quarta-feira, 29 de julho de 2026

29 de Julho de 2026
CARPINEJAR

Esta coluna contém informação e opinião

Os nomes divertidos de cachorros

Os pais não esperam o bebê nascer para dar um nome. Não conhecem o filho ainda para nomeá-lo. É um batismo feito no escuro. Na genealogia humana, somos treinados a definir a graça da pessoa durante a gestação.

Já no mundo canino, existe o costume de olhar primeiro o animalzinho para então criar o apelido, levando em conta a aparência, os hábitos, os trejeitos. O que explica por que os cachorros exibem a cara e a fuça do seu nome. Você não consegue concebê-los de maneira diferente.

Meu amigo Nilson Vargas, ex-colega da RBS, cuida do Cookie. É realmente Cookie: um Shih Tzu com orelhas grandes, olhinhos cobertos de pelo, cauda de almofada e fofura extrema.

Se, no IBGE, os bíblicos Maria e José seguem reinando, os cães recebem requintes de pluralidade, representando o melhor da confeitaria, da padaria, da galeria de super-heróis. Em 2025, a PetLove fez uma pesquisa com 1,8 milhão de bichinhos e catalogou os nomes mais comuns.

Os mais populares para fêmeas são Mel, Luna, Amora, Nina e Maia. Entre os machos, lideram Thor, Luke, Theo, Bob e Apolo. Nem dependem de um sobrenome para pertencer à nossa família.

Quem teve um parceiro de estimação entende a mágica, que se estende da infância aos marmanjos mais coroas. O nome vem dos ecos dos recreios da escola, de uma comparação jocosa, de uma experiência positiva com a cultura. Isso aumenta o apego com seu xodó. Você passa a gostar mais dele porque ele é parte de seu desejo, surgiu de sua imaginação, de sua observação espirituosa.

Pela cor, pode ser Chocolate, Cacau, Brownie, Nutella, Jujuba. Pelo tamanho, pode ser Pingo, Miúdo, Farelo, Toquinho, Pitoco, Nina, Bolinha. Pela força, pode ser Titã, Gigante, Colosso, Hulk, Sansão, Zeus e Everest.

Pela simpatia, pode ser Lili, Lolô, Lulu, Fifi, Didi, Kiki, Bibi, aquela duplicação de sílabas que parece se originar da fala de uma criança pequena. Pela comicidade de amar atrapalhadamente, pode ser Mingau, Bolacha, Paçoca, Pipoca, Polenta, Pudim, Amendoim, Xis, Chanel.

A raça é secundária; o que prevalece é como se chama. Nas praças, nos parques, torna-se um chamariz para atrair a atenção e roubar afagos de estranhos. Não é apenas uma designação, mas um destino.

A intimidade desponta antiga na memória. A partir de uma risada. De um paralelo lírico que antecipa os dotes e o comportamento da fera do lar. Vale todo o cardápio, da entrada à sobremesa. Na maioria dos casos, ocorre a transferência de um apetite, de uma gula preferida.

Alguns recorrem aos clássicos Rex e Totó. Outros homenageiam cachorros famosos de filmes e desenhos, como Bidu, Lassie, Floquinho e Marley. Há quem se sinta livre para mencionar baluartes, referências enciclopédicas como Freud, Lacan e Frida. Cantores e cantoras como Amy, Mick, Lennon, Ozzy ou Madonna ganham o microfone dos latidos.

Nunca é só um cusco. O amor não deixa ninguém renguear de frio. _

CARPINEJAR

29 de Julho de 2026
MÁRIO CORSO

As férias de Sísifo

Zeus: Qual é o motivo do burburinho lá embaixo? Hermes: Sísifo levou a pedra até o topo do morro e ela está lá, parada. Zeus: Impossível. Foi calculado para as forças dele acabarem antes e a pedra rolar até o ponto mais baixo.

Hermes: O Arquimedes me disse que, com o passar dos séculos, a pedra foi se desgastando, logo, ficou mais leve e Sísifo conseguiu a proeza.

Zeus: Onde que o Hefesto estava com a cabeça que não previu isso?

Hermes: Na verdade ele previu. A bola original era de bronze. Mas como o bronze é mais denso que o granito, ela era menor. O pessoal do marketing queria uma imagem de uma pedra do tamanho do corpo dele, fica melhor nas pinturas. Daí Atena autorizou trocar.

Zeus: Mande Hefesto fazer uma outra pedra imediatamente.

Hermes: Hefesto está ocupado. Zeus: Absurdo. Eu designo as prioridades e essa é a prioridade.

Hermes: Hefesto está fazendo o novo closet de Hera, sua esposa. Você vai encarar mandar parar a obra dela? Zeus: Ele já está nisso faz tempo, impossível não estar pronto.

Hermes: Bem, só a parte dos sapatos é para 25 mil pares.

Zeus: Ainda bem que eu estou sem nenhum raio ao alcance da minha mão. Meu filho, você entende que isso é uma desmoralização para mim? Como assim, parar um castigo que eu pessoalmente ordenei. Já basta o Hércules ter libertado o Prometeu, que eu acorrentei num penhasco por ter roubado o fogo para os homens.

Hermes: Entendo pai. Quem sabe vamos fazer de conta que é algo programado. Vamos chamar de férias. Quando o Hefesto terminar a nova pedra termina o período de férias.

Zeus: Hermes, essa imagem do Sísifo carregando a pedra é uma mensagem sobre a aventura humana. Qualquer dia, os humanos vão querer essa vagabundagem que você chamou de férias. Já imagino teus tios, Poseidon e Hades fazendo piada de mim por ser mole com a humanidade.

Hermes: Na verdade é uma tendência. Todos já compraram a ideia do deus hebraico, de parar um dia na semana para descansar. Eles já estão funcionando no 6x1.

Zeus: Está bem, anuncia aos homens que Sísifo está em período de férias. Se bem que o pessoal me conhece, o mérito pelas férias vai acabar no colo do folgado do Dionísio. Meu temor é o precedente, vai que um outro deus proponha 5x2? 

O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor

MÁRIO CORSO

29 de Julho de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Flávio não pode ser punido por usar imagem do pai feita com IA

De todos os problemas que rondam a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), o menor deles é ter usado a figura do pai, Jair Bolsonaro, em um vídeo produzido por inteligência artificial. Não há na lei nada que proíba um candidato de usar na convenção do seu partido um vídeo em que deixa claro desde a primeira frase ser um produto de IA. Pedir a inelegibilidade de Flávio por esse motivo é litigância de má-fé.

Da mesma forma, não faz sentido punir Jair Bolsonaro com a volta para a Papuda por causa do dito vídeo. Goste-se ou não do ex-presidente, ele não pode ser responsabilizado por um vídeo do qual não participou. O texto é da assessoria de Flávio, transformado em fala de Bolsonaro por um programa que imita a voz do ex-presidente. Não é deepfake - definição que se aplicaria se alguém fizesse o vídeo tentando enganar o público, como se a voz daquela pessoa fosse verdadeira.

