quarta-feira, 29 de abril de 2026

Produção de trufas avança no RS, mas cadeia ainda busca escala

Produto raro, a trufa é comercializada por até R$ 8 mil o quilo no Brasil, com foco na alta gastronomia

Produto raro, a trufa é comercializada por até R$ 8 mil o quilo no Brasil, com foco na alta gastronomia

SIMBIOSE TARTUFO/DIVULGAÇÃO/JC
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Claudio Medaglia
Claudio MedagliaRepórterA produção de trufas no Rio Grande do Sul começa a avançar como atividade econômica e já posiciona o Estado como principal produtor do País, ainda que em volumes reduzidos e sem daconsolidados. Associado à pecanicultura — concentrada sobretudo no Vale do Rio Pardo —, o cultivo reúne pesquisa científica, iniciativas empresariais e demanda crescente da gastronomia de alto padrão, mas segue em fase inicial de estruturação.
Apesar da ausência de estatísticas oficiais sobre área e produção, experiências já indicam viabilidade comercial. Em um dos casos mais avançados, o pomar da empresa Paralelo 30, em Cachoeira do Sul, registra colheitas anuais – entre novembro e fevereiro – que podem chegar a 50 quilos por safra, referência ainda pontual dentro de uma produção estadual dispersa e de difícil mensuração.
O biólogo e microbiologista agrícola Marcelo Sulzbacher afirma que o mercado existe e tende a crescer, ainda que de forma gradual. Segundo ele, a produção atual é pequena e concentrada, mas já há demanda consistente. “É um produto de nicho, com alto valor. A gente já consegue vender para o Rio e São Paulo, principalmente para gastronomia e hotelaria”, relata.
A presença de trufas Sapucay no Estado foi identificada no contexto de pesquisas conduzidas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) a partir de 2010. Esse trabalho, que contou com a colaboração de diferentes profissionais da área, culminou em 2016 na confirmação de exemplares com potencial gastronômico, a partir de coletas realizadas em pomares de nogueira-pecã.
Sulzbacher atuou diretamente na identificação em campo e, desde então, passou a desenvolver iniciativas voltadas à aplicação comercial do cultivo. Nessa esteira, criou a Simbiose Tartufo Ltda, empresa dedicada à produção de mudas de nogueira-pecã inoculadas com trufas, modelo inspirado em práticas adotadas na Europa.
A partir desse sistema, o produtor implanta o pomar já com o fungo associado às raízes da planta. O retorno, no entanto, não é imediato: a produção pode começar a partir de quatro a cinco anos, dependendo das condições de solo e manejo.
Além da produção primária, começam a surgir iniciativas voltadas à organização da cadeia. Na Divinut, também de Cachoeira do Sul e atuante no processamento de noz-pecã, a estratégia segue um modelo integrado.
O diretor da empresa, Edson Ortiz, afirma que o objetivo é replicar, no caso das trufas, a estrutura já consolidada para a pecã. “A gente quer produzir e vender a muda inoculada com trufas, dar assistência e comprar a produção para repassar ao mercado interno e externo”, explica.
Segundo Ortiz, a empresa ainda não trabalha com volumes comerciais definidos, mas já iniciou ações de prospecção, incluindo participação em feiras e contato com chefs de cozinha. “É uma cadeia que está sendo estruturada. Ainda não temos preços consolidados ou regramento comercial, mas existe interesse e aceitação do produto”, observa.
Atualmente, a comercialização está concentrada na gastronomia de luxo, com chefs e restaurantes utilizando a trufa como ingrediente de alto valor agregado. Um exemplo recente reforça esse posicionamento: a maior trufa já registrada no Brasil, com 213 gramas, foi encontrada no início deste ano em uma propriedade em Encruzilhada do Sul e vendida por cerca de R$ 2 mil ao restaurante Tuju, em São Paulo, reconhecido com três estrelas Michelin. Em geral, exemplares comerciais variam entre 10 e 20 gramas.
Um dos fatores que impulsionam o interesse pela atividade é a relação simbiótica entre a trufa e a nogueira-pecã. O fungo vive associado às raízes da planta, em uma relação conhecida como micorriza, que favorece a absorção de nutrientes e o desenvolvimento da cultura.
A bióloga Zaida Antoniolli, da UFSM, explica que essa interação pode trazer benefícios agronômicos ao pomar. “A presença da trufa tende a melhorar o desenvolvimento da planta e pode impactar na qualidade e no rendimento da pecã”, aponta.
Além do efeito sobre a cultura principal, a trufa representa uma possibilidade de renda adicional no mesmo hectare. “Ela pode ser um produto secundário dentro da pecanicultura, mas com potencial de gerar retorno elevado”, afirma a pesquisadora.

