quinta-feira, 10 de setembro de 2026

10 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

Enfim, Fachin tenta pôr ordem na casa

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, tardava em usar o peso de seu cargo para se impor e colocar um freio na guerra autodestrutiva entre membros da Corte. No fim da tarde de ontem, sob pressão, enfim agiu para estancar a escalada de uma crise sem precedentes, composta por uma sucessão alucinante de determinações conflitantes de ministros e manobras das alas antagonistas do STF.

Após ser atropelado por decisões de colegas, Fachin reagiu para recolocar ordem na Casa com uma série de deliberações. Suspendeu a ordem de quarta-feira do ministro André Mendonça de afastar dos cargos o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada. Também anulou a resposta do ministro Flávio Dino, da manhã de ontem, que recolocou Rodrigues e Almada em seus postos e elevou ainda mais a tensão no Supremo. Ambos seguem em suas funções.

Merece o devido destaque também a decisão de Fachin de convocar uma sessão do plenário da Corte, para a próxima terça-feira, para analisar relatório da PF sobre a relação promíscua demonstrada nas mensagens enviadas ao ministro Alexandre de Moraes pelo ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Será discutida a validade do documento, e deve ser deliberado se será aberta uma investigação formal contra Moraes. O teor escandaloso da conversa não poderia ser ignorado pelo STF, se é que o Supremo pretende recobrar sua credibilidade perante a sociedade brasileira.

É relevante ainda a definição de Fachin de assumir a relatoria do excrescente inquérito das fake news, há sete anos sob a guarda de Moraes. O presidente do STF indica a intenção de remeter o caso, em seguida, à PF e à Procuradoria-Geral da República (PGR), o que sinaliza, finalmente, um desfecho. Parece ser o início do fim.

Fachin demorou para assumir suas responsabilidades e reagir para tentar debelar a batalha intestina no STF, com nítido fundo político, protagonizada pelas alas lideradas por Moraes e Mendonça. A crise, que deixava os brasileiros estupefatos a cada capítulo, exigia uma intervenção imediata, com instrumentos jurídicos e regimentais. A tentativa do presidente do STF de costurar um acordo interno para acomodar os ânimos e ganhar tempo fracassou. 

A procrastinação deixava a instituição sangrar em praça pública, a enfraquecia como alicerce do Estado democrático de direito e erodia a própria autoridade de Fachin. A prova é a forma como vinha sendo atropelado por outros ministros. Teve oportunidade de tomar providências ainda na terça-feira, quando a Advocacia-Geral da União (AGU) fez um pedido de suspensão de liminar para recompor a direção da PF diretamente ao presidente do STF. Fachin decidiu não decidir e deu 72 horas para Mendonça se manifestar, sinalizando hesitação e fraqueza.

A gravidade da situação exigia uma solução extraordinária que demonstrasse pulso firme. Espera-se que a atitude tomada ontem resulte na contenção da guerra de liminares. O caos jurídico em andamento fazia Vorcaro e outros enrolados em escândalos, inclusive com assento no STF, esfregarem as mãos na expectativa de a balbúrdia levar à anulação de todos os processos e à impunidade generalizada. 

10 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Presidente da Corte suspende decisões de Mendonça e Dino sobre cúpula da PF e mantém, por ora, delegados em seus cargos. Também tira Moraes do inquérito das fake news e assume o caso. E convoca plenário para analisar no dia 15 a decisão de Mendonça sobre a relação de Moraes com Vorcaro

Para conter a crise no Supremo, Fachin anuncia medidas para enquadrar ministros

Em uma série de decisões ontem, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, busca conter a grave crise que atinge a Corte.

Ele suspendeu as determinações dos ministros André Mendonça e Flávio Dino que haviam, sucessivamente, afastado e restaurado Andrei Rodrigues e Leandro Almada dos cargos de diretor-geral e diretor de Inteligência da Polícia Federal (PF), respectivamente.

Na prática, os dois voltam aos seus cargos, mas em atendimento à liminar da Advocacia-Geral da União (AGU), e não em virtude da decisão de Dino, até que a decisão final sobre o caso seja tomada pelo presidente do Supremo.

Fachin também tirou o ministro Alexandre de Moraes da relatoria do inquérito das fake news e transferiu o caso para a presidência da Corte. Além disso, convocou para a terça-feira uma discussão em plenário sobre o relatório da PF que apontou suposta relação entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Na sessão, os ministros devem discutir se o documento da PF feito a pedido de Mendonça tem validade e se Moraes será investigado.

Em trâmite há sete anos no gabinete de Moraes, o inquérito das fake news é considerado uma das investigações mais controversas em curso no Poder Judiciário. Instaurado no início do governo Jair Bolsonaro (PL), em meio à primeira grande onda de ataques antidemocráticos ao STF, o caso reúne uma série de particularidades, como a abertura de ofício, a escolha do relator pelo então presidente da Corte, Dias Toffoli, o sigilo máximo mantido ao longo do processo e a concentração de poderes em Moraes, que passou a receber, por prevenção, ações ligadas a desinformação.

Segurança jurídica

Ao assumir a relatoria do inquérito das fake news, Fachin argumentou que a decisão "decorre da necessidade de estabelecer segurança jurídica e adequada delimitação institucional dentro do regime de exercício da atribuição prevista no art. 43 do regimento interno do Supremo Tribunal Federal por esta Presidência". O artigo citado por Fachin estabelece que, quando houver infração penal na sede ou em dependências do tribunal, cabe ao presidente instaurar o inquérito, caso o episódio envolva autoridade ou pessoa sujeita à jurisdição da Corte (foro privilegiado), ou delegar essa atribuição a outro ministro.

Fachin pediu que a Procuradoria-Geral da República (PGR) decida quais frentes investigatórias serão alvo de denúncia e quais serão arquivadas. Em seguida, o presidente pretende encerrar o inquérito, o que representa perda de poderes de Moraes dentro do tribunal.

Já no despacho em que suspendeu as decisões de Mendonça e Dino sobre a cúpula da PF, Fachin destacou que os conflitos e "sobreposições processuais" configuram "grave lesão à ordem pública e à integridade do Supremo". O presidente criticou a guerra de decisões entre colegas.

"O afastamento das autoridades policiais que ora se examina encadeou decisões monocráticas sucessivas com comandos normativos incompatíveis entre si", disse Fachin. "É grave o quadro em que decisões de ministros passam a ser desafiadas horizontalmente, mormente quando pendentes, tanto o julgamento em curso no âmbito da Segunda Turma deste tribunal, quanto o pedido de suspensão de liminar que se encontra sob apreciação desta Presidência", acrescentou, ainda em sua decisão.

Ontem de manhã, antes que o presidente da Corte se manifestasse, Dino determinou a reintegração de Andrei e Almada. Entre os argumentos apresentados, o ministro afirmou que o partido Novo não tinha legitimidade para fazer tal pedido a Mendonça.

Também argumentou que a interrupção na produção de relatórios pela PF traria prejuízo às investigações sob sua relatoria. A decisão de Dino foi tomada no processo em que a PF analisa o material apreendido pela Polícia Civil de São Paulo em investigações sobre o desvio de emendas parlamentares para financiar a produção do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. 