Flávio tem razão quando compara o vídeo a um boneco. E é. A Justiça Eleitoral não pode punir um candidato pelo que não está na lei. O que a lei proíbe é o uso de manipulação na propaganda eleitoral, seja a favor do candidato, seja contra um adversário. Não é o caso.

Grave foi o que o Flávio fez na reunião com diplomatas, insinuando que o sistema eleitoral não é confiável e colocando as urnas eletrônicas sob suspeição, como fez o pai em 2022. Grave é sua relação com Daniel Vorcaro, de quem recebeu R$ 63 milhões para, supostamente, financiar a produção do filme Dark Horse. Grave é o lobby do irmão junto ao governo dos Estados Unidos para punir o Brasil e que resultou no tarifaço.

A participação do presidente argentino Javier Milei na convenção também não é motivo para questionamento da candidatura. O eleitor é quem vai avaliar se a manifestação destemperada do argentino, com insultos a autoridades brasileiras, adiciona ou subtrai. À Justiça cabe aplicar a lei e não fazer julgamentos subjetivos. 

Lula usa visita para fazer propaganda do SUS

A visita do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, ao Hospital Federal de Andaraí, no Rio de Janeiro, ao lado do presidente Lula, serviu para fazer propaganda do SUS.

Ao apresentar uma unidade odontológica móvel conseguiu uma foto emblemática, que correu o mundo pelos portais de notícias. Sentado na cadeira do paciente, Tedros abre a boca para que Lula simule um atendimento. O presidente também apresentou a Tedros um moderno equipamento de radioterapia para dizer que, no Brasil, o paciente do SUS tem acesso à mesma tecnologia de quem faz radioterapia em um hospital privado. Lula contou a Tedros que fez 15 sessões de radioterapia para tratar um câncer de pele no couro cabeludo no Hospital Sírio Libanês:

- Fiz numa máquina que qualquer pobre do Brasil pode fazer, qualquer pessoa mais humilde, de qualquer lugar do Rio.

E sugeriu a Tedros que conte isso ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que quer cortar as verbas para a OMS.

Maranata fala dos desafios do RS

Tereza Cristina admite concorrer a presidente

"Ministra, vamos para presidente", escreveu um empresário participante do grupo. "Estou pronta", respondeu Tereza Cristina. Em seguida, outros participantes encaminharam manifestações de apoio e emojis de palmas, bênçãos, positivo e taça dourada. Diante da empolgação, a ex-ministra fez uma ressalva: "Mas não depende só de mim. Meu partido precisa me dar legenda".

A ex-ministra da Agricultura vinha dizendo que não aceitaria ser vice de Flávio porque seu projeto era disputar a presidência do Senado. Ontem, ela admitiu concorrer ao Planalto. Caso isso se concretize, o que precisa ocorrer até 4 de agosto, fracionará ainda mais os votos da direita, hoje representada por Flávio, Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão). 

MDB chega unido à convenção

POLÍTICA E PODER

 29 de Julho de 2026
EM FOCO

Tempestade

Alerta vermelho para grande parte do Estado

Inmet comunica risco elevado de temporal até o meio-dia de hoje. A média de chuva pode chegar a 100mm, com vento superior a 100 km/h, queda de granizo e descargas elétricas. Ontem, um tornado atingiu cidades da Região Noroeste

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu alerta vermelho para risco de tempestade em grande parte do Rio Grande do Sul, válido até as 12h de hoje. O comunicado entrou em vigor às 10h de ontem. As áreas que poderão ser mais afetadas são Região Metropolitana, Serra, Norte, Noroeste, Região Central e Litoral Norte. Partes de Santa Catarina que fazem divisa com o Estado também estão citadas no alerta divulgado pelo Inmet.

De acordo com o comunicado, a média de chuva pode chegar a 100 milímetros por dia, com vento superior a 100 km/h, além de queda de granizo e descargas elétricas. Há riscos de danos em edificações, corte de energia elétrica, estragos em plantações, queda de árvores e alagamentos.

Conforme informações da Climatempo, o calor de 30ºC na fronteira com a Argentina potencializou o risco de tempestades severas no Estado. Ontem, no decorrer da tarde para a noite, a instabilidade já havia começado no Oeste do RS. Em Porto Alegre e na Região Metropolitana, assim como no Litoral Norte, a projeção era de que o cenário de mau tempo se estendesse no decorrer da madrugada. Há maior risco de alagamentos e danos para estas áreas.

A Defesa Civil do Estado emitiu também um alerta vermelho para risco muito alto de inundação dos rios Sinos e Uruguai. O comunicado é válido até as 9h de hoje. O alerta vale para a região de São Leopoldo, no Vale do Sinos. Pela medição das 20h30min, o nível estava em 4m61cm, acima da cota de inundação (4m50cm). A água estava subindo pouco mais de um centímetro por hora.

Em Uruguaiana, o Rio Uruguai estava em 9m05cm, acima da cota (8m50cm). A água seguia subindo na região, e as autoridades avaliavam a retirada de mais famílias como medida preventiva. Em São Borja, chegou a 9m59cm (acima da cota de 9m) e em Itaqui foi a 9m14cm (acima da cota de 8m30cm).

Na madrugada de ontem, o Rio Jacuí recuou para 8m65cm em Cachoeira do Sul e deixou a cota de inundação (9m), segundo o Serviço Geológico Brasileiro. O nível do Rio Gravataí, na estação Passo das Canoas, no bairro Caça e Pesca, em Gravataí, também requeria atenção, pois estava em 6m29cm. A cota de inundação é 6m80cm. A Defesa Civil publicou alerta muito alto para a área.

Tornado

Cidades do Noroeste registraram a passagem de um tornado na noite de ontem. Segundo a Defesa Civil, o fenômeno passou por Giruá, Senador Salgado Filho e Sete de Setembro. O tornado ocorreu por volta das 18h25min, "associado a uma supercélula, um tipo de tempestade que tem uma corrente ascendente giratória". De acordo com o órgão, o tornado "causou danos severos a algumas edificações". _

Participaram Caroline Batista, Eduarda Wenzel, Gabriela Alves, Gabriel Jacobsen, Kathlyn Moreira, Júlia Ozorio, Lucas de Oliveira, Maria Fernanda Freire e Pablo Ribeiro

Vento forte destelha casas e derruba postes no Litoral Norte

De acordo com Alencar, o temporal também deixou uma pessoa ferida. Ele relata que um morador do município tentava consertar o telhado de uma residência, mas caiu e precisou ser encaminhado à Unidade de Pronto Atendimento (UPA), onde foi atendido e liberado. O balanço preliminar da Defesa Civil de Osório também indica a queda de cerca de 40 postes e 12 árvores. Conforme dados da CEEE Equatorial de ontem, 1.539 clientes estavam sem energia elétrica no município.

