quinta-feira, 5 de novembro de 2026

05 de Novembro de 2026
CARPINEJAR

Quando meu eu antigo me pagava um cafezinho

Nunca mais me aconteceu esta alegria. Até porque dificilmente carrego dinheiro vivo comigo. Não tenho mais carteira. É tudo no celular, digital e indolor. Mas eu vibrava na minha juventude ao encontrar uma nota esquecida nos bolsos das roupas. Tão bom quanto o nosso time conseguir um golzinho de vitória nos acréscimos.

Quando chegava o frio e você tirava o casaco do fundo do armário, podia reaver um dinheirinho redentor. O que corresponderia hoje a dez reais, cinquenta reais, cem reais. Você se sentia rico de si mesmo. No roupeiro, havia a poupança dos distraídos. 

Mantínhamos o costume de ensacar os capotes e só os baixávamos para os cabides na mudança da estação. Congelávamos o troco e depois o descongelávamos para o nosso contentamento. Pois nem nos lembrávamos de ter deixado dinheiro ali.

Nossa versão anterior nos conferia uma mesada. Nosso eu antigo, de outro inverno, legava uma mensagem, uma gentileza, para nosso eu do momento. Nosso passado recente pagava nosso café, nosso pastel, nosso ônibus, nosso bilhete de cinema.

E sempre vinha a pequena quantia quando você se mostrava duro. Unicamente aqueles que se percebiam lisos, na pindaíba, mexiam pelos zíperes, vasculhavam os compartimentos e investigavam os forros de suas vestes.

A sorte azarada era quando a herança súbita se resumia a cifras em desuso, a bufunfa que tinha saído de circulação e se tornado papel velho. Você aparecia atrasado para o prêmio.

Apenas durante o governo de José Sarney (1985-1990), a moeda foi alterada duas vezes: para cruzado (Cz$), substituindo o cruzeiro com o corte de três zeros; em seguida, para cruzado novo (NCz$), suplantando o cruzado também com a supressão de três zeros.

Num período curto de três anos, as ressurreições renderam tristezas, com a possibilidade de localizar uma fortuna dilapidada pela inflação. O consumidor virava colecionador.

Na infância, eu catava centavos; na adolescência, aumentei a ambição cultural para arrecadar Florianos Peixoto, Princesas Isabéis, Deodoros da Fonseca, Ruys Barbosa, Oswaldos Cruz extraviados pelos cantos.

As maiores descobertas se davam diante da máquina de lavar, esse cofre dos desavisados. O dinheiro acabava lavado honestamente. Esperava-se que secasse no varal ao lado das roupas íntimas. Anotavam-se recados no numerário - espécie de mural da época, de telefone sem fio -, e o azul da caneta se espalhava na efígie.

Tanto que minha atividade doméstica predileta consistia em lavar a roupa da família. Para o espanto de todos, eu me voluntariava no fim da noite. A mãe se surpreendia com meus dotes.

- O Fabrício é o mais prendado dos filhos. Mal sabia a inocente. A generosidade escondia um interesse por trás. Quem cuidava do cesto e desvirava as peças que estavam do avesso desfrutava do bônus de revistar as sobras e recolher um troco anônimo, que ficava sem dono.

O que é achado em casa não é roubado. Regra que vale exclusivamente dentro de casa. _

CARPINEJAR

PEC da Segurança tem agora que sair do papel

A nova configuração do crime organizado, que passou a atuar de forma capilarizada em todo o país, com métodos sofisticados e se imiscuindo em instituições e na economia formal, há muito exigia maior protagonismo do governo federal. Esse papel central de coordenação das ações com os demais entes federados passa a ser possível com a aprovação da PEC da Segurança Pública, na terça-feira, no Senado. A Câmara chancelou o texto em março deste ano. Trata-se, sem dúvida, de um avanço, mas ainda é significativo o desafio de tirá-lo do campo das boas intenções.

A PEC inscreve na Constituição o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP). Deve funcionar de forma semelhante ao SUS, na saúde, com responsabilidades compartilhadas entre a União, os Estados e os municípios. O governo federal ganha a função de formular uma política nacional de segurança. 

A Polícia Federal (PF) terá atribuições ampliadas, como a investigação de crimes com repercussão interestadual. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) também passa a atuar em ferrovias e hidrovias. Os municípios poderão criar polícias próprias, voltadas ao patrulhamento ostensivo e comunitário. Todos esses órgãos, inclusive os estaduais, devem cooperar entre si.

O texto aprovado cria ainda um regime penal especial mais rigoroso para integrantes e lideranças de facções e milícias. Os chefes deverão cumprir penas em estabelecimentos de segurança máxima. As chamadas saidinhas ficam mais restritas ou proibidas.

Nota-se que são mudanças significativas. O próximo passo tem de ser a criação do Ministério da Segurança Pública, prometido pelo presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva. É preciso uma pasta especializada que tenha a competência de liderar as ações, coordene o encaminhamento das novas leis e regulamentações que serão necessárias e articule também politicamente a integração entre a União, os Estados e os municípios.

O nome escolhido para capitanear esse ministério deve ter capacidade técnica reconhecida, ser experimentado no combate ao crime organizado e não ter vínculos partidários. O ideal é não politizar a área. O mais cotado é o promotor paulista Lincoln Gakiya, considerado o maior conhecedor do PCC no país. Seria uma boa escolha.

Há outras questões que esperam respostas. Uma delas diz respeito ao financiamento dessas políticas. Entre as fontes de recursos previstos estavam os tributos das bets, que foram proibidas em setembro por medida provisória (MP). As regras para as polícias municipais também precisam de detalhamento. Não se sabe, por exemplo, que tipos de armas poderão usar. Em relação à integração entre órgãos de segurança, seguem vagos pontos como quais informações poderão ser compartilhadas e como ocorrerá a compatibilização dos sistemas.

Apesar de a aprovação da PEC ser um passo na direção correta para um enfrentamento mais efetivo da criminalidade, a caminhada será longa e os seus efeitos não serão sentidos de forma imediata pela população. Pesquisas recentes de diferentes institutos demonstraram que a violência é a principal preocupação dos brasileiros. O dever do governo federal e das demais autoridades é dedicar empenho máximo para implementar as medidas previstas o mais rápido possível. _

OPINIÃO RBS

05 de Novembro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Aliado de Zucco prevê atraso no pagamento de salários

O deputado estadual e deputado federal eleito Gustavo Victorino (Republicanos), aliado do governador eleito Luciano Zucco (PL), projetou ontem que o Rio Grande do Sul voltará a viver tempos sem dinheiro em caixa para pagar os salários dos servidores estaduais a partir do primeiro semestre de 2027. Victorino disse que, se nada de diferente acontecer, o Estado voltará a pagar a dívida com a União e faltarão recursos para quitar mensalmente os vencimentos do funcionalismo.

- Alguém tem que dizer a verdade, e a verdade é que o Rio Grande do Sul é um Estado pré-falimentar. Anotem: se nada acontecer, ainda no primeiro semestre (de 2027) vai faltar dinheiro para os salários (dos servidores). Alguém tem que dizer isso! Cabe a nós lutar em Brasília para que a gente tente mudar esse cenário - disse, durante o evento Tá na Mesa, promovido pela Federasul, em Porto Alegre.

