terça-feira, 29 de setembro de 2026

29 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

Não poderia ser coincidência

Eu estava no barbeiro. Na cadeira ao meu lado, sentou-se um jovem. O cabeleireiro perguntou qual corte queria.

O rapaz mostrou uma série de imagens preparadas pelo ChatGPT, indicando como deveria ficar seu cabelo ao longo de cinco meses, fotograma por fotograma. Não orientou verbalmente como desejava seu novo penteado; serviu-se de uma insólita fotonovela no celular. Peguei um Uber para o supermercado.

Não consegui identificar as músicas que tocavam no carro. Parecia Bon Jovi, mas não era. Tirei a cisma: - O que anda ouvindo?

O motorista me respondeu que só colocava canções geradas por inteligência artificial, que não perdia mais tempo com bandas reais. A interpretação, as melodias e o fundo sonoro correspondiam a uma ficção engendrada de acordo com os seus comandos.

Imaginei que ele dominava o inglês. Ele disse que não. Então, reproduzia músicas biônicas sem sequer entender a letra. Achei muito estranho. Não censurei. Não comprei discussão. A minha nota no aplicativo já andava baixa.

Parei no supermercado. Num dos corredores, um homem atendia ao telefone no viva-voz. Assumi que estava falando com a esposa, conferindo sua lista. Mas eu conhecia aquele timbre. Ele conversava com sua Alexa, questionando o preço de cada produto que apanhava das estantes, checando se valia a oferta. Efetuava uma comparação minuciosa de valores antes de encher o carrinho. Raciocinei: "Que loucura!".

Encontrei no caixa um colega de academia. Ele me cumprimentou e comentou que vinha se tornando escritor como eu. Dei os parabéns. Pedi para antecipar o assunto da obra. Tratava-se de uma história de terror que havia feito num dia.

- Um dia? - eu me espantei. Daí ele explicou que usou o ChatGPT.

Ou seja, não foi ele que escreveu. Apenas passou uma sinopse para que a máquina realizasse o trabalho em seu lugar, sob encomenda. Jamais desconfiou de quais autores o assistente virtual havia se alimentado para simular um estilo. Afinal, a ferramenta elabora suas sugestões a partir de uma imensa massa de textos existentes. Nada se cria, tudo se copia.

Voltei para casa com a certeza de que convivo com androides. Abdicamos da espontaneidade e da autonomia para ações banais. Delegamos a maioria de nossos prazeres e funções ao pensamento robotizado. Não suportamos as dúvidas, não aprendemos com as hesitações, não inventamos saídas.

A pressa nos substituiu.

Eu me lembrei de uma entrevista com Dario Amodei, CEO da Anthropic. O físico americano defende que as empresas desacelerem o desenvolvimento dos modelos mais avançados de IA para que os mecanismos de segurança acompanhem a evolução da tecnologia.

O padrinho da IA, Geoffrey Hinton, também alertou sobre os crescentes perigos decorrentes dos progressos na área: - No momento, pelo que posso perceber, eles não são mais inteligentes do que nós. Mas acho que em breve serão.

O que eu sei é que ninguém mais corta o cabelo sem IA. Ninguém mais escuta música sem IA. Ninguém mais faz compras sem IA. Ninguém mais concebe livros sem IA. Não poderia ser coincidência. 

CARPINEJAR

29 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

Tarefas à frente na segurança pública

Entre os serviços essenciais prestados pelo Estado à população, é inequívoco que a segurança pública tem apresentado os melhores resultados. As estatísticas mostram que 2025 foi, pela terceira vez consecutiva, o ano mais seguro da atual série de indicadores, com a continuidade da queda de assassinatos e de outros crimes, como roubos e furtos. Em 2017, no ápice da violência no Rio Grande do Sul, foram 2.706 homicídios dolosos. No ano passado, recuaram para 985, redução expressiva de 63,3% no período. Foi o resultado de políticas como o RS Seguro, programa baseado em evidências e voltado a sufocar a delinquência nos municípios com maiores índices de criminalidade.

Esse reconhecimento, porém, não significa que a segurança pública tenha vencido todos os seus principais desafios, como aponta a sétima reportagem da série (leia nas páginas 4 e 5) que o Grupo RBS está produzindo sobre prioridades do próximo governo gaúcho para o RS alcançar maiores patamares de desenvolvimento socioeconômico. Apesar dos avanços, há frentes em que o Estado ainda precisa entregar melhores resultados.

Um deles é o combate aos feminicídios. O delito voltou a crescer em 2025 e segue em alta em 2026. Outro é o enfrentamento aos golpes. Se tornaram o principal crime patrimonial no país, notadamente por meios virtuais. O crescimento da população carcerária em um ritmo muito superior à criação de vagas também é um gargalo à espera de soluções.

Os esforços contra a violência doméstica são evidentes, mas não têm sido suficientes. O programa de monitoramento de agressores por tornozeleira eletrônica é exemplar e pode ser expandido. As patrulhas Maria da Penha prestam um serviço reconhecido, mas estão em menos de um terço das cidades do Estado. 

As Delegacias da Mulher podem ter o número ampliado. É preciso ainda que uma quantidade maior funcione 24 horas por dia, como exige a legislação federal, o que acontece apenas com uma, na Capital. Também faltam abrigos para mulheres sob ameaça. São medidas preventivas necessárias para interromper o ciclo da violência doméstica. Mas sabe-se que uma solução estrutural depende de um processo educativo de longo prazo que dilua a cultura do machismo.

Os golpes virtuais são outra fonte de dor de cabeça para os cidadãos. Não envolvem violência física, mas causam prejuízos e deixam sequelas psicológicas nas vítimas. Essa nova realidade exige aparelhamento tecnológico da Polícia Civil e capacitação dos recursos humanos para investigar, identificar e alcançar os responsáveis pelos estelionatos online. 

Sabe-se também que não são praticados por criminosos dispersos. Nota-se o envolvimento das facções e o surgimento de estruturas sofisticadas para aplicar esses golpes, com divisões de tarefas e metas de faturamento.

Por fim, chama atenção que, entre 2018 e este ano, enquanto a quantidade de detentos cresceu em 17 mil, somente 5,2 mil vagas foram criadas no sistema prisional gaúcho. Assim, o RS voltou a registrar presos em viaturas, o que se imaginava superado. 

Não é apenas o custodiado pelo Estado que é afetado pelas más condições. Quando os presídios facilitam a cooptação de detentos por facções e não propiciam a ressocialização, o resultado é a realimentação da criminalidade. 

29 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER

Juliana promete fim de desconto previdenciário

Os compromissos assumidos por Juliana Brizola (PDT) na sabatina da Rádio Gaúcha combinam redução de receita e aumento de despesas, sem indicar uma fonte certa de financiamento. A candidata se comprometeu a, no primeiro ano de governo, acabar com o desconto previdenciário dos professores aposentados, para tornar mais atrativa a carreira do magistério. Ao mesmo tempo, acenou com reajuste salarial para professores e servidores de diferentes carreiras e com a realização de concurso para acabar com os contratos temporários no magistério.

A candidata disse que tem a palavra do presidente Lula de que, se reeleito, prorrogará o Funrigs para que o Rio Grande do Sul possa se reerguer.

Outra fonte de recursos, esta ao alcance de uma assinatura, é a adesão ao Propag, que, porém, significa retomar o pagamento da dívida e usar a parte relativa aos juros para investir em áreas estratégicas. Juliana quer empregar essa diferença em saúde, educação e irrigação.