10 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Os alertas da ascensão da extrema direita na Alemanha

Acompanho a ascensão da direita radical na Europa desde 1999. Naquele ano, Jörg Haider e seu Partido da Liberdade (FPÖ) ficaram em segundo lugar nas eleições austríacas. A chegada de um partido desse campo ideológico ao governo de um país da União Europeia (UE) significava a ruptura do consenso político pós-Segunda Guerra.

Haider antecipou características que reconhecemos em siglas como a Alternativa para a Alemanha (AfD), que venceu as eleições na Saxônia-Anhalt, na Alemanha.

De 1999 para 2026, partidos populistas e de direita radical cresceram nos países e no Parlamento Europeu. O Patriots for Europe, que congrega a Reunião Nacional, da França, o Fidesz, da Hungria, e o Vox, da Espanha, tornou-se a terceira maior bancada em Bruxelas. Mas, quando se trata de chegar ao Executivo, muitas dessas legendas ainda esbarram em um cordão sanitário: partidos tradicionais, mesmo adversários, unem-se ou recusam alianças para impedir que a extrema direita alcance a maioria necessária para governar.

A França é o exemplo mais conhecido dessa estratégia, com a chamada "frente republicana". A Alemanha tem Brandmauer, a "muralha de proteção" contra alianças com a AfD.

Mas até quando esse cordão sanitário resistirá? O mecanismo vem se desgastando. A extrema direita deixou de ser uma anomalia e passou a ser naturalizada como alternativa de poder.

A próxima grande batalha será em 2027. Além da França, Espanha e Itália realizarão eleições nacionais. Por isso, a vitória da AfD é tão significativa: pode produzir uma onda de choque muito além das fronteiras alemãs. Na Espanha, o Vox vem crescendo nas pesquisas, impulsionado também pela crise migratória em Ceuta e pelo desgaste do governo de Pedro Sánchez. Na Itália, Giorgia Meloni exerce um governo mais pragmático. Ao mesmo tempo, surgiu um concorrente ainda mais à direita: Roberto Vannacci, do Futuro Nazionale.

Essas forças exploram problemas sistêmicos que os partidos tradicionais têm dificuldade: elevado custo de vida, estagnação econômica, desemprego, crise migratória, corrupção e descrença nas instituições. Uma França governada pela extrema direita produziria um abalo muito maior do que o avanço regional da AfD. Não apenas por ser a segunda maior economia da UE, mas porque é um dos países fundadores do projeto europeu e, ao lado da Alemanha, um dos pilares políticos da integração continental.

Desafios futuros

Do ponto de vista das forças políticas tradicionais, 2027 poderá ser apenas o preâmbulo de uma batalha ainda maior: as eleições para o Parlamento Europeu de 2029. O ponto de partida já é preocupante. As forças da direita radical estão divididas principalmente em três blocos: além do Patriots for Europe, há o European Conservatives and Reformists, os Irmãos da Itália e o polonês PiS; e o Europe of Sovereign Nations, o mais radical dos três e do qual faz parte a AfD. Somados, representam 26% de todas as cadeiras.

O cordão sanitário será colocado à prova. Se as forças tradicionais não conseguirem responder às angústias que alimentam esse movimento, 2027 poderá apenas adiar a realidade de 2029. Será um desafio hercúleo em um momento no qual a Europa está mais distante do guarda-chuva de segurança americano e confrontada com uma Rússia mais hostil. Nesse cenário, o crescimento de forças nacionalistas e eurocéticas, algumas abertamente favoráveis a uma reaproximação com o Kremlin, ameaça o equilíbrio entre esquerda e direita e põe em xeque o próprio projeto de integração europeia construído ao longo das últimas oito décadas. _

Prefeito viaja pelas capitais do Sul

O prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, viaja nesta semana para Florianópolis e Curitiba. Melo cumpre agendas nas capitais do Sul como presidente da Frente Nacional de Prefeitos e Prefeitas (FNP) e participa da 126ª Reunião do Fórum Nacional de Secretárias, Secretários e Dirigentes de Mobilidade Urbana.

Hoje, Melo participa do painel Transporte para Todos: a proposta da NTU para uma Política Nacional de Financiamento do Transporte Público Coletivo, em Florianópolis. O programa parte da separação entre a tarifa paga pelo passageiro e o custo real do serviço, estabelecida pelo Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano.

Amanhã, em Curitiba, Melo se reúne com prefeitos da região para debater a reforma tributária. Entre os assuntos em pauta, estão os impactos nos municípios após a entrada em vigor do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).

Melo retorna a Porto Alegre na tarde de amanhã. _

Dino em porto alegre

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino virá a Porto Alegre no fim do mês. Ele ministrará uma aula magna na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) no dia 25 de setembro. Com o tema Democracia Constitucional e Separação de Poderes: freios e contrapesos no Brasil contemporâneo, a palestra será realizada às 16h, no Salão Nobre do prédio histórico da faculdade. As vagas para assistir à aula são limitadas e as orientações para inscrição serão divulgadas a partir da próxima quarta-feira, nos canais oficiais da Faculdade de Direito e da universidade. Dino integra a Corte desde 2024.

Alterações na emissão do IPTU

A recente alteração no sistema de consulta e emissão das guias do IPTU tem despertado dúvidas entre leitores da coluna. Antes, para emitir a guia de pagamento bastava informar, por exemplo, Inscrição do Imobiliário e o número do logradouro.

Em agosto, o sistema passou a exigir, além da Inscrição do Imobiliário, o CPF ou CNPJ do proprietário. O problema relatado por contribuintes é que nem sempre esse dado está disponível. Um exemplo típico é o caso de uma pessoa que comprou um imóvel, mas não o passou para seu nome. O CPF registrado no sistema da prefeitura, nesse caso, é o do antigo proprietário. Se desconhecer o número ou não ter acesso ao antigo dono, o cidadão não conseguirá emitir a guia.

A Secretaria Municipal da Fazenda informou que a mudança nos critérios para acesso ao sistema foi adotada com o objetivo de proteger os dados do contribuinte e garantir o cumprimento do sigilo fiscal. "Identificamos consultas em massa e automatizadas ao sistema e, para impedir o mapeamento indevido de imóveis por terceiros, os critérios de acesso precisaram ser reforçados".

A prefeitura orienta que, até que uma nova solução seja implementada, contribuintes que estiverem com dificuldades para acessar o documento podem solicitar auxílio pelo 156 por telefone ou WhatsApp.

A Fazenda também orienta que proprietários que compraram ou herdaram um imóvel façam a atualização cadastral. O procedimento pode ser realizado pelo Portal de Serviços da Fazenda > IPTU > Averbação. Não há custos ao contribuinte para averbação do imóvel. 

INFORME ESPECIAL

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

09 de Setembro de 2026
MARIO CORSO

Natalidade baixa

A questão não é encolher a população, é encolher o número de pessoas em idade produtiva. Nos sistemas de previdência e saúde, são os jovens que movem a engrenagem que sustenta os velhos. Em um país com a maioria da população envelhecida, a economia quebra.

Não se trata de um problema local, a queda da natalidade baixou no mundo todo. O motivo dessa queda ninguém sabe responder com certeza. Provavelmente uma combinação de fatores.

A vida está muito cara, os jovens de hoje têm um poder aquisitivo menor que o das gerações precedentes. Existe muita instabilidade no mercado de trabalho, profissões surgem enquanto outras desaparecem velozmente.

