quinta-feira, 23 de abril de 2026

Pedidos de recuperação judicial atingiram alta recorde em 2025

Taxa de juros em patamar alto por período prolongado é apontada como principal fator no aumento de empresas em recuperação judicial

Taxa de juros em patamar alto por período prolongado é apontada como principal fator no aumento de empresas em recuperação judicial

Rafa Neddermeyer/Agência Brasil/Divulgação/JC

Nícolas Pasinato
Nícolas PasinatoOs processos de recuperação judicial alcançaram, em 2025, o maior número de empresas desde o início da série histórica, em 2012 - foram 2.466, uma alta de 12,9% em relação a 2024. As informações foram divulgadas pela Serasa Experian no início deste mês.  No Rio Grande do Sul, a tendência se repete. Conforme dados da Junta Comercial, Industrial e de Serviços do Rio Grande do Sul (JucisRS), houve um total de 200 pedidos de recuperação judicial no Estado no ano passado contra 163 em 2024, o que representa um aumento de 22% de um ano para o outro.
Ainda no primeiro trimestre de 2026, o Estado já registrava 13 empresas em recuperação judicial, o que representa um decréscimo de 43% frente às 23 companhias que estavam nesta condição no Estado no mesmo período do ano passado.   
Para o economista e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), Gustavo de Moraes, essa alta está relacionada ao período prolongado em que o País vive com taxas de juros em um patamar elevado. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu, em 18 de março, a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 15% para 14,75%, ao ano. No entanto, antes do corte, a Selic estava em 15% ao ano desde junho de 2025. O período de estabilidade ocorreu depois de o BC aumentar a taxa em 4,50 pontos a partir de setembro de 2024. Esse foi o segundo maior ciclo de alta dos juros nos últimos 20 anos, perdendo apenas para a alta de 11,75 pontos entre março de 2021 e agosto de 2022, que ocorreu após o fim da pandemia. 
“As recuperações judiciais no Brasil subiram em função da aceleração na subida dos juros, o que pegou muitas empresas em processo de inversão de estratégia. No início de 2024, esperava-se que a Selic poderia acabar em níveis de até um dígito. Isso foi suficiente para criar uma expectativa favorável”, explica. 
Moraes complementa que o cenário posterior não se revelou tão otimista, porém, as companhias já tinham adquirido dívidas. “Mesmo que o ciclo econômico tenha sido positivo, favorecendo as receitas, o peso dos financiamentos acabou por predominar, com Selic estável a 15% por todo 2025”, detalha. 

 

Agropecuária e serviços lideram pedidos de recuperação judicial

Na análise por setor para 2025 no Brasil, o segmento “Agropecuária”, que contempla exclusivamente pessoas jurídicas e é segmentado pelas classificações de agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura, representou 30,1% (743) CNPJs que buscaram pela recuperação judicial, seguido pelo setor de “Serviços” com 30% (739). Em seguida, vieram “Comércio” (21,7%; 535 CNPJs) e “Indústria” (18,2%; 449 CNPJs). Dados do Rio Grande do Sul não foram mensurados pela Serasa por setor.

“Existe uma questão heterogênea entre os setores, o fato de que alguns setores acabam sofrendo mais durante o período de desaceleração da atividade econômica, acabam operando com margens mais comprimidas, mas também existem outros fatores como, por exemplo, o setor agropecuário que está bastante ligado à imprevisibilidade de questões climáticas e biologia”, afirma, em nota, a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack. 
Sobre o segmento mais impactado pelo número de recuperações judiciais, o economista e professor da Pucrs Gustavo de Moraes faz um alerta adicional para a elevação no preço de fertilizantes e combustíveis após a guerra no Oriente Médio, que pode agravar o cenário para o agro brasileiro.  

