quinta-feira, 8 de outubro de 2026

08 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

Bendito o fruto do vosso ventre

Minha mãe não tem mais árvores no quintal, mora num apartamento, mas ela continua dando sacolas de frutas para os filhos.

Sempre que a visito, ela me alcança uma braçada de bergamotas e de bananas. Parece que eu saí de uma fruteira, não do endereço materno. - Aceita sem discutir! Estão docinhas! Não posso me opor, não posso negar.

Ela me fala que escolheu a dedo, que não vou me arrepender. Pede para que eu reparta com os netos e com Beatriz.

Dona Maria não se curou dessa mentalidade de Guaporé, de um ritual cultivado com seus pais. Quem vai ao Interior, para ver os parentes, volta da viagem com o dobro de bagagem, com a famosa maleta, embrulho, farnel ou cesta de vime.

Não só frutas, mas também queijo, salame, cuca, pão colonial, geleia, compotas, o que houver de adicional na mesa. Os familiares fazem questão de garantir que você tenha algo fresco para comer no trajeto ou ao chegar, evitando que você gaste na estrada. O perfume do contrabando contamina o ônibus ou o carro.

Você acaba carregando um pedaço do torrão natal para diminuir a saudade. Não se separa por inteiro. Por mais alguns dias, aquele reencontro segue acontecendo no paladar. Isso quando não oferecem uma muda de planta, para equilibrar no colo. Isso quando não convencem a adotar um filhote da ninhada de cachorro ou de gato que recém nasceu.

A mãe foi criada numa área verde e permaneceu colhendo a alegria dos pés dentro de um vasto pátio, durante a minha infância e adolescência. Contávamos com abacateiro, ameixeira, pitangueira, limoeiro, laranjeira, figueira, num revezamento de safras e estações.

Ameixinhas amarelas e pitangas vinham na primavera, figos no verão, abacates no outono, laranjas sobretudo no inverno e limões quando eles quisessem.

Meus irmãos e eu vivíamos agarrados nos galhos. A mãe preparava vitaminas, encaminhava como lanche em nossa merenda e enchia a gamela diariamente. Nunca levei sanduíches para a escola, e sim maçãs e peras. Minha mochila virava terra adubada. Eu abria o zíper e sentia o cheiro de fim de feira. As espirais dos cadernos deitavam raízes.

Qualquer afeto que aparecesse merecia parte de nosso pomar. Ninguém se despedia de mãos abanando. Não se permitia que nenhuma fruta apodrecesse. Assim o sorriso de dona Maria não murchava.

Ela dizia com orgulho: "É daqui de casa". O presente conservava o zelo de quem semeou, esperou amadurecer e se lembrou de dividir. O carinho se ofertava com prazo de validade: "Precisa comer logo".

Era seu jeito indireto de repassar seu apego: eu me importo com você e desejo que esteja bem alimentado, mesmo longe de mim. Essas coisas do coração, não há lei que as proíba. 

CARPINEJAR

08 de Outubro de 2026
ROGER LERINA

Futuro do pretérito

Eu era fascinado na infância pelo filme A Máquina do Tempo (1960), adaptação dirigida por George Pal do romance de ficção científica de H. G. Wells. Na aventura que passava direto na TV, um cientista inglês criava em 1899 um dispositivo que lhe permitia viajar no tempo sem sair de sua casa em Londres. 

O engenhoso George vai então para o futuro, primeiro maravilhando-se ao testemunhar a história se desenrolando diante dos olhos, depois espantando-se com os avanços tecnológicos e por fim horrorizando-se com a destruição ao seu redor causada pelas duas guerras mundiais e pelo que se assemelhava a um combate nuclear em 1966. 

Chocado, o herói acelera para frente, a geringonça emperra e ele avança 800 mil anos, chegando a um mundo de aparência pré-histórica, dividido entre monstruosos humanos mutantes que vivem nos subterrâneos e uma linhagem de jovens ignorantes e ociosos habitando a superfície. Uma metáfora que serve não apenas para a sociedade vitoriana estratificada da época em que o romance foi escrito.

A aceleração crescente do tempo é uma característica da modernidade, contribuindo para a sensação atual de estarmos vendo a história passar voando na nossa frente - ainda ontem a gente escutava música em fita cassete e recebia telegrama, lembra? 

No entanto, diferentemente da engenhoca criada pelo personagem vivido no cinema por Rod Taylor, a máquina do tempo da civilização ocidental engatou marcha à ré afu no novo milênio. Direitos sociais, liberdades individuais e valores progressistas, arduamente conquistados ou ao menos almejados desde o Iluminismo, são frontalmente atacados por ideologias políticas e sistemas econômicos que tendem à hegemonia em boa parte do planeta.

Por aqui a máquina do tempo virou montanha-russa: haja coração para aguentar a sucessão frenética de escândalos, imposturas, arbitrariedades e quejandos que a vida pública nacional nos apresenta no noticiário diariamente. No último domingo, a partir da divulgação dos resultados eleitorais, entramos no trem fantasma deste parque chamado Brasil: as redes sociais e o debate público repercutiram as manifestações de candidatos terrivelmente antidemocráticos chancelados pelas urnas. 

Gente que vai para as ruas chicotear calçada, reverenciar ex-presidente golpista preso, elogiar torturador do regime militar, chamar indígena de canibal e declarar-se a maior inimiga mulher das feministas. A nação zumbi está crescendo e talvez já não dê mais tempo de embarcar naquele carro que leva de volta para o futuro. _

ROGER LERINA

STF sob vigilância do novo Senado

A eleição para o Senado ganhou atenção inédita pela prerrogativa da Casa de aprovar a indicação de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e, especialmente, de abrir processos de impeachment de membros da Corte por crime de responsabilidade. O possível afastamento de ministros foi o mote da campanha do PL e de partidos aliados para a Casa. O resultado da eleição tornou essa pretensão bastante palpável.

O impeachment de magistrados do Supremo é previsto na Constituição, mas é uma providência drástica. Exige análise responsável, sob pena de exacerbar a crise institucional. É notório que, sobre ministros citados no caso Master, pairam suspeitas de condutas incompatíveis com o cargo. Mas a vocação à autoproteção no STF vem impedindo que sejam investigados. É como se fossem seres acima da lei. Indícios de malfeitos devem ser devidamente apurados e, em caso de constatação de irregularidade, gerar punição conforme a lei. Impeachment por revanche política, no entanto, é combustível para produzir mais instabilidade.

O PL terá 28 senadores, sendo 19 eleitos no domingo. Mas cálculos apontam que a bancada pró-impeachment chegaria a 49. Para um afastamento, são necessários 54 votos, dois terços do plenário. A força que o bolsonarismo alcançou na Casa deve fazer com que um nome do PL ou de legenda alinhada assuma a presidência do Senado em 2027. É atribuição do presidente aceitar ou arquivar pedidos de impeachment.

Um dos favoritos para o cargo é o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro ao Planalto. Marinho visitou o presidente do STF, Edson Fachin, na terça-feira. Disse que não haverá "espírito de vingança", mas existirá "vigilância" e que o Senado "não se omitirá" em casos de indícios de crime de responsabilidade. É um movimento institucional salutar, por não sinalizar rancor retaliatório.

Independentemente do resultado da eleição presidencial, PL e aliados amealharam capital político para afastar ministros. A falta de compostura de membros da Corte, aliás, influenciou o voto no domingo. A pauta anti-STF foi abraçada por outros candidatos eleitos fora do espectro do bolsonarismo.

