terça-feira, 13 de outubro de 2026

13 de Outubro de 2026
CONTAS PÚBLICAS

CONTAS PÚBLICAS

Valor corresponde à projeção de desequilíbrio entre receitas e despesas futuras do sistema, ao qual estão vinculadas mais de 300 mil pessoas. Custo para manter o regime próprio gira em torno de R$ 20 bilhões por ano e é a maior despesa pública do Rio Grande do Sul, diz o dirigente do IPE Prev

Os números apresentados pelo IPE Prev mostram os dois modelos previdenciários convivendo dentro do mesmo sistema. O regime antigo envolve os fundos financeiros civil e militar, estruturados em regime de repartição simples - ou seja, as contribuições dos servidores e a do Estado financiam os benefícios de quem já está aposentado. Eles apresentam déficit atuarial, exigindo bilhões de reais em aportes anuais do Estado para manter o pagamento dos benefícios.

Já os fundos previdenciários (Fundoprev Civil e Militar) são organizados sob regime de capitalização - ou seja, as contribuições descontadas de cada servidor e a cota patronal do Estado são acumuladas e investidas para financiar os benefícios. Nesse caso, os fundos seguem acumulando patrimônio, registrando rendimentos e apresentando superávit atuarial.

O principal desafio permanece ser financiar, ao longo das próximas décadas, os benefícios da grande massa de aposentados e pensionistas vinculada ao regime antigo até que os fundos capitalizados ganhem escala suficiente para alterar estruturalmente o resultado previdenciário do Estado.

O custo para manter a previdência estadual gira em torno de R$ 20 bilhões por ano, sendo a maior despesa pública do Rio Grande do Sul, segundo o diretor-presidente do IPE Prev, José Guilherme Kliemann. Os números foram apresentados neste mês pelo IPE Prev durante audiência pública de prestação de contas e divulgação dos resultados atuariais, financeiros e previdenciários do sistema.

Melhora expressiva

- Nenhuma previdência madura como a nossa, que é uma previdência mais antiga, não terá déficit, porque as regras ou eram muito generosas ou não havia contribuição. É o passado que temos que administrar, mas, a partir de agora, essa nova previdência que foi criada, é que nós temos condições de dizer: essa não será deficitária - aponta Kliemann.

Pressão

Os fundos financeiros pressionam as contas públicas por serem estruturados sob regime de repartição simples. Entre janeiro e junho de 2026, o Fundo Financeiro registrou R$ 8,46 bilhões em despesas previdenciárias, valor inferior aos R$ 9,35 bilhões observados no segundo semestre de 2025. A maior parte desses recursos foi destinada ao pagamento de aposentadorias, inatividades e pensões.

Somadas, as contribuições de servidores e patronais alcançaram cerca de R$ 4,3 bilhões no primeiro semestre deste ano. Ainda assim, foi necessário aporte adicional de R$ 4,4 bilhões do Tesouro, equivalente a cerca de 52% das despesas do Fundo Financeiro. _

Somente no primeiro semestre de 2026, os dois fundos registraram mais de R$ 441 milhões em rendimentos financeiros, contribuindo para receitas totais próximas de R$ 700 milhões no período. Além de acumularem patrimônio, os fundos capitalizados apresentam resultado atuarial positivo.

Diferentemente dos fundos financeiros, os fundos capitalizados já possuem ativos suficientes para cobrir os compromissos projetados de seus participantes. As despesas somaram cerca de R$ 460 milhões no semestre. Desse total, em torno de R$ 454 milhões não foram usados para pagar aposentadorias e pensões, mas corresponderam à retirada de recursos dos investimentos, prevista em lei, para outras finalidades financeiras do sistema.

Além disso, o superávit acumulado pelo fundo previdenciário reflete o pequeno quantitativo de inativos e pensionistas recebendo benefícios. Na última atualização, o Fundo Previdenciário Civil tem 66 aposentados e 113 pensionistas para 14.729 ativos/contribuintes. Já no Fundo Previdenciário Militar, a lógica se repete, com 42 inativos e 106 pensionistas para 12.107 ativos/contribuintes. 

A abrangência

Em junho de 2026, o RPPS/RS contabilizava 300.770 segurados e beneficiários. Os dados mostram que os aposentados e demais inativos representam cerca de 55% de toda a massa vinculada ao sistema (165.737), enquanto os servidores ativos correspondem a 30% (89.688) e os pensionistas a 15% (45.345).

Os números mostram a alta concentração dos beneficiários no regime financeiro antigo. Dos mais de 300 mil vinculados, 273,6 mil (91%) estão nos fundos financeiros, enquanto 27 mil (9%) pertencem aos fundos capitalizados.

O levantamento ainda mostra que as mulheres representam 67,3% dos vinculados ao sistema (202.471), enquanto os homens correspondem a 32,7% (98.299).

Kathlyn Moreira

13 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Exemplo para o mundo

Ainda que a divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições no Brasil tenha sofrido pequeno atraso por conta de uma breve interrupção no fluxo de transposição das informações para a internet, as urnas eletrônicas revelaram-se, mais uma vez, confiáveis, eficientes e seguras na captação da vontade e dos votos dos eleitores do país. Recuperaram crédito em relação a pleitos anteriores em que foram colocadas sob suspeita por candidatos e por eleitores.

Afora escassas publicações em redes sociais, a maioria claramente mal-intencionada ou resultante de teorias da conspiração, não houve contestação aos resultados nem qualquer comprovação de erro ou fraude. Em três décadas de existência, a bem-sucedida invenção nacional se consolida como símbolo de modernização do nosso sistema democrático e exemplo internacional.

Apesar da complexidade do recente pleito, em que cada eleitor deveria digitar nada menos do que 19 números e mais as respectivas confirmações para escolher um deputado estadual, um deputado federal, dois senadores, um governador e o presidente da República, o processo de votação foi realizado em tempo hábil, apenas com a formação de filas mais extensas em reduzido número de seções.

Mesmo com o elevado número de abstenções, cerca de 120 milhões de brasileiros compareceram às urnas e o resultado final, com a definição dos eleitos e dos classificados ao segundo turno, foi anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) poucas horas depois de encerrada a votação. Registros históricos demonstram que, no tempo do voto impresso, a contagem levava dias para ser concluída e as fraudes se multiplicavam a cada eleição.

Desde que foram introduzidos no sistema eleitoral brasileiro, os equipamentos eletrônicos já passaram por inúmeros processos de aprimoramento, sempre com o propósito de conquistar a confiabilidade dos eleitores. Totalmente desenvolvida por técnicos nacionais, a urna foi utilizada experimentalmente em 57 cidades em 1996. 

Deu tão certo que apenas quatro anos depois já tinha sido adotada por todos os municípios do país. Entre as principais inovações incorporadas ao longo das últimas três décadas destacam-se a criptografia, a interface acessível com teclado em braile, fone de ouvido e libras na tela, além de processos auditáveis em todas as etapas de utilização. 

Desde 2008, também passou a integrar o sistema a identificação biométrica, que garante mais agilidade e autenticidade para os eleitores. Cabe reconhecer, ainda, avanços de transparência que ocorrem a cada pleito. Basta observar, por exemplo, a recente disponibilização pelo Tribunal Superior Eleitoral de links em que o eleitor pode verificar os resultados da seção e da urna em que votou.

