sábado, 8 de agosto de 2026

Um ponto de equilíbrio no máximo de tensão

O que estimula pessoas ditas "normais" a escolher profissões eletrizantes e se tornarem viciadas em adrenalina? "Aprenda com os erros dos outros. Você não consegue viver tempo suficiente para cometer todos por si mesmo." (Eleanor Roosevelt)

Falando aos mais jovens sobre as barreiras que desafiam nosso progresso profissional, foi inevitável falar do medo de errar. Não daquele receio prudente que nos faz olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, mas do medo que amordaça o projeto de ambição. Aquele que sussurra ao ouvido que é melhor nem tentar, porque a queda é pública e o julgamento é implacável. 

No entanto, quando olhamos para trás, percebemos que as médias e grandes conquistas que eventualmente acumulamos não representaram a ausência do medo, mas a nossa capacidade de administrá-lo.

Viver, afinal, é um exercício de observação. E claro que identificar o que significa a profilaxia do erro, a partir da experiência de quem só pretendia acertar, é um exercício de inteligência e principalmente de humildade, e há uma sabedoria serena nisso. Olhar o tombo alheio não para julgar, mas para ajustar a própria rota, é o que nos permite avançar sem pesadelos na madrugada.

Ainda assim, não importa a atividade ou a exigência de treinamento para exercê-la com competência, a nuvem negra do erro sempre nos perseguirá. Ela é a nossa sombra mais fiel e uma régua implacável na identificação de perfis humanos.

Há os que erram e, assumindo o erro, se diferenciam; os que não se dão conta que erraram e se candidatam a repetir indefinidamente; e os que anunciam que nunca erraram, e todos entendem a mensagem: eles nunca fizeram nada.

O preço assustador desta sina, evidentemente, se multiplica em atividades de risco. Submete o piloto, o motociclista e o cirurgião a níveis de concentração e estresse que o bibliotecário, o alfaiate ou o jardineiro nem imaginam. Enquanto uns buscam o silêncio das páginas ou a precisão mansa da tesoura, outros precisam domar o caos em frações de segundo. 

O que estimula pessoas ditas "normais" a escolher profissões eletrizantes e se tornarem viciados em adrenalina - o thrill seeking, como lembrou o professor Nardi - ainda carece de entendimento da psicologia e da neurobiologia. Mas a verdade é que os protagonistas desse estilo de vida preferem não polemizar. Para eles, e talvez só para eles, isso - e apenas isso - significa VIVER.

Eles buscam para chamar de felicidade, algum tempo de sossego para calibrar a gana de fazer e juram que pode existir alguma calmaria no olho do furacão. Não se incomodam com aqueles, também considerados normais, que se sentem genuinamente realizados na inércia que abomina sobressaltos. Claro que há espaço no mundo para o lago calmo e o mar revolto.

Entretanto, a grande tragédia pessoal não é escolher a segurança do lago, mas desejar o oceano e deixar-se amordaçar pelo medo de naufragar. O erro não é o oposto do sucesso: é o pedágio inevitável para quem se recusa a passar pela vida como um mero espectador e define a felicidade como um ponto de equilíbrio no máximo de tensão. 

Quem convive com a alta tensão sabe que o erro está espreitando, mas sabe também que a paralisia dói muito mais do que a queda. No final das contas, a audácia não é a falta de medo; é a certeza de que a ambição de se sentir vivo é maior do que o temor de errar, e nesse desassossego saem de casa todos os dias, cedo da manhã, cantarolando. 

J.J. CAMARGO 

 

08 de Agosto de 2026
MARTHA MEDEIROS

Gente grande

Não importa a idade que temos, há sempre um momento em que é preciso chamar um adulto. Publiquei essa frase em alguma crônica do passado, inspirada por uma conversa que tive, há muito tempo, com uma amiga. 

Ela me contou que estava no quarto do hospital onde o pai estava internado. De repente, o quadro dele piorou. Ela tinha cerca de 35 anos, na época. Virou-se para a prima que a acompanhava e disse: "precisamos chamar um adulto". O episódio havia transcorrido meses antes e, ao me descrever a cena, rimos como se fosse um esquete de comédia.

Comédia é coisa séria.

Quando é que nos tornamos um adulto? Convenções etárias determinam a idade em que se pode votar, dirigir um carro, concorrer a um cargo público, mas não há uma idade que indique que ficamos aptos a arcar com as consequências de viver em um mundo onde tudo é impermanente. Hoje você está segura em um casamento, amanhã descobre que seu marido se envolveu com outra. 

Hoje você está planejando uma viagem com as amigas, amanhã cai em um golpe que raspa as suas economias. Hoje você está em Paraty, celebrando a literatura com colegas escritores, na noite seguinte está dentro de uma ambulância acompanhando sua mãe que está sendo levada ao hospital com urgência.

Diante do desespero, dá mesmo vontade de chamar um adulto, que em nossa imaginação é alguém com sangue frio para tomar as decisões certas, aquelas que reverterão o pesadelo. O medo nos devolve a um estado infantil, em que só queremos segurar a mão de alguém que cuidará de tudo.

Etarismo contra nós mesmos: acreditar que não somos capazes de lidar sozinhos com as rasteiras que a vida nos dá. E de rasteira a vida entende.

Quando você chama alguém para dividir um problema, não está sendo fraco, e sim, adulto: não precisamos decidir tudo pela nossa cabeça ou sofrer sem um ombro por perto. Pedir ajuda revela saúde mental. Bem diferente de quando se "chama um adulto" a fim de passar adiante o impasse, declarando-se inábil para assumir a responsabilidade das próprias ações. 

Quando não há maturidade emocional, você pode ter 35, 52, 64, 88: não cresceu. A infantilidade vitalícia é um local confortável e ilusoriamente seguro, onde todos atendem suas necessidades sem que você precise arriscar seu pescoço, mas é uma existência de muletas, que nunca conhecerá o prazer de andar com as próprias pernas e evoluir através de seus erros e acertos.

Nos últimos meses, foram incontáveis as vezes em que eu gostaria de ter chamado um adulto para resolver questões de gente grande. Nas horas mais difíceis, chamei. E, para meu secreto orgulho, veio eu mesma em meu socorro. Que vitória histórica é descobrir que sempre se pode crescer um pouco mais. 

MARTHA MEDEIROS


08 de Agosto de 2026
SARA BODOWSKY

O conteúdo desta coluna reflete a opinião da autora

Nova fase - Um clássico paulistano renasceu

Estive em São Paulo na última semana com um olhar muito atento ao que pudesse interessar a vocês, meus leitores - e também a quem consome meu conteúdo em outras mídias. Vou dividir bastante com vocês aqui na coluna durante o mês de agosto.

