sábado, 4 de julho de 2026


04 de Julho de 2026
CARPINEJAR

Dos joelhos até os calcanhares

As meias foram diminuindo de tamanho de geração a geração. Meus pais na infância usavam três quartos; eu, a soquete; meus filhos, as invisíveis ou sapatilha. Meus pais usavam meias até os joelhos; eu, até os calcanhares; meus filhos preferem que não sejam vistas. Elas começaram a desaparecer. Cada época abocanhou um naco de sua medida.

É uma história silenciosa do estilismo, acompanhando o desejo de destapar o corpo. Pode ser efeito da superexposição da aparência nas redes sociais, da tendência fitness, das academias de musculação. Ou porque o tênis passou a ser protagonista, com a ostentação de marcas e modelos, e roubou a cena da sua fiel coadjuvante.

O vestuário encolheu junto com os costumes. As meias não sofreram redução somente de tecido, mas também de importância e influência. Antes faziam parte do visual; agora a intenção é camuflá-las, num minimalismo que apenas privilegia o indispensável.

O acessório não é nem enfeite. Mudou de função. Antigamente protegia do frio; nos tempos modernos, protege do atrito do calçado. A liberdade se tornou sinônimo de despojamento. Quanto menor a peça, maior seu consumo: fones sem fio, por exemplo.

Nas fotografias amareladas de meus pais, eles posavam com meias de algodão grosso, lã ou mistura de fios, porque aqueciam mais. Possuíam elástico firme ou ligas para evitar que escorregassem. As tonalidades revelavam discrição: cinza, marrom, azul-marinho, bege e preto.

Sua constância no período se explicava pela versatilidade: eram adotadas tanto com sapatos sociais quanto com calçados esportivos. Ninguém mostrava a canela, sinal de pouca elegância, status que migrou hoje para não mostrar as meias.

Na década de 50, crianças não abdicavam do seu emprego nos passeios e na escola, completando o dueto do uniforme com as bermudas. Tratava-se de um código que transmitia sobriedade, disciplina, decência, respeito à família.

Depois, conforme as barras das calças ficaram mais largas e a moda assumiu um caráter informal e casual, as meias três quartos deram lugar às de cano médio, coloridas, divertidas, com estampas. Participei desse momento em que sua extravagância indicava uma ideologia de insubordinação e independência.

Atualmente, olho para os pés de meus filhos e não enxergo meia nenhuma. Está por baixo, constrangida, sufocada. Não há sentido em falar "arregaçar as meias" ou "puxar as meias". Não há sentido em deixar uma gaveta unicamente para elas. Ocupam um espaço simbólico.

E, paradoxalmente, reivindicam cifras muito mais salgadas - vendidas de modo avulso, não em pacotes com uma dúzia. Gastamos o dobro para algo que não se percebe. Um par de meias virou um presente secreto. Você jamais testemunhará o presenteado se exibindo com o regalo.

São as novas roupas íntimas. 

CARPINEJAR

04 de Julho de 2026
EUGÊNIO ESBER

Michelle antes, Jair depois

No dia em que Michelle Bolsonaro irrompeu nas telas brasileiras para expor suas desavenças com o enteado Flávio Bolsonaro, pensei, entre tantas hipóteses razoavelmente plausíveis, que estava nascendo uma persona política de fisionomia própria - e ambições muito próprias, também. Se me enganei ou não, o tempo dirá. Mas um erro, desde já, assumo ter cometido em minha primeira e imediata avaliação, a mesma, aliás, de muitos observadores da cena política. 

Não foi a primeira aparição disruptiva de Michelle. "A posse. Lembra da posse?", alertou-me a Maira. Eu não lembrava. Mas não foi preciso muito esforço para concluir que a enigmática personalidade da ex-primeira-dama se delineou aos olhos do público, pela primeira vez, em 1º de janeiro de 2019.

Assim como a cuidadosa preparação do vídeo-bomba de 24 de junho de 2026, Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro construiu e esculpiu, no seu íntimo, um plano que a faria tornar-se notícia no Brasil e no mundo: discursar na posse do marido, Jair Messias Bolsonaro, feito inédito na história do Brasil.

Mais do que uma quebra de protocolo, a primeira-dama protagonizou outro ineditismo: discursou em Libras, a linguagem brasileira de sinais, para homenagear pessoas com deficiência e, particularmente, a comunidade surda, na qual se inclui um tio dela. Postado atrás dela, com expressão séria, Jair acompanhava a leitura do texto de Michelle pela auxiliar Adriana Ramos. Ao final, a pedido do público, Jair e Michelle se beijaram.

A imprensa brasileira e internacional deixou de lado o viés de antipatia ao capitão que derrotara o petismo e adoçou a cobertura da posse com menções à suavidade e à empatia da jovem de 37 anos incompletos nascida em Ceilândia, Distrito Federal.

Depois de tudo, Michelle deu entrevista em que contestou insinuações de "marketing" em sua iniciativa. Contou, porém, que planejou o ato em segredo - inclusive do marido - durante 10 dias. Só comunicou Jair de seu plano duas horas antes da posse. "Olha, eu vou discursar, mas você fica tranquilo que deve ser menos de quatro minutos."

Faltando apenas meia hora para o início da cerimônia, marido e mulher combinaram como seria. A primeira-dama falaria antes do presidente.

E assim foi feito, como nunca antes no Brasil ou no mundo.

Posteriormente, frente às câmeras da TV Record, Michelle relataria, descontraída, e com certa euforia, o nervosismo do cerimonial na véspera da posse.

- Foi um momento cômico, porque uma pessoa do alto escalão ficou extremamente em pânico. "A senhora vai discursar... O presidente já sabe?" Falei: "Não". E ele: "Como assim ?o presidente não sabe??". Eu falei: "Qual o problema?". _

EUGÊNIO ESBER

04 de Julho de 2026
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

Investigação em defesa do interesse público

Três anos após o início das apurações policiais, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) denunciou 22 pessoas por suposto envolvimento em fraudes no âmbito da Secretaria Municipal da Educação (Smed) de Porto Alegre. É a primeira acusação do MP relacionada à Operação Capa Dura, realizada pela Polícia Civil para investigar irregularidades na compra de 544 mil livros, em 2022, a um custo de R$ 36,5 milhões. Ainda cabe à Justiça analisar se aceita a denúncia e, a partir disso, dar prosseguimento ao processo que pode resultar na responsabilização e na punição dos eventuais culpados. O andamento das averiguações, porém, já é um resultado emblemático da vigilância permanente que o jornalismo profissional deve exercer em uma sociedade democrática.