Fios energizados

Em vídeo nas redes sociais, o prefeito de Osório, Romildo Bolzan Júnior, pediu que os moradores evitem sair de casa. Segundo ele, há muitos fios energizados que oferecem risco. Além disso, um casal está abrigado no Ginásio Municipal Rutílio Kestering, no bairro Porto Lacustre, de acordo com Alencar.

- A nossa preocupação agora é manter o contato com as pessoas e entender os chamados - ressalta o prefeito.

Prejuízos

Entre os danos registrados está o desabamento de parte da estrutura da concessionária BYD, que caiu sobre veículos estacionados no local. A reportagem procurou a concessionária operada pelo Grupo Via Porto para obter informações sobre o número de carros atingidos e o tamanho do prejuízo, porém não havia recebido retorno até o fechamento desta edição. _

Queda de árvores entre outros transtornos na Serra

Conforme a prefeitura de Caxias do Sul, houve a queda de um muro no bairro Fátima e registros de destelhamentos em algumas localidades. Além disso, uma árvore de grande porte caiu sobre uma residência no bairro Mariland. Não houve registro de feridos. Conforme boletim divulgado pela Defesa Civil estadual, a velocidade do vento em Caxias foi a segunda maior do Estado, com 85,7 km/h. A primeira foi Rolante, com 93,6 km/h.

Em Farroupilha, a forte chuva provocou ao menos 11 ocorrências de destelhamento, conforme a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros. O caso mais grave foi registrado na Vila Esperança, onde uma residência teve danos significativos na cobertura. Não houve feridos. No interior, conforme a prefeitura de Farroupilha, quedas de árvores prejudicaram o tráfego na Rodovia dos Romeiros, nos Caminhos de Pedra e na Estrada Luiz Victório Galafassi. Além disso, foi registrada falta de energia elétrica em alguns bairros.

Em Flores da Cunha, houve quedas de árvores, postes e fiação elétrica, além de destelhamentos e interrupções no fornecimento de energia em diferentes pontos do município. Em Veranópolis, duas residências foram destelhadas nas comunidades de Nossa Senhora do Rosário e São José da Nona.

Em Bento Gonçalves, as equipes da prefeitura atenderam ocorrências de queda de árvores em ao menos cinco bairros. Também foi necessário desobstruir bueiros em locais com pontos de alagamento. Ainda na noite de segunda-feira, por volta das 19h15min, o Corpo de Bombeiros foi acionado para remover árvores que caíram sobre a BR-470.

Em Carlos Barbosa, os bombeiros atenderam duas ocorrências: uma por queda de árvores de médio e grande porte na localidade de Desvio Machado e outra por condutores de energia caídos no bairro Triângulo. _

Tubulação se rompe no aeroporto Salgado Filho

Uma tubulação de água potável se rompeu na manhã de ontem no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, causando vazamento na área de desembarque internacional, no primeiro piso. Segundo a Fraport, que administra o aeroporto, o problema não teve relação com a chuva.

O rompimento da conexão hidráulica aconteceu por volta das 7h45min e foi totalmente contido às 8h15min. Ainda conforme a concessionária, às 9h equipes finalizaram a limpeza do local.

Apesar do vazamento de água, o aeroporto funcionou normalmente. No começo do mês, um rompimento de tubulação fez parte do forro do teto desabar no terceiro piso do aeroporto. A Fraport nega que haja relação entre os dois casos. _

Prefeitura espera acabar com alagamentos na Capital até 2031

O diretor-presidente do Dmae, Vicente Perrone, afirmou ontem, em entrevista ao Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, que os alagamentos registrados um dia antes em Porto Alegre foram consequência de um volume extraordinário de chuva e que as casas de bombas funcionaram normalmente durante o temporal. De acordo com Perrone, os alagamentos ocorreram porque o sistema de drenagem da Capital é antigo e não dá conta de escoar volumes tão expressivos de chuva concentrados em poucos minutos.

- Ontem (segunda-feira) nós tivemos um volume extraordinário. Em algumas estações (da cidade), choveu 18 milímetros em 10 minutos - afirma Perrone.

De acordo com o representante da prefeitura de Porto Alegre, como os equipamentos de bombeamento funcionaram normalmente, a avaliação da prefeitura é de que o sistema de drenagem operou de forma satisfatória.

- A gente internamente fez uma avaliação ontem e achamos que foi satisfatória a resposta do sistema, mas a drenagem precisa de altíssimos volumes de investimento, e Porto Alegre passou décadas sem isso. Temos hoje mais de R$ 2 bilhões em (projetos de) macrodrenagem, microdrenagem e novas casas de bombas. Licitações que começam, inclusive, agora na virada do mês de agosto e vão até abril do ano que vem, licitando mais de R$ 2 bilhões - acrescenta.

Prazo

Segundo Perrone, os alagamentos registrados em dias de chuva muito forte serão solucionados em um prazo de três a quatro anos, contados a partir do primeiro semestre de 2027. Assim, a previsão da prefeitura é de que, até 2031, os alagamentos sejam resolvidos por meio de grandes obras de drenagem e da construção de novas casas de bombas.

Sobre a próxima semana, Perrone afirmou que, neste momento, não há risco hidrológico previsto para a Capital e que, mesmo com chuva constante nas próximas 24 horas, não devem ser registrados novos alagamentos em Porto Alegre. 

terça-feira, 28 de julho de 2026

28 de Julho de 2026
CARPINEJAR

O anonimato dos carros

Os automóveis são anônimos. Nas placas, consta apenas "Brasil", de modo genérico. Não mais indicam de qual cidade vêm os motoristas.

Antes, experimentávamos o prazer de adivinhar a história e a procedência de quem estava passando ao nosso lado nas avenidas.

Quando pequeno, eu me deslumbrava ao identificar a origem de cada veículo trafegando. Lia e tentava decifrar como havia chegado a Porto Alegre:

Bagé (RS)

Santa Maria (RS)

Caxias (RS)

Um engarrafamento consistia num encontro municipal, inclusive interestadual. Não deixava de ser um atlas automobilístico. Ao flagrar uma tabuleta do Rio de Janeiro, de São Paulo ou de Belo Horizonte, eu me punha a inspecionar os seus passageiros. Crescia a curiosidade pela distância percorrida: como pararam naquele ponto e momento? Moravam na capital gaúcha ou estavam de passagem?

Fantasiava como seria a vida dos turistas ou dos trabalhadores de outras regiões. Sequer cogitava que um dia eu seria um viajante. Ainda não tinha andado de avião. Meus limites geográficos se restringiam ao bairro, da casa à escola, com alguns raros passeios pelo centro.

Soube de localidades que nunca sonhei que existiam, pescando letreiros por baixo das latarias.