Mas já adianto que um dos lugares que visitei foi a Galeria Metrópole (Av. São Luís, 187), no centro da cidade, junto ao icônico Copan (que merece uma página dedicada, inclusive!). Apesar de sofrer ainda com a insegurança típica dos grandes centros, especialmente com o roubo e furto de celulares, a região central de São Paulo está revivendo de maneira muito interessante.

A Galeria Metrópole é um exemplo desse renascimento. Inaugurada nos anos 1960, na Praça Dom José Gaspar, na República, ela já foi um dos endereços mais elegantes da capital paulista: tinha cinema para mais de mil pessoas, boate e bares frequentados por universitários, intelectuais e nomes como Chico Buarque.

O prédio, ícone da arquitetura modernista projetado por Gian Carlo Gasperini e Salvador Candia, abriga hoje lojinhas de design, ateliês, brechós e muito verde no paisagismo interno. Tem comida peruana de verdade no Rinconcito Peruano - provei um ceviche e um arroz chaufa incríveis - e sorvete de sabores nordestinos, na Cangote, além de uma gastronomia super diversa. Aos domingos, uma feirinha com arte, brechó e comidinhas lota os corredores, reunindo de forma democrática vários públicos paulistanos.

No @SaraBodowsky tem um vídeo com o que registrei na Galeria Metrópole. _

SARA BODOWSKY

COM A PALAVRA

Ativista cujo nome se transformou na lei mais importante de prevenção à violência contra as mulheres no Brasil

"Avançamos muito na punição, mas ainda pecamos na prevenção"

Poucas pessoas têm o próprio nome associado a uma transformação social tão profunda. Ao se completarem, nesta sexta-feira, 20 anos da sanção da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340), a farmacêutica cearense Maria da Penha Maia Fernandes, 81 anos, avalia os resultados da medida. Ela sobreviveu a duas tentativas de feminicídio, recorreu a instâncias internacionais para buscar justiça e ajudou a mudar a forma como o país enxerga e combate a agressão contra as mulheres. Contudo, apesar dos avanços legais, os índices de violência doméstica e de feminicídio seguem alarmantes no Brasil. Nesta entrevista, Maria da Penha faz um balanço sobre duas décadas da legislação, destaca o papel crucial das medidas protetivas de urgência e alerta para a necessidade urgente de fortalecer a prevenção, a capacitação dos agentes públicos e a rede de atendimento.

Pâmela Rubin Matge

Transcorridos 20 anos, como é ter o nome associado à mais importante legislação de proteção às mulheres do país?

Neste aniversário de 20 anos da lei batizada com meu nome, o que mais me chama a atenção é que houve uma mudança na mentalidade da sociedade brasileira. Conseguimos tirar a violência doméstica de dentro de casa e mostrar que esse não é um assunto restrito à família, mas um problema de todas as pessoas. Antes de 2006, quando um casal brigava ou havia uma agressão, o caso, muitas vezes, era resolvido no juizado com a doação de uma cesta básica, e pronto.

É que violência doméstica deixou de ser um problema privado, mas do Estado...

Sim. A Lei 11.340/2006 quebrou essa lógica, e este é o seu maior legado. A sociedade e o Estado passaram a entender que agredir uma mulher em casa é um crime tão grave quanto agredi-la na rua.

A partir do texto original da lei, outras iniciativas e atualizações legislativas foram surgindo. Como a senhora avalia essa evolução?

Não posso deixar de destacar a medida protetiva de urgência (MPU). Ela é o principal mecanismo para afastar o agressor da vítima e proibi-lo de se aproximar ou manter qualquer tipo de contato. Ao longo desses 20 anos, tem sido a ferramenta mais concreta ao alcance de uma mulher em situação de risco. E a legislação não parou no tempo, continua sendo atualizada. Tivemos avanços cruciais, como o reconhecimento formal do crime de violência psicológica e de outros tipos de abusos, a tipificação da Lei do Feminicídio (Lei nº 13.104/2015) como qualificadora do homicídio, e o uso de tornozeleiras eletrônicas para o monitoramento de agressores. Tudo isso demonstra que a Lei Maria da Penha é uma legislação viva, que vai se ajustando às novas dinâmicas da realidade.

Existe um consenso sobre a necessidade de integrar políticas públicas, investimentos e redes de proteção. O que mais pode frear a escalada da violência?

O ponto que mais me preocupa é saber que a lei é muito boa no papel, mas ainda demonstra, na prática, não ser efetiva em todos os casos. Os números ainda assustam, porque a maioria das mulheres mortas por companheiros ou ex-companheiros nem sequer conseguiu chegar à Justiça a tempo. Isso é um problema seríssimo. A lei foi estruturada para funcionar como uma teia: delegacias especializadas, assistência social, Poder Judiciário e políticas públicas de prevenção, atuando em conjunto. O Estado precisa aprender a identificar o risco precocemente e intervir antes que o pior aconteça. Precisamos interiorizar e expandir a rede de proteção.

E o que ainda precisa mudar? Onde estão as maiores falhas no atendimento às vítimas?

Avançamos muito na punição, mas ainda pecamos na prevenção. O fator racial e social também pesa de forma decisiva nesse cenário. Mulheres negras, indígenas e moradoras da periferia morrem proporcionalmente mais, o que escancara a necessidade de a lei proteger, de fato, todas as mulheres. Isso exige olhar além do gênero, considerando raça e contexto regional. Além disso, é fundamental capacitar continuamente os agentes do Estado. Ainda testemunhamos operadores do Direito - incluindo policiais, promotores e juízes - questionando o comportamento da vítima ou relativizando violências que não deixam marcas físicas, como a psicológica e a patrimonial.

Qual é o seu maior desejo para os próximos anos quanto à aplicação e evolução da lei?

A lei é um marco histórico, mas marco não é ponto de chegada. Os próximos 20 anos precisam ser focados em transformar essa legislação avançada em proteção real e diária para toda e qualquer mulher brasileira, independentemente de onde ela more ou da cor da sua pele.  

08 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Candidatos precisam reconhecer avanços na educação

Recomenda-se aos candidatos e candidatas ao governo do Rio Grande do Sul a fineza de estudar os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025 antes de colocar em risco um trabalho consistente, mas ainda incompreendido. Não basta semear clichês sobre o ensino, dizer que é prioridade absoluta, como dizem todos os concorrentes a cada eleição, e não ter um projeto de longo prazo.

Foi pela continuidade das políticas públicas que o Ceará e depois outros Estados nordestinos atingiram resultados melhores do que os ricos do Sudeste.

O que se vê nos debates iniciais sobre educação é uma mistura de desinformação, preconceito, discurso fácil e generalização. É verdade que ainda estamos muito distantes do resultado necessário para chegar próximos dos países desenvolvidos. O Brasil está. As escolas públicas precisam evoluir, sem dúvida, as escolas privadas também. Não há sociedade desenvolvida sem educação pública de qualidade.