Inteligência Artificial consolida protagonismo na reinvenção da indústria em Hannover

CEO da Accenture, Julie Sweet fala em mudanças radicais e coragem para se transformar

CEO da Accenture, Julie Sweet fala em mudanças radicais e coragem para se transformar

Hannover Messe/Divulgação/JC

Guilherme Kolling
Guilherme KollingEditor-chefede Hannover, na Alemanha
A Inteligência Artificial (IA) consolidou-se como elemento onipresente no maior evento de tecnologia industrial do mundo em 2026. Se nos anos anteriores a IA ainda era uma tendência se tornando realidade como principal tema do encontro, desta vez é apresentada como algo já incorporado aos milhares de estandes na Feira de Hannover, sendo considerada fundamental para a reinvenção da indústria que está em curso.
Além de entrar na agenda de discursos de governantes, o tema tem sido central na fala de executivos convidados ao evento. Em 2025, o CEO da multinacional alemã Siemens, Roland Busch, foi contundente ao afirmar que as empresas, em breve, serão divididas entre as que adotam a IA e as que não usam. Para ele, as primeiras serão bem-sucedidas, ao passo que as demais irão fracassar.
Neste ano, apresentada como uma das pessoas mais influentes do mundo, a CEO da empresa multinacional de consultoria de gestão Accenture, Julie Sweet, provocou a todos a considerar normal fazer algo no seu negócio de uma forma completamente diferente do que fazia há 12 meses por causa da IA. “Reinvenção significa mudar radicalmente algo que já existe”, afirmou a executiva, ressaltando que os vencedores serão aqueles que utilizarem suas forças inerentes, como dados e conhecimento técnico do negócio, para operar de formas completamente novas.
A especialista considerou que a Inteligência Artificial vai promover a refundação da produção industrial, redefinindo todas as indústrias. “Mas isso ainda é pouco discutido”, avaliou.
Como exemplo de mudança, citou a própria Accenture, que recentemente implodiu seu modelo operacional para se adaptar ao novo cenário tecnológico. “Mudamos coisas que fazíamos há 50 anos. E eu também implodi o modelo que coloquei em marcha em 2019, quando me tornei CEO. E vou dizer, é muito mais fácil implodir o modelo do CEO anterior do que o seu próprio”, confidenciou ao público de Hannover.
Julie Sweet entende que a aplicação da Inteligência Artificial exige dois imperativos: focar no crescimento (e não apenas na produtividade) e abraçar uma reinvenção radical, já que é preciso disposição para transformar estruturas existentes.
Como exemplos práticos na indústria, a executiva citou montadoras que operam com o sistema de gêmeos digitais – a réplica da operação física – para conectar e operar dezenas de fábricas. Ou o processo de produção de empresas de alimentação, embalagens e logística, que estão adotando sistemas completamente diferentes.

Vazio sanitário da soja evita perdas de até 15% nas lavouras

Protocolo de manejo foi estabelecido visando combater doenças como a Ferrugem da Soja

Protocolo de manejo foi estabelecido visando combater doenças como a Ferrugem da Soja

Gracieli Manfrin/Divulgação/JC

JC
JCAna Esteves, especial para o JC
Para controlar a ocorrência de Ferrugem Asiática nas lavouras de soja e evitar perdas produtivas que podem chegar a 15%, os sojicultores gaúchos realizam uma série de manejos integrados que começam com o vazio sanitário da cultura que, neste ano, ocorrerá entre 3 de julho e 30 de setembro. Junto com ele, também foi estabelecido pela Portaria nº 1.579/2026 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o calendário de semeadura do grão que inicia no dia 1º de outubro de 2026 e se estende até 28 de janeiro de 2027. “Foram mantidos iguais aos das safras mais recentes, pois são os períodos mais adequados, tanto do vazio sanitário como do calendário, pela otimização da cultura e diminuição do inóculo do fungo nas plantas que nascem espontaneamente na lavoura, após a colheita da soja”, explica o diretor do Departamento de Defesa Vegetal da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), Ricardo Felicetti.
Através do vazio sanitário o controle da doença inicia ainda na entressafra, eliminando a soja que fica na lavoura, já que ela é o principal hospedeiro do fungo que causa a Ferrugem. “Dependendo da época de semeadura nas diferentes regiões do Estado, conseguimos fazer com que a doença chegue mais tarde nas lavouras, reduzindo o risco de ter perdas de produtividade”, afirma a pesquisadora da Embrapa Soja, Claudine Seixas. Com a prática é possível facilitar o manejo das áreas cultivadas com a oleaginosa, reduzindo custos de produção pela redução do número de aplicações.

