terça-feira, 24 de março de 2026

 Expoagro Afubra projeta negócios e destaca resiliência no campo

Mostra de 2025 da Expoagro Afubra atraiu quase 190 mil visitantes e movimentou R$ 385 milhões

Mostra de 2025 da Expoagro Afubra atraiu quase 190 mil visitantes e movimentou R$ 385 milhões

EVANDRO OLIVEIRA/JC
Claudio Medaglia
Claudio MedagliaRepórterExpoagro Afubra 2026 começa hoje em Rincão del Rey, no município de Rio Pardo. A feira, considerada a maior do Brasil voltada à agricultura familiar, segue até sexta-ra com expectativa de intensa movimentação econômica, impulsionada pela presença de mais de 500 expositores e pela busca dos produtores por alternativas para recompor renda e investir nas propriedades.
Consolidada como vitrine de tecnologias e oportunidades de negócios no meio rural, a Expoagro Afubra chega à 24ª edição em um cenário desafiador para o setor. Após um ciclo recente marcado por eventos climáticos extremos e elevação dos custos de produção, o evento adota como tema a resiliência, propondo soluções voltadas à recuperação produtiva e à sustentabilidade econômica.
A dimensão econômica da feira é evidenciada pelos resultados da última edição. Em 2025, o evento recebeu 188 mil visitantes e movimentou R$ 385 milhões em negócios. Para este ano, são 546 expositores confirmados, ampliando a oferta de produtos, serviços e tecnologias voltadas ao público rural. Do total de participantes, 282 são empresas de máquinas, insumos, ferramentas e instituições públicas e privadas, segmentos diretamente ligados à geração de negócios. Outros 222 expositores integram o Pavilhão da Agricultura Familiar, espaço estratégico para a comercialização de produtos agroindustrializados e para a agregação de valor à produção. A feira ainda reúne 42 expositores na área de animais, complementando a diversidade de atividades.
Além da comercialização, a programação técnica funciona como um indutor de investimentos. Ao longo dos quatro dias, seminários, fóruns e painéis discutem temas como energias renováveis, conservação do solo, sucessão no agronegócio e políticas públicas. 
Na programação, a feira reúne uma série de atividades técnicas e eventos temáticos ao longo dos quatro dias. Nesta terça-feira, a abertura oficial ocorre às 9h, seguida pelo 3º Seminário de Energias Renováveis, com painéis a partir das 13h. Na quarta-feira, um dos destaques é o 16º Fórum de Diversificação de Culturas e Atividades Rurais, às 13h, além do Simpósio Jurídico do Agro, às 9h. Na quinta-feira, a programação inclui o 16º Seminário Regional de Turismo Rural, a partir das 8h30, e o painel Mulheres no Agronegócio, às 13h. Já na sexta-feira, o Seminário sobre Políticas Públicas para Agricultura Familiar ocorre às 13h, acompanhado de painéis sobre cenário econômico e inovação no campo ao longo do dia.
Coordenador-geral da feira, Marco Antonio Dornelles afirma que a proposta é aproximar informação técnica e oportunidades concretas de aplicação no campo. “A programação de 2026 foi pensada para oferecer conhecimento prático e soluções aplicáveis à realidade das pequenas propriedades”, destacou.
Serviço
Local: Parque da Expoagro Afubra – BR-471, km 161, Rincão del Rey, Rio Pardo
Data: 24 a 27 de março de 2026
Horário: das 8h às 18h
Entrada: gratuita
Estacionamento: gratuito, com capacidade para cerca de 15 mil veículos

 South Summit abre edição 2026 com estrutura ampliada no Cais Mauá e aposta em conforto e novos espaços de negócios