Feita essa ressalva, é preciso reconhecer que o trabalho da secretária Raquel Teixeira, muitas vezes criticado até por seus pares pela demora em apresentar resultados, aparece no Ideb de 2025 como sinal de que existe um caminho. Os resultados não são maquiados, como disse Luciano Zucco (PL) no debate da Gaúcha, nem mostram que somos os piores, como insiste Juliana Brizola (PDT), comparando os dados de hoje a um tempo em que só a elite ia para a escola e, portanto, nossos letrados brilhavam no céu do Brasil.

Há muito para ser feito no Rio Grande do Sul, mas quem for eleito não pode querer começar do zero. As medidas adotadas por Raquel e sua equipe, que podem e devem ser aperfeiçoadas, produziram um salto no ranking do Ideb, muito menos pela possibilidade de passar de ano com dependência em quatro matérias e mais pela melhora da aprendizagem mesmo. Está bom assim? Não. Bom seria uma nota acima de 8 nas três fases, mas isso nenhum Estado tem.

Precisa de profundidade

O que os candidatos precisam dizer aos eleitores é o que farão de diferente para a rede toda e não para as laranjas de amostra. Como será a prometida "valorização dos professores", em um cenário de orçamento apertado? De que forma acompanharão os resultados, escola por escola, e valorizarão aquelas que melhorarem em comparação com seus próprios resultados? Vão manter programas de retenção dos jovens no colégio por meio de recompensa financeira ou adotarão a máxima de que ninguém deve ganhar para fazer o que é obrigação? _

Juliana Brizola busca aproximação com empresariado

Disposta a dialogar com empresários, normalmente críticos aos candidatos e governantes da esquerda, Juliana Brizola (PDT) foi a Teutônia na sexta-feira para uma reunião com representantes da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços (CIC) e com o prefeito Renato Airton Altmann (PSD).

Representantes dos setores apresentaram à candidata não só os desafios enfrentados pelo município e do Vale do Taquari, como também as perspectivas de crescimento da região.

Segunda maior economia do Vale do Taquari, Teutônia está entre os municípios do Estado que mais aumentaram sua população nos últimos anos. Hoje, são cerca de 32 mil habitantes, parte deles recém-chegada à cidade, que recebeu novos moradores e empresas da região principalmente após as enchentes de 2023 e 2024.

Na conversa entre Juliana e representantes empresariais, foram abordados temas ligados ao desenvolvimento regional, dentre eles infraestrutura, fortalecimento do setor produtivo, qualificação profissional e prevenção diante dos eventos climáticos extremos. _

Satisfação e futuro

Satisfeita com os resultados do Ideb, depois de cinco anos à frente da Secretaria da Educação, Raquel Teixeira atribui o salto a um conjunto de iniciativas que têm como ponto de partida o trabalho baseado em dados. Ela destaca o sistema de governança, que começa nas escolas e termina no governador, passando pelas coordenadorias regionais de Educação e pela Seduc, todos acompanhando os mesmos indicadores, a começar por frequência e desempenho:

- Hoje, nossas escolas trabalham não apenas com a base curricular comum, mas com protocolos, informações climáticas e habilidades socioemocionais.

Raquel também se orgulha do projeto de educação antirracista, focado na aprendizagem. Outro projeto ao qual ela se dedicou, mas que está mais atrasado, é o da educação indígena - as crianças serão avaliadas no seu idioma materno e na língua portuguesa. _

Com presença pela metade

Apesar das quatro cadeiras dispostas no palco do confronto organizado pela Famurs, com transmissão da TV Pampa, somente duas foram ocupadas, por Gabriel Souza (MDB) e Marcelo Maranata (PSDB).

Diante de uma plateia de prefeitos e gestores municipais, os dois responderam a perguntas sobre a relação do governo estadual com os municípios e expuseram suas ideias para infraestrutura, saúde, municipalismo e desenvolvimento regional.

Juliana Brizola (PDT) e Luciano Zucco (PL) alegaram impossibilidade de participar em razão de outras agendas. Juliana esteve em Teutônia, onde participou de reunião com a CIC, e Zucco ficou em Porto Alegre para reuniões internas da campanha. _

Um exemplo para se inspirar

Em vez de viajar para o Ceará ou para a Finlândia em busca de inspiração, prefeitos que não conseguem bons resultados na educação podem subir a Serra e conhecer um exemplo que dá certo. A cidade é Farroupilha, referência em educação pública. Lá fica a Escola de Ensino Fundamental Santa Cruz, que conquistou de novo o primeiro lugar no Ideb nas duas etapas avaliadas - anos iniciais e anos finais do Ensino Fundamental.

Atenção para as notas obtidas pela Santa Cruz: 9,2 nos anos iniciais e 8,2 nos anos finais.

A título de comparação, a média do RS, somando as redes estadual, municipal e federal e as escolas privadas, é de 6,3 nos anos iniciais e 5,4 nos anos finais. A instituição também é a primeira colocada nas séries iniciais e finais da Região Sul do país.

O que a escola de Farroupilha tem que outras não têm? Em 2024, a diretora da escola deu entrevista à Rádio Gaúcha para explicar o bom desempenho. Em 2023, a Santa Cruz também estava em primeiro lugar no ranking. Não havia nada de milagroso: professores comprometidos, pais envolvidos na educação dos filhos, disciplina e compromisso com aulas interessantes. Antes de virar lei, a escola já tinha proibido o celular em sala de aula.

Nos anos iniciais, três das 10 melhores escolas do Estado são de Farroupilha. _

POLÍTICA E PODER

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

ORÇAMENTO DOMÉSTICO

Endividamento das famílias sobe para 82%, mas inadimplência cai

Orçamento doméstico

O indicador que mede a proporção de famílias que têm dívidas, em atraso ou não, chegou a 82% em julho, marcando o maior patamar já registrado pelo sexto mês seguido. Em junho, o índice era 81,6%; enquanto, em julho do ano passado, 78,5%.

Mas a parcela de famílias com dívidas atrasadas, a inadimplência, recuou para 29,8% em julho. No mês anterior, estava em 29,9%, e, há um ano, em 30%.

O tempo médio de pagamento em atraso das contas ficou em 64,6 dias em julho, mostrando trajetória de queda desde abril, quando estava em 65,1 dias. Os dados fazem parte da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada ontem pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

O levantamento é feito com 18 mil famílias de todo o país. São levadas em consideração dívidas com cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e casa.

A pesquisa mostra que as famílias têm, em média, 29,5% do orçamento atrelado a dívidas, com tempo médio de comprometimento de 7,2 meses.

