sábado, 12 de setembro de 2026

 

12 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

O galo que mandava em casa

Eu encontrei, num brechó, aquele galo que já me anunciou muitos amanheceres. Um pequeno galo que cabia na palma da mão e determinava nossas roupas, se sairíamos de casaco, de guarda-chuva, de galochas.

Nem a minha mãe ou o meu pai mostravam tanta influência. Ele mudava de cor conforme a umidade do ar. Não media propriamente a temperatura, mas era como se fosse nosso meteorologista.

Ficava numa base arredondada, num poleiro particular, pronto para farejar os ventos.

Se o galo de verdade cantava quando a claridade do dia chegava, aquele detectava o minuano silenciosamente. Azul indicava clima seco; rosa nos orientava para o toró e para o frio. A percepção dessas alterações vinha de sais de cobalto em sua plumagem.

O galinho ocupou, durante longo tempo em nosso Pampa, o posto do pinguim em cima da geladeira. Uma superstição doméstica que virou decoração, ou uma decoração que se tornou crendice.

Poderíamos observar as nuvens tomando o céu, e somente acreditávamos no seu aspecto violeta. Poderíamos estar debaixo de um sol acachapante, mas somente confiávamos no seu perfil rosado.

No nosso terreiro, ele mandava.

Fazia parte de uma família de utensílios que modelavam o nosso comportamento no interior do Estado: a maçã de plástico no filtro de barro; a folhinha do calendário atada por uma chapinha metálica; o descanso do pano de prato na tampa de vidro do fogão; o bordado com miçangas nas pontas para espantar as moscas e cobrir a cesta de pão ou o bolo recém-tirado do forno; 

a passadeira de plástico transparente sobre a mesa, para não sujar a toalha bonita; a saboneteira com sabonetes cenográficos, perfumados, que ninguém tinha autorização para usar; o rolo de papel higiênico reserva escondido na bonequinha de crochê; o porta-fósforos preso à parede da cozinha; o porta-pente de tecido pendurado no banheiro, em que cada andar ou bolso trazia um pente de um tamanho diferente; 

a cortina de contas na porta, denunciando quem passava; o tijolo segurando a porta dos fundos para não fechar; o escorredor de louça com pratinho em pé; a garrafa térmica com café açucarado para a manhã inteira; o tapete da área de serviço feito de retalhos, que se enrodilhava numa leve pisada.

Somos vulneráveis para a nostalgia. Uma miniatura me devolveu os anos da minha formação. Ativou a memória involuntária. Num secreto estímulo sensorial, reconstituiu a minha casa da infância de maneira repentina.

Não revisitei apenas os objetos, mas os ruídos, os cheiros, as vozes, a sensação de transitar por um mundo extinto, como se houvesse uma ressurreição possível ao menino que fui.

Jamais é só um galo. Puxei uma pena e recebi toda a residência de volta. Metade construção, metade madeira; metade verão, metade inverno.

Ele deve ter também o poder de regular a temperatura do meu corpo. Aqueceu-me como nunca de frentes geladas da ausência. Ou de uma presença remota, sempre prestes a aparecer. _

CARPINEJAR

12 de Setembro de 2026
Fayda Belo - Advogada e comunicadora

"Não adianta só prender o homem quando o corpo da mulher já está estirado no chão"

Fayda Belo da Costa Gomes nasceu na periferia de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, em 1981. Por presenciar opressões desde a infância, aos oito anos já sonhava em ser advogada.

Começou a realizar esse sonho ao cursar Direito por meio do Prouni, já mãe de dois filhos. Tornou-se criminalista e virou referência em casos de crime de gênero e direito antidiscriminatório. Apesar da gagueira, amealhou milhões de seguidores nas redes sociais com seus vídeos "descomplicando o juridiquês".

Em agosto, esteve na Capital como uma das mais aguardadas palestrantes do Cidade da Advocacia, evento organizado pela OAB/RS, e conversou com Zero Hora.

Mathias Boni

Quando você começou a pensar em ser advogada, e depois se especializar em direito criminal e antidiscriminatório?

