras. A coceira, de fato, ajuda a pensar. - Você precisa controlá-la. É que ela não para de plantar no jardim. Converteu a entrada do prédio numa floresta.

Eu ri. Pedi desculpas pela risada involuntária, que foi inevitável. - Isso não é bom? - questionei. - É - ele concordou. - Mas não sei onde vai parar. Eu disse que ele tinha razão.

- Realmente, tudo o que minha mãe toca jamais sei onde vai parar. Eu recebi um diagnóstico de retardo mental quando pequeno, ela me alfabetizou e me tornei escritor. Ela ultrapassa os limites do bom senso. Ele começou a rir comigo e comentou: - Então, vamos ver onde esse seu novo poema vai acabar!

É que Dona Maria, egressa da tradição de morar em casa, sem espaço no apartamento para as suas plantações costumeiras, apropriou-se do espaço comum do condomínio.

Com seus passinhos miúdos, sua pazinha, seu jeitinho de vovozinha, cheia de melenas grisalhas, como quem não quer nada, cultivou duas oliveiras e um limoeiro-siciliano. Afora um canteiro comunitário de temperos. Afora roseiras, orquídeas, manacás-da-serra e folhagens.

Baixou o paisagista Roberto Burle Marx nela. Investe sua aposentadoria em sementes e mudas em floriculturas. Aquele gramado básico se transformou numa mata com cores suntuosas e matizes fortes. Ela incentivou, inclusive, uma migração dos pássaros do bairro, com o frete dos seus ninhos de outros endereços para o local. Há uma orquestra de aves no alvorecer, como não existia antes.

O cheiro do lugar está diferente, absolutamente doce, com um difusor de aromas naturais infinito, dispensando os frascos com varetas. Não tem quem não se detenha na calçada para admirar. Cachorros puxam as coleiras, crianças se agarram às grades, pais perdem a noção do tempo, casais de namorados suspiram. É atração turística da rua Lageado.

Eu imagino o seu plano. Que as árvores cresçam até chegar às suas janelas. Assim ela voltará a ser menina e usará uma passagem secreta: descerá pelos galhos, naquilo que ela chamava na sua infância de "elevador de Deus". 

CARPINEJAR

09 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

A profissionalização do furto de fios

O furto de fios e cabos de cobre foi por muito tempo associado especialmente à ação de dependentes químicos, que arrancavam pequenas quantias da rede aérea e as revendiam no mercado clandestino local para sustentar o vício. 

Mas é crescente a percepção de que quadrilhas especializadas, com conhecimento técnico e equipamentos sofisticados, atuam cada vez mais nesse ramo do crime. A interrupção no fornecimento de energia elétrica que o delito acarreta traz transtornos à população, afeta o trânsito e impõe prejuízos a empresários, concessionárias e ao poder público.

Reportagem de Pâmela Rubin Matge, publicada ontem em Zero Hora, mostra essa transformação. Grupos com caminhões, guinchos, ferramentas profissionais e perfuradores de solo passaram a furtar cabos de energia e de telecomunicações nas redes subterrâneas. Para não chamarem atenção, usam uniformes e crachás falsos, como se fossem funcionários de concessionárias e de empresas terceirizadas da área. Também cresceu o número de ex-colaboradores dessas companhias detidos por esse crime.

Essa encenação cinematográfica e a maior organização da cadeia de furtos e de receptação exigem que as autoridades busquem novas formas de fechar o cerco a essa infração penal. Ao que parece, cresceu o volume de material levado para fora do Rio Grande do Sul, o que indica ganho de escala e ação interestadual. Um dos grandes desafios é elaborar estratégias para inibir essa ação dissimulada nas ruas e fazer com que sejam percebidas a tempo de serem flagradas.

O cobre passa por um momento de valorização no mercado internacional, com cotações recordes. É um dos chamados metais críticos. Tem demanda crescente pela transição energética, rumo à maior eletrificação, e também por ser indispensável para a infraestrutura da inteligência artificial (IA). A lucratividade crescente atiça a cobiça de criminosos, inclusive traficantes de drogas. Investigações já apontam o envolvimento das facções.

Como se trata de uma preocupação nacional, o Congresso aumentou, no ano passado, as penas para o furto e a receptação de fios. No caso da receptação, quando a fiação levada causar interrupção de serviços essenciais, pode chegar a 16 anos. Mas as maiores sanções parecem não ter sido suficientes. Na iluminação pública da Capital, a extensão de fios levados de janeiro a agosto foi 25% superior à registrada no mesmo período de 2025.

Uma pesquisa divulgada em maio pelo Sindilojas POA indica que 80% dos associados tiveram os negócios afetados pelo furto de fiação. As operações do poder público, com participação de forças policiais, são constantes. Uma CPI na Câmara de Vereadores da Capital apontou crescimento de 820% nas ocorrências entre 2021 e 2025 e sugeriu uma série de aperfeiçoamentos legislativos. 

Em julho, a prefeitura de Porto Alegre instituiu o Comitê Intersetorial de Combate ao Furto de Fios e Cabos. Composto por 30 órgãos públicos e entidades privadas, o colegiado deve traçar formas de prevenção e combate a esse crime. A iniciativa, que se espera consiga produzir resultados, mostra que, apesar dos múltiplos esforços, não foi encontrada ainda uma estratégia efetiva para o enfrentamento dessa verdadeira praga urbana. 

OPINIÃO RBS

09 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Proposta de Flávio para garantir mais um ano de mandato é indecente

Ainda nem disputou o segundo turno, para o qual é favorito por ter chegado à frente no primeiro, e o senador Flávio Bolsonaro (PL) já colocou as manguinhas de fora com sua proposta de reforma constitucional. Na campanha era apenas a promessa de não concorrer à reeleição, o que deixaria o caminho aberto para o governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas. Agora, com deputados e senadores de sua base em número suficiente para mudar a Constituição, Flávio flerta com a transformação do Congresso eleito em Assembleia Nacional Constituinte, pela força da maioria.

Primeiro, a reforma era apenas para reduzir a maioridade penal para 16 anos e mudar a forma de escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal, impondo idade mínima e limite do tempo no cargo. Agora, sem nenhum pudor, propõe aumentar em um ano o mandato que ainda não conquistou, como contrapartida ao fim da reeleição.

- Não tem que valer só para o futuro. Para mim, tem que valer já no meu mandato. Se serão quatro ou cinco anos, se também vai valer para governador e prefeito, isso o processo legislativo é que vai definir - afirmou, em coletiva de imprensa ontem.

Regras do jogo

Isso nada mais é do que mudar as regras do jogo com a partida em andamento. Quem votou em 4 de outubro votou para escolher o presidente e os governadores dos próximos quatro anos, não de cinco. E quem garante que, se a proposta for adiante, não vai surgir uma proposta de emenda para estender para seis, coincidindo a eleição com a de prefeito?

Se você sentiu um cheiro de Venezuela no ar, não é cebola com tomate fritando na cozinha do vizinho. Flávio é contra a reeleição? Muito simples: basta não ser candidato, se vencer daqui a duas semanas. O que não faz sentido é alterar a Constituição em benefício próprio, ressuscitando um debate de 1987, quando José Sarney ganhou o mandato de cinco anos.