No mesmo palco da Federasul, o governador Eduardo Leite fez um alerta semelhante em 2024. Antes da enchente que devastou o Rio Grande do Sul e que garantiu a suspensão do pagamento da dívida por três anos, além de aportes milionários do governo federal, Leite mostrou aos empresários uma radiografia das contas públicas, destacando a situação em que recebeu o Estado em 2019, as reformas feitas e o cenário sombrio que vislumbrava no horizonte.

O governador não disse que haveria atraso nos salários nem no pagamento de fornecedores no futuro. No slide em que resumiu a situação, mostrou um quadro com dados de dezembro de 2018 comparados a dezembro de 2023 e uma terceira coluna com a projeção para dali a cinco anos. O que Leite queria com essa apresentação era mostrar aos empresários que a oposição ao aumento da alíquota de ICMS (uma bandeira da Federasul) teria custo alto no futuro.

Projeção preocupante

O quadro mostrava que, no final de 2018, a dívida com a União estava suspensa por uma liminar do Supremo Tribunal Federal, o Estado pagava em média R$ 494,7 milhões em precatórios e computava o pagamento dos professores aposentados nos 25% da receita líquida que a Constituição manda aplicar em educação. Os salários dos servidores estavam com 30 dias de atraso e o 13º tinha sido parcelado, somando R$ 2,6 bilhões. Aos fornecedores, o Estado devia R$ 1,778 bilhão.

No lado da receita, a alíquota básica do ICMS era de 18%; combustíveis, energia e telecomunicações pagavam 30%; compras internas, 18%; e Difal (diferencial de alíquota), 6%. Ao final de 2023, a alíquota básica do ICMS caíra para 17%, a das compras internas para 12% e Difal não existia mais.

As despesas continuaram subindo.

O Estado retomou o pagamento da dívida (R$ 2 bilhões/ano), pela adesão ao regime de recuperação fiscal, pagou R$ 1,1 bilhão em precatórios (média de 2019 a 2023) e seguiu computando os aposentados nos 25% da educação. Nesse período, Leite colocou os salários em dia, deu 6% de reajuste geral para os servidores, pagou a correção do piso aos professores, ampliou os investimentos em estradas para R$ 944 milhões/ano, quitou a dívida com fornecedores e repôs servidores efetivos que se aposentaram. _

O orçamento de 2027 será apresentado nos detalhes amanhã, na Assembleia Legislativa. É aconselhável que os deputados da base do futuro governo Zucco acompanhem, para ninguém dizer que foi surpreendido pela crise fiscal.

Pontos de interrogação

O material apresentado aos empresários em 2024 pelo governador Eduardo Leite exibia a coluna "em cinco anos", com quatro pontos de interrogação que conversam com os alertas feitos aos candidatos durante a campanha de que não teriam como cumprir promessas mirabolantes. Esses pontos de interrogação se referem a pagamento em dia de servidores, investimentos em estradas, dívidas com fornecedores e receita de impostos.

De 2024 para cá, o que mudou? Com a enchente, o Estado conseguiu suspender a dívida por três anos, mas teve de depositar o dinheiro em um fundo, o Funrigs, para obras e ações de reconstrução e resiliência. Outros R$ 6,5 bilhões foram liberados pelo governo federal para obras de prevenção às cheias. Em 2027, o pagamento da dívida terá de ser retomado. _

PL lança Marinho à presidência do Senado

A bancada do PL no Senado Federal lançou ontem a candidatura de Rogério Marinho, líder da oposição e coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro nas eleições de 2026, para a presidência da Casa. A disputa deve ocorrer em 1° de janeiro de 2027. Com os resultados das eleições de 2026, o PL formará maioria na próxima legislatura, ocupando 28 das 81 cadeiras do Senado. O Partido Novo, com três senadores eleitos, também apoia Marinho para a presidência. O candidato do PL terá de enfrentar o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e a senadora Tereza Cristina (PP-MS). _

Kelly Moraes será presidente da Assembleia em 2027

Kelly Moraes foi escolhida pela bancada do PL para presidir a Assembleia Legislativa em 2027. O partido será o primeiro a comandar a Casa, segundo o acordo de rodízio firmado entre as quatro maiores bancadas. A decisão foi tomada ontem em reunião entre os 12 eleitos do PL, acompanhados de Leandro Sonne e Rossano Gonçalves, que comandarão a Casa Civil de Zucco. Kelly será a segunda presidente mulher da história da Casa. A primeira foi Silvana Covatti, eleita vice-governadora. _

Delgado Neto entra para a galeria de ex-presidentes do TJ

Na presença do governador Eduardo Leite, o presidente do Tribunal de Justiça, Eduardo Uhlein, descerrou ontem a foto do antecessor, desembargador Alberto Delgado Neto (na foto, ao centro), que agora faz parte da galeria de ex-presidentes da corte. Uhlein destacou realizações de Delgado Neto. Lembrou da atuação do ex-presidente durante a enchente de 2024 e da mobilização para liberar R$ 200 milhões para 95 cidades. _

A respeito das raras sessões de votação na Assembleia, o líder da bancada do PT, deputado Miguel Rossetto, ressaltou à coluna que compareceu a todas as reuniões de liderança. Ele reforçou que a retirada de quórum é por parte da base do governador eleito Zucco.

POLÍTICA E PODER

05 de Novembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

O fim da era Trump

4 de novembro de 2026. Anote esta data: é o começo do fim da Era Donald Trump.

Por vários motivos. A Constituição dos Estados Unidos permite que uma pessoa seja eleita presidente, no máximo, duas vezes, mesmo que os mandatos não sejam consecutivos. Essa regra está na 22ª Emenda à Constituição, ratificada em 27 de fevereiro de 1951.

Trump foi eleito em 2016 e novamente em 2024. Portanto, seu segundo mandato termina em 20 de janeiro de 2029, e ele não pode ser eleito para um terceiro mandato em 2028, segundo a Constituição vigente. Para permitir uma terceira eleição, seria necessário alterar a Constituição, um processo que exige aprovação de dois terços da Câmara e do Senado e ratificação de três quartos dos Estados (38 dos 50), algo que ele não vai conseguir a partir da derrota histórica que sofreu nas midterms.

Outra razão: Trump chegou às eleições de meio de mandato com um recorde histórico de desaprovação (apenas 36% aprovam seu mandato). A derrota avassaladora fará com que muitos republicanos, de olho nas eleições presidenciais de 2028, se afastem do presidente. Trump deixa de ser visto apenas como um líder capaz de mobilizar eleitores e passa a ser associado também a derrotas eleitorais.

Tomar distância

Durante anos, o apoio de Trump foi decisivo para muitos republicanos, especialmente nas eleições primárias. Mas, se os candidatos associados a ele são derrotados, cresce o incentivo para buscar uma identidade política própria, capaz de conquistar eleitores independentes e moderados. Como Trump não poderá ser eleito novamente, os republicanos precisam construir novas lideranças para 2028. Isso significa que políticos com ambições presidenciais podem começar a se diferenciar de suas políticas, principalmente nas áreas que provocaram rejeição eleitoral.

Com a maioria democrata, o presidente terá menos capacidade de aprovar sua agenda legislativa. Isso pode estimular parlamentares republicanos a negociar posições próprias, principalmente em temas como economia, tarifas e política externa.

