segunda-feira, 29 de junho de 2026

Bares em frente ao Beira-Rio e à Arena enfrentam dificuldades sem jogos da dupla GreNal

Movimento nos bares do entorno dos estádios de Grêmio e Inter cai com a Copa do Mundo

Movimento nos bares do entorno dos estádios de Grêmio e Inter cai com a Copa do Mundo

Nathan Lemos/JC

Cássio Fonseca
Cássio FonsecaRepórterA época de Copa do Mundo é sinônimo de festa, com jogos para tudo que é lado e um gostinho especial nos dias de seleção brasileira, que está há 24 anos atrás do hexacampeonato. Mas essa cultura de união em volta da Canarinho, por mais que se espalhe pelas ruas em pontos como o Parque Harmonia, que recebe multidões nos dias de jogo, também representa um calendário parado para os clubes e, consequentemente, para os comércios no entorno dos estádios, que sobrevivem à base de jogos da dupla Gre-Nal.
No Beira-Rio, em uma avenida mais movimentada e numa área mais central de Porto Alegre, são poucos os que se aventuram a abrir as portas nos dias de Brasil para receber o público. No caso do bar e brechó Minha Camisa Vermelha, dos sócios Max Peixoto e Douglas Carmona, o melhor movimento nos jogos da seleção é equivalente a 30% do pior dia de Inter. Mesmo assim, vale a pena receber o público, que é formado por uma clientela fidelizada — a mesma, em partes, dos jogos do Colorado.
Abertos desde março deste ano, explicam que já viam 2026 como um período difícil, justamente pela parada para o Mundial e pelo tempo necessário para se consolidar perante a concorrência. Para suprir a queda na demanda, apostam na loja online do brechó, também disponível nos fundos do bar, com camisas dos mais diversos anos da história do Inter.
Aposta para o bar é unir a torcida pelo Brasil com a saudade do Beira-Rio | Nathan Lemos/Divulgação/JC
Aposta para o bar é unir a torcida pelo Brasil com a saudade do Beira-RioNathan Lemos/Divulgação/JC
Ainda assim, a aposta para o bar é unir a torcida pelo Brasil com a saudade do Beira-Rio. “Nos organizamos para transmitir os jogos inclusive para o cara que está sentindo falta de estar perto do estádio. Tem muita gente que gosta de estar em volta e de trazer essa galera em momentos que não tem jogos do Inter”, explica Peixoto.
Carmona acrescenta que o negócio promove a troca de figurinhas no local, e que, por tabela, ganham com mais consumo. “Às vezes você acha que é só uma figurinha e que a margem de lucro é muito pequena, mas volta e meia um cliente compra bebida, até camiseta, e ajuda muito”, explica. 
Para o ano que vem, os sócios esperam a parada da Copa do Mundo Feminina, neste mesmo período, com bons olhos, já que haverá partidas no Beira-Rio e a expectativa é por um grande movimento no entorno. Quem também pensa assim é Igor Dummer, conhecido como “Alemão da Borracharia” no entorno do estádio, que é proprietário de três bares e uma loja de pneus.
Há 25 anos com empreendimentos à frente do Beira-Rio, Dummer tem hoje o Bar do Alento como seu principal negócio para o pré e o pós-jogo do Inter. Com uma capacidade mais ampla, explica que o faturamento é proporcional à lotação do estádio e que, nos grandes compromissos, as vendas decolam. E por isso, com o calendário parado e percebendo um torcedor menos empolgado, enfrenta dois meses sem abrir as portas e arcando com o alto custo do aluguel.
Uma reclamação que Peixoto, Carmona e Dummer têm em comum, diante da dificuldade, é que o Inter irá disputar dois amistosos em casa com os portões fechados. São duas datas a menos em meio ao marasmo que, com certeza, ajudaria a manter os negócios mais sustentáveis.
“Isso é lamentável, né? Sinceramente, eu não consigo entender até hoje. Para quem se diz o Clube do Povo, a gestão não entende que não precisa cobrar, faz uma campanha do agasalho, faz uma campanha para alimentação. Prejudica muito o comércio”, opina Dummer.
Para o restante da Copa do Mundo, o proprietário do Alento irá esperar para ver até onde o Brasil vai chegar. A depender da fase e do desempenho, pretende abrir as portas e receber o público nos jogos da seleção.
Quem também pensa assim, do outro lado da cidade, é Luciano Osório, dono do Mercado Luciano, em frente à Arena, na Rua do Grêmio, onde ocorre a maior concentração de torcedores.
Ele está surpreso pelo movimento nulo no entorno, sem nenhuma empolgação com a seleção brasileira ou a competição em si. “Ninguém quer saber, está todo mundo desanimado. Agora nessa segunda fase estamos pensando em pintar o Weverton aqui na rua, ver se dá uma movimentada”, frisa o comerciante.
Dono do Mercado Luciano diz que nunca viu um movimento tão baixo em Copa do Mundo como o atual | Nathan Lemos/Divulgação/JC
Dono do Mercado Luciano diz que nunca viu um movimento tão baixo em Copa do Mundo como o atualNathan Lemos/Divulgação/JC
Também revela que, há 25 anos no ponto, nunca viu uma Copa tão monótona. Nos outros anos era bem mais movimentado. Nós pintamos a rua, colocamos bandeirinha, e neste ano eu até fiz uma movimentação com os outros negócios, mas ninguém quis”, completa.
O que segura as pontas, conforme Osório, é que a sequência de jogos do Grêmio antes da parada foi substanciosa, assim como o movimento, servindo como um fôlego para os demais. Agora, revela que para equilibrar as contas precisa ficar aberto até de madrugada, fazendo promoção de bebidas e apostando nos itens de mercado para os moradores do bairro.