Pesquisa e descoberta impulsionam atividade

Marcelo Sulzbacher atuou na identificação em campo e hoje se dedica à aplicação comercial do cultivo | SIMBIOSE TARTUFO/DIVULGAÇÃO/JC
Marcelo Sulzbacher atuou na identificação em campo e hoje se dedica à aplicação comercial do cultivoSIMBIOSE TARTUFO/DIVULGAÇÃO/JC
Embora tenham sido identificadas apenas recentemente, as trufas provavelmente estão presentes no Estado há décadas. Segundo Zaida, a introdução ocorreu de forma indireta, com a importação de mudas de nogueira-pecã por volta da década de 1970, já inoculadas com fungos — prática comum na Europa.
Na época, o foco estava exclusivamente na produção de nozes, e a presença das trufas passou despercebida. A descoberta ocorreu apenas durante estudos conduzidos pela equipe de Zaida na UFSM a partir de 2010, com a colaboração do pesquisador esloveno Tine Grebenc, do Instituto Florestal da Eslovênia, referência internacional em micologia aplicada, culminando na identificação do produto em 2016.
O alto valor das trufas está diretamente ligado à sua raridade e às características sensoriais. O aroma intenso é considerado um dos principais diferenciais gastronômicos, capaz de proporcionar experiências únicas ao consumidor.
De acordo com a bióloga, análises indicam que as trufas encontradas no Estado apresentam compostos semelhantes aos de espécies tradicionais do mercado europeu, o que reforça seu potencial competitivo.
Entretanto, a produção ainda enfrenta desafios técnicos. Fatores como pH do solo, matéria orgânica e manejo influenciam diretamente na ocorrência das trufas, que não aparecem de forma homogênea nos pomares.
Apesar do potencial econômico, a falta de informações consolidadas e de domínio técnico completo faz com que o avanço da atividade ocorra de forma gradual. Produtores e empresas adotam uma postura cautelosa, evitando investimentos em larga escala antes de maior previsibilidade produtiva.
Não dá para tratar como uma mina de ouro. É um negócio promissor, mas ainda incipiente, que precisa ser melhor compreendido”, afirma Ortiz.
Ao mesmo tempo, novas frentes começam a ser exploradas, como o uso na indústria alimentícia — em produtos como azeites e queijos —, além de aplicações em cosméticos e no turismo rural, com experiências já consolidadas em países europeus.
A expectativa é de que, nos próximos anos, o avanço da pesquisa e a ampliação das áreas cultivadas permitam maior regularidade na oferta e contribuam para a consolidação do mercado. Até lá, o setor deve seguir combinando ciência, experimentação e nichos de alto valor para sustentar o crescimento.
AS TRUFAS NO RS
  • Produção ainda sem dados consolidados no Estado
  • Colheitas pontuais chegam a 50 quilos por safra em propriedades específicas
  • Preço varia entre R$ 6 mil e R$ 8 mil por quilo
  • Mercado concentrado na alta gastronomia
  • Produção associada à nogueira-pecã
  • Cadeia produtiva em fase inicial de organização

 Casamento em canteiro de obra em Porto Alegre: "casei na viga do meu banheiro"

Cássia Bernardy e Daniel Mariano acreditam no simbolismo da palavra construção

Cássia Bernardy e Daniel Mariano acreditam no simbolismo da palavra construção

Nathlia Goncalves/Divulgação/JC

Mauro Belo Schneider
Mauro Belo SchneiderEditor-executivoOs psicólogos gaúchos Cássia Bernardy, 33 anos, e Daniel Mariano, 39, protagonizaram uma cena curiosa em um condomínio no bairro Hípica, na Zona Sul de Porto Alegre. Eles se casaram no canteiro de obras do local que daqui a alguns meses dará lugar à residência da família.
“Brinco que casei na viga do meu banheiro”, diz Cássia, sobre a cerimônia que ocorreu no dia 17 de abril. As escolhas do casal são cheias de simbolismo, como ela conta.
Cerca de 30 pessoas acompanharam a troca de alianças | Nathlia Goncalves/Divulgação/JC
Cerca de 30 pessoas acompanharam a troca de aliançasNathlia Goncalves/Divulgação/JC
“Não será só nossa casa, é o lugar que a gente está construindo, que a gente vai morar, é um terreno muito fértil. Um lugar que faz sentido para nossa vida em família”, justifica. Cássia reforça, ainda, que a união poderia ter acontecido em um salão tradicional, que “o casamento na obra não foi por falta de condição”.
“Nossa relação tem por trás essa palavra: construção. As pessoas que nos conhecem disseram que é nossa cara, pois estamos sempre construindo alguma coisa”, relata Cássia. Cerca de 30 convidados acompanharam a troca de alianças.  
E as características inusitadas do evento não se limitaram ao ambiente. A noiva, que recém tirou a carteira de motorista, chegou dirigindo o próprio carro e a música da festa - depois estendida ao salão do empreendimento - foi karaokê.
Noiva, que recém tirou a carteira de motorista, chegou dirigindo o próprio carro | Nathlia Goncalves/Divulgação/JC
Noiva, que recém tirou a carteira de motorista, chegou dirigindo o próprio carroNathlia Goncalves/Divulgação/JC
Por enquanto, há cerca de 10 casas habitadas no endereço, já que é um condomínio novo. Para os futuros vizinhos que se surpreendiam com o fato de um casamento, algo refinado e delicado, ocorrer entre ferros e tijolos, Cássia tinha a explicação pronta. “A vida é isso: misturar o duro com o sutil, o cascalho com a preciosidade.”