sexta-feira, 7 de agosto de 2026

ORÇAMENTO DOMÉSTICO

Endividamento das famílias sobe para 82%, mas inadimplência cai

Orçamento doméstico

O indicador que mede a proporção de famílias que têm dívidas, em atraso ou não, chegou a 82% em julho, marcando o maior patamar já registrado pelo sexto mês seguido. Em junho, o índice era 81,6%; enquanto, em julho do ano passado, 78,5%.

Mas a parcela de famílias com dívidas atrasadas, a inadimplência, recuou para 29,8% em julho. No mês anterior, estava em 29,9%, e, há um ano, em 30%.

O tempo médio de pagamento em atraso das contas ficou em 64,6 dias em julho, mostrando trajetória de queda desde abril, quando estava em 65,1 dias. Os dados fazem parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada ontem pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

O levantamento é feito com 18 mil famílias de todo o país. São levadas em consideração dívidas com cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e casa.

A pesquisa mostra que as famílias têm, em média, 29,5% do orçamento atrelado a dívidas, com tempo médio de comprometimento de 7,2 meses.

A CNC ressalta que dívida não é necessariamente um comportamento financeiro negativo, uma vez que é uma forma de direcionar dinheiro para o consumo, o que aquece a economia como um todo. Mas, a instituição adverte que o índice de endividamento preocupa quando as famílias começam a apresentar dificuldade na capacidade de honrar os pagamentos.

Para o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, o elevado comprometimento da renda mostra que a recuperação da capacidade de consumo das famílias será gradual.

- A continuidade do processo de flexibilização monetária (queda da taxa Selic), condicionada ao comportamento da inflação, poderá ajudar a aliviar o orçamento doméstico e reduzir a pressão financeira principalmente sobre as famílias de menor renda - afirma. _ 

07 de Agosto de 2026
EDITORIAL

EDITORIAL

Uma homenagem a eles

Meu pai sempre gostou de inventar moda na cozinha. Foi com ele que aprendi a usar o tomilho e o alecrim no preparo das carnes. Ele também me ensinou a acender o fogo da churrasqueira usando uma garrafa de vidro envolvida em folhas de jornal. Mas seus ensinamentos não ficam apenas na culinária. Mesmo passados 20 anos, lembro dele voltando das viagens de trabalho pelo interior do Estado, trazendo uma coberta da Minnie da qual demorei muito, mas muitos anos mesmo, para me desfazer. Foi ele quem me apresentou ao Pequeno Príncipe e me contou inúmeras histórias antes de dormir.

Seu Adroaldo nunca fez curso de culinária, mas é um verdadeiro entusiasta no assunto. Com ele aprendi, desde piá, as músicas da torcida do nosso time do coração e também a não ter medo de arriscar. A todos os papais de plantão que nos leem, preparamos este caderno para celebrar suas vidas.

Vocês nos ensinam a arte de amar e a importância de sermos corajosos, seja ao escolher os ingredientes para o preparo dos alimentos ou ao repassar às futuras gerações o legado construído ao longo de uma vida. Nas próximas páginas, conheça a história de três chefs que dividem a rotina intensa da cozinha com a paternidade. 

Confira também uma hotlist para celebrar o Dia dos Pais, seja tomando uma cervejinha gelada, revisitando um restaurante clássico de Porto Alegre ou conhecendo um endereço recém-inaugurado. Adro, te amo! Feliz Dia dos Pais!

Brunna Oliveira - Analista de Conteúdo

07 de Agosto de 2026
CONTAS PÚBLICAS

CONTAS PÚBLICAS

Alta da dívida decorre dos juros elevados, diz Durigan

Dados mais recentes mostram que passivo federal chegou a R$ 9,2 trilhões. Ministro afirma que aumento se dá em razão da rolagem de débitos antigos. Para os adversários de Lula, a gestão petista não tem compromisso com a responsabilidade fiscal e com o corte de despesas

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o aumento da dívida brasileira não se deve ao crescimento de gastos, e sim aos juros altos que são cobrados no país. Segundo ele, isso ocorre por conta da necessidade de o governo federal pagar dívidas antigas com títulos novos, o que implica em mais pagamento de juros.

A declaração do ministro foi dada ontem em entrevista à GloboNews. Ele explicou que, de fato, há relação entre a questão fiscal e os juros, mas que há também outros fatores decisivos que acabam por influenciar as altas taxas cobradas no Brasil.

O aumento da dívida pública é um dos pontos explorados pela oposição à atual gestão. Candidatos à Presidência levantam o tema para atacar a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição. Para os críticos, o governo petista não tem compromisso com a responsabilidade fiscal, gastando mais do que arrecada em vez de adotar medidas para equilibrar as contas. Os adversários do atual presidente pregam o corte de despesas como alternativa para enfrentar o débito e a alta de juros.

A equipe de Flávio Bolsonaro (PL), por exemplo, defende o enxugamento da máquina pública e a venda de ativos da União como formas de recuperar a confiança na condução das contas públicas.

Perguntado se os gastos favorecem o cenário de juros altos, Durigan disse que "o governo não está gastando mais do que arrecada".

- O que acontece é que estamos pagando dívidas antigas com títulos novos. É, portanto, na gestão da dívida que estamos aumentando a dívida. É na rolagem da dívida, e não nos gastos - complementou.

Dados divulgados pelo Tesouro Nacional mostram que a emissão forte de títulos vinculados à taxa Selic, o juro básico da economia, fez a dívida pública federal subir em junho, superando os R$ 9,2 trilhões. Durigan reiterou que os juros elevados são o principal fator por trás do aumento.

- Estamos com um problema na economia brasileira que é a taxa de juros e quanto isso afeta o endividamento, seja público, seja privado. O compromisso do governo é fazer todo o possível dentro do ponto de vista fiscal, que é o que está mais próximo, para endereçar essa questão dos juros no próximo mandato. O juro machuca muito a economia brasileira como um todo, não só o governo - acrescentou.

Ele destacou que, do ponto de vista econômico, o país está muito bem, "com o melhor resultado de inflação da história" e as agências internacionais de risco melhorando cada vez mais as avaliações sobre o país.

Os comentários ocorrem um dia após o Comitê de Política Monetária (Copom) cortar a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,25% para 14% ao ano. Esse foi o quarto corte consecutivo da taxa. Antes do início do ciclo de calibração, o juro estava em 15%.

Incerteza elevada

Questionado se haveria uma má vontade do mercado financeiro ao estabelecer a taxa de juros futura, Durigan disse que não atribui o cenário atual a uma má vontade, mas sim ao grau de incerteza elevado e a uma certa ansiedade com a eleição:

- Estamos falando de o mercado comprar títulos de longo prazo, estamos falando de títulos de três, cinco e 10 anos e essa projeção de futuro que hoje está em jogo.

Segundo Durigan, o governo Lula melhorou as contas públicas, o que resultou em um ajuste de dois pontos percentuais (pp) do Produto Interno Bruto (PIB) no déficit primário (que exclui juros e correção da dívida). _

07 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Faltou profundidade aos pré-candidatos no debate

É natural que, no primeiro debate de uma campanha eleitoral, os pré-candidatos ainda estejam aquecendo os motores e mais preocupados em se tornar conhecidos dos eleitores. Mas, a menos de dois meses do primeiro turno, seria esperado que houvesse mais profundidade por parte daqueles que desejam o voto dos gaúchos.