Diante de tal evolução, não é de admirar que observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA), convidados pelo TSE a acompanhar o pleito do último dia 24, tenham concluído que a votação por urnas eletrônicas do Brasil representa "um exemplo de excelência eleitoral para a região e para o mundo". 

OPINIÃO RBS

 

13 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER

Como Zucco planeja a gestão das contas públicas

Elencada pelo governador Eduardo Leite como o principal desafio do Estado, a gestão das contas públicas também preocupa o sucessor, Luciano Zucco. Ciente da previsão de déficit de R$ 4,8 bilhões para 2027, Zucco se cercou de economistas e planeja lidar com o tema em duas frentes distintas: uma com ações imediatas e outra projetando medidas a médio e longo prazo.

Uma das premissas da equipe econômica do governador eleito é elaborar um orçamento realista, evitando ao máximo trabalhar com um cenário de déficit. Para isso, o coordenador da transição, Leonardo Pascoal, que também é economista, projeta uma revisão nas prioridades do governo para equacionar a previsão negativa no início do próximo governo.

- Vamos analisar contratos que não se mostrem vantajosos, programas que não estão dando retorno esperado, além do corte de secretarias para reduzir custos e melhorar a eficiência da máquina - sugere.

Além de Pascoal, o grupo conta com os economistas Bruno Lanzer, do partido Novo, Gustavo Inácio e Cláudio Branchieri, deputado do PL que será o relator da lei orçamentária na Assembleia.

No sábado, o quarteto teve uma reunião de alinhamento, da qual saiu um esboço do escopo de trabalho. As primeiras medidas econômicas da nova gestão devem ser anunciadas durante o trabalho de transição. Na quinta-feira, o grupo se reúne com Adolfo Sachsida, que trata da política fiscal do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), para alinhamento de ideias.

Articulação necessária

As medidas apontadas por Pascoal serão adotadas tendo em vista um cenário no qual o governo terá de ampliar gradualmente o investimento em saúde e educação nos próximos anos, para cumprir com o mínimo determinado pela Constituição - exigindo um remanejo na distribuição dos recursos para dar conta dos acordos firmados com o Ministério Público, que Zucco vai cumprir. Obras de infraestrutura também estarão entre as prioridades.

Para sustentar o aumento nas despesas, o novo governo conta com a articulação em Brasília de medidas consideradas essenciais para a saúde financeira do Estado. A mais factível é a adesão ao Propag, considerado mais vantajoso que o Regime de Recuperação Fiscal para renegociar a dívida com a União.

A prorrogação da suspensão do pagamento das parcelas, que são destinadas ao fundo da reconstrução, também é considerada fundamental. Tanto Flávio quanto o presidente Lula (PT) confirmaram a aliados que são favoráveis à medida.

Repetida aos montes durante a campanha eleitoral, a criação de um fundo constitucional da região Sul ganha força com as vitórias de Zucco e dos aliados Jorginho Mello e Sergio Moro, eleitos governadores de Santa Catarina e Paraná. Em Brasília, o gaúcho articula a votação da proposta no Congresso até o final do ano. _

MDB mais próximo

Não houve descanso para Luciano Zucco no feriado. O governador eleito reservou o dia para reuniões internas, uma delas com o deputado Alceu Moreira (MDB), que saiu em alta da eleição e deve ditar os rumos do partido no Estado a partir de 2027, ao lado de Sebastião Melo.

Alceu foi ontem à casa de Zucco, na Vila Assunção, em Porto Alegre, onde reforçou seu apoio ao governador eleito e se colocou à disposição para ajudar no futuro governo Zucco.

Tudo indica que o MDB estará na base de sustentação do novo governador, com o enfraquecimento da ala ligada ao vice-governador Gabriel Souza. _

Tarcísio confirma presença e virá ao RS com Flávio Bolsonaro

O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas, estará no Rio Grande do Sul para acompanhar a agenda do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), amanhã. Tarcísio confirmou presença a Luciano Zucco, que fez o convite.

Além do paulista, os governadores eleitos de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), e do Paraná, Sergio Moro (PL), também farão parte da comitiva. A intenção é demonstrar a força política que terão os governadores das regiões Sul e Sudeste nas discussões com o próximo governo federal, na tentativa de ampliar a votação de Flávio no Estado.

Uma reunião-almoço com empresários estava prevista para ser realizada amanhã na Fiergs, mas o evento foi cancelado. Assim, a primeira agenda do senador será no bairro Sarandi, em Porto Alegre, próximo ao dique, com visitas à comunidade atingida pela enchente de 2024. O candidato segue para Alvorada, onde caminhará pelo centro da cidade com comerciantes e moradores. Flávio também vai a Canoas, mas a agenda ainda não está fechada.

No fim da tarde, retorna a Porto Alegre para um ato público com a militância no Largo Glênio Peres, no Centro Histórico. 

DE FORA

Sete candidatos a deputado estadual ficaram entre os 55 mais votados, mas não foram eleitos em razão do quociente eleitoral, que divide as vagas de acordo com o total de votos dos partidos. Elton Weber (PSD) fez 36.789 votos, mas foi o primeiro da lista a ficar de fora da Assembleia Legislativa. Outros 10 candidatos fizeram menos votos que ele e foram eleitos. Além disso, 31 postulantes fizeram mais votos do que o último eleito, Moisés Barboza (PSDB), e mesmo assim não conseguiram uma cadeira. O tucano foi o 86º mais votado.

POLÍTICA E PODER

13 de Outubro de 2026
EM FOCO - 
Caroline Souza

EM FOCO

Onda de vitórias da direita impulsionou salto de eleitas na AL, enquanto lideranças já consolidadas da esquerda mantiveram presença em Brasília. Rejeição ao campo adversário ganhou protagonismo na disputa e acirra divergências entre as vitoriosas no pleito, avalia cientista política

Novos contornos da presença feminina gaúcha nos legislativos estadual e federal

A representação política das mulheres no Rio Grande do Sul ganhará novos contornos após as eleições de 2026. Na Assembleia Legislativa, o número de deputadas saltou de 11 para 16, crescimento de 45% impulsionado principalmente por legendas de direita, que ocuparão 12 dessas 16 cadeiras a partir de 2027. Na Câmara dos Deputados, o movimento foi distinto: a bancada feminina gaúcha encolheu de seis para cinco integrantes, com quatro parlamentares de esquerda e uma de centro-direita.

Cientistas políticas ouvidas por Zero Hora apontam que o resultado na Assembleia está ligado à onda de vitórias da direita no Estado e no país, enquanto, na Câmara, a composição foi puxada por lideranças consolidadas. O cenário reflete os efeitos acumulados de políticas eleitorais de incentivo à participação feminina.

A diferença entre os dois legislativos aparece nas trajetórias das eleitas. Das 16 estaduais, 11 assumem uma cadeira na Casa pela primeira vez. Seis trazem experiência em câmaras municipais: Comandante Nádia (PL), Natasha Ferreira (PT) e Karen Santos (PSOL), em Porto Alegre; Bruna Molz (Podemos) e Nicole Weber Covatti (PP), em Santa Cruz do Sul; e Daiane Mello (PL), em Caxias do Sul. Outras duas vêm do Executivo: Delegada Ana Tarouco (PSD), ex-prefeita de Sant?Ana do Livramento, e Vanice de Matos (PL), ex-prefeita de Porto Vera Cruz.