Ocupar esse lugar sempre foi o sonho da minha vida. Veja, além de ser uma mulher, sou negra, e vim de um lugar muito pobre. Cresci vendo todo tipo de opressão, contra mulheres, contra homossexuais, contra pessoas negras, pessoas pobres. E, já muito cedo, com uns oito aninhos, comecei a ter esse sonho de ser advogada e atuar contra essas opressões, que é o que eu faço hoje. Tive que enfrentar muitas barreiras para entrar na faculdade, mas consegui me formar e finalmente virar advogada.

Aqui no Rio Grande do Sul, e no Brasil como um todo, são muito preocupantes os atuais índices de feminicídio. O que é possível fazer?

A primeira reflexão é que esse crime é o último grau, é um crime que avisa antes que vai vir. Se é o último grau, houve alertas anteriores que foram ignorados. É uma obrigação do Estado desenvolver de forma efetiva políticas públicas que atentem para esses alertas, e que previnam que o crime seja consumado. Se é um crime que avisa antes, significa que essa rede que, em tese, tinha que dar amparo e proteção a essa mulher, falhou. Não adianta só prender o homem quando o corpo da mulher já está estirado no chão, ela não vai voltar à vida. É preciso intensificar a proteção nas fases anteriores ao crime.

Tramita no Congresso o projeto de lei que ficou conhecido como PL da Misoginia. Como você avalia a proposta?

A gente vive em um mundo que está cada vez mais online, que também abriu espaço para muitos discursos de ódio, e um desses é contra as mulheres, com essa onda red pill, por exemplo. É um discurso misógino que se reflete em crimes contra as mulheres, em opressão contra as mulheres, e isso tem que ser coibido. O PL é muito necessário e vai além do combate ao discurso digital. É amplo e se propõe a combater todas as formas de discursos de ódio e discriminação contra a mulher, que é a pólvora que alimenta crimes como os feminicídios. O PL cria um dispositivo jurídico que facilita o reconhecimento e a punição desse discurso de ódio como crime.

Em agosto se completaram 20 anos da Lei Maria da Penha. Qual foi a importância dessa legislação para reforçar a proteção às mulheres nas últimas duas décadas?

É um marco histórico na vida de todas as mulheres brasileiras. Foi com essa lei que começou no Brasil a se reconhecer que o ambiente de casa também é perigoso para a mulher, para a esposa, que o marido não pode enxergar a esposa como sua posse, que ele também pode violentar e matar essa mulher. A lei também não nasce a partir de uma vontade voluntária de proteger as mulheres e, sim, da omissão na proteção dessas mulheres, que já tinha produzido tantos casos terríveis de sofrimento. A contribuição que a lei trouxe para a proteção às mulheres, e mesmo para o debate da violência de gênero no Brasil, foi inestimável, mas mesmo assim ainda vivemos em um país onde, em média, são assassinadas quatro mulheres por dia. Se não fosse a lei, a proteção jurídica e a evolução no debate e na consciência das mulheres que promoveu, esse número seria muito maior.

Nesse cenário de violências contra a mulher, o panorama é ainda mais sensível para mulheres negras?

A mulher negra é duplamente vulnerável: sofre com a opressão relativa ao gênero e com a opressão relativa à raça. Esse fato faz com que as mulheres negras sejam as maiores vítimas desses crimes de violência. O Brasil é um país com muitas violências machistas, e o peso dessa violência recai sobre a mulher. E o Brasil também é um país com muitas violências racistas, e o peso dessa violência recai sobre os negros. A mulher negra, portanto, acumula esses dois pesos. Por isso, quando crio uma ação ou uma política pública de proteção às mulheres sem o recorte racial, será uma política falha, incompleta

Nos seus anos de atuação no âmbito do direito antidiscriminatório, o quanto acha que evoluiu o combate ao racismo no Brasil?

