quarta-feira, 9 de setembro de 2026

09 de Setembro de 2026
MARIO CORSO

Natalidade baixa

A questão não é encolher a população, é encolher o número de pessoas em idade produtiva. Nos sistemas de previdência e saúde, são os jovens que movem a engrenagem que sustenta os velhos. Em um país com a maioria da população envelhecida, a economia quebra.

Não se trata de um problema local, a queda da natalidade baixou no mundo todo. O motivo dessa queda ninguém sabe responder com certeza. Provavelmente uma combinação de fatores.

A vida está muito cara, os jovens de hoje têm um poder aquisitivo menor que o das gerações precedentes. Existe muita instabilidade no mercado de trabalho, profissões surgem enquanto outras desaparecem velozmente.

Como nunca antes, as mulheres podem optar por não ter filhos, já não sofrem uma pressão social ou religiosa tão forte. Ainda, os filhos atrapalhem o trabalho da mulher, elas recebem quase nenhum suporte. Praticamente não há mais famílias em que um só consegue sustentar a casa.

Há uma mudança social nos cuidados com os filhos, os pais começam a ajudar na criação deles, mas ainda são raros, e as crianças ainda sobrecarregam só às mulheres. A vida urbana dificulta redes de apoio familiar, que seriam de grande ajuda.

Ter filhos antes era um dever social inquestionável, parte do destino coletivo. Hoje, tornou-se uma decisão subjetiva tomada internamente, antes de ser negociada socialmente. Posso ser uma boa mãe, ou pai? É isso que quero ser? Viverei melhor sem isso?

A decisão de não ter filhos (ou adiar) reflete uma avaliação, consciente ou não, sobre a capacidade de oferecer um ambiente suficientemente bom, numa época percebida como hostil. O clima político se radicalizou, a crise climática bate na porta, a economia não inspira confiança e o negacionismo científico aumenta. Mas não é só medo objetivo do futuro, é uma configuração subjetiva de insegurança quanto à própria capacidade de sustentar outra vida. A desesperança campeia, os jovens duvidam do futuro, o seu e o do planeta.

Talvez a pergunta não seja: como fazer os jovens quererem filhos, mas como fazer o futuro parecer, de novo, um lugar habitável. Ainda, como fazer para que uma mulher se sinta socialmente segura para uma aventura que envolve seu corpo. 

Mário Corso

OPINIÃO RBS

Degradação institucional

A decisão drástica do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça de afastar do cargo o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, traga o governo federal para a tensão que estremece a Corte e amplia a crise institucional. 

O agravamento do conflito, detonado com a revelação, por ordem de Mendonça, da troca de mensagens comprometedoras entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o colega Alexandre de Moraes, aumenta a responsabilidade do presidente do STF, Edson Fachin, de quem se aguarda ansiosamente o posicionamento firme prometido por ele.

Não pode mais ser procrastinada a convocação de sessão do plenário da Corte para deliberar sobre a abertura de um inquérito para investigar a conduta de Moraes. Esse é o primeiro passo para o Supremo começar a recuperar a sua credibilidade. Proteger a instituição, pilar do Estado democrático de direito, pressupõe demonstrar que ela paira acima do espírito de corpo e dos interesses individuais.

Ainda que controversa, a decisão de Mendonça, que já tem maioria na 2ª Turma do STF, traz acusações graves contra Rodrigues e o diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa, também afastado. 

O ministro afirma que passou por "monitoramento sistemático" e "coleta dirigida" de dados, que também teriam atingido o advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias. Seria uma bisbilhotagem nas sombras contra altas autoridades da República patrocinada pela cúpula da PF. Cumpre também observar que, a exemplo dos métodos discutíveis de Moraes, Mendonça tomou uma decisão em um caso em que seria vítima.

O episódio, se ocorreu como Mendonça sustenta, demonstra a contaminação de instituições basilares do país pela disputa política. A PF deveria ser mantida como técnica, profissional e apartidária, mas também sofre tentativas de instrumentalização. Em 2020, Alexandre de Moraes suspendeu a nomeação de Alexandre Ramagem para a diretoria-geral por indícios de que o então presidente Jair Bolsonaro buscava interferir na instituição.

O abandono da tradição da lista tríplice para a definição do procurador-geral da República é outro sintoma dessa degradação. Bolsonaro e Lula, em seu terceiro mandato, ignoraram os nomes selecionados pela Associação Nacional dos Procuradores da República e preferiram escolhas pautadas pela fidelidade. A opção colide com a independência necessária do Ministério Público e, nesses anos, abriu larga margem para acusações de omissão e de alinhamento escancarado.

Mas nada é mais grave do que o que ocorre no STF, sob o contágio da desconfiança de decisões movidas por envolvimento político. A credibilidade da Corte não será recuperada enquanto os ministros forem identificados pelos cidadãos como agentes vinculados a um ou outro lado da polarização, e não como guardiões da Constituição. A crise atual, pela seriedade inaudita, deve fortalecer a discussão sobre a mudança das regras de indicação dos ministros. 

É preciso ter normas que diminuam a discricionariedade atual ampla do presidente da República e enfraqueçam escolhas pela expectativa de lealdade. A seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entregou há menos de um mês uma proposta que une pontos de várias PECs e pode ser a base para essa discussão, que não pode mais ser adiada.

A saúde da democracia brasileira depende de instituições livres de aparelhamentos. Como está, não pode ficar. _ 

Matheus Schuch

Mais desgaste para o governo

Já faz um bom tempo que o presidente Lula se afastou de Alexandre de Moraes para tentar evitar o desgaste da crise do Master. Agora, o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, sob suspeita de produzir relatórios de inteligência e monitorar o relator do caso Master, André Mendonça, aproxima o governo da crise e pode ampliar os danos ao presidente a menos de um mês das eleições.

Na semana passada, o pedido de investigação de Moraes contra Mendonça foi encaminhado a partir de relatórios apócrifos, que provocaram desconfiança sobre origem e até mesmo sobre legitimidade. Agora, a decisão de Mendonça afirma que o material foi construído a partir de um acompanhamento ilegal de suas ações.

O curioso é que o advogado-geral da União, Jorge Messias, outra pessoa da confiança de Lula, também seria alvo de monitoramento. Nos bastidores, Messias já era considerado próximo a Mendonça e isso foi apontado como um dos motivos de seu nome ter sido rejeitado para uma vaga no STF. Na ocasião, ministros da Corte e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, trabalharam fortemente pela derrota.

Mendonça descreveu como "surreal" e "abjeta" a conclusão de relatórios da PF de que a sua conduta e a do advogado-geral da União, de não acatar solicitações da PF, poderia ser explicada pelo fato de possuírem "matriz religiosa comum" e terem tido apoio de igrejas evangélicas em suas candidaturas ao STF.

Ao afastar Andrei, Mendonça também deixa claro que não pretende recuar de sua ofensiva contra Moraes. O caso só aumenta a pressão para que o presidente do STF, Edson Fachin, defina se vai submeter logo ao plenário a possibilidade de autorizar investigação formal contra Moraes - algo que seria inédito na história da Corte. 

CONEXÃO BRASÍLIA 

09 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

A antropofagia entre os poderes da República

O modernismo brasileiro transformou a antropofagia em metáfora: devorar o outro para absorvê-lo e produzir algo novo.

Quase um século depois do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, Brasília criou sua própria versão. Na capital federal, um poder já não se limita a fiscalizar o outro. Come.

A antropofagia começa dentro das próprias instituições. No Supremo Tribunal Federal (STF), ministros travam uma batalha pública, com Alexandre de Moraes pedindo a investigação de André Mendonça e Mendonça reagindo agora com o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação.