Como nunca antes, as mulheres podem optar por não ter filhos, já não sofrem uma pressão social ou religiosa tão forte. Ainda, os filhos atrapalhem o trabalho da mulher, elas recebem quase nenhum suporte. Praticamente não há mais famílias em que um só consegue sustentar a casa.

Há uma mudança social nos cuidados com os filhos, os pais começam a ajudar na criação deles, mas ainda são raros, e as crianças ainda sobrecarregam só às mulheres. A vida urbana dificulta redes de apoio familiar, que seriam de grande ajuda.

Ter filhos antes era um dever social inquestionável, parte do destino coletivo. Hoje, tornou-se uma decisão subjetiva tomada internamente, antes de ser negociada socialmente. Posso ser uma boa mãe, ou pai? É isso que quero ser? Viverei melhor sem isso?

A decisão de não ter filhos (ou adiar) reflete uma avaliação, consciente ou não, sobre a capacidade de oferecer um ambiente suficientemente bom, numa época percebida como hostil. O clima político se radicalizou, a crise climática bate na porta, a economia não inspira confiança e o negacionismo científico aumenta. Mas não é só medo objetivo do futuro, é uma configuração subjetiva de insegurança quanto à própria capacidade de sustentar outra vida. A desesperança campeia, os jovens duvidam do futuro, o seu e o do planeta.

Talvez a pergunta não seja: como fazer os jovens quererem filhos, mas como fazer o futuro parecer, de novo, um lugar habitável. Ainda, como fazer para que uma mulher se sinta socialmente segura para uma aventura que envolve seu corpo. 

Mário Corso

OPINIÃO RBS

Degradação institucional

A decisão drástica do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça de afastar do cargo o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, traga o governo federal para a tensão que estremece a Corte e amplia a crise institucional. 

O agravamento do conflito, detonado com a revelação, por ordem de Mendonça, da troca de mensagens comprometedoras entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o colega Alexandre de Moraes, aumenta a responsabilidade do presidente do STF, Edson Fachin, de quem se aguarda ansiosamente o posicionamento firme prometido por ele.

Não pode mais ser procrastinada a convocação de sessão do plenário da Corte para deliberar sobre a abertura de um inquérito para investigar a conduta de Moraes. Esse é o primeiro passo para o Supremo começar a recuperar a sua credibilidade. Proteger a instituição, pilar do Estado democrático de direito, pressupõe demonstrar que ela paira acima do espírito de corpo e dos interesses individuais.

Ainda que controversa, a decisão de Mendonça, que já tem maioria na 2ª Turma do STF, traz acusações graves contra Rodrigues e o diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa, também afastado. 

O ministro afirma que passou por "monitoramento sistemático" e "coleta dirigida" de dados, que também teriam atingido o advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias. Seria uma bisbilhotagem nas sombras contra altas autoridades da República patrocinada pela cúpula da PF. Cumpre também observar que, a exemplo dos métodos discutíveis de Moraes, Mendonça tomou uma decisão em um caso em que seria vítima.

O episódio, se ocorreu como Mendonça sustenta, demonstra a contaminação de instituições basilares do país pela disputa política. A PF deveria ser mantida como técnica, profissional e apartidária, mas também sofre tentativas de instrumentalização. Em 2020, Alexandre de Moraes suspendeu a nomeação de Alexandre Ramagem para a diretoria-geral por indícios de que o então presidente Jair Bolsonaro buscava interferir na instituição.

O abandono da tradição da lista tríplice para a definição do procurador-geral da República é outro sintoma dessa degradação. Bolsonaro e Lula, em seu terceiro mandato, ignoraram os nomes selecionados pela Associação Nacional dos Procuradores da República e preferiram escolhas pautadas pela fidelidade. A opção colide com a independência necessária do Ministério Público e, nesses anos, abriu larga margem para acusações de omissão e de alinhamento escancarado.

Mas nada é mais grave do que o que ocorre no STF, sob o contágio da desconfiança de decisões movidas por envolvimento político. A credibilidade da Corte não será recuperada enquanto os ministros forem identificados pelos cidadãos como agentes vinculados a um ou outro lado da polarização, e não como guardiões da Constituição. A crise atual, pela seriedade inaudita, deve fortalecer a discussão sobre a mudança das regras de indicação dos ministros. 

É preciso ter normas que diminuam a discricionariedade atual ampla do presidente da República e enfraqueçam escolhas pela expectativa de lealdade. A seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entregou há menos de um mês uma proposta que une pontos de várias PECs e pode ser a base para essa discussão, que não pode mais ser adiada.

A saúde da democracia brasileira depende de instituições livres de aparelhamentos. Como está, não pode ficar. _ 

Matheus Schuch

Mais desgaste para o governo

Já faz um bom tempo que o presidente Lula se afastou de Alexandre de Moraes para tentar evitar o desgaste da crise do Master. Agora, o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, sob suspeita de produzir relatórios de inteligência e monitorar o relator do caso Master, André Mendonça, aproxima o governo da crise e pode ampliar os danos ao presidente a menos de um mês das eleições.

Na semana passada, o pedido de investigação de Moraes contra Mendonça foi encaminhado a partir de relatórios apócrifos, que provocaram desconfiança sobre origem e até mesmo sobre legitimidade. Agora, a decisão de Mendonça afirma que o material foi construído a partir de um acompanhamento ilegal de suas ações.

O curioso é que o advogado-geral da União, Jorge Messias, outra pessoa da confiança de Lula, também seria alvo de monitoramento. Nos bastidores, Messias já era considerado próximo a Mendonça e isso foi apontado como um dos motivos de seu nome ter sido rejeitado para uma vaga no STF. Na ocasião, ministros da Corte e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, trabalharam fortemente pela derrota.

Mendonça descreveu como "surreal" e "abjeta" a conclusão de relatórios da PF de que a sua conduta e a do advogado-geral da União, de não acatar solicitações da PF, poderia ser explicada pelo fato de possuírem "matriz religiosa comum" e terem tido apoio de igrejas evangélicas em suas candidaturas ao STF.

Ao afastar Andrei, Mendonça também deixa claro que não pretende recuar de sua ofensiva contra Moraes. O caso só aumenta a pressão para que o presidente do STF, Edson Fachin, defina se vai submeter logo ao plenário a possibilidade de autorizar investigação formal contra Moraes - algo que seria inédito na história da Corte. 

CONEXÃO BRASÍLIA 

09 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

A antropofagia entre os poderes da República

O modernismo brasileiro transformou a antropofagia em metáfora: devorar o outro para absorvê-lo e produzir algo novo.

Quase um século depois do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, Brasília criou sua própria versão. Na capital federal, um poder já não se limita a fiscalizar o outro. Come.

A antropofagia começa dentro das próprias instituições. No Supremo Tribunal Federal (STF), ministros travam uma batalha pública, com Alexandre de Moraes pedindo a investigação de André Mendonça e Mendonça reagindo agora com o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação.

O que deveria ser um sistema de freios e contrapesos começa a assumir a forma de uma disputa em que cada movimento provoca outro ainda mais grave. A institucionalidade vai se liquefazendo e levando, de roldão, para o lamaçal, a República.