A atuação das autoridades teve início após a publicação de uma série de reportagens do Grupo de Investigação da RBS (GDI) sobre indícios de ilegalidades em compras da Smed. Os repórteres Adriana Irion e Carlos Rollsing relataram o abandono de milhares de livros e materiais didáticos adquiridos sob suspeita de direcionamento de licitação e esquecidos em depósitos sob condições inadequadas. Fiscalizar as ações do setor público e o uso dos recursos obtidos por meio do pagamento de impostos, com equilíbrio e responsabilidade, é justamente um dos pilares do jornalismo independente e plural.

Espera-se que as instituições competentes deem curso à análise das provas colhidas ao longo dos últimos anos de forma célere, técnica e livre de pressões partidárias. Embora todo e qualquer desvio de dinheiro público seja um delito de extrema gravidade, irregularidades envolvendo uma área tão importante como a educação se mostram especialmente repreensíveis, tanto pelo expressivo volume de verbas que essa pasta costuma concentrar quanto pelo caráter simbólico da malversação de recursos que deveriam ser destinados à formação de crianças e jovens.

Após a publicação das reportagens, a Polícia Civil abriu sete inquéritos. Em fevereiro, a conclusão das investigações resultou no indiciamento de 34 pessoas - entre as quais 22 foram agora denunciadas pelo Ministério Público. Nessa lista estão a ex-secretária da Educação da Capital Sônia da Rosa, o empresário Jailson Ferreira da Silva e os ex-vereadores Alexandre Bobadra (PL) e Pablo Melo (MDB). Enquanto a defesa da ex-secretária optou por se manifestar somente após ser citada formalmente, os demais negam participação em quaisquer irregularidades. Se as denúncias forem aceitas pela Justiça, terão a oportunidade de apresentar suas contraprovas no decorrer da ação judicial.

Qualquer que seja o desfecho do episódio, é fundamental que sirva de exemplo para o poder público redobrar o cuidado com o dispêndio de recursos e seus mecanismos de autocontrole. É inaceitável que, em sociedades com tantas demandas por saúde e educação, de um lado, e verbas tão escassas para atender aos anseios da população, de outro, qualquer centavo seja comprometido por má gestão ou ação deliberada. Quando a máquina governamental falhar na aplicação de seu orçamento, restará a permanente disposição do jornalismo profissional em representar e fazer valer os interesses da sociedade. _

04 de Julho de 2026
COOPERATIVISMO - Bruna Oliveira

"É mais que um trabalho, é um compromisso com a vida"

Há 30 anos, a Cooperativa Univens, situada no bairro Sarandi, na zona norte de Porto Alegre, gera renda, oportunidade e renovação para o seu entorno. Atualmente, grupo de mulheres costureiras produz roupas, uniformes escolares e de firmas, bolsas, sacolas ecobags e lençóis hospitalares

Na zona norte de Porto Alegre, o fio que ganha forma pelas mãos de mulheres costureiras tece uma trama que vai muito além da vestimenta e se traveste em mudança social. Há 30 anos, a Cooperativa Univens - Unidas Venceremos, gera renda, oportunidade e renovação para a comunidade do seu entorno.

O trabalho feito pelas mulheres da Vila Nossa Senhora Aparecida, no bairro Sarandi, é um caso emblemático da cooperação pelo trabalho. Juntas, as 24 costureiras cooperadas dividem as tarefas, os ganhos, o tempo, o espaço e os problemas.

Começou em 1996, quando a necessidade de gerar renda encontrou ocasião no ofício das mulheres da comunidade, recorda a diretora-presidente da cooperativa, Nelsa Fabian Nespolo, 63 anos. O sonho coletivo, naquela época, era costurar para o Hospital Conceição, centro de saúde referência para os moradores do bairro:

- Dois fatores se juntaram: precisávamos de renda e havia a vontade de costurar para o hospital. Mas, para isso, precisávamos ser uma cooperativa. E assim começamos. É mais que um trabalho, é um compromisso com a vida.

Como no bordado à mão livre, nem tudo saiu como o planejado, e outras tramas foram se mostrando possíveis ao longo do percurso. Enquanto a meta de atender a rede hospitalar não desenrolava, uma encomenda de 500 camisetas para vestir metalúrgicos deu o fôlego para avançar. Aos poucos, os equipamentos foram adquiridos, os clientes foram chegando e a rede feminina tramada pela costura foi ficando mais firme.

Plano de ir além

Foi só em 2024 que o sonho da Univens enfim alcançou o seu primeiro objetivo, com a seleção na primeira chamada pública promovida pelo GHC. Em seguida, os lençóis costurados na Vila Nossa Senhora Aparecida chegaram ao Hospital da Criança, referência no tratamento infantil no Rio Grande do Sul. Em 2025, as peças já cobriam adultos na hematologia e na oncologia, e atualmente estão em ampliação para a maternidade do Hospital Fêmina, também na Capital.

O plano é ir além. Outra disputa de compra pública está em aberto para atender ao Grupo Hospitalar Conceição, além de negociações em andamento com três hospitais privados do Interior. Por serem feitos de tecido orgânico, os lençóis da cooperativa irritam menos a pele dos pacientes, conferindo um ganho aos tratamentos de saúde.

- Queremos muito ampliar a entrega para outros hospitais, porque isso nos dá uma segurança de renda certa, e o restante buscamos com outros produtos que a gente faz. Ampliar a compra pública significa crescer a cooperativa. Muitas vezes, essa é a única renda da família - diz Nelsa.

Da costura das mulheres, produzem-se roupas, uniformes escolares e de firmas, produtos corporativos, bolsas, sacolas ecobags e os lençóis hospitalares. Mas nem sempre as mãos da comunidade souberam costurar. O grupo de cooperadas reúne desde as que já manuseavam a máquina àquelas que aprenderam na cooperativa.

Há seis anos entre elas, Vera Monticeli, 63 anos, diz ser grata pela oportunidade de trabalhar junto às mulheres. Tudo o que sabe de costura, diz, aprendeu ali.

- Fiz um curso básico na cooperativa e a Nelsa me convidou para trabalhar. Hoje eu digo que sei costurar. Tudo o que sei de costura eu aprendi aqui dentro. (Estar) onde todo mundo faz junto, onde todo mundo pega junto, é muito gratificante - conta.

O perfil na cooperativa é diverso. Muitas são viúvas, outras são mães solo, e há as que são chefe de família - da qual o único sustento vem da renda da cooperativa. Também há as que trabalham de casa, sem frequentar a sede, e as que se dedicam aos reparos.

- A cooperativa dá uma segurança financeira, e, portanto, de vida. Sobretudo, para as mulheres. É tão importante ter uma rede de proteção na nossa volta e um grupo onde se pode contar os problemas... Tem dias que a vida é mais difícil. E compartilhar as alegrias também. É o verdadeiro sentido de cooperar, num todo, na vida das mulheres - diz a diretora-presidente.