Uma série de movimentos, nos últimos dias, mostrou que o recado das urnas foi sentido. Alexandre de Moraes autorizou Débora Rodrigues dos Santos, conhecida como "Débora do Batom", a cumprir pena no semiaberto. Tornou público o arquivamento de inquérito contra o senador Marcos do Val (sem partido-ES) e três influenciadores bolsonaristas. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, manifestou-se favoravelmente a uma visita de Flávio ao pai, Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar. Gilmar Mendes arquivou um pedido de investigação contra o vice da chapa de Flávio, o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), por suspeita de estupro. Mas gestos políticos travestidos decisões judiciais, em busca de acomodação, só mostram o labirinto em que a Corte se meteu.

Daqui para a frente, espera-se que o grupo majoritário do Senado liderado pelo PL mostre maturidade e não se mova exclusivamente pelo sentimento de vingança. Do STF, aguarda-se que enfim exerça a autocontenção, se despolitize e faça, por si próprio, a depuração necessária. O país precisa de um Supremo com credibilidade para desempenhar o papel de freio e contrapeso exigido em democracias sadias.  

08 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Zucco escolhe professor do Paraná para chefiar a pasta da Educação do RS

Cumprindo a promessa de escolher técnicos para as secretarias estratégicas do Estado, o governador eleito, Luciano Zucco (PL), já convidou um bem-sucedido professor paranaense para comandar a Secretaria da Educação. Natural de Foz do Iguaçu, Roni Miranda Vieira é o atual secretário de Educação do Paraná e tem no currículo o primeiro lugar no último Ideb e uma revolução nas escolas paranaenses.

Na campanha eleitoral, Zucco citou incontáveis vezes o modelo paranaense como exemplo, destacando sempre o sucesso das escolas cívico-militares, uma das suas obsessões. Nos debates e nas entrevistas como candidato, Zucco prometeu aumentar o número de escolas desse modelo no Rio Grande do Sul.

De saída da Secretaria da Educação, Raquel Teixeira já conversou com seu futuro sucessor e elogiou Zucco pela escolha. Raquel e Roni convergem em pontos essenciais sobre educação.

- Falei para ele que ele vai encontrar um Estado muito bem estruturado, muito bem organizado. Roni é um excelente secretário, fez o que fez no Paraná. Ele é professor de história da rede estadual. Aliás, ele fala publicamente: "eu acho que eu sou o único professor de história de direita no Brasil" - contou Raquel.

A secretária que deixa o cargo reiterou que o colega do Paraná é extremamente competente, conhece a escola:

- Acho que é uma sorte o Rio Grande do Sul ter uma continuidade com quem tem tanta afinidade com o tipo de trabalho que fiz. Parabéns ao governador Zucco, parabéns ao Rio Grande do Sul, que vai ganhar um grande secretário.

Questionada sobre as críticas de Zucco, feitas durante a campanha, de que os resultados da educação no Rio Grande do Sul são maquiados, Raquel atribuiu os comentários ao desconhecimento. Reafirmou que essa é uma percepção equivocada de Zucco, porque o RS subiu no Ideb quando aumentou de 4,7 para 5,3 em proficiência. Não fosse o alto número de alunos reprovados ou que abandonam a escola, o dado seria ainda melhor.

O crescimento foi, conforme a secretária, o segundo maior do Brasil, perdendo apenas para o Piauí. O desafio do sucessor será reduzir a reprovação e a evasão, já que, no quesito "fluxo", o Rio Grande do Sul ainda é 17º. _

Seis anos de atuação em 6,5 quilos de impressos

Impressos, os seis anos de Raquel Teixeira à frente da Secretaria de Educação pesam 6,5 quilos. Todas as políticas públicas estão documentadas e acessíveis em modo digital, mas Raquel fez questão de imprimir o material para entregar a parceiros da Educação em uma caixa com as cores do Rio Grande do Sul.

Como nem todo o material coube na caixa, em anexo estão 10 revistas que dissecam a situação das escolas, além de um guia para elaboração de planos de contingência das escolas para eventos climáticos, o diagnóstico racial da rede estadual de educação e um livro mostrando como as escolas enfrentaram a enchente de 2024. _

MDB gaúcho anuncia apoio a Flávio Bolsonaro

Três dias depois do primeiro turno da eleição, os deputados estaduais e federais do MDB acompanharam o prefeito Sebastião Melo e surfaram na onda da direita que saiu reforçada das urnas. Durante encontro na sede estadual do partido, as bancadas anunciaram o apoio ao candidato Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. O PL já participa do governo Melo com a vice-prefeita Betina Worm e com secretários e assessores de segundo e terceiro escalões.

Capitaneado por Alceu Moreira, que também é presidente da Fundação Ulysses Guimarães, o movimento tem por objetivo abrir espaço de diálogo efetivo num possível governo de Flávio para tratar de temas sensíveis para o Rio Grande do Sul, entre os quais a dívida do Estado com a União - hoje na ordem de R$ 100 bilhões -, o incentivo ao agronegócio e a renegociação das dívidas dos agricultores, bem como a captação de recursos para investimento em obras de resiliência climática.

Na reunião não foi discutida a eventual participação do MDB no governo de Luciano Zucco, mas a tendência é a entrada dos deputados na base. Com a derrota de Gabriel Souza, Alceu Moreira e Sebastião Melo se tornam os principais líderes do partido.

Assinaram o manifesto de apoio a Flávio Bolsonaro os atuais deputados estaduais Beto Fantinel, Edivilson Brum, Juvir Costella, Luciano Silveira, Patrícia Alba, Vilmar Zanchin, os eleitos Rafael Braga e Roberto Lucchese e o deputado federal Alceu Moreira. Também marcaram presença no ato o prefeito da Capital, Sebastião Melo, o presidente da Famurs, prefeito Ique Vedovato, de Imbé, e o ex-deputado Luis Roberto Ponte. _

Futuro ainda incerto

Candidato a vice de Juliana Brizola (PDT), o ex-deputado Edegar Pretto ainda não sabe o que fará da vida a partir de 2027. Por enquanto, Pretto só quer pensar na campanha do segundo turno e trabalhar na busca de votos para o presidente Lula.

Nos últimos quatro anos, Pretto ficou sem mandato porque em 2022 foi candidato a governador e perdeu a eleição. Em janeiro do ano seguinte, assumiu a presidência da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a convite de Lula.

Neste ano, Pretto se lançou pré-candidato a governador, confiante de que poderia disputar o segundo turno graças ao recall de quatro anos atrás, quando quase tirou Eduardo Leite do segundo turno. Lula forçou a aliança com o PDT e o ex-deputado aceitou a missão de concorrer a vice de Juliana Brizola.

Caso Lula seja reeleito, Pretto e o deputado Paulo Pimenta são os primeiros da fila no PT para um cargo em Brasília. _

Reviravoltas no Estado

No primeiro turno da eleição à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL) tirou votos do presidente Lula (PT) em praticamente todos os municípios do Brasil. Dos cinco municípios onde o petista mais perdeu eleitores, proporcionalmente, quatro são gaúchos. Em primeiro está Herveiras (2.629 eleitores), onde Lula viu redução de 45,7 pontos percentuais (p.p). Em seguida estão Passa Sete (3.751 e perda de 44,5 p.p) e Barros Cassal (8.281 e 38,7 p.p). O quarto município é São João do Triunfo, no Paraná, onde Lula viu uma desidratação de 38,6 pontos percentuais para Flávio. Por fim, em quinto, Canudos do Vale (1.944 eleitores e recuo de 37,7 p.p). 

Leany Lemos, ex-secretária de Planejamento de Eduardo Leite, tomou posse como senadora depois de Leila do Vôlei (PDT) ter aberto mão do restante do mandato após ser derrotada na tentativa de reeleição.

POLÍTICA E PODER

08 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

A esquerda no divã

Luciano Zucco (PL) foi eleito governador com 58% dos votos válidos. Além disso, a chapa também emplacou dois senadores: Sanderson (PL) e Marcel van Hattem (Novo). Desde então, partidos de esquerda avaliam os motivos que levaram a uma perda tão significativa para esse espectro político. O Conversas Cruzadas de terça-feira recebeu deputados estaduais eleitos que opinaram sobre o assunto.

