domingo, 20 de setembro de 2026

19/09/2026 - 05h30min
Fabrício Carpinejar

Cair sete vezes, levantar oito: o ouro que pode reconstruir o Sakae's

Aquele endereço acompanhou quase toda a minha vida; agora, quero vê-lo renascer das cinzas pelas mãos de quem também guarda essa história. É rápido e você não perde nada importante. O restaurante era um ano mais novo do que eu – o restaurante japonês mais antigo de Porto Alegre, um dos mais antigos do país.

Aquele endereço – número 690 da rua Castro Alves – acompanhou diferentes fases da minha vida, de menino a adolescente, de adolescente a homem feito. Fui filho, fui marido, fui pai em suas mesas. Decorei degrau por degrau da escada para o segundo piso. As cortinas, as janelas coloridas, o vaivém dos garçons.

A proprietária Sakae Suzuki, hoje com 87 anos, a idade da minha mãe, abriu o Restaurante Sakae’s em 1973, quando ninguém tinha o hábito de comer sushi na capital. Seu pioneirismo nos ensinou a usar o hashi.

Tratava-se de um negócio familiar, mas, pela sua longevidade, transformou-se em um patrimônio da nossa cultura gastronômica.

Na tarde de terça-feira (15), por causas ainda desconhecidas, o Sakae’s acabou destruído por um incêndio. O incidente não deixou feridos, porém acarretou danos materiais que reduziram a cinzas o sonho de várias gerações.

“Vamos reerguer esse cantinho do Japão em Porto Alegre”: família do Sakae’s busca reconstruir restaurante após incêndio; veja como ficou  “Vamos reerguer esse cantinho do Japão em Porto Alegre”: família do Sakae’s busca reconstruir restaurante após incêndio; veja como ficou

O expediente não havia iniciado. Os funcionários se preparavam para o atendimento no turno da noite, previsto para as 19h.

Como o imóvel possuía boa parte de sua estrutura em madeira, o fogo se alastrou com voracidade, impedindo que os bombeiros controlassem as chamas em tempo hábil. Não arderam apenas o telhado, o interior e os móveis. Ardeu o legado irrecuperável de um lar. Todo objeto trazia uma história desprovida de cópias.

Praticamente tudo o que se encontrava dentro foi perdido. Salvaram-se algumas relíquias, recolhidas no desespero. Desapareceram os únicos registros do avô, as fotos nas paredes, as louças raras e a prataria.

O ponto exibia o status de uma embaixada japonesa informal. Fazia dueto, simbolicamente, com o Recanto Oriental do Parque da Redenção, caracterizado por pontes de pedra, bancos de jardim, um pequeno lago e uma estátua de Buda.

Sakae Suzuki veio ao Brasil ao lado do marido, com o qual teve três filhos. Sem falar português, ela se comunicava pelos sabores, pelas suas receitas ancestrais.

O comércio não contava com seguro. Diante da dimensão da avaria, a família criou uma vaquinha online para arrecadar recursos e tentar reconstruir o estabelecimento. A soma almejada é de R$ 800 mil. Até o momento, angariou-se 10% do valor.

Resta-nos buscar inspiração no kintsugi, a arte japonesa de reparar a cerâmica quebrada sem esconder suas cicatrizes, realçando-as com ouro. Cada contribuição será um pouco dessa liga: o ouro da empatia.

Existe um provérbio japonês sobre a resiliência: “nana korobi ya oki” – “cair sete vezes, levantar-se oito”. Perto dos noventa anos, Sakae Suzuki terá de recomeçar pela oitava vez. Mas algo mudou: ela também se tornou gaúcha.

Não está mais sozinha. Muitas mãos agradecidas irão reerguê-la.

19 de Setembro de 2026
COMPORTAMENTO - COMPORTAMENTO

Rotina de acordo com o ciclo menstrual

O "cycle syncing" viralizou nas redes sociais, mas especialistas alertam para evidências científicas sólidas

Uma tendência vem ganhando força nas redes sociais: mulheres recomendando a organização de vida de acordo com as fases do ciclo menstrual. A ideia de "não planejar o mês como um homem" é uma das bases do cycle syncing (sincronização do ciclo), prática que promete maior produtividade e bem-estar a partir de adaptações no dia a dia - desde o trabalho até o treino físico - conforme as etapas do ciclo menstrual.

A tendência tem adeptas em várias partes do mundo. No TikTok, por exemplo, são mais de 112 milhões de publicações fazendo menção à hashtag #cyclesyncing. A prática parte da premissa biológica de que as alterações hormonais ao longo do ciclo podem influenciar diferentes aspectos da vida. No entanto, de acordo com a ginecologista Maria Celeste Osório Wender, existe pouca evidência científica sobre cycle syncing, o que impossibilita a indicação profissional desta técnica.

A especialista também ressalta que as variações entre ciclos não são percebidas da mesma forma por todas as mulheres. Além disso, a mesma paciente pode apresentar flutuações entre ciclos, dificultando regras fixas.

Segundo Maria Celeste, estudos mostram que o tempo médio de diferença nas atividades entre as fases do ciclo é de apenas 12 minutos por dia, um impacto que pode ser influenciado por outros fatores como estresse, falta de sono e cuidado com os filhos.

Pesquisas indicam que a fase lútea tardia, nos dias que antecedem a menstruação, é a que mais aparece associada a maior cansaço e menor disposição, enquanto a fase folicular próxima à ovulação pode coincidir com maior disposição física. Também há sinais de pequenas variações na força e na capacidade aeróbica ao longo do ciclo.

No entanto, os efeitos variam de acordo com cada pessoa - e podem alternar em diferentes ciclos da mesma paciente -, o que impede a formulação de uma rotina padrão de como trabalhar ou qual exercício fazer em cada fase do ciclo menstrual, como é propagado pelo cycle syncing.

- Essas recomendações populares funcionam como sugestões úteis para algumas mulheres que percebem um padrão cíclico claro, mas não devem ser prescritas universalmente - ressalta a ginecologista. 

Fases do ciclo menstrual

Para pessoas que menstruam e que não usam contraceptivos hormonais, o ciclo envolve as etapas folicular, lútea e de ovulação, que podem variar em duração e efeitos em cada pessoa.

Fase folicular inicial (menstruação): começa com o sangramento menstrual, provocado pela queda de estrogênio e progesterona. A queda estimula a produção do hormônio folículo-estimulante (FSH), que estimula o crescimento de novos folículos nos ovários para o próximo ciclo

Fase folicular tardia: nesta etapa, um folículo se torna dominante e passa a secretar estrogênio. O pico deste hormônio prepara o corpo para a ovulação

Ovulação: é o momento da liberação do óvulo maduro, acompanhado por picos dos hormônios estradiol, LH e FSH

Fase lútea: após a ovulação, o que restou do folículo se transforma no chamado "corpo lúteo", que passa a produzir progesterona e um novo pico de estrogênio

Fase lútea tardia (pré-menstrual): caso não ocorra fecundação, o corpo lúteo regride e os níveis de estrogênio e progesterona caem, o que vai desencadear a menstruação e o novo ciclo

Autoconhecimento ou mais uma cobrança?

Para Cibele Cheron, professora de Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é preciso cautela para que esse método não se torne uma cobrança adicional na rotina das mulheres.

Existe um risco real de que o autocuidado vire uma quarta jornada. A mulher já trabalha fora, trabalha em casa, cuida de todo mundo, e agora precisa gerenciar o próprio ciclo como uma planilha de metas. Se o resultado da prática é a mulher extraindo mais de si mesma para caber no mesmo calendário, houve intensificação do trabalho - analisa a professora.

Ela também ressalta que a possibilidade de adaptar a rotina não está disponível para todas as mulheres. Uma profissional com autonomia sobre os próprios horários, por exemplo, pode reorganizar compromissos de acordo com sintomas. Já quem trabalha em uma rotina rígida, com horários e tarefas determinados por terceiros, dificilmente terá a mesma liberdade.

Por isso, para Cibele, a discussão sobre o ciclo também deve servir para questionar as próprias condições de trabalho, em vez de buscar mais eficiência dentro delas.

Funciona?