Edição deste ano ocorre com reforço nas condições de infraestrutura do Cais

Edição deste ano ocorre com reforço nas condições de infraestrutura do Cais

EVANDRO OLIVEIRA/JC
Gabrieli Silva
Gabrieli SilvaRepórterA quinta edição do South Summit Brazil 2026 começa no próxima quarta-feira, dia 25 de março, no Cais Mauá, em Porto Alegre, com uma estrutura ampliada para receber mais de 20 mil participantes e já em fase final de montagem. Considerado um dos principais encontros de inovação, tecnologia e negócios da América Latina, o evento reúne startups, investidores, empresas e setor público em uma agenda voltada à geração de negócios e à atração de investimentos.
A edição deste ano ocorre com reforço nas condições de infraestrutura do Cais, que passou por intervenções recentes após danos causados pelas enchentes de 2024. As ações envolveram recuperação de estruturas, recomposição de áreas afetadas e adequações operacionais para garantir segurança e funcionamento do espaço. Ao mesmo tempo, a organização mantém um ciclo contínuo de investimentos, que soma R$ 5 milhões desde 2022 para adaptar o local ao evento.
Para 2026, a principal aposta está na qualificação da experiência do público. A área utilizada se aproxima de 30 mil metros quadrados, distribuídos em quatro armazéns e estruturas temporárias, com ampliação de espaços cobertos e reconfiguração do layout. A montagem, já na reta final, mobiliza equipes técnicas e transforma a área histórica do cais em um complexo voltado a conteúdo, negócios e circulação de público.
A secretária de Inovação, Ciência e Tecnologia, Simone Stülp, ressalta a importância da quinta edição do evento e a expectativa para sua realização. “Mais uma vez, estamos prontos para receber pessoas de diferentes lugares do mundo, representando o ecossistema nacional e internacional de inovação. Sem dúvida, teremos mais uma edição memorável”, afirma.
Entre as mudanças estruturais, a chamada Sunset Street — via que conecta os palcos — passa a ser totalmente coberta, reduzindo o impacto das condições climáticas sobre o fluxo de visitantes. O evento contará com sete palcos simultâneos, distribuídos ao longo do espaço, incluindo o RS Innovation Stage, que teve ampliação física e de capacidade de público.
A estrutura passa a incorporar novos ambientes voltados tanto à operação do evento quanto à experiência dos participantes, como estúdio de podcast para imprensa e patrocinadores, áreas exclusivas de conexão — a exemplo do Experience VIP Lounge — e salas multiuso reservadas para reuniões de negócios, como Cais Room e Guaíba Room, disponíveis para agendamento por participantes, investidores e startups; a ampliação contempla ainda espaços dedicados à produção de conteúdo e networking, a expansão do marketplace, que concentra estandes de empresas, parceiros e startups, e o reforço dos pontos de apoio ao público, com iniciativas voltadas à acessibilidade, segurança e bem-estar, incluindo equipes especializadas e espaços de acolhimento.
Além da infraestrutura física, o evento mantém impacto relevante sobre a economia local e nacional
Estudo da Alvarez & Marsal aponta que a edição de 2025 gerou R$166 milhões em impacto econômico no Brasil, com a criação de 3.976 postos de trabalho e arrecadação de R$ 13,7 milhões em impostos. No recorte regional, o impacto foi de R$134 milhões no Rio Grande do Sul, com 3.251 empregos gerados.
O levantamento detalha que esse resultado decorre não apenas da realização do evento em si, mas de um efeito em cadeia na economia, que envolve gastos da organização, consumo dos participantes e impactos indiretos e induzidos em setores como hotelaria, alimentação, comércio e serviços. Na prática, a cada R$ 1 investido, o retorno estimado é de R$ 4,10 em atividade econômica.
Os dados mostram ainda que o impacto se distribui entre diferentes níveis: cerca de R$ 63,9 milhões correspondem a efeitos diretos, ligados à organização e ao consumo imediato; R$ 63,4 milhões a impactos indiretos na cadeia de fornecedores; e R$ 23,9 milhões a efeitos induzidos, relacionados ao aumento de renda e consumo das famílias.
No mercado de trabalho, o evento também apresenta efeito multiplicador. Para cada 10 empregos gerados diretamente pela organização, outros oito são criados na economia. Em Porto Alegre, o impacto se reflete especialmente nos setores de eventos, alimentação, turismo, comércio e tecnologia, com destaque para funções ligadas à organização de eventos e serviços associados.
O estudo também identifica efeitos concretos na dinâmica urbana durante o período do evento com exemplo das duas últimas edições que registraram picos superiores a 90% na ocupação hoteleira da Capital gaúcha, enquanto a arrecadação de impostos municipais apresentou crescimento real de 29,5% no trimestre de realização, na comparação com 2021, período anterior à chegada do South Summit.
A projeção é de continuidade dessa expansão. Segundo a consultoria, até 2030 o South Summit Brazil pode gerar R$ 1,2 bilhão em impacto econômico no país, com arrecadação de R$ 131 milhões em impostos e criação de mais de 26 mil empregos.