Circulação de dinheiro

O impacto econômico e social desde que o cooperativismo passou a fazer parte da comunidade vai além dos limites da Univens e se revela em mudança de realidades. O dinheiro que passou a circular a partir da venda das peças girou também o comércio, os serviços e as oportunidades para novos negócios no bairro. Mais do que isso, chegou à qualidade de vida das mulheres. Todas moram perto da cooperativa, algumas delas vão de bicicleta, e isso representa tempo a mais com as suas famílias. _

Polêmicas envolvem os 250 anos dos EUA

Neste sábado, os Estados Unidos comemoram o aniversário de 250 anos de sua independência. A série de celebrações propostas pelo governo americano começou há uma semana e deve se estender além da data oficial. O país já está em ritmo de festa: na sexta-feira, as ruas de diversas cidades foram tomadas por bandeiras, chapéus e souvenirs em vermelho, azul e branco.

Dois fatos têm chamado a atenção no pano de fundo da festividade: a forte polarização em torno das comemorações e a centralização da imagem do presidente Donald Trump nos eventos.

A polarização

Os preparativos para o quarto de milênio de independência americana começaram ainda em 2016, quando o Congresso criou o America250, um comitê bipartidário para organizar as festividades. No entanto, em seu segundo mandato, Trump criou o Freedom 250, uma parceria público-privada sob o guarda-chuva de sua própria administração.

A criação deste segundo grupo esteve no centro de uma forte discussão nos últimos dias envolvendo o Partido Democrata. A oposição divulgou um relatório acusando consultores ligados a Trump de envolvimento em fraude financeira para enganar doadores.

Segundo os democratas, apoiadores que pretendiam contribuir com o fundo America250 receberam, na verdade, os dados bancários do Freedom 250.

O relatório aponta que o Freedom 250 foi concebido sob os cuidados da ala republicana para servir como "um veículo para uma visão nacionalista cristã, partidária e centrada em Trump da identidade americana", e que os recursos arrecadados serviram para inflar "o ego, a ideologia política e os projetos pessoais do presidente".

A imagem de Trump

Trump anunciou que este será o aniversário "mais espetacular" da história americana. O primeiro indício da apropriação da data surgiu ainda em dezembro, quando o republicano enumerou, em um vídeo, uma lista de programas para o aniversário da nação.

De acordo com a CNN, Trump desfez planos que vinham sendo elaborados há anos para a festividade e direcionou verbas federais para sua visão, atraindo críticas de que o ato se tornou uma celebração mais voltada para o presidente do que para o país.

A abertura oficial das comemorações ocorreu na semana passada com a Grande Feira Estadual Americana, no National Mall, evento que se estende até dia 10. Segundo o The New York Times, diante da forte politização, diversos artistas cancelaram apresentações, alegando desconforto com o viés partidário.

O ápice das festividades ocorre neste fim de semana. O principal evento batizado de Saudação à América, com desfiles, demonstrações militares e um show de fogos de 40 minutos e 850 mil disparos. O presidente fará o discurso principal que, segundo suas próprias palavras, será longo - mesmo que a previsão indique máxima de 37ºC em Washington DC no sábado. Trump participará de praticamente todas as cerimônias, e o cronograma oficial da festa foi moldado para se adequar à agenda dele.

A principal crítica de analistas locais, como Jon Favreau, Jon Lovett, Dan Pfeiffer e Tommy Vietor, do podcast Pod Save America, é de que a celebração centralizou todas as atenções em Trump. O jornal Los Angeles Times seguiu na mesma linha, apontando: "O espetáculo que os americanos verão terá Trump como figura central". _

Lula parabenizou a presidente eleita do Peru, Keiko Fujimori, após a Justiça Eleitoral do país confirmar a vitória dela na eleição. "Conte com o Brasil para construirmos juntos uma América do Sul mais próspera, integrada, democrática e soberana", escreveu o brasileiro. Keiko será a nona presidente em 10 anos no Peru.

Ciclovia vai unir pedal e cerveja

Farroupilha entregou na sexta-feira a Ciclovia Desvio da Cerveja. A obra, com mais de 8 quilômetros de extensão, fica às margens da rodovia VRS-813, entre Farroupilha e Garibaldi. O projeto recebeu um investimento de R$ 3 milhões do Estado e de quase R$ 5 milhões do município.

Ao longo do percurso, a pista integra diversas cervejarias artesanais da região, consolidando um roteiro que une pedal, gastronomia, cultura e paisagem.

Além da pavimentação, a estrutura conta com sinalização horizontal e vertical, além de balizadores flexíveis ao longo de todo o trecho. Para a prefeitura, a via pode potencializar um novo polo de cicloturismo. _

Semana italiana em Porto Alegre

Se você aprecia massas, vinhos e, principalmente, a cultura italiana, Porto Alegre viverá, entre segunda e sábado, o legado da imigração no RS.

Trata-se da 20ª Settimana Italiana di Porto Alegre, uma homenagem à trajetória dos imigrantes que cruzaram o oceano para construir a vida no Estado. O tema desta edição será Dall?Italia all?America (Da Itália para a América).

Destaca-se da programação a exposição Dall?Italia all?America, que resgata cenas da saga italiana no RS; a apresentação La notte del canto lírico, com o musical Il Barbiere di Siviglia; lançamentos literários; gravação do programa de televisão; entre outras atividades. _

A pedido do Papa, reitores debatem IA

O reitor da PUCRS, Ir. Manuir José Mentges, participou na sexta-feira de um encontro em Curitiba com os demais reitores das PUCs de todo o Brasil. A reunião atendeu a um pedido do papa Leão XIV e teve como objetivo debater as transformações tecnológicas, em especial os impactos da inteligência artificial.

A conferência vai ao encontro das diretrizes da encíclica Magnifica Humanitas, lançada pelo Pontífice em maio. O documento trata justamente sobre o avanço da IA na sociedade e detalha as preocupações e orientações da Igreja Católica a respeito do tema.

Além do reitor da PUCRS, participaram da reunião padre Anderson Antonio Pedroso (PUC-Rio), Olga Izilda Ronchi (PUC Goiás), irmão Rogério Mateucci (PUCPR) e Victor de Barros Deantoni (PUC-Campinas). _

INFORME ESPECIAL 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

03 de Julho de 2026
AGRONEGÓCIO - Matheus Schuch

Governo prepara proposta alternativa para dívidas rurais

Texto em elaboração no Ministério da Fazenda prevê repasse de R$ 100 bilhões do Tesouro em 10 anos como equalização de juros, de modo a oferecer taxas abaixo do mercado a produtores necessitados. O material deverá ser apresentado à bancada do agro na próxima semana

O Ministério da Fazenda está na fase final de elaboração de um texto alternativo ao projeto de renegociação de dívidas rurais que tramita no Congresso. A nova proposta deverá ser apresentada na semana que vem a representantes da bancada da agropecuária.