As estreantes em cargos eletivos são três: Adri Cherini (PL), Ronize Damassini (PP) e Ali Klemt (PL). As restantes já integravam a Assembleia: Luciana Genro (PSOL), Kelly Moraes (PL), Delegada Nadine (PSD), Sofia Cavedon (PT) e Adriana Lara (PL).

Na Câmara, as cinco eleitas já exerciam mandato e foram reeleitas: Fernanda Melchionna (PSOL), Maria do Rosário (PT), Any Ortiz (PP), Daiana Santos (PCdoB) e Denise Pessôa (PT).

Aumento à direita

O PL concentra a maior parte das eleitas para a Assembleia, com sete cadeiras. PSD, PP, PSOL e PT elegeram duas cada, e o Podemos, uma. Na avaliação de Rosana Soares Campos, doutora em Ciência Política e professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o crescimento da presença feminina na direita reflete uma estratégia de aproximação com agendas historicamente associadas à esquerda:

- Ao perceberem que as mulheres são maioria do eleitorado e que é preciso conquistar esses votos, viram a importância de ter rostos que dialoguem de forma próxima com o público feminino.

A conexão entre as campanhas de Luciano Zucco ao governo estadual e de Flávio Bolsonaro à Presidência ajudou a unificar o discurso voltado às mulheres. Na esquerda, segundo Rosana, houve atuação fragmentada.

- As urnas mostram um eleitorado conservador que busca primeiro respostas pragmáticas para a vida material - destaca.

Figura central nesse processo é Adri Cherini, presidente do PL Mulher no RS e deputada estadual mais votada do pleito, com 129.492 votos.

- Quando se integra a mulher à base do partido, o interesse pela política muda. Esse foi o diferencial - resume. _

Regras de inclusão e potencial das candidatas expandiram participação

A ampliação da presença de mulheres na Assembleia também está relacionada às regras criadas para estimular a participação feminina, que passaram a produzir efeitos nas urnas, avalia Cibele Cheron, doutora em Ciência Política e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A legislação exige que partidos ou federações preencham pelo menos 30% das candidaturas com cada sexo, além de destinar o mesmo percentual do Fundo Eleitoral e do tempo de propaganda gratuita. Segundo a cientista política, a combinação dessas medidas com a escolha de candidatas com potencial competitivo ajudou a tornar mais efetiva a participação feminina nas eleições.

Na esfera federal, a manutenção da bancada feminina da esquerda apoia-se em lideranças com capital eleitoral consolidado. Já a direita concentrou apostas em grandes puxadores de voto masculinos, afirma Cibele.

Fernanda Melchionna (PSOL) foi reeleita para o terceiro mandato com 280.262 votos, alta de 40% em relação a 2022. Para ela, o resultado corrobora a força de candidaturas progressistas de expressão nacional, como Erika Hilton (SP) - a mais votada da história para a Câmara, com mais de 1,5 milhão de votos.

Diferenças ideológicas

O desempenho mais modesto das mulheres de esquerda na disputa pela Assembleia escancara um desafio do campo. Para Cibele, o voto tem sido guiado pela rejeição ao adversário:

- A cada eleição, percebemos que não é apenas a preferência que se cristaliza, mas a rejeição ao campo oposto, constituindo-se como um elemento identitário.

Adri Cherini (PL) reforça que sua atuação girará em torno da proteção às mulheres a partir de uma ótica conservadora e familiar.

- Trazemos um papel diferente para a mulher na política: o da mulher conservadora, com amorosidade, delicadeza e valores familiares. Vou lutar por políticas de proteção às mulheres e também às pessoas idosas - afirma.

Já Fernanda Melchionna (PSOL) defende uma agenda ampla de direitos:

- Não basta ser mulher, é preciso defendê-las. Combater o feminicídio, lutar pelos direitos das professoras e pelo fim da escala de seis dias de trabalho que interfere diretamente na vida das mulheres. Temos uma atuação estruturada, da economia à segurança - conclui.

Na Câmara dos Deputados, a bancada feminina passará de 90 para 109 mulheres a partir de 1º de fevereiro de 2027. Elas representarão cerca de 21% das 513 cadeiras da Casa. Segundo levantamento de Zero Hora, entre as 109 deputadas, 62 estão em partidos classificados como de direita ou centro-direita, enquanto 47 pertencem a siglas de esquerda. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

12 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER

Começa a disputa por espaço no governo Zucco

A eleição em primeiro turno e a base ampla formada na Assembleia Legislativa não tiram a pressa de Luciano Zucco (PL) em montar seu secretariado e distribuir espaços aos partidos aliados. Após uma semana de entrevistas, agendas em Brasília e início da transição com o governador Eduardo Leite, Zucco deve dar tração às articulações internas nos próximos dias e planeja anunciar os primeiros secretários ainda esta semana.

Uma reunião do governador eleito com os presidentes dos partidos aliados, que integraram a coligação vitoriosa, está agendada para amanhã. Líderes de PL, PP, Republicanos, Podemos, Novo e Democracia Cristã se encontram pela manhã na Casa do Diálogo, espécie de gabinete provisório montado por Zucco no Instituto Caldeira.

Desse encontro, deve sair um primeiro esboço do novo governo, com uma projeção da quantidade de secretarias e de cargos que os partidos terão à disposição. A partir daí, os dirigentes devem pensar nos nomes que poderão oferecer a Zucco para compor o novo governo, cientes de que o governador eleito já deixou clara a intenção de montar um primeiro escalão técnico, escolhendo pessoalmente todos os integrantes.

Negociação tem início agora

Segundo o presidente do Podemos, Everton Braz, que atuou como coordenador do núcleo político da campanha de Zucco, não foi feito nenhum acordo de espaços na negociação com os partidos para que integrassem a coligação, no início do ano.

- Isso não foi discutido, o objetivo era primeiro vencer a eleição. Temos que entender a cabeça do governador eleito, como vai ficar o redesenho da máquina e que tipo de peças ele busca, para depois indicar. Estamos todos bem alinhados - explica Braz.

Zucco tem a seu favor a eleição em primeiro turno, evitando a necessidade de oferecer cargos a outras siglas em troca de apoio. Mesmo assim, outros partidos devem ser convidados a compor o governo para garantir maioria absoluta (33 deputados) na base aliada da Assembleia Legislativa. Os seis partidos da sua coligação elegeram 26 deputados para as 55 cadeiras.

Com cinco deputados eleitos, o MDB tende a integrar a base de sustentação do governo - assim como o PL faz com Melo, na Capital. O PSD, partido de Leite - cujas bancadas atual e futura declararam apoio a Flávio Bolsonaro (PL) na disputa pela Presidência -, e o PSDB, que adotou a mesma posição no Estado, também podem ficar alinhados à nova gestão. As siglas elegeram cinco e um deputados, respectivamente. _

Os primeiros nomes do novo governo devem ser anunciados a partir de quinta-feira. Roni Vieira virá do Paraná

para comandar a Secretaria de Educação, e o deputado Claudio Branchieri (PL) é cotado para assumir a Fazenda.