O que deveria ser um sistema de freios e contrapesos começa a assumir a forma de uma disputa em que cada movimento provoca outro ainda mais grave. A institucionalidade vai se liquefazendo e levando, de roldão, para o lamaçal, a República.

O presidente candidato Lula tentou permanecer alheio à guerra no Supremo, embora já sofresse seus efeitos na campanha eleitoral pela associação entre seu nome e o de Moraes. A decisão de Mendonça arrastou o Executivo diretamente para o conflito ao atingir Andrei, escolhido pelo presidente e subordinado ao Ministério da Justiça. A AGU prepara recurso contra o afastamento, enquanto a crise que começou dentro do Judiciário cruza, a passos rápidos, a Praça dos Três Poderes.

A antropofagia institucional avança, um órgão sobre o outro. O passo seguinte pode ser uma névoa, na qual já não se saiba onde termina a defesa legítima de uma prerrogativa e começa uma guerra de poder.

Também preocupa a resposta sugerida por assessores palacianos. Marco Aurélio de Carvalho, coordenador jurídico da campanha do presidente, defendeu a convocação do Conselho da República para enfrentar o que classificou como uma "crise institucional sem precedentes". O colegiado existe para aconselhar o presidente sobre temas de enorme gravidade, como intervenção federal, estado de defesa e de sítio. A simples associação, em meio a uma campanha eleitoral e a uma batalha aberta entre integrantes do Supremo, eleva ainda mais a temperatura. O reverso precisa ser acionado.

Caso de emergência

Crises institucionais graves devem ser tratadas como uma emergência de pronto-socorro: primeiro, é preciso impedir que a infecção se espalhe pelo organismo. Nesses casos, em geral, para preservar o corpo, é necessário afastar a parte comprometida até que se saiba exatamente o que aconteceu.

O Executivo acaba de perder, ainda que preventivamente, o seu diretor-geral da PF. Cabe ao Supremo fazer a sua parte, criando uma saída institucional capaz de interrompê-la.

Se Brasília continuar praticando sua antropofagia pública, chegará um momento em que não haverá vencedor. Todos cairão. Com os poderes devorados uns pelos outros, o que restará sobre a mesa do banquete de vaidades será a própria República. _

O humano em tempos de IA

Para reafirmar que o lado humano permanece insubstituível na relação ensino-aprendizagem, a 14ª edição do Inteligência Coletiva, que inicia hoje e vai até sábado, em Porto Alegre, debate o tema "O futuro da educação continua humano". O evento é gratuito para professores da rede pública e estudantes de licenciatura e magistério. Para as escolas privadas, o investimento varia de R$ 40 a R$ 98 por pessoa, conforme a modalidade escolhida.

O evento é idealizado pela Escola de Professores Inquietos, iniciativa do Colégio Farroupilha. Hoje, no Teatro CIEE, o médico e escritor J.J. Camargo palestra sobre a relação entre o técnico e o humano. O sábado será dedicado à apresentação dos relatos de práticas pedagógicas e experiências de pesquisa de professores de diferentes escolas selecionados por edital e de workshops com diferentes profissionais nas dependências do Colégio Farroupilha.

Entre os temas abordados estão saúde mental; aprendizagem inovadora; processos inclusivos; sustentabilidade e cidadania; e relações escolares e convivência. Inscrições no site gzh.digital/inteligênciacoletiva. _

Islândia no mapa dos Estados Unidos

Após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicar nas redes sociais um mapa fictício no qual mostrava a Islândia - além de México, Cuba e Groenlândia - coberta pela bandeira americana, indicando que o território faria parte dos EUA, o Ministério das Relações Exteriores islandês convocou, ontem, o embaixador americano, Billy Long, para conversas.

Desde as investidas de Donald Trump nos últimos anos para que os Estados Unidos adquiram a Groenlândia - território autônomo dinamarquês -, as relações entre os americanos, países europeus e aliados da Otan ficaram estremecidas. No mês passado, os eleitores islandeses rejeitaram a retomada das conversas para aderir à União Europeia. Durante a campanha para a votação, os planos de Trump para a Groenlândia integraram o debate político no país.

Alguns defensores da retomada das negociações citaram a preocupação com a confiabilidade dos Estados Unidos como motivo para considerar uma aproximação maior com a União Europeia.

A publicação de Trump também coincidiu com uma nova demonstração de apoio europeu à Groenlândia. Horas antes, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou um pacote de 200 milhões de euros (cerca de R$ 1,2 bilhão, na cotação atual) para o território autônomo dinamarquês. _

Honoris Causa a Conceição Evaristo

A linguista e escritora brasileira Conceição Evaristo será agraciada com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Apesar de a data da cerimônia de outorga ainda não ter sido definida oficialmente, a entrega do título, segundo a reitoria, está prevista para meados de dezembro.

A proposta que deu origem à homenagem partiu do Coletivo de Estudantes Negros da Pedagogia, do Coletivo UFRGS Negra e do Movimento Negro Unificado, sendo encaminhada pela Faculdade de Educação (Faced) ao Conselho Universitário (Consun).

Segundo a universidade, a honraria reconhece a trajetória de Conceição Evaristo e a contribuição de sua produção literária e intelectual para a literatura brasileira, a educação e o enfrentamento do racismo. A justificativa apresentada ao Consun destaca também a presença e a influência do pensamento da escritora na produção acadêmica da UFRGS.

- É muito importante esse reconhecimento, pois ela, além de escritora, é uma linguista muito relevante. Alguns conceitos que ela introduz, além, obviamente, da questão do racismo e da linguagem, envolvem a escrevivência, ou seja, essa escrita que traz de onde tu vens e o que tu representas. É mais do que um pensamento de ação afirmativa, é incorporar à criação de conhecimento quando trazemos pessoas com outras culturas e vivências para dentro da universidade. É a transformação da universidade, e a entrega desse título é o reconhecimento dessa transformação - comentou a reitora Márcia Barbosa à coluna.

Nascida em uma favela de Belo Horizonte, Conceição Evaristo é filha de uma lavadeira e, desde os 8 anos de idade, vivenciou o trabalho doméstico nas casas das elites mineiras. Atuou como professora primária no Rio de Janeiro e, posteriormente, graduou-se em Letras. Tem o mestrado em Literatura Brasileira e o doutorado em Literatura Comparada.

É autora, entre outras obras, de Ponciá Vicêncio (2003), Becos da Memória (2006), Olhos d?Água (2014) e Canção para Ninar Menino Grande (2018). 

INFORME ESPECIAL

terça-feira, 8 de setembro de 2026

08 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

O cheiro da mãe

Mãe é uma ligação atemporal, inexplicável.

Dos milhares de perfumes que um ser humano pode colecionar ao longo da sua trajetória, há um apenas que ele jamais erra em identificar: o cheiro da sua mãe. Quando abraçamos a nossa mãe, refazemos a mágica da fragrância fundadora. Pois entramos no mundo em contato com a sua pele.

Tanto que, após o parto, nas primeiras semanas depois do nascimento, costuma-se recomendar que a mãe evite o uso de perfume. Para não confundir o filho. Para facilitar que ele a reconheça.

O primeiro mapa das nossas vivências não é visual, e sim aromático. Antes de detectar um rosto, procuramos o abrigo do colo. O cheiro do corpo materno será um dos maiores elos para aceitar o mundo. Reduz o estresse, diminui o choro e ajuda a regular a frequência cardíaca. Inclusive, tem efeito analgésico, em especial durante procedimentos incômodos, como a picada no calcanhar.

Tanto que o bebê costuma se aquietar no peito da mãe, pois reconhecerá imediatamente a epiderme da proteção. Experimentará o conforto de voltar mentalmente ao ventre.