Para o deputado estadual reeleito Matheus Gomes (PSOL), faltou o tratamento de temas específicos durante a corrida eleitoral:

- Faltou termos abordado temas mais concretos que apareciam em todas as pesquisas como grandes preocupações do Estado, como é o caso da crise climática e das enchentes. Deveríamos ter trabalhado com muito mais força para apresentar alternativas e dialogar com a população sobre a responsabilização dos governos.

O deputado avalia que faltou enfrentamento com a oposição:

- Da mesma forma, acho que a campanha tinha a expectativa de ir para o segundo turno, onde seria feito um enfrentamento mais direto com Zucco, mas isso deveria ter começado desde o início, no primeiro turno.Não vimos a tempo a aceleração do crescimento da campanha de Zucco com possibilidade de vitória, e, na reta final, foi, de fato, o que aconteceu. Ele acabou acelerando no final, e não houve segundo turno, dentro de uma onda que também levou os dois para o Senado.

Já a vereadora de Porto Alegre Natasha Ferreira (PT), que vai estrear na Assembleia, levantou a hipótese de interferência das big techs nas redes sociais para a entrega de conteúdos, fazendo com que os materiais dos partidos de direita tivessem maior alcance. Além disso, segundo ela, faltou tática na campanha:

- Acho que tardamos para fazer do ponto de vista da tática política, e o nosso programa não conseguiu ir para a rua. E digo o porquê: na campanha para o Senado, por exemplo, os senadores eleitos tinham dois temas centrais, a castração de pedófilos e o impeachment no STF. Estávamos falando da reconstrução, do fim das bets, da isenção do Imposto de Renda, ou seja, sobre várias bandeiras. Falamos de muitas coisas ao mesmo tempo, faltou um símbolo claro da esquerda dizendo "nós vamos fazer isso".

Natasha também avalia que a sigla ficou presa ao legado do partido.

- Ficamos falando muito do "retrovisor", do ponto de vista de legado e história. A partir do impeachment de Dilma Rousseff, houve uma mudança e uma radicalização da juventude. Acho que boa parte da esquerda hoje está mais intelectualizada e mais distante das classes mais pobres. A esquerda acabou perdendo essa conexão - comentou durante o programa. _

Três anos de memória

No dia que marcou os três anos dos atentados terroristas cometidos pelo Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, a comunidade judaica do RS se reuniu ontem na Praça Maurício Cardoso, em Porto Alegre, para um ato público em memória do episódio.

O evento foi organizado pela Federação Israelita do Rio Grande do Sul (Firs) e por entidades judaicas do Estado.

Segundo a organização, a mensagem reforça a importância de preservar a memória da data e combater o antissemitismo. _

Entrevista - Carlos Baptista Jr. - Ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB)

"Não vejo qualquer possibilidade de uma aventura golpista"

Comandante da Força Aérea Brasileira (FAB) nos últimos meses do governo Jair Bolsonaro, o tenente-brigadeiro Carlos Baptista Jr. lançou o livro Eu disse não! - Uma trincheira antigolpista, da editora Autêntica.

Em que momento o senhor percebeu que conversas com Bolsonaro estavam na direção da ruptura constitucional?

A eleição foi em um domingo. Na segunda-feira, fomos chamados. Sentamos à mesa e expusemos que o sistema eleitoral funcionara corretamente, que as eleições não haviam trazido qualquer indício de fraude e que ele deveria reconhecer o resultado. No dia 1º, ele faz uma "aceitação", mas não parabeniza o vencedor. Em paralelo, temos o início das movimentações dos caminhoneiros para bloquear estradas e os acampamentos em frente aos quartéis. 

Aí discutimos a Operações de Garantia da Lei da Ordem (GLO), como está prevista na Constituição, para desobstruir estradas. De 11 a 24, foi muito pesado, deixamos de achar que ele estava falando de GLO e começara a falar em estado de defesa, de sítio, sem que houvesse os pressupostos básicos para a decretação disso.

Houve um diálogo no qual o então comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, chegou a ameaçar prender o então presidente. Como foi essa conversa?

O presidente lamentava ter perdido. Ele começou a trazer para a discussão essas possibilidades de estado de defesa. Foi alertado pelo Freire Gomes e por mim: "Presidente, dia 1º de janeiro o senhor não vai mais ser presidente". Avisamos: "A decretação de estado de defesa não pode ser feita em uma reunião. Onde está o vice-presidente (Hamilton Mourão)? Onde estão os presidentes da Câmara e do Senado? Os membros do Conselho de Defesa?" Nosso propósito era mostrar a ele que não havia pressuposto, como previsto na Constituição, para a decretação.

Mas o comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, tudo indica, era favorável à ideia de Bolsonaro.

Essas reuniões já deixaram bastante claro qual seria a posição de cada um (dos comandantes). O almirante Garnier já tinha se mostrado divergente. A posição do general Paulo Sérgio sempre me trouxe certa dubiedade. Vi muitas vezes ele tentar demover o presidente de quebra institucional, e, logicamente, não posso concordar com o fato de ele ter nos chamado para apresentar uma minuta de golpe.

O 8 de Janeiro foi uma tentativa de golpe?

Sou aviador, costumamos tratar um acidente aeronáutico como uma série de elos de uma corrente. Nunca falamos na causa, falamos dos fatores que contribuem para o acidente. Fatores que eu acho que contribuíram: a primeira coisa foi o clima. Aquelas pessoas possivelmente não sabiam que estavam participando de um dos últimos atos de uma operação psicológica. 

A desesperança começa no Brasil lá atrás. Essa sequência de atos de corrupção levou à desesperança do nosso povo, levou Bolsonaro à presidência. Há um ritmo de degradação das instituições, desrespeito de autoridades. Existe um fator contribuinte: a escolha do general Gonçalves Dias para o GSI. E perda de controle de todos os órgãos do Distrito Federal, do Ministério da Justiça e do GSI.

O envolvimento dos militares com a política prejudicou as Forças Armadas?

Deve haver, assim como nos EUA, uma quarentena: sete anos após passar para a reserva para poder assumir como o secretário de Defesa. No Brasil, passaram para a reserva e imediatamente assumiram a Defesa. É muito difícil tirar a farda que se usou por 45 anos e sentar na cadeira de ministro. No início, defendi o presidente. Assim como Fernando Henrique Cardoso levou acadêmicos para o governo, Lula, os sindicalistas. Não vejo nada de errado o Bolsonaro ter levado militares. A quantidade foi excessiva.

Pode haver instabilidade?

Não, acho que saímos do processo de 2022, 2023, com uma estrutura institucional mais robusta. Não vejo que qualquer resultado possa levar o Brasil a uma instabilidade. Não vejo qualquer possibilidade de uma aventura golpista. 

INFORME ESPECIAL

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

06/10/2026 - 18h02min
Gabriel Sant'Ana Wainer

Quase 2 milhões de votos e nenhum programa: o caso Campopiano

O algoritmo não precisa ensinar regimento; basta transformar alcance em cadeira e deixar a legenda administrar o resto. Campopiano foi eleita deputada estadual com 1,95 milhão de votos, impulsionando a bancada do PL em São Paulo.

Eduarda Campopiano se apresenta nas redes como a maior inimiga das feministas de São Paulo. A frase serve a ela de biografia, plataforma e programa de governo, e no domingo 1.956.238 eleitores paulistas acharam que bastava. A vereadora de Praia Grande, 23 anos, menos de dois de mandato, saiu das urnas como a deputada estadual mais votada do país. Haverá quem chame de fenômeno mas é uma excrescência das que deixam recado.