A CNC ressalta que dívida não é necessariamente um comportamento financeiro negativo, uma vez que é uma forma de direcionar dinheiro para o consumo, o que aquece a economia como um todo. Mas, a instituição adverte que o índice de endividamento preocupa quando as famílias começam a apresentar dificuldade na capacidade de honrar os pagamentos.

Para o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, o elevado comprometimento da renda mostra que a recuperação da capacidade de consumo das famílias será gradual.

- A continuidade do processo de flexibilização monetária (queda da taxa Selic), condicionada ao comportamento da inflação, poderá ajudar a aliviar o orçamento doméstico e reduzir a pressão financeira principalmente sobre as famílias de menor renda - afirma. _ 

07 de Agosto de 2026
EDITORIAL

EDITORIAL

Uma homenagem a eles

Meu pai sempre gostou de inventar moda na cozinha. Foi com ele que aprendi a usar o tomilho e o alecrim no preparo das carnes. Ele também me ensinou a acender o fogo da churrasqueira usando uma garrafa de vidro envolvida em folhas de jornal. Mas seus ensinamentos não ficam apenas na culinária. Mesmo passados 20 anos, lembro dele voltando das viagens de trabalho pelo interior do Estado, trazendo uma coberta da Minnie da qual demorei muito, mas muitos anos mesmo, para me desfazer. Foi ele quem me apresentou ao Pequeno Príncipe e me contou inúmeras histórias antes de dormir.

Seu Adroaldo nunca fez curso de culinária, mas é um verdadeiro entusiasta no assunto. Com ele aprendi, desde piá, as músicas da torcida do nosso time do coração e também a não ter medo de arriscar. A todos os papais de plantão que nos leem, preparamos este caderno para celebrar suas vidas.

Vocês nos ensinam a arte de amar e a importância de sermos corajosos, seja ao escolher os ingredientes para o preparo dos alimentos ou ao repassar às futuras gerações o legado construído ao longo de uma vida. Nas próximas páginas, conheça a história de três chefs que dividem a rotina intensa da cozinha com a paternidade. 

Confira também uma hotlist para celebrar o Dia dos Pais, seja tomando uma cervejinha gelada, revisitando um restaurante clássico de Porto Alegre ou conhecendo um endereço recém-inaugurado. Adro, te amo! Feliz Dia dos Pais!

Brunna Oliveira - Analista de Conteúdo

07 de Agosto de 2026
CONTAS PÚBLICAS

CONTAS PÚBLICAS

Alta da dívida decorre dos juros elevados, diz Durigan

Dados mais recentes mostram que passivo federal chegou a R$ 9,2 trilhões. Ministro afirma que aumento se dá em razão da rolagem de débitos antigos. Para os adversários de Lula, a gestão petista não tem compromisso com a responsabilidade fiscal e com o corte de despesas

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o aumento da dívida brasileira não se deve ao crescimento de gastos, e sim aos juros altos que são cobrados no país. Segundo ele, isso ocorre por conta da necessidade de o governo federal pagar dívidas antigas com títulos novos, o que implica em mais pagamento de juros.

A declaração do ministro foi dada ontem em entrevista à GloboNews. Ele explicou que, de fato, há relação entre a questão fiscal e os juros, mas que há também outros fatores decisivos que acabam por influenciar as altas taxas cobradas no Brasil.

O aumento da dívida pública é um dos pontos explorados pela oposição à atual gestão. Candidatos à Presidência levantam o tema para atacar a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição. Para os críticos, o governo petista não tem compromisso com a responsabilidade fiscal, gastando mais do que arrecada em vez de adotar medidas para equilibrar as contas. Os adversários do atual presidente pregam o corte de despesas como alternativa para enfrentar o débito e a alta de juros.

A equipe de Flávio Bolsonaro (PL), por exemplo, defende o enxugamento da máquina pública e a venda de ativos da União como formas de recuperar a confiança na condução das contas públicas.

Perguntado se os gastos favorecem o cenário de juros altos, Durigan disse que "o governo não está gastando mais do que arrecada".

- O que acontece é que estamos pagando dívidas antigas com títulos novos. É, portanto, na gestão da dívida que estamos aumentando a dívida. É na rolagem da dívida, e não nos gastos - complementou.

Dados divulgados pelo Tesouro Nacional mostram que a emissão forte de títulos vinculados à taxa Selic, o juro básico da economia, fez a dívida pública federal subir em junho, superando os R$ 9,2 trilhões. Durigan reiterou que os juros elevados são o principal fator por trás do aumento.

- Estamos com um problema na economia brasileira que é a taxa de juros e quanto isso afeta o endividamento, seja público, seja privado. O compromisso do governo é fazer todo o possível dentro do ponto de vista fiscal, que é o que está mais próximo, para endereçar essa questão dos juros no próximo mandato. O juro machuca muito a economia brasileira como um todo, não só o governo - acrescentou.

Ele destacou que, do ponto de vista econômico, o país está muito bem, "com o melhor resultado de inflação da história" e as agências internacionais de risco melhorando cada vez mais as avaliações sobre o país.

Os comentários ocorrem um dia após o Comitê de Política Monetária (Copom) cortar a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,25% para 14% ao ano. Esse foi o quarto corte consecutivo da taxa. Antes do início do ciclo de calibração, o juro estava em 15%.

Incerteza elevada

Questionado se haveria uma má vontade do mercado financeiro ao estabelecer a taxa de juros futura, Durigan disse que não atribui o cenário atual a uma má vontade, mas sim ao grau de incerteza elevado e a uma certa ansiedade com a eleição:

- Estamos falando de o mercado comprar títulos de longo prazo, estamos falando de títulos de três, cinco e 10 anos e essa projeção de futuro que hoje está em jogo.

Segundo Durigan, o governo Lula melhorou as contas públicas, o que resultou em um ajuste de dois pontos percentuais (pp) do Produto Interno Bruto (PIB) no déficit primário (que exclui juros e correção da dívida). _

07 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Faltou profundidade aos pré-candidatos no debate

É natural que, no primeiro debate de uma campanha eleitoral, os pré-candidatos ainda estejam aquecendo os motores e mais preocupados em se tornar conhecidos dos eleitores. Mas, a menos de dois meses do primeiro turno, seria esperado que houvesse mais profundidade por parte daqueles que desejam o voto dos gaúchos.

O formato do debate promovido pela Rádio Gaúcha, ontem, na PUCRS, favorecia justamente a pluralidade de assuntos. Algumas perguntas partiram de entidades representativas do Estado e abordaram temas como cooperativismo, saúde, transparência, inteligência artificial e empreendedorismo. Mas, na maior parte das vezes, os postulantes responderam pouco às questões formuladas. Perderam oportunidades valiosas de dialogar diretamente com os setores que, além de representarem uma parcela significativa do eleitorado, impulsionam o desenvolvimento econômico e social do Estado.