Acompanhar o próprio ciclo pode ser útil para identificar padrões individuais e desenvolver autoconhecimento. O que não tem respaldo científico é transformar essas observações em um protocolo universal, determinando como se deve trabalhar, comer, treinar ou socializar em cada fase do ciclo.

A recomendação, portanto, é a individualização para evitar frustração com resultados ou sobrecarga. O ideal é observar o que acontece com o próprio corpo e não seguir uma tabela pronta encontrada nas redes sociais.

Segundo a cientista política Cibele Cheron, a ideia também pode inspirar discussões sobre a organização da sociedade e o lugar da mulher nela.

- O calendário que organiza escolas, empresas e órgãos públicos foi construído para um corpo universal, suposto sem variação interna, sem gestação e sem interrupção. A formulação mais precisa da sociedade seria: todo mundo planeja o tempo a partir do corpo, das crianças, do sono, da saúde. O que existe é uma hierarquia sobre quais corpos podem aparecer no planejamento coletivo, e o corpo que menstrua está entre os que foram obrigados ao silêncio e à invisibilidade - afirma.

Monitoramento saudável

Quem deseja acompanhar o próprio ciclo menstrual para identificar padrões individuais e desenvolver autoconhecimento, sem se prender em regras fixas, a ginecologista Maria Celeste recomenda acompanhar o ciclo por pelo menos dois ou três meses antes de tirar conclusões. Nesse período, anotar informações como humor, energia, dor, sono e data da menstruação. A partir desses registros, identificar padrões e fazer pequenas adaptações na rotina, conforme indicação médica.

A especialista ressalta, porém, que sintomas intensos ou incapacitantes não devem ser considerados parte normal do ciclo: cólicas fortes, alterações acentuadas de humor, sangramento anormal ou sintomas que prejudicam a qualidade de vida devem ser avaliados por um profissional de saúde. 

19 de Setembro de 2026
COM A PALAVRA - Mariana Enríquez

Escritora argentina

"O terror que me interessa fazer está relacionado com o social"

A escritora argentina Mariana Enríquez, 52 anos, se notabilizou por sua produção relacionada ao terror. Neste ano, dois títulos dela chegaram ao Brasil pela Editora Intrínseca. Alguém Caminha Sobre o Seu Túmulo, obra de não ficção, traz ensaios sobre cemitérios ao redor do mundo. Já Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria é uma coletânea de contos de terror que flertam com o realismo.

William Mansque

Em Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria, os personagens (humanos ou fantasmas) convivem com problemas muito concretos como pobreza, violência, desigualdade, medo e exclusão. O terror funciona para você como uma forma de falar daquilo que uma sociedade prefere não olhar?

Esses contos em particular são de gênero ou terror, mas o que uso é um material realista. O gênero como tal deve ser traduzido da mesma maneira que qualquer outro. Suponhamos o policial. Se pensar no romance policial nórdico, é um modelo que não podemos transferir como escritores para a América Latina porque seria absurdo. 

Sei que é terrível o que vou dizer, mas nós estamos acostumados a chacinas, a crimes políticos, ao crime do narcotráfico e a muita violência institucional. Esse modelo tão analítico e psicológico do crime não funciona para nós. O nosso crime é necessariamente político. Com o terror é um pouco igual. O terror sempre, de alguma maneira, falou dos medos da sociedade onde o escritor estava. No meu caso, me interessa o terror relacionado com as fobias de uma sociedade.

E aqueles que são pessoais?

Também. Em Um Lugar Ensolarado Para Gente Sombria, tem um conto de body horror (terror corporal) sobre uma mulher que faz uma operação ginecológica (Metamorfose). Se certas questões relacionadas ao corpo da mulher e ao envelhecimento da mulher não nos dessem tanto medo ou repúdio, se não fossem naturais como deveriam ser, esse medo de envelhecer seria talvez mais pessoal, não somente algo social. 

Então, o terror é o meu gênero. E o terror que me interessa fazer está relacionado com o social, com o real e com um diálogo com os medos que temos como sociedade. Se quisesse escrever realismo, eu o faria. Mas quero escrever no gênero, e o material para isso como escritora latino-americana, com os traumas da sociedade e a minha maneira de perceber a realidade, é este.

No conto Metamorfose, a protagonista começa a olhar para o seu corpo de outra maneira porque também muda a forma como o mundo a enxerga. Quanto da identidade, especialmente para as mulheres, é determinada pelo olhar dos outros?

Muito. É uma fraqueza terrível. Todas as mulheres passam por isso. Quanto mais rápido pudermos falar sinceramente a respeito, melhor. O que acontece com a mulher na menopausa e para além disso? Pensando nos nossos corpos no capitalismo, somos as mulheres que mais podem comprar cosméticos, tratamentos e roupas. 

Só que quase nada de roupas ou de cosméticos são feitos para nós. Parece uma futilidade, mas é uma questão muito reveladora, pois te aponta o que você não é o tempo todo. Quanto mais velha eu fico, mais vontade tenho de me ver melhor. Não importa se isso é uma insegurança ou uma futilidade social, é um fato. Existe uma ideia totalmente perversa de envelhecer com elegância, como se isso fosse algo que se pudesse se fazer no meio de hormônios, doenças, depressão, de montões de coisas.

Em Alguém Caminha Sobre o Seu Túmulo, você visita tumbas que revelam tragédias de povos originários e presos políticos. Você sente que os cemitérios funcionam como o arquivo de postergados e esquecidos pela história oficial?

Os cemitérios funcionam como um arquivo histórico material, mas acho que os esquecidos e os marginalizados da sociedade, de alguma maneira, também ocupam o lugar de esquecidos e marginalizados nos cemitérios. 

O túmulo do empresário e latifundiário José Menéndez (localizado no histórico Cemitério Municipal Sara Braun, em Punta Arenas), responsável por muitas chacinas na Patagônia, é um castelo. Há protestos, em muitas ocasiões, militantes entram e jogam tinta vermelha e tal, mas é um jazigo que simboliza um lembrete: uma família que ainda é poderosa. 

Nos cemitérios, as classes sociais e as condições de centralidade se mantêm. Inclusive, em qualquer cemitério grande, vemos na entrada os majestosos túmulos aristocráticos e, depois, isso se reduz. De alguma maneira, sim, é um arquivo e é uma reprodução quase da ordem.

Voltando ao Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria. No conto Meus Mortos Tristes, que inspirou uma minissérie da Netflix, há uma tensão entre vizinhos que exigem segurança, mas, ao mesmo tempo, há a violência que eles mesmos estão dispostos a aplicar. Havia interesse em mostrar como uma sociedade pode se transformar naquilo que diz combater?

Acho que um dos grandes temas (do conto) é como nos relacionamos. O tema da segurança urbana é muito complexo. Muito mais do que quando escrevi aquele conto, pois ali se cruzam muitíssimas narrativas. O medo do outro, do pobre e do diferente. Enxergá-lo sempre como um criminoso por sua cor, por sua origem, etc. 

A ideia de que é sempre uma ameaça. E nesse âmbito, digamos, especialmente as classes médias se tornam muito conservadoras e se aproximam de atitudes fascistas. Só que, ao mesmo tempo, essas classes médias também estão sendo corroídas pela falta de trabalho, pela brutalidade do neoliberalismo que já não lhes permite uma sensação de segurança. Rapidamente, passam a ver insegurança em toda parte. 

Há casos que é legítimo o medo de muita gente. Produz-se ali um momento muito tenso em que se enfrentam o ideológico, o narrativo e o político, onde os vulneráveis sempre ficam como alvo de acusações. Às vezes a gente sente que as pessoas se esquecem de que temos que viver todos juntos.

Quanto da Mariana escritora nasceu da cultura da música e do fanatismo?

Estudei jornalismo porque queria ser jornalista de rock. Eu lia muito jornalismo de rock naquela época, e era o que queria fazer: entrevistar bandas, fazer parte daquele mundo. Foi nessa fase que escrevi meu primeiro livro nos anos 1990, que é Bajar Es Lo Peor. Com o tempo, a literatura foi superando em muito o jornalismo. Esse lado obsessivo e fanático (com música) é muito importante na minha vida. É uma fonte de inspiração, é onde me sinto mais confortável. Gosto tanto quanto a literatura. 