O tamanho do número ajuda a medir o estrago. Em 2022, o campeão de votos para a Assembleia de São Paulo foi Eduardo Suplicy, com 807 mil, depois de mais de quatro décadas de vida pública. Campopiano teve mais que o dobro. 

O recorde continua com Janaina Paschoal, que passou dos 2 milhões em 2018 carregada pelo antipetismo e por uma assinatura no pedido de impeachment de Dilma Rousseff. Janaina ao menos levava um documento debaixo do braço. Seis anos depois, elegeu-se vereadora em São Paulo com 48.893 votos, o que diz bastante sobre a memória de quem consagra fenômenos.

O que Campopiano levou para a eleição cabe numa planilha de engajamento. O Instituto Democracia em Xeque, que monitorou as candidaturas jovens nas duas últimas semanas de setembro, contou 929,2 mil interações em 11 publicações dela, perto de 85 mil por post. Nenhum projeto apresentado em Praia Grande chegou perto disso, e houve projeto. 

O mandato registra uma proposta de prioridade de matrícula para irmãos na mesma escola, outra que veda a nomeação de condenados por crimes sexuais contra crianças, uma emenda de R$ 550 mil para consultas e cirurgias e uma sessão, a de 3 de fevereiro, dedicada a 21 indicações sobre iluminação de quadra, ponto de ônibus e playground. É o trabalho honesto e miúdo de qualquer vereador de primeiro mandato, do tipo que milhares fazem pelo país sem que ninguém lhes ofereça 2 milhões de votos por isso.

Os votos vieram do outro emprego. Aos 19 anos ela já comentava política na Jovem Pan, e antes da campanha passou pelo Pânico e pelo RedCast, onde o produto aparece sem filtro. No RedCast, em maio, agradeceu pela colonização e pela catequização e associou os povos indígenas ao canibalismo, o que levou a artista indígena Katú Mirim a registrar boletim de ocorrência por racismo. 

Nas redes, apoia o projeto de lei que pune com 6 a 20 anos de prisão o aborto depois de 22 semanas, inclusive quando a gravidez resulta de estupro. O Código Penal pune o estupro com 6 a 10 anos. A inimiga número um das feministas defende, portanto, uma lei pela qual a mulher estuprada pode pegar até o dobro da pena do homem que a estuprou, e quase 2 milhões de pessoas acharam a combinação razoável. Ou sequer chegaram a ela, o que é pior.

Pela conta do quociente eleitoral, a votação de Campopiano equivale a quase oito vagas na Assembleia. Cada voto que sobrou depois da eleição dela foi trabalhar para o PL, que fez 28 deputados e terá a maior bancada da próxima legislatura. Boa parte de quem digitou 22011 pensando num vídeo será representada por gente que nunca apareceu nele. 

É assim que o sistema proporcional brasileiro transforma uma influenciadora em locomotiva e um partido em vagão de carga. Ninguém no PL precisou formar quadro, testar liderança ou ensinar regimento. Bastou achar o perfil certo e pendurar a legenda nele.

A esquerda passou a última década ensinando que indignação rende seguidor, que lacrar é método e que o adversário existe para virar meme. A direita aprendeu a lição e agora cobra com juros. Lucas Pavanato, parceiro de campanha de Campopiano, levou mais de 3 milhões de votos para a Câmara dos Deputados, a maior votação de São Paulo. O feed decidiu as duas pontas da chapa.

A Assembleia Legislativa vota o orçamento do estado mais rico do país, fiscaliza o governo, abre CPIs e julga as contas do governador. É lugar onde se negocia dinheiro de verdade, e onde quem não domina o regimento acaba servindo de voto para quem domina. O recado de domingo é que o eleitor paulista passou a escolher legislador pelo mesmo critério com que escolhe quem seguir, e que os partidos já perceberam que esse eleitor sai mais barato do que qualquer programa.

O eleitor paulista costuma ser generoso com fenômenos e implacável com eles mais tarde. Janaina que o diga. Entre a consagração e o esquecimento, porém, cabem quatro anos de mandato e uma bancada inteira que entrou de carona.

07 DE OUTUBRO DE 2026
MÁRIO CORSO

Como saber a idade

A idade é dada pela data de nascimento, certo? Sim, para a maioria dos casos, mas existem condições que merecem um raciocínio mais detalhado. A minha amiga Maiara, após uma cirurgia, ganhou uma prótese no joelho. O que a levou a dizer que tem setenta anos, mas não em todas as partes.

Disse que ela tinha razão, mas então qual seria a matemática que poderia ser aplicada? Um joelho novo, ou então, por exemplo, uma prótese de quadril, quantos anos abateriam da data de nascimento?

Ela respondeu que nem precisamos ir tão longe, como uma cirurgia, um implante capilar dá uma aparência rejuvenescida. Mas de que forma computar o cabelo novo? Até porque não costuma ser barato. O mesmo vale para facetas de porcelana nos dentes, pelo preço deveria ser possível abater uns meses da idade da carteira.

E quando os índices dos exames são muito bons, as vacinas estão em dia, o exame do coração está ok. Some a isso colesterol e triglicerídeos controlados, hemoglobina glicada nos trinques - isso deveria abater algo da idade para quando chega a incômoda pergunta de quantos anos temos.

Maiara insiste que não é possível que se exercitar dia sim dia não, fazer natação, musculação, ioga, pilates, funcional, ginástica pélvica, e manter o peso baixo, não vá render uns anos a menos da data oficial. Isso não seria uma reivindicação vazia, exige muito esforço para reduzir cada grama do corpo. Diga-se, um corpo que joga contra, assimilando até vento para engordar umas gramas, mesmo que o vivente esteja aturando uma dieta macrobiótica.

Ela quer um índice que contabilize o esforço, a dedicação e o empenho de manter o corpo em forma. Porque não adianta só receber elogios de que está bem, ela quer isso descontado na idade.

Ela desistiu do projeto quando notei que a soma poderia lhe tirar sua aposentadoria. E mais, se ela não ganhasse anos inteiros, ela teria que mudar de signo. Maiara se assustou imaginando perder seu signo de peixes, ascendente em aquário.

Sugeri uma campanha de antidifamação da idade: em vez de setenta são os novos cinquenta, talvez a consolidação de um novo vocabulário. Ela gostou da ideia de setentogata. As palavras podem ser mais dóceis do que os números. 

MÁRIO CORSO

Lula e Flávio devem clareza no tema fiscal

O mercado financeiro reagiu ao resultado do primeiro turno da eleição presidencial com recorde de pontuação na bolsa de valores e quedas acentuadas do dólar e dos juros futuros. O movimento revela mais um alívio dos investidores com a possibilidade menor de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do que uma certeza de um ajuste fiscal ousado em um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL).

Com medidas, gestos e discursos, Lula menosprezou a importância de buscar o equilíbrio das contas do país e colheu a sensação de mal-estar econômico crescente entre os eleitores. O alto endividamento da população também passa pelo garrote do juro alto, fruto da insistência em não controlar gastos. No mês passado, Lula chegou a declarar que fazer superávit é "babaquice".

O chamado novo arcabouço fiscal, que deveria ser a âncora para conter a expansão dos desembolsos, foi sucessivamente desmoralizado pelo próprio governo. A aproximação da eleição fez o Planalto afundar ainda mais o pé no acelerador das bondades. 

Como consequência, em agosto a dívida bruta do governo atingiu o equivalente a 82,9% do PIB, alta de 4,2 pontos percentuais no acumulado de 2026 e o maior nível em cinco anos. O indicador parece abstrato, mas influi no câmbio, no custo do crédito, na inflação e no crescimento. Afeta a vida real. Lula deve voltar a ser questionado se considera uma mudança de rumos necessária ou não.