O instituto da reeleição pode ser bom ou ruim, dependendo da forma como quem está no poder usa a máquina para se eleger. Em 1998, foi a reeleição de Fernando Henrique Cardoso que salvou o Plano Real, porque nada impedia que a construção fosse implodida pelo vencedor. Lembremos que o PT era contra o real e quatro anos depois, quando Lula venceu, o plano estava consolidado. _

Três erros na campanha do PT

No momento em que o centrão avança na direção de Flávio Bolsonaro (PL), com os parlamentares migrando a passos largos para a banda de onde vem o cheiro de poder, o presidente Lula, os líderes do PT e os envolvidos na campanha eleitoral deveriam fazer um exercício de humildade. Três desses erros são visíveis a olho nu: incapacidade de mostrar ao eleitor que o escândalo do Banco Master não é do governo Lula e que os principais envolvidos estão ligados ao adversário, incluindo o próprio Flávio Bolsonaro; subaproveitamento do potencial do vice-presidente Geraldo Alckmin e o salto alto por conta das pesquisas que indicavam vantagem para o presidente.

O marketing da campanha partiu de um princípio equivocado, o de que Lula venceu a eleição de 2022 pela própria força e não pela rejeição de Jair Bolsonaro e pela captura dos eleitores de Simone Tebet, à época, no MDB. As primeiras pesquisas, com ampla vantagem para Lula, estimularam o salto alto na campanha. _

Juliana Brizola reforça apoio a Lula no segundo turno

Apesar de aparecer pouco e de mencionar raramente Lula no primeiro turno, Juliana Brizola (PDT) deve se engajar mais para reeleger o presidente no segundo turno. Foi a promessa dela em reunião com a coordenação do comitê petista no Estado, ontem. Juliana garantiu que está disposta a participar ativamente da campanha de Lula.

O encontro reuniu dirigentes das oito siglas que participaram da coligação em torno de Juliana no Estado e líderes do PT. Foi definido um plano de ação para que Lula amplie sua votação no Rio Grande do Sul - ele fez 35% dos votos para presidente.

O grupo será coordenado por Edegar Pretto (PT), candidato a vice na chapa com o PDT, e contará com o trabalho de Manuela D?Ávila (PSOL) e Paulo Pimenta (PT), candidatos derrotados na disputa pelo Senado. _

Com a adesão dos derrotados no Rio Grande do Sul ao governo de Luciano Zucco (PL) e à campanha de Flávio Bolsonaro (PL), os suplentes podem ter esperança de conquistar uma vaga na Câmara ou na Assembleia, com a ida de um titular para o governo, ou de arranjar algum cargo no segundo ou terceiro escalão.

Não tem outra alternativa a não ser apoiar o Flávio (Bolsonaro). O Lula, com esse Congresso que foi eleito, caminha para a ingovernabilidade."

Germano Rigotto - Ex-governador do RS e ex-candidato ao Senado pelo MDB

Bancadas do PSD gaúcho apoiam PL

Depois do MDB, ontem as bancadas estadual e federal do PSD anunciaram adesão à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). O assunto foi discutido em um almoço no Palácio Piratini, com o governador Eduardo Leite, os atuais deputados e os eleitos. Embora Leite tenha dito que tende a ficar neutro, os deputados se reuniram depois na Assembleia e assinaram uma nota de apoio incondicional à candidatura de Flávio.

A nota diz que os signatários trabalharam pela candidatura de Ronaldo Caiado (PSD), mas que, encerrada essa etapa da disputa, os parlamentares avaliam ser necessário mudar a condução dos rumos do país. 

Fecomércio quer ouvir os eleitos

Para começar a relação com o pé direito, a Fecomércio convidou todos os deputados estaduais e federais do RS eleitos, além dos dois senadores, para apresentar as pautas de interesse do comércio de bens, serviços e turismo. O presidente da entidade, Luiz Carlos Bohn, deve apresentar essas pautas em um café da manhã hoje.

A Fecomércio apresentará sua atuação institucional e prioridades para o desenvolvimento econômico, empreendedorismo e fortalecimento empresarial. Temas como a proibição das bets e o fim da escala 6x1 estarão entre as pautas. Reforma administrativa e ajuste fiscal também serão discutidos. _

POLÍTICA E PODER

09 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Entre uma Constituição flexível e resistente

A partir de fevereiro do ano que vem, o PL terá 28 senadores e 121 deputados, as duas maiores bancadas eleitas por um único partido desde a redemocratização. Isso significa que o senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL), se eleito no segundo turno contra o presidente Lula, não terá votos suficientes, sozinho, para mudar a Constituição. Mas teria facilidade para atrair votos do centrão, que reúne, em sua maioria, políticos conservadores.

Então, sim, Flávio, se vencedor, terá um ambiente parlamentar favorável à aprovação de propostas de emenda à Constituição, as PECs. Para aprová-las, são necessários 308 votos dos 513 deputados e 49 dos 81 senadores, em dois turnos de votações em cada Casa.

Na terça-feira, Flávio afirmou que pretende "mudar a Constituição e redemocratizar esse país". Primeiro, sim, com a conformação do Congresso que emerge das urnas, ele consegue alterar a Carta Magna com facilidade, desde que obtidas as maiorias exigidas. Dispensemos o esforço retórico feito para a sua militância de "redemocratizar esse país". Sejamos honestos: o Brasil não precisa ser redemocratizado pelo simples fato de não haver dúvidas de que vivemos em uma democracia constitucional. O resto é desinformação.

As propostas

Mas voltemos ao tema principal deste texto: a Constituição. Ao menos publicamente, o candidato tem apresentado três bandeiras que exigem PEC: redução da maioridade penal de 18 para 16 anos; fim da reeleição para cargos no Executivo; e restrições ao Supremo Tribunal Federal (STF).

A Constituição de 1988 já foi "emendada" 139 vezes. Aliás, as emendas constitucionais existem justamente para que o texto constitucional acompanhe transformações políticas, sociais e institucionais sem a necessidade de se refundar a República.

O que não pode ser alterado são as "cláusulas pétreas": a forma federativa de Estado, o voto direto, secreto, universal e periódico; a separação dos poderes; os direitos e garantias individuais, o famoso artigo 5º. Ao menos não podem ser alteradas sem a convocação de uma Assembleia Constituinte para a redação de uma nova Constituição.

As três propostas de Flávio estão dentro dos limites constitucionais. O problema não é esse. É legítimo e até necessário que se debata mudanças no Supremo, como limites a decisões monocráticas, código de conduta e revisão do alcance do foro por prerrogativa de função. Mas qualquer reforma precisa ter como objetivo preservar a independência da Corte e sua capacidade de exercer o controle de constitucionalidade, uma das bases do sistema de freios e contrapesos.

Há muito tempo, processos de erosão democrática não começam por meio de quarteladas. A questão é como essas mudanças serão conduzidas, com que transparência, mediante qual negociação institucional e com quais garantias de preservação da independência do Judiciário.

Em países como a Hungria de Viktor Orbán, a Turquia de Recep Tayyip Erdogan e El Salvador de Nayib Bukele, o autoritarismo começou com políticos que venceram nas urnas, com ampla maioria do parlamento, e que usaram as próprias regras do jogo para subvertê-lo.