Agora, o fim de Trump não é o fim do trumpismo. Vários disputarão seu espólio. O vice-presidente JD Vance está fortemente associado ao presidente, enquanto nomes como Marco Rubio, Ted Cruz e Ron DeSantis representam diferentes possibilidades de continuidade ou reformulação do conservadorismo republicano. A derrota vai abrir essa disputa interna.

Voltemos a Trump. Ainda que os democratas não tenham dois terços dos votos no Senado para aprovar um impeachment, as comissões nas duas Casas podem abrir várias investigações sobre seu governo até agora - sobre a truculência do ICE, a polícia migratória, sobre denúncias de corrupção envolvendo sua família, corporações empresariais e governos, interferência em eleições no Exterior, como no Brasil, intervenções militares, como na Venezuela e no Irã, entre outras. Isso não tirará Trump do poder, mas fará seu governo sangrar até janeiro de 2029. _

Campanha de descarte

Se você tem celulares antigos, computadores sem uso, cabos velhos ou outros equipamentos eletrônicos guardados em casa, anote na agenda: no próximo sábado, haverá uma oportunidade para dar a esses materiais o destino correto.

O Parcão, em Porto Alegre, receberá o drive-thru de resíduos eletrônicos. A ação é desenvolvida pela RS Recicla, empresa especializada na gestão desses resíduos, acompanhada de atividades gratuitas que unem sustentabilidade e conscientização ambiental. A programação ocorre das 9h às 17h, no recuo do estacionamento localizado na esquina da Rua Mostardeiro e da Avenida Goethe.

Parceria

A empresa é parceira na organização do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) e da Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (ABREE), promotores do evento.

Os equipamentos serão encaminhados para triagem e destinação ambientalmente adequada.

Outra atração serão robôs da RS Recicla, construídos a partir de materiais eletroeletrônicos recolhidos pela empresa e que, depois de devidamente tratados, foram reaproveitados. _

Personagens de destaque

Apesar de a apuração das midterms - as eleições de meio de mandato dos EUA - ainda estar em andamento, algumas curiosidades e os nomes de parlamentares eleitos já chamam a atenção dos americanos e do mundo. A coluna reúne, abaixo, alguns dos pontos de destaque:

Primeira governadora negra

No Estado da Geórgia, a democrata Keisha Lance Bottoms será a primeira mulher negra governadora da história dos Estados Unidos. Desde 1998 os democratas não venciam o governo do Estado, conhecido por ser um reduto republicano. Ex-prefeita de Atlanta, Bottoms venceu o bilionário executivo da área da saúde Rick Jackson.

Primeiro senador gay

O democrata Chris Pappas venceu as eleições e vai ocupar uma cadeira no Senado por New Hampshire. Ele será o primeiro homem abertamente gay a ocupar o cargo na ala masculina do Senado (anteriormente, outras parlamentares abertamente LGBT+ ocuparam cadeiras, porém todas mulheres). Ele derrotou o republicano John Sununu.

Primeira governadora indígena

A democrata Deb Haaland foi eleita a primeira governadora indígena da história dos EUA ao conquistar o governo do Novo México. Integrante do povo Laguna Pueblo, Haaland superou o candidato republicano Gregg Hull.

Primeira senadora indígena

A democrata Peggy Flanagan tornou-se a primeira senadora indígena da história do país. Ela ocupará a cadeira no Senado pelo Minnesota após derrotar a republicana Michele Tafoya. Flanagan é atual vice-governadora do Estado e integrante da Nação White Earth Ojibwe.

Primeiro senador muçulmano

Abdul El-Sayed tornou-se o primeiro muçulmano eleito para o Senado dos Estados Unidos pelo Estado do Michigan. Nascido nos arredores de Detroit, é filho de egípcios e integra a ala progressista do Partido Democrata.

Brasileiros eleitos

Ao menos sete brasileiros se elegeram ou se reelegeram para Legislativos estaduais. Um dos destaques, Felipe Sousa-Lazaballet, de Duque de Caxias (RJ), foi eleito deputado estadual pelo Partido Democrata na Flórida.

Papa no Brasil em 2027?

O papa Leão XIV inicia, na sexta-feira, a sua viagem apostólica pela América do Sul, onde passará por Uruguai, Argentina e Peru. Havia a expectativa de que o Pontífice visitasse o Brasil, fato que não se concretizou. Entretanto, há um convite para que o líder da Igreja Católica venha ao país em setembro do próximo ano.

A informação foi dada à coluna durante o Conversas Cruzadas de terça-feira pelo arcebispo metropolitano de Porto Alegre e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Jaime Spengler:

- Existe, sim, o convite que nós apresentamos na última visita da presidência da Conferência para ele vir ao Brasil em setembro do próximo ano, quando teremos um evento da Igreja Católica do Brasil em Goiânia (19º Congresso Eucarístico Nacional). Nós o convidamos para o encerramento deste evento.

Segundo o cardeal, a ideia é de que, além da agenda em Goiás, seja organizado um roteiro por outras cidades do país. Porto Alegre estaria fora da rota. 

INFORME ESPECIAL

quarta-feira, 4 de novembro de 2026



04 de Novembro de 2026
MÁRIO CORSO

Terceirização cognitiva

Minha bisavó não sabia o que era academia. Ela caminhava até o armazém, carregava as compras na sacola de pano. Depois cozinhava durante horas, varria o chão, lavava roupa no tanque, torcia lençol no varal, rachava lenha, subia escada. A vida era o treino. Ninguém pagava mensalidade para malhar, o suor vinha embutido no dia, como o café vem com leite.

Depois vieram o elevador, o carro, a máquina de lavar, o controle remoto. O corpo foi ficando cada vez menos exigido. E aí, num movimento curioso, inventamos a academia: um lugar para onde a gente vai fazer força, e paga, pelo que antes a vida exigia de graça. Corremos na esteira sem sair do lugar, levantamos peso para nada, subimos escada que não leva a andar nenhum. A academia é a simulação do cotidiano que perdemos, um parque temático do esforço.

Agora olho para o outro lado e vejo o mesmo filme passando, só que na cabeça. A calculadora chegou e paramos de fazer contas. O cartão de crédito chegou e ninguém mais precisa calcular troco. Antes isso era reflexo, hoje nem lembramos que fazíamos. O GPS chegou e desaprendemos o caminho. O corretor ortográfico chegou e esquecemos como se escreve "exceção". O telefone guarda os números que a memória guardava. Se isso já era preocupante, eis que agora chegou a inteligência artificial, fazendo mil coisas que antes pediam que a gente pensasse: resumir, traduzir, calcular, organizar, lembrar, redigir.

E aí uma pergunta que se impõe: qual vai ser a palavra para sedentarismo mental? Nomeamos o corpo sedentário através do latim: sedere, sentar. Mas o "sentar" da cabeça ainda não tem nome. E qual será a academia do cérebro? Vamos fazer palavras-cruzadas como quem corre na esteira? Vamos fazer sudoku como quem levanta haltere?

Só que a esteira não devolve a caminhada. Simula. E simulação tem seu valor, mas não é a mesma coisa que a vida pedindo esforço de nós sem aviso. O cérebro que fazia conta de troco no balcão não precisava de app. O esforço era parte do dia, não uma sessão marcada.