Melo trabalha para impulsionar a campanha presidencial na Capital

O prefeito Sebastião Melo está engajado na campanha para eleger Flávio Bolsonaro (PL) como próximo presidente. Depois de declarar apoio à candidatura do senador, Melo reuniu um grupo de líderes políticos no sábado para fortalecer a mobilização no segundo turno em Porto Alegre, em um movimento que chama de "suprapartidário e voluntário".

Cerca de cem pessoas participaram da reunião convocada por Melo, que quer intensificar a campanha de Flávio em regiões da Capital onde o presidente Lula (PT) levou vantagem no primeiro turno, para reduzir a diferença de votos na Capital.

Melo levou aliados do MDB, partido do qual deve tomar as rédeas no Estado ao lado de Alceu Moreira. Estiveram na reunião os secretários Cezar Schirmer e André Coronel, o ex-ministro Luís Roberto Ponte e o casal Marco e Patrícia Alba. _

Quase metade dos votos nulos no RS foi para o 13

Dos 315.858 votos nulos dos eleitores gaúchos na disputa para governador, 141.796 digitaram o número 13, do PT, que abriu mão de indicar um candidato na cabeça de chapa para apoiar Juliana Brizola, do PDT, que é o 12.

Para votar nulo, é preciso digitar e confirmar um número que não está na disputa. A segunda opção dos gaúchos foi pelo 00 (90.482 vezes), que não representa nenhum partido. Outros 5.631 eleitores optaram pelo 99.

Números do PSD (55), PSOL (50), Missão (14), Novo (30), PP (11), Avante (70) e Republicanos (10) também foram escolhidos. _

Flávio Bolsonaro terá agenda no RS na quarta

O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) confirmou que estará no Rio Grande do Sul na próxima quarta-feira. Será a segunda vez que o senador visita o Estado durante a campanha, a primeira no segundo turno.

Flávio deverá chegar ao Estado no final da manhã. O primeiro compromisso será uma reunião-almoço com empresários e líderes políticos na Fiergs. No final da tarde, fará um ato público de campanha no Centro Histórico, próximo à Esquina Democrática, mas o local ainda não foi confirmado. A tendência é de que, durante a tarde, Flávio participe de outras atividades e faça atendimento à imprensa.

Além de Luciano Zucco, Flávio terá a companhia dos governadores eleitos de Santa Catarina, Jorginho Mello, e do Paraná, Sergio Moro, todos do PL.

- Estamos organizando uma agenda que, além de impactar os eleitores, contempla temas fundamentais para o futuro do Rio Grande do Sul, como o crescimento econômico, a geração de empregos e a melhoria da nossa infraestrutura - explicou Zucco.

Flávio planeja ampliar a votação que recebeu em primeiro turno no Estado, onde obteve 55,6% dos votos válidos. _

Republicanos tenta atrair deputados do PDT

Com o argumento de que uma federação com o PSB ou o PSOL seria seu fim, o Republicanos corteja os deputados estaduais eleitos do PDT. Um dos principais líderes do Republicanos lembra que o partido é o mais ao centro dos que tentam atrair os pedetistas, que não têm um perfil de esquerda.

Gilmar Sossella, que ficou com a última cadeira, disse que não está sendo fácil lidar com a derrota do PDT. Acrescenta que já conversou com o presidente do partido, Romildo Bolzan, e que a decisão deverá ser tomada em conjunto. As direções nacional e estadual do partido têm reuniões de avaliação marcadas para amanhã.

Eduardo Loureiro disse à coluna que está assimilando o cenário, e Tiago Cadó admitiu o assédio de outras siglas. O PDT elegeu ainda o ex-prefeito de Parobé Diego Picucha.

Como o PDT não ultrapassou a cláusula de barreira, os deputados podem trocar de partido sem risco de perder o mandato. 

POLÍTICA E PODER

12 de Outubro de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Fascismo do fim dos tempos

Em 2018, ainda havia muita gente com receio de associar o termo "fascismo" à atual extrema direita. Dá para entender. Durante décadas, a expressão foi usada pela esquerda como uma espécie de ofensa guarda-chuva. Vai aumentar a passagem de ônibus? Fascista. Mandou construir um edifício onde havia uma pracinha? Fascista. Era o menino que gritava lobo. Em 2026, o lobo está na porta da nossa casa, salivando, e nem sequer esconde como pretende se comportar: "Vou soprar, vou bufar e a sua democracia eu vou derrubar".

Um traço que todos os modelos de fascismo têm em comum é a desumanização de um grupo de pessoas. (Judeus, no caso do nazismo. Imigrantes, nos Estados Unidos de Trump.) O fascista é um sujeito convencido de que existem cidadãos de segunda categoria - logo, nem todos merecem o mesmo respeito e desfrutam dos mesmos direitos. Se um determinado grupo parece ameaçar sua existência e/ou identidade, tudo se torna aceitável - e Deus, no fim, abençoa. Milícia? Beleza. Chacina? Legal. Tortura? Maneiro. E quando o impensável começa a soar razoável, o fascismo já está sentado na sala da sua casa, fumando um charuto.

A perplexidade generalizada com o apelo da extrema direita em países tão diferentes quanto Brasil e Estados Unidos, Alemanha e Argentina tem produzido uma vasta bibliografia. Um dos últimos lançamentos nos EUA é o livro End Times Fascism: And the Fight for the Living World (algo como "O fascismo do fim dos tempos: E a luta por um mundo para se viver"), das jornalistas e ativistas Naomi Klein e Astra Taylor.

A tese central do livro é a de que a extrema direita (com apoio dos bilionários das big techs, dos fanáticos religiosos e dos ultranacionalistas) difere do fascismo do século 20 por ter abandonado completamente a promessa de um futuro melhor. O fascismo do fim dos tempos, argumentam as autoras, aproveita-se do clima de crise permanente e da antecipação de um apocalipse inevitável para adotar uma espécie de "supremacismo da sobrevivência". Farinha pouca, meu pirão primeiro.

"O que une esse movimento emergente, conflituoso e frequentemente contraditório, é a convicção de que nosso mundo comum está fadado a um fim iminente. E apenas os escolhidos - sejam eles selecionados por sua riqueza, fé, biologia ou direitos ancestrais a um determinado pedaço de terra - terão direito de inaugurar a próxima fase da história humana."

Combater o fascismo do fim dos tempos é lutar não apenas pela sobrevivência da democracia e do planeta, mas pela simples ideia de que todos, sem exceção, merecemos sobreviver. De preferência, fora do bunker. _

O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor

CLÁUDIA LAITANO

12 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Um basta à feira das drogas na Capital

Exige atenção imediata das autoridades o cenário aviltante de venda e consumo de drogas nas imediações da Estação Rodoviária de Porto Alegre apresentado, na semana passada, por uma reportagem do Grupo de Investigação da RBS (GDI). A concentração de dependentes e traficantes de crack no entorno da Rua Voluntários da Pátria, além de configurar um grave problema social e de saúde coletiva, compromete a segurança pública devido à proliferação de arrombamentos e furtos de fios com o propósito de financiar a compra de entorpecentes. 