O fenômeno do ídolo e da obsessão do fã são elementos que aparecem na minha escrita porque me interessa e vejo um certo paganismo ali. É uma coisa que se cruza um pouco com a minha ideia do sobrenatural, ou seja, vejo essa devoção como uma nova forma do panteão contemporâneo. 

 

Quando 2027 chegar

Seja quem for o próximo inquilino do Palácio do Planalto, a várzea a que se assistiu na sessão de terça-feira passada no STF terá sido apenas o prólogo de uma crise institucional que já está contratada para 2027. Não importa quem envergue a faixa presidencial, o próximo presidente terá de lidar com um choque de poderes ou com o desencadeamento de uma onda de protestos nas ruas, caso a vassoura do STF siga varrendo para debaixo do tapete favores que tisnam alguns de seus membros.

Na hipótese de Lula ser reeleito, é pouco provável que atue pela depuração da Corte, que deveria começar por Alexandre de Moraes, o mais encalacrado no escândalo do Master. Como se viu na terça-feira, Flávio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula, é o líder do bloco da marmelada suprema, em jogral com Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula, e o hoje convertido antilavajatista Gilmar Mendes.

Com as blindagens na Corte, as atenções se voltarão para o Senado, o único com poder constitucional de destituir um membro do STF. Mas, para não deixar dúvidas sobre o acordão, o presidente Davi Alcolumbre, em nome da própria sobrevivência, acertou uma trégua com Lula em inacreditável jantar patrocinado por ninguém menos que Alexandre de Moraes. 

Se Alcolumbre for reconduzido em 1º de fevereiro, quando tomarão posse os senadores eleitos em outubro, os pedidos de impeachment de ministros do STF seguirão engavetados. Aí, como ocorreu nos afastamentos de Collor e Dilma, não será surpresa se eclodir nas ruas a indignação represada pela turma do abafa. É crise garantida.

Na hipótese de Flávio Bolsonaro ser eleito, diante de sua defesa do impeachment de Alexandre de Moraes, o choque deve começar antes mesmo da posse. Agarrado à tese da conspiração política - a única que lhe resta depois do flagra promíscuo com Daniel Vorcaro -, Moraes precisa seguir togado para não correr o risco de fazer companhia a quem mandou para a cadeia. 

Se continuar no cargo, Alexandre de Moraes deverá ser o próximo presidente do STF, com posse em setembro de 2027. Aí teríamos na Presidência da República um Flávio Bolsonaro, hoje investigado pelo apoio de Vorcaro ao filme Dark Horse, e na presidência do STF um ministro que se recusa a ser investigado, o que é uma contradição para quem jura inocência. A pororoca entre poderes e a crise são garantidas.

Há duas formas de o país ser pacificado, e o próximo presidente - seja quem for, mesmo uma improvável terceira via - poder governar com razoável tranquilidade. Seria a renúncia ou o afastamento pelo STF de pelo menos um ministro atrapalhado com o Master. Mas essa hipótese foi soterrada na terça-feira, quando metade da Corte decidiu arrastar o país para a crise de 2027. 

MARCELO RECH

Ministros, filhinhos de papai e esposas

A crise no Supremo Tribunal Federal subverteu o conceito de esposa-troféu, aquela mulher cuja principal função no relacionamento é servir como símbolo de status e atratividade física para o marido, geralmente mais velho e bem-sucedido financeiramente. Esposa-troféu de ministro do Supremo - ouro, prata e bronze - é advogada que consegue bons contratos por ser quem é. Viviane Barci de Moraes, até aqui troféu ouro, tinha um contrato de R$ 131 milhões com o Banco Master, valor que chocou advogados renomados pelo valor exorbitante - eram R$ 3,6 milhões por mês para atuar em órgãos de interesse de Daniel Vorcaro. Ninguém acredita que tenha sido seu notório saber jurídico a motivação de Vorcaro para contratar a esposa do ministro Alexandre de Moraes.

Roberta Rangel, agora ex-esposa de Dias Toffoli, também advogou para Vorcaro quando era associada ao escritório Warde Advogados. Relatório da Polícia Federal diz que a relação profissional remonta a dezembro de 2020. Roberta foi casada com Toffoli por 12 anos, mas o casal se desfez em 2025. Hoje separada do ministro Gilmar Mendes, a advogada Guiomar Feitosa foi procurada por Daniel Vorcaro em 2025. 

O banqueiro foi pessoalmente ao escritório Sérgio Bermudes, em Brasília, tentando contratar os serviços da banca da qual ela é sócia-dirigente, sem mencionar um processo específico. Guiomar desconfiou que ele só queria usá-la para se aproximar de Gilmar e a negociação não avançou. Parentes deveriam ser impedidos de advogar nos tribunais em que pais, mães, maridos ou esposas são juízes. Parece simples, mas quando a restrição foi discutida, não emplacou.

Herdeiros

No Judiciário, Vorcaro não investiu apenas nas esposas advogadas e nos maridos ministros, oferecendo mimos como noitadas de festa, bebida cara e charutos. Com seu faro de corruptor-geral da República, tratou de cortejar os "filhinhos de papai" - herdeiros de escritórios e de sobrenomes como Fux, Nunes Marques e Moraes. Os relatórios da Polícia Federal são reveladores desse método de cooptação, com contratos indiretos e tentativas de aproximação.

Aos 26 anos, recém-formado, Kevin Nunes Marques, filho do ministro Nunes Marques, virou um prodígio da advocacia, faturando mais do que muitos advogados de larga experiência. Essas relações familiares que abrem caminho explicam por que a ministra Cármen Lúcia se definiu como "uma velha avulsa". Sem marido e sem filhos, passou incólume pela lábia de Vorcaro, com quem dificilmente teria assunto em uma conversa de bar. Ou alguém consegue imaginar o banqueiro falando de Guimarães Rosa, Affonso Romano de Sant?Anna ou João Cabral de Melo Neto com a ministra? _

aliás

O ministro Gilmar Mendes se enquadra na definição do poeta José Hernádez, em La vuelta de Martín Fierro: "El diablo sabe por diablo, Pero más sabe por viejo". O decano recebeu Daniel Vorcaro a pedido de um ex-cunhado contratado pelo banqueiro e identificou nele um picareta engomadinho, tentando cooptá-lo para votar a favor dos seus interesses em uma ação milionária no STF. Gilmar disse que Vorcaro parecia mais um bicheiro do que um banqueiro.

Manuela convoca militância em meio à crise no Supremo

A candidata ao Senado pelo PSOL, Manuela D?Ávila, convocou uma manifestação contra a extrema direita e reuniu dezenas de militantes no Largo Zumbi dos Palmares, em Porto Alegre, na sexta-feira. Manuela estava acompanhada do ex-governador Olívio Dutra, de Henrique Fontana, seu suplente, e de Tamyres Filgueira, suplente de Paulo Pimenta (PT), que também concorre ao Senado. A mobilização ocorre dias depois de o Supremo Tribunal Federal protagonizar um dos piores episódios da crise que enfrenta. A preocupação da candidata recai principalmente sobre a decisão das eleições para o Legislativo.

- Não existe eleição ganha. Construiremos a nossa vitória - afirmou Manuela. _

Marchezan tentou derrubar emendas parlamentares

Quando a Câmara de Porto Alegre inventou as emendas impositivas ao orçamento, em agosto de 2019, o então prefeito Nelson Marchezan estrilou. A tentação rimava com corrupção. A emenda à Lei Orgânica, de autoria do então vereador Cássio Trogildo (do antigo PTB) foi aprovada e promulgada pela própria Câmara. Marchezan ainda tentou o caminho da Justiça, mas perdeu.