O ministro Dario Durigan, segundo interlocutores, está disposto a comprometer até R$ 100 bilhões do Tesouro em um período de 10 anos. Este seria o custo total do novo projeto, prevendo equalização de juros para oferecer taxas abaixo do mercado aos produtores endividados.

O titular da Fazenda segue resistente ao uso do fundo social do pré-sal e de outras fontes semelhantes para o alongamento dos contratos. Também considera que o projeto de lei nº 5.122, que aguarda nova análise da Câmara, possui uma série de excessos, permitindo o enquadramento de produtores que não tiveram perdas expressivas por efeitos climáticos extremos.

Caso haja um acordo sobre a nova proposta, o Palácio do Planalto poderá editar uma medida provisória (MP), que tem validade imediata. Tanto o governo quanto o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), entendem que a proposta precisa ser bem mais restritiva que a última versão do projeto, que passou por modificações no Senado.

Um dos principais envolvidos no debate, o líder do governo na Câmara, Paulo Pimenta (PT), afirmou que o objetivo é garantir condições de renegociação para quem realmente teve perdas relacionadas ao clima.

- As mudanças feitas no Senado abrem para o país todo e incluem produtores que não tiveram prejuízo por causa de estiagem ou de enchente - disse o deputado gaúcho.

Critérios

Pimenta concorda, no entanto, que o governo precisa alterar os critérios de adesão para não incorrer nas limitações de outra medida provisória, editada em setembro do ano passado, que terminou com mais de R$ 4 bilhões represados.

- Já reforcei com o ministro Durigan que as garantias precisam ser flexibilizadas. Sem isso, os produtores que precisam vão ficar mais uma vez sem acesso - complementou.

Na próxima terça-feira, a proposta do governo será apresentada a Motta e a integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). Da bancada gaúcha, os principais envolvidos no debate são os deputados Alceu Moreira (MDB), ex-presidente da FPA, e Afonso Hamm (PP), relator do projeto original.

Apesar de ser considerado pelo setor produtivo como o texto ideal para uma renegociação ampla de dívidas, o projeto de lei 5.122 é autorizativo. Ele depende da iniciativa do Executivo para ser implementado. Por isso, apenas a eventual aprovação do texto pela Câmara não significaria, necessariamente, a aplicação dos recursos.

Por outro lado, representantes do agro têm dito que a alternativa a ser apresentada pelo governo precisa ser ampla o suficiente para resolver o problema de quem não tem acesso a crédito para financiar as próximas safras. 

03 de Julho de 2026
EDITORIAL

Por um mundo feito de chocolate

Quem nunca acertou o ponto do brigadeiro ou viu de perto uma fatia de torta Matilda, talvez não entenda a delícia que é amar chocolate. Essa mesma sensação aparece ao se deparar com um croissant quentinho, recém saído do forno com o chocolate derretendo do interior ou ao se debruçar sobre um balcão repleto de brigadeiros, sem conseguir escolher qual das versões provar primeiro. 

Uma vez fiquei intrigada com uma prima-irmã que, antes de escolher o prato principal em um restaurante, decidiu ir direto para a sobremesa. Confiante, explicou: "É que eu prefiro doces mesmo". Nada como utilizar o livre-arbítrio de adulto para decisões importantes como essa.

Em homenagem ao Dia Mundial do Chocolate, celebrado na terça-feira (07), preparamos uma edição dedicada à iguaria que está presente em filmes, músicas e até na política (o brigadeiro que nasceu durante uma campanha presidencial, que o diga). Por isso, toda essa edição foi dedicada ao doce. Ele, que antes de se transformar em barra, carrega no cacau o verdadeiro responsável pela fama de ser uma substância afrodisíaca e que também é sinônimo de afeto. 

Nas próximas páginas, você encontrará um roteiro para celebrar a data na Capital, três receitas chocolatudas para preparar, enquanto deixa o aroma inconfundível do doce invadir a sua casa e algumas indicações de vinhos que combinam com diferentes versões da iguaria. Ah! E, se possível, experimenta começar pela sobremesa, pelo menos uma única vez. Boa leitura e um final de semana bem doce! _

Brunna Oliveira - Analista de Conteúdo

03 de Julho de 2026
OPINIÃO RBS

Ganância sem limites

Causa perplexidade o caso investigado pela Polícia Civil de São Gabriel da existência de uma organização suspeita de fornecer medicamentos falsificados a um grupo de pacientes com câncer que passava por tratamento na Santa Casa do município. Deflagrada na segunda-feira, a Operação Placebo teve como alvo 14 empresas e 15 pessoas. Entre elas, um empresário que seria o líder do esquema e foi preso, um oncologista e três advogados. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em outras cidades gaúchas e em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Goiás.

Se as suspeitas se confirmarem, é uma fraude estarrecedora por revelar perversidade e uma ganância sem limites. A hipótese é de que os investigados lucravam enganando pessoas que imaginavam estar se tratando contra uma doença desafiadora e temida com um medicamento de alto custo. Trinta e nove pacientes teriam recebido esse remédio. Sete morreram, mas não se pode atribuir, neste momento, relação entre os óbitos e o crime apurado.

As investigações indicam que o médico, agora ex-responsável pelo setor de oncologia do hospital, captava os pacientes e fornecia os contatos dos advogados, que então buscavam via tribunais o tratamento pelo SUS. Em seguida, um grupo de empresas vinculadas entre si simulava uma concorrência perante o Judiciário para fornecer a terapia com a droga. Ao que parece, um pseudotratamento pago com dinheiro público embolsado pela organização.

O caso foi descoberto após uma farmacêutica da Santa Casa notar indícios de falsificação nos frascos do produto. Até erros de grafia existiam nas embalagens. Em fevereiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a apreensão de um lote desse medicamento por sinais de adulteração. A própria fabricante alertou para a circulação de frascos com características discrepantes. Não pode ser descartado que o medicamento possivelmente falsificado tenha sido administrado a pacientes em outras cidades.

Mas os efeitos nefastos da fraude prosseguem. À frente do caso, o delegado Daniel Severo está apelando aos demais pacientes em tratamento no hospital pelo SUS, incluindo quem obteve esse direito via processo com a ajuda da Defensoria Pública, que não abandonem os cuidados. Assistidos estariam se negando a continuar recebendo qualquer tipo de medicamento. Os casos sob investigação, reforça o delegado, são apenas os vinculados às causas conduzidas pelos três advogados suspeitos.