O principal motivo para essa situação é o mesmo para todos os empreendedores: a fase da seleção brasileira. Mesmo com um time mais encaixado para o mata-mata, o ciclo conturbado, as crises na CBF e o desempenho aquém do esperado resultaram num movimento menor. Ainda assim, não há uma descrença completa e, por isso, outros pontos da Capital. 

São Francisco de Paula investe em estratégia para crescer sem perder a identidade

Lago São Bernardo é considerado um dos cartões postais da cidade serrana

Lago São Bernardo é considerado um dos cartões postais da cidade serrana

Josiele Silva/Divulgação/JC
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Cristiano Bastos
Especial para o JC
A cidade de São Francisco de Paula, na Serra Gaúcha, vive uma transição econômica acelerada. Com um PIB estimado em R$ 1,2 bilhão, o município une a força do agronegócio — que movimenta R$ 280 milhões anuais com tecnologias como a robotização — à expansão do turismo de experiência e hotelaria de alto padrão. Para ordenar esse crescimento e proteger sua essência, a prefeitura, em parceria com a Universidade de Caxias do Sul (UCS), está desenvolvendo o Plano São Chico 2050.
Contratado em 2024, o projeto, com duração total de 24 meses (atualmente encontra-se em fases finais, com entrega prevista para meados de agosto) integra o programa UCS ReNova Cidades. "Trata-se de uma plataforma estratégica que guiará o município pelas próximas três décadas, estruturada em 11 produtos que abrangem desde a revisão do Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado e o Plano de Mobilidade até a gestão de resíduos, drenagem, ações para mudanças climáticas, desenvolvimento econômico, elaboração de estratégias de comunicação, e a salvaguarda do patrimônio histórico e cultural", explica Juliano Gimenez, diretor do Instituto de Saneamento Ambiental e Coordenador Institucional do projeto pela UCS.
Apoiada em um investimento de R$ 2,3 milhões provenientes da prefeitura para sua elaboração e na força-tarefa de 30 especialistas da UCS, a iniciativa tem como meta transformar a cidade em um polo de turismo sustentável e agronegócio tecnológico, blindando a segurança jurídica dos novos negócios e a preservação do patrimônio natural da Serra Gaúcha.
O grande diferencial da iniciativa é a transversalidade, garantindo que as frentes de desenvolvimento urbano, ambiental e econômico caminhem juntas para evitar o crescimento desordenado e garantir segurança jurídica aos investidores. O vice-prefeito, Roberto Lopes, destaca a importância dessa sinergia na concepção do projeto: "A ideia do Plano 2050 era ter um Plano Diretor que conversasse com o Plano de Turismo e com o Plano de Comunicação, para que tudo andasse na mesma direção".
O Plano São Chico 2050 se consolida, assim, como um legado institucional. O município agora se prepara para as últimas audiências públicas antes da aprovação final. Mais do que um conjunto de diretrizes técnicas, ressalta Gimenez, o plano assegura que São Francisco de Paula avance em direção ao futuro, firmando-se como um destino de altitude exclusivo, sustentável e profundamente conectado com as suas raízes históricas e ambientais.
 