Com a prisão do vereador Giovane Byl e de outras três pessoas, o ex-prefeito relembra os alertas que fez à época. Agora uma pergunta que precisa ser respondida pela prefeitura: como é feita a fiscalização da aplicação do dinheiro das emendas? A mesma pergunta vale para o governo estadual. As emendas foram instituídas na Assembleia pelo governador Eduardo Leite e não há, até aqui, denúncias de corrupção. Mas, diante da operação do Ministério Público que constatou desvio de quase R$ 2 milhões na Câmara, será preciso redobrar a atenção com o destino do dinheiro. _

Juliana esconde Lula na campanha e incomoda PT

Em público, a relação entre Juliana Brizola e seus parceiros do PT vai de vento em popa. Nos bastidores, há um desconforto crescente com a invisibilidade do presidente Lula na campanha de Juliana e mesmo dos candidatos do PDT. O mais recente motivo de incômodo é a não utilização das imagens do comício em Porto Alegre, realizado há uma semana, com a presença de Lula.

As imagens têm sido exploradas apenas pelos candidatos da coligação ao Senado, Manuela D?Ávila (PSOL) e Paulo Pimenta (PT). Juliana passou toda a campanha dizendo que a aliança com o PT é a prova da sua capacidade de dialogar, mas sempre ressalta que, se for eleita, a condução do governo será dela. Em painéis e encontros com setores que têm divergências históricas com o PT, Juliana faz questão de dizer que a aliança é estratégica.

O PT também resistiu, porque boa parte dos seus filiados preferia ter Edegar Pretto como candidato. Por pressão de Lula, que queria um palanque único no Rio Grande do Sul, Pretto aceitou ser vice, mas líderes petistas reclamam que ele está sendo deixado de lado e, na propaganda eleitoral apareceu em apenas dois programas até aqui.

Durante o comício, entretanto, Edegar acabou sendo escanteado em determinados momentos até por Lula, que tratou de exaltar Manuela, Pimenta e Juliana.

Outra fonte de reclamação tem a ver com os candidatos a deputado estadual e federal do PDT que não associam seus nomes a Lula nem a Pimenta e Manuela, numa tentativa de conquistar votos de eleitores de Flávio Bolsonaro e dos candidatos da direita ao Senado. _

Leite confirma pagamento de 14o salário a professores

O contracheque dos professores e servidores de escolas que atingiram as metas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) virá mais gordo no dia 30 de setembro. O governador Eduardo Leite confirmou que vai pagar na próxima folha o bônus do Programa de Reconhecimento da Educação Gaúcha, o 14o salário, para professores e servidores de todas as escolas que atingiram as metas.

A medida contempla mais de 65 mil professores e servidores da rede estadual de ensino, com um montante total de aproximadamente R$ 235 milhões. _

POLÍTICA E PODER 

19 de Setembro de 2026
EM FOCO - Leticia Mendes -  Andressa Xavier - Rosane de Oliveira

EM FOCO

Operação do MP investiga fraude de R$ 2 milhões em projetos financiados por emendas parlamentares na área da saúde. Além do parlamentar da Câmara de Porto Alegre Giovane Byl, do Podemos, outras três pessoas foram presas

Vereador é preso sob suspeita de desvio de verba

Além dele, foram detidos o assessor da bancada do Podemos Evaristo Mutti e dois ex-dirigentes de uma entidade investigada, Lissauer Ferreira Dias e Alan Silva da Costa, que é advogado. Foram cumpridos também nove mandados de busca e apreensão na Capital e em Imbé, no Litoral Norte.

O grupo formado pelos investigados teria esquema para desviar recursos que deveriam ser destinados para executar projetos financiados por nove emendas impositivas na área da saúde. Conforme a apuração, o valor soma R$ 2 milhões.

No esquema, segundo o MP, a entidade identificada como Instituto de Estudos e Incentivo a Novas Tecnologias da Saúde, Políticas Sociais e Soluções Ambientais e Digitais (Inovatech RS) receberia os valores. As quantias eram inicialmente depositadas pelo Fundo Municipal de Saúde nas contas bancárias específicas de cada parceria.

Em seguida, os recursos seriam retirados dessas contas e transferidos para outra, de livre movimentação, do Inovatech RS. Conforme o MP, por não estar vinculada a um termo de fomento específico, essa conta bancária não era submetida ao mesmo controle. A investigação apontou que, a partir dessa conta central do Inovatech RS, os recursos seriam distribuídos a pessoas físicas e jurídicas relacionadas aos investigados.

O MP destaca que o Inovatech RS mudou de direção em maio, está atuando de forma regular e colabora com a investigação. Segundo o MP, quando foram solicitados extratos bancários das contas, o grupo teria feito empréstimos em nome da entidade para que parte dos recursos retornasse às contas fiscalizadas. O objetivo seria aparentar a aplicação regular das verbas públicas.

A operação é coordenada pela promotora de Justiça Roberta Brenner de Moraes, da 8ª Promotoria de Defesa do Patrimônio Público de Porto Alegre, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e da Brigada Militar. Por envolver um advogado, a Ordem dos Advogados do Brasil acompanhou a operação.

O Podemos afirmou que "respeita a atuação das autoridades responsáveis pela investigação", mas disse entender "ser fundamental preservar o devido processo legal, o direito à ampla defesa e a presunção de inocência, não cabendo conclusões sobre responsabilidades enquanto a investigação estiver em andamento". A assessoria de Byl informou que ele "é inocente das acusações atribuídas". _

Atuação discreta no parlamento e influência na prefeitura

Fábio Schaffner

O vereador Giovane Byl (Podemos) é uma das principais apostas do partido para deputado estadual. Atualmente no segundo mandato, Giovane Luiz de Lima Junior foi o sexto mais votado para a Câmara de Vereadores em 2024, com 12.115 votos.

Com forte atuação em comunidades da periferia, ele praticamente quadruplicou a votação, já que em 2020 havia conquistado 3.440 votos pelo então PTB. Sua estreia na política ocorreu em 2016, quando concorreu a vereador pelo Solidariedade. Na ocasião, ficou de segundo suplente e chegou a assumir o mandato em curtos períodos.

Aos 37 anos, casado e com dois filhos, Byl nasceu no bairro Bom Jesus, na zona leste da Capital, e cresceu no bairro Mario Quintana, na Zona Norte, suas maiores bases eleitorais.

A infância em bairros violentos marcou sua trajetória. Skatista, Byl investiu no esporte como plataforma de inclusão social, à frente da ONG Seja Livre Skate. Cantor e compositor, também é ligado ao movimento hip hop. Giovane não possui formação de Ensino Superior, apenas concluiu o Ensino Médio. Influente na prefeitura, Byl controla a subprefeitura do bairro Bom Jesus, onde coordenou pessoalmente ações durante a pandemia e na enchente de 2024.

Na Câmara, é considerado um parlamentar discreto. Não participa dos debates mais intensos e raramente usa a tribuna. Entre os 54 projetos de lei propostos nos dois mandatos, a maioria dá nome a ruas e logradouros.

Alinhado à cúpula do Podemos, Byl é considerado herdeiro político do secretário de Governança de Porto Alegre, Cássio Trogildo. O gabinete de Byl, onde o Ministério Público cumpriu mandado de busca e apreensão nesta sexta-feira, pertencia anteriormente a Trogildo, de quem ele também herdou os cabos eleitorais e a estrutura partidária. Na atual campanha, recebeu até agora R$ 226 mil do Podemos para o financiamento da candidatura. 

19 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

A ofensiva de Donald Trump para renomear territórios

Fumaça de churrasco é vista de longe

Em novembro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, completará dois anos à frente da Casa Branca. Neste ínterim, o republicano já rebatizou, com o próprio nome, diversos órgãos, departamentos, prédios e programas governamentais. Outro alvo do americano tem sido renomear espaços geográficos - o movimento mais recente envolve a proposta de trocar o nome do Estado do Novo México para "Nova América".

A medida, contudo, não é nova. Em janeiro de 2025, Trump assinou uma ordem executiva para que o governo dos EUA passasse a chamar o Golfo do México de "Golfo da América". Na justificativa, alegou razões de justiça, afirmando que o novo nome seria mais "bonito".

A mudança teve efeito prático apenas em território americano, sem adesão obrigatória de outros países. Aplicativos de navegação e GPS, como Google Maps e Apple Maps, passaram a exibir a nova denominação para usuários nos EUA.