 Porto Alegre 254 anos: entre Angola e a Capital, a vida que Kanhanga construiu

Usina do Gasômetro é o lugar preferido do imigrante angolano em Porto Alegre

Usina do Gasômetro é o lugar preferido do imigrante angolano em Porto Alegre

EVANDRO OLIVEIRA/JC
Gabriel Margonar
Gabriel Margonar
Na semana em que Porto Alegre completa 254 anos, o Jornal do Comércio volta o olhar para quem ajuda a construir a cidade sem ter nascido nela. Vindos de outros países, estados e municípios, esses personagens encontraram na Capital um lugar de recomeço, trabalho, afeto e pertencimento. Ao contar suas trajetórias, a série também revela uma Porto Alegre múltipla, atravessada por encontros, contrastes e transformações vistas por quem aprendeu, aos poucos, a chamá-la de casa. No cenário econômico, até dezembro de 2025, 4.717 imigrantes ocupavam vagas formais de trabalho em Porto Alegre, ou seja, 9% do total de imigrantes empregados no Rio Grande do Sul. A Capital fica atrás apenas de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha.
Quando deixou Angola, em 2005, Geraldino Canhanga do Carmo da Silva carregava um plano simples, embora exigente: estudar, se formar e voltar. A passagem por Porto Alegre, viabilizada por uma bolsa de estudos no Centro Universitário Metodista (IPA), parecia ter data para terminar. Tinha pouco mais de 20 anos e uma rota (intercontinental) traçada com clareza.
Duas décadas depois, aos 43, o retorno está longe de ser prioridade. A cidade que era destino provisório se transformou no lugar onde ele construiu quase toda a vida adulta. “Eu cheguei aqui com 20 para 21 anos. Hoje tenho 43. Então, praticamente me formei como homem aqui", conta.
plano não foi abandonado - foi ampliado. Antes mesmo de sair de Angola, Kanhanga já estava ligado à cultura hip-hop. O curso de Administração era parte do caminho, mas não o único. Ao concluir a graduação, decidiu permanecer e investir no que, até então, era sonho. “Eu já vinha da cultura do rap e tinha o desejo de lançar um disco. Quando terminei a faculdade, decidi seguir isso aqui mesmo em Porto Alegre”, recorda.
escolha abriu um percurso que extrapolou a música. Ao longo dos anos, ele passou a atuar como escritor, palestrante, mentor e produtor cultural. O nome artístico, Kanhanga, deixou de ser apenas assinatura para se tornar síntese de identidade - construída entre as referências de origem e as experiências vividas na Capital.
Hoje, é uma das vozes mais ativas na pauta migrante no Estado. Está à frente da Casa dos Imigrantes e Refugiados, espaço que acolhe pessoas de diferentes nacionalidades. O protagonismo, no entanto, não foi planejado. Surgiu de uma urgência concreta, escancarada durante a pandemia.
“Começaram a chegar muitos casos de imigrantes em situação de vulnerabilidade. Pessoas que tinham recém-chegado, não falavam a língua, não tinham trabalho, nem rede de apoio.” Diante da demanda crescente, ele e outros voluntários organizaram, em 2020, uma campanha que arrecadou cerca de R$ 11 mil para a compra de alimentos, itens de higiene e máscaras.
O que começou como resposta emergencial ganhou forma. Primeiro, dentro da Associação dos Angolanos. Depois, com a criação da Casa dos Imigrantes e Refugiados, que ampliou o atendimento para além de uma comunidade específica. “No início eram poucos casos, mas foi crescendo. A gente precisou estruturar para dar conta”, lembra.

Início restrito e inserção através do esporte

trajetória, hoje consolidada, contrasta com um início marcado por limites. Nos primeiros anos, Porto Alegre se restringia quase inteiramente ao campus universitário. Ele chegou acompanhado de cerca de 15 angolanos e viveu por quatro anos em uma república, dividindo o espaço com estudantes de países como Moçambique, Haiti, Portugal e Timor-Leste.
Era uma convivência intensa - e, ao mesmo tempo, fechada. “A gente vivia praticamente dentro do campus. Tinha tudo ali. Quase não saíamos.” A cidade, naquele momento, era mais CEP do que experiência.
Já os primeiros estranhamentos vieram nos detalhes. O frio do inverno foi o impacto imediato. Depois, a linguagem. “Embora eu já falasse português, as gírias eram diferentes. Demorou um pouco para entender tudo.” Em uma Porto Alegre ainda menos diversa, a adaptação dependia, sobretudo, de iniciativa individual.
E, com o tempo, a cidade começou a fazer sentido fora da universidade. Nesse processo, o basquete teve papel central. Foi ele que levou Kanhanga até a Redenção - espaço que se tornaria ponto de encontro, convivência e pertencimento. “Eu passava horas ali, principalmente no verão. O esporte ajudou muito na minha inserção.”
Vieram, depois, os eventos culturais, o contato com outros artistas, a experiência de morar no Centro, na rua Riachuelo. A partir daí, Porto Alegre deixou de ser fragmento e passou a ser território. “Cada bairro parece uma cidade diferente. Isso sempre me chamou atenção.”
Por fim, a adaptação ainda passou por hábitos cotidianos. Em Angola, o peixe era presença constante. Em Porto Alegre, o churrasco ganhou espaço. “Hoje eu gosto muito de carne. Acabei me adaptando, virou meu prato preferido”.