O risco de não adotar medidas urgentes é ver a região se consolidar em definitivo como um mercado ilegal a céu aberto ou se transformar em uma chaga urbana de proporção similar à cracolândia paulistana, que por mais de três décadas desafiou os governantes locais.

Não é de hoje que aquela região da Capital, distante apenas 300 metros de uma delegacia da Polícia Civil e próxima de um posto da Guarda Municipal, é ocupada por dependentes e traficantes. Por isso mesmo, é preciso dar um basta ao descontrole, tanto para proteger os próprios frequentadores da feira tóxica quanto para dar fim à série de furtos e à sensação generalizada de insegurança em um dos principais pontos de chegada a Porto Alegre. Segundo a reportagem do jornalista Giovani Grizotti, comerciantes relatam arrombamentos frequentes e furtos de fiação por parte de usuários, o que causa medo, transtornos e prejuízos.

A equipe de reportagem monitorou a movimentação no local ao longo de uma semana e registrou negociações de entorpecentes, uso de crack ao ar livre e abordagens eventuais de policiais militares. Segundo relatos, a ação dos traficantes, que se estende até a fila formada diariamente diante de um restaurante popular localizado na Rua Garibaldi, é coordenada por uma facção criminosa.

 Embora a repressão policial seja uma peça importante do aparato estatal necessário para fazer cessar o mercado do vício em via pública, a experiência internacional mostra que o uso da força, de forma isolada, é ineficaz.

Cidades ao redor do mundo que enfrentaram cenários semelhantes de "cenas abertas de consumo de drogas", como é chamado esse fenômeno, alcançaram bons resultados ao mesclar coordenação política, repressão ao tráfico e à desordem, tratamento de saúde acessível e sem burocracia, redução de danos, busca ativa de usuários, oferta de abrigo e moradia e integração com a Justiça.

Cada município adota uma receita calibrada de acordo com a sua realidade, mas sempre por meio de ações multidisciplinares. Lisboa, em Portugal, apostou na descriminalização da posse para consumo pessoal acompanhada de medidas de saúde e prevenção. Zurique, na Suíça, articulou tratamento facilitado com políticas de redução de danos. Viena, na Áustria, investiu em abrigamento, projetos habitacionais e atuação coordenada de policiais e equipes sociais. São Paulo lutou contra o problema da cracolândia ao longo de décadas. Uma combinação entre operações policiais e programas de saúde dispersou a antiga concentração de usuários, embora ainda existam pontos de consumo dispersos.

Já é hora de Porto Alegre dar um ponto final ao ambiente indigno em que se transformou uma de suas áreas urbanas mais importantes. 

OPINIÃO RBS

12 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

Surpresa com a cirurgia do Papa

A notícia de que o papa Leão XIV passará por uma intervenção cirúrgica "nos próximos dias" para retirar um nódulo "localizado no pulmão" pegou de surpresa diversos integrantes da Igreja Católica, vaticanistas - jornalistas que cobrem a Santa Sé - e fiéis.

Isso não é comum, já que anúncios desse tipo costumam ser feitos durante entrevistas coletivas na sala de imprensa por algum porta-voz do Vaticano. A informação de que o líder da Igreja Católica passará pelo procedimento médico foi dada por ele mesmo, ao término da oração do Angelus, ontem na Praça de São Pedro.

Segundo o Pontífice, um nódulo no pulmão foi identificado recentemente durante exames de rotina. Apesar de estar em estágio inicial, os médicos consideraram necessária a intervenção.

Informações iniciais apontam que o procedimento deve ser rápido e que o Papa não precisará se ausentar de seus compromissos por muito tempo. A Santa Sé, por meio do porta-voz Matteo Bruni, anunciou que "a operação está agendada para o início da próxima semana, e o tempo de recuperação pós-operatória previsto é de aproximadamente uma semana".

A cirurgia deve acontecer no Hospital Gemelli, em Roma, que tradicionalmente recebe os papas desde João Paulo II.

Até o momento, todos os compromissos papais desta semana estão mantidos, inclusive uma grande celebração agendada para quarta-feira que marcará o encerramento de um encontro que reúne presidentes das conferências episcopais de todo o mundo para celebrar os 10 anos da Amoris laetitia, uma exortação apostólica pós-sinodal do papa Francisco.

Jornais italianos como Corriere della Sera e Il Messaggero apontam para a realização da cirurgia no início da próxima semana.

Uma fonte da Santa Sé disse à coluna que acredita que o procedimento seja realizado na próxima segunda-feira e que não haverá necessidade de quimioterapia ou radioterapia. Também contou que ninguém sabia da intervenção médica até o anúncio feito neste domingo.

E a viagem à América do Sul?

Leão XIV tem agendada uma grande viagem apostólica à América do Sul entre os dias 6 e 17 de novembro, com passagens pelo Uruguai, pela Argentina e pelo Peru. De acordo com o Il Messaggero, a visita está mantida. Uma fonte no Vaticano também confirmou à coluna.

Além disso, a informação de que o procedimento terá um período de recuperação relativamente curto gera certo alívio entre os fiéis que aguardam a viagem apostólica. A Conferência Episcopal Argentina convidou os fiéis a se unirem em oração pela saúde do pontífice e afirmou, em nota, que "a serenidade e a confiança" com que Leão XIV anunciou o procedimento "nos reconfortam e nos animam a permanecer espiritualmente unidos a ele".

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) declarou: "Às vésperas da festa de Nossa Senhora Aparecida, confiamos sua saúde e seu ministério à intercessão da Padroeira do Brasil". _

vitalidade

Leão XIV tem 71 anos e apresenta boa saúde e vitalidade. Um vaticanista disse à coluna que o Papa frequenta a academia, nada e joga tênis semanalmente em Castel Gandolfo, residência de férias dos papas nas proximidades de Roma. Segundo ele, "seu organismo deve estar com as defesas em dia". O jornal Corriere della Sera: disse ontem "Completou 71 anos em setembro, mas tem o físico de 60 anos em ótima forma".

Representantes do RS na Itália

A Câmara de Comércio Italiana do Rio Grande do Sul (CCIRS) esteve presente na 27ª Reunião dos Secretários-gerais das Câmaras de Comércio Italianas no Exterior (CCIEs), em Roma. O encontro, que começou na quinta-feira e encerrou no sábado, reuniu representantes de 86 câmaras em 64 países. A entidade foi representada pelo diretor- executivo Filippo Mariani. _

Dados da Secretaria de Educação de Porto Alegre mostram que estudantes da rede municipal apresentaram avanço nos índices de conhecimento em Língua Portuguesa e Matemática entre o 1º e o 9º ano.

Entrevista

Octavio Guedes

Jornalista

"O desafio foi remontar a trajetória de figuras quase invisíveis, varridas para debaixo do tapete"

Um corretor de seguros que sugeriu a Juscelino Kubitschek a construção de Brasília. A rotina da família real no Rio de Janeiro no início do século 19. O Burro Canário, um animal que fazia shows em pequenas feiras do Nordeste. Essas são apenas algumas das histórias que o jornalista Octavio Guedes conta em sua nova obra, Heróis por Acaso (Editora Máquina de Livros).

Como surgiu o livro?