A Constituição deve ser suficientemente flexível para acompanhar a sociedade e suficientemente resistente para proteger a democracia. _

Jovens de Garibaldi estão na Itália

Uma parceria entre a prefeitura de Garibaldi, a Associação dos Vinicultores de Garibaldi (Aviga) e os Comuni di Conegliano e di Follina, na Itália, levou três jovens do município da Serra para conhecer os processos que envolvem a fabricação de vinhos espumantes no país europeu.

Ana Carolina Fernandes Morlin, Letícia Conzati Agostini e Pedro Henrique Coppi Lorenzini embarcaram no último dia 26 e permanecerão na Itália até novembro. Eles participam do Programa Internacional de Especialização em Tecnologia dos Vinhos Espumantes - Método Martinotti Italiano.

O grupo realizou a primeira visita a uma vinícola da região de Conegliano, no Vêneto, onde observaram a elaboração do prosecco e as características que diferenciam a produção italiana da brasileira. _

Drones "caçadores-assassinos" na América do Sul

Os Estados Unidos enviaram drones MQ-9 Reaper para a América do Sul. Conhecidos como "caçadores-assassinos", os equipamentos foram deslocados para a Colômbia e o Equador para atuar em operações de combate ao narcotráfico na região. A informação foi revelada pelo jornal The New York Times nesta terça-feira.

Segundo a publicação americana, drones do mesmo modelo foram utilizados pelos EUA para matar o general iraniano Qassim Suleimani em uma operação em 2020. Cada unidade do MQ-9 Reaper custa aproximadamente US$ 50 milhões (cerca de R$ 250 milhões).

O MQ-9 Reaper é um drone turboélice com motor de 900 cavalos de potência, 11 metros de comprimento e envergadura de 20 metros. A aeronave atinge velocidade máxima de 444 km/h, tem alcance de 1.850km, autonomia de 27 horas e pode operar a mais de 15km de altitude. Além do uso militar, o modelo também é empregado pela Nasa e pelas Forças Aéreas de Reino Unido, Itália, França e Espanha.

Sua função principal é a coleta de dados de inteligência em apoio a missões de ataque, coordenação e reconhecimento. Para isso, conta com um conjunto de sensores visuais que inclui infravermelho, câmera infravermelha de ondas curtas e marcadores a laser.

A aeronave tem capacidade para carregar até oito mísseis guiados por laser, oferecendo operação de alta precisão, baixo dano colateral e poder de ação antiblindagem e antipessoal.

O drone é controlado a distância a partir do solo por uma equipe composta por dois operadores: um piloto e um especialista responsável por operar os sensores e guiar os armamentos. _

OEA e a eleição brasileira

O relatório sobre o primeiro turno das eleições brasileiras produzido por observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) detalhou que o pleito do último domingo transcorreu de forma pacífica e "sem incidentes de maior gravidade". Entretanto, de acordo com o documento divulgado pela entidade na terça-feira, houve um "ativismo político internacional" sobre o processo eleitoral brasileiro.

Segundo os observadores, atores políticos e da sociedade civil expressaram à missão preocupação com as manifestações e ações de atores internacionais sobre o processo eleitoral no Brasil, que poderiam ter impactado de alguma forma a campanha. O relatório da OEA não menciona nenhum caso específico.

Para o segundo turno, a OEA recomenda a busca pela máxima segurança jurídica e o incentivo aos debates programáticos entre os postulantes. _

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

08 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Bendito o fruto do vosso ventre

Minha mãe não tem mais árvores no quintal, mora num apartamento, mas ela continua dando sacolas de frutas para os filhos.

Sempre que a visito, ela me alcança uma braçada de bergamotas e de bananas. Parece que eu saí de uma fruteira, não do endereço materno. - Aceita sem discutir! Estão docinhas! Não posso me opor, não posso negar.

Ela me fala que escolheu a dedo, que não vou me arrepender. Pede para que eu reparta com os netos e com Beatriz.

Dona Maria não se curou dessa mentalidade de Guaporé, de um ritual cultivado com seus pais. Quem vai ao Interior, para ver os parentes, volta da viagem com o dobro de bagagem, com a famosa maleta, embrulho, farnel ou cesta de vime.

Não só frutas, mas também queijo, salame, cuca, pão colonial, geleia, compotas, o que houver de adicional na mesa. Os familiares fazem questão de garantir que você tenha algo fresco para comer no trajeto ou ao chegar, evitando que você gaste na estrada. O perfume do contrabando contamina o ônibus ou o carro.

Você acaba carregando um pedaço do torrão natal para diminuir a saudade. Não se separa por inteiro. Por mais alguns dias, aquele reencontro segue acontecendo no paladar. Isso quando não oferecem uma muda de planta, para equilibrar no colo. Isso quando não convencem a adotar um filhote da ninhada de cachorro ou de gato que recém nasceu.

A mãe foi criada numa área verde e permaneceu colhendo a alegria dos pés dentro de um vasto pátio, durante a minha infância e adolescência. Contávamos com abacateiro, ameixeira, pitangueira, limoeiro, laranjeira, figueira, num revezamento de safras e estações.

Ameixinhas amarelas e pitangas vinham na primavera, figos no verão, abacates no outono, laranjas sobretudo no inverno e limões quando eles quisessem.

Meus irmãos e eu vivíamos agarrados nos galhos. A mãe preparava vitaminas, encaminhava como lanche em nossa merenda e enchia a gamela diariamente. Nunca levei sanduíches para a escola, e sim maçãs e peras. Minha mochila virava terra adubada. Eu abria o zíper e sentia o cheiro de fim de feira. As espirais dos cadernos deitavam raízes.

Qualquer afeto que aparecesse merecia parte de nosso pomar. Ninguém se despedia de mãos abanando. Não se permitia que nenhuma fruta apodrecesse. Assim o sorriso de dona Maria não murchava.

Ela dizia com orgulho: "É daqui de casa". O presente conservava o zelo de quem semeou, esperou amadurecer e se lembrou de dividir. O carinho se ofertava com prazo de validade: "Precisa comer logo".

Era seu jeito indireto de repassar seu apego: eu me importo com você e desejo que esteja bem alimentado, mesmo longe de mim. Essas coisas do coração, não há lei que as proíba. 

CARPINEJAR

08 de Outubro de 2026
ROGER LERINA

Futuro do pretérito

Eu era fascinado na infância pelo filme A Máquina do Tempo (1960), adaptação dirigida por George Pal do romance de ficção científica de H. G. Wells. Na aventura que passava direto na TV, um cientista inglês criava em 1899 um dispositivo que lhe permitia viajar no tempo sem sair de sua casa em Londres. 

O engenhoso George vai então para o futuro, primeiro maravilhando-se ao testemunhar a história se desenrolando diante dos olhos, depois espantando-se com os avanços tecnológicos e por fim horrorizando-se com a destruição ao seu redor causada pelas duas guerras mundiais e pelo que se assemelhava a um combate nuclear em 1966. 