Mais recentemente, em agosto de 2026, em meio a uma crise diplomática e tarifária com o Canadá, Trump assinou outro decreto estabelecendo que o Lago Ontário passe a se chamar "Lago América" nos EUA. A medida seguiu a mesma lógica restrita ao público interno: nos mapas e aplicativos americanos, o nome mudou; no Brasil, por exemplo, o local continuou aparecendo com a grafia dupla ou original.

Em setembro, Trump sugeriu renomear o Estreito de Ormuz para "Estreito de Trump". A declaração ocorreu no contexto do conflito entre Washington e Teerã, no qual os dois países disputam a navegação e a segurança da passagem estratégica pelo Oriente Médio.

Além do estreito, o presidente voltou a defender a alteração do Estado do Novo México para "Nova América" durante discurso no feriado do Dia do Trabalho (Labor Day), associando a ideia às tensões nas negociações comerciais com o México. Na ocasião, ele ainda sinalizou que pode mirar oceanos:

- Se você parar para pensar, já temos um golfo e temos um lago. Agora, tudo de que precisamos é de um oceano. Talvez tenhamos de mudar o nome do Atlântico e do Pacífico. Talvez nós os mudemos - declarou a jornalistas. _

Uma das tradições do gaúcho é o churrasco, e em setembro não seria diferente. Agora, pense nos 236 piquetes instalados no Acampamento Farroupilha em Porto Alegre: é natural que toda essa quantidade de carne sendo assada e consumida gerasse uma "nuvem" de fumaça que poderia ser vista ao longe.

Na imagem acima, vista de um edifício da Cidade Baixa, é possível observar a névoa formada em cima do evento. O odor de carne assada também pode ser sentido nas zonas centrais da cidade.

Mas você já parou para pensar em quanto churrasco é assado durante o mês no Acampamento Farroupilha, em Porto Alegre?

De acordo com a GAM3 Parks, responsável pela administração da concessão do Parque Harmonia, no Mercado Farroupilha - estabelecimento dentro do acampamento -, durante a semana (segunda a quinta-feira), são vendidos cerca de 700 quilos de costela por dia.

Aos fins de semana (sexta-feira, sábado e domingo), o número aumenta para 1,1 tonelada. O índice não considera outros cortes de carne bovina nem o que é levado de fora para o parque.

Somando outros itens de churrasco, como salsichão, linguiça, pão de alho e outros cortes de carne, o número durante a semana aumenta para 1,2 tonelada e, aos fins de semana, para 1,6 tonelada. Cacetinhos? O número varia de 2,5 mil a 3 mil por dia. _

Republicano já rebatizou, com o próprio nome, diversos órgãos, departamentos, prédios e programas

Centro integrado no Mario Quintana

PUCRS recebe líderes de 19 países

O espaço vai integrar três frentes hoje inexistentes ou insuficientes na região: saúde; um Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, com oficinas continuadas para crianças e adolescentes de seis a 17 anos; e um estudo científico que acompanhará por até 15 anos os indicadores de qualidade de vida e desenvolvimento socioeconômico da comunidade.

Serão 300 vagas distribuídas em 12 oficinas e workshops, entre elas contação de histórias, robótica e programação, judô, teatro, dança clássica, hip-hop, orientação vocacional e preparação para o mundo do trabalho, cidadania e direitos humanos.

A programação inclui ainda rodas de conversa sobre saúde mental, nutrição, sexualidade e cuidados parentais, com participação das famílias nas atividades de fortalecimento de vínculos. _

A PUCRS recebeu, nos últimos 10 dias, 64 lideranças maristas de 19 países. O evento, que se encerrou na sexta-feira, foi a etapa presencial da terceira edição do Programa de Formação de Liderança Servidora e Profética.

Realizada pelo Instituto Marista em parceria com a universidade, a formação reúne gestores de diferentes frentes de missão em duas semanas de atividades presenciais, após uma etapa online com 11 disciplinas.

Durante a imersão, que se iniciou no dia 8 de setembro, os participantes aprofundam os conhecimentos e conhecem diferentes realidades de atuação da Rede Marista nas áreas de educação, saúde e assistência social, além de participarem de atividades sobre gestão, espiritualidade e missão. 

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

17 de Setembro de 2026
ROGER LERINA

A batalha da memória

Um dos mais belos títulos do cinema contemporâneo, Nostalgia da Luz (2010) olha para o céu e a terra, perscruta o futuro e mira o passado a fim de especular sobre os caminhos possíveis de um país e seu povo. Patricio Guzmán, realizador desse poético filme-ensaio que entrelaça a memória e o legado da história recente do Chile com questionamentos mais amplos sobre a passagem da humanidade pela Terra, morreu na terça-feira em Paris, aos 85 anos. 

Ganhador de mais de 40 prêmios em festivais internacionais como Cannes e Berlim, o cineasta chileno registrou a ascensão do governo socialista de Salvador Allende no longa O Primeiro Ano (1972) e o golpe de estado militar liderado pelo general Augusto Pinochet na monumental trilogia A Batalha do Chile (1975 - 1979), considerado um dos melhores e mais completos documentários da história. (As três partes podem ser assistidas na plataforma de streaming Mubi.)

Ao lado de O Botão de Pérola (2015) e A Cordilheira dos Sonhos (2019), Nostalgia da Luz forma um tríptico de filmes que revisitam recorrentes temáticas sociais e políticas características da obra do diretor com uma inventiva abordagem formal - um tipo híbrido de cinema que mistura investigação, autobiografia, poesia, documentário, divagação e até drama. 

Nostalgia da Luz começa como se fosse um documentário científico, mostrando telescópios, observatórios astronômicos e estrelas. Já de partida, no entanto, a narração de Guzmán propõe caminhos paralelos ao acrescentar lembranças pessoais e comentários sobre o golpe que mergulhou o Chile nas trevas. 

As conexões vão se esclarecendo: graças à baixíssima umidade do ar, o deserto do Atacama é um dos melhores lugares do planeta para o acompanhamento dos astros no céu; já o isolamento da região também serviu para os militares criarem um campo de prisioneiros durante a ditadura, aproveitando as instalações de uma mina de salitre abandonada.

O filme mostra que, ao lado de sofisticadas instalações que buscam desvendar mistérios sobre a origem do universo, mulheres esquadrinham pacientemente a imensidão desértica atrás de pistas e fragmentos de ossos capazes de indicar o paradeiro de maridos e parentes desaparecidos políticos, que podem estar enterrados em valas comuns. 

"O que mais me interessa é a memória. Me interessa lutar contra a amnésia do Chile, o desejo de aparentar ser um grande país, o que também é, mas onde as diferenças sociais são enormes", dizia Guzmán. Uma lição que serve também ao Brasil, que insiste em esquecer a própria história. 

roger.lerina@gmail.com

ROGER LERINA

17 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

Omissão do STF joga foco no Senado

O papelão de terça-feira no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) demonstra que parte dos ministros se acha membro de uma classe especial de brasileiros que não deve satisfações de nada a ninguém. Integrar essa categoria de seres superiores, pelo jeito, faz com que devam ser imunes a qualquer investigação, ainda que sobrem razões para terem os atos analisados pelas suspeitas de crimes. 

Esse foi o recado da sessão que deveria decidir pela abertura ou não de um inquérito para apurar a natureza da relação entre Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Diante da estratégia da ala pró-Moraes de protelar a discussão e criar alvoroço, o mérito não foi apreciado. O ministro Flávio Dino pediu vista e o caso pode levar até 90 dias para voltar a ser debatido.

A partir da resistência do Supremo em examinar com o devido rigor o comportamento de seus membros, como qualquer instituição republicana deveria proceder, abre-se o caminho para a análise do início de um possível processo de impeachment no Senado. Seria uma solução drástica, mas admissível caso permaneça o atual impasse. Em janeiro, o presidente do STF, Edson Fachin, alertou: ou o tribunal se autolimitava ou enfrentaria uma limitação vinda de outro poder.

O resultado da sessão vexaminosa faz com que os candidatos ao Senado passem a analisar mais a fundo essa possibilidade. É provável que essa pauta ganhe tração a partir do resultado da eleição e da posse da nova legislatura. São poucas as chances de um processo ser aberto neste ano diante das objeções do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, amigo de Moraes e também com explicações a dar no escândalo do Banco Master. A decisão cabe apenas ao presidente da Casa.