O formato do debate promovido pela Rádio Gaúcha, ontem, na PUCRS, favorecia justamente a pluralidade de assuntos. Algumas perguntas partiram de entidades representativas do Estado e abordaram temas como cooperativismo, saúde, transparência, inteligência artificial e empreendedorismo. Mas, na maior parte das vezes, os postulantes responderam pouco às questões formuladas. Perderam oportunidades valiosas de dialogar diretamente com os setores que, além de representarem uma parcela significativa do eleitorado, impulsionam o desenvolvimento econômico e social do Estado.

Nas raras ocasiões em que permaneceram nos temas propostos, faltou profundidade. Embora tenham sido estimulados, logo na abertura, a apresentar propostas concretas, poucos explicaram como pretendem colocá-las em prática, e nenhum abordou de onde virão os recursos para financiá-las. Em tempos de restrição fiscal, o "de onde virá o dinheiro" é a principal pergunta que um pré-candidato a governador precisa responder.

Educação, saúde e segurança pública foram os temas que mais apareceram, três áreas que serviram de escada nas estratégias dos debatedores para atacar o adversário, de forma individual ou em dupla, a chamada "dobradinha", que ficou muito clara, desde o início do evento, entre Juliana Brizola (PDT) e Marcelo Maranata (PSDB) contra Gabriel Souza (MDB). O vice-governador, aliás, foi o foco das críticas, enquanto o ex-prefeito de Guaíba buscou apresentar-se como terceira via. Luciano Zucco (PL) explorou a condição de ser oposição tanto no Estado quanto em nível nacional.

Em um debate, em geral, morno, Juliana e Gabriel protagonizaram o momento mais quente, próximo ao final, quando a ex-deputada desafiou o vice-governador a dizer como irá governar, caso eleito, diante da previsão de déficit orçamentário. Gabriel respondeu questionando quais programas da atual gestão ela manteria, caso chegue ao Piratini. Foi um dos poucos momentos em que a discussão tangenciou o desafio concreto de administrar as contas públicas.

Também chamou a atenção a ausência de temas estruturantes para o futuro do Estado. Praticamente não se falou sobre agronegócio, indústria, infraestrutura, cultura, sustentabilidade e mudanças climáticas.

Em um Rio Grande do Sul que viveu sua maior tragédia ambiental e enfrenta eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, adaptação e resiliência deveriam estar no topo dos planos de governo. O sistema de proteção contra cheias apareceu apenas nos minutos finais, em um confronto entre Gabriel e Maranata, e ainda assim de forma superficial.

Como estratégia, os quatro pré-candidatos administraram cuidadosamente o tempo para garantir os segundos finais dos blocos de confronto direto, tentando ficar com a última palavra. Nos próximos, espera-se que a mesma habilidade seja empregada para aprofundar as respostas e discutir, com mais objetividade, concretude e profundidade, os caminhos para o Estado. _

Marcelo Gleiser de volta ao RS

Marcelo Gleiser voltará a Porto Alegre, na próxima terça-feira, para o lançamento do filme A Dança do Universo. 

A obra entrelaça biografia, ciência e filosofia ao acompanhar a trajetória do cientista, das raízes no Rio de Janeiro à criação da chamada "Ilha do Conhecimento", seu centro de imersões e retiros para executivos, situado em uma vila do século 16, na Toscana (Itália).

O filme convida a uma reflexão sobre como o conhecimento amplia, em vez de dissipar, o mistério que envolve a vida e o universo. Professor de Física e Astronomia no Dartmouth College, nos EUA, Gleiser é reconhecido internacionalmente por centenas de artigos e ensaios e por popularizar temas científicos.

A pré-estreia será na sala 5 do GNC Cinemas, do Moinhos Shopping. Haverá palestra com Gleiser.

O cientista virá a Porto Alegre a convite do Instituto Cidadania Cabanellos e da Ajuris, com apoio institucional da PUCRS. 

Honraria a Cármen Lúcia

A Associação dos Procuradores do Estado do Rio Grande do Sul (Apergs), que representa os procuradores do Estado, entregou à ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), a medalha Antônio Estevão Allgayer - 60 anos.

Uma comitiva da entidade foi recebida, em Brasília, no gabinete da magistrada ontem. A homenagem reconhece personalidades que tenham prestado relevantes contribuições à advocacia pública e às instituições brasileiras.

A comitiva gaúcha foi liderada pela presidente da Apergs, Patrícia Bernardi Dall?Acqua, acompanhada pelo vice-presidente, Telmo Lemos Filho, pelo diretor Luis Carlos Kothe Hagemann e pelo presidente da Associação Nacional dos Procuradores dos Estados e do Distrito Federal (Anape), Hélder de Araújo Barros.

A medalha foi criada no contexto das comemorações pelos 60 anos da entidade, celebrados em 25 de agosto de 2026.  Direito de pergunta: ministro José Múcio, se basta abrir o portão, para que servem as Forças Armadas?

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

06 de Agosto de 2026
ROGER LERINA

Viva a muvuca

A história da música no Brasil mudou a partir de 11 de janeiro de 1985. A data de surgimento da cultura dos grandes festivais no país é marcada pelo primeiro dos 10 dias do Rock in Rio, que reuniram no total quase 1,4 milhão de pessoas. Eu testemunhei esse nascimento, adolescente empolgado em meio a um mar de gente curtindo ao vivo as lendas do rock Iron Maiden e Queen. O primeiro show do Rock in Rio, entretanto, foi de Ney Matogrosso, artista que não era identificado com o gênero que batizou o evento carioca. (Aos 85 anos e em plena atividade, o cantor segue mais inquieto e libertário do que muitos roqueiros. Mas esse é outro assunto.)

Quatro décadas depois - e com uma longa lista de festivais no currículo -, voltei a encarar uma dessas maratonas musicais no sábado passado. Um dos maiores eventos nacionais do tipo, o João Rock reuniu cerca de 65 mil pessoas que assistiram a 34 atrações em um espaço aberto enorme em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. No palco, havia dois expoentes da música brasileira veteranos como eu do Rock in Rio inaugural: Os Paralamas do Sucesso e Alceu Valença. Aliás, uma das características mais bacanas desse festival paulista - que em breve ganhará edição também em Porto Alegre, provavelmente já no ano que vem - é escalar apenas artistas nacionais.

Outra semelhança com aquele megaevento que acompanhei aos 16 anos, fascinado e exausto, é que, além do estilo musical que leva no nome, o João Rock apresentou nos seus cinco palcos nomes da MPB, rap, hip hop, reggae e pop. Misturar os gêneros é um formato adotado cada vez mais por festivais aqui e lá fora - para contrariedade de puristas que prefeririam cada um no seu quadrado: roqueiros no Lollapalooza, jazzistas no Free Jazz, hip hop no Rap In Cena. Tá legal, eu aceito o argumento - penso, porém, que tanto os eventos puro-sangue quanto os mestiços são igualmente relevantes e podem coexistir de boas em suas singularidades.

Para além das predileções individuais, festivais como o Planeta Atlântida, por exemplo, promovem graças a suas programações artísticas ecléticas encontros entre públicos de diferentes tribos, comportamentos, perfis sociais e culturais, gerações. Neste mundo cada vez mais desagregado, em que o convívio presencial é relegado em favor da solitária virtualidade das telas, a saudável catarse de uma galera heterogênea que canta e dança assistindo junto ao show de um mesmo ídolo é uma afirmação de vitalidade do espírito coletivo. Confraternizar cansa, mas a energia única que em um festival imanta palco e plateia vale a muvuca. 