Apesar da euforia do mercado financeiro, Flávio até aqui se esquivou de explicar como tentará colocar as contas do país em ordem. Fala genericamente em "tesouraço" e em uma agenda de enxugamento da máquina pública e de privatizações, mas escapa de dar detalhes das medidas. Sua equipe de economistas sinaliza um ajuste equivalente a 1,5 ponto percentual do PIB e uma nova trava de gastos, sem detalhar cálculos ou explicar como funcionaria a regra. Segue uma incógnita, mas bastou um aceno vago em direção à austeridade para injetar otimismo no mercado.

Como referência, cumpre lembrar que, apesar da retórica do então ministro da Economia, Paulo Guedes, o governo Jair Bolsonaro esteve longe de ser exemplar em relação à disciplina fiscal. Na reforma da Previdência, o então presidente atuou para desidratá-la. 

Quando a necessidade política apareceu, não hesitou em furar o teto de gastos, principal regra fiscal do país à época destinada a limitar o crescimento das despesas, como foi o caso da PEC dos Precatórios e da PEC Kamikaze. Em busca da reeleição, mandou a responsabilidade às favas.

O tema é árido e impopular e, por certo, Lula e Flávio tentarão fugir dele até o dia do segundo turno. Mas, por dever moral, deveriam ser transparentes com os eleitores e dizer como buscarão o equilíbrio fiscal a partir de 2027. Se proporão uma nova reforma da Previdência, se alterarão a fórmula de reajuste do salário mínimo, se benefícios previdenciários serão desvinculados do mínimo, e se mexerão nos pisos constitucionais da saúde e da educação. Ou, então, que apresentem outros planos, com alternativas críveis.

O certo é que o ajuste, com medidas amargas, terá de ser feito. Caso contrário, a dívida pública seguirá crescendo de forma insustentável e, na ponta, a população e as empresas continuarão a padecer. 


07 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Pesquisas do Brasil na Antártica em risco

Depois de várias tentativas, sem sucesso, de obter recursos financeiros do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Fundo Nacional de Ciência e Tecnologia (FNDCT) para a realização de uma missão aos módulos Criosfera 1 e Criosfera 2 na Antártica, a expedição do verão 2026/2027 foi cancelada.

Como consequência imediata, Criosfera 2 será desligado em novembro devido ao descarregamento das baterias. Criosfera 1 se desligará em 12 meses.

Os dois módulos são automatizados e funcionam com baterias que devem ser substituídas pelo menos a cada dois anos. A última missão do Criosfera 2 ocorreu durante sua instalação no verão de 2022/2023.

- A não realização de pesquisas no interior da Antártica reduz o protagonismo do Brasil dentro do Tratado Antártico. Ou seja, a pesquisa fica reduzida ao oceano e à Península Antártica - avalia o glaciologista Jefferson Cardia Simões, professor da UFRGS e pioneiro nos estudos antárticos.

Uma missão anual custa cerca de US$ 330 mil.

O desligamento dos equipamentos representa, na prática, o encerramento de todas as pesquisas do Brasil no interior do continente antártico. Ato contínuo, a interrupção da coleta de dados meteorológicos, dos medidores de ozônio atmosférico, de radiação UVA e UVB, do detector de raios cósmicos, do medidor de black carbon, do coletor de aerossóis e do medidor de CO2 atmosférico.

A não instalação no módulo Criosfera 2 de um medidor de CH4 atmosférico, sistema coletor de aerossóis totais, sistema GPS e novo sistema de transmissão de dados compromete estudos que impactam as pesquisas sobre eventos extremos na América do Sul. A Antártica é uma fonte de ar frio envolvida nas chuvas de setembro e novembro de 2023 e maio de 2024 no Rio Grande do Sul, diretamente associadas à região do Mar de Weddell e Sky Train Ice Rise, monitorados pelo Criosfera 2.

O que são

Os dois módulos são mantidos por geradores eólicos e solares ao longo de todo o ano, mas exigem manutenção no verão antártico. Sua estação meteorológica automática integra a rede nacional (Inmet) e a da Organização Meteorológica Mundial (WMO), e sua base de dados é disponibilizada livremente à comunidade científica nacional. Pesquisas são realizadas nas seguintes áreas: química atmosférica e glaciologia, incluindo estudos de testemunhos de gelo; climatologia; geofísica de geleiras; microbiologia; bioaerossóis; e física de alta energia.

Criosfera 1 está a 2,5 mil quilômetros ao sul da Estação Comandante Ferraz e a somente 660 km do Polo Sul geográfico. É o laboratório científico latino-americano mais ao sul da Terra, onde a temperatura média anual é de -33°C.

Criosfera 2 fica localizado ao sul do Mar de Weddell, região onde se originam as massas de ar frio responsáveis por ondas de frio e intensificação de eventos extremos no sul do Brasil. _

Retrato no Brasil: enquanto as pesquisas na Antártica sofrem revéses financeiros, o Prêmio Nobel de Física vai para estudos relacionados ao continente gelado.

Nomes para o Nobel da Paz

O Prêmio Nobel da Paz será anunciado oficialmente na próxima sexta-feira. De acordo com o comitê organizador da honraria, 287 nomes estão cotados para a premiação deste ano. Desses, 208 são indivíduos e 79 são organizações.

Segundo especialistas na premiação, os principais cotados são: o papa Leão XIV; o Tribunal Penal Internacional (TPI); a Corte Internacional de Justiça (CIJ); e Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados.

Outras candidaturas que se destacam são a das Emergency Response Rooms, uma rede sudanesa de grupos comunitários que fornece ajuda durante a guerra civil no país e a da ONG Save the Children, que auxilia crianças em áreas de conflito.

Há, ainda, a candidatura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. _

Denúncias de antissemitismo

Três anos após os atentados terroristas cometidos pelo Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023, a Federação Israelita do Rio Grande do Sul (Firs) recebeu 84 denúncias relacionadas a manifestações de antissemitismo contra a comunidade judaica gaúcha em 2026. Desse total, 31 têm relação com o ambiente digital.

O dado chama atenção para uma transformação na forma como o preconceito contra judeus circula; além de manifestações explícitas, discursos históricos também podem aparecer em memes, imagens, emojis e códigos.

O antissemitismo cresceu no mundo e no Brasil desde os ataques de 7 de outubro de 2023, lembrados hoje. Segundo o Relatório Anual sobre Antissemitismo no Brasil 2025, da Confederação Israelita do Brasil (Conib), o país registrou aumento de 149% no número de denúncias validadas entre 2022 e 2025, consolidando o que o relatório chama de um "novo normal" de hostilidade, padrão também observado em países como Austrália, França, Reino Unido e Itália, onde o volume de incidentes segue muito acima do registrado antes do conflito no Oriente Médio deflagrado pelo ataque do grupo terrorista Hamas a Israel.

Para a presidente da Firs, Daniela Russowsky Raad, reconhecer essas diferentes formas de manifestação é fundamental para que o preconceito possa ser enfrentado.

- O primeiro passo para combater qualquer forma de preconceito é reconhecer como ele se manifesta. O antissemitismo tem uma longa história, mas suas formas de circulação mudaram. Hoje, ele também aparece em linguagens digitais, muitas vezes codificadas, e ampliar o conhecimento da sociedade sobre isso é essencial - afirma. _

Atlas ajuda a reconhecer formas de preconceito

Neste 7 de Outubro, quando são lembrados os atentados terroristas cometidos pelo Hamas em Israel, em 2023, a Federação Israelita do RS (Firs) destaca o lançamento do livro Decodificando o Antissemitismo: Uma Adaptação ao Contexto Brasileiro - Um Atlas de Tropos de Ódio, do Deicídio ao Genocídio.

Em termos simples, o atlas funciona como um guia para reconhecer diferentes formas de antissemitismo. A publicação reúne 39 padrões de preconceito que aparecem ao longo da história e explica como eles podem reaparecer hoje em novas linguagens.