Repetidas vezes a candidata citou a abertura de "uma mesa de diálogo", como se os governos até aqui não conversassem com as partes interessadas. Ao garantir que manterá o salário mínimo regional, por exemplo, disse que vai dialogar com empresários e trabalhadores, o que os governos fazem desde a instituição do piso. Sem acordo, acabam arbitrando um percentual entre a demanda dos sindicalistas e a pressão dos empresários contra qualquer aumento. _

Falsa polêmica sobre Aparecida tira foco do que importa na campanha

Enquanto os dois candidatos que lideram as pesquisas de intenção de voto seguem discutindo a falsa polêmica que envolve o título de "padroeira do Brasil", dado a Nossa Senhora Aparecida pelo papa Pio XI em 1930, os assuntos relevantes para a definição dos indecisos seguem em segundo plano. Sem provas, Flávio acusou setores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de estimularem a divulgação de fake news. A CNBB rebateu dizendo que "não se combate uma mentira com outra mentira".

- Não fico dando pitaco (sobre) como é que a Igreja Católica tem de seguir as suas regras. O Estado não tem de se meter nisso, e o Lula, num ato de desespero, ele inclusive foi desmoralizado, foi desmascarado ao vivo ontem numa entrevista na Band, onde ele tentou insistir com isso e o repórter prontamente falou: "Ó, presidente, isso é uma fake news". _

Virou moda no Brasil o réu ou o autor de uma ação querer escolher o juiz. As bets entraram com ação no Supremo contra a proibição dos jogos, determinada pelo presidente Lula, e pediram que o ministro Luiz Fux seja designado relator.

Rigotto entra na mira da direita

Preocupados com o empate indicado em todas as pesquisas na disputa pelo Senado, candidatos e aliados da direita deram início a uma ofensiva contra o ex-governador Germano Rigotto, que concorre a senador pelo MDB.

Aliados dos dois candidatos partiram para o ataque, dizendo que "quem vota no Rigotto está ajudando a eleger a Manuela" ou "a eleger Manuela e Pimenta". _

Campanha à sombra de maridos

No Rio Grande do Sul, há candidatas que não usam o nome do marido no documento de identidade, mas escolheram o sobrenome para tentar conquistar votos do cônjuge. Regina Becker usa o "apêndice" Fortunati (referência ao marido e ex-prefeito da Capital) há várias eleições.

Ricardo Salles repete atitude de Comandante Nádia

Os gaúchos já viram em 2022 o filme que Ricardo Salles protagonizou ontem em São Paulo, ao abrir mão da candidatura ao Senado pelo Novo. No RS, foi a Comandante Nádia, à época candidata pelo PP, quem desistiu da candidatura ao Senado às vésperas da eleição em favor de Hamilton Mourão (Republicanos), que acabou eleito. O temor era de que a divisão da direita acabasse elegendo o ex-governador Olívio Dutra (PT). À época, Nádia havia gasto R$ 3,7 milhões recebidos do diretório nacional do PP.

Salles desistiu da candidatura a menos de uma semana da eleição, convencido pelo governador Tarcísio Gomes de Freitas a ajudar Guilherme Derrite (PP), o candidato da direita que está empatado com Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede). Salles, ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro, já tinha recebido mais de R$ 4,4 milhões para a campanha, sendo R$ 3,1 milhões do fundo eleitoral do Novo e R$ 470 mil da direção estadual do partido. 

POLÍTICA E PODER

29 de Setembro de 2026
EM FOCO

Sob a pressão de se adaptar para ter mais segurança

Dados mostram que não se trata apenas de reduzir a criminalidade no Estado, mas de ajustar as estruturas existentes às novas formas de violência e a problemas que se agravaram nos últimos anos. Alta nos feminicídios, avanço dos golpes virtuais e presídios superlotados desafiam a proteção pública, aponta a quinta reportagem da série Desafios do Rio Grande do Sul

Em 2017, há menos de 10 anos, o RS viveu o período mais violento de sua história recente. Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado, foram 3,1 mil vítimas de crimes violentos letais intencionais, como homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte. Em 2016, foram registrados os maiores números de roubos (88,5 mil) e latrocínios (169) da série histórica que remonta a 2002.

Estes crimes tiveram quedas significativas de lá para cá. O ano de 2025 teve os menores registros de vítimas de crimes letais intencionais (1,1 mil) e roubos (18,7 mil) nos 23 anos de dados.

Mas, o cenário da segurança pública mudou. Se os homicídios dolosos tiveram quedas recordes, a violência contra a mulher continua fazendo vítimas. Se os assaltos diminuíram, a vivência no ambiente digital é ameaçada pelos golpes - os registros de estelionato cresceram quase 372% em 10 anos. E a população carcerária cresce em ritmo superior ao da criação de novas vagas.

Esta é a quinta reportagem da série Desafios do RS, do Grupo RBS, a partir de ouvidorias realizadas pelo Conselho Editorial da RBS junto a diferentes setores da sociedade e da consulta a fontes independentes. _

1| Violência contra a mulher

Após atingir o menor número da série histórica em 2024, os feminicídios voltaram a crescer. Em 2025, foram 80 casos, aumento de quase 10% em relação ao ano anterior. A alta também aparece nas tentativas de feminicídio. Em 2025, foram 263 casos, contra 236 em 2024, crescimento de 11,4%.

E o cenário permanece preocupante em 2026. Até agosto, o RS contabilizou 55 feminicídios, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública.

Atualmente, cerca de 1,5 mil homens são monitorados por tornozeleiras eletrônicas, enquanto mulheres sob medida protetiva podem receber telefones que emitem alertas quando o agressor se aproxima. Mas a rede de proteção e as estruturas estatais para enfrentar o problema ainda estão concentradas em algumas regiões, sem acompanhar a migração populacional recente, especialmente impulsionada pela pandemia. O RS tem 25 delegacias da Mulher. Duas ficam em Porto Alegre e só uma, também na Capital, funciona 24 horas - contrariando legislação federal que exige o funcionamento ininterrupto. Cinco delegacias tiveram o horário ampliado até as 20h em 2025.

Em 2026, o Estado anunciou a criação de nova delegacia especializada em Santiago, na Região Central. Outras áreas ainda carecem dessa estrutura: é o caso do Litoral Norte, que não tem nenhuma, e do Vale do Paranhana.

Outra política fundamental no campo da polícia é a Patrulha Maria da Penha. São 63 equipes, que atuam em 114 municípios e acompanham quase 16 mil vítimas. Isso significa presença em cerca de 23% das cidades gaúchas.

Um gargalo importante está na rede de acolhimento: não há abrigos para vítimas em todas as cidades. O desafio, portanto, extrapola a atuação das forças de segurança. Envolve assistência social, saúde, educação e políticas específicas para mulheres. _

2| População carcerária

Em setembro de 2026, a população carcerária chegou a cerca de 57 mil pessoas, o maior número da história do Estado. O avanço ocorre mesmo com a inauguração de novas unidades prisionais, como a Cadeia Pública de Porto Alegre, a Penitenciária de Charqueadas 2 e uma nova prisão feminina em Caxias do Sul.

O último relatório da Secretaria Nacional de Políticas Penais aponta que o RS tem o quinto maior déficit de vagas prisionais do país. Dados do governo mostram que faltam 15.352 vagas. Hoje, o RS tem 104 casas prisionais, o quarto maior número entre os Estados brasileiros.

Para a defensora pública Mariana Py Muniz, o problema é que o número de presos cresce em ritmo superior à capacidade de criação de novas vagas. Segundo ela, uma nova unidade pode começar a funcionar já próxima da lotação.