Entre dois e seis dias de vida, bebês já distinguem a camiseta usada pela genitora. A visão ainda é limitada (cerca de 20 a 30 cm e de forma desfocada), enquanto o sistema olfativo já se encontra desenvolvido.

Não compreendemos direito por que amamos alguém. A senha não está naquilo que os olhos enxergam. Definitivamente, é pela respiração que nos sentimos admirados, antes das palavras, antes dos gestos. Será que o beijo de quem você ama não é inesquecível pelo gosto respirado em torno da boca?

O recém-nascido sabe quem é quem pelo suor, pela química dos poros, numa conexão primitiva, de animal com a sua toca.

Quando ele inspira o cheiro da pele da mãe, estabelece um endereço de cuidado. Talvez represente o momento oficial de seu nascimento: ele liga o Wi-Fi da personalidade. Todo perigo se apresentará fora daquela presença, daqueles quadrantes, daquela bússola.

É o que vai impregnar o cueiro, a manta, a coberta, o travesseiro, espalhando resquícios do tempo em que atravessava o interior da gestação.

Suas memórias afetivas incipientes passam pelo faro, seu canal de comunicação com o universo de sua chegada. Apresentam conexões diretas com estruturas cerebrais ligadas à emoção e à memória, como a amígdala e o hipocampo.

Um aroma nos desperta para as saudades mais arrebatadoras. Ficamos desprotegidos e vulneráveis diante de sua absorção involuntária.

Numa visita em minha casa, a mãe esqueceu seu xale preto na poltrona da sala. Instintivamente, botei o pano em meu nariz, nebulizei com vontade, como se recuperasse meu nascimento. Chorei. Devo ter chorado outra vez da alegria do parto, da sorte de ter vindo dela. _

CARPINEJAR

08 de Setembro de 2026
NILSON SOUZA

O mapa corrigido

Adoro mapas. Devo ter sido infectado por algum bicho geográfico quando andava de pés descalços nos campinhos de futebol do bairro Sarandi, onde passei a infância. Não peguei doença de pele, mas fiquei com uma certa desorientação cognitiva. Se mudo o trajeto rotineiro, me perco. Sempre que me aventuro por território desconhecido, faço um desenho prévio do trajeto ou busco algum outro recurso gráfico. Bendito seja o gênio da lâmpada que inventou o GPS!

Mas meu gosto pela cartografia vai muito além do trânsito. Sou fascinado pelo mapa-múndi, em todas as suas dimensões. Às vezes fico olhando para o globinho do meu escritório e viajo de um polo a outro. Outro dia fiquei imaginando se seria possível ir a pé de Torres à Namíbia quando os continentes estavam unidos na Pangeia, 300 milhões de anos atrás.

Pois vem da África a mais recente alteração na representação plana da nossa Terra geoide. Por iniciativa da República do Togo, a Assembleia Geral da ONU aprovou na semana passada a substituição do tradicional mapa-múndi de Mercator por um desenho atualizado, que corrige distorções no tamanho e na proporção das massas de terra. 

A iniciativa batizada de "Corrija o Mapa" foi aprovada por 164 países, com um único voto contrário, o dos Estados Unidos. Não podia ser diferente: Trump, como se sabe, tem o seu próprio mapa planetário, com seu umbigo em primeiro plano, Nova York como capital do império Maga e pequenas repúblicas bananeiras no restante.

Pois o Brasil ficou mais comprido no novo mapa-múndi. Fica-se com a impressão de que agora vai levar mais tempo para ir do Oiapoque ao Chuí, que nem é a maior distância no território nacional, pois tem um pontinho em Roraima ainda mais longe do Extremo Sul. Brincadeira, claro, a mudança gráfica não altera a realidade. 

Mas mexe com a autoestima dos habitantes. No mapa antigo, a África era quase do mesmo tamanho da Groenlândia. Agora é 14 vezes maior. Na parte que nos toca, a América do Sul também espichou e o Brasil foi junto. Antes, era do tamanho do Alasca. Agora é cinco vezes maior.

Mas não se iludam, é apenas uma representação gráfica. Cuidado com o umbigo! _ A mudança gráfica não altera a realidade, mas mexe com a autoestima dos habitantes

NILSON SOUZA

08 de Setembro de 2026
OPINIÃO DA RBS

O futuro governo e o desafio climático

O próximo governo a se instalar no Palácio Piratini será o primeiro a ter de se dedicar de maneira prioritária, desde o dia inaugural da gestão, à pauta climática e ambiental. A enchente de 2024, devastadora e mortal, fez o Estado despertar de forma definitiva, do pior modo possível, para a nova realidade. O desenvolvimento do Rio Grande do Sul e o bem-estar dos gaúchos dependerão cada vez mais da prevenção e da adaptação a eventos extremos, na forma de chuvas violentas e excessivas ou de estiagens.

É por essa razão que o tema abre, nesta terça-feira, a série de reportagens (leia mais nas páginas 4, 5 e 6 desta edição), que será veiculada até as vésperas da eleição nas diferentes plataformas do Grupo RBS, sobre os desafios que pedem maior atenção do governo a ser ungido pelas urnas em outubro. As matérias analisam questões cruciais para o futuro do Estado. Os temas foram apontados como primordiais por contribuições de diversos setores da sociedade ao longo de ouvidorias organizadas pelo Conselho Editorial da RBS neste ano.

Não há mais dúvida sobre a gravidade das mudanças climáticas e seus efeitos. O alerta da ciência sobre a tendência de esses fenômenos da natureza se tornarem mais intensos e frequentes faz com que o Estado precise conciliar agilidade e planejamento robusto para enfrentar toda sorte de intempéries. Há ações que pedem celeridade. E projetos que exigem estruturação criteriosa pela complexidade e pelo alto investimento, como os sistemas anticheias da Região Metropolitana.

Para os gaúchos, as consequências do clima hostil não são uma cogitação abstrata. Os custos em vidas e em perdas materiais apenas do passado recente falam por si. Na última década, foram 281 mortes e R$ 116,8 bilhões em prejuízos, conforme a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil. Em outro levantamento, com metodologia diversa, a Federação da Agricultura do Estado (Farsul) estima R$ 126,3 bilhões em danos entre 2020 e 2025 nas lavouras. Como reflexo, o PIB gaúcho perdeu R$ 319 bilhões. Omitir-se agora é correr o risco de ver descalabros semelhantes se repetirem.

Espera-se do futuro governo compromisso e perseverança para tornar o Rio Grande do Sul resiliente aos reflexos do aquecimento global. O Plano Rio Grande, transformado em lei, indica o caminho e tem projetos de grande relevância em diversos estágios. É importante tê-lo como norte.

Não é aceitável que os gaúchos sofram novamente indefesos com a invasão da água pelas cidades, que a infraestrutura seja outra vez destruída e que milhares de cidadãos, sempre os mais humildes, sigam perdendo casas e pertences. Também não é concebível que secas e estiagens recorrentes continuem indefinidamente a impingir perdas econômicas severas, legando crescimento abaixo do potencial e endividamento no campo. Uma das grandes questões sem resposta adequada diz respeito a uma política capaz de elevar de maneira significativa a área irrigada.

Apesar das muitas tarefas árduas à frente, a maior parte do mapa de ação para o RS harmonizar proteção ambiental e progresso está traçada. Resta o desafio de implementar os projetos destinados a forjar um Estado mais adaptado ao novo contexto. Cabe ao próximo governo liderar os gaúchos nessa jornada. 