A hipótese de impeachment de um ministro do STF tende a acirrar a tensão institucional, mas essa é uma prerrogativa constitucional do Senado. Faz parte do sistema de freios e contrapesos da democracia, em que os poderes controlam e limitam uns aos outros como forma de conter abusos. O STF já teve chances suficientes para dar solução interna adequada.

Moraes tende a ser o alvo número 1. Mas outros ministros têm apresentado condutas incompatíveis com o cargo e aparecem enrolados com o Master. Também podem ter seus atos analisados. Se Moraes, em particular, vier a passar por um processo de afastamento, deveria ser pelas razões certas, ou seja, as relações obscuras com Vorcaro, e não por sua atuação para conter a tentativa de golpe de Estado e no julgamento que levou o ex-presidente Jair Bolsonaro à prisão. Esse, no entanto, é o motivo por trás de boa parte da avidez por apear Moraes do Supremo.

A crise no STF, agravada pela sessão autodestrutiva da terça-feira, é lamentável por diversos aspectos. Por outro lado, pelo ponto crítico alcançado, impõe a discussão de reformas no Supremo que alterem desde o sistema de indicações até os poderes dos ministros. Ao lado das suspeitas de malfeitos, a politização do tribunal, com acusações até mesmo de que ministros norteariam sua atuação para afetar o resultado das urnas, piora o descrédito de uma instituição que deveria ter a confiança de todos os cidadãos, a despeito de suas preferências ideológicas. 

17 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Dino alertou para corrupção no sistema de Justiça

A autópsia das falas dos ministros na sessão de terça-feira no Supremo Tribunal Federal revelou bem mais do que uma disputa interna que partiu ao meio a Suprema Corte. Veio do ministro Flávio Dino uma das declarações mais graves, que exige aprofundamento por parte dos órgãos de investigação e ao menos alguma indignação da sociedade.

O que disse o ministro:

- Eu nunca vi tanta corrupção no sistema de Justiça do Brasil. Quero dizer que é o momento mais corrupto da história do Judiciário do Brasil. E digo com a autoridade de quem exerce a judicatura desde 1994. Infelizmente, o que prova que há erros. Porque se fala tanto de corrupção no Brasil, e a corrupção só aumenta. Na política também.

No plenário, ninguém rebateu, ninguém comentou, ninguém demonstrou indignação. Foi como se o ministro tivesse falado da beleza dos Lençóis Maranhenses ou do temporal que se armava do lado de fora do prédio do Supremo.

"Não existe venda de sentença sem advogado comprador"

O assunto em questão era um termo do juridiquês, a "avocatória", que vem a ser o ato de um ministro avocar para si a relatoria de determinado processo. Dino tinha entendido que Fachin avocara a relatoria dos casos Master e INSS, mas ele apenas os retirou temporariamente das mãos de André Mendonça, enquanto o plenário decide se o ministro cometeu ou não algum ilícito. Até lá, tudo fica congelado.

Em seguida, o ministro continuou:

- Nessa era de corrupção, temos que ser firmes nos termos da lei, no combate à corrupção. E o que ocorre? Se nós admitirmos a avocatória, vossa excelência e esse tribunal vão abrir uma avenida de corrupção, de comércio nos tribunais. Assim como há juízes ímprobos, há advogados ímprobos. Não existe venda de sentença sem um advogado comprando, não existe corrupção passiva sem corrupção ativa.

Esse trecho provocou uma nota de repúdio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que não gostou da menção aos profissionais que ela representa. _

O presidente da Ajuris, Daniel Neves Pereira, repudiou a fala de Dino. Disse que, "se há suspeitas a serem apuradas, elas dizem respeito a fatos e pessoas determinados e não autorizam extensão indiscriminada a toda a carreira".

Flávio e Lula comentam a crise do Supremo e trocam farpas

A crise no Supremo também foi assunto dos dois candidatos à Presidência melhor posicionados nas pesquisas de intenção de voto.

Ontem, durante comício em Recife, Pernambuco, o senador Flávio Bolsonaro (PL) classificou como "espetáculo de hipocrisia, de prepotência e de deboches" a sessão que analisaria a abertura de investigação sobre a conduta do ministro Alexandre de Moraes no caso envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

- Hoje, quem está votando em Lula, está votando em Alexandre de Moraes. Imagina o "padrão Lula" de indicação: mais quatro Alexandre de Moraes no STF ou mais quatro Flávio Dino no STF - disparou.

O presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), rebateu as críticas de Flávio. Lembrou que não foi responsável pela indicação de Moraes.

- Eu não era presidente quando o Alexandre de Moraes foi indicado para ministro da Suprema Corte - enfatizou o petista durante participação no podcast Desce a Letra.

O petista ressaltou que não foi responsável pelas indicações de Nunes Marques e André Mendonça, escolhidos pelo seu antecessor, o ex-presidente Jair Bolsonaro. _

E desde quando a máfia é exemplo de ética, ministro?

Passadas 24 horas de uma das sessões mais bizarras da história do Supremo Tribunal Federal, ainda se ouvem os ecos das frases pronunciadas pelo decano Gilmar Mendes para criticar a "investigação seletiva" do ministro André Mendonça, focada apenas em Alexandre de Moraes e sem aval do Ministério Público.

Gilmar acusou Mendonça de conduzir os processos do Banco Master com "inequívoco viés político", para favorecer um grupo (o bolsonarismo) e de maneira digna de máfia, covarde e vil.

- Já disse isso em outro momento: até a máfia tem ética. É preciso ter decência, não se comportar desta forma. Um tribunal que isso admite já não delibera com liberdade - vociferou.

O código de ética da máfia não pode ser exemplo para ninguém, menos ainda para um ministro do Supremo. Porque a "ética" da máfia não se resume à "omertà", o código de silêncio citado por Gilmar. Basta ver um ou dois filmes para saber como são tratados os inimigos. _

Zucco apresenta o Saúde Tá On

Preocupado com a demora nos atendimentos de saúde, que resulta em longas filas de espera por consultas, exames e cirurgias, o candidato a governador Luciano Zucco (PL) planeja usar a tecnologia em favor dos pacientes.

A partir do programa batizado de Saúde Tá On, Zucco promete reorganizar o atendimento, reduzir burocracias e aproximar o cidadão dos serviços de saúde.

O foco do programa é o uso da telemedicina para acelerar o atendimento e evitar deslocamentos de pacientes, a chamada ambulancioterapia. _

mirante

Vai dar ciumeira. Candidata a deputada estadual, a vereadora Nicole Weber Covatti, esposa do presidente do PP no RS, Covatti Filho, recebeu R$ 1.265.000,00 da direção nacional do partido. Guilherme Pasin, o deputado que mais ganhou recursos do PP, contabiliza R$ 1.196.002,64.

Sandro do Covatti, irmão da deputada Silvana Covatti, recebeu R$ 900 mil.

A direção nacional do PL investiu R$ 500 mil na campanha de Adri Cherini, esposa do presidente estadual do partido, Giovani Cherini.

POLÍTICA E PODER

17 de Setembro de 2026
REPORTAGEM

REPORTAGEM

4| Aeroportos regionais tiveram pico em 2021

Outro modal de transporte fundamental para a integração logística estadual é o aeroportuário. Na última década, além do aeroporto internacional de Porto Alegre, o Rio Grande do Sul passou de cinco para seis terminais regionais em operação, mas chegou a ter um pico de 15 com voos regulares em 2021.

Até 2015, recebiam voos comerciais regulares os de Caxias do Sul, Pelotas, Santa Maria, Passo Fundo e Uruguaiana - o aeroporto de Santo Ângelo voltou a operar em 2017. Por outro lado, conforme a Secretaria Estadual de Logística e Transportes (Selt), deixaram de ter operações comerciais frequentes desde 2021 os de Bagé, Santa Rosa, São Borja, Torres, Canela, Vacaria, Santa Cruz do Sul, Alegrete e Erechim.