Nas raras ocasiões em que permaneceram nos temas propostos, faltou profundidade. Embora tenham sido estimulados, logo na abertura, a apresentar propostas concretas, poucos explicaram como pretendem colocá-las em prática, e nenhum abordou de onde virão os recursos para financiá-las. Em tempos de restrição fiscal, o "de onde virá o dinheiro" é a principal pergunta que um pré-candidato a governador precisa responder.

Educação, saúde e segurança pública foram os temas que mais apareceram, três áreas que serviram de escada nas estratégias dos debatedores para atacar o adversário, de forma individual ou em dupla, a chamada "dobradinha", que ficou muito clara, desde o início do evento, entre Juliana Brizola (PDT) e Marcelo Maranata (PSDB) contra Gabriel Souza (MDB). O vice-governador, aliás, foi o foco das críticas, enquanto o ex-prefeito de Guaíba buscou apresentar-se como terceira via. Luciano Zucco (PL) explorou a condição de ser oposição tanto no Estado quanto em nível nacional.

Em um debate, em geral, morno, Juliana e Gabriel protagonizaram o momento mais quente, próximo ao final, quando a ex-deputada desafiou o vice-governador a dizer como irá governar, caso eleito, diante da previsão de déficit orçamentário. Gabriel respondeu questionando quais programas da atual gestão ela manteria, caso chegue ao Piratini. Foi um dos poucos momentos em que a discussão tangenciou o desafio concreto de administrar as contas públicas.

Também chamou a atenção a ausência de temas estruturantes para o futuro do Estado. Praticamente não se falou sobre agronegócio, indústria, infraestrutura, cultura, sustentabilidade e mudanças climáticas.

Em um Rio Grande do Sul que viveu sua maior tragédia ambiental e enfrenta eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, adaptação e resiliência deveriam estar no topo dos planos de governo. O sistema de proteção contra cheias apareceu apenas nos minutos finais, em um confronto entre Gabriel e Maranata, e ainda assim de forma superficial.

Como estratégia, os quatro pré-candidatos administraram cuidadosamente o tempo para garantir os segundos finais dos blocos de confronto direto, tentando ficar com a última palavra. Nos próximos, espera-se que a mesma habilidade seja empregada para aprofundar as respostas e discutir, com mais objetividade, concretude e profundidade, os caminhos para o Estado. _

Marcelo Gleiser de volta ao RS

Marcelo Gleiser voltará a Porto Alegre, na próxima terça-feira, para o lançamento do filme A Dança do Universo. 

A obra entrelaça biografia, ciência e filosofia ao acompanhar a trajetória do cientista, das raízes no Rio de Janeiro à criação da chamada "Ilha do Conhecimento", seu centro de imersões e retiros para executivos, situado em uma vila do século 16, na Toscana (Itália).

O filme convida a uma reflexão sobre como o conhecimento amplia, em vez de dissipar, o mistério que envolve a vida e o universo. Professor de Física e Astronomia no Dartmouth College, nos EUA, Gleiser é reconhecido internacionalmente por centenas de artigos e ensaios e por popularizar temas científicos.

A pré-estreia será na sala 5 do GNC Cinemas, do Moinhos Shopping. Haverá palestra com Gleiser.

O cientista virá a Porto Alegre a convite do Instituto Cidadania Cabanellos e da Ajuris, com apoio institucional da PUCRS. 

Honraria a Cármen Lúcia

A Associação dos Procuradores do Estado do Rio Grande do Sul (Apergs), que representa os procuradores do Estado, entregou à ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), a medalha Antônio Estevão Allgayer - 60 anos.

Uma comitiva da entidade foi recebida, em Brasília, no gabinete da magistrada ontem. A homenagem reconhece personalidades que tenham prestado relevantes contribuições à advocacia pública e às instituições brasileiras.

A comitiva gaúcha foi liderada pela presidente da Apergs, Patrícia Bernardi Dall?Acqua, acompanhada pelo vice-presidente, Telmo Lemos Filho, pelo diretor Luis Carlos Kothe Hagemann e pelo presidente da Associação Nacional dos Procuradores dos Estados e do Distrito Federal (Anape), Hélder de Araújo Barros.

A medalha foi criada no contexto das comemorações pelos 60 anos da entidade, celebrados em 25 de agosto de 2026.  Direito de pergunta: ministro José Múcio, se basta abrir o portão, para que servem as Forças Armadas?

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

06 de Agosto de 2026
ROGER LERINA

Viva a muvuca

A história da música no Brasil mudou a partir de 11 de janeiro de 1985. A data de surgimento da cultura dos grandes festivais no país é marcada pelo primeiro dos 10 dias do Rock in Rio, que reuniram no total quase 1,4 milhão de pessoas. Eu testemunhei esse nascimento, adolescente empolgado em meio a um mar de gente curtindo ao vivo as lendas do rock Iron Maiden e Queen. O primeiro show do Rock in Rio, entretanto, foi de Ney Matogrosso, artista que não era identificado com o gênero que batizou o evento carioca. (Aos 85 anos e em plena atividade, o cantor segue mais inquieto e libertário do que muitos roqueiros. Mas esse é outro assunto.)

Quatro décadas depois - e com uma longa lista de festivais no currículo -, voltei a encarar uma dessas maratonas musicais no sábado passado. Um dos maiores eventos nacionais do tipo, o João Rock reuniu cerca de 65 mil pessoas que assistiram a 34 atrações em um espaço aberto enorme em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. No palco, havia dois expoentes da música brasileira veteranos como eu do Rock in Rio inaugural: Os Paralamas do Sucesso e Alceu Valença. Aliás, uma das características mais bacanas desse festival paulista - que em breve ganhará edição também em Porto Alegre, provavelmente já no ano que vem - é escalar apenas artistas nacionais.

Outra semelhança com aquele megaevento que acompanhei aos 16 anos, fascinado e exausto, é que, além do estilo musical que leva no nome, o João Rock apresentou nos seus cinco palcos nomes da MPB, rap, hip hop, reggae e pop. Misturar os gêneros é um formato adotado cada vez mais por festivais aqui e lá fora - para contrariedade de puristas que prefeririam cada um no seu quadrado: roqueiros no Lollapalooza, jazzistas no Free Jazz, hip hop no Rap In Cena. Tá legal, eu aceito o argumento - penso, porém, que tanto os eventos puro-sangue quanto os mestiços são igualmente relevantes e podem coexistir de boas em suas singularidades.

Para além das predileções individuais, festivais como o Planeta Atlântida, por exemplo, promovem graças a suas programações artísticas ecléticas encontros entre públicos de diferentes tribos, comportamentos, perfis sociais e culturais, gerações. Neste mundo cada vez mais desagregado, em que o convívio presencial é relegado em favor da solitária virtualidade das telas, a saudável catarse de uma galera heterogênea que canta e dança assistindo junto ao show de um mesmo ídolo é uma afirmação de vitalidade do espírito coletivo. Confraternizar cansa, mas a energia única que em um festival imanta palco e plateia vale a muvuca. 