Chocado, o herói acelera para frente, a geringonça emperra e ele avança 800 mil anos, chegando a um mundo de aparência pré-histórica, dividido entre monstruosos humanos mutantes que vivem nos subterrâneos e uma linhagem de jovens ignorantes e ociosos habitando a superfície. Uma metáfora que serve não apenas para a sociedade vitoriana estratificada da época em que o romance foi escrito.

A aceleração crescente do tempo é uma característica da modernidade, contribuindo para a sensação atual de estarmos vendo a história passar voando na nossa frente - ainda ontem a gente escutava música em fita cassete e recebia telegrama, lembra? 

No entanto, diferentemente da engenhoca criada pelo personagem vivido no cinema por Rod Taylor, a máquina do tempo da civilização ocidental engatou marcha à ré afu no novo milênio. Direitos sociais, liberdades individuais e valores progressistas, arduamente conquistados ou ao menos almejados desde o Iluminismo, são frontalmente atacados por ideologias políticas e sistemas econômicos que tendem à hegemonia em boa parte do planeta.

Por aqui a máquina do tempo virou montanha-russa: haja coração para aguentar a sucessão frenética de escândalos, imposturas, arbitrariedades e quejandos que a vida pública nacional nos apresenta no noticiário diariamente. No último domingo, a partir da divulgação dos resultados eleitorais, entramos no trem fantasma deste parque chamado Brasil: as redes sociais e o debate público repercutiram as manifestações de candidatos terrivelmente antidemocráticos chancelados pelas urnas. 

Gente que vai para as ruas chicotear calçada, reverenciar ex-presidente golpista preso, elogiar torturador do regime militar, chamar indígena de canibal e declarar-se a maior inimiga mulher das feministas. A nação zumbi está crescendo e talvez já não dê mais tempo de embarcar naquele carro que leva de volta para o futuro. _

ROGER LERINA

STF sob vigilância do novo Senado

A eleição para o Senado ganhou atenção inédita pela prerrogativa da Casa de aprovar a indicação de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e, especialmente, de abrir processos de impeachment de membros da Corte por crime de responsabilidade. O possível afastamento de ministros foi o mote da campanha do PL e de partidos aliados para a Casa. O resultado da eleição tornou essa pretensão bastante palpável.

O impeachment de magistrados do Supremo é previsto na Constituição, mas é uma providência drástica. Exige análise responsável, sob pena de exacerbar a crise institucional. É notório que, sobre ministros citados no caso Master, pairam suspeitas de condutas incompatíveis com o cargo. Mas a vocação à autoproteção no STF vem impedindo que sejam investigados. É como se fossem seres acima da lei. Indícios de malfeitos devem ser devidamente apurados e, em caso de constatação de irregularidade, gerar punição conforme a lei. Impeachment por revanche política, no entanto, é combustível para produzir mais instabilidade.

O PL terá 28 senadores, sendo 19 eleitos no domingo. Mas cálculos apontam que a bancada pró-impeachment chegaria a 49. Para um afastamento, são necessários 54 votos, dois terços do plenário. A força que o bolsonarismo alcançou na Casa deve fazer com que um nome do PL ou de legenda alinhada assuma a presidência do Senado em 2027. É atribuição do presidente aceitar ou arquivar pedidos de impeachment.

Um dos favoritos para o cargo é o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro ao Planalto. Marinho visitou o presidente do STF, Edson Fachin, na terça-feira. Disse que não haverá "espírito de vingança", mas existirá "vigilância" e que o Senado "não se omitirá" em casos de indícios de crime de responsabilidade. É um movimento institucional salutar, por não sinalizar rancor retaliatório.

Independentemente do resultado da eleição presidencial, PL e aliados amealharam capital político para afastar ministros. A falta de compostura de membros da Corte, aliás, influenciou o voto no domingo. A pauta anti-STF foi abraçada por outros candidatos eleitos fora do espectro do bolsonarismo.

Uma série de movimentos, nos últimos dias, mostrou que o recado das urnas foi sentido. Alexandre de Moraes autorizou Débora Rodrigues dos Santos, conhecida como "Débora do Batom", a cumprir pena no semiaberto. Tornou público o arquivamento de inquérito contra o senador Marcos do Val (sem partido-ES) e três influenciadores bolsonaristas. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, manifestou-se favoravelmente a uma visita de Flávio ao pai, Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar. Gilmar Mendes arquivou um pedido de investigação contra o vice da chapa de Flávio, o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), por suspeita de estupro. Mas gestos políticos travestidos decisões judiciais, em busca de acomodação, só mostram o labirinto em que a Corte se meteu.

Daqui para a frente, espera-se que o grupo majoritário do Senado liderado pelo PL mostre maturidade e não se mova exclusivamente pelo sentimento de vingança. Do STF, aguarda-se que enfim exerça a autocontenção, se despolitize e faça, por si próprio, a depuração necessária. O país precisa de um Supremo com credibilidade para desempenhar o papel de freio e contrapeso exigido em democracias sadias.  

08 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Zucco escolhe professor do Paraná para chefiar a pasta da Educação do RS

Cumprindo a promessa de escolher técnicos para as secretarias estratégicas do Estado, o governador eleito, Luciano Zucco (PL), já convidou um bem-sucedido professor paranaense para comandar a Secretaria da Educação. Natural de Foz do Iguaçu, Roni Miranda Vieira é o atual secretário de Educação do Paraná e tem no currículo o primeiro lugar no último Ideb e uma revolução nas escolas paranaenses.

Na campanha eleitoral, Zucco citou incontáveis vezes o modelo paranaense como exemplo, destacando sempre o sucesso das escolas cívico-militares, uma das suas obsessões. Nos debates e nas entrevistas como candidato, Zucco prometeu aumentar o número de escolas desse modelo no Rio Grande do Sul.

De saída da Secretaria da Educação, Raquel Teixeira já conversou com seu futuro sucessor e elogiou Zucco pela escolha. Raquel e Roni convergem em pontos essenciais sobre educação.

- Falei para ele que ele vai encontrar um Estado muito bem estruturado, muito bem organizado. Roni é um excelente secretário, fez o que fez no Paraná. Ele é professor de história da rede estadual. Aliás, ele fala publicamente: "eu acho que eu sou o único professor de história de direita no Brasil" - contou Raquel.

A secretária que deixa o cargo reiterou que o colega do Paraná é extremamente competente, conhece a escola:

- Acho que é uma sorte o Rio Grande do Sul ter uma continuidade com quem tem tanta afinidade com o tipo de trabalho que fiz. Parabéns ao governador Zucco, parabéns ao Rio Grande do Sul, que vai ganhar um grande secretário.

Questionada sobre as críticas de Zucco, feitas durante a campanha, de que os resultados da educação no Rio Grande do Sul são maquiados, Raquel atribuiu os comentários ao desconhecimento. Reafirmou que essa é uma percepção equivocada de Zucco, porque o RS subiu no Ideb quando aumentou de 4,7 para 5,3 em proficiência. Não fosse o alto número de alunos reprovados ou que abandonam a escola, o dado seria ainda melhor.