Aguardam-se agora a conclusão das investigações pela Polícia Civil e os demais desdobramentos legais. As condutas do médico e dos advogados suspeitos, da mesma forma, devem ser rigorosamente analisadas por suas entidades de classe.

Dois dias após a Operação Placebo, a Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado chancelou projeto de lei que aumenta em 50% as penas para falsificação, adulteração e fraude com remédios oncológicos. Hoje, quem falsifica medicamentos contra o câncer pode pegar até 15 anos de reclusão. A matéria agora segue para a CCJ da Casa. Sabe-se que as chances de cura são maiores quando o diagnóstico ocorre em estágios iniciais e o tratamento é imediatamente iniciado. Quem comete esse crime, portanto, também pratica um atentado à vida. 

03 de Julho de 2026
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

Os argumentos para tentar barrar novas tarifas

O Brasil encaminhou, na quarta-feira, uma resposta ao governo dos Estados Unidos sobre a investigação americana que acusa o governo brasileiro de adotar práticas desleais de comércio com os americanos. A intenção do Ministério das Relações Exteriores (MRE) é tentar barrar a aplicação de uma tarifa linear de 25% sobre produtos brasileiros, proposta no início de junho. O documento foi enviado ao USTR (sigla em inglês para Representante Comercial dos Estados Unidos) na data-limite para o início das negociações.

O arquivo, disponível no site da instituição, detalha os pontos que os EUA utilizam como embasamento da investigação, bem como os argumentos de defesa do Brasil. _

As justificativas brasileiras aos americanos

Comércio digital e Pix

Os EUA acusam o Banco Central (BC) de criar regras que favorecem o ecossistema do Pix em detrimento de empresas de pagamento americanas. Uma das justificativas é a de que o BC atua, ao mesmo tempo, como regulador e operador do sistema.

Em sua argumentação, o governo brasileiro esclareceu que o Pix é uma infraestrutura aberta, sem condições discriminatórias, e que promoveu a inclusão financeira. Também mencionou que a ferramenta já é utilizada por empresas americanas, citando que o Google Pay e a Visa operam no sistema. O texto destaca que os próprios EUA criaram um modelo de pagamentos instantâneos semelhante, o FedNow, operado pelo Federal Reserve, o banco central americano.

Regulamentação das redes

Os EUA criticam as ordens judiciais sigilosas de tribunais brasileiros que determinam a remoção de conteúdos e a suspensão de perfis de empresas de redes sociais americanas sob pena de multa, restrições a ativos e contas bancárias. Segundo os americanos, a situação configura censura e atentado à liberdade.

O Brasil esclareceu que as ordens judiciais ocorrem dentro do devido processo legal para apurar crimes (como ameaças a policiais e integridade eleitoral) e aplicam-se igualmente a empresas nacionais e estrangeiras. Segundo o Brasil, a confidencialidade é um instrumento previsto na legislação brasileira e a manifestação do USTR não apresentou provas de que empresas americanas recebam tratamento diferente das brasileiras ou de outras nacionalidades.

Tarifas preferenciais

Os norte-americanos alegam que acordos comerciais do Brasil (via Mercosul) com o México e a Índia reduzem a competitividade dos produtos dos EUA e geram incentivos para transferir indústrias americanas para esses países.

O Brasil, por sua vez, argumenta que os acordos são lícitos perante a Organização Mundial do Comércio (OMC) e que, por ser membro do Mercosul, o país adota preferencialmente negociações tarifárias com parceiros regionais. O governo brasileiro afirma ainda que a insatisfação dos EUA com o perfil econômico de parceiros comerciais do Brasil não transforma esses acordos em práticas passíveis de sanções.

Combate à corrupção

O USTR questiona o ritmo das ações anticorrupção e os desdobramentos e revisões da Operação Lava-Jato, alegando que a suposta leniência prejudica empresas dos EUA, que são submetidas a leis anticorrupção rigorosas.

O país afirma que o relatório não trata adequadamente o histórico amplo de combate à corrupção apresentado pelo Brasil. O governo cita dados e acordos recentes com autoridades estrangeiras, além de relatórios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Organização dos Estados Americanos (OEA) que elogiam práticas brasileiras e a Lei Anticorrupção.

Propriedade intelectual

Os americanos reclamam da lentidão na análise de patentes pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), especialmente no setor biofarmacêutico. Também apontam falhas em mecanismos de compensação pelo atraso e no combate contínuo à pirataria e à falsificação. O Brasil comprova que o INPI reduziu drasticamente o atraso de patentes.

Acesso ao mercado de etanol

Os EUA criticam o fim da isenção tarifária que o Brasil concedia ao etanol e o retorno da aplicação da tarifa de Nação Mais Favorecida (NMF), gerando um forte desequilíbrio na balança comercial desse produto.

O Brasil reforça que a tarifa é legal, está abaixo do teto permitido na Organização Mundial do Comércio (OMC) e incide de forma igual sobre qualquer país sem acordo comercial, não sendo discriminatória contra os EUA.

Desmatamento ilegal

Washington argumenta que o país falhou para combater o desmatamento. O Brasil informou que o orçamento para fiscalização ambiental cresceu 87,6% entre 2022 e 2026 e que o desmatamento caiu 50% na Amazônia e 32,3% no Cerrado acumulados desde 2022, provando o esforço contínuo do Estado contra crimes ambientais e fraudes de madeira.

Por que a retaliação é vista como inadequada?

Também foi citado que a balança comercial é altamente favorável aos americanos e que barreiras tarifárias desestruturariam cadeias produtivas integradas, gerando custos que seriam repassados aos consumidores americanos.

Segundo o governo brasileiro, o próprio empresariado americano se manifestou majoritariamente contra as tarifas. Vaticano excomunga seis bispos ultraconservadores

Dois dias antes, o Papa havia enviado carta ao grupo tentando evitar o evento. Como o pedido do Vaticano não teve efeito, a Santa Sé emitiu decreto no qual afirmou que os membros do movimento se encontram em situação de cisma, ou seja, em ruptura com a Igreja.

Os membros são conhecidos como lefebvrianos. O nome vem do fundador, Marcel Lefebvre, que, na década de 1960, rejeitou reformas do Concílio Vaticano II.

No Código de Direito Canônico atual, o cisma é classificado como um delito contra a religião e a unidade da Igreja. 

Agergs e BID assinam acordo O estudo realizará um diagnóstico da área, identificando necessidades e gargalos em comparação a outras práticas no país. O investimento é de US$ 50 mil e será viabilizado por meio de cooperação com o BID, sem custos para a Agergs.

Na imagem acima, o conselheiro-presidente da Agergs, Marcelo Spilki (E), e o especialista em PPPs e Concessões do BID, Marcos Siqueira (D). 