Surgiu, de certa forma, de um estalo, que veio do meu próprio hábito de devorar História. Cresci ouvindo que o Brasil foi descoberto por acaso. Mas, quando Cabral saía de cena, entravam heróis de bronze montados a cavalo nas praças. Me perguntava: onde foi parar o acaso? Meu olhar sempre esteve em busca dele, até que, um dia, uma luz se acendeu: tem um livro aí. Foi por acaso.

Como foi a escolha e a apuração desses heróis?

Dividi o trabalho com Tito Guedes, meu filho, que cuidou da pesquisa. Mergulhamos em jornais antigos, livros, biografias, entrevistas... A primeira meta era garimpar quem teve alguma influência em fatos relevantes. E, quanto menos conhecido o personagem, mais ele se credenciava para entrar no livro. Muitas vezes, ficávamos em dúvida sobre o paradeiro de alguns personagens, e a busca virava mais uma questão de pura curiosidade do que propriamente um trabalho.

Teve algum surpreendente?

Talvez o personagem mais surpreendente e inacreditável seja o Burro Canário. Um animal que fazia shows em pequenas feiras do Nordeste vem para o RJ, ganha destaque na imprensa e passa a ser apresentado como capaz de responder a perguntas de matemática e até a questões militares. A gente não poderia imaginar que um quadrúpede, num cassino carioca, fosse cruzar com a história da 2ª Guerra Mundial.

É possível elencar um personagem favorito?

O marujo Marcelino Rodrigues me chamou a atenção porque, embora ninguém conheça, ele foi o estopim de um dos episódios mais marcantes do Brasil: a Revolta da Chibata. Marcelino entrou no navio com duas garrafas de cachaça escondidas, foi delatado por outro marinheiro e acabou castigado com 250 chibatadas. A humilhação levou João Cândido a liderar a rebelião que humilhou a República e mostrou um país extremamente desigual.

O título fala em Heróis por Acaso. Até que ponto a narrativa oficial dos grandes protagonistas acabou apagando o papel dessas figuras do bastidor?

O grande desafio do livro foi remontar a trajetória de figuras quase invisíveis, que foram varridas para debaixo do tapete em prol de uma História mais glamourosa e conveniente. Alguns personagens sequer são mencionados nas narrativas oficiais. O jovem Calu, por exemplo, aparece em reportagens antigas como uma mera menção, mas uma dor de cotovelo dele provocou o surgimento do fascismo brasileiro, que teve como grande nome Plínio Salgado. _

INFORME ESPECIAL

domingo, 11 de outubro de 2026


11.out.2026 às 20h00
Mauricio Ribeiro - Head de Produtos Digitais da XP

Conta, cartão e Pix: como ensinar crianças e adolescentes a lidar com dinheiro na era digital

Conta Menor, da XP, permite que pais e responsáveis apresentem aos filhos a rotina financeira com acompanhamento

Criança com camisa amarela escreve em caderno enquanto adulto de camisa azul observa e aponta para o papel. Laptop aberto está sobre a mesa à direita.

Iniciar conversas sobre finanças com os filhos os ajudará a lidar com o dinheiro durante toda a vida - Reprodução

A proximidade do Dia das Crianças é uma oportunidade para ir além dos presentes e conversar sobre um tema que fará parte da vida adulta: a relação com o dinheiro. Um assunto importante em um país no qual as preocupações com investimentos começam mais tarde. Segundo a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, da ANBIMA, a idade média de quem investe no Brasil é de 43 anos. Além disso, apenas 21% da população afirma já ter participado de alguma aula, curso, treinamento ou palestra sobre educação financeira.

Nesse contexto, a educação financeira desde a infância pode ajudar a transformar conceitos como planejamento, escolhas, organização e investimento em parte da rotina familiar. Mais do que ensinar sobre dinheiro, a proposta é criar oportunidades para que crianças e adolescentes desenvolvam, de forma gradual, autonomia e consciência sobre suas decisões financeiras.

A educação financeira na infância não é sobre transformar crianças em investidoras, mas sobre criar uma relação mais consciente com o dinheiro desde cedo. Conceitos como planejamento, escolhas e o valor do tempo podem ser introduzidos de forma simples no dia a dia da família

APRENDIZADO NA PRÁTICA

Uma das formas de aproximar os jovens desse universo é permitir que eles tenham contato, de maneira supervisionada, com situações financeiras do dia a dia. É com essa proposta que a XP oferece a Conta Menor, solução que permite ao responsável legal introduzir crianças e adolescentes à rotina de gestão financeira, com funcionalidades compatíveis com a idade e o acompanhamento do responsável.

A solução reúne uma Conta Digital e uma Conta de Investimentos abertas em nome do menor. Na Conta Digital, crianças e adolescentes podem utilizar recursos como Pix, pagamentos e cartão de débito digital. Já a Conta de Investimentos permite o acesso a produtos de renda fixa e à negociação de ações na B3. O objetivo é que os jovens tenham uma experiência prática com conceitos de planejamento financeiro, organização do dinheiro e investimentos, enquanto os responsáveis acompanham de perto a jornada financeira do menor.

Entre as funcionalidades da Conta Menor estão:

Acesso individualizado: o menor entra no aplicativo com login próprio. A partir dos 12 anos, também é possível incluir a validação por biometria facial.

Abertura simplificada: a conta é aberta diretamente pelo aplicativo do responsável legal, para menores de 18 anos que possuam CPF válido, sem exigência de idade mínima. O vínculo com o responsável permanece até a maioridade ou a emancipação.

Conta de Investimentos: acesso a produtos de renda fixa e à negociação de ações na B3. Como medida de proteção ao investidor menor de idade, não são permitidas operações no segmento BM&F, que inclui produtos derivativos e contratos futuros.

Acompanhamento pelos responsáveis: o responsável legal pode acessar a conta do menor e consultar saldo, extrato e movimentações, além de contar com mecanismos de segurança e limites operacionais para a utilização da conta.

"A educação financeira na infância não é sobre transformar crianças em investidoras, mas sobre criar uma relação mais consciente com o dinheiro desde cedo. Conceitos como planejamento, escolhas e o valor do tempo podem ser introduzidos de forma simples no dia a dia da família. A Conta Menor busca justamente apoiar esse processo, aproximando os jovens de experiências financeiras reais, sempre com a participação e o acompanhamento dos responsáveis", destaca Mauricio Ribeiro, Head de Produtos Digitais da XP.

APRENDIZADO QUE COMEÇA EM CASA

Ao transformar situações cotidianas, como definir prioridades, acompanhar gastos ou estabelecer objetivos em oportunidades de aprendizado, pais e responsáveis ajudam os jovens a desenvolver, desde cedo, uma relação mais consciente e responsável com o dinheiro.

Para a XP, iniciativas como a Conta Menor fazem parte do movimento de aproximar as novas gerações do universo financeiro de forma simples, segura e adequada a cada etapa da vida.

SOBRE O GRUPO XP INC.

A XP é uma das principais instituições financeiras do Brasil. Criada em 2001, nasceu com o propósito de transformar o mercado para melhorar a vida das pessoas, promovendo educação financeira e democratizando o acesso a investimentos de qualidade.