Municípios apresentavam nomes mágicos, que combinavam com os livros de ficção. Já registrava no meu passaporte imaginário, para poder procurar no futuro:

Bonito (MS)

Esperança (PB)

Feliz (RS)

Harmonia (RS)

Fartura (SP)

Encanto (RN)

Maravilha (AL)

Águas Mornas (SC)

Sorriso (MT)

Descanso (SC)

Bom Conselho (PE)

Fortuna (MA)

Espera Feliz (MG)

Na época, anos 1970 e 1980, nem usávamos o cinto de segurança. As crianças ficavam de pé nos bancos, observando tudo pelo vidro traseiro e acenando para os condutores.

A informação da cidade e do Estado começou a desaparecer com a adoção da placa Mercosul, implantada no país em setembro de 2018 e convertida em regra para novos emplacamentos e substituições a partir de 2020.

Sinto saudades do nosso trânsito babélico, dos cartões-postais em movimento, das biografias resumidas dos andarilhos. Os pais perdoavam erros, barbeiragens e deslizes nas rotas quando notavam que a pessoa não era daqui. Não buzinavam, mesmo que ela bloqueasse a sua frente sem pisca-alerta. Ofereciam um desconto por desconhecimento das nossas vias. Tratava-se de uma fidalguia e gentileza de anfitriões.

A nostalgia não é só minha. Tramita um projeto de lei (número 3214/2023) no Congresso que propõe o retorno obrigatório da cidade, do Estado e da bandeira da unidade federativa às placas veiculares. O texto foi ratificado pelo Senado e pela Comissão de Viação e Transportes da Câmara dos Deputados. Será encaminhado para a análise da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania e, posteriormente, precisará de votação no Plenário e sanção presidencial. Caso seja aprovada, a nova velha legislação passará a valer somente 12 meses após a promulgação.

Terei a minha infância de volta? 

CARPINEJAR

28 de Julho de 2026
NILSON SOUZA

Cinco prompts urgentes

Prezada senhora I. A.

1) Considerando as principais variáveis meteorológicas de pressão atmosférica, temperatura e umidade do ar aferidas por respeitados institutos climáticos nacionais e internacionais, somadas às previsões diárias das elegantes apresentadoras do quadro do tempo na televisão e acrescidas de crenças populares baseadas no movimento das formigas, nas dores das articulações e na dança da chuva de alguns povos originários, gostaria de saber se o Rio Grande do Sul chegará ao final deste mês emerso ou submerso.

2) Com base nas aparências e desaparências resultantes da harmonização facial, das canetas emagrecedoras e do velho photoshop, incluindo sua própria capacidade de transformar falsidade em realidade nas imagens e vídeos criados pelos seus incansáveis algoritmos, peço-lhe que me aponte um rosto autêntico e confiável entre as dezenas de candidatos às próximas eleições que já sobrecarregam nossas telinhas com sorrisos forçados e santinhos de propaganda política.

3) O que os brasileiros devem fazer para se livrar da inadimplência, da bandidagem, do vício em apostas esportivas, do golpismo digital, dos políticos irresponsáveis, da desonestidade nos jogos de futebol, da desinformação, do uso excessivo de telas, do radicalismo, dos preconceitos, do feminicídio, do negacionismo ambiental e da sanha tarifária de Donald Trump?

4) Como adequar os avanços tecnológicos que agilizam as operações bancárias, o atendimento nas repartições públicas, as compras online e os negócios em geral às demandas de uma expressiva parcela da população que tem dificuldade para lidar com teclados, links e chatbots?

5) Por fim, dona I. A., já que a senhora tudo sabe, tudo vê e tudo prevê, por ter se apropriado de todas as produções humanas sem pagar direito autoral para ninguém, diga-nos como podemos recuperar a atenção confiscada, a criatividade, o prazer de ler e de conversar, a troca de olhares e afetos, o contato com a natureza, a faculdade de pensar com independência e de buscar soluções próprias para os nossos problemas. 

O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor

NILSON SOUZA

 

DIA DO AGRICULTOR

A rotina do produtor que há 28 anos leva alimentos para a feira da Redenção

Dia do Agricultor

Todos os sábados, produtos da Granja Santantonio viajam quase 30 quilômetros até o corredor verde na José Bonifácio, onde encontram uma clientela fiel. No Bom Fim, feirantes se encontram há mais de 30 anos. É o ano todo em produção, variando a oferta conforme a estação e a época de plantio.

Ainda é noite e faz silêncio na Avenida José Bonifácio, em Porto Alegre, quando os primeiros agricultores começam a chegar para mais um sábado de feira na beirada da Redenção. O trabalho que se materializa ali, no colorido das bancas, começa muito tempo antes e a quilômetros de distância do parque, nas lavouras onde brotam a produção.

Há 28 anos fazendo o trajeto de quase 30 quilômetros entre a zona rural da Capital e o Parque Farroupilha, o agricultor Vasco Machado, 60 anos, é um entre a centena de produtores que se reúnem toda semana para vender alimentos frescos, jogar conversa fora com os clientes e trocar ideias sobre produção agroecológica.

Os produtos orgânicos vêm da Granja Santantonio, propriedade familiar fundada em 1968 pelo avô de Machado. Os 12 hectares de terra, dos quais quatro são de mata nativa, ficam no número mil do Beco do Paraíso, nos Caminhos Rurais de Porto Alegre. Além da atividade agrícola, a propriedade recebe visitações turísticas e de escolas.

Hortaliças em geral, batata inglesa, batata doce, beterraba, cenoura, berinjela, limão, alecrim, manjericão, espinafre, couve chinesa, alface baby, moranga e abobrinha estão entre a infinidade de alimentos que a Santantonio produz. É o ano todo em produção, variando a oferta conforme a estação e a época de plantio.

Adaptações ao clima

Em 2026, por causa da projeção de chuva farta, Machado conta que fez ajustes na produção. Diminuiu nas folhosas e ampliou nos legumes, porque as folhas sentem mais o peso da água.

Mesmo com os contratempos naturais, nunca optou por outro sistema que não o agroecológico, que une cultivo e preservação do ambiente. O objetivo, diz, é levar qualidade a todos, para que possam comer e viver bem.

- Porque a mesa é a mesma: a nossa e a de quem compra - diz o agricultor.

Uma a uma, as plantas são delicadamente retiradas da terra ou dos seus caules para serem colocadas em caixotes. Ao todo, quatro pessoas trabalham na lavoura, incluindo o próprio Machado.

Já a esposa dele, Carmen Nunes Soares, 59 anos, fica com a pesagem, a amarração e a parte burocrática da certificação e da rastreabilidade dos alimentos. Tudo o que sai da propriedade precisa ser devidamente registrado. _

É um trabalho que não tem dia, não tem horário, não tem férias. Mesmo assim, é prazeroso.

Vasco Machado

Agricultor e feirante de Porto Alegre

Mais do que uma banca, um ponto de encontro

Retirado o alimento da terra, é hora de vender. Enquanto colhia, o produtor anunciava:

- Tudo vai estar na feira!

Machado já conhece mais ou menos a quantidade que tem saída entre os clientes, e por isso costuma vender quase tudo o que leva para a banca. Cerca de 50 caixas de alimentos são transportados semanalmente da terra para o Bom Fim.