A situação sanitária do Rio Grande do Sul em relação à doença é considerada “medianamente sob controle” graças aos períodos de seca, ocorridos nas safras mais recentes, que ajudam a manter as lavouras livres da doença, com exceção do ano da grande enchente, quando a alta umidade aumentou bastante a incidência de Ferrugem a campo no Estado. “De maneira geral, podemos dizer que a doença está sob controle, não temos perdas maiores do que 10% a 15%”, reforça Felicetti. Mas esse status depende do clima e do comportamento dos patógenos diante das moléculas multisítio, usadas para seu controle, que, em algumas situações, não funcionam mais de forma tão eficaz. “Por isso, é muito importante consolidar as ferramentas de controle adicional, como o vazio sanitário para lidar com o cenário, justamente para a gente evitar problemas nesse sentido”.
Além disso, também é preconizado o controle integrado de pragas e doenças que abrange mais ferramentas, além do uso de fungicidas tradicionais, como o controle biológico, que tem demonstrado bons resultados a campo para o controle da doença. “A indústria já manifestou que dificilmente vai disponibilizar uma nova molécula para controle da Ferrugem, nos próximos dez anos, pois é um trabalho de longo prazo. Vamos ter que trabalhar com as ferramentas que temos, seja na composição das lavouras, numa melhor drenagem, seja no uso de controle biológico, além do vazio e do calendário específicos”, informa Felicetti.
pesquisadora da Embrapa acrescenta que entre os manejos preconizados para reduzir resistência está a rotação de produtos usados para controle da doenças, optando por fórmulas com modos de ação diferentes. “É importante associar produtos multissítios aos sítioespecíficos e respeitar doses e intervalos de aplicação indicados na bula”, diz Claudine.
Para incrementar ainda mais os mecanismos de controle da doença, a Seapi criou, em 2019, um programa Monitora Ferrugem RS que atua desde a semeadura até a colheita da oleaginosa. O objetivo é detectar precocemente a presença de esporos associada às condições meteorológicas e gerar mapas indicativos de predisposição da ocorrência da Ferrugem Asiática da Soja. Esses dados auxiliam técnicos e produtores na tomada de decisão e adoção de medidas de manejo da doença. “Trazemos informações semanais para os produtores, sobre a presença de esporos a campo. Na próxima safra serão monitoradas 100 lavouras, distribuídas no Estado. O programa é complementar ao vazio sanitário e ao calendário de semeadura”, informa o coordenador estadual de defesa e sanidade vegetal da Emater-RS/Ascar, Elder Dal Pra.
Apesar das iniciativas de controle, a contaminação das lavouras segue ocorrendo, mas com menos intensidade. Um dos fatores que favorecem a permanência da doença é a resistência que o fungo desenvolveu aos ingredientes ativos de controle. As datas de vazio e plantio visam também diminuir a resistência do fungo aos compostos. “Tivemos eventos em que foi identificada resistência aos três ingredientes ativos que são sítio específico para o controle da ferrugem”, diz Felicetti. Segundo o especialista da Emater-RS, os patógenos resistentes não se originam nas lavouras do Estado, mas “migram” por correntes de vento de outros estados, como Mato Grosso e outros países, como Paraguai e Bolívia. “Conforme avança o calendário de plantio no norte da América do Sul, recebemos muita carga de esporos resistentes”, explica.
A Ferrugem Asiática é causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, considerada uma das doenças mais graves a afetar a cultura da soja, cujos danos podem oscilar entre 10% e 90%, em média, nas diversas regiões geográficas em que ocorreu. Durante o vazio sanitário, um período contínuo, de no mínimo 90 dias, não é permitido plantar nem manter vivas plantas de soja em qualquer fase de desenvolvimento nas áreas monitoradas, minimizando os impactos negativos que poderiam causar prejuízos na safra seguinte. Já o calendário de semeadura, é uma medida fitossanitária adotada após o período de vazio sanitário, com o objetivo de sistematizar o número de aplicações de fungicidas, reduzindo os riscos de desenvolvimento de resistência da Ferrugem às aplicações químicas para o seu controle.