E a principal pergunta: qual é o preço que pagamos pela "terceirização cognitiva"? Com o cérebro, o risco é maior do que com o corpo. O sedentarismo é visível, a atrofia mental não. _

MÁRIO CORSO

04 de Novembro de 2026
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

A missão contínua de avançar na educação

É unânime que, para ter um futuro mais próspero, o Rio Grande do Sul precisa evoluir na qualidade da educação pública e ter melhores índices de aprendizagem. Trata-se de um desafio contínuo, que a partir de janeiro será uma das tarefas prioritárias do governo Luciano Zucco (PL).

Os esforços nesse sentido sofreram os reveses recentes da pandemia e da enchente de 2024. Ainda assim, alguns avanços passaram a ser percebidos, como os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025, divulgado em agosto. O desempenho cresceu em todas as etapas de ensino em relação a 2023. O governo Eduardo Leite, com a pasta da Educação sob o comando da secretária Raquel Teixeira, formatou uma série de programas que deixam bases sólidas sobre as quais será possível obter melhores desempenhos nos próximos anos.

Mas é natural e legítimo que a nova gestão imprima sua marca. Ao longo da campanha, Zucco se posicionou de forma clara, por exemplo, contra o modelo de progressão parcial, em que o aluno passa de série mesmo reprovado em parte das disciplinas, precisando reforçar o estudo nessas áreas no ano seguinte. Os defensores da fórmula alegam que ela evita o pior, que seria a evasão escolar.

Em entrevista ontem ao Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, o futuro secretário da Educação, Roni Miranda Vieira, demonstrou ser favorável a um sistema intermediário entre o que está em vigor no Estado e o método tradicional de reprovação. A ideia é reforçar a aprendizagem nas áreas de maior deficiência do aluno ao longo do próprio ano letivo, com base nas avaliações trimestrais. Assim, se evitaria um vácuo de aprendizagem. Esse reforço ajudaria na aprovação e, ao mesmo tempo, diminuiria o risco de evasão.

O modelo defendido por Vieira é o utilizado no Paraná, onde foi secretário nos últimos quatro anos. Convém referir os resultados obtidos pelos paranaenses na área. No Ideb de 2025, o Estado foi, pela terceira edição consecutiva, líder nacional da Educação Básica. Também alcançou a primeira colocação entre as unidades da federação no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2025. Os dados foram divulgados em setembro.

Na entrevista, Vieira também abordou a questão das escolas cívico-militares. Observou que a adoção do modelo dependerá exclusivamente da vontade da comunidade escolar. Propôs fortalecer o ensino técnico no turno integral do Ensino Médio, com currículos ligados às vocações econômicas regionais. Comprometeu-se a trabalhar o tema do combate à violência contra a mulher nas escolas. Defendeu ainda que as instituições de ensino e as direções tenham maior autonomia para contratar obras. Nesse ponto também há discordância em relação à diretriz do governo Leite, que delegou as tarefas de melhoria da infraestrutura da rede à Secretaria de Obras, pela maior especialização.

Mesmo expressando pontos de vista que podem despertar controvérsia, o futuro secretário deixa a impressão de ser um gestor público aberto ao diálogo e à conciliação. Além disso, traz as credenciais dos resultados conquistados no Paraná, o que cria a expectativa de a educação no RS também alcançar, nos próximos anos, uma performance à altura das necessidades do Estado. 


04 DE NOVEMBRO DE 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

O que Eduardo Leite fará ao deixar o governo em 2027

Sondado por empresas de diferentes setores para trabalhar a partir de 6 de janeiro de 2027, quando transferir o governo para Luciano Zucco, o governador Eduardo Leite decidiu fazer uma espécie de quarentena antes de aceitar qualquer oferta de emprego na iniciativa privada. Quarentena não significa dias de sol e mar, nem de viagens pelo mundo. O plano de Leite é fazer uma escala no terceiro setor, ajudando governos estaduais e municipais com sua experiência de oito anos no Palácio Piratini.

Leite não tem nada fechado, mas está disposto a compartilhar o que aprendeu na gestão das crises que enfrentou, como a enchente de 2024 e a pandemia de 2020 a 2022.

- Não acho correto estar no cargo de governador e negociar salário, bônus ou condições de trabalho - disse Leite à coluna ontem.

Aos 41 anos, sempre atuando na política, como vereador, prefeito de Pelotas e duas vezes governador, Leite precisa trabalhar para se sentir produtivo e porque precisa de salário para viver. Ele é o primeiro governador que não receberá pensão ao final do mandato e não acumulou patrimônio que lhe permita viver de renda.

Tudo o que tem é a metade de dois imóveis em São Paulo, um apartamento e um consultório ainda em construção, comprados em sociedade com o ex-marido Thalis Bolzan - os dois ainda não formalizaram a partilha. A ideia é se transferir para São Paulo, mas manter uma base em Porto Alegre.

Leite não tem sequer um plano de previdência privada. A ideia é começar a contribuir a partir do próximo ano, para não depender exclusivamente da aposentadoria do INSS na velhice.

Engana-se quem pensa que a política saiu do radar do governador. Leite é apaixonado por gestão pública e está convencido de que ficar quatro anos afastado de cargos não o impede de estar em futuras disputas, até porque é jovem o suficiente para disputar meia dúzia de eleições. O desejo de disputar a Presidência da República não morreu com a exclusão da disputa neste ano, quando foi preterido pelo PSD em favor de Ronaldo Caiado. _

O destino dos quatro cachorros do governador

Uma das perguntas que o governador Eduardo Leite mais ouve sobre sua vida ao deixar o Palácio Piratini é qual será o destino dos quatro cachorros da raça schnauzer que circulam pela ala residencial e pelos jardins. Bento, Chica, Gaia e Moa devem se mudar para São Paulo e, como crianças de pais separados, viver a experiência da guarda compartilhada. Sem a estrutura de funcionários do Piratini e precisando viajar eventualmente, Leite diz que a solução mais provável é dois morarem com ele e dois com Thalis, e os quatro frequentarem a mesma creche para continuarem convivendo. Como Leite e Thalis continuam amigos, a guarda dos cãezinhos não será problema. _

Fux defende, em audiência pública, "banir" bets

Em audiência pública ontem, o ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux afirmou ter a percepção "de que as bets devem ser banidas", reforçando eventuais riscos à saúde pública e à economia. Fux é o relator das ações movidas contra a medida provisória do governo Lula que proibiu as apostas de cota fixa (as bets) e o cassino online.

O ministro rebateu críticas que recebeu por supostamente só ter convidado empresas, clubes de futebol e entidades favoráveis às bets para participar da audiência.

Disse que autorizou mais integrantes do governo e representantes de supermercados, diante das notícias recentes de que o consumo aumentou após a proibição das medidas.

A primeira-dama Janja entregou um relatório sobre o efeito nas mulheres das apostas esportivas.