ROGER LERINA

06 de Agosto de 2026
OPINIÃO RBS

Tensões diplomáticas são sinal dos tempos

O final da terça-feira foi trepidante para as relações internacionais brasileiras, com a lamentável escalada das tensões diplomáticas com os Estados Unidos e a Argentina, nações com as quais o país cultiva vínculos seculares de amizade e parceria comercial. A Casa Branca anunciou a revogação do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Seria uma resposta à demora do Brasil em conceder o aval para que Daniel Perez assuma a embaixada dos EUA em Brasília. Poucas horas depois, o Itamaraty, em meio à elaboração da resposta à decisão do governo Trump, informou que estava rebaixando o nível das relações diplomáticas com a Argentina. A decisão implica manter no Brasil o embaixador Julio Bitelli, que atua em Buenos Aires, enquanto o mandatário do país vizinho, Javier Milei, continuar a insultar autoridades brasileiras, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O momento de tensionamento, talvez sem precedentes, demonstra a extrapolação para o cenário internacional da polarização política doméstica que se acirra, sem sinais de arrefecimento, nos países democráticos desde meados da década passada. Trata-se de algo bastante semelhante à radicalização ideológica interna observada em países como o próprio Brasil e os EUA e a Argentina, entre inúmeros outros.

Nos contextos nacionais, a exacerbação dos ânimos pelas diferenças de visão de mundo e de valores esgarça o tecido social, corrói a confiança entre os cidadãos e nas instituições, abala relações pessoais e familiares e torna as disputas eleitorais mais virulentas. Não raro, as desconfianças mútuas, a incapacidade de dialogar e a intolerância em relação a quem pensa de maneira distinta descambam para a violência política.

Torna-se também mais evidente que, da mesma forma que grupos de um país com posições semelhantes se aglutinam, buscam alianças no Exterior por afinidade. A intromissão em assuntos internos, como eleições, torna-se mais frequente e ousada. Instituições multilaterais são enfraquecidas. Quem não é alinhado é visto como potencial inimigo.

A gravidade da situação sobe alguns degraus quando as posições mais extremadas passam a contaminar inclusive a diplomacia, que deveria servir de anteparo para eventuais ruídos derivados da retórica mais contundente dos chefes de Estado, em nome da preservação das relações duradouras entre os países. Esquece-se que governos e presidentes são transitórios, enquanto as nações ficam.

A postura histórica da política exterior do Brasil não é de alinhamento automático a potências, mas de busca por equidistância, em nome de seus próprios interesses, com autonomia e pragmatismo, independentemente da coloração política do presidente de turno. Apesar da época desafiadora, é preciso manter esse legado que procura flexibilidade para extrair vantagens dos diferentes polos.

Espera-se que não tarde muito para que fique no passado essa quadra soturna da História, marcada por divisões geopolíticas exacerbadas, conflitos e prevalência da lei do mais forte. Deixar para trás essa fase depende de os próprios países, notadamente as sociedades democráticas, encontrarem caminhos para a reconciliação interna. _

06 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

O que esperar do primeiro debate

Com apenas quatro candidatos enquadrados nos critérios que a lei estabelece para participação obrigatória nos debates, o confronto de hoje, na Rádio Gaúcha, promete ser produtivo. Tempo não faltará para que Gabriel Souza (MDB), Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB) exponham seus projetos para governar o Rio Grande do Sul. É importante que digam não apenas o que pretendem fazer, mas como.

Todos os quatro candidatos sabem que o orçamento de 2027 será apertado e que os anos seguintes não serão fáceis. Só isso é suficiente para que tomem cuidado na hora de fazer promessas que só cabem na caixinha das boas intenções.

Em vez de apenas sortear um tema para que os concorrentes debatam, a produção optou por encaminhar perguntas elaboradas por jornalistas ou feitas por líderes de entidades, que um responderá e escolherá um adversário para debater. Isso deve garantir que todos os temas relevantes sejam abordados.

Haverá também um bloco livre para que os quatro levantem assuntos que estão na sua lista de prioridades e escolham com quem querem debater.

O debate é da Gaúcha, mas o alcance é incalculável. Além da transmissão pelas Gaúchas Porto Alegre, Santa Maria, Serra, Zona Sul e Passo Fundo e por emissoras de rádio do Interior que se interessaram em entrar em cadeia, o público poderá acompanhar em imagens pelo YouTube da Rádio Gaúcha. Tudo isso sem contar a cobertura de GZH e a repercussão nas redes sociais.

Para tornar ainda mais atraente o debate, que será mediado pela jornalista Andressa Xavier, o palco será o do teatro do prédio 40 da PUCRS, com espaço para uma plateia de convidados e assessores. É um debate produzido com a certeza de que a melhor forma de ajudar o eleitor a fazer sua escolha é mostrar os candidatos como eles são, o que é bem diferente da propaganda eleitoral. Essa começa em 16 de agosto. _

Governo Leite celebra salto no Ideb

Quando assumiu o segundo mandato, o governador Eduardo Leite decretou que a educação seria a sua prioridade número 1. Ampliou investimentos, criou programas, liberou a secretária Raquel Teixeira das tarefas relacionadas a obras, para que se focasse na pedagogia.

Os resultados apareceram na forma de um salto no Ideb divulgado ontem, ainda que os números do Brasil, como um todo, estejam distantes do ideal. Os resultados poderiam ter sido melhores, não fossem as enchentes de 2023 e 2024. Em 2025, Leite chamou o ex-secretário da Fazenda Aod Cunha para participar de um grupo que funciona nos moldes do programa RS Seguro, na expectativa de melhorar os índices da educação como conseguiu reduzir os da criminalidade.

Ao receber os resultados do Ideb, o grupo envolvido no trabalho comemorou. Porque o Estado conseguiu melhorar o desempenho nos anos iniciais e finais do Ensino Fundamental e, principalmente, no Ensino Médio. Nos anos iniciais, ficou com nota 6,3. O Paraná é o primeiro com 7 e o Ceará, o segundo com 6,8. Nos anos finais, o Estado pulou para o 8º lugar, com média 5,4. O Paraná, novamente o primeiro, tem 5,9.

O grande salto ocorreu no Ensino Médio, ainda que a nota 4,9 não seja motivo de comemoração, sendo a escala de zero a 10. O RS ficou atrás do Paraná (5,1) e do Piauí (5) e ao lado do Espírito Santo (4,9). _

O que a escolha do vice diz sobre a estratégia de Flávio Bolsonaro

Para a maioria dos eleitores brasileiros, o nome de Alfredo Gaspar diz pouco ou nada. Deputado federal pelo PL de Alagoas, é ele a surpresa anunciada por Flávio Bolsonaro para ser seu vice.

Gaspar não é uma dessas estrelas do Congresso. Sua visibilidade se deve à CPI do INSS, da qual foi relator, e aí reside a principal explicação para a escolha do seu nome como vice de Flávio.