ROGER LERINA

06 de Agosto de 2026
OPINIÃO RBS

Tensões diplomáticas são sinal dos tempos

O final da terça-feira foi trepidante para as relações internacionais brasileiras, com a lamentável escalada das tensões diplomáticas com os Estados Unidos e a Argentina, nações com as quais o país cultiva vínculos seculares de amizade e parceria comercial. A Casa Branca anunciou a revogação do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Seria uma resposta à demora do Brasil em conceder o aval para que Daniel Perez assuma a embaixada dos EUA em Brasília. Poucas horas depois, o Itamaraty, em meio à elaboração da resposta à decisão do governo Trump, informou que estava rebaixando o nível das relações diplomáticas com a Argentina. A decisão implica manter no Brasil o embaixador Julio Bitelli, que atua em Buenos Aires, enquanto o mandatário do país vizinho, Javier Milei, continuar a insultar autoridades brasileiras, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O momento de tensionamento, talvez sem precedentes, demonstra a extrapolação para o cenário internacional da polarização política doméstica que se acirra, sem sinais de arrefecimento, nos países democráticos desde meados da década passada. Trata-se de algo bastante semelhante à radicalização ideológica interna observada em países como o próprio Brasil e os EUA e a Argentina, entre inúmeros outros.

Nos contextos nacionais, a exacerbação dos ânimos pelas diferenças de visão de mundo e de valores esgarça o tecido social, corrói a confiança entre os cidadãos e nas instituições, abala relações pessoais e familiares e torna as disputas eleitorais mais virulentas. Não raro, as desconfianças mútuas, a incapacidade de dialogar e a intolerância em relação a quem pensa de maneira distinta descambam para a violência política.

Torna-se também mais evidente que, da mesma forma que grupos de um país com posições semelhantes se aglutinam, buscam alianças no Exterior por afinidade. A intromissão em assuntos internos, como eleições, torna-se mais frequente e ousada. Instituições multilaterais são enfraquecidas. Quem não é alinhado é visto como potencial inimigo.

A gravidade da situação sobe alguns degraus quando as posições mais extremadas passam a contaminar inclusive a diplomacia, que deveria servir de anteparo para eventuais ruídos derivados da retórica mais contundente dos chefes de Estado, em nome da preservação das relações duradouras entre os países. Esquece-se que governos e presidentes são transitórios, enquanto as nações ficam.

A postura histórica da política exterior do Brasil não é de alinhamento automático a potências, mas de busca por equidistância, em nome de seus próprios interesses, com autonomia e pragmatismo, independentemente da coloração política do presidente de turno. Apesar da época desafiadora, é preciso manter esse legado que procura flexibilidade para extrair vantagens dos diferentes polos.

Espera-se que não tarde muito para que fique no passado essa quadra soturna da História, marcada por divisões geopolíticas exacerbadas, conflitos e prevalência da lei do mais forte. Deixar para trás essa fase depende de os próprios países, notadamente as sociedades democráticas, encontrarem caminhos para a reconciliação interna. _

06 de Agosto de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

O que esperar do primeiro debate

Com apenas quatro candidatos enquadrados nos critérios que a lei estabelece para participação obrigatória nos debates, o confronto de hoje, na Rádio Gaúcha, promete ser produtivo. Tempo não faltará para que Gabriel Souza (MDB), Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB) exponham seus projetos para governar o Rio Grande do Sul. É importante que digam não apenas o que pretendem fazer, mas como.

Todos os quatro candidatos sabem que o orçamento de 2027 será apertado e que os anos seguintes não serão fáceis. Só isso é suficiente para que tomem cuidado na hora de fazer promessas que só cabem na caixinha das boas intenções.

Em vez de apenas sortear um tema para que os concorrentes debatam, a produção optou por encaminhar perguntas elaboradas por jornalistas ou feitas por líderes de entidades, que um responderá e escolherá um adversário para debater. Isso deve garantir que todos os temas relevantes sejam abordados.

Haverá também um bloco livre para que os quatro levantem assuntos que estão na sua lista de prioridades e escolham com quem querem debater.

O debate é da Gaúcha, mas o alcance é incalculável. Além da transmissão pelas Gaúchas Porto Alegre, Santa Maria, Serra, Zona Sul e Passo Fundo e por emissoras de rádio do Interior que se interessaram em entrar em cadeia, o público poderá acompanhar em imagens pelo YouTube da Rádio Gaúcha. Tudo isso sem contar a cobertura de GZH e a repercussão nas redes sociais.

Para tornar ainda mais atraente o debate, que será mediado pela jornalista Andressa Xavier, o palco será o do teatro do prédio 40 da PUCRS, com espaço para uma plateia de convidados e assessores. É um debate produzido com a certeza de que a melhor forma de ajudar o eleitor a fazer sua escolha é mostrar os candidatos como eles são, o que é bem diferente da propaganda eleitoral. Essa começa em 16 de agosto. _

Governo Leite celebra salto no Ideb

Quando assumiu o segundo mandato, o governador Eduardo Leite decretou que a educação seria a sua prioridade número 1. Ampliou investimentos, criou programas, liberou a secretária Raquel Teixeira das tarefas relacionadas a obras, para que se focasse na pedagogia.

Os resultados apareceram na forma de um salto no Ideb divulgado ontem, ainda que os números do Brasil, como um todo, estejam distantes do ideal. Os resultados poderiam ter sido melhores, não fossem as enchentes de 2023 e 2024. Em 2025, Leite chamou o ex-secretário da Fazenda Aod Cunha para participar de um grupo que funciona nos moldes do programa RS Seguro, na expectativa de melhorar os índices da educação como conseguiu reduzir os da criminalidade.

Ao receber os resultados do Ideb, o grupo envolvido no trabalho comemorou. Porque o Estado conseguiu melhorar o desempenho nos anos iniciais e finais do Ensino Fundamental e, principalmente, no Ensino Médio. Nos anos iniciais, ficou com nota 6,3. O Paraná é o primeiro com 7 e o Ceará, o segundo com 6,8. Nos anos finais, o Estado pulou para o 8º lugar, com média 5,4. O Paraná, novamente o primeiro, tem 5,9.

O grande salto ocorreu no Ensino Médio, ainda que a nota 4,9 não seja motivo de comemoração, sendo a escala de zero a 10. O RS ficou atrás do Paraná (5,1) e do Piauí (5) e ao lado do Espírito Santo (4,9). _

O que a escolha do vice diz sobre a estratégia de Flávio Bolsonaro

Para a maioria dos eleitores brasileiros, o nome de Alfredo Gaspar diz pouco ou nada. Deputado federal pelo PL de Alagoas, é ele a surpresa anunciada por Flávio Bolsonaro para ser seu vice.