Fux lembrou de uma audiência pública sobre apostas online que convocou em novembro de 2024, em que ouviu entidades contrárias à jogatina e da qual saiu convencido de que as bets são um problema de saúde pública. _

Só duas sessões

Desde 14 de julho, último encontro antes do recesso parlamentar, os deputados estaduais se reuniram apenas duas vezes no plenário para votar projetos - mas continuaram recebendo os salários normalmente no período. Até o final de outubro, o período eleitoral foi adotado como a principal justificativa para que não houvesse sessões. Houve alguns encontros das comissões temáticas, caso da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), dando andamento à tramitação de pautas.

Logo após o primeiro turno, em 6 de outubro, os líderes se reuniram e decidiram retomar as votações em plenário somente em 27 de outubro, após o segundo turno - o que não ocorreu.

De acordo com o portal da transparência do Estado, R$ 54.922.616,96 foram pagos em folha de pessoal entre agosto e novembro. Os valores são referentes à remuneração de agentes políticos, CCs, funções gratificadas e verba de representação.

O subsídio de deputado estadual no Rio Grande do Sul é de R$ 34.772,11. Além dos 55 parlamentares, a Assembleia tem hoje 1.265 cargos comissionados, lotados entre os gabinetes dos deputados e as bancadas. 

A ex-governadora Yeda Crusius lança amanhã o livro Fios Tecendo Vida - Crônicas de um Cotidiano Entre Séculos, sobre lembranças e experiências pessoais. O evento, com direito a sessão de autógrafos, será na Feira do Livro de Porto Alegre, às 19h.

Pedido de saída

O secretário de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, Fabrício Peruchin, se antecipou ao fim da atual gestão e enviou carta ao governador Eduardo Leite colocando o cargo à disposição.

Resgatando sua trajetória no governo, do qual se diz orgulhoso e grato de ter feito parte, Peruchin diz que chegou ao fim do ciclo e que planeja retornar ao seu escritório de advocacia, que mantém há mais de 20 anos. O secretário ficará no cargo até que Leite defina um novo titular para os últimos dois meses de governo. Em 6 de janeiro, Luciano Zucco tomará posse como governador. _

POLÍTICA E PODER

04 de Novembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

A eleição presidencial nos EUA começa agora

Muita coisa está em jogo nas midterms, as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos: além da maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, o resultado vai colocar à prova o sistema de freios e contrapesos da democracia americana. Sobretudo, é um termômetro fundamental para a disputa presidencial, que ocorrerá em 2028. Na prática, a corrida para a sucessão de Donald Trump começará tão logo estejam consolidados os resultados para o Capitólio.

Como o voto para a Câmara é distrital, cada deputado eleito representa um dos 435 distritos eleitorais do país. São, portanto, 435 cadeiras na Câmara dos Representantes, todas em disputa nesta eleição. Esse voto permite compreender, no detalhe, como estão as preferências - e sobretudo as rejeições do eleitorado.

Os Estados decisivos na eleição presidencial não são necessariamente os mesmos das midterms.

Na eleição para presidente, o foco recai sobre Estados competitivos no Colégio Eleitoral. Nas eleições legislativas, determinados distritos da Câmara podem ser decisivos para definir qual partido terá a maioria, mesmo dentro de Estados tradicionalmente democratas ou republicanos. _

A situação em cinco campos de batalha

Ohio e os data centers

Uma das votações mais interessantes é a de Ohio. Chama a atenção a queda de braço em torno dos data centers, fundamentais para a nova economia, mas que demandam muita energia. No Estado que, no passado, foi conhecido pela indústria pesada (daí sua localização no chamado Cinturão da Ferrugem), a população tem reclamado do preço da energia elétrica. A instalação de data centers cresceu muito graças a incentivos fiscais públicos. Ato contínuo, a conta aumentou.

Disputam a vaga o hoje senador Jon Husted, pelo Partido Republicano, defensor da instalação dos data centers, e o ex-senador Sherrod Brown, do Partido Democrata.

Texas e o fenômeno Talarico

É um tradicional reduto republicano, mas, nos últimos anos, tem se tornado um Estado-pêndulo.

Lá desponta uma das estrelas democratas: James Talarico, pastor presbiteriano visto como possível candidato em 2028. Ele enfrenta o republicano Ken Paxton. O Texas não elege democratas ao Senado desde 1988.

Kansas e a truculência do ICE Kansas não elege um senador democrata desde 1932. Adam Hamilton, também pastor, enfrenta o republicano Roger Marshall. A insatisfação com a economia, a alta nos preços dos combustíveis e as operações truculentas do ICE, a polícia de imigração, pesam contra os republicanos.

Alasca pode virar

Outro Estado tradicionalmente republicano, o Alasca pode virar para o lado democrata. A última vez que os democratas conquistaram uma cadeira no Senado lá foi em 2008. A ex-congressista democrata Mary Peltola enfrenta o senador Dan Sullivan.

Maine e a disputa toss-up

É uma das disputas mais importantes. Susan Collins (republicana) enfrenta Troy Jackson (democrata). Susan busca seu sexto mandato, mas representa um Estado que votou nos democratas nas últimas eleições presidenciais. A disputa é classificada como toss-up, ou seja, sem vantagem clara para nenhum partido.

Os nomes para 2028

As midterms já começam a desenhar quem irá enfrentar a disputa presidencial em 2028.

Democratas

James Talarico - Jovem, religioso e carismático, o ex-professor de escola pública é candidato ao Senado pelo Texas. Notabilizou-se pela defesa do financiamento da educação pública, aumento dos salários dos professores e ampliação do acesso à saúde.

Jon Ossoff - Atua como senador dos EUA pela Geórgia. Ganhou destaque por presidir comissões investigativas no Senado voltadas para o combate à corrupção e à violação de direitos em prisões federais e sistemas de assistência social.

Alexandria Ocasio-Cortez - Deputada federal representando o 14º Distrito de Nova York, tornou-se, em 2018, a mulher mais jovem da história a ser eleita para o Congresso, aos 29 anos. É uma das principais líderes da ala progressista e da esquerda do Partido Democrata.

Pete Buttigieg - Veterano das forças armadas, foi secretário de Transporte do governo de Joe Biden. Antes disso, foi eleito prefeito de sua cidade natal, South Bend (Indiana), com apenas 29 anos. É um democrata de perfil pragmático.

Mark Kelly - Ex-astronauta e ex-piloto militar, atua como senador pelo Arizona. Apresenta-se como um democrata moderado e pragmático, com foco em soberania industrial, segurança nacional, pautas trabalhistas e gestão de recursos hídricos e ambientais.

Republicanos

Ken Paxton - Procurador-geral do Texas, é uma das figuras mais alinhadas à ala conservadora do Partido Republicano. Escândalo: em 2023, a Câmara dos Representantes aprovou artigos de impeachment contra ele por acusações de corrupção, suborno e abuso de poder.

Marco Rubio - Secretário de Estado dos EUA, nasceu em Miami, Flórida, e é filho de imigrantes cubanos. É um dos falcões em relações internacionais. Adota posições assertivas em relação à China, ao Irã, a Cuba e aos regimes autoritários da América Latina. Na pesquisa AtlasIntel de domingo, aparece em 1º lugar na preferência dos republicanos.

JD Vance - Atual vice-presidente dos EUA, serviu como senador por Ohio. É uma das principais vozes da ala populista de direita e do conservadorismo nacionalista do Partido Republicano.

Ron DeSantis - Governador da Flórida desde 2019, em mandato que vai até 2027, notabilizou-se por políticas de forte perfil conservador: oposição a restrições e lockdowns durante a pandemia.