Escrito pelos pesquisadores Anelise Fróes, Bruno Cardoni Ruffier e Matheus Alexandre, o livro mostra que ideias antigas não desaparecem; elas podem mudar de aparência para circular em novos ambientes.

Assim, um estereótipo histórico pode reaparecer em uma imagem, um meme, um símbolo, um número ou uma referência que, isoladamente, pode parecer inofensiva, mas reproduz uma narrativa antissemita. A proposta é ajudar o público a entender o que está por trás dessas mensagens e por que determinadas imagens, palavras ou símbolos podem carregar discursos de ódio. O conteúdo está gratuitamente em combateaoantissemitismo.org.br. _

INFORME ESPECIAL

07/10/2026 - 04h00min
Bruna Oliveira

Recurso de campanha: saiba quanto os candidatos eleitos na Assembleia receberam e qual foi o custo por voto

Nova composição do parlamento gaúcho foi definida no domingo. Valores variam entre R$ 2,93 e R$ 45,33 por voto recebido entre os que conquistaram cadeiras. Juntos, os 55 deputados eleitos para a Casa fizeram pouco mais de 3 milhões de votos.

A nova composição da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul foi definida neste domingo (4). Cinquenta e cinco deputados estaduais foram eleitos para constituir o parlamento gaúcho na sua próxima legislatura. 

Utilizando dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Zero Hora fez um levantamento de quanto custou, por eleitor, uma vaga à Assembleia.

O cálculo considerou a receita financeira declarada pelos candidatos e o número de votos obtidos pelos eleitos nas urnas. A receita financeira é o dinheiro que entrou na conta de campanha por meio de transferências de fundos (eleitoral e partidário), doações de pessoas físicas, recursos do próprio candidato e repasses de outros candidatos, por Pix, TED, cheque ou depósito.

Ao todo, os 55 deputados gaúchos eleitos declararam gastos que somam R$ 38.174.381,15 em despesas para as eleições de 2026. Juntos, eles somaram 3.058.600 votos nas urnas.

O custo médio de cada voto foi de R$ 13,40. Mas houve candidato que gastou quase R$ 45,33 por voto recebido — acima do maior gasto aplicado para eleger um deputado federal.

O maior gasto por voto foi da candidata Adriana Lara (PL). Ela computou 26.129 votos e angariou para a campanha R$ 1,1 milhão. No lado oposto da lista, os votos de Gio Krug (PSD) custaram R$ 2,93 cada. O candidato eleito fez 49.844 votos e computou R$ 150,5 mil em receita.

Gastou e não entrou

Teve quem despendeu grande quantia e não se elegeu. O custo por voto de Diana Sales, suplente do PSD, chegou a R$ 216,28. Ela fez apenas 1.736 votos neste pleito, mas somou R$ 375.455 em receita para fazer campanha. 

Entre os suplentes, a candidatura de Professora Claudia, pelo PP, também saiu cara. Com 298 votos na urna, cada um deles acabou custando R$ 813,82 pela receita de R$ 242.517,33. Outro exemplo foi a candidatura de Silvio Jair Garcia, pelo PP. Foram apenas 89 votos na urna, ao custo de R$ 674,16 cada para a verba de R$ 60 mil empenhada na campanha.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

06 de Outubro de 2026
CARPINEJAR

A farmácia decide o que vou almoçar

O bairro foi o meu primeiro mundo. Frequentávamos sapataria, ferragem, ateliê de costura, armazém. Uma portinha levava a outra. Como um jogo de tabuleiro até a escola.

Nem sempre íamos para solicitar um serviço ou consumar uma compra. Geralmente, apenas cumprimentávamos e conversávamos com os donos, amigos da vizinhança.

Tanto que eu conservo um hábito antigo, que não prescreveu ao longo das décadas: o de me pesar na balança da farmácia. É o momento em que não preciso de receita.

Tiro os sapatos, os objetos do bolso e subo suspirando na prancha. É um ato solitário. Ninguém deve estar atrás de mim, ninguém deve ver. No instante em que identifico os meus quilos, se eles correspondem às minhas expectativas, falo para os mais próximos. Em caso contrário, digo que ela está desregulada ou finjo que não estive ali. Não tem quem não esconda o visor. Não se tenta de novo para não dar chance aos bisbilhoteiros de plantão.

Nunca adquiri o aparelho para o meu controle. Eu somente entro em farmácia que conte com a balança perto da porta.

Muitas vezes, sequer busco medicamentos. Só visito o estabelecimento para a pesagem. Os funcionários já toleram a minha presença invisível. Dos ponteiros, migrei para o visor digital. Da euforia infantil, migrei para o constrangimento adulto.

Faço isso desde pequeno, desde que a minha mãe me iniciou em uma conferida casual.

Para uma criança, o pódio representava o ponto máximo do dia. Como um passeio. Como um brinquedo. Anunciava-se o número em voz altissonante, diante dos fregueses. A informação íntima acabava sendo exposta ao público. Eu ainda não me sentia desrespeitado.

Naquela época, eu queria engordar. Era franzino, uma taquara, um par de gambitos. Esperava crescer, esperava ganhar músculos. Comemorava cada acréscimo. Sonhava em dispor de um tórax de nadador, ilusão da qual desisti pela minha incompetência na piscina. A natação me curou da asma, mas não alargou o peitoral e os ombros.

Invejava os meninos da minha turma que pareciam de uma série mais avançada. As meninas preferiam os mais altos e fortes. Eu só servia para o futebol - pois voava arrastado pelo vento. Agora rezo para, pelo menos, manter o mesmo peso, que oscila entre 76 e 80 quilos. Se extrapolo o limite, começo uma dieta. A farmácia decide o que vou almoçar.

O gesto muda meu humor. Posso ficar otimista ou pessimista de acordo com a contagem. Quando me encontro junto de minha esposa, ela não questiona o resultado. Não invade a privacidade. Pisamos no degrau com providencial distância. Não olho o display dela, ela não olha o meu. Assim seguimos o casamento em paz, sem sobressaltos. Repetimos o padrão de comportamento de qualquer atendente na hora de o cliente pôr a senha na máquina de cartão: viramos o rosto.

Jamais cansamos dessas aparições silenciosas. A drogaria é uma extensão de nossa casa. É onde meu corpo se observa por alguns minutos. Não deixa de ser meu espelho mais fiel. _

CARPINEJAR

06 DE OUTUBRO DE 2026
NÍLSON SOUZA

Olhar implacável

Multiplicam-se nos cruzamentos da Capital as câmeras de vigilância dotadas de inteligência artificial e olhar de raio X, programadas para flagrar infrações e distrações de trânsito. Para as primeiras, são muito bem-vindas. Motoristas que desrespeitam o sinal vermelho, avançam sobre a faixa de segurança, andam sem cinto, usam o celular ao volante ou trafegam acima da velocidade permitida merecem mesmo ser flagrados e punidos. Para alguns desses, multa é pouco. Infratores contumazes deveriam ter seus veículos apreendidos por longo tempo, pois apenas cassar a licença de dirigir - como a lei determina - não impede que delinquentes do volante continuem usando veículos como arma.

E quanto aos distraídos? Sei, claro, que distração também é infração, até mesmo porque descuidos com o carro em movimento podem ser fatais para terceiros e para o próprio condutor. Mas, pelo que tenho acompanhado do noticiário sobre as novas câmeras, elas também captam condutas irregulares que até pouco tempo atrás eram consideradas normais e rotineiras, como beber água enquanto o veículo está parado num sinal ou num engarrafamento ou soltar momentaneamente o cinto para tirar o casaco no momento da pausa no trânsito.