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 2 de julho de 2026

02 de Julho de 2026
CARPINEJAR

Quem é feliz, facilita

Quem é feliz, facilita. Facilita o dia, a conversa, o caminho, o convívio, a vida.

Nem tudo é disputa. Nem tudo é ter razão. Nem tudo é levar vantagem.

Aqueles que facilitam são mensageiros de boas vibrações. Transformam a energia de um lugar. Não precisam vencer discussões, provar ponto por ponto. Entendem que a convivência não é um tribunal.

Ainda que enfrentem contas, perdas, frustrações e despedidas, como qualquer um, não estacionam na amargura.

Não complicam o simples. Não demoram para responder. Agradecem. Pedem desculpas. Riem como forma de compreender. A leveza é o combustível para ir longe. Existem pessoas que chegam e todos ficam tensos. Existem pessoas que chegam e todos respiram.

Existem pessoas que carregam uma tempestade interna para a qual não há palavra que sirva de teto. Você se adapta e elas se apresentam insaciáveis. Nenhuma mudança as satisfaz. Não há o limite da gratidão ou do reconhecimento. Acham que é obrigação geral gravitar em torno de suas mágoas, suas reclamações, seus ressentimentos.

A felicidade, pelo contrário, produz generosidade. Produz espaço. Produz acolhimento. Não me refiro a quem nunca sofre. Não se é feliz o tempo inteiro. A alegria não é a ausência de adversidades, mas a capacidade de não converter copos d?água em maremotos, incômodos passageiros em irremovíveis obstáculos, aborrecimentos superficiais em fundas desavenças. A ansiedade ou a aflição prolongam um desconforto que tem hora para acabar.

Isso não significa que aceitem migalhas, que sejam passivas, que não expressem sua opinião, que não exponham sua personalidade ou que se mantenham em cima do muro. Apenas evitam conflitos desnecessários. Quando urge dizer não, dizem sem humilhar. Quando urge corrigir, corrigem sem diminuir o interlocutor.

São condutoras da esperança de que haverá um jeito, um conserto, uma maneira certa de falar, um momento adequado de intervir.

A comunicação é macia. Sua presença alivia o ambiente, impõe o carisma da confiança. Perguntam quando percebem um estremecimento. Oferecem uma segunda chance de esclarecimento e paciência para não deixar os enganos prosperarem.

Preferem interpretar bem antes de julgar mal. Dão ao outro o benefício da dúvida. Sabem que uma frase torta não define a retidão do caráter. Sempre partem do princípio de que podem ter escutado errado.

Não que se envaideçam como se fossem insubstituíveis, porém despertam o melhor de cada um, o melhor ao seu redor.

Essas lideranças do contentamento se destacam pelo despojamento, por uma humildade inclusiva, tratando os demais com respeito sem procurar privilégios. Não se condicionam ao sobrenome, à função ou à origem. A aparência sequer influencia sua postura. Agem de modo igual com os que exibem e os que não exibem posses.

Legam uma impressão rara: a de que o mundo é mais habitável depois de sua passagem. Quem é feliz, facilita. Não porque tenha tido facilidades, mas porque decidiu não dificultar para mais ninguém. 

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02 de Julho de 2026
OPINIÃO RBS

A farra das bondades com o chapéu alheio

Em uma era de crises institucionais recorrentes, em ao menos um aspecto os três poderes da República estão plenamente sintonizados. Não há preocupação do Executivo, do Legislativo e do Judiciário em contribuir para a saúde das contas do país. O clima é de porteira aberta para distribuir bondades, benefícios e regalias por vantagens eleitorais e corporativas. O fato de a fonte dos recursos distribuídos para grupos localizados ou já privilegiados ser o contribuinte também parece importar pouco.

Foi frustrante a decisão desta semana do Supremo Tribunal Federal (STF) de flexibilizar regras para o pagamento dos chamados penduricalhos para categorias como juízes, promotores e procuradores. Ao fim, voltou atrás em parte do limite que a própria Corte havia colocado nesses desembolsos em março. O rompante moralizador arrefeceu rapidamente. A decisão do Supremo legitima contracheques que podem extrapolar em até 70% o teto constitucional de R$ 46 mil. Ou seja, R$ 32,4 mil extras.

A farra das bondades com o chapéu alheio é puxada pelo governo federal, que deveria ter a maior responsabilidade com as finanças do país. Mas, premido por uma batalha pela reeleição que deve ser renhida, devido à rejeição significativa à administração petista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não titubeia em abrir as torneiras dos gastos públicos, dos subsídios, da ampliação oportunista de programas sociais e de medidas de estímulo ao crédito.

Estima-se que o conjunto de programas e benefícios criados ou turbinados pelo Planalto alcance em torno de R$ 200 bilhões. São medidas que ampliam despesas ou impulsionam o consumo de forma artificial. O bem-estar que esse tipo de artifício gera entre os favorecidos é fugaz. Ao cabo, gera uma inflação mais resistente e ameaça o ciclo de corte de juro pelo Banco Central, com reflexo nos próprios níveis de endividamento e de inadimplência.

O Congresso, no mesmo embalo da gastança como se não houvesse um Brasil a administrar pós-eleição, tem o seu próprio cardápio de pautas-bomba com a ampliação da imunidade tributária para igrejas, aposentadoria especial para agentes de saúde e um projeto de lei para aumentar o piso de médicos e dentistas. O governo federal, que minimiza o impacto de seu pacote de bondades, mostra preocupação com as matérias que tramitam na Câmara e no Senado, que poderiam gerar gastos de mais de R$ 100 bilhões por ano. O Planalto ameaça judicializar esses temas e o ministro do STF Gilmar Mendes chegou a propor, no mês passado, uma súmula da Corte para conter pautas-bomba no Congresso. O freio de correção, portanto, viria do mesmo poder que nesta semana deu exemplo de pouco zelo com o dinheiro público quando estavam em jogo vantagens para quem já está no topo das carreiras mais bem pagas do país.

Enquanto isso, em virtude do crescimento das despesas acima das receitas, a Instituição Fiscal Independente (IFI) projetou na semana passada que a dívida bruta do governo, em trajetória explosiva, pode atingir 115% do PIB em 2036 - hoje está em 80,1%. O próximo governo terá que tomar decisões difíceis. Os sacrifícios terão de ser compartilhados pelos demais poderes. _

OPINIÃO RBS

02 de Julho de 2026
POLÍTICA E PODER

Política e poder - Henrique Ternus - (Interino)

Vídeos de Michelle não impactaram

Se levar em conta a pesquisa impugnada por apresentar os áudios de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, o pré-candidato do PL não desidratou desde o último levantamento AtlasIntel como previam os adversários - e alguns aliados.