A produção é carregada na sexta-feira à noite, para no sábado de madrugada partir. A caminhonete deixa a propriedade ainda no escuro e sob o cantar dos primeiros pássaros, por volta das 3h30min.

Uma parte da colheita já vai separada para restaurantes que compram direto do produtor e retiram os itens no estande.

Nuh Asian Food e Capincho, restaurantes da alta gastronomia gaúcha, estão entre os clientes fiéis do agricultor.

- Três horas da manhã é a gente indo feliz para a feira. Porque a banca é diferenciada. Mais que ponto de venda, é ponto de encontro para um café e uma conversa entre amigos. É uma "área vip" da feira, digamos assim - explica.

No último sábado, foi celebrado o Dia Internacional da Agricultura Familiar e o Dia do Colono. Já hoje, se comemora o Dia do Agricultor. As datas próximas só podem justificar a relevância da agricultura, dizem.

Muitos dos frequentadores assíduos, aliás, visitam a banca desde crianças.

Apesar de cativo, o público tem mudado nos últimos anos, observa Machado. Há muito mais jovens frequentando a feira, mas comprando em menor quantidade. _

Clima de amizade e parceria

Além de cuidar da terra, o agricultor é um dos coordenadores da Feira Ecológica do Bom Fim. A coordenação é dividida entre cinco colegas. São responsabilidades deles cuidar da segurança e organização das bancas, eventos e qualquer contratempo.

- É um trabalho que não tem dia, não tem horário, não tem férias. Mesmo assim, é prazeroso - confessa Machado.

Ao todo, 150 bancas ocupam o corredor verde entre a Avenida Osvaldo Aranha e a Rua Vieira de Castro. Duas feiras se juntam no espaço: a Feira de Agricultores Ecologistas (FAE), que comemora 37 anos em outubro, e a Feira Ecológica do Bom Fim (FEBF), que completa 35 anos em agosto.

Cerca de 70% dos agricultores que participam das feiras são de fora de Porto Alegre e o clima entre eles é de parceria. Da carona entre vizinhos aos sábados pela manhã a uma olhadinha rápida na banca quando alguém precisa momentaneamente se ausentar, a maioria se considera grandes amigos.

O traço amigo e familiar é uma das marcas da agricultura gaúcha. Conforme dados da Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado (Fetag-RS), a agricultura familiar está presente em 365 mil estabelecimentos rurais no Rio Grande do Sul. O setor responde por 40% do PIB da agropecuária gaúcha, mesmo ocupando somente 25% das áreas agrícolas. 


28 de Julho de 2026
NOTÍCIAS

Notícias

Além da precipitação volumosa, os próximos dias podem ser marcados por descargas elétricas frequentes e rajadas de até 100 km/h. Três rios já passaram da cota de inundação e pelo menos outros quatro estão sob risco durante a semana

RS tem alerta de grande perigo para chuva intensa

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) colocou o Rio Grande do Sul sob alerta de "grande perigo" hoje devido à previsão de chuva superior a 100 mm para o dia. O volume expressivo traz risco elevado de alagamentos, deslizamentos de encostas e transbordamento de rios.

O cenário é agravado pela continuidade da chuva ao longo da semana. Até domingo, os acumulados devem ultrapassar 200 mm em diversas regiões, volume que já pressiona os mananciais gaúchos. Ontem, pelo menos três rios em quatro cidades já tinham atingido a cota de inundação: Uruguai, Jacuí e Sinos.

Diante do volume d?água acumulado, o meteorologista da Climatempo Gustavo Verardo aponta que o foco de atenção deve se concentrar nas bacias que já se encontram em níveis elevados, onde o risco de cheia é imediato, especialmente no oeste, nas Missões e no centro do Estado.

Além da elevação dos rios, o Estado enfrentará tempestades severas. O meteorologista prevê granizo de grandes dimensões - o que já ocorreu em algumas cidades ontem -, descargas elétricas frequentes e rajadas de vento de até 100 km/h.

A Defesa Civil e a Climatempo mantêm ainda monitoramento especial para a possibilidade de eventos extremos.

- Não se descarta a formação de supercélulas que podem dar origem a tornado. O risco é muito baixo, mas não se pode descartar - aponta Verardo.

O alerta vermelho do Inmet divulgado ontem destaca ainda grande risco de alagamentos, transbordamentos de rios e deslizamentos de encostas. As áreas afetadas incluem as regiões Sudoeste, Centro Ocidental, Noroeste, Sudeste, Centro Oriental, Nordeste e metropolitana de Porto Alegre.

A Defesa Civil estadual publicou avisos vermelhos para o risco muito alto de inundações. No Rio do Sinos, a área de maior risco é o município de São Leopoldo.

Já no Rio Uruguai, o risco de inundação afeta as cidades de Itaqui e Uruguaiana. Os avisos são válidos até as 9h de hoje. O órgão orienta que a população evite áreas inundáveis.

Porto Alegre

De acordo com a Climatempo, a instabilidade é provocada por uma área de baixa pressão associada ao avanço de uma frente fria. Ressalta ainda que há risco elevado para descargas elétricas, granizo e rajadas de vento que podem superar os 90 km/h de forma localizada e não descarta a ocorrência isolada de tornado. O solo encharcado e os rios elevados agravam o risco de transtornos.

Ao final da tarde de ontem, Porto Alegre enfrentou transtornos por causa de chuva forte. Vários pontos de alagamentos foram registrados, principalmente na Zona Norte, além de atrasos em voos no aeroporto Salgado Filho. _

Participaram Caroline Garske e Juliano Lannes

Próximos dias

A instabilidade se desloca pelo território gaúcho amanhã, mas apresenta uma breve janela de trégua na quinta-feira, antes de uma nova frente fria no fim da semana.

Amanhã

A chuva mais intensa migra para a Serra, Vales e Região Metropolitana. Verardo classifica o período até quarta como de "altíssimo risco para danos no RS" devido a cheias e tempo severo.

Quinta-feira

O tempo apresenta condições de estabilidade na maior parte do Estado, com o afastamento da frente fria em direção ao oceano.

Sexta-feira a domingo

A trégua será curta. Uma nova frente fria deve avançar sobre o Rio Grande do Sul a partir da tarde de sexta-feira, trazendo mais "chuva intensa e volumosa" para o final de semana.

Atenção!

A Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros orientam que, em caso de rajadas de vento, as pessoas não se abriguem debaixo de árvores e não estacionem veículos próximos a torres de transmissão. A recomendação é permanecer em local abrigado, desligar o quadro geral de energia e proteger pertences em sacos plásticos em caso de inundação. Em emergências, a população deve ligar para os telefones 190, 193 ou 199.