Desde que ouvi a entrevista de uma autoridade do trânsito sobre esse novo rigor fiscalizatório, evito até coçar a orelha quando paro num semáforo. Vá que as tais câmeras inteligentes interpretem o gesto como uma acomodação do fone de ouvido ou coisa parecida. Sequer ouso olhar diretamente para elas, pois os robozinhos podem pensar que os estou desafiando a encontrar alguma irregularidade. E vão encontrar, na certa: um pacote solto no banco de trás, um palito na boca do condutor, qualquer coisa que possa ser interpretada como distração.

Está bem, estou brincando com coisa séria, mas a verdade é que estamos cada vez mais acuados por sistemas de vigilância do poder público. Quero acreditar que o propósito da nova e poderosa espionagem eletrônica - mais do que multar, como temem alguns motoristas - é contribuir para um trânsito mais civilizado. Submeto-me, portanto, a essas verdadeiras tomografias computadorizadas no semáforo. Só não consigo descontrair. _

NÍLSON SOUZA

06 de Outubro de 2026
OPINIÃO RBS

Os acenos do governador eleito

No dia seguinte à vitória consagradora no primeiro turno, o governador eleito do Rio Grande do Sul, Luciano Zucco (PL), deu novas pistas sobre a postura que pretende adotar no cargo, as agendas prioritárias e o perfil da gestão. Chama atenção a promessa reiterada de uma conduta conciliatória. A busca pelo diálogo, inclusive com forças políticas antagônicas, teria o objetivo de construir consensos sobre pautas que unem os gaúchos, como obras de infraestrutura.

Deputado federal de estilo combativo, Zucco ganhou projeção nacional como líder da oposição ao governo Lula na Câmara. Agora, indica trocar os embates pela costura de apoios para temas de interesse do Estado. Irá em uma boa direção se confirmar, na prática, um comportamento agregador, aberto a conversar inclusive com parlamentares petistas. A complexidade dos desafios postos para o RS retornar aos trilhos do desenvolvimento exige mais avenças e menos desavenças estéreis por razões ideológicas.

A sinalização de que formará um secretariado técnico, com nomes que dominem as áreas que vão comandar, também é um indício promissor. O compromisso de reduzir o número de secretarias, das atuais 30 para algo entre 15 e 20, tenta passar uma postura de austeridade em um Estado com sérias dificuldades financeiras, com um déficit orçamentário de R$ 4 bilhões previsto para 2027.

Além da vitória retumbante na corrida ao Palácio Piratini, o futuro governador larga com uma base confortável. A sua coligação elegeu 27 dos 55 deputados estaduais. É uma situação que o favorece nas negociações políticas. Estará menos sujeito à pressão para ceder cargos em troca de apoio no parlamento, embora demonstre disposição para compor com partidos de centro-direita na Assembleia.

Sobre questões federativas, Zucco demonstrou dar prioridade a temas como a renegociação da dívida do Estado com a União e a aprovação do Fundo Constitucional do Sul e do Sudeste. O desempenho do PL na eleição para o Congresso é um trunfo. O partido terá as maiores bancadas na Câmara e no Senado. A vitória em primeiro turno de governadores da sigla e de legendas aliadas, no Sul e no Sudeste, é um instrumento de força adicional. 

Deve ser prioridade angariar adesões à causa de manter a suspensão do pagamento da dívida com a União, previsto para recomeçar em maio, utilizando esses recursos para apoiar projetos de irrigação. O dificultador será a necessidade de o próprio governo federal promover um ajuste fiscal duro a partir do próximo ano, o que pode levar o poder central a também ser menos condescendente.

Outro sinal de maturidade política é o compromisso de manter programas do governo Eduardo Leite com bons resultados. Ontem, Zucco citou o RS Seguro, decisivo para diminuir os índices de criminalidade, e o Devolve ICMS, que reembolsa parcela do imposto pago por famílias de baixa renda.

Os momentos que se seguem a triunfos eleitorais são de justa comemoração e impregnados de otimismo. A realidade que espera a nova gestão, no entanto, é intrincada. Aguarda-se que o governador eleito, ao assumir as suas funções, pratique de fato a conduta conciliatória prometida, forme e mantenha uma equipe pautada pela eficiência e consiga entregar resultados à população gaúcha. 

06 de Outubro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Como Zucco deve montar sua equipe de governo

Um dia depois de ser eleito governador no primeiro turno, Luciano Zucco (PL) confirmou que pretende reduzir o número de secretarias de 30 para entre 15 e 20 e indicou qual será o perfil dos secretários. A ideia é nomear apenas pessoas com conhecimento técnico da área em que vão atuar e capacidade de diálogo com os setores envolvidos. Nos planos do futuro governador, está o reforço da estrutura já existente em Brasília, para ter uma pessoa "com tamanho suficiente" para dialogar com ministros, senadores, deputados e governadores.

Pelo perfil descrito, o nome combina com a ex-senadora Ana Amélia Lemos, que deixou o PSD, voltou para o PP e foi conselheira de Zucco em toda a campanha. Ele reconheceu que Ana Amélia deve estar na equipe. Outro que deve integrar o secretariado é Leonardo Pascoal (PL), hoje secretário da Educação de Porto Alegre, não necessariamente na mesma área. Ex-prefeito de Esteio, Pascoal tem experiência política e administrativa e uma das características buscadas por Zucco para todos os secretários: capacidade de diálogo.

Entre os deputados, Zucco citou apenas um nome como exemplo de político que poderia ocupar um cargo no Executivo. É o deputado Claudio Branchieri, 55 anos, economista e professor universitário. Na Comunicação, o governador eleito não falou em nomes, mas em diferentes ocasiões elogiou o trabalho da jornalista Tânia Moreira, responsável pelos programas de TV.

Outro nome possível para a Comunicação é o de Renan Arais, que o assessorou durante a campanha. Cleber Benvegnú, mesmo que seja convidado para algum cargo no governo, não aceitará porque pretende retornar à empresa da qual é sócio, a Critério.

Logo no início da campanha, quando as pesquisas indicavam que Ubiratan Sanderson (PL) teria dificuldade para se eleger senador, Zucco o tinha no topo da lista para a Secretaria da Segurança Pública. Eleito com uma das maiores votações da história para o Senado, Sanderson descarta a possibilidade de se licenciar. Diz que tem um compromisso com o RS em Brasília.

Secretaria de Estado

Cezar Schirmer, que se licenciou do MDB para atuar como conselheiro de Zucco, será um dos nomes fortes da transição, ao lado de Pascoal e Benvegnú, e é forte candidato a ocupar uma secretaria. Eleito no primeiro turno, Zucco não precisará fazer concessões aos partidos nem abrigar deputados no primeiro escalão para acomodar suplentes que não se elegeram. _

AL mais feminina

Com acréscimo de mulheres, incluindo a primeira travesti eleita para o parlamento gaúcho, a Assembleia Legislativa amplia a representatividade feminina com a nova composição a partir do ano que vem. A bancada cresceu de 11 para 16 deputadas entre as 55 cadeiras.

Três novatas vêm da Câmara de Porto Alegre: Comandante Nádia (PL), Karen Santos (PSOL) e Natasha Ferreira (PT). Na sessão de ontem, elas e os vereadores homens eleitos foram homenageados pela Casa com um buquê de flores - com direito a cumprimentos entre Nádia e Natasha, antagonistas de embates no plenário.

A maior parte das mulheres eleitas é alinhada com o campo da direita. _

Agenda no Estado e na capital federal

Depois de passar a segunda-feira concedendo entrevistas à imprensa, Luciano Zucco se prepara para uma semana dividida entre o início da transição no Estado e articulações em Brasília. Hoje, Zucco deve ter a primeira reunião com o núcleo duro da campanha para começar a desenhar o processo de transição. À noite, Zucco embarca para Brasília, onde ainda cumpre mandato como deputado federal.