O crescimento foi, conforme a secretária, o segundo maior do Brasil, perdendo apenas para o Piauí. O desafio do sucessor será reduzir a reprovação e a evasão, já que, no quesito "fluxo", o Rio Grande do Sul ainda é 17º. _

Seis anos de atuação em 6,5 quilos de impressos

Impressos, os seis anos de Raquel Teixeira à frente da Secretaria de Educação pesam 6,5 quilos. Todas as políticas públicas estão documentadas e acessíveis em modo digital, mas Raquel fez questão de imprimir o material para entregar a parceiros da Educação em uma caixa com as cores do Rio Grande do Sul.

Como nem todo o material coube na caixa, em anexo estão 10 revistas que dissecam a situação das escolas, além de um guia para elaboração de planos de contingência das escolas para eventos climáticos, o diagnóstico racial da rede estadual de educação e um livro mostrando como as escolas enfrentaram a enchente de 2024. _

MDB gaúcho anuncia apoio a Flávio Bolsonaro

Três dias depois do primeiro turno da eleição, os deputados estaduais e federais do MDB acompanharam o prefeito Sebastião Melo e surfaram na onda da direita que saiu reforçada das urnas. Durante encontro na sede estadual do partido, as bancadas anunciaram o apoio ao candidato Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. O PL já participa do governo Melo com a vice-prefeita Betina Worm e com secretários e assessores de segundo e terceiro escalões.

Capitaneado por Alceu Moreira, que também é presidente da Fundação Ulysses Guimarães, o movimento tem por objetivo abrir espaço de diálogo efetivo num possível governo de Flávio para tratar de temas sensíveis para o Rio Grande do Sul, entre os quais a dívida do Estado com a União - hoje na ordem de R$ 100 bilhões -, o incentivo ao agronegócio e a renegociação das dívidas dos agricultores, bem como a captação de recursos para investimento em obras de resiliência climática.

Na reunião não foi discutida a eventual participação do MDB no governo de Luciano Zucco, mas a tendência é a entrada dos deputados na base. Com a derrota de Gabriel Souza, Alceu Moreira e Sebastião Melo se tornam os principais líderes do partido.

Assinaram o manifesto de apoio a Flávio Bolsonaro os atuais deputados estaduais Beto Fantinel, Edivilson Brum, Juvir Costella, Luciano Silveira, Patrícia Alba, Vilmar Zanchin, os eleitos Rafael Braga e Roberto Lucchese e o deputado federal Alceu Moreira. Também marcaram presença no ato o prefeito da Capital, Sebastião Melo, o presidente da Famurs, prefeito Ique Vedovato, de Imbé, e o ex-deputado Luis Roberto Ponte. _

Futuro ainda incerto

Candidato a vice de Juliana Brizola (PDT), o ex-deputado Edegar Pretto ainda não sabe o que fará da vida a partir de 2027. Por enquanto, Pretto só quer pensar na campanha do segundo turno e trabalhar na busca de votos para o presidente Lula.

Nos últimos quatro anos, Pretto ficou sem mandato porque em 2022 foi candidato a governador e perdeu a eleição. Em janeiro do ano seguinte, assumiu a presidência da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a convite de Lula.

Neste ano, Pretto se lançou pré-candidato a governador, confiante de que poderia disputar o segundo turno graças ao recall de quatro anos atrás, quando quase tirou Eduardo Leite do segundo turno. Lula forçou a aliança com o PDT e o ex-deputado aceitou a missão de concorrer a vice de Juliana Brizola.

Caso Lula seja reeleito, Pretto e o deputado Paulo Pimenta são os primeiros da fila no PT para um cargo em Brasília. _

Reviravoltas no Estado

No primeiro turno da eleição à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL) tirou votos do presidente Lula (PT) em praticamente todos os municípios do Brasil. Dos cinco municípios onde o petista mais perdeu eleitores, proporcionalmente, quatro são gaúchos. Em primeiro está Herveiras (2.629 eleitores), onde Lula viu redução de 45,7 pontos percentuais (p.p). Em seguida estão Passa Sete (3.751 e perda de 44,5 p.p) e Barros Cassal (8.281 e 38,7 p.p). O quarto município é São João do Triunfo, no Paraná, onde Lula viu uma desidratação de 38,6 pontos percentuais para Flávio. Por fim, em quinto, Canudos do Vale (1.944 eleitores e recuo de 37,7 p.p). 

Leany Lemos, ex-secretária de Planejamento de Eduardo Leite, tomou posse como senadora depois de Leila do Vôlei (PDT) ter aberto mão do restante do mandato após ser derrotada na tentativa de reeleição.

POLÍTICA E PODER

08 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

A esquerda no divã

Luciano Zucco (PL) foi eleito governador com 58% dos votos válidos. Além disso, a chapa também emplacou dois senadores: Sanderson (PL) e Marcel van Hattem (Novo). Desde então, partidos de esquerda avaliam os motivos que levaram a uma perda tão significativa para esse espectro político. O Conversas Cruzadas de terça-feira recebeu deputados estaduais eleitos que opinaram sobre o assunto.

Para o deputado estadual reeleito Matheus Gomes (PSOL), faltou o tratamento de temas específicos durante a corrida eleitoral:

- Faltou termos abordado temas mais concretos que apareciam em todas as pesquisas como grandes preocupações do Estado, como é o caso da crise climática e das enchentes. Deveríamos ter trabalhado com muito mais força para apresentar alternativas e dialogar com a população sobre a responsabilização dos governos.

O deputado avalia que faltou enfrentamento com a oposição:

- Da mesma forma, acho que a campanha tinha a expectativa de ir para o segundo turno, onde seria feito um enfrentamento mais direto com Zucco, mas isso deveria ter começado desde o início, no primeiro turno.Não vimos a tempo a aceleração do crescimento da campanha de Zucco com possibilidade de vitória, e, na reta final, foi, de fato, o que aconteceu. Ele acabou acelerando no final, e não houve segundo turno, dentro de uma onda que também levou os dois para o Senado.

Já a vereadora de Porto Alegre Natasha Ferreira (PT), que vai estrear na Assembleia, levantou a hipótese de interferência das big techs nas redes sociais para a entrega de conteúdos, fazendo com que os materiais dos partidos de direita tivessem maior alcance. Além disso, segundo ela, faltou tática na campanha:

- Acho que tardamos para fazer do ponto de vista da tática política, e o nosso programa não conseguiu ir para a rua. E digo o porquê: na campanha para o Senado, por exemplo, os senadores eleitos tinham dois temas centrais, a castração de pedófilos e o impeachment no STF. Estávamos falando da reconstrução, do fim das bets, da isenção do Imposto de Renda, ou seja, sobre várias bandeiras. Falamos de muitas coisas ao mesmo tempo, faltou um símbolo claro da esquerda dizendo "nós vamos fazer isso".

Natasha também avalia que a sigla ficou presa ao legado do partido.

- Ficamos falando muito do "retrovisor", do ponto de vista de legado e história. A partir do impeachment de Dilma Rousseff, houve uma mudança e uma radicalização da juventude. Acho que boa parte da esquerda hoje está mais intelectualizada e mais distante das classes mais pobres. A esquerda acabou perdendo essa conexão - comentou durante o programa. _

Três anos de memória

No dia que marcou os três anos dos atentados terroristas cometidos pelo Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, a comunidade judaica do RS se reuniu ontem na Praça Maurício Cardoso, em Porto Alegre, para um ato público em memória do episódio.