Crescimento imobiliário, diversidade e cultura

Ao longo de 20 anos, o angolano acompanhou transformações visíveis e silenciosas. O crescimento imobiliário é uma delas. Mas nem sempre, observa, acompanhado por avanços equivalentes em outras áreas. “A gente vê muitos prédios sendo construídos. Mas nem sempre isso vem junto com o aumento de espaços educativos.”
Há, por outro lado, mudanças que ele identifica como conquistas. A diversidade é a principal. “Hoje há muito mais imigrantes e uma presença maior da população negra, inclusive nas universidades.” A transformação, para ele, também passa pela estética e pela ocupação de espaços. “Antes era raro ver cabelo afro com naturalidade. Hoje isso mudou.”
Essa leitura dialoga com a própria trajetória. Ao perceber o orgulho do gaúcho pela sua cultura - algo que o impactou logo nas primeiras semanas, ao conhecer o Acampamento Farroupilha - Kanhanga passou a olhar com mais atenção para as próprias origens.
“Aquilo me chamou muito a atenção. Um orgulho muito forte da própria cultura. Eu percebi que também precisava valorizar mais a minha identidade”, relembra. O nome Kanhanga ganhou, nesse processo, ainda mais peso.

Uma cidade imperfeita que virou lar

Porém, a cidade que acolheu também expôs contradições. Ao longo dos anos, ele enfrentou situações de racismo. “Já vivi isso, sim. Existe.” Não se alonga no tema, mas não o ignora: “Eu procuro focar nas pessoas boas, que também são muitas”, afirma.
Quando fala sobre serviços públicos, a análise é atravessada pela comparação com a realidade de origem. “Para quem vem de onde a gente veio, ter acesso à saúde, educação e serviços já é muito”. Ele cita a própria experiência: filhas nascidas em hospital público, atendimento em posto de saúde, acesso à escola. “Nunca tive dificuldade. O SUS, para mim, é um grande modelo.”
Porto Alegre também é, hoje, lugar de família. Duas de suas filhas nasceram na cidade, e os espaços ganharam novas camadas de significado. A Redenção deixou de ser apenas ponto de encontro e passou a ser cenário de rotina com as crianças. A Usina do Gasômetro se consolidou como marco afetivo e profissional. “Tenho uma história muito forte ali. Fiz eventos, apresentações, gravei clipes. É o meu lugar preferido na cidade”
Há ainda outros territórios de pertencimento. Comunidades onde vivem imigrantes, como no Sarandi, e o Quilombo da Família Silva, onde experimentou uma sensação mais profunda de acolhimento. “Foi um dos primeiros lugares onde me senti em casa.” Kanhanga também observa com carinho a área de inovação, principalmente através de espaços como o Tecnopuc e o Instituto Caldeira.
Torcedor do Grêmio, ele já teve uma relação mais próxima com o futebol. Durante alguns anos, produziu conteúdo no YouTube com o canal Kanhanga SportRap, dedicado a raps sobre jogadores. O canal, hoje sem atualizações, ainda reúne quase 500 mil seguidores.
Nos últimos anos, o foco se voltou aos livros e às palestras. Em Seja Incrível, seu primeiro livro, parte da própria trajetória para discutir desenvolvimento humano e protagonismo juvenil. “Eu falo de experiências pessoais, de perdas, de traumas, e das ferramentas que usei para superar.”
Sobre o futuro, ele não descarta voltar a Angola, mas entende que ainda não é o momento. “Eu sinto que estou começando a colher agora. Ainda tenho muita coisa para construir aqui”, finaliza.

Perfil:

Nome: Geraldino Canhanga do Carmo da Silva
Local de origem: Angola
Ano que chegou: 2005
Local preferido na cidade: Usina do Gasômetro
Comida preferida: churrasco
Cena cultural preferida: hip hop
Clube da Capital: Grêmio