08 de Setembro de 2026
REPORTAGEM - Marcelo Gonzatto

Construir um legado contra o impacto climático

Série de oito reportagens aborda os principais desafios que o RS precisa enfrentar para avançar. A primeira trata do ambiente. Especialistas apontam necessidade de aprimorar sistemas de prevenção e melhorar a gestão dos recursos naturais.

Nos últimos anos, o ambiente se tornou um tópico prioritário nas discussões sobre o futuro do Rio Grande do Sul. A sucessão de enchentes e estiagens, pontuada por vendavais, deslizamentos de terra e quedas de granizo, evidencia o impacto das mudanças climáticas no dia a dia da população e transforma o investimento em resiliência em uma obrigação para os atuais e futuros representantes dos eleitores.

O Atlas Digital de Desastres no Brasil, mantido pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, contabiliza 281 óbitos e R$ 116,8 bilhões em prejuízos públicos e privados provocados no Estado por essas ocorrências na última década.

Esta é a primeira de uma série de oito reportagens sobre os principais desafios que o RS precisa enfrentar para avançar. Zero Hora selecionou, a partir de ouvidorias realizadas pelo Conselho Editorial da RBS e da consulta a fontes independentes, questões que merecem a atenção dos representantes do eleitor gaúcho.

Na área ambiental, isso inclui projetos de contenção de enchentes, preparação para enfrentar eventos climáticos extremos e a gestão inteligente dos recursos hídricos.

O RS está mais exposto a fenômenos extremos por uma combinação de fatores. O território gaúcho sempre foi suscetível a ocorrências de tempestades severas por estar localizado em uma zona de choque entre massas de ar frio e quente. As mudanças climáticas em curso, que aumentam o nível de energia na atmosfera, potencializam esses episódios. A ocupação urbana de zonas de risco ampliou, ao longo de décadas, a fragilidade dos municípios frente às intempéries.

A probabilidade de novas tragédias é multiplicada em épocas de El Niño - como em 2026, quando é esperado um evento muito forte no último trimestre.

- As previsões são de que o El Niño atingirá esse nível muito forte a partir de setembro, com impacto muito grande em outubro, novembro, dezembro e janeiro. Então, tem de estar muito preparado para todos esses meses - alerta o climatologista e professor da Universidade de São Paulo (USP) Carlos Nobre.

O custo de permanecer sujeito às variações bruscas do humor do clima é muito elevado. As cheias de 2024 e do ano passado afetaram diretamente mais de 1 milhão de gaúchos, conforme levantamento do governo estadual.

- Existe um risco não desprezível de acontecer um evento muito extremo, como o de 2024, dentro da próxima década ou nas próximas duas décadas. É necessário deixar um legado para esse futuro próximo - afirma o pesquisador e doutor em Hidrologia do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS Rodrigo Paiva. _

1| Para lidar com enchentes

Uma série de iniciativas envolvendo prefeituras, Estado e a gestão federal segue em curso para melhorar as barreiras de proteção contra enchentes no Estado. Esse trabalho começou após a cheia de 2024 e ainda não terminou. Os novos sistemas de proteção são obras e projetos complementares aos sistemas que já existem, coordenados pelo governo do Estado, com investimento de R$ 6,5 bilhões da União.

A ação mais avançada é a implementação do sistema de contenção de Eldorado do Sul, na Bacia do Jacuí, com investimento previsto de R$ 1,1 bilhão. As obras ainda não começaram: até agora, o anteprojeto que prevê a construção de um sistema de diques foi atualizado e concluído. Segundo a Secretaria da Reconstrução Gaúcha, as próximas etapas incluem a elaboração do projeto executivo e a ordem de início dos trabalhos.

No caso do Sistema de Porto Alegre e Alvorada (Arroio Feijó), está em fase final do processo licitatório para contratar a atualização do anteprojeto. O investimento é estimado em R$ 2,5 bilhões. E nos casos dos demais sistemas, estão em fase complementar ao processo licitatório para atualizar os anteprojetos e estudos ambientais, como as bacias do Gravataí (R$ 450 milhões, com edital de atualização de projeto publicado em 14 de agosto), do Sinos (R$ 1,9 bilhão, com previsão de publicação de edital para atualização do anteprojeto em setembro) e do Caí (R$ 14,5 milhões, com edital para realização de anteprojeto em 30 de junho).

A previsão para conclusão das obras dos novos sistemas é em 2031, e exige comprometimento dos novos governantes para se confirmar.

Os sistemas de contenção já existentes, como diques, casas de bombas e comportas, são de responsabilidade dos municípios. As prefeituras contam com auxílio do Estado para as obras de qualificação via programa Fundo a Fundo da Reconstrução, que aprovou liberações de cerca de R$ 700 milhões até o momento.

Planos de prevenção

Outras ações de prevenção aos efeitos de fenômenos climáticos avançaram nos últimos anos. Conforme o auditor de controle externo do Tribunal de Contas do Estado (TCE) Everton do Amaral Padilha, levantamento divulgado no ano passado mostrou que 87 cidades não tinham planos de contingência (que definem como evitar, enfrentar e reduzir impactos em casos de desastre), e em 215 estavam desatualizados. Conforme a Defesa Civil Estadual, hoje todas as 497 prefeituras contam com planos próprios.

- É positivo, mas esses planos de contingência têm de ser revisados e amadurecidos constantemente. Em alguns municípios, acabam sendo pouco detalhados - observa Rodrigo Paiva, do IPH da UFRGS.

Sete municípios do Vale do Taquari estão revendo seus planos diretores para evitar a ocupação de áreas de risco, em uma iniciativa conjunta com o Piratini e a Universidade do Vale do Taquari (Univates).

- Os planos diretores foram elaborados, a parte técnica está pronta. Mas os momentos dos municípios são bem diferentes, porque cada prefeitura tem o seu cronograma, as suas instâncias de discussão - afirma a arquiteta Izabele Colusso, que participou da elaboração dos documentos pela Univates e é professora da Unisinos.

A Secretaria da Reconstrução Gaúcha sustenta que o Plano Rio Grande, elaborado para recuperar os danos provocados pelas enchentes e reduzir a vulnerabilidade a fenômenos extremos, prevê R$ 15 bilhões para custear cerca de 270 ações. _

2| Danos das estiagens

Embora as recentes cheias tenham deixado estragos e traumas profundos no Estado, as secas e estiagens têm se mostrado um problema ambiental ainda mais frequente e danoso. Dos últimos seis anos, apenas em 2024 não houve registro de grandes prejuízos provocados pela falta de chuva - justamente quando foi o excesso de água que castigou os gaúchos.

Estimativas da Federação da Agricultura do Estado (Farsul) indicam perdas da ordem de R$ 126,3 bilhões nas culturas de arroz, milho, soja e trigo entre 2020 e o ano passado (o dado difere dos cálculos do Atlas de Desastres porque é feito com base em outra metodologia). O impacto indireto das quebras de safra sobre a economia resultou ainda em um recuo calculado em R$ 319 bilhões no PIB nesse intervalo (equivalente a 49% de toda a riqueza gerada no Estado em 2023, por exemplo).

Um mapeamento realizado pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional mostra que, depois da Região Nordeste, o Rio Grande do Sul é um dos Estados com maior média de registros de estiagens (falta de chuva por períodos mais breves) e secas (déficit hídrico prolongado) no país. As áreas mais afetadas coincidem com as que apresentam baixos índices anuais de crescimento populacional - chegando a registrar percentuais negativos ou próximos de zero. As perdas econômicas agravadas pela irregularidade das precipitações ajudam a explicar, ainda, as dificuldades de desenvolvimento no Estado nas últimas décadas.