Onde a paisagem vira experiência e a cultura vira investimento

O ecossistema de hospitalidade de São Francisco de Paula tem raízes na Quisisana Hampel, de 1899, e ganhou novo fôlego com o retorno de talentos que viram valor na identidade serrana. Nos anos 1970, Newton e Alex Alano transformaram o sítio da família no embrião da Pousada do Engenho, hoje referência de charme na Serra Gaúcha.
Parador Hampel integra a nova fase turística da cidade  | Parador Hampel/Divulgação/JC
Parador Hampel integra a nova fase turística da cidadeParador Hampel/Divulgação/JC
Na gastronomia, São Chico ganhou projeção nacional com Marcos Livi. O chef nascido na cidade voltou em 2017, adquiriu o antigo Veraneio Hampel e criou o Parador Hampel e o restaurante Ana Terra, vitrine da cozinha dos Campos de Cima da Serra e do fogo de chão.
Município  ganhou projeção nacional com o chef Marcos Livi | ÁLVARO BONADIMAN/DIVULGAÇÃO/JC
Município ganhou projeção nacional com o chef Marcos LiviÁLVARO BONADIMAN/DIVULGAÇÃO/JC
O trabalho colocou a cidade na rota de quem busca autenticidade. Na mesma trilha, Rafael Castello Costa abriu o Restaurante Castelli, apostando em receitas da família serrana e ingredientes do campo. Com isso, a gastronomia local ganha outra referência ancorada na memória afetiva, reforçando São Chico como destino de experiência.
O boom turístico de São Chico por sua vez puxou o mercado imobiliário. Foi nesse cenário que nasceu o Araú Condomínio de Montanha, pensado para atender a demanda por lazer, segurança e contato com a natureza entre araucárias centenárias, próximo ao Lago São Bernardo e ao centro da cidade.
O projeto entrega um clube completo com academia, piscinas com borda infinita voltadas para o pôr do sol e aquecidas para os dias frios, sauna, beach tennis, quadras, trilhas, pomar de kiwi e espaços de convivência com fogo de chão. Pioneiro na cidade, o condomínio foi o primeiro a implantar estação de tratamento de esgoto. O conceito privilegia a contemplação: arquitetura com muito vidro e diretrizes construtivas que preservam sol e vista entre as casas.
Dos 102 lotes, restam 12 disponíveis hoje na faixa de R$ 480 mil. Só o empreendimento injeta cerca de R$ 50 milhões em Valor Geral de Vendas, o o chamado VGV, e já impactou o preço do m² na região.
"Há anos o mercado pedia um produto que unisse infraestrutura de lazer, segurança e belezas cênicas. Em meio às araucárias, perto do Lago São Bernardo e do centro, criamos o Araú com a essência de montanha e natureza", explica César Ledur, responsável pelo projeto. Segundo ele, "o Araú aqueceu o setor imobiliário e a economia do município, com aumento de arrecadação e geração de empregos. As primeiras casas já começaram e os condôminos usam a infraestrutura desde março/26".
O apetite de investidores aparece em formatos distintos. O Resort Divisa recebeu R$ 40 milhões para ampliar de 120 para 180 leitos e gerar 200 empregos na alta. O Tedesco Eco Parque movimenta R$ 25 milhões/ano com ecoturismo e eventos, mantendo 150 empregos fixos. Somam-se Mátria Parque de Flores, a charmosa NaCarapina e até uma cabana itinerante.
O Mátria Parque de Flores é considerado o maior parque de flores das Américas. Com uma área de 50 hectares, o espaço abriga 30 jardins distintos integrados à paisagem natural dos Campos de Cima da Serra. O Mátria, explica Fernando Piazza, proprietário e CEO do empreendimento, é uma grande fusão de arte e natureza com jardins que ocupam 25 hectares e mudam a cada semana e estação.
Mátria Parque é considerado o maior parque de flores das Américas | TACYLA AMARAL/DIVULGAÇÃO/JC
Mátria Parque é considerado o maior parque de flores das AméricasTACYLA AMARAL/DIVULGAÇÃO/JC
"É assim que encantamos o público — além de eventos e gastronomia", diz. A escolha por São Chico tem a ver com a paisagem, ele completa. "Consideramos o local ideal para investir em turismo de experiência e contemplação. Antes de completarmos 5 anos recebemos mais de 350 mil pessoas, com um crescimento sustentável de 20% a cada ano e temos plano de expansão com novos equipamentos".
As festas tradicionais mantêm as raízes e a economia ativa. A Festa do Pinhão reúne 35 mil pessoas e injeta R$ 8 milhões. A Festa da Batata atrai 25 mil e movimenta R$ 5 milhões. Junto ao Festival Beatles e eventos de inverno, criam calendário contínuo. Com Livi no Ana Terra, Castello no Castelli e novos como Jardim Madá, Zodíaco, Lírio e o Araú estruturando o imobiliário, São Chico consolida um modelo onde tradição e inovação caminham juntas. Terra, identidade e investimento se retroalimentam: quem vem pela paisagem fica pela experiência, e quem investe encontra cultura transformada em ativo econômico.