Tucker Carlson - Apresentador e comentarista político, é uma das figuras mais influentes da direita e do movimento Make America Great Again (MAGA). Suas opiniões caracterizam-se por uma postura isolacionista em política externa e por uma rígida oposição à imigração.

Quais investigações podem ser abertas contra Trump

Se o Partido Democrata vencer em pelo menos uma das Casas, poderá investigar Trump pelos seguintes casos:

Família e finanças de Trump

Entre os pontos que os democratas prometem analisar, estão os vínculos entre o governo e as entidades corporativas - em particular, empresas de criptomoedas do conglomerado Trump - e os negócios internacionais geridos por Jared Kushner, seu genro. Outro ponto que pode ser analisado é a doação feita pelo Catar de uma aeronave de US$ 400 milhões para o presidente. Também a relação entre as empresas de Elon Musk e o governo americano.

Relações militares

Desde o início do seu segundo mandato, Trump afirmou que não iniciaria guerras. Mas realizou diversas investidas, como no Irã. Caso saiam vitoriosos, os democratas devem iniciar uma investigação sobre a atuação do secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, no conflito. As ações no Caribe e na Venezuela também estarão no alvo.

Imigração e ICE

As medidas de repressão a imigrantes se ampliaram no segundo mandato com a atuação do ICE, a polícia de imigração americana. Democratas pretendem iniciar investigações para avaliar a conduta dos agentes durante as abordagens.

Caso Epstein

No ano passado, o Departamento de Justiça foi obrigado a divulgar milhões de arquivos relacionados ao financista condenado por crimes sexuais. Os democratas poderiam avançar nas apurações sobre eventuais conexões entre Trump e Epstein.

Impeachment

Trump pode sofrer impeachment? É improvável. Os democratas até devem iniciar um novo processo. O pedido poderia passar na Câmara dos Representantes, mas dificilmente avançaria no Senado, já que, para a cassação, são necessários dois terços dos cem senadores (67 parlamentares).

INFORME ESPECIAL


03 de Novembro de 2026
CARPINEJAR

Gostar de qualquer jeito é gostar de nenhum jeito

A falta de atitude esvazia a opinião masculina. O receio de criticar é a pior crítica. O receio de decepcionar é a maior decepção.

Sua esposa volta do salão, apresenta o corte. Ela resistiu a tarde inteira na cadeira. São quatro horas de molho, não uma hora como no barbeiro. É um sacrifício, não uma imersão. Compreenda: ninguém morre de vontade de passar por isso. Ela ainda gastou os tubos e os bobes no cartão de crédito.

Levando em consideração as suas limitações, aparece na sua frente facilitando o game. Chega sem suspense, balançando a cabeça para mostrar escandalosamente os cachos. Não questiona o que há de diferente. Você não amargará o constrangimento de apontar as sobrancelhas, que são as mesmas desde sempre. Ela é educada, generosa.

Apenas pergunta: - Que tal? O que achou? Você só deveria dizer: "lindo", "que bonito", "maravilhoso", "parabéns", "ficou muito melhor", "é uma nova pessoa", "vai causar inveja"?

Mas inventa de falar: - Gosto de você de qualquer jeito.  Você inclusive supõe ter colocado Vinicius de Moraes no chinelo. Acredita ter dado uma resposta impecável. Espera reconhecimento pela sua sensibilidade (de nabo), um abraço pela sua profundidade (de piscina infantil).

Porém, é um lance para o VAR. É cartão amarelo que vira expulsão com a reprise da câmera. O comentário corresponde a um "tanto faz", não exalta o investimento, não destaca a mudança.

E também expressa uma omissão: ela pode se arrumar de qualquer jeito. Pode vir de qualquer jeito que você sequer se detém. Trata-se de um juízo morto, nem neutro é. Não é sinal de liberdade e de respeito, mas ausência de reciprocidade.

Você mal levantou os olhos, não examinou, não se deslumbrou, não se desprendeu da tela do celular. Há um conjunto de gestos amparando o desdém. Seria até preferível que odiasse e demonstrasse algum sentimento, provasse que reparou.

Assim, é o ó do borogodó, o fim do caminho. Logo mais, você pedirá que ela escolha a roupa no seu lugar, o cardápio no seu lugar, as viagens no seu lugar, e fugirá de existir. Não sei se é medo da própria mulher, o que sei é que é covardia de assumir a própria vida.

Declare seu voto, manifeste-se, não dá para ser isentão no amor. O gostar genérico dispensa os detalhes. Ela termina sem entender se valeu a pena a ousadia. Não finja que é um dia igual ao outro.

Prepare-se para sair. Ela se embelezou, ela se cuidou, não irá querer permanecer em casa assistindo a filmes. Desejará quebrar a rotina em pedacinhos.

Mexa-se com as palavras e com o corpo. Sua companhia pretende tirar selfies, desfilar, desfrutar do efeito provisório dos cabelos alinhados. Montará um álbum, uma série para lotar as redes sociais nos próximos meses. Pense num local chique para jantar, para dançar.

Aproveite o encanto enquanto o feitiço não acabar. Ela não está para brincadeira. Depois de dormir, será um parto para repetir o penteado. Só regressando ao salão. E tendo que suportar o seu menear de ombros. 

CARPINEJAR

03 de Novembro de 2026
NÍLSON SOUZA

Atendimento humano

Já está valendo o decreto que obriga empresas robotizadas a oferecer atendimento humano para os consumidores. Duvido que o nosso suplício vá acabar da noite para o dia, pois um só agente de IA substitui dezenas de atendentes de carne e osso.

Porém, pelo que li, a multa pode ser pesada para casos de descumprimento e reincidência. Ainda assim, só me sentirei suficientemente desagravado se as agências reguladoras e os Procons, encarregados de fiscalizar e aplicar sanções, escalarem um chatbot para atender empresários inconformados. Tipo:

- Se você deseja reclamar, digite 1. - Se você quer rastrear a sua reclamação, digite 2.

- Para negociar o valor da multa, digite 3. - Para falar com nossos fiscais, espere sentado.

Apesar do sarcasmo, não sou refratário à tecnologia. Até gosto de usar facilidades proporcionadas pela inteligência artificial. Outro dia, num passeio a Viamão para visitar parentes, num momento de silêncio dos acompanhantes, aproveitei para questionar minha assistente virtual:

- Siri, tem jogo hoje pela Liga dos Campeões da Europa?

Ela respondeu de má vontade. - Não posso fazer buscas na web enquanto você está dirigindo.

Ops! Reconheço que ela tem lá as suas razões, foi programada para indicar rotas de trânsito e orientar o motorista - não para distraí-lo. Então fui direto ao ponto:

- Rota para o Beco do Remi. Nada feito:

- Não entendi o que você falou. Insisti, em tom mais elevado: - Beco do Remi, por favor!

Acho que ela se intimidou. E prontamente tratou de fazer alguma coisa para me agradar.

- Ligando para Beco! (esse é o apelido de meu sobrinho que mora em Imbituba).

- Não! Não! - interrompi rapidamente e desliguei a chamada já em andamento.

Não demorou dois minutos e Beco me ligou de volta.

