A avaliação é compartilhada por técnicos da Secretaria da Agricultura e da assistência técnica oficial. Segundo o meteorologista Flavio Varone, coordenador do Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro-RS), os modelos indicam alta probabilidade de um evento forte, com impactos especialmente a partir do final do inverno e ao longo da primavera.
As culturas de inverno, como o trigo, devem ser afetadas principalmente na fase final do ciclo. O aumento de temperatura e umidade cria um ambiente favorável à incidência de doenças fúngicas e pode comprometer tanto a produtividade quanto a qualidade dos grãos.
Além disso, o excesso de chuva pode reduzir a janela operacional no campo.
“O aumento de temperatura e umidade no final do ciclo prejudica o desenvolvimento e pode dificultar a colheita”, explicou Varone.
Para a safra de verão, o principal risco está na fase inicial. A tendência de chuvas acima da média na primavera pode atrasar o plantio de culturas como soja e milho, deslocando o calendário produtivo.
“A tendência é de mais chuva durante a primavera, o que deve atrasar o início do plantio e estender a safra para dentro de 2027”, disse o climatologista.
Esse atraso pode comprometer o zoneamento agroclimático e afetar o desenvolvimento das lavouras, além de aumentar o risco de perdas por encharcamento e degradação do solo.
Diante desse cenário, o planejamento agrícola baseado em dados climáticos deixa de ser diferencial e passa a ser condição básica para a produção. Segundo o presidente da Emater/RS-Ascar, Claudinei Baldissera, a orientação técnica já incorpora essa lógica como eixo central.
“Planejamento agrícola baseado em dados climáticos é um mantra”, afirmou.
Ele ressalta que, mesmo com incertezas sobre a intensidade do fenômeno, não é mais possível estruturar uma safra sem considerar os riscos climáticos.
“É inevitável que possamos nos mover estrategicamente na agricultura sem colocar isso no horizonte”, disse.
Mais do que decisões pontuais, a adaptação passa por mudanças estruturais no sistema produtivo, com destaque para o manejo do solo. A orientação técnica enfatiza a construção de sistemas mais resilientes tanto ao excesso quanto à falta de água.
“Um solo bem estruturado precisa ter capacidade de reservar água quando falta e absorver quando há excesso”, explicou Baldissera.
Práticas como plantio direto, conservação do solo e sistemas integrados ganham protagonismo nesse contexto. A manutenção da palhada sobre o solo, por exemplo, contribui para reduzir o escoamento superficial em períodos de chuva intensa e aumentar a capacidade de retenção de água, favorecendo o desenvolvimento das plantas tanto em cenários de excesso quanto de escassez hídrica. Programas como o Terra Forte, conduzido pelo Estado, buscam justamente difundir essas estratégias, acrescentou.
Além da resposta agronômica, o nível de manejo também passa a ter impacto direto sobre o acesso a crédito e instrumentos de proteção. Segundo Baldissera, propriedades com melhor estrutura produtiva e adoção de práticas conservacionistas tendem a apresentar menor risco, o que influencia condições de financiamento, seguro rural e enquadramento em programas como o Proagro.
Do diagnóstico à mudança de comportamento
A percepção sobre o risco climático também evolui entre os produtores. Segundo Baldissera, o tema sempre esteve presente, mas ganhou intensidade e maior embasamento técnico nos últimos anos.
“As informações hoje vêm com muito mais profundidade, e o produtor está mais atento e mais preparado para tomar decisões”, afirmou.
Esse movimento envolve tanto produtores quanto técnicos, com maior uso de dados, análises e ferramentas de monitoramento.
O cenário local se conecta a um contexto global de aquecimento, que tende a aumentar a frequência e a intensidade de eventos extremos. Na prática, isso significa maior alternância entre estiagens severas e períodos de chuvas intensas — ambos com potencial de causar prejuízos relevantes.
“A tendência é de eventos mais severos e mais frequentes no Rio Grande do Sul”, alertou Varone.
Diante desse quadro, especialistas apontam que o modelo produtivo deve passar por ajustes nos próximos anos.
Entre as principais mudanças esperadas estão:
- adoção de cultivares mais resistentes a estresses climáticos
- maior rigor no manejo e conservação do solo
- uso mais intensivo de dados e previsões climáticas
- integração de sistemas produtivos
Além disso, ferramentas como zoneamento agrícola e monitoramento de doenças tendem a ganhar ainda mais relevância na tomada de decisão.
Apesar dos avanços, a disseminação de informação de qualidade ainda é desigual, especialmente entre pequenos e médios produtores. Baldissera destaca que ampliar esse acesso é um dos principais desafios.
“O acesso à informação está melhorando, com mais dados e mais precisão, o que permite decisões mais assertivas, especialmente de precaução”, afirmou.
A Emater também aposta na formação de jovens rurais como estratégia de médio prazo para acelerar a adoção dessas práticas.
O que está em jogo no campo gaúcho
Culturas de inverno:
- Maior risco de doenças fúngicas
- Perda de qualidade dos grãos
- Dificuldades na colheita
Safra de verão:
- Atraso no plantio
- Comprometimento do ciclo produtivo
- Risco de encharcamento e degradação do solo
Estratégias de adaptação:
- Manejo e conservação do solo
- Uso de cultivares mais resistentes
- Planejamento baseado em dados climáticos
- Monitoramento constante