A expansão do número de presos é ligada ao aumento no rigor de penas com novas legislações, como a Lei Antifacção, e à qualificação de inquéritos policiais. Também há o problema dos presídios mistos masculinos e femininos. Hoje, são 4.150 mulheres presas no Estado, sendo 1.120 em presídios exclusivos para mulheres, 1.202 em presídios mistos e 1.828 monitoradas por tornozeleiras.

O bloqueio do sinal telefônico nos presídios também precisa ser resolvido. A empresa contratada para operar o sistema na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas teve o contrato rompido e a nova vencedora não conseguiu resolver o problema, admite o Estado.

Por outro lado, especialistas apontam como avanço a transferência para a Polícia Penal da gestão de unidades que ficaram sob responsabilidade da Brigada Militar por décadas. A corporação assumiu a administração do Presídio Central e da Penitenciária Estadual do Jacuí em 1995. A transição começou a ser retomada nos últimos anos e foi concluída na PEJ em junho. _

3| Golpes virtuais

Os registros de golpes virtuais aumentaram cerca de 8% no último ano, e uma parcela dos casos nem chega ao conhecimento da polícia. O crescimento da criminalidade digital também pressiona uma estrutura policial que foi organizada para investigar crimes praticados de forma mais tradicional.

Dados obtidos pela reportagem, por meio da Lei de Acesso à Informação, mostram que, entre 2020 e 2025, a Polícia Civil remeteu 77.326 inquéritos de estelionato à Justiça. Em cerca de sete em cada 10 casos, não houve indiciamento de um suspeito. Além da especialização dos agentes, outro desafio está na troca de informações entre o setor público e empresas privadas. Parte do conhecimento sobre métodos usados pelos criminosos permanece dentro das empresas que identificam os ataques. _

Soluções passam por especialização e inteligência

Os desafios são diferentes, mas as potenciais soluções têm um ponto em comum: não dependem apenas do aumento do efetivo policial ou da construção de novas prisões. Para enfrentar a violência contra a mulher, especialistas defendem ampliar a rede de proteção e levar o atendimento especializado a mais regiões. Nos crimes virtuais, a aposta é na especialização das investigações e na integração com empresas de tecnologia. No sistema prisional, a prioridade é controlar a ocupação das unidades de maneira inteligente e criar políticas para reduzir a reincidência.

A pesquisadora Marlene Spaniol, com pós-doutorado em Segurança Pública e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, defende a expansão da Patrulha Maria da Penha. Hoje, são 63 equipes atuando em 114 municípios. Uma das dificuldades para a expansão era a necessidade de formação específica dos policiais, exigência que, segundo ela, tende a ser superada porque o conteúdo passou a integrar os cursos de formação de todos os brigadianos.

A expansão da proteção também depende da existência de lugares seguros para mulheres ameaçadas. Para a promotora e coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher do MPRS, Ivana Battaglin, quando uma mulher em situação de violência não encontra abrigo no município onde vive, o Estado precisa oferecer alternativa, seja por meio de vagas em outras estruturas ou de outras formas de acolhimento. Para ela, a política precisa envolver também saúde, educação, assistência social e a Secretaria de Políticas para Mulheres.

Maior preparação

O programa de tornozeleiras eletrônicas para agressores é considerado um acerto. A ampliação do monitoramento é apontada como alternativa pelas especialistas. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, nunca houve feminicídio praticado por um dos agressores acompanhados por tornozeleira.

Nos crimes virtuais, os especialistas defendem que o Estado aproveite estruturas que já existem e aumente a especialização dos policiais. Para o doutor em Segurança Pública e professor da PUCRS Rodrigo Azevedo, investigar delitos cometidos por celulares, redes sociais e outras plataformas digitais exige conhecimento específico.

- É preciso que haja investimento na especialização da Polícia Civil, para que ela possa ter grupos especializados na investigação de crimes online de maneira descentralizada - argumenta.

O delegado, ex-chefe de Polícia Civil e doutor em Segurança Pública Emerson Wendt defende aproveitar estruturas que já existem na Polícia Civil, como as 27 delegacias de repressão às ações criminosas organizadas. Para ele, fraudes, extorsões, furtos e vazamentos de dados não devem ser tratados só como crimes isolados praticados na internet. Há, em muitos casos, organizações criminosas por trás das operações. E Wendt prega aproximação maior entre poder público e empresas privadas, que acumulam informações sobre fraudes, ataques e vazamentos de dados.

Controlar a ocupação

No sistema prisional, a defensora pública Mariana Py Muniz defende o controle do fluxo de entrada e saída dos presídios e a criação de uma central de regulação de vagas. A proposta inclui também revisar prisões provisórias nos casos previstos em lei, acelerar progressões de regime e utilizar alternativas penais quando cabíveis.

Para a doutora em Ciências Criminais Ana Carolina Proença, é preciso ampliar o acompanhamento de quem deixa o sistema prisional. Ela defende o fortalecimento dos chamados escritórios sociais, que ajudam na busca por emprego, qualificação profissional e acesso à assistência.

O professor Rodrigo Azevedo chama atenção especialmente para os primeiros meses após a saída. Para Azevedo, é necessário oferecer condições de empregabilidade e acompanhamento com participação do poder público e da iniciativa privada. 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

28 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

Epidemia bloqueada

Já é alguma coisa. A uma semana das eleições, o governo federal assinou uma medida provisória para proibir a atividade das bets no Brasil, comparando o vício em jogos online a uma epidemia.

Antes tarde do que nunca. Ainda não é um fato líquido e certo. Por ser uma medida provisória, a regra deve ser votada e aprovada pelo Congresso Nacional para virar lei.

O setor se tornou onipresente na publicidade do país. Aparecia como patrocinador dos uniformes e transmissões de jogos. Apenas na Série A do Campeonato Brasileiro, onde 14 das 20 equipes exibem anúncios das bets, os investimentos previstos para 2026 são de R$ 1,1 bilhão. Nove clubes da elite do Brasileirão possuem contratos com as plataformas com cifra superior a R$ 50 milhões.

Não há como oferecer um desconto no mercado de ilusões, ou mitigar a potência da tentação. É quase irrefreável a compulsão para antever resultados, começando pelo próprio time.

Todo mundo anseia ser profeta e dominar o futuro. Assim como você ganha, você perde muito. E o hábito faz você perder o que não tem. Chega um momento em que não se dá conta de quanto gastou.

Quando você acerta, sua ambição é atiçada e aplica tudo o que recebe em novas transações. Quando você erra, sua culpa é ativada e busca recuperar o prejuízo com a reincidência.

Não encontro alternativa a não ser a ilegalidade. Impedimos o jogo do bicho, as máquinas caça-níqueis, e não poderíamos considerar normal arriscar o número de escanteios, de gols, de expulsões, numa infinidade de prodigiosas casualidades em uma partida.

A colheita foi a inadimplência e a morte. Afora a ansiedade, o descontrole, a taquicardia durante os placares. O azar venceu a sorte, e atingiu a parcela mais carente da população. Até mesmo o Banco Central se mostrou receoso: em 2024, o tíquete médio das transferências para casas de apostas subiu mais de 200%.

Uma pesquisa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em R$ 38,8 bilhões anuais o custo social das apostas no país, dos quais R$ 30,6 bilhões estão ligados à saúde. É óbvio que a oferta de fácil enriquecimento atrairia quem mais precisava.