O presidente candidato Lula tentou permanecer alheio à guerra no Supremo, embora já sofresse seus efeitos na campanha eleitoral pela associação entre seu nome e o de Moraes. A decisão de Mendonça arrastou o Executivo diretamente para o conflito ao atingir Andrei, escolhido pelo presidente e subordinado ao Ministério da Justiça. A AGU prepara recurso contra o afastamento, enquanto a crise que começou dentro do Judiciário cruza, a passos rápidos, a Praça dos Três Poderes.

A antropofagia institucional avança, um órgão sobre o outro. O passo seguinte pode ser uma névoa, na qual já não se saiba onde termina a defesa legítima de uma prerrogativa e começa uma guerra de poder.

Também preocupa a resposta sugerida por assessores palacianos. Marco Aurélio de Carvalho, coordenador jurídico da campanha do presidente, defendeu a convocação do Conselho da República para enfrentar o que classificou como uma "crise institucional sem precedentes". O colegiado existe para aconselhar o presidente sobre temas de enorme gravidade, como intervenção federal, estado de defesa e de sítio. A simples associação, em meio a uma campanha eleitoral e a uma batalha aberta entre integrantes do Supremo, eleva ainda mais a temperatura. O reverso precisa ser acionado.

Caso de emergência

Crises institucionais graves devem ser tratadas como uma emergência de pronto-socorro: primeiro, é preciso impedir que a infecção se espalhe pelo organismo. Nesses casos, em geral, para preservar o corpo, é necessário afastar a parte comprometida até que se saiba exatamente o que aconteceu.

O Executivo acaba de perder, ainda que preventivamente, o seu diretor-geral da PF. Cabe ao Supremo fazer a sua parte, criando uma saída institucional capaz de interrompê-la.

Se Brasília continuar praticando sua antropofagia pública, chegará um momento em que não haverá vencedor. Todos cairão. Com os poderes devorados uns pelos outros, o que restará sobre a mesa do banquete de vaidades será a própria República. _

O humano em tempos de IA

Para reafirmar que o lado humano permanece insubstituível na relação ensino-aprendizagem, a 14ª edição do Inteligência Coletiva, que inicia hoje e vai até sábado, em Porto Alegre, debate o tema "O futuro da educação continua humano". O evento é gratuito para professores da rede pública e estudantes de licenciatura e magistério. Para as escolas privadas, o investimento varia de R$ 40 a R$ 98 por pessoa, conforme a modalidade escolhida.

O evento é idealizado pela Escola de Professores Inquietos, iniciativa do Colégio Farroupilha. Hoje, no Teatro CIEE, o médico e escritor J.J. Camargo palestra sobre a relação entre o técnico e o humano. O sábado será dedicado à apresentação dos relatos de práticas pedagógicas e experiências de pesquisa de professores de diferentes escolas selecionados por edital e de workshops com diferentes profissionais nas dependências do Colégio Farroupilha.

Entre os temas abordados estão saúde mental; aprendizagem inovadora; processos inclusivos; sustentabilidade e cidadania; e relações escolares e convivência. Inscrições no site gzh.digital/inteligênciacoletiva. _

Islândia no mapa dos Estados Unidos

Após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicar nas redes sociais um mapa fictício no qual mostrava a Islândia - além de México, Cuba e Groenlândia - coberta pela bandeira americana, indicando que o território faria parte dos EUA, o Ministério das Relações Exteriores islandês convocou, ontem, o embaixador americano, Billy Long, para conversas.

Desde as investidas de Donald Trump nos últimos anos para que os Estados Unidos adquiram a Groenlândia - território autônomo dinamarquês -, as relações entre os americanos, países europeus e aliados da Otan ficaram estremecidas. No mês passado, os eleitores islandeses rejeitaram a retomada das conversas para aderir à União Europeia. Durante a campanha para a votação, os planos de Trump para a Groenlândia integraram o debate político no país.

Alguns defensores da retomada das negociações citaram a preocupação com a confiabilidade dos Estados Unidos como motivo para considerar uma aproximação maior com a União Europeia.

A publicação de Trump também coincidiu com uma nova demonstração de apoio europeu à Groenlândia. Horas antes, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou um pacote de 200 milhões de euros (cerca de R$ 1,2 bilhão, na cotação atual) para o território autônomo dinamarquês. _

Honoris Causa a Conceição Evaristo

A linguista e escritora brasileira Conceição Evaristo será agraciada com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Apesar de a data da cerimônia de outorga ainda não ter sido definida oficialmente, a entrega do título, segundo a reitoria, está prevista para meados de dezembro.

A proposta que deu origem à homenagem partiu do Coletivo de Estudantes Negros da Pedagogia, do Coletivo UFRGS Negra e do Movimento Negro Unificado, sendo encaminhada pela Faculdade de Educação (Faced) ao Conselho Universitário (Consun).

Segundo a universidade, a honraria reconhece a trajetória de Conceição Evaristo e a contribuição de sua produção literária e intelectual para a literatura brasileira, a educação e o enfrentamento do racismo. A justificativa apresentada ao Consun destaca também a presença e a influência do pensamento da escritora na produção acadêmica da UFRGS.

- É muito importante esse reconhecimento, pois ela, além de escritora, é uma linguista muito relevante. Alguns conceitos que ela introduz, além, obviamente, da questão do racismo e da linguagem, envolvem a escrevivência, ou seja, essa escrita que traz de onde tu vens e o que tu representas. É mais do que um pensamento de ação afirmativa, é incorporar à criação de conhecimento quando trazemos pessoas com outras culturas e vivências para dentro da universidade. É a transformação da universidade, e a entrega desse título é o reconhecimento dessa transformação - comentou a reitora Márcia Barbosa à coluna.

Nascida em uma favela de Belo Horizonte, Conceição Evaristo é filha de uma lavadeira e, desde os 8 anos de idade, vivenciou o trabalho doméstico nas casas das elites mineiras. Atuou como professora primária no Rio de Janeiro e, posteriormente, graduou-se em Letras. Tem o mestrado em Literatura Brasileira e o doutorado em Literatura Comparada.

É autora, entre outras obras, de Ponciá Vicêncio (2003), Becos da Memória (2006), Olhos d?Água (2014) e Canção para Ninar Menino Grande (2018). 

INFORME ESPECIAL

terça-feira, 8 de setembro de 2026

08 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

O cheiro da mãe

Mãe é uma ligação atemporal, inexplicável.

Dos milhares de perfumes que um ser humano pode colecionar ao longo da sua trajetória, há um apenas que ele jamais erra em identificar: o cheiro da sua mãe. Quando abraçamos a nossa mãe, refazemos a mágica da fragrância fundadora. Pois entramos no mundo em contato com a sua pele.

Tanto que, após o parto, nas primeiras semanas depois do nascimento, costuma-se recomendar que a mãe evite o uso de perfume. Para não confundir o filho. Para facilitar que ele a reconheça.

O primeiro mapa das nossas vivências não é visual, e sim aromático. Antes de detectar um rosto, procuramos o abrigo do colo. O cheiro do corpo materno será um dos maiores elos para aceitar o mundo. Reduz o estresse, diminui o choro e ajuda a regular a frequência cardíaca. Inclusive, tem efeito analgésico, em especial durante procedimentos incômodos, como a picada no calcanhar.