Flávio pontuou 36,6% na simulação de primeiro turno divulgada ontem, que não exibe os resultados da pesquisa anterior, de maio, pois foi suspensa pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Naquele levantamento, Flávio atingiu 34,3% e constatou queda de 5,4% em relação a abril.

Isso significa que o vídeo de 24 minutos da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, em que critica os enteados Flávio e Eduardo, não impactou a candidatura do filho mais velho de Jair Bolsonaro. Não foi por falta de conhecimento do eleitor: a AtlasIntel fez nove perguntas sobre o caso, depois de aplicar as tradicionais questões sobre em quem o eleitor pretende votar.

O instituto questionou os eleitores sobre quem é mais fiel a Bolsonaro, listando uma série de nomes, entre os quais os de Flávio, Eduardo e Michelle. Depois perguntou se o entrevistado ficou sabendo e assistiu ao vídeo de Michelle e se acha que ela está certa. Essas respostas, entretanto, não foram publicizadas.

No segundo turno, Flávio não conseguiu recuperar o baque sofrido na pesquisa suspensa, e manteve a diferença para Lula. O candidato do PL pontuou 42,3% contra 48,8% do presidente. Em abril, os dois estavam empatados em praticamente 48%. Depois do vazamento do pedido de dinheiro para o dono do Master, Flávio caiu para 41,8%, enquanto Lula ficou estacionado.

O petista, inclusive, tem mais motivos a comemorar. A pesquisa também questionou sobre o envolvimento de Jaques Wagner com Vorcaro e sua saída da liderança do governo no Senado. Lula, entretanto, manteve o patamar das últimas rodadas.

Já a avaliação do governo sofreu um pequeno impacto. Em maio, 42,9% dos eleitores consideravam o governo Lula bom ou ótimo. Um mês e meio depois, 39,7% do público questionado manteve o entendimento.

A nova pesquisa ouviu 5 mil eleitores com 16 anos ou mais, entre 25 e 30 de junho. O levantamento tem nível de confiança de 95% e margem de erro de um ponto percentual, para mais ou para menos. O registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é BR-04582/2026. _

MEIs poderão ocupar Pop Center

Será sancionada na segunda-feira a lei que permite que microempreendedores individuais (MEIs) e microempresários ocupem lojas vagas no Pop Center, no Centro Histórico de Porto Alegre. O prefeito Sebastião Melo fará a assinatura das novas regras em cerimônia no local.

Até agora, a ocupação estava restrita a comerciantes populares, anteriormente chamados de "camelôs", que continuam com a preferência.

Atualmente, o Pop Center registra índice de vacância de 32,5%, com 251 espaços desocupados de um total de 772. _

Gilberto Kassab é confirmado como vice na chapa de Caiado

O pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD) confirmou ontem que sua chapa contará com Gilberto Kassab como vice.

Presidente nacional do PSD e um dos fundadores do partido, Kassab foi prefeito de São Paulo e ministro no governo Dilma Rousseff. Mais recentemente, atuou como secretário na gestão de Tarcísio de Freitas.

Em discurso no ato, Kassab afirmou que o PSD "está preparado para dar à sociedade as respostas que ela precisa" e que uma das bandeiras da frente será a redução da carga tributária.

- Temos uma convicção de que a República está podre. Os poderes estão contaminados - disse Kassab. _

Em ato com mulheres, Flávio diz que Michelle está "desinformada"

Numa tentativa de contenção de crise após o vídeo de Michelle Bolsonaro e a reação do aliado Paulo Figueiredo - que fez críticas à ex-primeira-dama e disse que "mulher não sabe votar" -, o pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, fez um encontro com líderes femininas da direita ontem, em Brasília. Sem as senadoras Tereza Cristina (PP-MS) e Damares Alves (Republicanos-DF), muito menos Michelle, Flávio tratou de pautas ligadas às mulheres que estarão no plano de governo.

Durante discurso, Flávio disse que fica desconfortável em falar da situação envolvendo a madrasta, por quem diz manter "respeito demais". Entretanto, o filho mais velho de Jair Bolsonaro afirmou que Michelle está "desinformada" por insinuar que ele foi à suposta festa sexual "noite das astronautas", organizada por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. _

evitar derrota

A deputada Luciana Genro (PSOL) explicou à coluna que pediu vista da PEC da data-base em acordo com os sindicatos para evitar derrota na CCJ. Naquele momento, havia seis votos contrários a um, e são necessários sete votos favoráveis para aprovação do relatório e autorizar que a medida avance ao plenário. Além disso, segundo a deputada, a medida não estabelece percentuais de reajuste, apenas consolida uma data para a revisão.

POLÍTICA E PODER

quarta-feira, 1 de julho de 2026


01 de Julho de 2026
CARPINEJAR

A Majestade, a bola

A bola oficial da Copa do Mundo é tão completa que só falta falar. Ou apitar o jogo. Desfruta de um sensor que envia dados em tempo real para a arbitragem no VAR. Aquela discussão sobre se ela atravessou a linha do gol ou não acabou por ser extinta.

Eu tive contato com bolas pré-históricas, estilo pneu que murchava. Nem parece que foi nesta vida.

Nas peladas, na várzea, na baba, no rachão da minha infância, nos anos 1970 e 1980, qualquer objeto vagamente esférico nos servia. Já joguei com pedra, com pinha, com bolinha de meia, com novelo de lã.

Experimentávamos um confronto de natureza totalmente livre e selvagem. Escolhíamos os times, um sem camisa e o outro com camisa. Delimitávamos o campo, que podia ser na rua ou num terreno de areia. Improvisávamos goleiras com chinelos, tijolos ou nas portas de garagem.

Em grande parte das vezes, atuávamos descalços. Aceitávamos impedimentos, marcávamos as faltas de acordo com o grau de violência, de modo consensual entre quem agredia e quem apanhava, e o tempo se resolvia pelo placar: até cinco virava, até 10 terminava.

Quando contávamos com uma bola de verdade, achávamo-nos profissionais. Números definiam o seu tamanho: 1, 2, 3, 4 e 5.

Enfrentávamos a missão de fazer a bola durar. Esfregávamos sebo no couro para não rachar. Mas ela morria cedo, antes dos 10 meses. Sua morte acontecia lentamente, estourando ao chocar em cercas, espinhos de árvores e muros pontiagudos.

Ela ia descascando pelo uso, soltando os gomos. Diferentemente da atual, em que os painéis são colados a quente, formando uma barreira impermeável, a nossa majestade na meninice abria fendas na superfície. Na chuva, a água entrava por esses buracos, encharcava o interior da estrutura e a deixava muito mais pesada.

Você passava a conduzir um coco verde. A bola dobrava de peso, chegando a 800 gramas, quase um quilo. Talvez isso explique a força maior de nossos chutes.