Houve o registro, somente em um mês, de que cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às bets via Pix. O montante corresponde a aproximadamente 20% do valor total repassado pelo programa naquele mês. Bolsa Família se transformou em Bolsa Bet.

Entre 2018 e 2025, os atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) motivados pela patologia aumentaram em torno de 140%. Os dados apontam uma mortalidade por suicídio 15 vezes maior entre indivíduos que sofrem com o transtorno do jogo em relação à população geral.

É evidente que amargamos um adoecimento insuflado por uma paixão: o futebol.

Agora quero ver como trataremos uma abstinência coletiva súbita. O SUS disponibiliza teleatendimento, mas será suficiente para sustentar a reabilitação de milhões de pessoas? Não se emerge de uma intoxicação psicológica sem acompanhamento. Não se sai sozinho do fundo do poço, exige-se sempre uma escada. 

CARPINEJAR

 

28 de Setembro de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Em nome do pai

Iniciativa do podcast Calma Urgente, em parceria com ICL, Mídia Ninja e 342 Artes, o vídeo Grandes Igrejas, Master Negócios, apresentado por Fábio Porchat, obrigou milhões de brasileiros a darem um pause nas informações picadinhas e/ou descontextualizadas para assistir a uma reportagem de 30 minutos sobre as conexões entre o escândalo do Banco Master, a igreja Batista da Lagoinha e o bloco dos "irmãozões do Vorcaro": Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Alexandre de Moraes e André Mendonça, entre outros. 

Tudo bem explicadinho e organizado cronologicamente, para facilitar a vida de quem já se perdeu em meio a tantos personagens e falcatruas diferentes. Publicado na última segunda-feira, o vídeo chegou perto de 10 milhões de visualizações antes do final da semana (somando o teaser no Instagram e o vídeo completo no YouTube).

Se você, como eu, ainda acredita que fatos movem montanhas (a mais doce das ilusões), talvez tenha ficado animado com a viralização do vídeo e com a quantidade acachapante de evidências contra Flávio Bolsonaro que se acumulam no noticiário - entre elas, a promessa de acatar todas as demandas de Donald Trump contra a soberania do Brasil. 

Do meu nada isento ponto de vista, parece uma escolha óbvia, mesmo para quem odeia o PT. Claramente não é. No próximo domingo, a disputa vai ser apertada, atroz, lancinante. Estaremos sofrendo todos, de um lado e do outro, sem conseguir entender como chegamos a este ponto de dissonância tão radical.

Nos últimos dias, estive lendo um livro que não acalmou minhas aflições, mas me ajudou a entender um pouco melhor por que aquilo que parece uma desgraça para 40% dos brasileiros é visto como a salvação da pátria para outros 40%. 

No já clássico Não Pense num Elefante (2004), lançado no Brasil este ano pela Editora Fósforo, o linguista George Lakoff nos lembra que todas as escolhas políticas são morais, mas nem todos compartilhamos da mesma moralidade. Se uma perspectiva dos fatos nos parece estapafúrdia é porque só conseguimos compreender aquilo que nosso cérebro permite. Lakoff sugere que progressistas e conservadores pensam segundo padrões distintos. 

No modelo "pai rígido", associado aos conservadores, o mundo é visto como um lugar perigoso, com hierarquias rígidas, e cada um deve cuidar apenas de si e da própria família. No modelo "pai acolhedor", progressista, o mundo pode se tornar um lugar melhor, para todos, e nossa função é trabalhar por isso.

Muitas pessoas estão no meio, ou seja, são "pai rígido" em algumas questões e "pai acolhedor" em outras. São os chamados "biconceituais" - e são eles que, no próximo domingo, vão começar a decidir o futuro do Brasil. 

CLÁUDIA LAITANO

28 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

Em constante alerta pelo El Niño

Os temporais do início da semana passada voltaram a lembrar os gaúchos dos riscos dos eventos climáticos extremos, potencializados pelo El Niño intenso em desenvolvimento. Tornaram a demonstrar também a necessidade de atenção constante e de preparação do Estado e dos municípios para enfrentar as chuvas intensas e suas consequências. Mesmo com todos os alertas, o Rio Grande do Sul voltou a registrar mortes, estragos em mais de 150 municípios e demora no restabelecimento da energia. O retorno do mau tempo neste início de semana, com nova previsão de precipitações volumosas, reacende a preocupação.

O Estado não precisa reviver uma enchente com dimensões semelhantes às de maio de 2024 para compreender que prevenção, mitigação de danos e adaptação, do poder público, das empresas e dos cidadãos, são palavras de ordem que passam a acompanhar os gaúchos nas próximas décadas diante dos prognósticos climáticos alarmantes. Chuvas copiosas, granizo, enxurradas repentinas, tornados e deslocamentos de massa também podem atingir municípios ou regiões de forma localizada, com resultados dramáticos.

Um exemplo foi o que ocorreu em Caxias do Sul, onde morreram quatro das seis pessoas vitimadas pelas tempestades de uma semana atrás. Um menino de quatro anos, a irmã de 13, e a mãe, de 43, estavam em um carro arrastado pela torrente do Rio São Marcos. No bairro De Zorzi, um homem foi sugado para uma galeria pluvial quando desobstruía um bueiro. Em Pelotas e Charqueadas, outros dois homens não resistiram ao contato com fios energizados caídos devido aos temporais. É outro tipo de perigo ligado ao clima extremo.

Em São Marcos, na Serra, o risco de rompimento de uma barragem fez cerca de 170 moradores da área serem retirados de suas casas. O número de pontos sem luz no Estado superou 900 mil. Na Zona Sul, neste fim de semana restavam milhares de clientes sem energia desde segunda-feira, sofrendo prejuízos e transtornos. Reclamavam ainda da dificuldade de comunicação com a CEEE Equatorial, concessionária da região. A situação demonstra que os eventos climáticos extremos, apesar de toda a preparação anunciada, seguem um desafio para as distribuidoras de energia. Revoltados, moradores bloquearam o trânsito na BR-392, entre Rio Grande e Pelotas.

O Estado evoluiu em sistemas de alerta, monitoramento e prevenção. Obras estão em andamento ou em fase de planejamento. O mesmo ocorreu com as cidades. As Defesas Civis foram fortalecidas de forma material e com recursos humanos capacitados. Os 497 municípios têm planos de contingência. O Rio Grande do Sul, nos próximos meses, vai ser submetido frequentemente a testes quanto à capacidade de resposta.

O El Niño de 2026/2027 tende a ter uma intensidade histórica. O pico do fenômeno é esperado para o final do ano, com decorrências trágicas pelas secas, enchentes e altas temperaturas que provoca em diferentes regiões do planeta. Na semana passada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou para o surto de doenças como a cólera e de enfermidades transmitidas por mosquitos. Um estudo do Climate Impact Lab, da Universidade de Chicago, projeta que, até fevereiro, o excesso de calor pode provocar mais de 400 mil mortes. É tempo de manter a guarda alta. 

OPINIÃO RBS

28 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Nem Nossa Senhora Aparecida escapa da baixaria

A campanha para eleição presidencial se encaminha para o final deixando para trás um rastro de descrença na civilização. A troca de acusações substituiu a discussão de propostas e os candidatos se esmeram para ver quem faz a proposta mais improvável de ser cumprida. O assunto dominante nas redes sociais no fim de semana foi a disputa que não respeitou nem mesmo Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil.

Como tudo neste país em que a política foi judicializada, a fake news sobre a possibilidade de Nossa Senhora Aparecida ser destituída do cargo ganhou pernas e foi parar no Supremo Tribunal Federal. E, como tudo o que cai no Supremo hoje vira disputa política, a história se repetiu.