Tanto que o bebê costuma se aquietar no peito da mãe, pois reconhecerá imediatamente a epiderme da proteção. Experimentará o conforto de voltar mentalmente ao ventre.

Entre dois e seis dias de vida, bebês já distinguem a camiseta usada pela genitora. A visão ainda é limitada (cerca de 20 a 30 cm e de forma desfocada), enquanto o sistema olfativo já se encontra desenvolvido.

Não compreendemos direito por que amamos alguém. A senha não está naquilo que os olhos enxergam. Definitivamente, é pela respiração que nos sentimos admirados, antes das palavras, antes dos gestos. Será que o beijo de quem você ama não é inesquecível pelo gosto respirado em torno da boca?

O recém-nascido sabe quem é quem pelo suor, pela química dos poros, numa conexão primitiva, de animal com a sua toca.

Quando ele inspira o cheiro da pele da mãe, estabelece um endereço de cuidado. Talvez represente o momento oficial de seu nascimento: ele liga o Wi-Fi da personalidade. Todo perigo se apresentará fora daquela presença, daqueles quadrantes, daquela bússola.

É o que vai impregnar o cueiro, a manta, a coberta, o travesseiro, espalhando resquícios do tempo em que atravessava o interior da gestação.

Suas memórias afetivas incipientes passam pelo faro, seu canal de comunicação com o universo de sua chegada. Apresentam conexões diretas com estruturas cerebrais ligadas à emoção e à memória, como a amígdala e o hipocampo.

Um aroma nos desperta para as saudades mais arrebatadoras. Ficamos desprotegidos e vulneráveis diante de sua absorção involuntária.

Numa visita em minha casa, a mãe esqueceu seu xale preto na poltrona da sala. Instintivamente, botei o pano em meu nariz, nebulizei com vontade, como se recuperasse meu nascimento. Chorei. Devo ter chorado outra vez da alegria do parto, da sorte de ter vindo dela. _

CARPINEJAR

08 de Setembro de 2026
NILSON SOUZA

O mapa corrigido

Adoro mapas. Devo ter sido infectado por algum bicho geográfico quando andava de pés descalços nos campinhos de futebol do bairro Sarandi, onde passei a infância. Não peguei doença de pele, mas fiquei com uma certa desorientação cognitiva. Se mudo o trajeto rotineiro, me perco. Sempre que me aventuro por território desconhecido, faço um desenho prévio do trajeto ou busco algum outro recurso gráfico. Bendito seja o gênio da lâmpada que inventou o GPS!

Mas meu gosto pela cartografia vai muito além do trânsito. Sou fascinado pelo mapa-múndi, em todas as suas dimensões. Às vezes fico olhando para o globinho do meu escritório e viajo de um polo a outro. Outro dia fiquei imaginando se seria possível ir a pé de Torres à Namíbia quando os continentes estavam unidos na Pangeia, 300 milhões de anos atrás.

Pois vem da África a mais recente alteração na representação plana da nossa Terra geoide. Por iniciativa da República do Togo, a Assembleia Geral da ONU aprovou na semana passada a substituição do tradicional mapa-múndi de Mercator por um desenho atualizado, que corrige distorções no tamanho e na proporção das massas de terra. 

A iniciativa batizada de "Corrija o Mapa" foi aprovada por 164 países, com um único voto contrário, o dos Estados Unidos. Não podia ser diferente: Trump, como se sabe, tem o seu próprio mapa planetário, com seu umbigo em primeiro plano, Nova York como capital do império Maga e pequenas repúblicas bananeiras no restante.

Pois o Brasil ficou mais comprido no novo mapa-múndi. Fica-se com a impressão de que agora vai levar mais tempo para ir do Oiapoque ao Chuí, que nem é a maior distância no território nacional, pois tem um pontinho em Roraima ainda mais longe do Extremo Sul. Brincadeira, claro, a mudança gráfica não altera a realidade. 

Mas mexe com a autoestima dos habitantes. No mapa antigo, a África era quase do mesmo tamanho da Groenlândia. Agora é 14 vezes maior. Na parte que nos toca, a América do Sul também espichou e o Brasil foi junto. Antes, era do tamanho do Alasca. Agora é cinco vezes maior.

Mas não se iludam, é apenas uma representação gráfica. Cuidado com o umbigo! _ A mudança gráfica não altera a realidade, mas mexe com a autoestima dos habitantes

NILSON SOUZA

08 de Setembro de 2026
OPINIÃO DA RBS

O futuro governo e o desafio climático

O próximo governo a se instalar no Palácio Piratini será o primeiro a ter de se dedicar de maneira prioritária, desde o dia inaugural da gestão, à pauta climática e ambiental. A enchente de 2024, devastadora e mortal, fez o Estado despertar de forma definitiva, do pior modo possível, para a nova realidade. O desenvolvimento do Rio Grande do Sul e o bem-estar dos gaúchos dependerão cada vez mais da prevenção e da adaptação a eventos extremos, na forma de chuvas violentas e excessivas ou de estiagens.

É por essa razão que o tema abre, nesta terça-feira, a série de reportagens (leia mais nas páginas 4, 5 e 6 desta edição), que será veiculada até as vésperas da eleição nas diferentes plataformas do Grupo RBS, sobre os desafios que pedem maior atenção do governo a ser ungido pelas urnas em outubro. As matérias analisam questões cruciais para o futuro do Estado. Os temas foram apontados como primordiais por contribuições de diversos setores da sociedade ao longo de ouvidorias organizadas pelo Conselho Editorial da RBS neste ano.

Não há mais dúvida sobre a gravidade das mudanças climáticas e seus efeitos. O alerta da ciência sobre a tendência de esses fenômenos da natureza se tornarem mais intensos e frequentes faz com que o Estado precise conciliar agilidade e planejamento robusto para enfrentar toda sorte de intempéries. Há ações que pedem celeridade. E projetos que exigem estruturação criteriosa pela complexidade e pelo alto investimento, como os sistemas anticheias da Região Metropolitana.

Para os gaúchos, as consequências do clima hostil não são uma cogitação abstrata. Os custos em vidas e em perdas materiais apenas do passado recente falam por si. Na última década, foram 281 mortes e R$ 116,8 bilhões em prejuízos, conforme a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil. Em outro levantamento, com metodologia diversa, a Federação da Agricultura do Estado (Farsul) estima R$ 126,3 bilhões em danos entre 2020 e 2025 nas lavouras. Como reflexo, o PIB gaúcho perdeu R$ 319 bilhões. Omitir-se agora é correr o risco de ver descalabros semelhantes se repetirem.

Espera-se do futuro governo compromisso e perseverança para tornar o Rio Grande do Sul resiliente aos reflexos do aquecimento global. O Plano Rio Grande, transformado em lei, indica o caminho e tem projetos de grande relevância em diversos estágios. É importante tê-lo como norte.

Não é aceitável que os gaúchos sofram novamente indefesos com a invasão da água pelas cidades, que a infraestrutura seja outra vez destruída e que milhares de cidadãos, sempre os mais humildes, sigam perdendo casas e pertences. Também não é concebível que secas e estiagens recorrentes continuem indefinidamente a impingir perdas econômicas severas, legando crescimento abaixo do potencial e endividamento no campo. Uma das grandes questões sem resposta adequada diz respeito a uma política capaz de elevar de maneira significativa a área irrigada.