"O primeiro desastre a ser evitado é a perda de vidas", diz governador

Em coletiva de imprensa realizada ontem no Palácio Piratini, o governador do RS, Eduardo Leite, alertou sobre as condições meteorológicas previstas. Abriu o encontro ressaltando a importância da prevenção para mitigar os danos dos eventos climáticos e destacou que não é possível blindar o RS, mas sim reduzir os impactos em um Estado onde as condições climáticas extremas "serão mais recorrentes", pois é "uma característica". Reiterou ainda que o governo do RS, junto às prefeituras e ao governo federal, tem trabalhado para controlar a situação.

De acordo com o governador, o fato de os prognósticos mudarem constantemente torna o cenário mais complexo, por isso a importância de ter conhecimento do risco e das vulnerabilidades e atuar sobre elas:

- Não podemos evitar o evento climático, nós podemos evitar o desastre e o primeiro desastre a ser evitado é a perda de vidas.

O prefeito da Capital, Sebastião Melo, deu um panorama da situação em Porto Alegre. Ele citou que a prefeitura trabalha no refinamento do sistema de contenção às cheias e destacou a obra no bairro Guarujá, na Zona Sul. Afirmou que todas as casas de bombas da Capital estão funcionando e que mais nove casas de bombas estão sendo implementadas. Assim, a Capital ficará com 32 no total. _

Defesa Civil amplia frentes para lidar com limitações dos alertas

O coordenador Estadual de Proteção e Defesa Civil, coronel Luciano Chaves Boeira, falou das limitações do sistema de alertas durante a coletiva e explicou que os modelos de previsão divergem para os mesmos períodos. Desde a enchente histórica de 2024, porém, o órgão se reestruturou e conseguiu ampliar a margem para prevenção, com instalação de radares e aumento da equipe:

- Não estamos blindados, mas estamos desde 2024 trabalhando na preparação.

De acordo com o coordenador, 134 municípios do RS já são monitorados nacionalmente para contenção de cheias em áreas de risco. Boeira citou também o conhecimento local como algo que faz a diferença diante das divergências.

São três frentes de atuação com gabinetes de crise, conforme o coronel, em Santa Maria, Lajeado e São Sebastião do Caí.

- Não tínhamos essa capacidade dois anos atrás. Hoje temos condições de fazer esses movimentos, sempre alinhados com as prefeituras municipais e de forma antecipada - completou o coordenador da Defesa Civil do RS. 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

27 de Julho de 2026
CLAUDIA LAITANO

Espelho

Eu teria xingado muito na internet - se isso fosse uma possibilidade. Como alguém tinha conseguido transformar o livro perfeito em uma historinha boba e arrastada? Não, não sou eu odiando A Odisseia do Nolan, mas Claudinha, em março de 1977, reagindo ao primeiro episódio do Sítio do Picapau Amarelo na televisão. Eu tinha acabado de ler Os 12 trabalhos de Hércules e estava em estado de maravilhamento absoluto - com Monteiro Lobato, com a mitologia grega, com o livro perfeito. 

E talvez houvesse nessa rejeição inicial o gérmen da percepção de que há sempre três histórias correndo em paralelo em qualquer adaptação: a que o autor escreveu, a que alguém recriou e a versão insuperável, que é aquela que rola na cabeça do leitor. (Outras crianças devem ter tido a mesma reação decepcionada porque algum tempo depois o primeiro roteirista foi demitido, a trama ficou mais ágil, e o Sítio virou o fenômeno que marcou a minha geração.)

A estreia de A Odisseia arrasou nas bilheterias, mas foi especialmente bem-sucedida como geradora de pitacos aleatórios entre leitores e não leitores. Dos fãs da Marvel aos professores de cultura clássica, da machosfera aos decolonialistas, de quem cita Homero no original a quem nem sabia que havia gregos dentro do cavalo.

Eu gostei e quero ver de novo. Mas o pitaco que eu queria dar aqui não é exatamente sobre o filme (você já deve ter lido o suficiente e ainda vai ler mais até o Oscar de 2027), mas sobre adaptações em geral. Porque não existem apenas as boas e as ruins, mas as que apostam em uma leitura original e as que vão na onda da trama episódica, sem muita preocupação em construir uma nova camada de significados. 

Se você assistiu Troia (2004), de Wolfgang Petersen, conhece um ótimo exemplo de adaptação diet em inteligência e profundidade. Trata-se de uma leitura não apenas superficial de Homero, mas chocha em termos de ideias. Na minha classificação, essa é a típica adaptação falhada. Não porque deixou os deuses de lado ou porque Brad Pitt faz um Aquiles que é a cara do? Brad Pitt, mas porque não há élan vital na leitura de Petersen.

Você pode não ter gostado de A Odisseia porque é o melhor leitor de Homero desde a invenção do alfabeto grego ou porque acredita que uma superprodução hollywoodiana jamais teria "gravitas" suficiente para recriar um clássico, mas não pode negar que Christopher Nolan tem uma interpretação oportuna para oferecer. 

Partindo de uma obra que há séculos vem provocando reflexões sobre diferentes épocas e circunstâncias, o cineasta britânico queria narrar não apenas a jornada de Ulysses, mas a trágica história de um povo grandioso que ergue e destrói coisas belas - e guarda o péssimo hábito de achar feio tudo que não é espelho. _ As que apostam em uma

leitura original e as que vão na onda da trama episódica

CLAUDIA LAITANO

 

Percalços e horizontes

da agricultura familiar

Dois levantamentos divulgados na semana passada dão a dimensão da importância e dos desafios da agricultura familiar no Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo que o trabalho exercido em pequenas propriedades gera 42% do Valor Bruto da Produção (VBP) da agropecuária gaúcha, cerca de R$ 47 bilhões, esse misto de atividade econômica com modo de vida tem o futuro turvado pela falta de sucessão e pelas dificuldades para se viabilizar financeiramente. É preciso encontrar caminhos para dar novas perspectivas a esses mais de 360 mil estabelecimentos existentes no Estado.

Um dado de uma pesquisa que constou no livro Agricultura Familiar em Transformação, lançado na quarta-feira, ilustra bem esse momento cercado de incertezas. Um levantamento com 662 produtores ligados à Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do RS (Fetraf-RS), de 34 municípios, concluiu que mais da metade dos entrevistados (53%) não tem a intenção de investir na propriedade nos próximos anos. É um sintoma claro do sentimento de que as melhorias não dariam retorno, talvez fruto das dificuldades atuais. 

O principal obstáculo apontado é o encarecimento dos insumos. Os eventos climáticos extremos e os preços não remuneratórios dos produtos que vendem também geram desânimo. São os fatores que levaram os produtores ao endividamento.

Mas, muito além de fatores conjunturais, as famílias que vivem, trabalham e empreendem no campo enfrentam a dúvida sobre quem tocará as propriedades no futuro. Dados apresentados pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag) escancaram o problema do envelhecimento no campo e da falta de jovens dispostos a seguir nas propriedades. A opção tem sido o êxodo para as cidades. A partir dos dados do IBGE, a entidade demonstra que, da população rural do Estado, apenas 10% tem idade entre 25 e 35 anos e somente 2% está na faixa abaixo de 25 anos.