O ministro André Mendonça mandou as plataformas tirarem do ar os conteúdos que trataram da falsa polêmica. Foram milhares de publicações, a maioria podendo ser caracterizada como fake news, outras com insinuações capazes de dar crédito a uma história distorcida por má-fé. O ministro Flávio Dino entrou em campo e revogou a decisão de Mendonça.

Na origem, um projeto arquivado em 2008

André Mendonça decidiu em favor do candidato Flávio Bolsonaro (PL), diante da fake news de que os católicos estariam preocupados com a possibilidade de Nossa Senhora Aparecida deixar de ser a padroeira do Brasil, em caso de vitória dele. Entre os vídeos que o ministro mandou remover estava um do humorista Antonio Tabet.

Na origem do boato está um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado federal Professor Victorio Galli, à época no PMDB. O texto do PL 2.623/2007 sugeria alterar a Lei nº 6.802/1980 para mudar o termo "Padroeira do Brasil" para "Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos". O projeto foi arquivado em 2008.

Dino mandou restabelecer as postagens alegando que a remoção prévia feria a liberdade de expressão e a liberdade religiosa, pois não havia um grau evidente e imediato de ilicitude no texto capaz de justificar a censura sem a devida instrução processual. _

Ainda que tardia e associada à campanha eleitoral, a decisão do presidente Lula de acabar com as bets tem potencial para garantir votos entre indecisos que não toleram a jogatina ou sofrem ao ver parentes viciados em apostas.

Candidatos concentram campanha na Capital e na Região Metropolitana

Com a necessidade de gravar os últimos programas da propaganda de rádio e TV do primeiro turno, os quatro principais candidatos a governador optaram por fazer campanha em Porto Alegre e Região Metropolitana no domingo.

A exceção foi Gabriel Souza (MDB). No sábado, passou mais de seis horas em carreatas pelo Litoral Norte. Ontem, com chuva, circulou pela Zona Norte e pela Grande Cruzeiro, acompanhado do prefeito Sebastião Melo e da primeira-dama Valéria Leopoldino.

Juliana Brizola (PDT) fez apenas gravações no domingo. No sábado, participou de um ato batizado de "Bora Lula", organizado pelo candidato do PT ao Senado, Paulo Pimenta, nas ruas da Cidade Baixa. Juliana estava acompanhada do filho José Inácio, de 16 anos.

Luciano Zucco (PL) realizou na manhã de domingo as últimas gravações dos programas eleitorais de TV. Na sequência, participou de uma mobilização no Parque Moinhos de Vento (Parcão), entregando material de campanha. Depois, foi a Viamão. No sábado, esteve em Novo Hamburgo.

O tucano Marcelo Maranata teve apenas uma atividade externa de campanha no fim de semana. Foi uma carreata em Gravataí ao lado da candidata a deputada federal Márcia Becker (PSDB), no sábado. _

Flávio confirma que vai ao debate

Depois de se recusar a participar dos debates que não teriam a presença do presidente Lula, o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, anunciou que irá ao da Rede Globo, nesta quinta-feira. Com Lula ou sem Lula.

Lula terá de decidir entre ir e ser o alvo de todos os adversários ou não ir e ser chamado de fujão. 

Dois dias sem banners nas ruas

Por ordem do juiz Daniel Henrique Dummer, da 114ª Zona Eleitoral, todos os candidatos e candidatas devem retirar a propaganda eleitoral instalada em vias públicas das 18h de ontem até as 18h de amanhã.

A decisão foi tomada em caráter excepcional e temporário, diante do Alerta Meteorológico nº 21, da Defesa Civil, de risco alto de chuvas intensas, com acumulados da ordem de 165 mm, e rajadas de vento de até 70 km/h.

O magistrado expressou preocupação com a segurança dos pedestres que circulam nas ruas de Porto Alegre. 

POLÍTICA E PODER

28 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

Dia para reafirmar o valor da informação

Por que confiar no jornalismo? Porque, por trás de cada notícia publicada por profissionais, há método. A informação passa por apuração, checagem, versões, edição e responsabilidade.

Por que faz diferença? Porque serve ao interesse público. Ajuda a fiscalizar, acompanhar direitos, entender decisões e fazer escolhas.

Como esse trabalho acontece? Com apuração e pluralidade. Profissionais ouvem diferentes fontes, consultam documentos e dados.

Como reconhecer? Pela transparência. Notícia, reportagem, análise, opinião, editorial e publicidade têm funções diferentes.

São essas perguntas e respostas que movem o World News Day, o Dia Mundial do Jornalismo, comemorado hoje. Mais de mil veículos de imprensa, entre eles o Grupo RBS, entidades e universidades em todo o mundo se unem na campanha. Em 2026, a mobilização adota o lema: "Conheça os fatos. Entenda o que importa. Escolha jornalismo de confiança".

Para o jornalista e professor da ECA-USP Eugênio Bucci, a preservação dos fatos tornou-se um desafio na sociedade contemporânea, marcada pela superexposição da desinformação.

- A lembrança dos fatos é algo crucial. Uma das características da nossa era é justamente uma avalanche de quinquilharias das plataformas digitais para obstruir o acesso do cidadão aos fatos. Uma das características é essa dificuldade que a sociedade tem de conhecer e de assimilar o significado dos fatos.

Bucci aponta que a recusa dos fatos abre margem para episódios em que sociedades tomam decisões contrárias aos próprios interesses:

- Os autoritarismos dos anos 1920 e 1930 chegaram ao poder em mobilizações de um certo caráter populista, e mostraram a tragédia que foi aquilo. E o único antídoto contra esse tipo de coisa é o conhecimento dos fatos e o entendimento do que são os fatos - avalia.

Bucci diz que tentativas de cercear repórteres fazem parte de uma ofensiva contra as instituições dedicadas à verificação da realidade.

- A universidade, a ciência, a imprensa e a Justiça sofrem constantes ataques. E são justamente elas que investigam a verdade factual: a academia pelo estudo; a ciência pela pesquisa; a imprensa pela reportagem e a Justiça pela aplicação da lei. _

Caçadores de tempestades registram supercélula na Fronteira

Um grupo formado por caçadores de tempestades brasileiros e americanos registrou no sábado uma supercélula em Alegrete, na Fronteira Oeste. O fenômeno foi divulgado pelos profissionais nas redes sociais e confirmado pela coluna com a Climatempo.

O grupo está circulando pela região para acompanhar eventos climáticos extremos. Caçadores de tempestades são pesquisadores que monitoram o tempo severo para registro e estudo. Entre os integrantes estão o americano Mike Plemmons, conhecido pelo codinome NaderMike, e o fotógrafo gaúcho Gabriel Zaparolli. _

Entrevista

Frederico de Siqueira Filho

Ministro das Comunicações

"Porto Alegre poderá se tornar um grande hub de data centers"

O ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, afirma que Porto Alegre tem potencial para se tornar um "grande hub" tecnológico de data centers. Ele esteve no RS na última semana.

O senhor veio ao RS para ver a expansão do cabo submarino internacional Malbec. O que é e qual a sua função?

Já existem outros cabos submarinos que passam pela costa do RS. E essa iniciativa foi justamente para fortalecer a infraestrutura digital de Porto Alegre, Região Metropolitana. É justamente essa conexão que vai sair de Balneário Pinhal e conectar Buenos Aires e outros países da América do Sul. O que isso quer dizer? Aumentar a disponibilidade de internet para a região com baixa latência. 