O evento foi organizado pela Federação Israelita do Rio Grande do Sul (Firs) e por entidades judaicas do Estado.

Segundo a organização, a mensagem reforça a importância de preservar a memória da data e combater o antissemitismo. _

Entrevista - Carlos Baptista Jr. - Ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB)

"Não vejo qualquer possibilidade de uma aventura golpista"

Comandante da Força Aérea Brasileira (FAB) nos últimos meses do governo Jair Bolsonaro, o tenente-brigadeiro Carlos Baptista Jr. lançou o livro Eu disse não! - Uma trincheira antigolpista, da editora Autêntica.

Em que momento o senhor percebeu que conversas com Bolsonaro estavam na direção da ruptura constitucional?

A eleição foi em um domingo. Na segunda-feira, fomos chamados. Sentamos à mesa e expusemos que o sistema eleitoral funcionara corretamente, que as eleições não haviam trazido qualquer indício de fraude e que ele deveria reconhecer o resultado. No dia 1º, ele faz uma "aceitação", mas não parabeniza o vencedor. Em paralelo, temos o início das movimentações dos caminhoneiros para bloquear estradas e os acampamentos em frente aos quartéis. 

Aí discutimos a Operações de Garantia da Lei da Ordem (GLO), como está prevista na Constituição, para desobstruir estradas. De 11 a 24, foi muito pesado, deixamos de achar que ele estava falando de GLO e começara a falar em estado de defesa, de sítio, sem que houvesse os pressupostos básicos para a decretação disso.

Houve um diálogo no qual o então comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, chegou a ameaçar prender o então presidente. Como foi essa conversa?

O presidente lamentava ter perdido. Ele começou a trazer para a discussão essas possibilidades de estado de defesa. Foi alertado pelo Freire Gomes e por mim: "Presidente, dia 1º de janeiro o senhor não vai mais ser presidente". Avisamos: "A decretação de estado de defesa não pode ser feita em uma reunião. Onde está o vice-presidente (Hamilton Mourão)? Onde estão os presidentes da Câmara e do Senado? Os membros do Conselho de Defesa?" Nosso propósito era mostrar a ele que não havia pressuposto, como previsto na Constituição, para a decretação.

Mas o comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, tudo indica, era favorável à ideia de Bolsonaro.

Essas reuniões já deixaram bastante claro qual seria a posição de cada um (dos comandantes). O almirante Garnier já tinha se mostrado divergente. A posição do general Paulo Sérgio sempre me trouxe certa dubiedade. Vi muitas vezes ele tentar demover o presidente de quebra institucional, e, logicamente, não posso concordar com o fato de ele ter nos chamado para apresentar uma minuta de golpe.

O 8 de Janeiro foi uma tentativa de golpe?

Sou aviador, costumamos tratar um acidente aeronáutico como uma série de elos de uma corrente. Nunca falamos na causa, falamos dos fatores que contribuem para o acidente. Fatores que eu acho que contribuíram: a primeira coisa foi o clima. Aquelas pessoas possivelmente não sabiam que estavam participando de um dos últimos atos de uma operação psicológica. 

A desesperança começa no Brasil lá atrás. Essa sequência de atos de corrupção levou à desesperança do nosso povo, levou Bolsonaro à presidência. Há um ritmo de degradação das instituições, desrespeito de autoridades. Existe um fator contribuinte: a escolha do general Gonçalves Dias para o GSI. E perda de controle de todos os órgãos do Distrito Federal, do Ministério da Justiça e do GSI.

O envolvimento dos militares com a política prejudicou as Forças Armadas?

Deve haver, assim como nos EUA, uma quarentena: sete anos após passar para a reserva para poder assumir como o secretário de Defesa. No Brasil, passaram para a reserva e imediatamente assumiram a Defesa. É muito difícil tirar a farda que se usou por 45 anos e sentar na cadeira de ministro. No início, defendi o presidente. Assim como Fernando Henrique Cardoso levou acadêmicos para o governo, Lula, os sindicalistas. Não vejo nada de errado o Bolsonaro ter levado militares. A quantidade foi excessiva.

Pode haver instabilidade?

Não, acho que saímos do processo de 2022, 2023, com uma estrutura institucional mais robusta. Não vejo que qualquer resultado possa levar o Brasil a uma instabilidade. Não vejo qualquer possibilidade de uma aventura golpista. 

INFORME ESPECIAL

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

06/10/2026 - 18h02min
Gabriel Sant'Ana Wainer

Quase 2 milhões de votos e nenhum programa: o caso Campopiano

O algoritmo não precisa ensinar regimento; basta transformar alcance em cadeira e deixar a legenda administrar o resto. Campopiano foi eleita deputada estadual com 1,95 milhão de votos, impulsionando a bancada do PL em São Paulo.

Eduarda Campopiano se apresenta nas redes como a maior inimiga das feministas de São Paulo. A frase serve a ela de biografia, plataforma e programa de governo, e no domingo 1.956.238 eleitores paulistas acharam que bastava. A vereadora de Praia Grande, 23 anos, menos de dois de mandato, saiu das urnas como a deputada estadual mais votada do país. Haverá quem chame de fenômeno mas é uma excrescência das que deixam recado.

O tamanho do número ajuda a medir o estrago. Em 2022, o campeão de votos para a Assembleia de São Paulo foi Eduardo Suplicy, com 807 mil, depois de mais de quatro décadas de vida pública. Campopiano teve mais que o dobro. 

O recorde continua com Janaina Paschoal, que passou dos 2 milhões em 2018 carregada pelo antipetismo e por uma assinatura no pedido de impeachment de Dilma Rousseff. Janaina ao menos levava um documento debaixo do braço. Seis anos depois, elegeu-se vereadora em São Paulo com 48.893 votos, o que diz bastante sobre a memória de quem consagra fenômenos.

O que Campopiano levou para a eleição cabe numa planilha de engajamento. O Instituto Democracia em Xeque, que monitorou as candidaturas jovens nas duas últimas semanas de setembro, contou 929,2 mil interações em 11 publicações dela, perto de 85 mil por post. Nenhum projeto apresentado em Praia Grande chegou perto disso, e houve projeto. 

O mandato registra uma proposta de prioridade de matrícula para irmãos na mesma escola, outra que veda a nomeação de condenados por crimes sexuais contra crianças, uma emenda de R$ 550 mil para consultas e cirurgias e uma sessão, a de 3 de fevereiro, dedicada a 21 indicações sobre iluminação de quadra, ponto de ônibus e playground. É o trabalho honesto e miúdo de qualquer vereador de primeiro mandato, do tipo que milhares fazem pelo país sem que ninguém lhes ofereça 2 milhões de votos por isso.

Os votos vieram do outro emprego. Aos 19 anos ela já comentava política na Jovem Pan, e antes da campanha passou pelo Pânico e pelo RedCast, onde o produto aparece sem filtro. No RedCast, em maio, agradeceu pela colonização e pela catequização e associou os povos indígenas ao canibalismo, o que levou a artista indígena Katú Mirim a registrar boletim de ocorrência por racismo. 