Também segundo a secretaria, a diminuição da utilização das estruturas regionais se deu por uma questão mercadológica do setor da aviação civil, que passou a operar com aeronaves maiores nos últimos anos. Assim, as companhias foram deixando de realizar voos com aeronaves menores, e então os aeroportos menores também foram deixando de ter uso.

Ainda de acordo com a Selt, o movimento de passageiros passou de 435.971 em 2016 para 713.215 em 2025, crescimento de 63,6%. Já o número total de decolagens cresceu de 5.784 voos para 6.566 (13,5%).

Mais terminais

O transporte de cargas, que nos aeroportos regionais ocorre predominantemente nos porões das aeronaves de passageiros que realizam os voos regulares, também cresceu no período: passou de aproximadamente 0,7 mil toneladas em 2016 para 1,45 mil toneladas em 2025.

- O Estado precisa de mais opções de terminais, para voos de longa distância e de curta distância. É uma questão estratégica, já vimos como é arriscado ficar dependente só de um aeroporto de maior porte. Tem agora o projeto do novo aeroporto da Serra, em Caxias, que deve começar as obras em breve. Precisamos desse e, se possível, outros. Esse reforço da malha é fundamental para melhorar a logística com o transporte de passageiros e cargas - observa Ricardo Portella, coordenador do Conselho de Infraestrutura e vice-presidente do Sistema Fiergs. _

Soluções incluem recuperação de vias, hubs logísticos e integração entre modais

Especialistas destacam como essencial para a evolução da infraestrutura logística do RS que os investimentos no setor sejam contínuos e superem gestões administrativas específicas, propiciando maior diversificação da matriz de transportes. Além disso, apontam a importância da tomada de decisão integrada entre governo estadual e federal, e também com as administrações municipais.

- A nova concessão da malha ferroviária é um exemplo de como é importante que os governos estaduais e o governo federal consigam chegar a um acordo pensando principalmente no desenvolvimento das regiões impactadas - argumenta Paulo Menzel.

O término das obras de recuperação após a enchente de 2024 também é apontado como prioridade. Além das estruturas de contenção contra cheias, os projetos aprovados no Plano Rio Grande e com recursos do Funrigs preveem a restauração de rodovias e também de equipamentos portuários, serviços de dragagem e outras atividades estruturantes.

- É preciso entender que investimento em infraestrutura é um vetor de desenvolvimento: reduz custos de transporte, deixa os negócios mais competitivos, geram-se mais empregos, aumenta-se a efetividade e a produtividade das empresas e atrai investimentos - afirma o economista Lucas Schifino, gerente de Relações Governamentais da Fecomércio-RS.

Para Ricardo Portella, coordenador do Conselho de Infraestrutura da Fiergs, a possibilidade de utilizar diferentes modais é fundamental para ter um transporte de cargas mais eficiente.

- Onde há competição e complementariedade de modais, o empresário consegue reduzir seu custo logístico. O Rio Grande do Sul já é o Estado com o maior custo logístico proporcional do Brasil - acrescenta.

Em complemento, o reforço geral e a integração estratégica dos diferentes modais de transporte também são aspectos apontados como demandas do setor produtivo para o avanço das condições logísticas.

- No agro, temos muito a questão da sazonalidade, então concentramos muito transporte em determinadas épocas do ano, e você precisa dar as melhores condições para o escoamento dessa carga - aponta o presidente da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Domingos Velho Lopes.

Multimodalidade

O desenvolvimento e o fortalecimento dos diferentes canais de transporte podem ainda propiciar o estabelecimento dos hubs logísticos, pontos estratégicos de concentração, conexão e distribuição de cargas e mercadorias entre diferentes origens e destinos. Nessa concepção, o município de Santa Maria, na Região Central, desponta com um projeto já em andamento dentro deste modelo.

O projeto do Hub Logístico da Região Central começou a ser desenvolvido há cerca de quatro anos, impulsionado pela Agência de Desenvolvimento de Santa Maria (Adesm) e por parcerias com instituições como a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Conforme as lideranças do projeto, o objetivo é transformar a logística e impulsionar o desenvolvimento socioeconômico da região, estabelecendo um sistema integrado de transporte multimodal, criando um novo polo de crescimento econômico.

- Temos uma localização privilegiada, a cerca de 300 quilômetros de todos os principais centros econômicos e do porto de Rio Grande, além de conexões rodoferroviárias e aeroportuárias. Isso nos credencia a ser um polo de distribuição de cargas para o Estado e além de nossas fronteiras - afirma Evandro Behr, presidente da Adesm. _

Série aborda os principais desafios que o Estado precisa enfrentar para avançar. Na quarta reportagem das oito previstas, especialistas ressaltam quatro pontos que merecem a atenção do eleitor em transportes e logística e apontam soluções

Como tornar a infraestrutura do RS mais eficiente e resiliente

Mathias Boni

mathias.boni@zerohora.com.br

Há décadas o Rio Grande do Sul sofre com gargalos de infraestrutura e logística que elevam os custos de transporte, dificultam o escoamento de cargas e reduzem a competitividade do setor produtivo. As limitações no uso de hidrovias, ferrovias e aeroportos regionais intensificam a dependência das rodovias - alternativa que encarece ainda mais as operações devido às condições inadequadas de parte da malha viária, reduzindo a competitividade do Estado.

Esse cenário foi agravado pela enchente de 2024, que devastou de forma dramática a capacidade logística estadual - gerando prejuízo de R$ 4,1 bilhões estimado pelo Banco Mundial por perdas na infraestrutura de transportes.

O desastre climático provocou deslizamentos em estradas, derrubou pontes e reduziu as possibilidades operacionais de ferrovias e hidrovias. Além disso, deixou fora de operação por vários meses o Aeroporto Internacional Salgado Filho, na Capital, o principal do Estado.

A magnitude da tragédia expôs vulnerabilidades e evidenciou a urgência de reforçar e expandir a rede logística.

Segundo especialistas, as estruturas precisam se tornar mais resilientes e contemplar alternativas de integração entre os diferentes modais. O objetivo é suportar novos eventos climáticos, consolidar hubs logísticos, garantir condições adequadas de competitividade e alavancar o crescimento econômico.

Esta é a quarta de uma série de oito reportagens do Grupo RBS sobre os principais desafios que o Estado precisa enfrentar para avançar nos próximos anos. Zero Hora selecionou, a partir de ouvidorias realizadas pelo Conselho Editorial da RBS e da consulta a fontes independentes, questões centrais que merecem a atenção dos representantes do eleitor na área de infraestrutura e logística.

A reportagem apresenta um panorama atual e reúne soluções e caminhos apontados por especialistas. _

1| Melhorias no sistema rodoviário

Enquanto o modal rodoviário responde por cerca de 90% do transporte da produção gaúcha, conforme a Câmara Brasileira de Logística e Infraestrutura (CâmaraLog), aproximadamente 73% das rodovias estaduais e federais foram consideradas "regulares, ruins ou péssimas" na pesquisa anual da Confederação Nacional do Transporte (CNT) de 2025.

Como destaca Paulo Menzel, presidente da CâmaraLog e CEO do Grupo Intelog, o avanço logístico necessário depende tanto da melhoria rodoviária quanto da maior utilização dos modais ferroviário, hidroviário e aeroportuário:

- O custo logístico do RS, hoje, é um dos maiores do país, e isso se deve, principalmente, ao atraso que enfrentamos em termos de infraestrutura. Pela falta de desenvolvimento dos equipamentos e uso dos outros modais, o rodoviário acaba assumindo uma carga que não é do seu DNA, gera preços mais caros pela falta de opções complementares e sobrecarrega as estradas.

A tradicional pesquisa da CNT avalia todas as rodovias federais e grande parte das estaduais, analisando 8,8 mil quilômetros de estradas gaúchas ao total, levando em consideração aspectos como pavimento, sinalização e geometria da via. O levantamento de 2025 classificou 46,7% dos trechos como regulares, 20,2% como ruins e 6,1% como péssimos. Os trechos em boas condições somaram 25,2%, e os ótimos, apenas 1,8%. Os índices deixam o Estado atrás da média nacional (37,9% de trechos bons ou ótimos) e de vizinhos como Santa Catarina (36,8%) e Paraná (38,6%).