Isso permite a atração de novos data centers para a região. Porto Alegre poderá se tornar um grande hub tecnológico de data centers por conta do aumento da disponibilidade de internet para tráfego de dados para a chegada, e viabilizar tecnicamente esses equipamentos hoje tão importantes para o futuro digital do mundo, como também da inteligência artificial e da internet das coisas.

Como garantir a expansão de data centers sem impactar a sobrecarga energética e o gasto de água no resfriamento?

Hoje, todos os incentivos que o governo está promovendo para a chegada disso é que esses data centers venham também com uma planta de energia renovável para fornecer energia limpa, para que não se tenha desbalanceamento no sistema energético nacional. Já existem tecnologias de alto resfriamento com aquela água que está sendo disponibilizada para os data centers. Então, não existe perda de água. Aquela água fica reciclando. 

Sabemos que o grande custo do data center é a energia. Entendemos que o Brasil poderá ser um grande hub de data center em função da matriz energética renovável, do volume de distribuição que já existe e várias iniciativas que o Ministério de Minas e Energia vem fazendo, que é justamente para acomodar essa infraestrutura importante para o futuro da IA, da internet das coisas e com a ampliação dos serviços digitais. 

O mundo está de olho no Brasil por conta de todas essas condições climáticas, e a infraestrutura e a conectividade são insumos importantes. A chegada, a ampliação e a renovação da nossa planta de cabo submarino também está no centro da discussão para tornar cada vez mais o nosso país digital, e também a Região Sul.

Recentemente, líderes das gigantes de IA disseram que é necessário desacelerar o desenvolvimento da tecnologia. Como o governo brasileiro avalia essa expansão?

Estamos cuidando da infraestrutura digital, cuidando também da IA na língua portuguesa, que é um grande desafio, que tenhamos a nossa IA. Além disso, não queremos concorrer com China e EUA. Queremos utilizar a IA para o bem, para aumentar a produtividade do agronegócio, por exemplo. 

A Região Sul tem um histórico de dados fornecidos, por exemplo, pela Embrapa, e a ideia é aplicar uma linguagem de inteligência artificial para que possamos aumentar a produtividade agrícola. Como podemos utilizar uma inteligência artificial para melhorar a prevenção, a saúde, para melhorar a região? A ideia é usar a IA a favor da produtividade em diversas áreas.

Um grande problema são os emaranhados de fios de telefonia nos postes. Atualmente, o compartilhamento desses postes ocorre entre as distribuidoras de energia e as operadoras de telecom. Como resolver?

Temos a expectativa de destravar isso por meio de um projeto de lei que já foi aprovado no Senado e está na Câmara. Tenho a expectativa de resolver ainda esse ano. Esse é um tema histórico do setor de telecomunicações. A ideia é regulamentar para que sejam redefinidas as obrigações tanto dos provedores de internet quanto das concessionárias de energia, para que possamos regulamentar e dar previsibilidade aos dois setores com relação às atribuições e atuação. 

Para isso, essa regulamentação é muito importante para dar visibilidade e segurança jurídica. O Ministério das Comunicações, junto com Minas e Energia, Anatel e ANEEL, está fazendo um trabalho para destravar esse tema em parceria agora com o Congresso. 

INFORME ESPECIAL

sábado, 26 de setembro de 2026

Grande sertão: veredas, os primeiros 70 anos

Jaime Cimenti

Italo Calvino escreveu um livro intitulado Por que ler os clássicos e ensinou: por que eles nunca terminam, deixam marcas profundas na memória e se tornam inesquecíveis, são livros de descoberta e autoconhecimento, dão prazer e saber e funcionam como bússolas . Tudo isso e mais se aplica a Grande sertão: veredas , setentão lépido e faceiro, de 1956, de João Guimarães Rosa(1908-67) que foi publicado em edição especial da Companhia das Letras (544 p., R$ 209), com novo projeto gráfico , entrevista do autor e ensaio de Érico Melo sobre os rascunhos e a forma final do romance .

Clássico definitivo, recriador da língua portuguesa mesclando fala de jagunços com erudição latina e grega , pleno de imaginação poética sem limites, com oralidade sintética, universalidade no regional e poesia em prosa inigualável, a narrativa contínua traz Riobaldo, Diadorim (Reinaldo) , Hermógenes, Joca Ramiro , Zé Bebeto, Medeiro Vaz, Otacília, e Nhorinhá envoltos no bem e no mal, liberdade e destino, violência e vida, amor, identidade e a transformação do indivíduo e o sertão, que “é dentro da gente” .

Romance de aventura, história de amor, narrativa de formação e grande reflexão sobre bem, mal, destino e liberdade,tudo isso e mais o infinito que os leitores imaginarem , criarem, sentirem, duvidarem e filosofarem estão no livrão, no sertão, nas veredas , nas árvores, animais, pessoas, luzes, sombras, silêncios e sons , revelações e mistérios de ontem, hoje e sempre.

Depoimentos inéditos dos leitores ilustres Mia Couto, Alison Entrekin, Caetano W. Galindo, Eduardo Gianetti, Milton Hatoum, Bia Lessa, Ana Martins Marques, Geovani Martins, Amara Moira, Silviano Santiago, Heloísa Murgel Starling e Itamar Vieira Junior estão nesta edição de um dos maiores romances brasileiros e mundiais.

O homem que colocou o Brasil no divã

Eu o conheci como professor da memória e prometi guardar o cara que nunca deixou a admiração ceder à inveja É rápido e você não perde nada importante.

Zuenir Ventura morreu aos 95 anos, no Rio de Janeiro, após décadas dedicadas ao jornalismo e à literatura brasileira.

Acusamos o golpe da ausência de Luis Fernando Verissimo há um ano. Agora Zuenir Ventura, um dos maiores jornalistas de nossa história, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, acaba de nos dar adeus, aos 95 anos. Encontrava-se em sua residência, no Rio de Janeiro, e não resistiu a uma pneumonia na terça-feira (22).

Verissimo se encarregará de receber seu amigo no paraíso das enciclopédias. Eles passam a ser encantados, como vaticinava Guimarães Rosa, e afetivamente eternos para sua legião de leitores.

Corajoso, resoluto, convicto de reportagens empáticas, com o arco grisalho das sobrancelhas protegendo seus olhos fundos, Zuenir mexia nos vespeiros. Escancarou a exploração da Amazônia, com sua cobertura do caso Chico Mendes, na década de 1980, e os meandros da violência em Vigário Geral com o livro Cidade Partida, nos meses que se seguiram à chacina de 29 de agosto de 1993.

Não abdicou da simplicidade de sua caligrafia desenhada no papel. Filho de um pintor de paredes e de uma dona de casa, mais do que criar sua biblioteca do nada, tornou-se a própria biblioteca. Foi office boy, faxineiro e balconista antes de conseguir cursar Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro, numa graduação que contava com Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima entre seus docentes.

Nunca parou de escrever sua coluna, tendo a encomenda como musa inspiradora. Nunca deixou de engraxar as unhas na tinta do impresso e nos conceder a luz do entendimento, numa longevidade sábia. Colaborou com a Tribuna da Imprensa, o Correio da Manhã, o Jornal do Brasil, O Globo e as revistas O Cruzeiro, Fatos e Fotos, Visão, Veja e IstoÉ.

O jornalismo e a literatura entrelaçavam as mãos como irmãos gêmeos da verdade. Apesar dos temas difíceis que abordava, o mestre Zu era um otimista incorrigível. Seu riso mineiro discreto melhorava o silêncio em qualquer ambiente.