- Fala, tio! Pedi desculpas e expliquei. - Foi essa trapalhona da Siri que ligou sem querer. Pelo jeito ela não sabe diferenciar sílaba aberta de fechada.

Para ampliar o surrealismo da situação, a menina de seis que acompanhava tudo do banco de trás perguntou admirada:

- Como é mesmo o nome da tua Alexa? Risada geral. Aí resolvi brincar também. - O nome é Sirigaita, mas pode chamar de Siri.

Espero que a própria não tenha ouvido, pois na próxima consulta pode me mandar para algum lugar bem mais distante do que o Beco do Remi, que fica no aprazível distrito de Águas Claras. _

NÍLSON SOUZA

03 de Novembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

O eleitor, nos EUA ou no Brasil, vota pensando no bolso

O eleitor, nos Estados Unidos ou no Brasil, pode pensar na democracia, nas disputas entre direita e esquerda, mas, ao final, acaba votando com o bolso. Daí por que o custo de vida é o principal tema das eleições de meio de mandato, as midterms, que ocorrem hoje nos EUA.

Donald Trump pode dizer que os EUA "estão mais ricos agora" e que "não há inflação" (o que, aliás, não é verdade). O que realmente importa é a economia vivida. Pesquisas recentes mostram que mais de 60% dos americanos condenam as políticas econômicas e reclamam do elevado custo de vida. A guerra contra o Irã, deflagrada pela Casa Branca, e o fechamento do Estreito de Ormuz, que ajudou a turbinar a inflação, atingiram em cheio uma paixão - e necessidade - americana, andar de carro. O americano olha para o preço do supermercado, mas principalmente para o preço da gasolina. O eleitor quer saber se o dinheiro está rendendo. E, na prática, não está. _

O que dizem as últimas pesquisas

Americanos irão às urnas para as midterms. Atualmente, o Partido Republicano, do presidente Donald Trump, detém a maioria nas duas Casas, mas pesquisas indicam uma possível virada a favor dos democratas, o que alteraria a governabilidade do governo nos próximos dois anos.

Uma pesquisa genérica de preferência dos eleitores para o Congresso feita pela AtlasIntel, divulgada no domingo, aponta 55,5% das intenções de voto para os democratas e 41,4% para os republicanos. No levantamento da NBC News, os democratas aparecem com 52%, contra 45% dos republicanos. Na pesquisa I&I/TIPP, divulgada ontem, 52% optaram pelos democratas e 42% pelos republicanos.

Já o levantamento da Reuters/Ipsos, divulgado em 26 de outubro, indica 53% para os democratas, em comparação com 44% para os republicanos.

Senado

Atualmente, no Senado, os republicanos contam com 53 cadeiras, contra 45 dos democratas mais dois independentes que votam com a oposição. Os democratas precisam conquistar quatro cadeiras para obter a maioria de 51 assentos (contando com os dois independentes). Para alcançar essa meta, o partido precisa vencer em Estados onde Trump saiu vitorioso em 2024.

Câmara dos Representantes

Na Câmara, os republicanos contam atualmente com 218 cadeiras (além de um independente que vota com eles) e os democratas com 214. São necessários 218 votos para a maioria. Os democratas precisam de um ganho líquido de três cadeiras para retomar o controle da Casa. _

Olhos brasileiros na disputa

A advogada especialista em inteligência artificial e coordenadora de especialização em Direito Eleitoral da FMP, Francieli Campos, é uma das observadoras internacionais das midterms - as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos. Ela está na Flórida e ontem visitou um "cartório" eleitoral do Condado de Broward, onde observou todo o processo, desde a impressão das cédulas até a contagem dos votos por correio (que já foi encerrada) e o treinamento dos mesários. Ela também participou de reuniões no Condado de Miami-Dade.

Lula 4 e as relações exteriores

A coluna perguntou a três professores qual é o principal desafio do presidente na política externa no quarto mandato.

Redes sociais

"Lula deixa claro que vai cuidar de regular redes sociais. E onde estão as big techs? Nos Estados Unidos, muito próximas do governo Trump. Temos um dos grandes enroscos da política externa nos próximos anos: o Brasil tentando medir forças com empresas que são muito poderosas economicamente, tecnologicamente e politicamente."

Dawisson Belém Lopes, professor de Política Internacional da UFMG

Terras raras

"O governo Lula já fez a regulamentação neste ano, e temos a implementação do Conselho Nacional sobre minerais críticos, mas teremos uma pressão muito grande, sobretudo dos Estados Unidos e da China, para a exploração desses minerais. O Brasil precisará ter jogo de cintura. Isso envolve, talvez, o redesenho de parcerias e participação em fóruns e organizações internacionais."

Roberto Uebel, professor de Relações Internacionais na ESPM São Paulo

Tarifaço

"Enfrentar Donald Trump e a questão das tarifas. Por mais que tenhamos midterms agora, nos Estados Unidos, ainda temos um certo tempo de governo Trump e dessa atuação frente, por exemplo, ao "Escudo das Américas" (projeto da Casa Branca de combate ao que chama de narcoterrorismo na América Latina). De que maneira o Brasil vai reagir a isso, haja vista essa pressão por parte dos Estados Unidos que também pode se desdobrar por meio de sanções econômicas? Esse vai ser também um grande desafio mais imediato."

Tatiana Squeff, professora de Direito Internacional da UFRGS

INFORME ESPECIAL

02 de Novembro de 2026
CARPINEJAR

Dia da Saudade

Eu acredito que o Dia dos Finados deveria ser chamado de Dia da Saudade. Os mortos não morrem na saudade. Continuam vivendo dentro dela. Tanto que a maioria das condolências se refere à "saudade eterna".

A morte não é um fim, mas uma etapa, um ciclo do conjunto da vida. A morte não destitui a vida. É ainda vida. A despedida é a esperança do reencontro.

A tradição nos incute a ideia de futuro interrompido, levando-nos a lamentar a intimidade cortada e o que não será testemunhado por quem partiu. Não se fala, em nenhum instante, do passado inesgotável em aberto. O passado não se finalizou. Há muito para se descobrir sobre ele.

"Saudade" seria um termo mais apropriado, magnânimo e amplo para expressar a permanência do vínculo.

O luto não termina com o que você significou para alguém. Não abole a sua condição, não arranca a sua memória, não extingue a experiência. Se falece a mãe ou o pai, você segue sendo filho. Se falece um filho, segue sendo pai ou mãe. Se falece um irmão, segue sendo irmão.

O luto não termina com aquilo que aconteceu. O luto é o nosso jeito de fazer o ente querido resistir à passagem do tempo. É tudo, menos um vazio, menos uma ausência. O luto revela uma morada, uma presença em você. Você passa a ser habitado por uma cumplicidade, uma amizade inquebrantável.

Na verdade, ocorre uma virada quando você se dá conta de que não perdeu a pessoa, mas ganhou a pessoa definitivamente, apesar de ser um processo difícil, perturbador e doloroso de aceitação.

De repente, transcorreram cinco anos desde o enterro, dez anos, e o apego não altera a sua intensidade. Você só troca a rotina pela fé, e aprende a conviver com o invisível, a procurar conselhos e conversas no legado (percebe que ri como o outro, dobra a roupa como o outro, repete uma frase como o outro).