Desde então, a XP ampliou sua atuação e construiu um ecossistema de serviços financeiros que reúne soluções de investimentos, crédito, seguros e banking no Brasil e no exterior. Com foco no planejamento financeiro dos investidores, a companhia aponta a excelência no atendimento como uma de suas principais frentes de crescimento.

A XP foi eleita oito vezes consecutivas a Melhor Assessoria de Investimentos de São Paulo pela premiação "O Melhor de São Paulo", realizada pela Folha de S.Paulo. Saiba mais em www.xp.com.br.

9.out.2026 às 17h30
Mariliz Pereira Jorge - Jornalista e roteirista

A culpa é da Janja?

A letargia do governo é uma escolha presidencial, não um feitiço conjugal

Primeira-dama teria razão se culpasse o preconceito de gênero neste caso.

A narrativa que a elite política tenta vender hoje em Brasília —com o endosso velado de caciques da própria esquerda —é a de uma mulher maquiavélica que mantém um presidente indefeso refém no Palácio da Alvorada. A recente declaração da ex-senadora Kátia Abreu de que Janja ocupa mais espaço do que Geraldo Alckmin apenas deu voz ao murmúrio covarde que ecoa nos corredores do poder desde a posse de Lula. É a mais velha e preguiçosa misoginia: fingir que temos uma primeira-dama manipuladora para justificar a inércia de um governante supostamente manipulável.

Homem de camisa branca está de perfil enquanto mulher de óculos e roupa preta toca sua cabeça com a mão direita, segurando um lenço na esquerda. Ao fundo, bandeira do Brasil e cortina cinza com tecido vermelho acima.

Janja enxuga o rosto de Lula durante evento com aliados - Evaristo Sa - 5.out.26/AFP

A ironia da situação é que Janja tem um histórico de debitar na conta do machismo qualquer crítica que recebe. Ela já usou o sexismo como escudo para se blindar de questionamentos justíssimos sobre seus gastos em viagens, seus deslizes de comunicação, seu deslumbramento com a corte artística e suas marolas desnecessárias. Na esmagadora maioria das vezes, ela estava errada. Mas como até um relógio quebrado acerta a hora, desta vez a primeira-dama teria razão se resolvesse apontar o dedo para o preconceito de gênero vindo da própria esquerda: o que estão fazendo agora é misoginia em estado puro.

Comprar a tese de que Janja é a responsável pela paralisia do governo é, antes de tudo, uma tentativa patética de infantilizar Luiz Inácio Lula da Silva. Tratam o maior animal político da história recente do país como um velhinho hipnotizado, um estagiário incapaz de gerir a própria agenda. Lula é um adulto no exercício de seu terceiro mandato. Se ele deixou de articular politicamente, se o gabinete está com a porta trancada para aliados, a chave foi virada por ele, e por mais ninguém. A letargia do governo é uma escolha presidencial, não um feitiço conjugal.

A verdade é que a classe política, anestesiada pela própria ineficiência, adora um bode expiatório. É infinitamente mais fácil culpar a personalidade exuberante da mulher do presidente do que olhar no espelho e listar os reais culpados pelo apagão governamental. E a lista é vasta.

Onde está a responsabilidade da articulação oficial, comandada por ministros palacianos que não conseguem negociar sequer a entrega de uma pizza no Congresso? Onde entra a culpa de uma máquina de comunicação engessada, que continua falando sozinha enquanto a oposição domina as redes? E, acima de tudo, como justificar o fato de que o governo ainda faz campanha para um eleitor que não sabe quem é, nem o que deseja, teimando em ignorar as demandas reais da sociedade?

Passou a circular agora uma pesquisa feita em 2015 pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, "para entender a visão de mundo e o imaginário social nas periferias da cidade de São Paulo". Está tudo lá. Pobre que não gosta de ser tratado como pobre, o desejo de empreender, de viver uma realidade diferente da CLT, os valores familiares, a igreja como porto seguro. Então nem dá para dizer que o partido está tendo um choque de realidade. Foi culpa da Janja? Ela nem existia no cenário político.

Portanto, terceirizar para a primeira-dama a culpa do isolamento de Lula e da dificuldade do partido em conquistar votos na eleição é apenas o sintoma mais cínico de um grupo que se recusa a assumir os próprios erros. Janja pode errar o tom, a hora e o lugar, mas o roteiro do fracasso da articulação política foi escrito e dirigido por quem realmente manda em Brasília: os homens.

10.out.2026 às 14h21 -  Edição Impressa
Celso Rocha de Barros - Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e autor de "PT, uma História"

Flávio está mentindo sobre teu dinheiro

Auxiliares são economistas de segunda divisão e só prometem bondades; conta não fecha de jeito nenhum. Candidato pode defender programa econômico que achar melhor, mas não pode passar brasileiros para trás.

Flávio Bolsonaro está mentindo sobre seu programa econômico. Não sabemos para quem. Meu palpite é que é para você.

Daniella Marques e Adolfo Sachsida, os dois auxiliares que Flávio designou para defender suas propostas para a economia, são economistas de segunda divisão que foram escalados para mentir durante a campanha eleitoral.

Só prometem bondades: um ajuste fiscal grande e completamente indolor, sem cortes de salários, aposentadorias, programas sociais, benefícios fiscais para os ricos, enfim, nada além de salários de funcionários públicos acima de R$ 200 mil, fraudes e ineficiências.

Homem adulto de cabelos curtos castanhos olha para frente em ambiente externo. Pessoas desfocadas estão atrás dele, sugerindo reunião ou evento público.

O senador Flávio Bolsonaro (PL) durante evento de campanha no Rio de Janeiro - Mauro Pimentel - 9.out.26/AFP

Mais: além de não cortar nada de que o pessoal goste, prometem cortar impostos e criar programas de incentivos ao empreendedorismo feminino, aos pequenos negócios, e a essa altura você já deve ter entendido que essa conta não fecha de jeito nenhum.

Quando Flávio terminou o primeiro turno das eleições em primeiro lugar, a Bolsa subiu e o dólar caiu. Eram os ricos brasileiros apostando que Daniella Marques e Adolfo Sachsida estão mentindo, e que o programa verdadeiro, a ser implementado por ministros completamente diferentes, são os cortes que a turma de Flávio defende nas festas de rico (com ou sem roupa) que frequentam.

A "turma de Flávio" é um pessoal da série B da Faria Lima que foi meio desprezado pelos tucanos (parabéns por isso, tucanos). Acham que a turma do Jair pode lhes dar aquele empurrãozinho, legal ou ilegalmente, para ajudá-los a subir de divisão. Afinal, a vaga de "banco oficial do ladrão de direita" está aberta desde que Vorcaro foi preso.

Flávio Bolsonaro e Lula no segundo turno das eleições 2026

Na linguagem bolsonarista de 2026, há uma palavra-código que tenta fazer a ponte entre o que Flávio diz para o Brasil e o que diz para os ricos: "Milei", que Flávio diz que será sua grande inspiração como presidente.

Para a base bolsonarista, "Milei" quer dizer a motosserra, e motosserra quer dizer cortar desperdícios, fraudes etc. Para os ricos bolsonaristas, "Milei" quer dizer algo completamente diferente: motosserra nos salários e nas aposentadorias, como aconteceu na Argentina.