O PL identifica no escândalo do INSS o calcanhar de Aquiles de Lula, ainda que os desvios tenham começado no governo de Michel Temer e continuado no de Jair Bolsonaro. Porque foi no governo Lula que a fraude cresceu e se multiplicou. Também foi na gestão Lula que a torneira se fechou e é isso que o presidente vai dizer em sua defesa. _

Disputa apertada para a Presidência

Com números ligeiramente diferentes, duas pesquisas divulgadas ontem - uma da Quaest e uma da Meio/Ideia - mostram o mesmo cenário. O presidente Lula lidera as intenções de voto no primeiro e no segundo turnos, com diferença semelhante em relação a Flávio Bolsonaro. Todos os demais concorrentes seguem numa espécie de limbo.

Na Quaest, Lula tem 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 30% de Flávio. No segundo pelotão, vêm Renan Santos (Missão), com 4%, Ronaldo Caiado (PSD), 4%, e Romeu Zema (Novo), com 2%. Os demais ficam abaixo de 1%. Brancos, nulos, indecisos e eleitores que não pretendem votar chegam a 18%. _

Segundo turno mantém tendência

Respeitadas as margens de erro, os números do segundo turno também são convergentes quanto à diferença entre os dois candidatos. Na Quaest, Lula tem 44% e Flávio, 39%. Na Meio/Ideia, Lula vai a 48,5% e Flávio fica com 43%.

De novo, a diferença se explica pelos índices de indecisos, brancos e nulos. Na Quaest, os brancos, nulos, indecisos e eleitores que não pretendem votar somam 17%. Na Meio/Ideia, 8,5%.

O mesmo ocorre com a rejeição. Na Quaest, Flávio é rejeitado por 54% dos eleitores e Lula por 52%. Na Meio/Ideia, também ocorre empate técnico. Flávio é rejeitado por 48% dos entrevistados e Lula por 47,4%.

A pesquisa Quaest ouviu 2.004 pessoas entre os dias 31 de julho e 3 de agosto. O nível de confiança é de 95%, e a margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O registro do levantamento no TSE é BR-06591-2026.

A pesquisa Meio/Ideia ouviu 1.500 pessoas entre os dias 31 de julho e 3 de agosto. O nível de confiança é de 95%, e a margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, para mais e para menos. O registro do levantamento no TSE é BR-04579/2026. _

mirante

Uma decisão liminar suspendeu o mandato do deputado Valdir Bonatto (PSD), por infidelidade partidária. A ação foi movida pelo PSDB, partido que Bonatto deixou em janeiro, antes da janela partidária. A suplente Zilá Breitenbach (PSDB) assumirá a cadeira no seu lugar.

A coluna errou com o partido UP. Seu significado é Unidade Popular. União Progressista é o nome da federação PP-União Brasil.

POLÍTICA E PODER

06 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Diplomacia enfrenta crises em frentes diversas

Este é um dos momentos mais desafiadores da diplomacia brasileira desde a redemocratização. O país enfrenta, simultaneamente, a pressão do governo Donald Trump na disputa tarifária, a revogação do visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, e o rebaixamento das relações diplomáticas com a Argentina em razão dos sucessivos ataques de Javier Milei ao presidente Lula e a outras autoridades.

O Brasil já atravessou crises importantes com Washington - como a provocada pelas revelações de espionagem feitas por Edward Snowden, em 2013, durante o governo Dilma Rousseff. Também enfrentou momentos de tensão com a Argentina e disputas comerciais. O que torna a conjuntura atual singular é a coincidência temporal desses episódios, agravada por uma campanha eleitoral que internacionalizou a política brasileira.

O problema é que o Itamaraty foi erigido de forma a administrar crises pontuais, não para lidar com incêndios em várias frentes simultâneas. Desde o Barão do Rio Branco, a diplomacia brasileira construiu sua reputação sobre dois pilares: diversificação de parceiros e solução negociada de controvérsias. Hoje, porém, esses princípios são testados simultaneamente em diferentes direções.

A política doméstica passou a contaminar a política externa. Não por acaso, as declarações de Milei ocorreram justamente na convenção que oficializou Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência e foram interpretadas pelo Itamaraty como extrapolação dos limites aceitáveis da relação entre Estados.

No caso dos Estados Unidos, a crise vai muito além do protocolo diplomático. Os americanos continuam sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil e o aliado histórico mais antigo do país. Foram, afinal, a primeira nação a reconhecer a independência brasileira, em 1824, apenas oito meses após a proclamação. Esse gesto inaugurou a relação bilateral que atravessou impérios, repúblicas, guerras mundiais e a Guerra Fria.

A história com a Argentina foi diferente. Ela começou sob o signo da rivalidade, em meio à Guerra da Cisplatina e às disputas pela liderança da Bacia do Prata. No século 19, brasileiros e argentinos foram os principais concorrentes geopolíticos da América do Sul. A desconfiança persistiu durante boa parte do século 20. Na década de 1970 e no início dos anos 1980, embora nunca tenha havido corrida armamentista declarada, os dois países observavam com cautela seus programas nucleares, temendo que o vizinho pudesse desenvolver capacidade para fabricar a bomba atômica.

Embates simultâneos

A transformação dessa rivalidade em parceria estratégica só começou com a redemocratização, culminando na criação do Mercosul e da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC), um dos mais bem-sucedidos mecanismos de confiança mútua do mundo.

O Brasil, portanto, enfrenta atritos simultâneos com seu maior parceiro no hemisfério, os Estados Unidos, com seu principal vizinho, a Argentina, e em meio a uma campanha presidencial fortemente internacionalizada. Política externa raramente decide eleições, mas frequentemente é utilizada para mobilizar militâncias e alimentar narrativas domésticas. Caberá ao Itamaraty impedir que divergências entre governos contaminem interesses permanentes do Estado brasileiro.

Como já defendido por esta coluna: presidentes passam, relações entre países precisam permanecer. _

Papa virá à América do Sul

O Vaticano confirmou a viagem do papa Leão XIV à América do Sul. O Pontífice deve passar, entre 6 e 17 de novembro, por Uruguai, Argentina e Peru.

Era esperado que ele passasse pelo Brasil, principalmente pela região da fronteira do RS, porém o país ficou de fora da viagem apostólica.

Conforme comunicado do Vaticano, Leão XIV passará primeiro pelo Uruguai, entre os dias 6 e 8 de novembro, nas cidades de Montevidéu, Paysandú e Florida. Entre 8 e 11 de novembro, visitará a Argentina, passando por Buenos Aires, Córdoba e Luján. Por fim, estará no Peru entre os dias 11 e 17, visitando Lima, Chiclayo, Cusco e Pucallpa.

De acordo com a nota, "o programa da viagem será divulgado mais adiante".

Países visitados

O roteiro pela Argentina era esperado ainda durante o pontificado de Francisco. Desde a eleição de Jorge Mario Bergoglio, em 2013, o Pontífice não retornou ao seu país natal.

O Uruguai foi incluído no roteiro devido à proximidade geográfica. Até o anúncio de ontem, as cidades uruguaias que vão receber o Pontífice estavam indefinidas e tanto Paysandú quanto Rivera - esta última na fronteira com Santana do Livramento, no RS - estavam cotadas. Por causa disso, especulava-se uma possibilidade de visita do papa ao Brasil - o que não se confirmou, já que Paysandú foi escolhida.