Se avançou muito no Brasil nas últimas décadas, mas, da mesma forma, ainda há muito a ser feito. Mais recentemente, do ponto de vista legislativo, a lei que equipara a injúria racial ao racismo, em 2023, foi um avanço importante. Por outro lado, as principais instituições do Judiciário continuam tendo autoridades majoritariamente brancas. Os tribunais de Justiça, ministérios públicos, mesmo as delegacias, ainda seguem com uma grande maioria de autoridades sendo homens brancos. É inegável que ocorreram avanços de inclusão social no Brasil nas últimas décadas, teve a Lei de Cotas, que foi fundamental para isso, e também avançaram as leis de combate aos atos de racismo. Estamos avançando, mas não podemos parar.

Como você define a importância de sua presença digital dentro do trabalho?

Quando participamos de congressos e palestras, a mensagem chega só para aquele público. No mundo online, um vídeo, uma postagem nas redes sociais chega a milhões de pessoas. Então é muito importante se apropriar desse espaço e usar esse alcance para reforçar a mensagem da igualdade de gênero, de raça. Depois que meu primeiro vídeo viralizou, entendi que é uma plataforma que pode ser usada para levar informação ao público, falando sobre leis, conscientização, direitos, e que, muitas vezes, se não for pelas redes sociais, muitas pessoas não têm acesso a esse tipo de conhecimento. 



12 de Setembro de 2026
MARCELO RECH

Depois da terça-feira

Em um mundo normal, que hoje mais parece um mundo da fantasia, o plenário do STF se reuniria na próxima terça-feira e, diante das evidências da promiscuidade de pelo menos um de seus membros com um gângster financeiro, o afastaria, por unanimidade, até que tudo tenha sido esclarecido. Nesse mundo, o zelo pelas biografias dos ministros, a reputação do STF e a ordem institucional estariam acima de quaisquer mesquinharias e interesses privados.

Pois infelizmente esse mundo da carochinha só existe na empolação dos discursos oficiais. Na penumbra, a Suprema Corte se transformou em arena partidária, como se estivesse dividida em partidos que se digladiam pelo poder, quando não pela opulência que se abre a togas mais flexíveis. Para a confiança na democracia e no sistema de pesos e contrapesos no qual ela se assenta, a partidarização do STF é uma tragédia que não tem apenas um culpado: ela teve início quando as indicações a ministros passaram a privilegiar lealdade política antes do virtuosismo jurídico.

Não que a origem política comprometa de saída a composição da Corte. Um ex-ministro de peso como Paulo Brossard tinha larga trajetória partidária quando indicado por José Sarney, em 1989. Curiosidade dos tempos sem tanta polarização: no MDB, Brossard havia sido um dos críticos mais vocais da Arena, que fora presidida pelo mesmo Sarney. O problema mesmo foi quando alguns ministros, mesmo sem votações anteriores, não se furtaram a fazer política no STF.

Veja-se o caso de um jurista do quilate de Ricardo Lewandowski. Ao presidir o impeachment de Dilma Rousseff, ele passou por cima do Artigo 52 da Constituição, que inabilitaria a ex-presidente para qualquer função pública por oito anos. Ignorada a Constituição, Dilma disputou o Senado por Minas Gerais e foi humilhada com um quarto lugar na eleição de 2018. Mais tarde, Lewandowski viraria ministro da Justiça de Lula.

De drible em drible na Constituição, chegamos ao ponto em que decisões de ministros são vaiadas ou comemoradas por torcidas vendadas pela paixão política. Cada atropelo constitucional é saudado como gol por um lado e denunciado como pênalti pelo outro. O que falta de ética dentro do STF ecoa no placar das repercussões eleitorais do lado de fora. Difícil dar certo assim.

Tais analogias do STF com o futebol têm suas limitações óbvias. No futebol, uma falha do juiz é aceita pelo time favorecido como parte da disputa esportiva. Em uma decisão do STF, que deveria ser imune a manipulações e influências externas, o erro jurídico - ainda mais aquele movido por inclinações políticas - é um arranhão na democracia. A continuar assim, o STF, quem diria, corre o risco de passar de fiador a verdugo do Estado de direito. Veremos como será o pós-terça-feira.