Apesar das muitas tarefas árduas à frente, a maior parte do mapa de ação para o RS harmonizar proteção ambiental e progresso está traçada. Resta o desafio de implementar os projetos destinados a forjar um Estado mais adaptado ao novo contexto. Cabe ao próximo governo liderar os gaúchos nessa jornada. 


08 de Setembro de 2026
REPORTAGEM - Marcelo Gonzatto

Construir um legado contra o impacto climático

Série de oito reportagens aborda os principais desafios que o RS precisa enfrentar para avançar. A primeira trata do ambiente. Especialistas apontam necessidade de aprimorar sistemas de prevenção e melhorar a gestão dos recursos naturais.

Nos últimos anos, o ambiente se tornou um tópico prioritário nas discussões sobre o futuro do Rio Grande do Sul. A sucessão de enchentes e estiagens, pontuada por vendavais, deslizamentos de terra e quedas de granizo, evidencia o impacto das mudanças climáticas no dia a dia da população e transforma o investimento em resiliência em uma obrigação para os atuais e futuros representantes dos eleitores.

O Atlas Digital de Desastres no Brasil, mantido pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, contabiliza 281 óbitos e R$ 116,8 bilhões em prejuízos públicos e privados provocados no Estado por essas ocorrências na última década.

Esta é a primeira de uma série de oito reportagens sobre os principais desafios que o RS precisa enfrentar para avançar. Zero Hora selecionou, a partir de ouvidorias realizadas pelo Conselho Editorial da RBS e da consulta a fontes independentes, questões que merecem a atenção dos representantes do eleitor gaúcho.

Na área ambiental, isso inclui projetos de contenção de enchentes, preparação para enfrentar eventos climáticos extremos e a gestão inteligente dos recursos hídricos.

O RS está mais exposto a fenômenos extremos por uma combinação de fatores. O território gaúcho sempre foi suscetível a ocorrências de tempestades severas por estar localizado em uma zona de choque entre massas de ar frio e quente. As mudanças climáticas em curso, que aumentam o nível de energia na atmosfera, potencializam esses episódios. A ocupação urbana de zonas de risco ampliou, ao longo de décadas, a fragilidade dos municípios frente às intempéries.

A probabilidade de novas tragédias é multiplicada em épocas de El Niño - como em 2026, quando é esperado um evento muito forte no último trimestre.

- As previsões são de que o El Niño atingirá esse nível muito forte a partir de setembro, com impacto muito grande em outubro, novembro, dezembro e janeiro. Então, tem de estar muito preparado para todos esses meses - alerta o climatologista e professor da Universidade de São Paulo (USP) Carlos Nobre.

O custo de permanecer sujeito às variações bruscas do humor do clima é muito elevado. As cheias de 2024 e do ano passado afetaram diretamente mais de 1 milhão de gaúchos, conforme levantamento do governo estadual.

- Existe um risco não desprezível de acontecer um evento muito extremo, como o de 2024, dentro da próxima década ou nas próximas duas décadas. É necessário deixar um legado para esse futuro próximo - afirma o pesquisador e doutor em Hidrologia do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS Rodrigo Paiva. _

1| Para lidar com enchentes

Uma série de iniciativas envolvendo prefeituras, Estado e a gestão federal segue em curso para melhorar as barreiras de proteção contra enchentes no Estado. Esse trabalho começou após a cheia de 2024 e ainda não terminou. Os novos sistemas de proteção são obras e projetos complementares aos sistemas que já existem, coordenados pelo governo do Estado, com investimento de R$ 6,5 bilhões da União.

A ação mais avançada é a implementação do sistema de contenção de Eldorado do Sul, na Bacia do Jacuí, com investimento previsto de R$ 1,1 bilhão. As obras ainda não começaram: até agora, o anteprojeto que prevê a construção de um sistema de diques foi atualizado e concluído. Segundo a Secretaria da Reconstrução Gaúcha, as próximas etapas incluem a elaboração do projeto executivo e a ordem de início dos trabalhos.

No caso do Sistema de Porto Alegre e Alvorada (Arroio Feijó), está em fase final do processo licitatório para contratar a atualização do anteprojeto. O investimento é estimado em R$ 2,5 bilhões. E nos casos dos demais sistemas, estão em fase complementar ao processo licitatório para atualizar os anteprojetos e estudos ambientais, como as bacias do Gravataí (R$ 450 milhões, com edital de atualização de projeto publicado em 14 de agosto), do Sinos (R$ 1,9 bilhão, com previsão de publicação de edital para atualização do anteprojeto em setembro) e do Caí (R$ 14,5 milhões, com edital para realização de anteprojeto em 30 de junho).

A previsão para conclusão das obras dos novos sistemas é em 2031, e exige comprometimento dos novos governantes para se confirmar.

Os sistemas de contenção já existentes, como diques, casas de bombas e comportas, são de responsabilidade dos municípios. As prefeituras contam com auxílio do Estado para as obras de qualificação via programa Fundo a Fundo da Reconstrução, que aprovou liberações de cerca de R$ 700 milhões até o momento.

Planos de prevenção

Outras ações de prevenção aos efeitos de fenômenos climáticos avançaram nos últimos anos. Conforme o auditor de controle externo do Tribunal de Contas do Estado (TCE) Everton do Amaral Padilha, levantamento divulgado no ano passado mostrou que 87 cidades não tinham planos de contingência (que definem como evitar, enfrentar e reduzir impactos em casos de desastre), e em 215 estavam desatualizados. Conforme a Defesa Civil Estadual, hoje todas as 497 prefeituras contam com planos próprios.

- É positivo, mas esses planos de contingência têm de ser revisados e amadurecidos constantemente. Em alguns municípios, acabam sendo pouco detalhados - observa Rodrigo Paiva, do IPH da UFRGS.

Sete municípios do Vale do Taquari estão revendo seus planos diretores para evitar a ocupação de áreas de risco, em uma iniciativa conjunta com o Piratini e a Universidade do Vale do Taquari (Univates).

- Os planos diretores foram elaborados, a parte técnica está pronta. Mas os momentos dos municípios são bem diferentes, porque cada prefeitura tem o seu cronograma, as suas instâncias de discussão - afirma a arquiteta Izabele Colusso, que participou da elaboração dos documentos pela Univates e é professora da Unisinos.

A Secretaria da Reconstrução Gaúcha sustenta que o Plano Rio Grande, elaborado para recuperar os danos provocados pelas enchentes e reduzir a vulnerabilidade a fenômenos extremos, prevê R$ 15 bilhões para custear cerca de 270 ações. _

2| Danos das estiagens

Embora as recentes cheias tenham deixado estragos e traumas profundos no Estado, as secas e estiagens têm se mostrado um problema ambiental ainda mais frequente e danoso. Dos últimos seis anos, apenas em 2024 não houve registro de grandes prejuízos provocados pela falta de chuva - justamente quando foi o excesso de água que castigou os gaúchos.

Estimativas da Federação da Agricultura do Estado (Farsul) indicam perdas da ordem de R$ 126,3 bilhões nas culturas de arroz, milho, soja e trigo entre 2020 e o ano passado (o dado difere dos cálculos do Atlas de Desastres porque é feito com base em outra metodologia). O impacto indireto das quebras de safra sobre a economia resultou ainda em um recuo calculado em R$ 319 bilhões no PIB nesse intervalo (equivalente a 49% de toda a riqueza gerada no Estado em 2023, por exemplo).