A ida ao Peru também tem relação direta com o atual Líder da Igreja Católica. Depois de deixar os EUA, Robert Prevost viveu e trabalhou por cerca de 25 anos no país da América do Sul como missionário agostiniano. _

Questionada sobre por que o Brasil não foi incluído no roteiro do papa Leão XIV pela América Latina, uma fonte da coluna no Vaticano respondeu com uma frase sugestiva: "Chegará o momento".

Imprensa argentina repercute atritos

Os principais jornais da Argentina repercutiram, ontem, a escalada da crise diplomática entre o Brasil e o país vizinho.

O jornal Clarín trazia como manchete principal: "Por insultos de Milei a Lula, Brasil não vai repor o seu embaixador". Com a decisão de rebaixamento diplomático, o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, permanecerá em Brasília. O também portenho La Nación destacou: "Brasil endurece posição: embaixador não retornará devido aos insultos de Milei a Lula".

Um dos jornais mais antigos da Argentina, o La Capital, fundado em 1867, trazia a manchete: "Decisão inédita: Brasil retira o seu embaixador da Argentina". O Página/12, jornal alinhado a posicionamentos de esquerda, trouxe o título no topo da página: "Escalou a crise: Brasil retira seu embaixador". _

Jurista gaúcho eternizado

A trajetória do gaúcho Paulo Brossard de Souza Pinto, jurista e ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF), será eternizada no livro O Avesso do Arbítrio: Estudos em Homenagem a Paulo Brossard de Souza Pinto, obra que será lançada hoje na Biblioteca do STF, em Brasília.

Coordenada pelos juristas Guilherme Barcelos, Gustavo Bohrer Paim e Miguel Tedesco Wedy, a publicação reúne personalidades para revisitar a trajetória de Brossard. O prefácio é assinado pelo ex-presidente da República José Sarney; a apresentação, pelo ministro Gilmar Mendes; o artigo principal, pelo ministro André Mendonça; e o posfácio, pela ministra Maria Cristina Peduzzi.

Natural de Bagé, Paulo Brossard construiu trajetória marcante na advocacia, no Parlamento, no Ministério da Justiça, na academia e no STF. _

INFORME ESPECIAL

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

05 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

Spectreman e Ultraman

Quando pequeno, fui muito mais ingênuo do que as crianças das gerações de hoje. Recentemente, recebi a prova cabal do quanto era pueril. Meu melhor amigo Zé, companheiro das peraltices, mandou um episódio do Spectreman, série japonesa que impactou a minha infância no fim dos anos 1970.

Na história, Kenji, um homem pacato, transformava-se num androide, num super-herói robotizado sobrevoando os céus para promover justiça.

Mas ele não era humano. Usava essa aparência como disfarce. Havia sido enviado à Terra para proteger a humanidade da destruição causada pela poluição.

Uma criança atual não ficaria um minuto assistindo àquelas aventuras apocalípticas, nem as levaria a sério, nem cogitaria que pudessem ser verdadeiras. No máximo, iria rir do orçamento baixo, da produção amadora, das luzinhas piscando na carcaça de sucata como árvore de Natal. Sequer uma maquete no trabalho de artes do primário seria tão malfeita. As cidades se desmanchavam como papelão com o surgimento de um monstro gigante, pois realmente se tratava de papelão.

Já eu confiava piamente. Eu me assustava com uma versão tosca e primitiva dos Mutantes. Arregalava os olhos ao ouvir o chamado de urgência dos habitantes de Nebula 71, asteroide que vagava livremente pelo espaço e fiscalizava conflitos no universo.

"Spectreman, essa é a voz dos Dominantes. Prevemos uma catástrofe ecológica em plena Baía de Tóquio. Horário terrestre: 19h. Sua missão é investigar imediatamente. Lembre-se de que não deve revelar sua identidade a nenhum nativo deste planeta. Está preparado, Spectreman?"

Minha fantasia perdoava a precariedade dos efeitos especiais. Eu não entendo como, porém dava um desconto, uma licença poética. Não me mostrava exigente. Talvez porque meus brinquedos se resumiam a uma bola, um pião, uma pandorga, uma corda e um carrinho de rolimã, e eu estava acostumado a enxergar bem mais do que acontecia na vida real. Eu inflacionava os fatos com a narração dos pensamentos, com o faz de conta.

Havia, também, entre os meus seriados de predileção, o antecessor de Spectreman: o Ultraman, um dos maiores ícones da cultura pop japonesa e um marco do gênero tokusatsu, que completava a minha galeria de exemplos sobrenaturais.

Quando os colegas debochavam de mim ou queriam me humilhar, eu imitava na escola os golpes básicos de defesa: Spacium Ray (braços em um sinal de +, com o braço direito vertical e o esquerdo horizontal, para disparar um poderoso raio capaz de demolir tudo pela frente), Lâmina (um disco semelhante a uma serra circular, jogado dos cotovelos em direção aos inimigos), Raio de Ataque-Ultra (uma onda de anéis de energia verde desferidos do punho fechado), Rajada (em forma de flecha, com uma mão acima da outra), Ultra Corrente de Água (um jato para apagar incêndios), Raio de Fluoroscopia (feixe de luz que tornava os objetos invisíveis), Ultra-Separação (criava duplicatas exatas de si, permitindo que cada uma lutasse com autonomia, inclusive em longas distâncias).

Nunca funcionou contra o bullying, apenas apanhei mais. Mas jamais deixei de tentar, de me concentrar, de executar as coreografias. Vá que, um dia, uma galáxia longínqua reparasse no meu sofrimento crédulo, esperançoso de um milagre.

Eu acreditava na minha salvação. Dependia mesmo de um super-herói. Ainda que fosse eu. _

CARPINEJAR

05 de Agosto de 2026
OPINIÃO

Suspeitas à espera de esclarecimento

Se as suspeitas existem, não há outro caminho senão tirá-las a limpo. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino autorizou ontem a abertura de um novo inquérito para investigar possível tráfico de influência pelo empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. O filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outras pessoas terão as condutas analisadas para verificar a suposta busca por vantagens ilícitas em negócios com o governo federal. 

Outras duas investigações envolvendo Lulinha pedidas pela Polícia Federal foram autorizadas na semana passada pelo ministro André Mendonça. São relacionadas ao Ministério da Saúde e à Dataprev, empresa de tecnologia da Previdência. Essas apurações também vão averiguar se houve crime de corrupção, além de tráfico de influência e outras irregularidades.

É preciso elucidar se Lulinha usou ou não a condição de filho do presidente da República para influenciar ministérios ou órgão do governo em benefício de terceiros e o que teria ganhado com isso. Fábio Luís não deve ter tratamento privilegiado ou mais duro pela filiação e, como qualquer investigado, tem direito à ampla defesa e à presunção de inocência. 

Dino autorizou uma quarta investigação, sobre o vazamento de informações do caso. Mas é notório que, pelas implicações políticas, Lulinha terá de se esforçar em dobro para demonstrar que não cometeu irregularidades. A exploração do caso na campanha eleitoral é natural.

Se Dino autorizou o terceiro inquérito é por ter sido convencido de que há elementos que exigem apuração. Aliás, o fato de um indicado por Lula para o STF ter concordado com a investigação enfraquece a tese de que os dois inquéritos anteriores, assentidos por Mendonça, designado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, teriam fundo político. Cumpre lembrar que há duas semanas Mendonça autorizou apuração para averiguar o destino dos repasses de dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse, caso que atinge Flávio Bolsonaro, adversário de Lula na disputa presidencial.