- Os impactos das enchentes mostram como o planejamento dessa malha também tem de levar a questão climática em consideração para ser resiliente. Na nossa pesquisa, englobamos os trechos avaliados como regulares junto aos ruins e péssimos porque neles as rodovias começam a apresentar buracos, sinalização ruim e entraves ao tráfego - aponta Fernanda Rezende, diretora- executiva da CNT.

Mesmo antes da enchente de 2024, 72,2% do estado geral das rodovias estava em condições regulares, ruins ou péssimas, mas a tragédia climática agravou a situação: atingiu 13,7 mil quilômetros de estradas, derrubou dezenas de pontes e causou centenas de pontos de bloqueio. Inúmeras rodovias fundamentais para o escoamento de cargas foram severamente impactadas.

15% de custo a mais

No laticínio Sans Souci, em Eldorado do Sul - um dos municípios mais afetados pelo evento climático -, as dificuldades logísticas geram prejuízos contínuos. A empresa, além de ter sido inundada durante a enchente, também fica em uma região que sofre há tempos com dificuldades logísticas.

- Para receber a matéria-prima e distribuir nossos produtos, dependemos totalmente das rodovias, mas vemos muitas com obras de duplicação inacabadas, más condições de pista, sinalização. Fazemos uma estimativa de 15% de custo extra de produção e distribuição, em relação a tempo perdido de deslocamento e manutenção de veículos - diz Sigrid Pesenatto, sócia do laticínio junto ao marido, Enio Pesenatto.

Falta de trechos duplicados

Outro gargalo histórico relacionado às rodovias é a pouca quantidade de quilômetros duplicados, o que também impacta diretamente as condições de tráfego e a eficiência do transporte. Nas rodovias federais, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) afirma que, entre 2016 e 2026, realizou a duplicação de 180 quilômetros da BR-116 entre Guaíba e Pelotas, 28 quilômetros da BR-290 entre Eldorado do Sul e Pantano Grande e 34 quilômetros da BR-386 entre Tabaí e Estrela.

Contudo, a totalidade das obras de ampliação da capacidade das rodovias, tanto da BR-116 quanto da BR-290 e da própria BR-386, ainda não foi concluída e segue em andamento. A autarquia também empenhou R$ 1,1 bilhão para intervenções emergenciais e reconstrução de vias após a enchente de 2024.

De acordo com o presidente do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga e Logística (Setcergs), Delmar Albarello, essa deficiência estrutural gera prejuízos diretos à competitividade do setor produtivo por meio do aumento no tempo de viagens, custos elevados de frete e maior desgaste da frota.

Além do impacto logístico imediato, o déficit de infraestrutura compromete o desenvolvimento econômico global do território gaúcho, uma vez que novos investimentos industriais costumam migrar para regiões com maior facilidade de escoamento e custos operacionais reduzidos.

Albarello reforça que, por estar localizado na extremidade sul do país, o Estado deveria tratar a eficiência logística como uma prioridade absoluta para mitigar as desvantagens geográficas.

Insuficiência de recursos

Já na malha do Estado, até 2015, havia 146 quilômetros duplicados. De lá para cá, conforme a Secretaria Estadual de Logística e Transportes (Selt), entre trechos concedidos e não concedidos, foram duplicados mais 38 quilômetros: 12 quilômetros na RS-287, 21 quilômetros na RS-118 e cinco quilômetros na RS-734. A secretaria aponta ainda que, com recursos do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), foram investidos cerca de R$ 3,1 bilhões para recuperação viária após a enchente de 2024, com obras ainda em andamento em 32 lotes de rodovias e 14 pontes.

Segundo o doutor em transportes e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Luiz Afonso Senna, o orçamento histórico do Departamento Autônomo de Estradas e Rodagem (Daer) destinava apenas R$ 150 milhões anuais ao setor, montante insuficiente diante da demanda estimada em cerca de R$ 2 bilhões por ano apenas para a manutenção das estradas estaduais:

- No caso das rodovias, temos um grande problema que é a insuficiência de recursos para que o Estado possa fazer os investimentos necessários. Há uma situação hoje absolutamente crítica. _

2| Degradação ferroviária

O processo de precarização das ferrovias gaúchas é histórico. Desde a privatização, em 1997, e o estabelecimento da Malha Sul, a extensão utilizada no RS diminuiu 75%, passando de 3,8 mil para os atuais 921 quilômetros - até a tragédia climática de 2024, eram 1,6 mil quilômetros. Hoje, os trens transportam só cargas, mas o volume despencou 50% entre 2007 e 2025, caindo de 4 milhões para cerca de 2 milhões de toneladas anuais. Atualmente, o único trajeto em operação sai de Cruz Alta para o porto de Rio Grande.

A concessão da Malha Sul, administrada pela empresa Rumo e que inclui também as ferrovias de Paraná e Santa Catarina, vence em fevereiro, mas será prorrogada em até dois anos até que uma nova empresa possa assumir. O que acabou se tornando um imbróglio: o governo federal, por meio da Agência Nacional dos Transportes Terrestres (ANTT), defende o fatiamento da nova concessão em três lotes: Corredor Paraná-Santa Catarina, com 1.502 quilômetros concentrados nesses Estados, Corredor Mercosul, com 1.865 quilômetros, ligando SP até a fronteira com a Argentina, passando por PR, SC e parte do território do RS, e o Corredor Rio Grande, com 880 quilômetros, entre o noroeste gaúcho e Rio Grande.

O governo pretende realizar o leilão já em 2027, mas representantes gaúchos e catarinenses do setor defendem novo estudo e que a malha siga com apenas um grupo na administração.

- Depois da enchente, as ferrovias ficaram para trás, num empurra-empurra entre governos e concessionária. Na nova proposta, quem vai querer assumir um trecho concentrado no Estado com boa parte da estrutura destruída? - questiona João Edacir Calegari, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias do RS. _

3| Subutilização das hidrovias

Outra forma de transporte de cargas que especialistas consideram atualmente subutilizada no Rio Grande do Sul é a hidroviária. A situação do modal também se agravou após a enchente de 2024.

Segundo a Associação Hidrovias do Rio Grande do Sul (Hidrovias RS), o Estado chegou a ter 1,2 mil quilômetros navegáveis até cerca de 30 anos atrás, mas o percurso foi sendo reduzido com o passar do tempo, principalmente por falta de dragagem e manutenção. Em 2023, eram em torno de 700 quilômetros, número que voltou a cair após a cheia.

Redução de portos

De 12 portos internos espalhados por cidades durante o auge da operação das hidrovias, restaram em operação regular somente os de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre - deixaram de operar com regularidade para o transporte de cargas os de Venâncio Aires, General Câmara, Tapes, Cachoeira do Sul, Estrela, Montenegro, São Lourenço do Sul, Rio Pardo e Santa Vitória do Palmar. Além disso, dos 21 terminais privados ao longo do traçado, sobraram 14.

Nos esforços de recuperação do Estado após a cheia, foram destinados R$ 731 milhões de recursos do Funrigs para dragagem e outras obras de reforço estrutural das hidrovias. Com os recursos, o governo estadual, via Portos RS, contratou serviços de dragagem para 22 canais hidroviários, divididos em sete lotes de execução, para serem realizados principalmente no canal de acesso ao porto de Rio Grande e aos canais de acesso da Lagoa dos Patos e do Guaíba - dos sete lotes, pelo menos três já foram finalizados, três estão em andamento e o sétimo, que envolve trechos dos rios Gravataí e Sinos, ainda está em fase de contratação.

- As coisas voltaram a evoluir com os investimentos realizados após 2024, o retorno da navegação noturna já foi uma conquista. Com as dragagens e os outros investimentos de infraestrutura portuária, poderemos aumentar o percurso navegável de volta, pelo menos, a 700 quilômetros, aumentar os cerca de 6 milhões de toneladas movimentadas para uma faixa entre 9 milhões e 12 milhões, retomar o uso de outros portos internos, já que continuamos apenas com Rio Grande como porto marítimo. A hidrovia é o modal mais barato, e o RS precisa explorar esse potencial - defende Wilen Manteli, presidente da Hidrovias RS.