MARCELO RECH

12 de Setembro de 2026
EDITORIAL

O peso da eleição para o Senado

Diz-se que grande parte do eleitorado define o voto para o Senado às vésperas de comparecer na urna. Essa constatação revela a importância secundária que a população parece dar para essa escolha diante das disputas que despertam mais as paixões políticas, como para governador e para a Presidência da República. Trata-se de um costume que deveria ser revisado.

O Senado tem características e atribuições específicas que conferem à Casa grande responsabilidade. Assim, é uma competição que mereceria maior atenção e uma análise mais profunda de triagem dos nomes a partir de suas ideias, propostas e trajetórias. No pleito deste ano, 54 das 81 cadeiras estarão em jogo. Com isso, em cada Estado e no Distrito Federal serão dois eleitos e os cidadãos aptos poderão votar em dois postulantes.

Com o propósito de contribuir para uma escolha consciente, a Rádio Gaúcha promoveu na sexta-feira um debate com os candidatos de partidos, federações e coligações com pelo menos cinco representantes no Congresso. Foram convidados Frederico Antunes (PSD), Germano Rigotto (MDB), Manuela d?Ávila (PSOL), Marcel van Hattem (Novo), Milton Cardoso (PSDB), Paulo Pimenta (PT), Renato Jaguarão (Cidadania) e Ubiratan Sanderson (PL). 

O encontro, em tom às vezes duro mas civilizado, como requer a democracia, teve a apresentação de esboços de propostas e o confronto de visões sobre temas como Supremo Tribunal Federal (STF), apostas esportivas, renegociação da dívida do Estado com a União, feminicídios e proteção de fronteiras, entre outros. Debates são oportunidade singular por proporcionarem o embate direto.

A eleição para o Senado ganhou foco adicional neste ano pelo fato de a Casa ter a atribuição de analisar o impeachment de membros do STF. A descoberta, desde o final do ano passado, de comportamentos incompatíveis com o cargo de alguns ministros, enredados no escândalo do Banco Master, tornou o tema mais palpitante. É possível que um processo de impedimento tenha de ser enfrentado. Mas cumpre lembrar que o papel do Senado é bem mais amplo. Há outros fatores que o eleitor deve considerar para enriquecer a construção da sua escolha.

A Constituição define que os senadores são representantes de seus Estados. Isso determina que sejam apenas três vagas por unidade da federação. É de extrema importância ter uma representação qualificada e atuante, à altura do desafio de defender os interesses do Rio Grande do Sul em Brasília.

O Senado é a Casa revisora da República pois, em regra os projetos de lei do Executivo tramitam primeiro na Câmara. Assim, é de onde se espera maior maturidade e sabedoria. Até por isso a idade mínima para exercer o cargo é maior, de 35 anos, ante 21 para a função de deputado federal e de 30 para ser governador. Outras competências exclusivas são aprovar ou rejeitar indicações para posições relevantes como diretores do Banco Central, procurador-geral da República e ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) e do próprio STF.

Com o intuito de auxiliar o eleitor, Zero Hora publicou uma série apresentando os oito candidatos, escolhidos pelos mesmos critérios do debate. O Bom Dia Rio Grande, da RBS TV, apresenta a partir de segunda-feira entrevistas individuais com postulantes. No dia 25, a RBS TV promoverá um novo debate. Vale lembrar que o mandato de senador é de oito anos. Uma escolha equivocada tem um custo maior para o Estado. 

12 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

André Mendonça retira sigilo de relatórios. Inquérito apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no financiamento do filme Dark Horse. Eduardo Bolsonaro é apontado como gestor de recursos nos Estados Unidos

Flávio Bolsonaro é investigado no caso Master

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de um inquérito policial para apurar a participação do senador e candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em supostos crimes no financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai, o ex- presidente Jair Bolsonaro.

Flávio foi incluído em 22 de julho na investigação que apura o repasse para custear a produção do filme de R$ 62 milhões pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mas isso só veio a público na manhã de sexta-feira. A investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Flávio rechaça qualquer irregularidade na captação dos recursos (confira ao lado).