Os autores que cruzavam seu caminho se transformavam em personagens, num feitiço às avessas. Na obra Minhas Histórias dos Outros, ele celebra a saudade, resgatando fatos, anedotas e curiosidades sobre personalidades com as quais conviveu, como Glauber Rocha e Carlos Drummond de Andrade.

Zuenir psicanalisou o Brasil, colocou o país no divã para encarar suas contradições. Sua tarefa se centrou em nos ajudar a perdoar, mas sem apagar o pior.

No clássico 1968: O Ano que Não Terminou, sobre a ditadura militar, ele afirma que o nosso passado não deveria nos servir de exemplo, e sim de lição. Para não mais repeti-lo. Ele, inclusive, teve a sua solar liberdade confiscada pelas trevas do AI-5, permanecendo preso durante três meses.

Em Mal Secreto: Inveja, põe-se a desentocar nossa síndrome de caranguejo, de puxar para baixo quem faz sucesso: “A inveja é um vírus que se caracteriza pela ausência de sintomas aparentes. O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde”. 

Eu chamei Zuenir para ser professor da graduação de Formação de Escritores da Unisinos. Ficou responsável pela disciplina de memória. Suas lembranças cintilavam como testemunhos. Ele havia vivido o século XX por dentro dos principais acontecimentos culturais, da Bossa Nova ao Cinema Novo.

Ao se despedir de mim, ele costumava soltar um paradoxo: “Não esqueça de lembrar de mim”. Eu prometo que jamais o esquecerei. Zuenir: quando a inveja perdeu para a admiração.

26 de Setembro de 2026
MARCELO RECH

Cobiça sem fim

É bom ter um pé atrás sempre que se ouve que determinada categoria ou função precisa ser bem remunerada para evitar que o ocupante do cargo se corrompa. O argumento soa como ofensa a quem não desfruta de contracheques rechonchudos - a bem da verdade, a imensa maioria dos brasileiros, que, segundo essa falácia, estaria fadada à corrupção porque ganha mal.

Se há alguma coisa a aprender do escândalo do Master, é que corrupção não distingue contas bancárias. O propinoduto de Daniel Vorcaro foi pródigo em abastecer membros de algumas das categorias de servidores mais bem pagas do Brasil - de políticos a funcionários do Banco Central - e de representantes da elite econômica e social, como gestores financeiros e familiares de ministros do STF.

Vida modesta não é dobradiça para os encantos de um banqueiro armado com Pix sem limites nas cifras e na ética. A cobiça infinita é que é. Alexandre de Moraes, por exemplo, tinha muito mais que qualquer mortal poderia sonhar: um gabinete do tamanho de um apartamento, estabilidade no bom emprego, um séquito de assessores a servir-lhe, prestígio entre os pares, poder que não acaba mais e uma conta bancária já alentada por direitos autorais de livros de direito. De que mais precisava, levando-se em conta que há muito já não viajava em classe econômica e nem se hospedava em hotéis três estrelas?

A cobiça desmesurada atrai favores suspeitos porque ela diz para o servidor que ele sempre pode ter mais. Não basta voar pelo mundo em classe executiva. O sujeito passa a evitar filas em aeroportos e, como Moraes e Flávio Bolsonaro, viajar no jatinho de amigos complicados. Não acaba nunca. Um relógio que mostra as horas não é suficiente. O ministro precisa ostentar um de grife avaliado em R$ 720 mil. Para que e por quê? Uma festa com Wesley Safadão, bancado por uma advogada com interesses no STF, no aniversário da filha de Kassio Nunes Marques não dispara o desconfiômetro?

Quando a fortuna é obtida dentro da lei, bom proveito. O problema é quando um funcionário público quer usufruir de um mundo que não é dele, como ocorreu com tantos seduzidos por Daniel Vorcaro, que torrou biografias públicas com a assustadora facilidade de quem serve um Macallan 25 anos.

Para acabar com a corrupção em larga escala, é preciso prevenção e punição, mas sobretudo consciência individual sobre o certo e o errado. Há incontáveis casos diários de servidores humildes e empreendedores que, mesmo diante de uma oportunidade de ganho fácil, não se deixam levar pelo canto da sereia. Eles colocam a formação familiar, os valores espirituais, a ética e, não menos importante, a paz de dormir sem sobressaltos acima de tudo. E isso não tem Master que pague. _

MARCELO RECH

26 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

OPINIÃO RBS

O que resta dizer ao eleitor

A pesquisa Quaest divulgada na quinta-feira sobre a eleição para o Palácio Piratini indica que o percentual de indecisos ainda é alto. Mesmo quando são estimulados a apontar um nome diante da lista de candidatos, um quarto dos entrevistados ainda não sabe em quem votará no primeiro turno, no domingo, dia 4 de outubro. É um contingente significativo, à espera de ser convencido sobre qual postulante ao governo gaúcho merece a sua confiança para liderar o Rio Grande do Sul pelos próximos quatro anos.

É natural que, com a aproximação do pleito, os eleitores prestem mais atenção ao que as candidaturas propõem para os temas que os afligem. Ganham maior peso os debates na reta final da campanha, como o realizado na sexta-feira pela Rádio Gaúcha. O encontro reuniu Gabriel Souza (MDB), Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB), postulantes cujos partidos têm representantes no Congresso. Debates são a oportunidade para que os candidatos exponham suas ideias e promovam o embate direto de propostas, para que os votantes possam compará-las e decidir o número a ser apertado na urna.

Uma das formas de o Grupo RBS contribuir para uma escolha consciente dos gaúchos é abrir amplos espaços para a discussão e a apresentação de projetos. A RBS TV realiza debate na terça-feira, às 22h50min, e entre segunda-feira e quinta, os quatro aspirantes ao Piratini serão sabatinados na Rádio Gaúcha, no espaço do Atualidade, das 9h às 10h.

O debate de sexta-feira, com maior aprofundamento dos temas em relação ao realizado no dia 6 de agosto, também pela Gaúcha, deve ser enaltecido pela civilidade, a despeito de momentos de confrontação mais incisiva, o que é próprio de uma democracia vibrante. É usual que os candidatos critiquem adversários e apontem contradições dos oponentes. O embate eleitoral, em toda a campanha até aqui, manteve-se em regra em bom nível. A troca de farpas permaneceu centrada no eixo político, sem acusações de cunho pessoal ou de desvios éticos. É bem diferente, diga-se, do que se nota na corrida ao Planalto. Os dois principais concorrentes à Presidência, aliás, nem sequer se dignaram a comparecer a debates, um desrespeito aos eleitores.

O reconhecimento ao tom respeitoso, no entanto, não pode encobrir uma preocupação central. Ainda faltam respostas factíveis e didáticas dos candidatos sobre como enfrentar os principais desafios do Estado, como a situação das finanças gaúchas a partir de 2027. O debate de sexta-feira priorizou assuntos como quadro fiscal, saúde, infraestrutura, concessões e feminicídios. Parte considerável das respostas tangenciou as questões, foi pelo caminho das generalidades, das ideias inexequíveis e de objetivos meritórios, mas que soam como promessas vagas demais.

Depositar esperanças excessivas em recursos federais é temerário. O próximo presidente também será forçado a um ajuste duro nas contas. O orçamento da União será alvo de disputa renhida. É relevante ter capacidade de articulação com Brasília, mas o que os eleitores querem saber é o que o futuro governador ou governadora fará com a força da sua caneta. Aguarda-se que os concorrentes ao Piratini aproveitem melhor as oportunidades que terão - como no debate da RBS TV e nas sabatinas da Gaúcha - para serem mais claros com os gaúchos. 