A agricultura familiar é um ativo econômico e social do RS. Está na base da organização de diversas cadeias que estão entre as mais importantes do Estado. Entre elas, a do fumo, a da suinocultura, a da avicultura e a da vitivinicultura. Sem esquecer da produção diversificada dos hortigranjeiros que chegam todos os dias às mesas da população urbana. A agricultura familiar é, ainda, cada vez mais reconhecida pela qualidade das agroindústrias, onde agrega valor ao que extrai da terra.

É natural que uma parcela de jovens opte por outros tipos de trabalho e é positivo que busque a cidade para avançar na escolaridade. Ainda assim, a manutenção dessa tendência indica que milhares de pequenas propriedades, em um futuro nem tão distante, podem parar de produzir alimentos por inviabilidade e por não terem quem trabalhe nelas. Convém analisar se políticas de crédito, de seguro rural, de capacitação e de assistência técnica para enfrentar os desafios das mudanças climáticas estão adequadas a essa nova realidade. Ao mesmo tempo, é preciso viabilizar melhor infraestrutura no meio rural e pensar em formas de proporcionar maior mecanização e investimento em tecnologia para que morar no campo volte a ser atrativo para os jovens, em termos remuneratórios e de qualidade de vida. _

A atividade está na base da organização de diversas cadeias que estão entre as mais importantes do Rio Grande do Sul

27 de Julho de 2026
EM FOCO - Mathias Boni

Com baixo crescimento da população, atividade demanda maior eficiência e melhor ambiente de negócios

Estudo do Instituto Fecomércio-RS de Pesquisa sobre a economia gaúcha entre 2002 e 2023, quando PIB teve aumento inferior à média nacional, mostra caminhos para estimular o desenvolvimento. Analistas ouvidos destacam importância de investir em educação e infraestrutura, além de reduzir burocracia

Produtividade é a chave para RS acelerar economia

Entre 2002 e 2023, o RS registrou o menor crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país e viu a produtividade do trabalho avançar abaixo da média brasileira. Com o envelhecimento da população gaúcha, a melhoria na eficiência é o principal caminho para acelerar de forma sustentada a economia do Estado.

O diagnóstico faz parte da série Estudos em Crescimento Econômico e Produtividade, do Instituto Fecomércio-RS de Pesquisa (Ifep-RS), que, além de mapear fatores que limitaram o desempenho da economia gaúcha nas últimas duas décadas, mostra frentes estratégicas para reverter esse cenário. Educação, infraestrutura e melhoria no ambiente de negócios são os caminhos apontados.

No período analisado, o PIB gaúcho cresceu 34%, desempenho inferior à média nacional (58%) e aos demais Estados do Sul. No Paraná, o crescimento foi de 55%; em SC, de 65%.

- Nessas duas décadas analisadas no estudo, vimos o RS ficando pra trás no crescimento econômico, e o baixo índice de produtividade é fundamental para entender esse resultado. O reforço desse indicador é uma oportunidade de sustentarmos o nosso crescimento de forma mais consistente no longo prazo - diz o economista Lucas Schifino, gerente de Relações Governamentais da Fecomércio-RS e diretor-executivo do Ifep-RS.

O estudo terá quatro publicações. Por enquanto, ZH teve acesso à primeira, que faz o diagnóstico da economia gaúcha. A partir dela, a reportagem ouviu especialistas para abordar questões apontadas e possíveis soluções. Outras partes vão abordar limites do crescimento populacional como alavanca de desenvolvimento, o gargalo de produtividade do Estado e como ele aparece na estrutura setorial da economia gaúcha. _

Diagnóstico apontado - População x produtividade

O levantamento mostra que fatores demográficos também ajudam a explicar o desempenho econômico do Estado. Entre 2002 e 2023, o RS teve o menor crescimento populacional proporcional do país, com alta de apenas 8%, menos da metade da média nacional (18%). No mesmo período, Santa Catarina cresceu 39% e o Paraná, 18%.

Segundo o professor do Programa de Mestrado Profissional de Economia da UFRGS Maurício Weiss, o envelhecimento da população e a dificuldade de reter profissionais tornam ainda mais importante aumentar a produtividade da economia: - O Rio Grande do Sul tem o problema do baixo crescimento populacional e do envelhecimento, além de enfrentar o desafio de reter profissionais. Uma população maior amplia a oferta de mão de obra e o mercado consumidor, contribuindo para o crescimento da economia.

Entre 2002 e 2023, a produtividade do trabalho cresceu, em média, 0,65% ao ano no Estado, abaixo da média nacional, de 0,94%. Weiss destaca que o aumento da produtividade amplia a capacidade de elevar a renda dos trabalhadores sem comprometer investimentos.

Educação como alavanca

Segundo especialistas, a melhoria da educação básica e da formação profissional é uma das principais oportunidades para acelerar a produtividade da economia gaúcha.

No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2023, o RS ficou atrás dos demais Estados da Região Sul nos anos iniciais e finais do Ensino Fundamental. No Ensino Médio, empatou com Santa Catarina. No Indicador Criança Alfabetizada de 2024, fortemente impactado pela enchente, o Estado registrou o quarto menor índice do país.

Para Ely José de Mattos, economista e professor da Escola de Negócios da PUCRS, investir na formação dos estudantes e ampliar a qualificação profissional pode produzir efeitos diretos sobre a competitividade: - Resultados ruins na formação têm como consequência menor disponibilização de mão de obra qualificada para o mercado local, e esse fato afeta a produtividade na ponta final da cadeia. A qualificação do ensino de base e o reforço de complementação de formação profissional, além de maiores incentivos para a retenção e atração de talentos, são o caminho.

Ambiente de negócios

Outra frente destacada pelo levantamento envolve melhorias no ambiente de negócios. Segundo o economista Lucas Schifino, medidas voltadas à simplificação tributária, redução da burocracia e maior segurança para investimentos favorecem o aumento da produtividade ao estimular inovação e modernização das empresas.

Especialistas convergem na ideia de que o desafio do Rio Grande do Sul vai além de crescer mais rapidamente. Em um Estado marcado pelo envelhecimento da população e pelo baixo crescimento demográfico, aumentar a produtividade tende a ser o principal caminho para elevar a renda, ampliar a competitividade das empresas e sustentar o desenvolvimento econômico nas próximas décadas.

Infraestrutura e competitividade

Outro eixo avaliado pelo estudo é a infraestrutura logística. Segundo o presidente da Câmara Brasileira de Logística e Infraestrutura (Câmara Log), Paulo Menzel, o RS ainda depende excessivamente do transporte rodoviário, enquanto possui baixa utilização de modais como hidrovias e ferrovias.

Na avaliação dele, ampliar essa diversificação e modernizar a infraestrutura logística pode reduzir custos e tornar as empresas gaúchas mais competitivas: - Hoje o Estado tem um custo logístico que é um dos maiores do país. Nossa dependência rodoviária é muito grande, praticamente não utilizamos outros modais.