Gaspar não é uma dessas estrelas do Congresso. Sua visibilidade se deve à CPI do INSS, da qual foi relator, e aí reside a principal explicação para a escolha do seu nome como vice de Flávio.

O PL identifica no escândalo do INSS o calcanhar de Aquiles de Lula, ainda que os desvios tenham começado no governo de Michel Temer e continuado no de Jair Bolsonaro. Porque foi no governo Lula que a fraude cresceu e se multiplicou. Também foi na gestão Lula que a torneira se fechou e é isso que o presidente vai dizer em sua defesa. _

Disputa apertada para a Presidência

Com números ligeiramente diferentes, duas pesquisas divulgadas ontem - uma da Quaest e uma da Meio/Ideia - mostram o mesmo cenário. O presidente Lula lidera as intenções de voto no primeiro e no segundo turnos, com diferença semelhante em relação a Flávio Bolsonaro. Todos os demais concorrentes seguem numa espécie de limbo.

Na Quaest, Lula tem 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 30% de Flávio. No segundo pelotão, vêm Renan Santos (Missão), com 4%, Ronaldo Caiado (PSD), 4%, e Romeu Zema (Novo), com 2%. Os demais ficam abaixo de 1%. Brancos, nulos, indecisos e eleitores que não pretendem votar chegam a 18%. _

Segundo turno mantém tendência

Respeitadas as margens de erro, os números do segundo turno também são convergentes quanto à diferença entre os dois candidatos. Na Quaest, Lula tem 44% e Flávio, 39%. Na Meio/Ideia, Lula vai a 48,5% e Flávio fica com 43%.

De novo, a diferença se explica pelos índices de indecisos, brancos e nulos. Na Quaest, os brancos, nulos, indecisos e eleitores que não pretendem votar somam 17%. Na Meio/Ideia, 8,5%.

O mesmo ocorre com a rejeição. Na Quaest, Flávio é rejeitado por 54% dos eleitores e Lula por 52%. Na Meio/Ideia, também ocorre empate técnico. Flávio é rejeitado por 48% dos entrevistados e Lula por 47,4%.

A pesquisa Quaest ouviu 2.004 pessoas entre os dias 31 de julho e 3 de agosto. O nível de confiança é de 95%, e a margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O registro do levantamento no TSE é BR-06591-2026.

A pesquisa Meio/Ideia ouviu 1.500 pessoas entre os dias 31 de julho e 3 de agosto. O nível de confiança é de 95%, e a margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, para mais e para menos. O registro do levantamento no TSE é BR-04579/2026. _

mirante

Uma decisão liminar suspendeu o mandato do deputado Valdir Bonatto (PSD), por infidelidade partidária. A ação foi movida pelo PSDB, partido que Bonatto deixou em janeiro, antes da janela partidária. A suplente Zilá Breitenbach (PSDB) assumirá a cadeira no seu lugar.

A coluna errou com o partido UP. Seu significado é Unidade Popular. União Progressista é o nome da federação PP-União Brasil.

POLÍTICA E PODER

06 de Agosto de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Diplomacia enfrenta crises em frentes diversas

Este é um dos momentos mais desafiadores da diplomacia brasileira desde a redemocratização. O país enfrenta, simultaneamente, a pressão do governo Donald Trump na disputa tarifária, a revogação do visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, e o rebaixamento das relações diplomáticas com a Argentina em razão dos sucessivos ataques de Javier Milei ao presidente Lula e a outras autoridades.

O Brasil já atravessou crises importantes com Washington - como a provocada pelas revelações de espionagem feitas por Edward Snowden, em 2013, durante o governo Dilma Rousseff. Também enfrentou momentos de tensão com a Argentina e disputas comerciais. O que torna a conjuntura atual singular é a coincidência temporal desses episódios, agravada por uma campanha eleitoral que internacionalizou a política brasileira.

O problema é que o Itamaraty foi erigido de forma a administrar crises pontuais, não para lidar com incêndios em várias frentes simultâneas. Desde o Barão do Rio Branco, a diplomacia brasileira construiu sua reputação sobre dois pilares: diversificação de parceiros e solução negociada de controvérsias. Hoje, porém, esses princípios são testados simultaneamente em diferentes direções.

A política doméstica passou a contaminar a política externa. Não por acaso, as declarações de Milei ocorreram justamente na convenção que oficializou Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência e foram interpretadas pelo Itamaraty como extrapolação dos limites aceitáveis da relação entre Estados.

No caso dos Estados Unidos, a crise vai muito além do protocolo diplomático. Os americanos continuam sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil e o aliado histórico mais antigo do país. Foram, afinal, a primeira nação a reconhecer a independência brasileira, em 1824, apenas oito meses após a proclamação. Esse gesto inaugurou a relação bilateral que atravessou impérios, repúblicas, guerras mundiais e a Guerra Fria.

A história com a Argentina foi diferente. Ela começou sob o signo da rivalidade, em meio à Guerra da Cisplatina e às disputas pela liderança da Bacia do Prata. No século 19, brasileiros e argentinos foram os principais concorrentes geopolíticos da América do Sul. A desconfiança persistiu durante boa parte do século 20. Na década de 1970 e no início dos anos 1980, embora nunca tenha havido corrida armamentista declarada, os dois países observavam com cautela seus programas nucleares, temendo que o vizinho pudesse desenvolver capacidade para fabricar a bomba atômica.

Embates simultâneos

A transformação dessa rivalidade em parceria estratégica só começou com a redemocratização, culminando na criação do Mercosul e da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC), um dos mais bem-sucedidos mecanismos de confiança mútua do mundo.

O Brasil, portanto, enfrenta atritos simultâneos com seu maior parceiro no hemisfério, os Estados Unidos, com seu principal vizinho, a Argentina, e em meio a uma campanha presidencial fortemente internacionalizada. Política externa raramente decide eleições, mas frequentemente é utilizada para mobilizar militâncias e alimentar narrativas domésticas. Caberá ao Itamaraty impedir que divergências entre governos contaminem interesses permanentes do Estado brasileiro.

Como já defendido por esta coluna: presidentes passam, relações entre países precisam permanecer. _

Papa virá à América do Sul

O Vaticano confirmou a viagem do papa Leão XIV à América do Sul. O Pontífice deve passar, entre 6 e 17 de novembro, por Uruguai, Argentina e Peru.

Era esperado que ele passasse pelo Brasil, principalmente pela região da fronteira do RS, porém o país ficou de fora da viagem apostólica.