Nos inquéritos sobre Lulinha, a personagem comum é a empresária e lobista Roberta Luchsinger, que estaria atrás de contatos privilegiados para intermediar negócios com o governo. Ela prestou serviços ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, preso em razão do escândalo dos descontos indevidos em aposentadorias. As investigações sobre Lulinha não são relacionadas ao INSS, mas as suspeitas agora analisadas surgiram ao longo do caso.

O ex-chefe de gabinete do presidente Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, também é implicado nesse terceiro inquérito. Ele recebeu um repasse de dinheiro de Roberta. Alega ter sido um empréstimo, já quitado. As explicações são insuficientes. É preciso comprovar a devolução e demonstrar de forma crível os detalhes da operação. É legítimo estranhar que uma lobista com interesses no governo passe dinheiro a um assessor direto do presidente.

Aguarda-se que as apurações em curso tragam as respostas esperadas pela sociedade. A aproximação das eleições não pode ser motivo para desacelerar nenhuma das investigações que tenham potencial de abalar qualquer uma das candidaturas. _

Opinião do leitor - Escola interditada

A Escola Estadual de Ensino Médio Visconde de Mauá, em funcionamento desde 1938, em Butiá, região carbonífera, não retomará suas atividades após o recesso. A escola está passando por reformas. Porém, antes do recesso foi removida parte do telhado e, com as chuvas, ficou inviável o uso do prédio. A comunidade escolar está revoltada pois, apesar das dificuldades, a escola estava atendendo seus mais de 600 estudantes. É preciso cobrar das autoridades providências imediatas, pois não é justo que os estudantes, crianças e adolescentes, tenham a sua vida escolar interrompida por falta de habilidade na condução das obras. _

Rubens Machado - Professor - Butiá - Pandemia

Em que mundo vivíamos quando médicos foram proibidos de prescrever certos medicamentos para a covid -19, sabendo que milhares de medicamentos totalmente ineficazes, como certas vitaminas, estimulantes e etc., são prescritos a todo o momento sem nenhuma restrição. Que mundo cruel, que caminha cada vez mais de mãos dadas com as ideologias. _

Elio Bessa Florian - Médico urologista - Cruz Alta - Instituto Caldeira

Na edição de 29/7, Felipe Amaral, do Instituto Caldeira, escreveu com muita propriedade o artigo "Três prioridades inegociáveis para a educação gaúcha", sobre a educação pública no RS. Gostaria de "meter minha colher" no assunto. O que está faltando na educação de nossos filhos, para terem um Ensino Médio sem maiores percalços, é a volta do antigo curso ginasial. O aluno saía do Primário (hoje, Fundamental) e, para prosseguir seus estudos, tinha que fazer uma prova de admissão ao Ginásio (uma espécie de vestibular para entrar no curso ginasial). Terminado o Ginásio, o aluno estava apto a frequentar o Segundo Grau, que poderia ser o Científico ou o Comercial. _

Rui Fischer

Escritor e cronista - Taquara - Coluna

Discordo do título - "Acusado, Lulinha precisa provar que é inocente" - e do conteúdo da coluna de Rosane de Oliveira de 1º e 2/8. O mesmo Lulinha já foi intitulado "dono" de uma Ferrari de ouro e da Friboi. As leis de nosso país dizem que quem acusa que prove. O sigilo bancário de Lulinha foi quebrado e nada de irregular foi encontrado. Estranho que ninguém questione a ligação do ministro André Mendonça com a família Bolsonaro. Para mim, seria motivo de ele se declarar suspeito nesse caso. Enquanto isso, estamos há mais de dois meses sem Flávio Bolsonaro sequer ser intimado para explicar e provar o destino dos R$ 61 milhões recebidos do banqueiro corrupto Daniel Vorcaro. _

Luis Alberto Mendonça

Comerciante - Porto Alegre

OPINIÃO

05 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Lula é o único candidato a ter vice de partido aliado

Com a confirmação do senador Eduardo Girão (Novo-CE) como vice de Romeu Zema (Novo), somente Flávio Bolsonaro chega à data-limite para a realização das convenções sem definir seu companheiro (a) de chapa. Até aqui, apenas o presidente Lula tem um vice de partido aliado e uma aliança que vai além do PT, embora restrita ao campo da esquerda. Atual vice- presidente, Geraldo Alckmin tem trânsito em setores do eleitorado que não votariam em Lula se o centro tivesse um nome competitivo.

A neutralidade aprovada na convenção do Republicanos ontem evidencia a dificuldade de Flávio para unir a direita em torno do seu nome, apesar de ser o segundo colocado nas pesquisas e, em alguns levantamentos, aparecer tecnicamente empatado com o presidente Lula. O candidato do PL disse que definirá seu vice até 15 de agosto. Ora, esse é o prazo-limite para registrar a candidatura. A data simbólica é 5 de agosto, porque é o prazo para os partidos realizarem suas convenções.

E se todos os potenciais aliados já escolheram seu caminho, restará a Flávio escolher uma pessoa do PL. Foi por falta de aliados dispostos a embarcar nos seus projetos que Zema escolheu Girão, Ronaldo Caiado (PSD) preencheu a vaga com Gilberto Kassab, presidente do partido, e Renan Santos ficou com Aroldo Medina.

Oportunismo político

Costuma-se chamar de "chapa puro-sangue" quando o titular e o vice são do mesmo partido. Faria sentido esse apelido se fosse uma opção ideológica, para não abrir mão de princípios. No caso de Flávio, Caiado, Zema, Renan e candidatos de partidos inexpressivos, como os que estão na ponta de baixo da tabela nas pesquisas, é falta de opção mesmo.

Não há como considerar natural o fato de cinco dos maiores partidos no Congresso não terem candidato a presidente e não integrarem nenhuma aliança. Estão nessa lista PP, União Brasil, Republicanos, MDB e PSDB, que fazem parte do centrão. É um retrato da falência do sistema partidário brasileiro.

Ao se declararem neutros, esses partidos ficam com um pé em cada canoa, prontos para trocar o apoio por cargos no futuro governo, seja quem for o vencedor.

A aposta desse bloco é na eleição de deputados federais, que garantem poder de barganha, mais dinheiro do fundo partidário e eleitoral e, de quebra, mais emendas para distribuir Brasil afora. _

Manuela inaugura caravana para dialogar com mulheres

Um ônibus lotado de mulheres, a maioria de deputadas e pré-candidatas, e apoiadores da candidata ao Senado Manuela D?Ávila (PSOL), partiu ontem do Largo Zumbi dos Palmares, em Porto Alegre, para o primeiro roteiro da caravana Mulheres pelo Rio Grande. Acompanhada de Edegar Pretto (PT), candidato a vice-governador, e Tamyres Filgueira, indicada para a segunda suplência de Paulo Pimenta (que concorre ao Senado pelo PT), o grupo de cerca de 40 pessoas viajou rumo a Passo Fundo, com paradas em Lajeado e Erechim. Com a caravana, Manuela planeja reunir e fortalecer grupos de mulheres pelo Interior.

- É muito impressionante a força que a gente transfere para os movimentos de mulheres no Interior, que normalmente recebem uma hostilidade maior, porque são mais sozinhas, vulneráveis, todo mundo sabe quem elas são. Estamos nos deslocando juntas para ouvir e conversar com essas mulheres e para construir esse movimento grande no nosso Estado em que ser mulher não seja um problema na política - disse Manuela.