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro também é alvo da investigação. Ele é apontado como possível beneficiário de parte do dinheiro. Eduardo foi citado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por orientar a gestão dos recursos do filme nos Estados Unidos. O inquérito foi aberto a pedido da Polícia Federal (PF) e recebeu o aval da PGR.

A existência de inquérito tendo Flávio como alvo direto veio à tona após Mendonça levantar o sigilo, na noite de quinta-feira, de procedimentos de investigação derivados da Operação Compliance Zero, que apura a corrupção de agentes públicos e fraudes financeiras bilionárias supostamente praticadas por Vorcaro e seu grupo.

Após a autorização para a abertura da investigação de Flávio ter sidoo tornada pública, o teor do inquérito também foi liberado, assim como outras apurações envolvendo o Master (veja na página 6). Mendonça tirou o segredo de Justiça dos documentos a pedido do presidente do STF, ministro Edson Fachin, que na noite de quinta-feira requereu a publicidade da investigação do Master, "ressalvado apenas o que diga respeito a diligências cujo sigilo seja imprescindível à realização da medida".

Veio a público também, por exemplo, relatório enviado ao Supremo apontando suspeitas envolvendo o ministro Dias Toffoli e um fundo que recebeu R$ 35 milhões ligados a Vorcaro (leia mais na página 6). Além disso, os relatórios indicam que Vorcaro soube antecipadamente da operação e apontam que dois ex-servidores do Banco Central (BC) teriam atuado como consultores do empresário mediante pagamento (leia mais na página 7).

Em áudios revelados pelo Intercept Brasil, Flávio pediu R$ 134 milhões a Vorcaro para custear o projeto da produção do filme Dark Horse. Desse total, mais de R$ 60 milhões foram pagos, segundo a PF.

No Supremo, correm duas investigações distintas sobre o financiamento do filme: uma sobre o custeio da obra com emendas parlamentares, que tramita no gabinete de Flávio Dino, e outra que acompanha os desdobramentos do caso Master, sob a alçada de Mendonça. É nessa segunda investigação que está inserida a apuração que atinge Flávio.

Segundo a PF, Flávio teria se encontrado com Vorcaro em agosto do ano passado, pouco mais de duas semanas antes de o senador cobrar o empresário sobre os pagamentos previstos para a produção do longa sobre Jair Bolsonaro. Conforme a PF, dados extraídos do celular de Vorcaro mostram que o banqueiro enviou a Flávio uma mensagem com um horário para um "provável encontro presencial entre ambos". Na sequência, o senador respondeu: "A caminho".

Recentemente, Mendonça homologou a delação premiada de Antonio Carlos Freixo Júnior. O empresário é dono da Entre Investimentos e Participações, que, segundo a investigação, foi usada para repasses de dinheiro entre Vorcaro e a produção do filme. Segundo o jornal O Globo, Freixo Júnior confirmou à PGR ter feito, a pedido de Vorcaro, sete transferências para o fundo Havengate que somaram US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 62 milhões.

Os investigadores apuram o destino final desses recursos e se o dinheiro serviu para cobrir despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Documento da Procuradoria destacou mensagens enviadas por Eduardo a Thiago Miranda, que seria o contato entre o ex-deputado federal e Vorcaro.

"O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para os EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de seis meses, calculamos", escreveu Eduardo.

Segundo a PGR, o ex-deputado teria coordenado o dinheiro para o filme do pai nos Estados Unidos, onde mora desde março do ano passado. "A autoridade policial levanta a hipótese de que Eduardo Bolsonaro orientou a gestão dos recursos em solo estrangeiro", diz o órgão. _

Candidato nega irregularidade e diz que repasses são "relação privada"

O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) afirmou na sexta-feira que considera "positivo" o fim do sigilo do inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) que investiga o financiamento do filme Dark Horse.

Segundo Flávio, a abertura dos dados deve confirmar que não houve irregularidades na produção e que os pagamentos se tratam de uma "relação privada".

- Quero transparência em tudo, porque vou só confirmar o que eu sempre falei, que não tem justamente nada de errado com relação ao filme, diferente de relações de muita gente do atual governo que tentaram de alguma forma beneficiar o Banco Master - afirmou.