Os gaúchos apresentaram o menor crescimento econômico do país entre 2002 e 2023, com média de 1,4% contra uma média nacional de 2,2% de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). _

3| Gestão do recurso hídrico

Outra frente de ação fundamental em um cenário de variações climáticas bruscas, também marcado por estiagens e secas, é uma gestão hídrica mais inteligente e eficaz. Isso envolve medidas como ampliar áreas de irrigação rural, reduzir perdas na distribuição de água, melhorar a coleta e o tratamento de esgoto e regular a captação e o lançamento de efluentes em mananciais.

- Temos uma lei estadual das águas, de 1994, que inclusive serviu de base para a política nacional de recursos hídricos. Mas, nestes 30 e poucos anos, não vimos intenção dos governos de implementar esses instrumentos de gestão das águas - analisa a presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos, Viviane Feijó Machado.

Entre os exemplos de medidas que ainda aguardam implementação, Viviane cita a criação de uma agência estadual de bacias, a exigência de outorga para lançamento de efluentes e a cobrança pelo uso da água (em metros cúbicos) e a elaboração de planos de manejo para todas as bacias.

O governo estadual apresentou recentemente proposta de criação de uma "autoridade das águas", e um projeto semelhante tramita na Assembleia Legislativa, mas ainda não há previsão para a medida ser concretizada. Conforme a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), a medida "aguarda decisão do governador quanto a seu encaminhamento".

A Sema informa, ainda, que existem hoje 25 bacias hidrográficas em solo gaúcho. Parte segue sem a documentação destinada a permitir ações de planejamento mais adequadas: 12 têm planos de bacia concluídos, sete têm documentos parcialmente elaborados e seis ainda não têm planos.

A Sema comunica que "está desenvolvendo uma contratação integrada destinada à conclusão dos planos pendentes, à atualização dos planos existentes e à revisão do Plano Estadual de Recursos Hídricos". A secretaria sustenta que a cobrança pelo lançamento de efluentes está "em processo de implementação", mas a taxa pelo uso de água está em discussão na Justiça.

Viviane aponta ainda a necessidade de elevar o nível de tratamento de esgoto no Rio Grande do Sul e reduzir as perdas na distribuição de água - que chegam a 39% do que é produzido. Já a coleta de esgoto abrange 34,7% da população gaúcha, contra uma média nacional de 56,7%. _

Adaptação da casa aos riscos de enchente

Morador de Eldorado do Sul, o motorista Luciano Almiron, 49 anos, resolveu adaptar sua casa às ameaças de enchente enquanto aguarda por soluções definitivas. Como vive às margens do Guaíba, fez armário e bancada de pedra na cozinha (para resistir às ondas e à umidade), mantém apenas os móveis necessários no andar térreo da moradia e, caso precise, consegue subi-los rapidamente para o segundo piso. Conta ainda com um barco para ajudar a si e aos vizinhos a escapar de eventual nova inundação.

- Não sei se vai ser possível segurar o rio aqui. O ideal seria ter uma solução que atendesse a toda a região. Como não sei quando isso vai ocorrer, me preparei para conviver com as cheias - afirma Almiron. _

Soluções envolvem uma combinação entre obras e ações preventivas

Especialistas consultados por ZH afirmam que a saída para os desafios ambientais e climáticos do RS exige uma receita que combine investimentos em obras de proteção e resiliência, ações de prevenção e o uso inteligente dos recursos naturais.

Entre as ações necessárias, estão obras estruturais que seguem em andamento, como a implantação de diques na Região Metropolitana. O desafio é tirar essas intervenções do papel e garantir sua conclusão nos prazos previstos.

- É preciso trabalhar fortemente para finalizar as reformas dos sistemas de proteção contra cheias que estão em andamento. Isso tem um tempo, é difícil fazer muito rápido porque envolve estudos e um grande volume de recursos - avalia o professor do IPH Rodrigo Paiva.

Isso evitaria que o atual prazo de conclusão das melhorias em sistemas de contenção da Região Metropolitana e arredores, previsto para 2031, venha a sofrer atrasos. Paiva também destaca a importância das ações não estruturais, como o mapeamento de riscos, o monitoramento das condições climáticas e hidrológicas, o fortalecimento da cultura de prevenção e a integração entre diferentes órgãos de governo.

O Serviço Geológico do Brasil (SGB) serve como exemplo de integração entre diferentes esferas de gestão. O órgão federal realizou, até o momento, o mapeamento das zonas de risco de 134 municípios gaúchos. Isso permite identificar os locais mais propensos a inundações, deslizamentos de terra e outros desastres e formular planos diretores e de contingência mais eficazes. O avanço desse trabalho, por meio de novas parcerias, aumentaria o nível de segurança de mais cidades.

Em relação ao uso inteligente da água, uma das medidas fundamentais é encaminhar a criação de um órgão estadual de gerenciamento.

- Essa agência de bacia, ou autoridade das águas, poderia inclusive ser responsável, por exemplo, pelos sistemas de proteção contra cheias. Porque daí tu vês as bacias por meio de um órgão estadual, evitando que ações em um município interfiram em outro, vai ter uma visão realmente regional - argumenta a presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia do Sinos, Viviane Feijó Machado.

Ampliação da irrigação

A Sema sustenta que o Departamento de Recursos Hídricos e Saneamento concluiu a tramitação interna da proposta de modernização da lei que institui a Política Estadual de Recursos Hídricos e organiza o Sistema Estadual de Recursos Hídricos.

O assunto está em "fase final de tramitação" e prevê, entre outras medidas, a criação da Autoridade das Águas do Estado. Isso permitiria implementar e gerir com mais facilidade outras medidas defendidas por especialistas, como a cobrança pelo lançamento de efluentes em mananciais.

Já as ações de combate às secas e estiagens envolvem a ampliação da irrigação. Hoje, cerca de 12% da área plantada no Estado é irrigada, mas a infraestrutura está concentrada em áreas de plantio de arroz. Nas culturas de sequeiro (soja e milho), altamente afetadas pela falta de chuva, o índice cai para menos de 5%. O Estado conta com política de estímulo a esse tipo de iniciativa, o Irriga+RS, pelo qual subsidia parte do investimento dos produtores.

Um outro plano, mais ambicioso, prevê usar recursos de uma nova suspensão do pagamento da dívida com a União para financiar projetos de irrigação. Se a União concordar, poderiam ser levantados até R$ 60 bilhões para custear a ampliação dos sistemas de proteção contra secas. Ainda não há confirmação se a medida poderá ser concretizada. 

08 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Um desfile de 7 de Setembro para Trump ver

O 7 de Setembro deste ano teve como foco um espectador a quase 7 mil quilômetros da Esplanada dos Ministérios, em Brasília: Donald Trump, sentado em sua Resolute Desk, no Salão Oval da Casa Branca, em Washington. Sob o lema "Soberania - A força que une o Brasil", o presidente Lula transformou o tradicional Desfile da Independência em uma demonstração calculada de força política, institucional e militar. 

Em meio às disputas com os Estados Unidos - da crise tarifária às falas políticas que o Planalto entende como interferência externa -, a mensagem foi de que o Brasil quer mostrar que decide seu próprio destino.

As duas horas de duração estavam previstas na programação, e a passagem de tropas, blindados e aeronaves faz parte da tradição da cerimônia. Mas houve nuances: durante anos, a esquerda brasileira manteve uma relação mais distante com a simbologia militar, enquanto o bolsonarismo apropriou-se politicamente das Forças Armadas, da bandeira e das cores nacionais. Lula agora tenta recuperar esses símbolos e associá-los à defesa do país diante de pressões externas.

Há dinheiro acompanhando o discurso. No projeto de Orçamento de 2027, o governo abriu espaço extraordinário para projetos estratégicos da Defesa. Destinou R$ 12,7 bilhões para investimentos, superando a área da Saúde, que recebeu R$ 11,4 bilhões. 