O morto não envelhece mais. Você guarda a feição que o afeto tinha no momento do desenlace. Mantém a imortalidade do seu último olhar.

Você não o enxerga, mas o sente. Sentir são os olhos interiores. Não tem como diminuir a emoção, ou invalidá-la. Sentimentos são fatos. A impressão física é de que ele recém saiu de perto: a ponto de você se arrepiar com uma rajada quente de vento, a ponto de entendê-la como um abraço, um cumprimento com o rosto encostado no rosto, um beijo cálido.

Você não vem imaginando coisas, tampouco reconstitui apenas o que já foi vivido: essa sensação resulta de um estar próximo perpétuo de quem desejava o seu bem e jamais o abandonará por completo. As recomendações de cuidado se mostram vitalícias.

Existem relatos de gente que é visitada em sonhos durante as piores crises pessoais. As mensagens são os mensageiros e reabrem os caminhos. A saudade sintetiza melhor esta data do que a noção de "Finados", porque ela é um lugar. Um território na alma além dos nossos limites terrenos. Um cantinho em nós mesmos. Um altar em que as velas nunca se apagam. 

O morto não envelhece mais. Você guarda a feição que o afeto tinha no momento do desenlace

CARPINEJAR

02 de Novembro de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Afetos tristes

Em seu novo livro, A Máquina do Golpe - 1964: Como Foi Desmontada a Democracia no Brasil (Companhia das Letras, 312 páginas), a historiadora e cientista política Heloisa Murgel Starling reconstitui os oito eletrizantes dias que antecederam a deposição do presidente João Goulart. 

Era para o livro ter saído em 2024, quando o golpe militar completou 60 anos, mas o projeto tomou mais tempo do que o previsto e, por uma dessas emendas que melhoram o soneto, a publicação acabou chegando às livrarias poucos dias antes de outro confronto histórico entre o campo democrático e o pessoal que costuma não se conformar muito com o resultado das urnas - quando perde, of course.

Na excelente entrevista que concedeu ao podcast da Revista 451 no dia 23 de outubro, Starling falou sobre o livro, sobre as eleições que aconteceriam naquele mesmo fim de semana e sobre o risco de o país deixar à solta, mais uma vez, o "cupim" que corrói a democracia por dentro. 

A historiadora não tinha como prever que o cupim seria derrotado no domingo e fugiria do país já na terça-feira, mas sua análise sobre a erosão do espaço público nos ajuda a entender os episódios de assédio eleitoral que estaríamos comentando na semana seguinte: listas negras, boicotes a empresas e profissionais, demissão de funcionários e até o especialmente perverso cancelamento de doações e ações de voluntariado por motivos políticos.

Para a historiadora, estamos tomados pelos "afetos tristes" do ódio e do ressentimento, que nos isolam em bolhas e nos afastam não apenas uns dos outros, mas da realidade. Para combatê-los, diz ela, é preciso voltar a cultivar os "afetos da democracia": 1) a amizade, para tentar ver o mundo do ponto de vista do outro; 2) a tolerância, para ouvir todas as ideias, mesmo as que incomodam; e 3) a compaixão, para reconhecer a humanidade de quem pensa diferente.

Enquanto não chegamos lá como sociedade, talvez só nos restem a reflexão individual e a autocrítica. Antes de curtir, compartilhar ou aderir ao próximo boicote digital contra alguém que expressou uma visão política oposta à sua, imagine um mundo em que o dissenso seja punido. Imagine que tudo em que você acredita, tudo que você considera bom e sensato seja visto pela maioria como ofensivo ou perigoso. 

Quando o tribunal do ostracismo bater à sua porta, exigindo sua demissão ou o fechamento da sua empresa em função do seu posicionamento político, você vai achar justo o castigo? Se a sua resposta for "não", bem-vindo ao postulado ético mais sucinto e mais fácil de entender (embora nem sempre tão fácil assim de executar): nunca faça nada que você não gostaria que se tornasse uma lei universal. _

CLÁUDIA LAITANO

02 de Novembro de 2026
OPINIÃO RBS

É hora de Lula enfrentar a realidade fiscal

Auxiliares e aliados do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva se empenharam nos últimos dias para passar a mensagem de que, no quarto mandato, o petista dará mais atenção à saúde das contas públicas. A reação do mercado financeiro na semana passada mostra que o esforço não gerou nenhuma credibilidade. O índice Ibovespa derreteu 17%, o dólar saltou 9% e os juros futuros subiram mais de dois pontos percentuais. Não são indicadores abstratos. Impactam a vida real dos brasileiros. A gravidade do quadro fiscal exige que o próprio presidente venha logo a público e diga, em alto e bom som, que o terraplanismo econômico de Lula 3 será abandonado.

O endividamento público está em trajetória insustentável. Mantido o negacionismo atual, não há como a taxa Selic cair de forma consistente. Pode até voltar a subir se não houver a sinalização de medidas para um ajuste crível. Nesse cenário, as expectativas de inflação continuarão altas e o dólar seguirá a ganhar força. A desaceleração da economia tende a aumentar. Lula vem subestimando o risco de repetição do que ocorreu no governo Dilma Rousseff, quando a máxima "gasto é vida" gerou dois anos de recessão.

Pelo dado mais recente, de setembro, a dívida pública chegou a 82,9% do PIB, alta de 11,2 pontos percentuais ao longo do atual governo. É o maior patamar desde 2021, quando era inevitável elevar gastos para mitigar os efeitos da pandemia. Conforme a Instituição Fiscal Independente (IFI), o pacote de bondades eleitorais de Lula chegou a cerca de R$ 300 bilhões entre medidas de estímulo ao crédito, despesas primárias e renúncias fiscais. A conta não fecha e as famílias e empresas não suportam mais impostos. É inevitável rever e cortar gastos.

Lula menosprezou a explosão da dívida pública e, durante a campanha, chamou a necessidade de fazer superávit fiscal de "babaquice". Agora, vai encarar a herança maldita legada por ele mesmo. É urgente, portanto, que o presidente indique a equipe econômica, com nomes que passem confiança aos agentes econômicos. E, ainda, que informe aos brasileiros como diminuirá o ritmo de crescimento de despesas diante da relutância em mexer em pontos estruturais, como reajuste acima da inflação para o salário mínimo, a indexação de benefícios e aposentadorias a este, ou então os pisos constitucionais de gastos para a saúde e a educação. Não há necessidade de reduzir gastos sociais, mas fazer com que cresçam a taxas mais parecidas com a inflação.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse na semana passada que o Executivo poderia enviar ao Congresso um projeto de lei para obrigar o governo a alcançar o centro da meta fiscal em 2027, e não o piso, como tem sido a prática, maneira malandra de sustentar que cumpre o regime de controle das contas. Pouco adiantará se o Planalto continuar a recorrer a manobras de retirar despesas da conta do arcabouço fiscal. Neste ano, são mais de R$ 60 bilhões. O governo desmoraliza a regra que criou.

Responsabilidade fiscal e cuidado social não são excludentes. Mas o descontrole das contas piora a situação financeira das famílias. O presidente deve ser advertido de que se negar a enxergar o óbvio pode inclusive fazer com que, após o seu último mandato, se despeça da vida pública sendo responsabilizado por uma grave crise econômica.