 

27 de Julho de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

O futuro das capivaras do Arroio Dilúvio

No dia 19, final de manhã de domingo, quando se anunciava um temporal sobre Porto Alegre, fui até a foz do Arroio Dilúvio, na Avenida Ipiranga, ver como estava a situação das capivaras que ali habitam há cerca de dois anos. Aquela área, próxima à ponte sobre a Avenida Beira-Rio, se tornou ponto de observação de quem gosta de apreciar animais selvagens com relativa proximidade, ainda mais as simpáticas capivaras, ícones pop das redes sociais.

Por conhecer a região, não esperava limpeza total. Mas até me surpreendi com um dos lados da ponte, mais próxima às torres gêmeas, com grama aparada e sem sujeira. Do outro lado, a surpresa de contar 25 animais, entre eles muitos filhotes, deu lugar à desilusão - seguida da revolta: os bichos descansavam entre sacos plásticos, papel e todo o tipo de lixo. Alguns, mais afoitos, inclusive comiam o plástico, o que é, obviamente, prejudicial à sua saúde.

Procurei a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus) de Porto Alegre, que informou que sua função é monitorar a saúde dos animais e que o tema está sendo coordenado pela vice-prefeita, Betina Worm, veterinária de formação.

Conversei longamente com ela, que atribuiu a sujeira a um fim de semana de fortes ventos.

- Tivemos alerta meteorológico, com rajadas de entre 40 km/h e 60 km/h. Temos mantido aquela área limpa, passo ali com frequência. A secretária do Gabinete da Causa Animal (Tatiana Guerra) mora perto, e todos os finais de semana vai ali para ver como estão - diz Betina.

Não se trata apenas de um tema de limpeza urbana, obviamente, embora esse tenha sido o motivo inicial da minha inquietação. Ao conversar com a vice, entendi que a situação é muito mais complexa. A questão precisa ser observada por diferentes ângulos, a começar pelo nosso, como seres humanos. Não são as capivaras que estão invadindo o espaço urbano. Elas só estão na cidade porque nós reduzimos o seu espaço.

Betina contou que os animais chegaram em 2024, com a enchente. A fêmea deu à luz cinco filhotes. Em maio de 2025, GZH mostrou que sete animais viviam ali. Hoje, são 25.

A vice afirma que tem buscado conversas com o governo do Estado e com o Ibama. Destacou que, por se tratar de animais silvestres, há riscos:

- São de difícil manejo, é um bicho rápido. Até mesmo ao se fazer uma sedação, com zarabatana, ou dardo tranquilizante, eles se jogam na água e morrem afogados. Podem se machucar e morrer.

Próximos passos

Há duas estratégias em vista pela prefeitura. A primeira deve ser monitorar os animais. Há duas semanas, foram feitos exames para que se verifique a presença de ectoparasitos:

- Não temos o carrapato-estrela, veículo da febre maculosa, que pega em gente e mata.

A segunda estratégia é o controle reprodutivo, com castração de fêmeas e vasectomia de machos.

- Por que não castração do macho? Porque, se a gente faz só a vasectomia, não exclui o fator macho alfa, liderança. Como são territorialistas, tendem a formar grupos e colônias em determinada área, e, se entra alguém de fora, eles brigam. Esse vai ser o nosso grupinho monitorado - diz.

Reflexão

O ideal é que as pessoas façam sua parte, que coloquem o lixo no lugar onde não é levado pelo vento. Motoristas devem ter atenção ao circular pela área. E curiosos, como eu, devem observar à distância, não tocá-los, não alimentá-los e, muito menos, assustá-los. De tempos em tempos, vale cobrarmos do poder público, estarmos atentos à saúde dos animais e à sujeira no entorno. Vamos aprender a conviver com os novos "cidadãos" de Porto Alegre, nossos simpáticos vizinhos. _

Passagens rodoviárias

O Shopping Total, em Porto Alegre, terá um totem de autoatendimento para a compra de passagens rodoviárias intermunicipais. A parceria foi firmada com a empresa Ouro e Prata, porém contemplará outras concessionárias de viagens do Estado, ampliando as opções de destinos e oferecendo acesso a deslocamentos para todas as regiões do Rio Grande do Sul. A operação teve início na semana passada, e o serviço está disponível no primeiro andar do shopping. _

Competências humanas e IA

O ex-diretor do LinkedIn para a Europa e América Latina, Borja Castelar, será um dos palestrantes do CongregarRH 2026. O evento, promovido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos - seccional do Rio Grande do Sul (ABRH-RS), ocorrerá entre 30 de setembro e 2 de outubro, na PUCRS, em Porto Alegre.

No LinkedIn, Castelar comandou a área de Soluções de Talentos por quase uma década. Ao longo da carreira, realizou mais de 700 palestras em 25 países e publicou três livros sobre liderança, persuasão e habilidades humanas. No CongregarRH, o especialista abordará o papel das competências humanas em um cenário corporativo cada vez mais impactado pela inteligência artificial. 

Apoio para a Defesa Civil

Para auxiliar nos trabalhos de assistência às pessoas afetadas pelas cheias registradas nos últimos dias no Estado, o Instituto Cultural Floresta (ICF) cedeu antenas Starlink para as Defesas Civis do RS e de Porto Alegre.

Na última semana, o órgão estadual recebeu 10 equipamentos; já o da Capital acessou três unidades. Os aparelhos já estão em campo com as equipes enviadas para as regiões Central, Ilhas e Vale do Taquari. Os dispositivos garantem acesso à internet em localidades isoladas. As antenas pertencem ao acervo do ICF, entidade que, na enchente de 2024, adquiriu e cedeu mais de 330 unidades para o uso de equipes de resposta. 

Empresa gaúcha e a moda circular

A Lojas Renner e a Aalto University - uma das mais reconhecidas instituições de ensino da Finlândia e do mundo nas áreas de design, moda, inovação e sustentabilidade - desenvolveram, no primeiro semestre, uma parceria para fomentar a moda circular. A iniciativa reuniu profissionais das áreas de produto, estilo, matérias-primas e sustentabilidade da empresa gaúcha, além de estudantes e docentes do curso de Mestrado em Fashion, Clothing and Textile Design da universidade.

A equipe da Renner participou de atividades e visitas a laboratórios e oficinas da Aalto, incluindo espaços dedicados ao estudo de biomateriais e à experimentação de novas tecnologias têxteis. 

Democracia "relativa"

Em 29 de junho de 2023, o presidente Lula, em sua primeira entrevista à Rádio Gaúcha, respondeu ao questionamento deste colunista sobre por que não considerava Venezuela e Nicarágua ditaduras, afirmando que "democracia é um conceito relativo". Na semana passada, em resposta à fraca posição do Brasil sobre o fim do voto na Nicarágua, o ditador Daniel Ortega declarou: "Nossa democracia, nossas eleições". _

INFORME ESPECIAL