O valor também é maior do que os destinados à Educação (R$ 6,8 bilhões), à Segurança Pública (R$ 3 bilhões) e ao Saneamento Básico (R$ 1,3 bilhão). Em primeiro lugar, aparece Transporte, com R$ 13,8 bilhões, e envolve investimentos em rodovias e ferrovias, por exemplo. Duas semanas atrás, Lula acenou aos militares, ao dizer que "Defesa não é para quando sobrar dinheiro":

- Temos de preparar o país não para a guerra, mas para a paz, e defender nosso território, nossas riquezas e nosso povo.

Míssil tático

Vem mais por aí: recentemente, a Avibras, indústria bélica brasileira com sede em Jacareí (SP), avançou na certificação de um míssil capaz de atingir 300 quilômetros de distância. O MTC (míssil tático de cruzeiro) foi testado pelo Exército e pela empresa na Restinga de Marambaia, no Rio. O armamento integra o sistema de artilharia Astros.

Para o público interno, ontem, entretanto, a imagem mais importante estava na tribuna. Lula trabalhou pessoalmente para ter ao seu lado Edson Fachin, Davi Alcolumbre e Hugo Motta. Em meio à grave crise que atinge o STF, o presidente conseguiu reunir os chefes dos três poderes, algo que não ocorreu no desfile do ano passado, e tentou projetar uma imagem de normalidade e coesão institucional.

A fotografia de união ocorre justamente quando as instituições estão fraturadas. Os ministros do Supremo Alexandre de Moraes e André Mendonça, protagonistas do escândalo da vez, não compareceram. Fachin foi o único magistrado do STF presente.

Outros elementos do desfile ajudaram a ampliar essa narrativa. O governo colocou entre os três eixos oficiais o enfrentamento à violência contra as mulheres e a Copa do Mundo Feminina de 2027, incorporando à celebração militar uma agenda social e feminina. A primeira turma feminina do Exército inaugurou os trabalhos em março de 2026.

No fim, o 7 de Setembro serviu a Lula em três frentes ao mesmo tempo. Para dentro, tentou recuperar símbolos nacionais. Diante da crise institucional, exibiu os chefes dos poderes lado a lado. E, para fora, colocou soldados, equipamentos e autoridades sob uma única palavra: soberania. _

Canal 156 vai ter auxílio de IA

A partir deste mês, de forma escalonada, o canal 156, da prefeitura de Porto Alegre, vai adotar inteligência artificial (IA) para atendimento aos cidadãos.

Todas as demandas que dizem respeito ao município devem ser feitas por meio desse número, tanto por telefone tradicional quanto por Whats­App: água e esgoto (falta de água ou vazamentos), limpeza urbana e recolhimento de lixo, zeladoria urbana (tapa-buracos e poda de árvores), denúncias de poluição sonora e fiscalizações, informações sobre transporte, saúde e impostos.

A ideia é automatizar atendimentos mais simples, agilizar respostas e auxiliar os funcionários em consultas e encaminhamentos.

Importante: o serviço não vai substituir o atendimento humano, que segue responsável pelos casos que exigem análise ou decisão especializada.

Na prática, o cidadão poderá, por exemplo, explicar pelo telefone o que precisa em linguagem natural, sem necessariamente seguir uma sequência de opções (em números).

No WhatsApp, a IA responderá dúvidas, consultará protocolos, realizará agendamentos e executará outros serviços que possam ser automatizados.

Quando for necessária análise especializada, o atendimento será encaminhado para um atendente humano.

Outro avanço: a solução também terá um Copiloto de Atendimento, que auxiliará os profissionais do 156 na busca de informações e na elaboração de respostas, utilizando a base oficial de conhecimento da prefeitura e indicando as fontes consultadas. A expectativa é de que seja reduzido o tempo de consulta dos atendentes e ampliada a padronização das respostas dadas ao cidadão.

Segundo ponto de vantagem: a previsão de um Mapa Inteligente da Cidade, que utilizará os dados dos atendimentos para identificar padrões, recorrências e concentrações das demandas por região, produzindo informações que poderão apoiar a gestão municipal. A ferramenta permitirá transformar reclamações individuais em um retrato mais amplo das necessidades da cidade.

A iniciativa acompanha o crescimento da Central, que já registrou mais de 6 milhões de interações em pouco mais de dois anos e meio, com aproximadamente 77% realizadas pelos canais digitais. O investimento é de R$ 1,9 milhão. _

Facilito, o mascote

No momento em que celebra o novo serviço 156, com uso de IA, a secretária de Transparência e Controladoria de Porto Alegre, Mônica Leal, apresenta o Facilito, o mascote oficial da Central do Cidadão da Capital.

- É um orgulho entregar mais um projeto à frente da secretaria e de uma equipe comprometida com quem vive em Porto Alegre - celebra Mônica. _

A Alemanha se arma

Em meio às tensões com a Rússia e ao distanciamento americano, países europeus correm para adquirir armas de longo alcance. A Alemanha, por exemplo, não dispõe, em seu arsenal, de mísseis balísticos, que voam a velocidades muito superiores às dos mísseis de cruzeiro. Entretanto, nos últimos dias, testou com sucesso um Lora, fabricado pela Israel Aerospace Industries, no Atlântico Norte. _

Recursos para educação

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou operação de R$ 54,8 milhões, com recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), para investimentos em iniciativas para expansão e melhoria da qualidade das redes e dos serviços de telecomunicações em cerca de 60 municípios gaúchos. Uma das iniciativas deve beneficiar cerca de 30 mil alunos de 105 escolas de 34 municípios. Os recursos serão usados para instalar redes internas nesses estabelecimentos.

Outra iniciativa deve conectar oito dessas escolas ainda não atendidas, segundo o Painel Anatel. Localizada em oito municípios, a conexão será possível pela construção de rede de fibra óptica com 184,4 quilômetros. Está prevista, ainda, a manutenção da conectividade por, no mínimo, 24 meses. _

INFORME ESPECIAL

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

07 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

A finitude dos pais

Você luta contra a finitude dos pais. Mesmo sabendo que será derrotado. Quer somente ganhar mais um dia.

Passa a criar motivações para que eles continuem tendo gosto de viver. Para que se identifiquem ativos, compreendidos, admirados, não distanciados do auge de suas carreiras.

Eu busco atuar pelas frestas da saúde emocional, para que não se vejam resolvidos ou com a trajetória encerrada. Evoco constantemente a sua relevância social, a sabedoria que carregam, o que já aprendi com eles, o que os torna insubstituíveis.

Não me desvio da missão de influenciar os seus humores. É oferecer um telefonema longo, uma visita, um almoço, um jantar, um café da tarde, um presentinho inesperado.

Perguntar se estão precisando de algo, solucionar algum problema, lidar com um conserto de casa, solicitar uma receita antiga, simular que você não se lembra do nome de uma cidade, aceitar as manias da velhice, respeitar o quanto são difíceis as tarefas mais banais, o quanto é desafiadora cada pequena variação de hábitos.

Mostrar-se suficientemente perto para ouvir o gemido e o sussurro doce da confidência, e diferenciá-los.

Permitir que participem de suas decisões. Pedir um conselho sobre uma questão de seu cotidiano. Assim se apresentarão úteis e necessários. Não esquecerão que alguém depende do discernimento deles. É o maior incentivo à longevidade: encontrar uma razão para que sigam ocupando o lugar de sempre em nossa existência, com futuro dentro de nossos anseios.

Há quem se apague porque o filho não divide mais a luz de seus dilemas. Não compartilha mais o que anda fazendo. Descarta-se a função primordial da paternidade e da maternidade de orientar.