Conforme comunicado do Vaticano, Leão XIV passará primeiro pelo Uruguai, entre os dias 6 e 8 de novembro, nas cidades de Montevidéu, Paysandú e Florida. Entre 8 e 11 de novembro, visitará a Argentina, passando por Buenos Aires, Córdoba e Luján. Por fim, estará no Peru entre os dias 11 e 17, visitando Lima, Chiclayo, Cusco e Pucallpa.

De acordo com a nota, "o programa da viagem será divulgado mais adiante".

Países visitados

O roteiro pela Argentina era esperado ainda durante o pontificado de Francisco. Desde a eleição de Jorge Mario Bergoglio, em 2013, o Pontífice não retornou ao seu país natal.

O Uruguai foi incluído no roteiro devido à proximidade geográfica. Até o anúncio de ontem, as cidades uruguaias que vão receber o Pontífice estavam indefinidas e tanto Paysandú quanto Rivera - esta última na fronteira com Santana do Livramento, no RS - estavam cotadas. Por causa disso, especulava-se uma possibilidade de visita do papa ao Brasil - o que não se confirmou, já que Paysandú foi escolhida.

A ida ao Peru também tem relação direta com o atual Líder da Igreja Católica. Depois de deixar os EUA, Robert Prevost viveu e trabalhou por cerca de 25 anos no país da América do Sul como missionário agostiniano. _

Questionada sobre por que o Brasil não foi incluído no roteiro do papa Leão XIV pela América Latina, uma fonte da coluna no Vaticano respondeu com uma frase sugestiva: "Chegará o momento".

Imprensa argentina repercute atritos

Os principais jornais da Argentina repercutiram, ontem, a escalada da crise diplomática entre o Brasil e o país vizinho.

O jornal Clarín trazia como manchete principal: "Por insultos de Milei a Lula, Brasil não vai repor o seu embaixador". Com a decisão de rebaixamento diplomático, o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, permanecerá em Brasília. O também portenho La Nación destacou: "Brasil endurece posição: embaixador não retornará devido aos insultos de Milei a Lula".

Um dos jornais mais antigos da Argentina, o La Capital, fundado em 1867, trazia a manchete: "Decisão inédita: Brasil retira o seu embaixador da Argentina". O Página/12, jornal alinhado a posicionamentos de esquerda, trouxe o título no topo da página: "Escalou a crise: Brasil retira seu embaixador". _

Jurista gaúcho eternizado

A trajetória do gaúcho Paulo Brossard de Souza Pinto, jurista e ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF), será eternizada no livro O Avesso do Arbítrio: Estudos em Homenagem a Paulo Brossard de Souza Pinto, obra que será lançada hoje na Biblioteca do STF, em Brasília.

Coordenada pelos juristas Guilherme Barcelos, Gustavo Bohrer Paim e Miguel Tedesco Wedy, a publicação reúne personalidades para revisitar a trajetória de Brossard. O prefácio é assinado pelo ex-presidente da República José Sarney; a apresentação, pelo ministro Gilmar Mendes; o artigo principal, pelo ministro André Mendonça; e o posfácio, pela ministra Maria Cristina Peduzzi.

Natural de Bagé, Paulo Brossard construiu trajetória marcante na advocacia, no Parlamento, no Ministério da Justiça, na academia e no STF. _

INFORME ESPECIAL

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

05 de Agosto de 2026
CARPINEJAR

Spectreman e Ultraman

Quando pequeno, fui muito mais ingênuo do que as crianças das gerações de hoje. Recentemente, recebi a prova cabal do quanto era pueril. Meu melhor amigo Zé, companheiro das peraltices, mandou um episódio do Spectreman, série japonesa que impactou a minha infância no fim dos anos 1970.

Na história, Kenji, um homem pacato, transformava-se num androide, num super-herói robotizado sobrevoando os céus para promover justiça.

Mas ele não era humano. Usava essa aparência como disfarce. Havia sido enviado à Terra para proteger a humanidade da destruição causada pela poluição.

Uma criança atual não ficaria um minuto assistindo àquelas aventuras apocalípticas, nem as levaria a sério, nem cogitaria que pudessem ser verdadeiras. No máximo, iria rir do orçamento baixo, da produção amadora, das luzinhas piscando na carcaça de sucata como árvore de Natal. Sequer uma maquete no trabalho de artes do primário seria tão malfeita. As cidades se desmanchavam como papelão com o surgimento de um monstro gigante, pois realmente se tratava de papelão.

Já eu confiava piamente. Eu me assustava com uma versão tosca e primitiva dos Mutantes. Arregalava os olhos ao ouvir o chamado de urgência dos habitantes de Nebula 71, asteroide que vagava livremente pelo espaço e fiscalizava conflitos no universo.

"Spectreman, essa é a voz dos Dominantes. Prevemos uma catástrofe ecológica em plena Baía de Tóquio. Horário terrestre: 19h. Sua missão é investigar imediatamente. Lembre-se de que não deve revelar sua identidade a nenhum nativo deste planeta. Está preparado, Spectreman?"

Minha fantasia perdoava a precariedade dos efeitos especiais. Eu não entendo como, porém dava um desconto, uma licença poética. Não me mostrava exigente. Talvez porque meus brinquedos se resumiam a uma bola, um pião, uma pandorga, uma corda e um carrinho de rolimã, e eu estava acostumado a enxergar bem mais do que acontecia na vida real. Eu inflacionava os fatos com a narração dos pensamentos, com o faz de conta.

Havia, também, entre os meus seriados de predileção, o antecessor de Spectreman: o Ultraman, um dos maiores ícones da cultura pop japonesa e um marco do gênero tokusatsu, que completava a minha galeria de exemplos sobrenaturais.

Quando os colegas debochavam de mim ou queriam me humilhar, eu imitava na escola os golpes básicos de defesa: Spacium Ray (braços em um sinal de +, com o braço direito vertical e o esquerdo horizontal, para disparar um poderoso raio capaz de demolir tudo pela frente), Lâmina (um disco semelhante a uma serra circular, jogado dos cotovelos em direção aos inimigos), Raio de Ataque-Ultra (uma onda de anéis de energia verde desferidos do punho fechado), Rajada (em forma de flecha, com uma mão acima da outra), Ultra Corrente de Água (um jato para apagar incêndios), Raio de Fluoroscopia (feixe de luz que tornava os objetos invisíveis), Ultra-Separação (criava duplicatas exatas de si, permitindo que cada uma lutasse com autonomia, inclusive em longas distâncias).

Nunca funcionou contra o bullying, apenas apanhei mais. Mas jamais deixei de tentar, de me concentrar, de executar as coreografias. Vá que, um dia, uma galáxia longínqua reparasse no meu sofrimento crédulo, esperançoso de um milagre.

Eu acreditava na minha salvação. Dependia mesmo de um super-herói. Ainda que fosse eu. _

CARPINEJAR