Nas redes, apoia o projeto de lei que pune com 6 a 20 anos de prisão o aborto depois de 22 semanas, inclusive quando a gravidez resulta de estupro. O Código Penal pune o estupro com 6 a 10 anos. A inimiga número um das feministas defende, portanto, uma lei pela qual a mulher estuprada pode pegar até o dobro da pena do homem que a estuprou, e quase 2 milhões de pessoas acharam a combinação razoável. Ou sequer chegaram a ela, o que é pior.

Pela conta do quociente eleitoral, a votação de Campopiano equivale a quase oito vagas na Assembleia. Cada voto que sobrou depois da eleição dela foi trabalhar para o PL, que fez 28 deputados e terá a maior bancada da próxima legislatura. Boa parte de quem digitou 22011 pensando num vídeo será representada por gente que nunca apareceu nele. 

É assim que o sistema proporcional brasileiro transforma uma influenciadora em locomotiva e um partido em vagão de carga. Ninguém no PL precisou formar quadro, testar liderança ou ensinar regimento. Bastou achar o perfil certo e pendurar a legenda nele.

A esquerda passou a última década ensinando que indignação rende seguidor, que lacrar é método e que o adversário existe para virar meme. A direita aprendeu a lição e agora cobra com juros. Lucas Pavanato, parceiro de campanha de Campopiano, levou mais de 3 milhões de votos para a Câmara dos Deputados, a maior votação de São Paulo. O feed decidiu as duas pontas da chapa.

A Assembleia Legislativa vota o orçamento do estado mais rico do país, fiscaliza o governo, abre CPIs e julga as contas do governador. É lugar onde se negocia dinheiro de verdade, e onde quem não domina o regimento acaba servindo de voto para quem domina. O recado de domingo é que o eleitor paulista passou a escolher legislador pelo mesmo critério com que escolhe quem seguir, e que os partidos já perceberam que esse eleitor sai mais barato do que qualquer programa.

O eleitor paulista costuma ser generoso com fenômenos e implacável com eles mais tarde. Janaina que o diga. Entre a consagração e o esquecimento, porém, cabem quatro anos de mandato e uma bancada inteira que entrou de carona.

07 DE OUTUBRO DE 2026
MÁRIO CORSO

Como saber a idade

A idade é dada pela data de nascimento, certo? Sim, para a maioria dos casos, mas existem condições que merecem um raciocínio mais detalhado. A minha amiga Maiara, após uma cirurgia, ganhou uma prótese no joelho. O que a levou a dizer que tem setenta anos, mas não em todas as partes.

Disse que ela tinha razão, mas então qual seria a matemática que poderia ser aplicada? Um joelho novo, ou então, por exemplo, uma prótese de quadril, quantos anos abateriam da data de nascimento?

Ela respondeu que nem precisamos ir tão longe, como uma cirurgia, um implante capilar dá uma aparência rejuvenescida. Mas de que forma computar o cabelo novo? Até porque não costuma ser barato. O mesmo vale para facetas de porcelana nos dentes, pelo preço deveria ser possível abater uns meses da idade da carteira.

E quando os índices dos exames são muito bons, as vacinas estão em dia, o exame do coração está ok. Some a isso colesterol e triglicerídeos controlados, hemoglobina glicada nos trinques - isso deveria abater algo da idade para quando chega a incômoda pergunta de quantos anos temos.

Maiara insiste que não é possível que se exercitar dia sim dia não, fazer natação, musculação, ioga, pilates, funcional, ginástica pélvica, e manter o peso baixo, não vá render uns anos a menos da data oficial. Isso não seria uma reivindicação vazia, exige muito esforço para reduzir cada grama do corpo. Diga-se, um corpo que joga contra, assimilando até vento para engordar umas gramas, mesmo que o vivente esteja aturando uma dieta macrobiótica.

Ela quer um índice que contabilize o esforço, a dedicação e o empenho de manter o corpo em forma. Porque não adianta só receber elogios de que está bem, ela quer isso descontado na idade.

Ela desistiu do projeto quando notei que a soma poderia lhe tirar sua aposentadoria. E mais, se ela não ganhasse anos inteiros, ela teria que mudar de signo. Maiara se assustou imaginando perder seu signo de peixes, ascendente em aquário.

Sugeri uma campanha de antidifamação da idade: em vez de setenta são os novos cinquenta, talvez a consolidação de um novo vocabulário. Ela gostou da ideia de setentogata. As palavras podem ser mais dóceis do que os números. 

MÁRIO CORSO

Lula e Flávio devem clareza no tema fiscal

O mercado financeiro reagiu ao resultado do primeiro turno da eleição presidencial com recorde de pontuação na bolsa de valores e quedas acentuadas do dólar e dos juros futuros. O movimento revela mais um alívio dos investidores com a possibilidade menor de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do que uma certeza de um ajuste fiscal ousado em um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL).

Com medidas, gestos e discursos, Lula menosprezou a importância de buscar o equilíbrio das contas do país e colheu a sensação de mal-estar econômico crescente entre os eleitores. O alto endividamento da população também passa pelo garrote do juro alto, fruto da insistência em não controlar gastos. No mês passado, Lula chegou a declarar que fazer superávit é "babaquice".

O chamado novo arcabouço fiscal, que deveria ser a âncora para conter a expansão dos desembolsos, foi sucessivamente desmoralizado pelo próprio governo. A aproximação da eleição fez o Planalto afundar ainda mais o pé no acelerador das bondades. 

Como consequência, em agosto a dívida bruta do governo atingiu o equivalente a 82,9% do PIB, alta de 4,2 pontos percentuais no acumulado de 2026 e o maior nível em cinco anos. O indicador parece abstrato, mas influi no câmbio, no custo do crédito, na inflação e no crescimento. Afeta a vida real. Lula deve voltar a ser questionado se considera uma mudança de rumos necessária ou não.

Apesar da euforia do mercado financeiro, Flávio até aqui se esquivou de explicar como tentará colocar as contas do país em ordem. Fala genericamente em "tesouraço" e em uma agenda de enxugamento da máquina pública e de privatizações, mas escapa de dar detalhes das medidas. Sua equipe de economistas sinaliza um ajuste equivalente a 1,5 ponto percentual do PIB e uma nova trava de gastos, sem detalhar cálculos ou explicar como funcionaria a regra. Segue uma incógnita, mas bastou um aceno vago em direção à austeridade para injetar otimismo no mercado.

Como referência, cumpre lembrar que, apesar da retórica do então ministro da Economia, Paulo Guedes, o governo Jair Bolsonaro esteve longe de ser exemplar em relação à disciplina fiscal. Na reforma da Previdência, o então presidente atuou para desidratá-la. 

Quando a necessidade política apareceu, não hesitou em furar o teto de gastos, principal regra fiscal do país à época destinada a limitar o crescimento das despesas, como foi o caso da PEC dos Precatórios e da PEC Kamikaze. Em busca da reeleição, mandou a responsabilidade às favas.

O tema é árido e impopular e, por certo, Lula e Flávio tentarão fugir dele até o dia do segundo turno. Mas, por dever moral, deveriam ser transparentes com os eleitores e dizer como buscarão o equilíbrio fiscal a partir de 2027. Se proporão uma nova reforma da Previdência, se alterarão a fórmula de reajuste do salário mínimo, se benefícios previdenciários serão desvinculados do mínimo, e se mexerão nos pisos constitucionais da saúde e da educação. Ou, então, que apresentem outros planos, com alternativas críveis.