O filho não dá mais notícias de si. Como se os pais já estivessem mortos há muito tempo. E eles vão morrendo realmente de inanição de importância. Quem tem mais de 40 anos, com pais que ultrapassaram os 70, entenderá o que eu digo.

Recordo que, na minha infância, os meus pais contavam histórias e se dispunham a jogar memória ou damas no momento em que chovia. Era final de semana. Não podíamos sair. Eles me mantinham absorto com truques da imaginação, com o poder acolhedor das fantasias.

É dessa forma que eu me sinto. Só que sou eu que assumo agora a responsabilidade de entreter. Eles são as minhas crianças no quarto fechado, com uma tempestade varrendo as vidraças. Procuro distraí-los com brincadeiras para enganar o espaço apertado, a brevidade. Que não se alertem para a imensa fragilidade humana, sem hora para ser levados.

Faço piadas, cantorias, palhaçadas, roubo risos, com uma alegria exagerada que até contrabalança o meu enorme medo de perdê-los. Pareço forte, mas não sou. Eu finjo imunidade. Eu minto que não vem acontecendo nada de grave, que não há adeus próximo, que não devem temer os relâmpagos.

As mentiras são tudo o que eu tenho. As mentiras são a verdade de meu amor por eles. Enquanto acreditarem em mim, ainda estarão acreditando neles. Eles me mantinham absorto com truques da imaginação, com o poder acolhedor das fantasias

CARPINEJAR

 

07 de Setembro de 2026
CLAUDIA LAITANO

História sem fim

Em setembro de 1997, a Veja publicou uma reportagem que escancarava o óbvio: todo mundo conhece alguém que já fez - ou ainda vai fazer - um aborto. Talvez você ainda lembre da manchete, "Eu fiz aborto", e das imagens de mulheres famosas (Hebe Camargo, Marília Gabriela e Cássia Kiss, entre outras) admitindo terem interrompido gestações não desejadas. Atrizes, cantoras e intelectuais, mas também operárias, domésticas, donas de casa e mães de família narravam à revista suas experiências pessoais, cada uma com sua dose particular de sofrimento, vergonha e alívio.

A reportagem que inspirou a histórica capa da Veja havia sido publicada 25 anos antes, em 1972, na revista Ms., criada e dirigida pela escritora e ativista norte-americana Gloria Steinem. Menos de um ano depois da publicação, a Suprema Corte dos EUA decidiu, por 7 votos a 2, que a Constituição protegia o direito à privacidade, o que incluía a decisão de abortar. Gloria Steinem morreu na semana passada, aos 92 anos, tendo vivido o suficiente para assistir à insólita volta da pasta de dentes para dentro do tubo: em 2022, a mesma Suprema Corte revogou a decisão de 1973.

A causa da liberdade reprodutiva era especialmente cara para Gloria Steinem, uma das figuras mais reconhecidas - e ativas - do feminismo mundial. Em 1969, cobrindo um evento sobre aborto, Steinem experimentou o que ela mesma chamou de "grande estalo" feminista. Ali estavam mulheres que se sentiam envergonhadas por não quererem, ou não poderem, levar uma gravidez adiante. Alguma coisa estava muito errada. 

Ela mesma havia feito um aborto, em 1957, aos 22 anos. O médico que a atendeu pediu duas coisas: que ela não revelasse seu nome e que fizesse o que bem entendesse com sua vida a partir daquele dia. Anos depois, Steinem dedicaria seu livro de memórias, Minha Vida na Estrada (2016), a esse médico sensível e corajoso, acrescentando: "Fiz o melhor que pude".

Não deixa de ser tristemente irônico que Gloria Steinem tenha morrido na semana em que estourou a maior crise da história do STF, a instância que tem atuado como o principal canal de garantia dos direitos reprodutivos assegurados pela Constituição brasileira. Enquanto o Congresso paralisa o debate ou propõe o endurecimento da legislação, o STF tem fundamentado suas decisões em preceitos constitucionais como dignidade humana, laicidade do Estado e direito à saúde.

No Brasil, como nos Estados Unidos, essa história ainda está sendo escrita - por homens e mulheres. Mas sem uma Suprema Corte forte e independente para zelar pela Constituição fica tudo muito mais difícil. 

CLAUDIA LAITANO

07 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER - Henrique Ternus

Estratégias a um mês do primeiro turno

A campanha eleitoral já ingressou no último mês antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Embora as atividades nas ruas e a propaganda em rádio e televisão tenham iniciado há alguns dias, as equipes dos candidatos ao governo do Rio Grande do Sul já preparam a reta final de uma cruzada que teve início ainda em 2025.

Quem mais corre contra o relógio é Gabriel Souza (MDB). Apesar de ter a máquina pública ao seu lado, com realizações do governo Eduardo Leite sendo enaltecidas nas propagandas, Gabriel luta contra o desconhecimento e não consegue decolar nas pesquisas - levantamento AtlasIntel divulgado no dia 3 coloca o vice-governador com 10,4% das intenções de voto, frente a 44,3% de Luciano Zucco (PL) e 37,5% de Juliana Brizola (PDT).

Mesmo assim, a equipe de Gabriel confia no trabalho que está sendo feito e manterá a estratégia adotada, com foco em mostrar que o emedebista é o candidato mais preparado para enfrentar as dificuldades do Estado e manter as realizações.

Dividindo a liderança de praticamente todas as pesquisas até aqui, Zucco e Juliana têm situação mais confortável e apostam em uma nova fase da campanha. A equipe do candidato do PL avalia que deram certo as investidas para apresentar Zucco como um político afastado do radicalismo, apesar da ligação com a família Bolsonaro. A partir de agora, a exposição de propostas será intensificada, com foco total em crescimento econômico.

Pelo lado de Juliana, o entendimento é de que a campanha está no caminho certo, já que, com metade do tempo de Zucco na propaganda eleitoral, os dois continuam muito próximos nas pesquisas. Assim como o adversário, a pedetista dá início a uma etapa de exposição dos programas e ações que planeja executar a partir de janeiro, e a chapa aposta em um maior acirramento e mobilizações de rua intensificadas a partir de 20 de setembro.

Aposta no crescimento

Mesmo com menos tempo de comerciais e recursos, Marcelo Maranata (PSDB) tem feito uma campanha focada no contato com as pessoas. Apesar de ter pontuado 2,3% na AtlasIntel, a equipe tucana relata que tem observado maior reconhecimento do público, e segue a aposta em aparecer em comerciais, debates e painéis para cativar o eleitor. _

Vereador reivindica vaga na Assembleia

O vereador de Porto Alegre Jessé Sangalli (PL) reivindica na Justiça a cadeira que pertencia a Valdir Bonatto (PSD) na Assembleia Legislativa.

Com a perda do mandato de Bonatto, o TRE-RS determinou que Zilá Breitenbach (PSDB), segunda suplente, assumisse o cargo, por entender que a cadeira pertence à federação e não poderia ser repassada para outra legenda.

Jessé concorreu pelo Cidadania e ficou com a primeira suplência, mas migrou para o PL, partido pelo qual foi eleito vereador. _

A pesquisa AtlasIntel entrevistou 1.783 pessoas pela internet, entre 27 de agosto e 1º de setembro. O nível de confiança é de 95% e a margem de erro é de dois pontos percentuais. O levantamento foi contratado pelo próprio instituto, sob o registro no TSE: RS-00652/2026.

Caiado aproveita visita à Expointer para fazer compras

O candidato à Presidência pelo PSD, Ronaldo Caiado, não saiu de mãos abanando da Expointer. Criador de cavalo crioulo, aproveitou a visita à feira no sábado para comprar direto de um artesão um conjunto de montaria completo, incluindo testeira, freio, rédea, buçal e peiteira.