A declaração foi dada pelo presidenciável durante entrevista coletiva após visita a uma fábrica de motocicletas em Manaus.

O senador evitou responsabilizar o ministro André Mendonça pela decisão que autorizou a abertura de investigação sobre sua relação com o financiamento do filme Dark Horse.

Ele afirmou que o ministro "está certo" e que apenas cumpre seu papel de juiz.

- Eu queria muito que todos no Supremo fossem iguais ao André Mendonça, que não pesassem para lado nenhum, investigassem tudo, todo mundo com transparência - declarou, completando:

- Peço ao ministro André Mendonça, abra sigilo, sabe, tira o sigilo de tudo, mostra tudo para o povo.

"Nada a esconder"

Flávio afirmou que não tem "nada a esconder" e voltou a sustentar que o dinheiro recebido foi um patrocínio privado para a produção do filme.

- No filme do Bolsonaro, não tem um real, não tem nada pra Flávio, tem patrocínio pra um filme privado - insistiu o candidato.

Ele disse ter "muita tranquilidade" a respeito da investigação e que o caso será "sempre mais do mesmo". E classificou a apuração como uma tentativa de desestabilização de sua candidatura durante a eleição presidencial. 

Preferência pelas "suíças"

Rosane de Oliveira

A investigação sobre o escândalo do Master contém fartas referências a festas patrocinadas por Daniel Vorcaro para homens a quem ele pretendia agradar - ou corromper. A principal atração dessas festas, regadas a bebidas caras, eram as mulheres, jovens e bonitas, brasileiras e estrangeiras, para animar os convidados.

Com base nas mensagens encontradas no celular de Vorcaro, a revista Piauí reconstituiu a organização de uma dessas festas, no Halloween de 2023, em São Paulo. O responsável pelos convites era Fábio Faria, ex-ministro de Jair Bolsonaro, convertido em uma espécie de "personal cafetão" de Vorcaro.

A contratação das modelos ficou a cargo do promotor de eventos Tiago Polo. Pela troca de mensagens, sabe-se que eram 20 homens e 120 mulheres. "Só novinhas", recomendou Vorcaro a Polo, resumindo uma exigência para a seleção das contratadas.

De acordo com a troca de mensagens, entre os convidados estavam o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, o atual, Davi Alcolumbre, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, e um certo Wesley, que pelo contexto seria o empresário Wesley Batista.

Dois outros nomes são citados sem o sobrenome - Arthur e Alexandre, que, também pelo contexto da conversa com Fábio Faria, seriam Arthur Lira, ex-presidente da Câmara, e o ministro Alexandre de Moraes. Todos os que responderam aos questionamentos da Piauí juram que não foram à dita festa, realizada na casa noturna Madame Satã, no bairro Bela Vista.

Quando discutiam sobre os convites, Faria escreveu a Vorcaro: "Davi tá louco perguntando se as suíças vão vir. Se der vms trazer". Em resposta à presença das "suíças", Vorcaro respondeu: "Virão, sim". As contratadas e os convidados não podiam entrar com celular, para evitar a exposição.

A preferência pelas "suíças" tinha uma razão de ser: não falavam português e, portanto, não tinham como passar adiante o que os homens conversavam. 

12 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Vitor Netto

Olhos voltados para mais um estreito no Oriente Médio

Dez países debatem transição energética

Trata-se da terceira edição do Wind of Change - Encontro de Investidores em Eólicas Onshore, Offshore e Hidrogênio Verde, que busca a retomada de investimentos e obras na área eólica no RS, além do avanço de uma agenda inédita para o hidrogênio verde no Estado.

O evento, realizado pelo Sindienergia-RS em parceria com a Viex, promoverá um debate de alto nível sobre energias renováveis, competitividade, segurança energética, descarbonização e novas oportunidades de investimento. Entre os temas em pauta estão as rotas de descarbonização, a transição energética como propulsora da competitividade econômica e os potenciais de investimento em energia eólica, hidrogênio verde, armazenamento e conexões.