26 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER

Medidas para acabar com as bets chegam na hora errada

Nasceu prematura a medida provisória em que o presidente Lula tenta acabar com as bets no Brasil. É preciso dizer que a providência é eleitoreira, apesar de necessária. Por trás da precipitação está a proximidade de uma eleição em que os candidatos precisam conquistar o voto das mulheres. São elas que clamam por uma barreira aos jogos que sugam parte importante do orçamento familiar.

Lula identificou nas bets o inimigo que precisa ser combatido a qualquer custo, até porque se tornou um dos principais temas da campanha. O custo deveria ter sido levado em conta antes de qualquer medida drástica.

Não há dúvida de que os jogos na palma da mão estão na raiz do endividamento das famílias. Causam dependência, depressão, empobrecimento. O problema é que, quando regulamentou as bets, o governo exigiu que as empresas se enquadrassem para operar e agora prepara um corte radical, que coloca no mesmo balaio as legalizadas e as ilegais.

Organização do setor

O governo regulamentou os jogos com o argumento de que as pessoas apostavam de qualquer jeito em plataformas instaladas fora do país, que não pagavam impostos. A preocupação era organizar um setor que havia sido liberado no final do governo Michel Temer. Pesou na decisão do governo Lula a necessidade de aumentar a receita, mas o Congresso afrouxou as medidas mais duras, a começar pelo imposto, que seria de 18% e os parlamentares reduziram para 12%.

Há meses os comerciantes, os bancos e uma parcela significativa da população alertam para a epidemia de vício em jogos, mas só agora, às vésperas da eleição, Lula resolveu agir.

Como as empresas pagaram valores significativos ao governo a título de outorga para se legalizar, a devolução desse dinheiro será cobrada. De onde sairá? Dos cofres públicos. Pode-se dizer que o custo da existência das bets é maior, mas resta uma dúvida. Será possível acabar com o jogo ilegal, num país que nunca conseguiu impedir o jogo do bicho? _

A proposta de orçamento de 2027 terá de ser reescrita para retirar a previsão de receita do imposto sobre os jogos. O mercado de bets movimentou R$ 410,85 bilhões no primeiro semestre de 2026 e arrecadou R$ 8,75 bilhões em impostos federais até julho.

Flávio tenta atribuir a Lula a liberação das apostas

Se o presidente Lula (PT) assinou a medida provisória para acabar com as bets no Brasil de olho na eleição, cujo primeiro turno será realizado em nove dias, a campanha do oponente Flávio Bolsonaro (PL) também aproveita a situação para tentar atrair pontos eleitorais. Minutos antes do anúncio do governo, o senador divulgou vídeo nas redes sociais em que chama a medida de "eleitoreira" e Lula de "oportunista".

No vídeo e também em peças da campanha em rádio e televisão, o candidato do PL tenta atribuir ao presidente a autoria da liberação das bets no Brasil, dizendo que "Lula é o pai do tigrinho".

- Podemos dizer que Lula é o pai do tigrinho - disse Flávio, no vídeo que antecedeu o anúncio da medida provisória.

Foi Michel Temer, entretanto, quem sancionou a lei 13.756/2018 que criou o sistema de apostas de quota fixa (quando o apostador já sabe quanto vai receber se acertar o palpite) no Brasil, nos últimos dias de mandato, permitindo a operação das casas de apostas esportivas. A legislação estabeleceu prazo de dois anos, prorrogável por mais dois, para que o Ministério da Fazenda regulamentasse a atividade das empresas, o que não foi feito por Jair Bolsonaro durante o seu governo.

Até a regulamentação, em dezembro de 2023, as bets operaram no Brasil sem fiscalização e sem pagar impostos. A partir de então, as casas de apostas online passaram a operar em um mercado registrado, com diretrizes e regras de tributação, mediante autorização do Ministério da Fazenda com pagamento de outorga ao governo. _

Debate expõe excesso de dependência de recursos federais

Depois de duas horas de debate na Rádio Gaúcha, restou a impressão de que as promessas dos candidatos só serão cumpridas se o governo federal aportar mais dinheiro no Estado. Afora a incerta prorrogação do Funrigs, que significa suspensão do pagamento da dívida por mais um ano, a ideia de criação de um fundo constitucional para o desenvolvimento do Sul e do Sudeste é uma miragem.

Nada disso se resolve automaticamente com diálogo e articulação em Brasília, com o Congresso ou com outros governadores. Quem for eleito terá de governar tendo como referência um orçamento apertado e deficitário.

É preciso levar em conta que o presidente que se eleger neste ano terá de promover um ajuste fiscal rigoroso, sob pena de não conseguir reduzir os juros, questão que impacta toda a sociedade, especialmente no setor produtivo.

Como todos os candidatos se comprometem a não aumentar impostos, resta aumentar a receita pelo crescimento econômico, sonho de consumo de qualquer cidadão. Só que isso não depende da vontade do governo. Ou pode ser freado por falta de investimentos em infraestrutura. Como crescer sem ter estradas de qualidade, ferrovias e hidrovias?

Aqui entra outro tema que os candidatos abordam de forma superficial ou demagógica: as concessões de rodovias. Sem dinheiro no orçamento para conservar as rodovias estaduais e muito menos para fazer as obras necessárias, a opção seria recorrer às concessões, defendidas por Gabriel Souza na condição de candidato do governo. Luciano Zucco e Juliana Brizola são a favor, mas não apresentam um modelo viável.

Fila do SUS

Outra promessa mal explicada é a de zerar a fila do SUS. Funciona aos ouvidos dos eleitores, mas falta explicar como. O dinheiro disponível não é suficiente e boa parte da solução vem do Ministério da Saúde, que já tem programas em andamento, mas não dá conta da demanda. Corrigir a tabela do SUS também depende do governo federal e está atrelada às dificuldades orçamentárias da União. _

O que foi mais repetido pelos candidatos ao Piratini

Assim como no primeiro debate da Rádio Gaúcha, a saúde foi tema central dos candidatos ao governo do Estado no segundo enfrentamento, na sexta-feira. Os discursos estão alinhados, em parte, com um dos principais temores dos gaúchos, segundo revelado pela última pesquisa Quaest: 25% dos eleitores gaúchos veem a saúde como o principal problema do RS. Outros 25% entendem que são as enchentes - tema que passou longe dos quatro concorrentes.

Termos como "hospitais", "fila", "SUS gaúcho" e "saúde" foram repetidos pelos quatro candidatos entre as 12.865 palavras proferidas ao longo de uma hora e meia do debate. Com auxílio de inteligência artificial, sob revisão de jornalistas, a coluna elencou as expressões mais ditas pelos postulantes.

Gabriel Souza (MDB), por exemplo, falou "Estado" 35 vezes, expressão que também aparece no topo das listas de Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB). Juliana e Maranata focaram o discurso nas "pessoas". Como no primeiro debate, Maranata falou diversas vezes sobre a trajetória como "prefeito" e em ser o único com experiência de Executivo municipal.

Zucco falou oito vezes a palavra "concessão", além de sete citações a "bloco", quatro vezes "ferrovia" e quatro vezes "apontamento", referindo-se aos questionamentos do TCE à proposta do bloco 2, cuja gestão o governo de Eduardo Leite tentou entregar à iniciativa privada. _

POLÍTICA E PODER