Assim como Flávio Bolsonaro (PL), Caiado também recebeu o afago de líderes do agro durante almoço promovido pela Farsul com entidades regionais.

Acompanhado de Gabriel Souza (MDB) e Ernani Polo (PSD), que integram a chapa governista ao Piratini, Caiado caminhou pela feira e visitou o pavilhão da agricultura familiar, onde provou de tudo um pouco e ganhou uma chimia de presente de Gabriel.

Questionado pela imprensa sobre o caso do Banco Master, defendeu a quebra dos sigilos de "todos os escândalos". Manuela e Pimenta denunciam vandalismo em windbanners

Os candidatos ao Senado Manuela D?Ávila (PSOL) e Paulo Pimenta (PT) denunciaram que seus windbanners foram vandalizados. Nas redes sociais, expuseram fotos dos materiais de campanha cortados ao meio - as peças de outros candidatos posicionadas ao lado não apresentavam avarias.

As campanhas anunciaram que vão solicitar acesso às câmeras de segurança da prefeitura de Porto Alegre do entorno das regiões onde ocorreram os casos de depredação para identificar quem foram os responsáveis.

Ontem pela manhã, voluntários dos dois candidatos se reuniram na Redenção para um mutirão de costura dos materiais danificados, que continuarão nas ruas após o reparo. 

POLÍTICA E PODER

07 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

As contradições da extrema direita

A Saxonia-Anhalt, terra de Martinho Lutero, centro do Bauhaus e das bruxas de Hartz, tornou-se, ontem, um Estado conhecido, mundialmente, pela possibilidade de vitória de um candidato de extrema direita, quase um século depois da ascensão do nazismo. Ulrich Siegmund, da Alternativa para Alemanha (AfD), partido que já é a segunda maior força política do país, pode chegar ao poder, embora a maioria no parlamento local ainda seja incerta. 

Sem comícios gigantescos, apenas a bordo de uma motocicleta Samsun, o candidato defende a deportação em massa de imigrantes ilegais, serviço de saúde livre de estrangeiros e a descrição de família como apenas formada por "homens e mulheres".

Saxônia-Anhalt explica muito sobre memória seletiva. Do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, à reunificação alemã (1990), Saxônia-Anhalt pertencia à antiga Alemanha Oriental (sob governo da URSS). Siegmund fez campanha resgatando essa identidade, por meio de símbolos, memórias afetivas e características associadas à antiga RDA.

Mas ora... esse país de volta seria a Alemanha Oriental? O comunismo? Como isso pode estar associado a uma ideologia de extrema direta?

Daí a contradição. A AfD não está defendendo o marxismo, a economia planificada ou a propriedade estatal dos meios de produção. Ela é fortemente anticomunista. Mas o que interessa é a imagem idealizada de ordem, segurança, comunidade, identidade local e proteção em relação ao mundo exterior. 

O regime comunista que desapareceu com a unificação alemã abriu espaço para a desindustrialização e transformações econômicas e demográficas nas regiões da antiga Alemanha Oriental. O sentimento, em parte, é de que as decisões passaram a ser tomadas pelas elites. No país, por Berlim. Na União Europeia, por Bruxelas.

Daí, a ideologia de prateleira. A AfD retira da memória aquilo que lhe interessa e pega aquilo que é compatível com seu interesse: o Estado forte, fronteiras controladas e até relação histórica com a Rússia. Estou falando da Alemanha, mas poderia ser de qualquer região do Ocidente, entre Washington e Brasília. _

Entrevista

Irmão Peter Carroll

Superior-geral dos Irmãos Maristas

"Educação não é um luxo em que se possa investir após todos os problemas"

A educação não é um luxo em que as sociedades possam investir depois de resolvidos todos os demais problemas. Ela é uma das formas mais importantes de enfrentar esses mesmos problemas. Educação de qualidade contribui para o desenvolvimento humano, a coesão social, a saúde pública, as oportunidades econômicas e a cidadania ativa. Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer as realidades difíceis enfrentadas por muitos países e comunidades. 

Governos, famílias e instituições com frequência precisam tomar decisões muito difíceis a respeito de recursos limitados. Como rede educacional internacional, nós, maristas, temos constatado que, mesmo em contextos de pobreza e desigualdade, o investimento em educação pode ter um efeito transformador, sobretudo quando dirigido aos mais vulneráveis.

A IA apresenta oportunidades notáveis e desafios significativos. Como qualquer tecnologia, seu valor depende do modo como é usada e das finalidades humanas a que serve. Da perspectiva marista, a IA deve apoiar a educação, e não substituir as relações humanas essenciais que estão em seu centro. Educar é mais do que transmitir informação. 

Envolve acompanhamento, pensamento crítico, formação ética, desenvolvimento emocional e cultivo de virtudes e valores. Essas continuam sendo tarefas humanas. Por isso, estamos incentivando nossas comunidades educativas a se relacionarem de forma cautelosa com a IA, ajudando os estudantes a aprender a usar essas ferramentas com responsabilidade, ética e senso crítico.

Os desafios impostos pela distração digital estão sendo vividos por escolas do mundo inteiro. Sei que o governo brasileiro aprovou leis restringindo o uso de celulares pelos estudantes nas escolas. Contudo, outras questões sobre políticas de uso de celular são mais bem decididas por quem está mais próximo da realidade educacional, ou seja, os gestores escolares locais, as autoridades educacionais, os professores e as famílias. 

Eu não pretenderia julgar o que é mais apropriado para cada contexto. De todo modo, em meu próprio país, a Austrália, alguns governos estaduais também proibiram o uso de celulares pelos estudantes nas escolas. Nosso governo nacional foi também o primeiro, creio eu, a impor restrições de acesso às redes sociais para menores de 16 anos. Ao que tudo indica, os pais apoiam essas medidas. O que parece claro, no entanto, é que os estudantes precisam de ambientes que favoreçam a concentração, a reflexão, o diálogo e uma aprendizagem significativa. Se determinadas medidas ajudam a criar essas condições, elas merecem consideração cuidadosa. 

Ao mesmo tempo, a educação também deve ajudar os jovens a aprender a usar a tecnologia com responsabilidade, já que as ferramentas digitais continuarão sendo parte importante de suas vidas. O objetivo final não é simplesmente restringir a tecnologia, mas ajudar os jovens a desenvolver a maturidade e a autodisciplina para usá-la com sabedoria.

Estou nessa função há menos de um ano, de modo que meu principal objetivo era encontrar pessoas, escutar e aprender. É também expressar minha gratidão às lideranças do instituto, pelo trabalho notável que a missão marista vem realizando. Visitas como essa me permitem encontrar irmãos, leigos maristas, educadores, estudantes, dirigentes universitários e tantos outros que contribuem para a vida e a missão do instituto. 

Fiquei especialmente animado com o compromisso com a qualidade educacional, a responsabilidade social e a inovação que observei em diversas instituições maristas. Também me impressionou a forte integração dos valores maristas às iniciativas educacionais e sociais. Como líder internacional, hesito em colocar uma região acima de outra. Cada região do Brasil contribui de modo importante para a vida e o desenvolvimento do país. 

Não há dúvida, porém, de que o RS tem uma história distinta, instituições educacionais fortes e uma contribuição cultural e econômica significativa para o país. Dentro do mundo marista, a região também desempenhou papel importante no desenvolvimento de iniciativas educacionais, sociais e universitárias cuja influência ultrapassou largamente suas fronteiras. _

TJRS e artistas contra o feminicídio

INFORME ESPECIAL