Um mapeamento realizado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional mostra que, depois da Região Nordeste, o Rio Grande do Sul é um dos Estados com maior média de registros de estiagens (falta de chuva por períodos mais breves) e secas (déficit hídrico prolongado) no país. As áreas mais afetadas coincidem com as que apresentam baixos índices anuais de crescimento populacional - chegando a registrar percentuais negativos ou próximos de zero. As perdas econômicas agravadas pela irregularidade das precipitações ajudam a explicar, ainda, as dificuldades de desenvolvimento no Estado nas últimas décadas.

Os gaúchos apresentaram o menor crescimento econômico do país entre 2002 e 2023, com média de 1,4% contra uma média nacional de 2,2% de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). _

3| Gestão do recurso hídrico

Outra frente de ação fundamental em um cenário de variações climáticas bruscas, também marcado por estiagens e secas, é uma gestão hídrica mais inteligente e eficaz. Isso envolve medidas como ampliar áreas de irrigação rural, reduzir perdas na distribuição de água, melhorar a coleta e o tratamento de esgoto e regular a captação e o lançamento de efluentes em mananciais.

- Temos uma lei estadual das águas, de 1994, que inclusive serviu de base para a política nacional de recursos hídricos. Mas, nestes 30 e poucos anos, não vimos intenção dos governos de implementar esses instrumentos de gestão das águas - analisa a presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos, Viviane Feijó Machado.

Entre os exemplos de medidas que ainda aguardam implementação, Viviane cita a criação de uma agência estadual de bacias, a exigência de outorga para lançamento de efluentes e a cobrança pelo uso da água (em metros cúbicos) e a elaboração de planos de manejo para todas as bacias.

O governo estadual apresentou recentemente proposta de criação de uma "autoridade das águas", e um projeto semelhante tramita na Assembleia Legislativa, mas ainda não há previsão para a medida ser concretizada. Conforme a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), a medida "aguarda decisão do governador quanto a seu encaminhamento".

A Sema informa, ainda, que existem hoje 25 bacias hidrográficas em solo gaúcho. Parte segue sem a documentação destinada a permitir ações de planejamento mais adequadas: 12 têm planos de bacia concluídos, sete têm documentos parcialmente elaborados e seis ainda não têm planos.

A Sema comunica que "está desenvolvendo uma contratação integrada destinada à conclusão dos planos pendentes, à atualização dos planos existentes e à revisão do Plano Estadual de Recursos Hídricos". A secretaria sustenta que a cobrança pelo lançamento de efluentes está "em processo de implementação", mas a taxa pelo uso de água está em discussão na Justiça.

Viviane aponta ainda a necessidade de elevar o nível de tratamento de esgoto no Rio Grande do Sul e reduzir as perdas na distribuição de água - que chegam a 39% do que é produzido. Já a coleta de esgoto abrange 34,7% da população gaúcha, contra uma média nacional de 56,7%. _

Adaptação da casa aos riscos de enchente

Morador de Eldorado do Sul, o motorista Luciano Almiron, 49 anos, resolveu adaptar sua casa às ameaças de enchente enquanto aguarda por soluções definitivas. Como vive às margens do Guaíba, fez armário e bancada de pedra na cozinha (para resistir às ondas e à umidade), mantém apenas os móveis necessários no andar térreo da moradia e, caso precise, consegue subi-los rapidamente para o segundo piso. Conta ainda com um barco para ajudar a si e aos vizinhos a escapar de eventual nova inundação.

- Não sei se vai ser possível segurar o rio aqui. O ideal seria ter uma solução que atendesse a toda a região. Como não sei quando isso vai ocorrer, me preparei para conviver com as cheias - afirma Almiron. _

Soluções envolvem uma combinação entre obras e ações preventivas

Especialistas consultados por ZH afirmam que a saída para os desafios ambientais e climáticos do RS exige uma receita que combine investimentos em obras de proteção e resiliência, ações de prevenção e o uso inteligente dos recursos naturais.

Entre as ações necessárias, estão obras estruturais que seguem em andamento, como a implantação de diques na Região Metropolitana. O desafio é tirar essas intervenções do papel e garantir sua conclusão nos prazos previstos.

- É preciso trabalhar fortemente para finalizar as reformas dos sistemas de proteção contra cheias que estão em andamento. Isso tem um tempo, é difícil fazer muito rápido porque envolve estudos e um grande volume de recursos - avalia o professor do IPH Rodrigo Paiva.

Isso evitaria que o atual prazo de conclusão das melhorias em sistemas de contenção da Região Metropolitana e arredores, previsto para 2031, venha a sofrer atrasos. Paiva também destaca a importância das ações não estruturais, como o mapeamento de riscos, o monitoramento das condições climáticas e hidrológicas, o fortalecimento da cultura de prevenção e a integração entre diferentes órgãos de governo.

O Serviço Geológico do Brasil (SGB) serve como exemplo de integração entre diferentes esferas de gestão. O órgão federal realizou, até o momento, o mapeamento das zonas de risco de 134 municípios gaúchos. Isso permite identificar os locais mais propensos a inundações, deslizamentos de terra e outros desastres e formular planos diretores e de contingência mais eficazes. O avanço desse trabalho, por meio de novas parcerias, aumentaria o nível de segurança de mais cidades.

Em relação ao uso inteligente da água, uma das medidas fundamentais é encaminhar a criação de um órgão estadual de gerenciamento.

- Essa agência de bacia, ou autoridade das águas, poderia inclusive ser responsável, por exemplo, pelos sistemas de proteção contra cheias. Porque daí tu vês as bacias por meio de um órgão estadual, evitando que ações em um município interfiram em outro, vai ter uma visão realmente regional - argumenta a presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia do Sinos, Viviane Feijó Machado.

Ampliação da irrigação

A Sema sustenta que o Departamento de Recursos Hídricos e Saneamento concluiu a tramitação interna da proposta de modernização da lei que institui a Política Estadual de Recursos Hídricos e organiza o Sistema Estadual de Recursos Hídricos.

O assunto está em "fase final de tramitação" e prevê, entre outras medidas, a criação da Autoridade das Águas do Estado. Isso permitiria implementar e gerir com mais facilidade outras medidas defendidas por especialistas, como a cobrança pelo lançamento de efluentes em mananciais.

Já as ações de combate às secas e estiagens envolvem a ampliação da irrigação. Hoje, cerca de 12% da área plantada no Estado é irrigada, mas a infraestrutura está concentrada em áreas de plantio de arroz. Nas culturas de sequeiro (soja e milho), altamente afetadas pela falta de chuva, o índice cai para menos de 5%. O Estado conta com política de estímulo a esse tipo de iniciativa, o Irriga+RS, pelo qual subsidia parte do investimento dos produtores.

Um outro plano, mais ambicioso, prevê usar recursos de uma nova suspensão do pagamento da dívida com a União para financiar projetos de irrigação. Se a União concordar, poderiam ser levantados até R$ 60 bilhões para custear a ampliação dos sistemas de proteção contra secas. Ainda não há confirmação se a medida poderá ser concretizada. 