Amanhã, Zucco participará de reunião a convite de Flávio Bolsonaro (PL). No encontro, os dois devem tratar de mobilizações para a campanha do senador no segundo turno da disputa presidencial. _

PL do RS bate meta traçada em 2025

O presidente do PL no RS, Giovani Cherini, está muito satisfeito. Reeleito deputado federal, celebra a eleição de Zucco, dos senadores Ubiratan Sanderson (PL) e Marcel van Hattem (Novo), das maiores bancadas de deputados federais e estaduais e dos campeões de voto na Assembleia e na Câmara, sua esposa Adri Cherini e o deputado reeleito Maurício Marcon. A meta traçada em 2025, segundo Cherini, foi atingida:

- Colocamos no papel uma projeção ousada: eleger o governador do RS, um senador, oito deputados federais e 12 estaduais, além de fortalecer ainda mais a presença do PL nos 497 municípios. _

Peso da pesquisa qualitativa

Todos os candidatos que fazem campanhas profissionais contratam um instituto de pesquisa. Mas a campanha de Zucco decidiu mergulhar na cabeça do eleitor e contratou o Instituto Pesquisas de Opinião (IPO), da cientista social Elis Radmann. O IPO constatou que dois terços do eleitorado não queriam a continuidade da gestão Eduardo Leite e se queixavam da falta de entregas nas áreas de saúde, enchentes, educação e segurança.

Por que Zucco falou tanto em prosperidade? Porque o IPO mostrou que o eleitor não percebia o RS como um Estado próspero. E a história de que nas enchentes foi apenas "o povo pelo povo" colou. _

POLÍTICA E PODER

06 de Outubro de 2026
INFORME ESPECIAL- Rodrigo Lopes

Efeitos do El Niño: o primeiro desafio do futuro governador

O governador eleito Luciano Zucco vai assumir o Palácio Piratini em meio às consequências de um El Niño vitaminado. As enchentes e as mudanças climáticas são, junto com a saúde, a principal preocupação dos gaúchos, segundo a pesquisa Quaest. Desde a vitória, Zucco tem dito que pretende manter "projetos que tiverem uma entrega efetiva", de forma geral. Em entrevista ao Jornal do Almoço, ontem, Zucco afirmou que sua prioridade número 1, no tema enchentes, será "a segurança das pessoas".

- É demorado fazer um dique? É demorado. Às vezes burocrático, às vezes a obra se estende, mas as casas são mais rápidas. O nosso foco prioritário é tirar as pessoas das áreas de risco. A gente tem o entendimento de que a segurança das pessoas é o número 1. E fazer uma casa não demora tanto. Portanto, temos recursos para isso, temos o Programa Assistir, temos programa do governo federal e do governo estadual, que é a Compra Assistida. Após isso, ou em paralelo a isso, desassoreamento de rios urbanos, canais urbanos, dragagens urbanas, limpeza de terrenos e áreas alagáveis controladas - afirmou. 

Orientar uma política estadual de proteção e defesa civil pela prevenção e redução de riscos.

Fortalecer a Defesa Civil Estadual, com estrutura técnica, profissional e integrada.

Concluir, integrar e manter radares, estações hidrológicas e meteorológicas, sensores geotécnicos e demais sistemas de observação.

Qualificar os alertas à população com a integração do SMS, Cell Broadcast, sirenes e outros canais.

Atualizar continuamente os mapas de inundação, enxurrada, deslizamento, estiagem, incêndio e outros riscos relevantes.

Definir a carteira estadual de obras prioritárias de proteção contra cheias, drenagem, contenção, amortecimento e estabilização.

Promover a diversificação da matriz energética, ampliando o aproveitamento de fontes renováveis, da geração distribuída, do biogás, do biometano e do hidrogênio, além de estruturar uma política competitiva para o gás natural e fortalecer a infraestrutura energética no meio rural.

Consolidar o Biogás RS com projetos economicamente viáveis.

Estimular pesquisa, inovação e investimentos em novas tecnologias e usos econômicos do carvão e de seus derivados, buscando alternativas de maior valor agregado e menor impacto ambiental.

Modernizar o licenciamento ambiental com segurança jurídica e rigor técnico, fortalecendo a Fepam, a gestão integrada das águas por bacia hidrográfica, a ampliação do monitoramento ambiental, a adaptação dos ecossistemas às mudanças climáticas e a conservação da biodiversidade.

Proteger os biomas, fortalecendo unidades de conservação, fiscalização, monitoramento e uso econômico compatível com a manutenção dos ecossistemas.

Aviões militares estrangeiros sobrevoam o Brasil

Uma operação envolvendo seis caças F-16 da Argentina e duas aeronaves KC-135R de reabastecimento aéreo dos Estados Unidos chamou a atenção na última semana ao cruzar o espaço aéreo brasileiro.

Trata-se do traslado de caças adquiridos pelo governo argentino junto à Dinamarca, que passam a integrar a frota militar do país vizinho.

O voo partiu do Aeroporto de Gran Canária, nas Ilhas Canárias (Espanha), com destino à Base Aérea de Río Cuarto, na Argentina. A rota que conectou a Europa à América do Sul incluiu uma escala técnica em solo brasileiro, no aeroporto de Natal (RN).

Segundo a Força Aérea Brasileira (FAB), os seis caças da Força Aérea Argentina e as duas aeronaves de reabastecimento em voo da Força Aérea dos EUA (USAF) entraram no espaço aéreo nacional em 28 de setembro. Após pousarem na Base Aérea de Natal, os aviões deixaram o país no dia seguinte, 29 de setembro, cruzando a fronteira pelo Paraná.

Vídeos que circularam nas redes sociais - divulgados principalmente pelos canais Brazil Aviation Araraquara SP e Defesa Aviação - indicavam que os caças teriam sobrevoado a cidade paulista de Araraquara. No entanto, a FAB esclareceu em nota que as aeronaves não passaram sobre a cidade nem sobre Gavião Peixoto, tendo cruzado a aproximadamente 20 quilômetros desta última, em altitude de cruzeiro e por uma rota aérea regular.

A FAB informou ainda que a entrada e o sobrevoo das aeronaves estrangeiras foram devidamente autorizados pelo Comando da Aeronáutica, sob coordenação e controle do Departamento de Controle do Espaço Aéreo. _

Como foi a votação no Exterior

O candidato Lula (PT) venceu em oito dos 10 maiores colégios eleitorais no Exterior: Portugal, Canadá, Alemanha, Espanha, Reino Unido, Itália, França e Suíça. Já Flávio Bolsonaro (PL) levou a maioria dos votos em dois países com maior quantidade de eleitores: Estados Unidos e Japão.

Além dos principais colégios eleitorais, Lula teve votações expressivas na Argentina (64% dos votos). Flávio obteve vantagem expressiva no Paraguai, onde conquistou 84% da preferência. _

Votação nos 10 maiores colégios eleitorais

1| Estados Unidos

Flávio Bolsonaro 45.004 votos

Lula 23.335 votos

2| Portugal

Lula 26.401 votos

Flávio Bolsonaro 19.418 votos

3| Japão

Flávio Bolsonaro 24.601 votos

Lula 5.234 votos

4| Canadá

Lula 12.508 votos

Flávio Bolsonaro 7.043 votos

5| Alemanha

Lula 13.525 votos

Flávio Bolsonaro 3.532 votos

6| Espanha

Lula 7.263 votos

Flávio Bolsonaro 3.338 votos

7| Reino Unido

Lula 8.152 votos

Flávio Bolsonaro 5.227 votos

8| Itália

Lula 6.148 votos

Flávio Bolsonaro 4.386 votos

9| França

Lula 8.054 votos

Flávio Bolsonaro 1.654 votos

10| Suíça

Lula 5.194 votos

Flávio Bolsonaro 4.525 votos

INFORME ESPECIAL