Os dois presidentes brasileiros da Nova República que aplicaram estelionatos eleitorais desse porte, Fernando Collor em 1989 e Dilma Rousseff em 2014, sofreram impeachment. Mas Flávio não pretende manter a democracia viva por tempo suficiente para receber a conta de seu estelionato eleitoral, ou dos inúmeros estelionatos financeiros que pretende aplicar se for eleito.

No segundo turno de 2018, fiz campanha de rua para Fernando Haddad contra Jair Bolsonaro. Durante uma panfletagem na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, encontrei um piquenique de mulheres evangélicas.

Uma delas me disse que era funcionária pública. Acreditava que Bolsonaro, por ter sido militar (funcionário público, portanto), a favoreceria.

O salário do funcionalismo público não foi reajustado durante o governo Bolsonaro.

Ao contrário dos ricos que então ouviam os planos de Guedes em reuniões reservadas, a evangélica da Quinta da Boa Vista não tinha como ligar para o Planalto cobrando. Você terá?

Flávio Bolsonaro pode defender o programa econômico que achar melhor. Mas não pode passar os brasileiros para trás como Jair passou para trás o piquenique de mulheres evangélicas.

sábado, 10 de outubro de 2026

07/10/2026 - 09h00min
J. J. Camargo

Quando o silêncio é um idioma

O contraste entre a agitação dos vivos e a serenidade de quem parte é um tema desafiador para o médico. "As palavras podem mentir, mas o silêncio guarda a verdade." (Sêneca)

Fui chamado para ver um paciente antigo. Quase não o reconheci, tão emagrecido estava. Ao lado dele, a filha descrevia a irritação do pai com as visitas: parentes bem-intencionados que chegavam munidos de anedotas e barulho, tentando desesperadamente "distraí-lo" da própria finitude. Mal sabiam eles que, para quem encara o fim, a distração é uma ofensa.

Quando lhe perguntei como poderia ser útil, ele não pediu uma nova terapia ou uma renovação de esperança. Pediu para compartilhar a proximidade física como um parceiro que no passado o ajudara num momento de medo e dor. Repartir a presença já lhe bastava: "Tome um chimarrão comigo e não se importe se eu decidir ficar quieto".

Sentamo-nos. O amargo da erva e o calor da cuia serviram de âncora para um tempo que já não tinha pressa. Ali, o silêncio não era ausência de assunto; era a densidade de uma presença. Naquela quietude, ele não estava sozinho; ele estava, talvez pela primeira vez no dia, acompanhado de si mesmo.

Após um longo tempo emudecido, ele revelou a origem de sua maior tristeza: a perda recente de um velho amigo. Não o descreveu pelas conversas que tiveram, mas pela qualidade do vazio que dividiam. 

"Foi a pessoa com quem mais dividi silêncios na vida", disse ele. "Ele ter morrido antes de mim foi meu maior azar, porque fiquei entregue aos barulhentos. São pessoas boas, que querem me animar, mas não entendem que é difícil rir no presente, quando não há do que rir no futuro".

Para quem encara o fim, a distração é uma ofensa.

Essa frase me derrubou, porque em geral acreditamos numa falácia: o diálogo pressupõe o uso de palavras, ignorando que o silêncio pode ser mais eloquente.

Muitas vezes, em condições de avassaladora tristeza seremos lembrados não pelo que dissemos, mas pelo que ouvimos em constrito silêncio. No leito da terminalidade, o silêncio é o oxigênio da alma. É o espaço onde a vida decanta o que valeu a pena e os sentidos encontram lugar e relembram o que foram ou deveriam ter sido.

Nesta situação, aqueles que amam e não suportam o silêncio do outro, na verdade, estão fugindo do próprio vazio. Tentam preencher o quarto com palavras inúteis para não ouvir o que o silêncio do doente grita: a aceitação da iminência da morte.

Aquele paciente me ensinou que a verdadeira amizade — e talvez a medicina mais profunda — se mede pela capacidade de estar junto sem a obrigação de impressionar. O amigo que se fora levara consigo a compreensão de que o silêncio é um idioma.

Terminamos o chimarrão. Saí daquele quarto convencido de que a alma, às vezes, só precisa de alguém que aceite o convite para, simplesmente, não dizer nada. O contraste entre a agitação dos vivos e a serenidade de quem parte é um tema desafiador para o médico que tenha a noção do seu papel na antessala da morte, e precisa ter assimilado esse papel, se quiser ser útil.

Afinal, todos nós precisamos aprender, mais cedo ou mais tarde, que tomar um chimarrão em silêncio pode ser a forma mais eloquente de dizer: "Estou aqui, me alcance a cuia!".

 


02/10/2026 - 14h37min
Martha Medeiros

Quem se acha superior aos demais não passa de um dinossauro 

Nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença. Braquiossauros. Velociraptors. Pterodáctilos. Hierárquicos. Sim, incluiria os hierárquicos nesta turma. Quem se acha superior aos demais e usa o poder para obter vantagens não passa de um dinossauro também.

A sociedade é ordenada por cargos e funções. Pessoas contratam outras para trabalhar com elas ou trabalhar para elas. A despeito da sutil diferença entre as duas preposições, vale a máxima: eu pago, você obedece.

Sempre tive dificuldade com essa concepção de mundo. Era uma pirralha e não entendia nem mesmo a razão de ter que abaixar a cabeça diante de pai e mãe. Muitas vezes, depois de ouvir um sermão, tentei me defender, mas fui interrompida com um “não me responda”. Ou era calada com a frase “Criança não tem querer”. 

Eu achava injusto colocar a situação nesses termos, mas nunca promovi nenhuma rebelião infantil. Ficava quieta. Acho um absurdo que hoje as crianças mandem e os pais obedeçam. Sempre respeitei meus pais, como respeitei meus professores e sigo respeitando a todos, mas não pela hierarquia, que para mim é um conceito obsoleto, e sim como um tributo a quem sabe mais do que eu.

E todos sempre saberão alguma coisa que eu não sei. Um Papa sendo operado por um cardiologista: quem é que merece ter as mãos beijadas na sala de cirurgia? Um milionário cujo carro quebra na estrada: qual o valor do mecânico que veio em seu socorro? Uma celebridade que acaba de dar à luz e tem baixa produção de leite: VIP não seria a mulher que amamentará o bebê em seu lugar?

É a dinâmica da vida. Precisamos uns dos outros, e nosso saldo bancário ou posição no organograma não deveria fazer diferença.

Ninguém é melhor que ninguém, apenas algumas têm mais dinheiro. Que entre logo em extinção aquele que circula de nariz em pé, achando que vale mais que o porteiro que lhe abre a porta ou que o garçom que lhe serve o vinho. Se pudesse observar a si mesmo à distância, desdenhando de quem lhe atende, teria vergonha da própria canastrice. O mundo avançou, se unificou, e é nosso dever acompanhar esse movimento, em vez de fazer carreira como fóssil. 

Falo sobre todos nós e nossas relações sociais, mas, hoje, cabe especificar: tiranos, ditadores, golpistas e todas as vossas majestades que desconhecem o diálogo são os dinossauros do século 21. E nosso voto, o asteroide que pode eliminá-los.