08 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Um desfile de 7 de Setembro para Trump ver

O 7 de Setembro deste ano teve como foco um espectador a quase 7 mil quilômetros da Esplanada dos Ministérios, em Brasília: Donald Trump, sentado em sua Resolute Desk, no Salão Oval da Casa Branca, em Washington. Sob o lema "Soberania - A força que une o Brasil", o presidente Lula transformou o tradicional Desfile da Independência em uma demonstração calculada de força política, institucional e militar. 

Em meio às disputas com os Estados Unidos - da crise tarifária às falas políticas que o Planalto entende como interferência externa -, a mensagem foi de que o Brasil quer mostrar que decide seu próprio destino.

As duas horas de duração estavam previstas na programação, e a passagem de tropas, blindados e aeronaves faz parte da tradição da cerimônia. Mas houve nuances: durante anos, a esquerda brasileira manteve uma relação mais distante com a simbologia militar, enquanto o bolsonarismo apropriou-se politicamente das Forças Armadas, da bandeira e das cores nacionais. Lula agora tenta recuperar esses símbolos e associá-los à defesa do país diante de pressões externas.

Há dinheiro acompanhando o discurso. No projeto de Orçamento de 2027, o governo abriu espaço extraordinário para projetos estratégicos da Defesa. Destinou R$ 12,7 bilhões para investimentos, superando a área da Saúde, que recebeu R$ 11,4 bilhões. 

O valor também é maior do que os destinados à Educação (R$ 6,8 bilhões), à Segurança Pública (R$ 3 bilhões) e ao Saneamento Básico (R$ 1,3 bilhão). Em primeiro lugar, aparece Transporte, com R$ 13,8 bilhões, e envolve investimentos em rodovias e ferrovias, por exemplo. Duas semanas atrás, Lula acenou aos militares, ao dizer que "Defesa não é para quando sobrar dinheiro":

- Temos de preparar o país não para a guerra, mas para a paz, e defender nosso território, nossas riquezas e nosso povo.

Míssil tático

Vem mais por aí: recentemente, a Avibras, indústria bélica brasileira com sede em Jacareí (SP), avançou na certificação de um míssil capaz de atingir 300 quilômetros de distância. O MTC (míssil tático de cruzeiro) foi testado pelo Exército e pela empresa na Restinga de Marambaia, no Rio. O armamento integra o sistema de artilharia Astros.

Para o público interno, ontem, entretanto, a imagem mais importante estava na tribuna. Lula trabalhou pessoalmente para ter ao seu lado Edson Fachin, Davi Alcolumbre e Hugo Motta. Em meio à grave crise que atinge o STF, o presidente conseguiu reunir os chefes dos três poderes, algo que não ocorreu no desfile do ano passado, e tentou projetar uma imagem de normalidade e coesão institucional.

A fotografia de união ocorre justamente quando as instituições estão fraturadas. Os ministros do Supremo Alexandre de Moraes e André Mendonça, protagonistas do escândalo da vez, não compareceram. Fachin foi o único magistrado do STF presente.

Outros elementos do desfile ajudaram a ampliar essa narrativa. O governo colocou entre os três eixos oficiais o enfrentamento à violência contra as mulheres e a Copa do Mundo Feminina de 2027, incorporando à celebração militar uma agenda social e feminina. A primeira turma feminina do Exército inaugurou os trabalhos em março de 2026.

No fim, o 7 de Setembro serviu a Lula em três frentes ao mesmo tempo. Para dentro, tentou recuperar símbolos nacionais. Diante da crise institucional, exibiu os chefes dos poderes lado a lado. E, para fora, colocou soldados, equipamentos e autoridades sob uma única palavra: soberania. _

Canal 156 vai ter auxílio de IA

A partir deste mês, de forma escalonada, o canal 156, da prefeitura de Porto Alegre, vai adotar inteligência artificial (IA) para atendimento aos cidadãos.

Todas as demandas que dizem respeito ao município devem ser feitas por meio desse número, tanto por telefone tradicional quanto por Whats­App: água e esgoto (falta de água ou vazamentos), limpeza urbana e recolhimento de lixo, zeladoria urbana (tapa-buracos e poda de árvores), denúncias de poluição sonora e fiscalizações, informações sobre transporte, saúde e impostos.

A ideia é automatizar atendimentos mais simples, agilizar respostas e auxiliar os funcionários em consultas e encaminhamentos.

Importante: o serviço não vai substituir o atendimento humano, que segue responsável pelos casos que exigem análise ou decisão especializada.

Na prática, o cidadão poderá, por exemplo, explicar pelo telefone o que precisa em linguagem natural, sem necessariamente seguir uma sequência de opções (em números).

No WhatsApp, a IA responderá dúvidas, consultará protocolos, realizará agendamentos e executará outros serviços que possam ser automatizados.

Quando for necessária análise especializada, o atendimento será encaminhado para um atendente humano.

Outro avanço: a solução também terá um Copiloto de Atendimento, que auxiliará os profissionais do 156 na busca de informações e na elaboração de respostas, utilizando a base oficial de conhecimento da prefeitura e indicando as fontes consultadas. A expectativa é de que seja reduzido o tempo de consulta dos atendentes e ampliada a padronização das respostas dadas ao cidadão.

Segundo ponto de vantagem: a previsão de um Mapa Inteligente da Cidade, que utilizará os dados dos atendimentos para identificar padrões, recorrências e concentrações das demandas por região, produzindo informações que poderão apoiar a gestão municipal. A ferramenta permitirá transformar reclamações individuais em um retrato mais amplo das necessidades da cidade.

A iniciativa acompanha o crescimento da Central, que já registrou mais de 6 milhões de interações em pouco mais de dois anos e meio, com aproximadamente 77% realizadas pelos canais digitais. O investimento é de R$ 1,9 milhão. _

Facilito, o mascote

No momento em que celebra o novo serviço 156, com uso de IA, a secretária de Transparência e Controladoria de Porto Alegre, Mônica Leal, apresenta o Facilito, o mascote oficial da Central do Cidadão da Capital.

- É um orgulho entregar mais um projeto à frente da secretaria e de uma equipe comprometida com quem vive em Porto Alegre - celebra Mônica. _

A Alemanha se arma

Em meio às tensões com a Rússia e ao distanciamento americano, países europeus correm para adquirir armas de longo alcance. A Alemanha, por exemplo, não dispõe, em seu arsenal, de mísseis balísticos, que voam a velocidades muito superiores às dos mísseis de cruzeiro. Entretanto, nos últimos dias, testou com sucesso um Lora, fabricado pela Israel Aerospace Industries, no Atlântico Norte. _

Recursos para educação

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou operação de R$ 54,8 milhões, com recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), para investimentos em iniciativas para expansão e melhoria da qualidade das redes e dos serviços de telecomunicações em cerca de 60 municípios gaúchos. Uma das iniciativas deve beneficiar cerca de 30 mil alunos de 105 escolas de 34 municípios. Os recursos serão usados para instalar redes internas nesses estabelecimentos.

Outra iniciativa deve conectar oito dessas escolas ainda não atendidas, segundo o Painel Anatel. Localizada em oito municípios, a conexão será possível pela construção de rede de fibra óptica com 184,4 quilômetros. Está prevista, ainda, a manutenção da conectividade por, no mínimo, 24 meses. _

INFORME ESPECIAL