Existia uma pele adicional que rapidamente se desfazia pelos paralelepípedos ou campinhos de terra batida.

Ao longo das semanas, a bola perdia o formato redondo original e se tornava um ovo, ocasionando quiques imprevisíveis para o goleiro ou dificultando os passes e arremates. Tentávamos protelar o seu fim o máximo possível, mas a partida ficava praticamente inviável. Você empurrava para a esquerda e ela rolava para a direita.

A câmara de ar interna (de borracha ou látex) expandia mais para os lados onde a costura estava frouxa, criando calombos.

Sua bexiga saltava para fora. Testemunhávamos uma cena horrível, cheia de barulhos estridentes e gemidos a cada novo toque com a sola dos nossos pés.

Ela agonizava com o abscesso, com a hérnia externa, com a válvula dilatada.

Um sentimento de luto dominava os meninos quando a bola adoecia. Transformava-se numa paciente terminal, incurável. Diminuíamos o ritmo da refrega, das divididas, dos encontrões. Evitávamos o atrito passional. A iminência do adeus despertava uma compaixão, um cuidado, um receio de ser o último algoz a furá-la.

Despedíamo-nos de nossa amiga de tantas alegrias. A bola era profundamente humana. 

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01 de Julho de 2026
MÁRIO CORSO

Por que amamos os gatos?

Estou bem acompanhado no meu amor pelas minhas duas gatas, o fã clube do gato é imenso. Não só dentro de casa, o gato virou ícone na internet, há uma saturação imagética dele na cultura digital. O que nele captura a tantos? O homem sempre usou animais para pensar relações sociais, emoções, virtudes e vícios. A raposa é astuta, o leão é corajoso, o cão é fiel, e o gato, o que é?

O gato surgiu como antagonista do rato, isso o marcou arquetipicamente como um colaborador nosso e como oposto do inimigo em comum. O rato é um ser sujo, por viver perto do lixo, no esgoto, impuro; no contraponto o gato é limpo e se é limpo é puro. O rato é noturno, do escuro; nossa imagem de gato é dele deitado ao sol, um ser da luz. O rato é por excelência o animal da contaminação, da peste, e o gato o guardião dessa fronteira. Temos asco pelo rato e atração pelo gato.

O gato é um animal selvagem dentro de casa, predador domesticado mas que nunca foi completamente domado. Isso cria uma tensão: ele é perigoso sem ser ameaçador, próximo sem ser submisso. O cachorro ama você. O gato suporta que você exista. Essa assimetria nos é sedutora.

O gato é um animal que performa o corpo, espreguiça, arqueia, ronrona e lambe-se. É quase exibicionista involuntário. Nós enxergamos sensualidade na sua ioga natural. Não é coincidência que "gatinha" tenha se tornando sinônimo erótico em tantas línguas.

A independência, como valor moderno, também explica o seu sucesso contemporâneo. O gato é o animal do indivíduo urbano hipermoderno, não exige horário, não exige passeio, não exige reciprocidade emocional imediata. É um companheiro que respeita a solidão e sabe esperar.

O mistério é outro engate. O gato é ilegível, a persistência de seu enigma é um obstáculo para que tentemos projetar nele nossos pensamentos, apesar disso, é presente o suficiente para criar vínculo.

Agora que os gatos de rua estão desaparecendo, os gatos tornaram-se aristocratas. Eles levam a vida que gostaríamos de ter. Com todo tempo do mundo para dormir e fruir a existência. Eles são uma oração e um elogio ao silêncio. Eles são o avesso da nossa ansiedade, a pausa da nossa correria, a paz que não encontramos. 

MÁRIO CORSO

01 de Julho de 2026
OPINIÃO RBS

Uma eleição negligenciada

Não chega a surpreender, mas preocupa. Uma pesquisa do Instituto Datafolha publicada na segunda-feira mostrou que 67% dos eleitores entrevistados não lembram em quem votaram para deputado federal em 2022. O nível de esquecimento em relação aos senadores e deputados estaduais escolhidos quatro anos atrás é semelhante: 66%.

Sabe-se há muito que as eleições para os Legislativos no Brasil despertam menor atenção dos eleitores em relação aos postos no Executivo. As disputas para presidente da República, governador e prefeito costumam gerar maior mobilização entre os votantes por expressarem de forma mais patente e personalizada o confronto entre grupos políticos antagônicos. O engajamento é ainda maior quando líderes carismáticos estão nas cabeças de chapa e vão para o embate direto nas urnas. 

Persiste também a percepção solidificada pela tradição presidencialista brasileira de que o governante é a figura forte que personifica o poder e tem o condão de comandar o destino da sociedade que o elegeu. A mesma pesquisa Datafolha aponta que apenas 7% dos ouvidos não lembram em quem votaram para o Palácio do Planalto em 2022. Para governador, o percentual sobe para 38%. Mais alto, mas ainda assim muito distante em relação às taxas dos Legislativos.

A imagem em especial de um presidente da República com grandes prerrogativas de mando, no entanto, ficou no passado. O poder do Congresso é crescente. Desde meados da década anterior está em curso um processo de fortalecimento do parlamento ante o Executivo, notadamente pela apropriação gradual de fatias cada vez maiores do orçamento da União por meio das emendas impositivas. O Congresso ficou mais independente em relação ao Planalto. Move-se por conta própria, por interesses corporativos, patrimonialistas ou dos grupos que representa.

Essas razões fazem com que o eleitor precise dar maior importância à eleição para o Congresso, mas também para os demais Legislativos. Deputados e senadores, de maneira mais visível, passaram a ter maior influência sobre os rumos da política do país e, por isso, mereceriam ser escolhidos com critério pela população que vai às urnas. Seria necessária maior conscientização sobre o papel e a importância da função parlamentar, essencial para uma democracia sadia. 

Prestar atenção às propostas, trajetória política e conduta pessoal dos candidatos certamente contribuiria para a formação de um Congresso mais sintonizado com as prioridades do país e ciente de suas funções precípuas de legislar e fiscalizar o Executivo, e não de distribuir dinheiro via emendas.

As pesquisas de opinião atestam que a imagem do Congresso é péssima. Outra sondagem do Datafolha, de agosto do ano passado, mostrou 78% dos entrevistados apontando que os parlamentares atuavam principalmente em busca de interesses próprios. Somente o próprio eleitor dispõe do poder de alterar essa realidade que lembra a advertência, atribuída ao ex-deputado Ulysses Guimarães, de que a tendência era a qualidade do conjunto de deputados e senadores piorar a cada legislatura. Quem não lembra o nome do deputado ou senador em quem votou tem parcela de responsabilidade pelo quadro vigente.