O certo é que o ajuste, com medidas amargas, terá de ser feito. Caso contrário, a dívida pública seguirá crescendo de forma insustentável e, na ponta, a população e as empresas continuarão a padecer. 


07 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Pesquisas do Brasil na Antártica em risco

Depois de várias tentativas, sem sucesso, de obter recursos financeiros do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Fundo Nacional de Ciência e Tecnologia (FNDCT) para a realização de uma missão aos módulos Criosfera 1 e Criosfera 2 na Antártica, a expedição do verão 2026/2027 foi cancelada.

Como consequência imediata, Criosfera 2 será desligado em novembro devido ao descarregamento das baterias. Criosfera 1 se desligará em 12 meses.

Os dois módulos são automatizados e funcionam com baterias que devem ser substituídas pelo menos a cada dois anos. A última missão do Criosfera 2 ocorreu durante sua instalação no verão de 2022/2023.

- A não realização de pesquisas no interior da Antártica reduz o protagonismo do Brasil dentro do Tratado Antártico. Ou seja, a pesquisa fica reduzida ao oceano e à Península Antártica - avalia o glaciologista Jefferson Cardia Simões, professor da UFRGS e pioneiro nos estudos antárticos.

Uma missão anual custa cerca de US$ 330 mil.

O desligamento dos equipamentos representa, na prática, o encerramento de todas as pesquisas do Brasil no interior do continente antártico. Ato contínuo, a interrupção da coleta de dados meteorológicos, dos medidores de ozônio atmosférico, de radiação UVA e UVB, do detector de raios cósmicos, do medidor de black carbon, do coletor de aerossóis e do medidor de CO2 atmosférico.

A não instalação no módulo Criosfera 2 de um medidor de CH4 atmosférico, sistema coletor de aerossóis totais, sistema GPS e novo sistema de transmissão de dados compromete estudos que impactam as pesquisas sobre eventos extremos na América do Sul. A Antártica é uma fonte de ar frio envolvida nas chuvas de setembro e novembro de 2023 e maio de 2024 no Rio Grande do Sul, diretamente associadas à região do Mar de Weddell e Sky Train Ice Rise, monitorados pelo Criosfera 2.

O que são

Os dois módulos são mantidos por geradores eólicos e solares ao longo de todo o ano, mas exigem manutenção no verão antártico. Sua estação meteorológica automática integra a rede nacional (Inmet) e a da Organização Meteorológica Mundial (WMO), e sua base de dados é disponibilizada livremente à comunidade científica nacional. Pesquisas são realizadas nas seguintes áreas: química atmosférica e glaciologia, incluindo estudos de testemunhos de gelo; climatologia; geofísica de geleiras; microbiologia; bioaerossóis; e física de alta energia.

Criosfera 1 está a 2,5 mil quilômetros ao sul da Estação Comandante Ferraz e a somente 660 km do Polo Sul geográfico. É o laboratório científico latino-americano mais ao sul da Terra, onde a temperatura média anual é de -33°C.

Criosfera 2 fica localizado ao sul do Mar de Weddell, região onde se originam as massas de ar frio responsáveis por ondas de frio e intensificação de eventos extremos no sul do Brasil. _

Retrato no Brasil: enquanto as pesquisas na Antártica sofrem revéses financeiros, o Prêmio Nobel de Física vai para estudos relacionados ao continente gelado.

Nomes para o Nobel da Paz

O Prêmio Nobel da Paz será anunciado oficialmente na próxima sexta-feira. De acordo com o comitê organizador da honraria, 287 nomes estão cotados para a premiação deste ano. Desses, 208 são indivíduos e 79 são organizações.

Segundo especialistas na premiação, os principais cotados são: o papa Leão XIV; o Tribunal Penal Internacional (TPI); a Corte Internacional de Justiça (CIJ); e Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados.

Outras candidaturas que se destacam são a das Emergency Response Rooms, uma rede sudanesa de grupos comunitários que fornece ajuda durante a guerra civil no país e a da ONG Save the Children, que auxilia crianças em áreas de conflito.

Há, ainda, a candidatura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. _

Denúncias de antissemitismo

Três anos após os atentados terroristas cometidos pelo Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, a Federação Israelita do Rio Grande do Sul (Firs) recebeu 84 denúncias relacionadas a manifestações de antissemitismo contra a comunidade judaica gaúcha em 2026. Desse total, 31 têm relação com o ambiente digital.

O dado chama atenção para uma transformação na forma como o preconceito contra judeus circula; além de manifestações explícitas, discursos históricos também podem aparecer em memes, imagens, emojis e códigos.

O antissemitismo cresceu no mundo e no Brasil desde os ataques de 7 de outubro de 2023, lembrados hoje. Segundo o Relatório Anual sobre Antissemitismo no Brasil 2025, da Confederação Israelita do Brasil (Conib), o país registrou aumento de 149% no número de denúncias validadas entre 2022 e 2025, consolidando o que o relatório chama de um "novo normal" de hostilidade, padrão também observado em países como Austrália, França, Reino Unido e Itália, onde o volume de incidentes segue muito acima do registrado antes do conflito no Oriente Médio deflagrado pelo ataque do grupo terrorista Hamas a Israel.

Para a presidente da Firs, Daniela Russowsky Raad, reconhecer essas diferentes formas de manifestação é fundamental para que o preconceito possa ser enfrentado.

- O primeiro passo para combater qualquer forma de preconceito é reconhecer como ele se manifesta. O antissemitismo tem uma longa história, mas suas formas de circulação mudaram. Hoje, ele também aparece em linguagens digitais, muitas vezes codificadas, e ampliar o conhecimento da sociedade sobre isso é essencial - afirma. _

Atlas ajuda a reconhecer formas de preconceito

Neste 7 de Outubro, quando são lembrados os atentados terroristas cometidos pelo Hamas em Israel, em 2023, a Federação Israelita do RS (Firs) destaca o lançamento do livro Decodificando o Antissemitismo: Uma Adaptação ao Contexto Brasileiro - Um Atlas de Tropos de Ódio, do Deicídio ao Genocídio.

Em termos simples, o atlas funciona como um guia para reconhecer diferentes formas de antissemitismo. A publicação reúne 39 padrões de preconceito que aparecem ao longo da história e explica como eles podem reaparecer hoje em novas linguagens.

Escrito pelos pesquisadores Anelise Fróes, Bruno Cardoni Ruffier e Matheus Alexandre, o livro mostra que ideias antigas não desaparecem; elas podem mudar de aparência para circular em novos ambientes.

Assim, um estereótipo histórico pode reaparecer em uma imagem, um meme, um símbolo, um número ou uma referência que, isoladamente, pode parecer inofensiva, mas reproduz uma narrativa antissemita. A proposta é ajudar o público a entender o que está por trás dessas mensagens e por que determinadas imagens, palavras ou símbolos podem carregar discursos de ódio. O conteúdo está gratuitamente em combateaoantissemitismo.org.br. _

INFORME ESPECIAL