O ônibus deixará Passo Fundo hoje rumo a Santa Maria. Depois do almoço, viaja para Caxias do Sul. No dia seguinte, chega em Porto Alegre a tempo de mobilização antes do debate da Rádio Gaúcha com os candidatos a governador. A programação da semana encerra na sexta, com um ato na Capital celebrando os 20 anos da Lei Maria da Penha. _

IPE Saúde publica lista de médicos credenciados

O IPE Saúde começou ontem a publicar a lista dos médicos que se credenciaram ou renovaram o credenciamento para atender os cerca de 800 mil segurados do plano. A primeira lista é a da Fronteira Oeste, considerada a mais carente de profissionais pelo presidente do IPE Saúde, Paulo Rogério dos Santos.

- Na lista de espera para o segundo ciclo, que iremos abrir em setembro, já temos mais de mil profissionais que fizeram pré-cadastro - afirma Paulo Rogério. _

Afinal, o que pesa contra Lulinha?

Na CPI do INSS, os aliados do governo blindaram o filho mais velho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, com a alegação de que ele não era investigado e que a oposição estava querendo usá-lo para tirar proveito político. Agora, Lulinha é investigado - não em um, mas em três inquéritos da Polícia Federal (PF).

Em síntese, Lulinha é investigado por suas conexões com pessoas de quem não se pode dizer que estão acima de qualquer suspeita. O terceiro inquérito apura tráfico de influência em órgãos públicos para beneficiar empresas ou lobistas como a amiga Roberta Luchsinger, personagem que a cada dia cresce no enredo das relações suspeitas.

Foi a partir da quebra do sigilo telefônico de Roberta e de Camilo Antunes, o Careca do INSS, que a PF pediu autorização para investigar Lulinha. A defesa de Lulinha diz que ele está tranquilo e vai provar que ele não tem relação com qualquer tipo de irregularidade.

E a PF descobriu um depósito de Roberta na conta do ex-chefe do gabinete da Presidência da República Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que hoje trabalha na campanha de Lula à reeleição. Após pedido do presidente, Marcola disse, em nota, que se trata de um empréstimo de R$ 249 mil já saldado, "de natureza estritamente familiar". _

PF segue trilha do dinheiro

A Polícia Federal seguiu a trilha do dinheiro e chegou ao senador Weverton Rocha, do PDT do Maranhão. Não a ele, exatamente, mas ao suspeito de ser o seu operador financeiro, o advogado Willer Tomaz.

Em seu escritório, os policiais encontraram dinheiro em espécie e uma sofisticada máquina de... contar dinheiro. Tomaz disse que foi alvo da operação porque presta serviços a Weverton Rocha. O advogado disse que é proprietário de uma aeronave utilizada, em caráter estritamente particular, pelo senador.

A investigação aponta ainda que a esposa do senador, Samya Rocha, recebeu mais de R$ 11 milhões de empresas ligadas a Tomaz. _

mirante

Após determinação da Justiça Eleitoral, o Google retirou do ar o vídeo do blogueiro Paulo Figueiredo em que ofende a deputada Maria do Rosário (PT).

Correção: O nome da candidata da Unidade Progressista (UP) ao Senado é Tânia Peres. Schaeffer é o outro candidato, que usa o nome de urna "Luciano do MLB".

POLÍTICA E PODER

05 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

O avanço silencioso do extremismo político

Enquanto a direita e a esquerda perdem tempo debatendo se PCC ou CV são grupos terroristas, o extremismo político-ideológico cresce, silenciosamente, no Brasil, a despeito de designações como a feita recentemente pelo governo dos Estados Unidos. Ontem, uma operação integrada de polícias civis de vários Estados desarticulou um grupo que planejava explodir um prédio onde ocorrerá o debate de candidatos presidenciais antes do segundo turno das eleições deste ano. Um dos mandados de busca e apreensão foi cumprido em Canoas.

Facções criminosas podem se utilizar de métodos terroristas, mas o que as diferencia de organizações extremistas é o fundamento ideológico por trás das ações: causar medo, estupor, pânico é, para essas organizações, meramente uma ferramenta para alcançar fins políticos. Tão grave quanto a desinformação e a tentativa de deslegitimar o processo eleitoral é a ameaça de violência política. As últimas campanhas eleitorais na América Latina já mostraram essa deterioração.

No ano passado, na Colômbia, o então pré-candidato presidencial Miguel Uribe Turbay foi baleado durante um ato de campanha em Bogotá. Ele foi atingido por disparos enquanto discursava e morreu semanas depois em decorrência dos ferimentos. O recente eleito, Abelardo de la Espriella, passou a fazer comícios atrás de um escudo de vidro à prova de balas, além de usar colete balístico em eventos públicos.

Em 2023, no Equador, o candidato à presidência Fernando Villavicencio, conhecido pelas denúncias contra corrupção e crime organizado, foi assassinado ao deixar um comício em Quito, poucos dias antes da eleição. Após o assassinato, os candidatos passaram a fazer campanha cercados por um esquema de segurança inédito. O hoje presidente Daniel Noboa passou a aparecer em eventos usando colete à prova de balas, cercado por militares e agentes fortemente armados, e, em alguns atos, discursando atrás de barreiras de proteção. Em 2024, no México, dezenas de candidatos - sobretudo a prefeituras e governos locais - foram assassinados.

O Brasil tem seu histórico recente, com o assassinato da vereadora Marielle Franco e a facada ao então candidato Jair Bolsonaro, ambos em 2018, e os ataques aos prédios da República, em 8 de janeiro de 2023.

O histórico brasileiro é marcado por episódios graves, mas mais esporádicos e concentrados em períodos específicos, sem que se consolide um ciclo prolongado de terrorismo político-ideológico como ocorreu em outros países. Por isso, merece o reconhecimento a ação policial, com uso de inteligência, sobretudo, para agir antes da concretização dos atos.

É fundamental que policiais, Justiça e outras autoridades estejam atentos ao menor indício de planejamento de ações, nas redes sociais e na vida real. E, sobretudo, que candidatos não insuflem discursos de ódio a alimentar seguidores extremistas. _

MP pode punir donos de cães abandonados

O Ministério Público do RS deve buscar a responsabilização dos tutores dos cachorros microchipados que estavam abandonados na região da Vila Dique pelo crime de maus-tratos aos animais. É o que informou a promotora de Justiça do Meio Ambiente de Porto Alegre, Annelise Steigleder, após uma reunião na segunda-feira com a prefeitura da Capital. Já os animais que não tiverem família e não puderem ser acolhidos serão encaminhados para abrigos públicos.

A coluna levantou o assunto na semana passada, quando foi informada da existência de cerca de 40 animais na região que foi evacuada para obras de recuperação do sistema de proteção contra as cheias. Nesta segunda-feira, restavam poucas famílias.

- Todos os animais de lá foram microchipados, então são cães com tutores. A ideia é que as pessoas levem os animais consigo. As famílias que não tiverem condições, os cachorros ficarão acolhidos na USAV (Unidade de Saúde Animal Victoria) até que eles possam ser buscados. E nos casos de abandono, como temos o endereço dessas famílias, o Ministério Público vai buscar a responsabilização dessas pessoas pelo crime de maus-tratos, porque o abandono dos animais constitui crime - disse Annelise.

A prefeitura também informou na segunda-feira que restavam 10 cães e que todos estavam acompanhados por seus responsáveis. _

Gaúcho em conselho do Vaticano

O arcebispo de Santa Maria, dom Leomar Antônio Brustollin, foi nomeado como membro do Conselho Internacional para a Catequese da Santa Sé. O cargo tem o período de cinco anos.

O conselho é um órgão consultivo do Vaticano que reúne bispos e especialistas para estudar temas de transmissão da fé, iniciar a vida cristã e auxiliar o Dicastério para a Evangelização.

Natural de Caxias do Sul, dom Leomar Brustollin teve passagens pela Arquidiocese de Porto Alegre antes de ir para Santa Maria. Na Capital, foi professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Teologia da PUCRS.

Na CNBB, foi membro da Comissão Pastoral para a Doutrina da Fé, bispo referencial para Educação e Cultura no Regional Sul 3, e presidiu a Regional Sul 3 e a Comissão Episcopal para Animação Bíblico-Catequética. _

Um avião russo pousa em Brasília

Um avião Ilyushin II-96-300PU, quadrimotor responsável pelo transporte do presidente e de outras altas autoridades do governo da Rússia, está pousado no aeroporto de Brasília.

A aeronave, de matrícula RA-960233, chegou à capital federal no domingo, conforme o site Flight Radar. O avião saiu de Moscou (Rússia), fez escala em Argel (Argélia) e chegou a Brasília no mesmo dia em razão do fuso horário.

O Ilyushin II é operado pelo Esquadrão Especial de Voo Rossiya, nome que aparece em russo na fuselagem.

Embora seja uma das aeronaves utilizadas pelo presidente russo, Vladimir Putin, e por autoridades como o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, essa aeronave não transportava nenhum dos dois. Quem veio foi o conselheiro presidencial e chefe do Colégio Marítimo Nacional, Nikolai Patrushev, que está em visita ao Brasil para reuniões de cooperação naval e segurança oceânica.

Patrushev se reuniu com o comandante da Marinha, Marcos Sampaio Olsen, com o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Rodrigo Zerbone Loureiro, com o assessor especial da Presidência, Celso Amorim, e com a número 2 do Itamaraty, Maria Laura da Rocha. 

Quem é o amigo de Putin

Nikolai Platonovich Patrushev, autoridade russa que está no Brasil, é conselheiro presidencial de Vladimir Putin e chefe do Colégio Marítimo Nacional da Rússia. Patrushev é um dos oficiais de inteligência mais próximos de Putin, considerado um dos candidatos mais prováveis a sua sucessão.

Serviu como secretário do Conselho de Segurança da Rússia entre 2008 e 2024, quando teve papel fundamental nas decisões de anexação da Crimeia, em 2014, e na invasão da Ucrânia, em 2022. Devido à operação na península ucraniana, foi incluído na lista da União Europeia de indivíduos sancionados. Em 2018, os EUA impuseram sanções a ele. Um inquérito público do Reino Unido apontou que Patrushev esteve envolvido diretamente na ordem sobre o envenenamento do dissidente russo Alexander Litvinenko, em 2006, em Londres.

Sua amizade com Putin é antiga. Remonta ao período em que trabalharam juntos na KGB (o serviço de inteligência soviético) e no seu herdeiro, o atual FSB (Serviço Federal de Segurança). Patrushev, aliás, sucedeu a Putin como diretor do FSB em agosto de 1999. Ele comandou a agência até 2008. _

INFORME ESPECIAL

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Bagre

Quando uma figura pública se consagra com seu apelido, é que alcançou uma adoração afetiva destinada a poucos, tornando-se, ao mesmo tempo, alguém absolutamente famoso e íntimo: Pelé, Cazuza, Xuxa, Garrincha, Zico, Cartola.

Significa que, além de ser conhecido por todos, é amado como parte da família. Bagre Fagundes cumpriu essa proeza. Conseguiu reverter a rejeição de uma nominação e transformá-la em uma virtude. A ofensa servia antes para descrever um perna de pau e, no caso dele, passou a traduzir o apogeu do tradicionalismo. Um craque da canção.

Hoje, no Rio Grande do Sul, Bagre é sinônimo de uma pessoa talentosa. A alcunha dada na infância se perpetuou em sua trajetória por desígnios insondáveis. Quem disse que ele não era realmente um peixe que buscou ritmos e letras na fundura da bacia de nossas almas?

Ninguém o chamava de Euclides. Reza a lenda que o batismo popular surgiu depois que ele pescou um enorme jundiá no Rio Ibirapuitã. Há relatos de que se parecia a um "bagre que roncava". Não importa a origem: aprendemos a admirá-lo assim.

Bagre Fagundes faleceu no domingo, aos 86 anos, enquanto seu time de coração, o Inter, ganhava do Corinthians.

Mas o piá de Uruguaiana não tem como morrer. Reunia tantos que nem a morte soube a quem procurar. Foi advogado formado pela Universidade de Cruz Alta, vereador em Alegrete, bancário, jogador e árbitro de futebol. Também presidiu o Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF) e atuou como colunista do jornal Diário Gaúcho.

Não existe jeito de embrulhar sua gaita enfeitiçada pelo som de sua gargalhada. Na música, brilhou para jamais voltar à sombra do nome próprio, para jamais se despedir de nós.

Ao lado de Nico Fagundes, compôs Canto Alegretense, capaz de expressar o apego ao pampa. Qualquer gaúcho o entoa de cor e salteado, quase como um hino rio-grandense alternativo. É o equivalente, para o sul do país, ao que Asa Branca, de Luiz Gonzaga, representa para o Nordeste.

"Não me perguntes onde fica o Alegrete, Segue o rumo do teu próprio coração. Cruzarás pela estrada algum ginete. E ouvirás toque de gaita e de violão."

Bagre se fez onipresente. Venceu nos nossos principais festivais: a Tertúlia Musical Nativista de Santa Maria, a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, a Ronda da Canção Nativa de Alegrete.

Participou do grupo Os Angueras e, mais tarde, criou o Inhanduy com Neto, Ernesto e Paulinho, seus filhos. Esse projeto deu a base para Os Fagundes, que culminou com cinco álbuns e especiais.

Se, na roda de chimarrão, havia o costume de contar mentiras e causos para atrair a atenção, ele silenciava os presentes com as suas verdades. Viveu sem temer as consequências, com uma coragem de, vendado, encilhar o cavalo.

Talvez a sua autenticidade tenha sido o segredo do seu sucesso. Ele tocava e cantava como se estivesse em casa. Nunca pisou de fato no palco, porque nunca saiu espiritualmente do seu lar. Derrubou as fronteiras entre a plateia e o artista. Não mudava de postura quando se apresentava. Continuava simples, espontâneo, acessível, brincalhão, acreditando que o rincão é um sentimento.

Só imagino o bochincho ao se reencontrar com seu irmão Nico (1934 - 2015), após uma década de saudade. Vão armar um galpão crioulo no céu e reeditar o dueto de Canto Alegretense, em uníssono para sempre.

"Ouve o canto gauchesco e brasileiro. Desta terra que eu amei desde guri. Flor de tuna, camoatim de mel campeiro

Pedra moura das quebradas do Inhanduí." 

CARPINEJAR