Entre os participantes confirmados está Chris Hoornaert, embaixador da Bélgica no Brasil. A Bélgica é uma das referências internacionais em energia eólica, especialmente no setor offshore (em alto-mar).

As inscrições podem ser feitas pelo link gzh.digital/WindofChange. _

O presidente do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (Isape), Fabrício Ávila, avalia que a possibilidade de um fechamento do estreito existe, porém, destaca que, por serem um grupo insurgente, a capacidade dos houthis de sustentar uma ação é limitada:

- Já é uma façanha eles terem tomado a ilha, mas temos de ver se eles têm capacidade de utilizar helicópteros para fazer assaltos aos navios ou instalar baterias de mísseis. O bloqueio em si talvez eles não façam, o que podem fazer é algo até considerado pirataria pelo direito internacional - explicou à coluna.

Ávila diz que um bloqueio naval convencional exigiria a instalação de minas marítimas, além de uma força aeronaval de superfície para patrulhar a região e submarinos para escoltar comboios:

- Poderia ser um bloqueio naval assimétrico, para diminuir o movimento em vez de um bloqueio realmente feito por uma força naval tradicional. Os navios passariam escoltados, algo assim.

O especialista também destaca a forte presença da Otan e dos Estados Unidos na região como um fator determinante:

- Há cerca de 4 mil militares americanos e forças especiais na região do Djibuti que podem retomar Perim. Talvez seja a operação que Donald Trump necessita para as midterms (eleições de meio de mandato). É uma oportunidade para uma ação militar bem-sucedida sob o pretexto de combater a pirataria. Além disso, há cerca de 1,5 mil soldados franceses posicionados ali.

Sobre o impacto na dinâmica mais ampla entre Teerã e Washington, o pesquisador aponta diferentes horizontes temporais:

- No curto prazo, a tomada da ilha é um fato consumado. No médio prazo, o Irã parece estar ganhando por projetar algum controle no Mar Vermelho e em Ormuz. No longo prazo, porém, isso beneficia os Estados Unidos, pois dá aos americanos um motivo claro para intervir no conflito. Ao mesmo tempo, beneficia a Arábia Saudita, que pode transferir para os EUA a gestão de uma crise que não conseguiu resolver. 

Memória da tuberculose no RS

Melo aborda transporte e reforma tributária

O acervo exposto inclui imagens, além de vídeos históricos, teses acadêmicas do início do século 20, equipamentos médicos da época e livros raros - entre eles o "Livro de Ouro" da instituição.

A instituição começou a receber os primeiros pacientes em 15 de maio de 1940, mas a inauguração oficial ocorreu em 12 de outubro de 1943. Com a mudança na política pública de combate e tratamento da tuberculose na década de 1970, o complexo foi reestruturado.

Em 1975, passou a atuar como hospital geral sob o nome de Hospital Parque Belém, mantendo o atendimento à comunidade até o encerramento definitivo de suas atividades, em maio de 2017. 

O evento debateu os impactos das mudanças tributárias para os municípios e a adaptação das gestões locais às novas regras do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). No painel, Melo defendeu o fortalecimento do municipalismo nas discussões da reforma e demonstrou preocupação com os custos de eventuais mudanças na jornada de trabalho, como o fim da escala 6x1.

Na quinta-feira, o prefeito participou, em Florianópolis, do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Mobilidade Urbana. Na ocasião, voltou a defender a criação de um "SUS do Transporte Público", modelo focado no financiamento continuado, na integração do sistema e no avanço para uma matriz energética sustentável

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

10 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

Enfim, Fachin tenta pôr ordem na casa

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, tardava em usar o peso de seu cargo para se impor e colocar um freio na guerra autodestrutiva entre membros da Corte. No fim da tarde de ontem, sob pressão, enfim agiu para estancar a escalada de uma crise sem precedentes, composta por uma sucessão alucinante de determinações conflitantes de ministros e manobras das alas antagonistas do STF.

Após ser atropelado por decisões de colegas, Fachin reagiu para recolocar ordem na Casa com uma série de deliberações. Suspendeu a ordem de quarta-feira do ministro André Mendonça de afastar dos cargos o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada. Também anulou a resposta do ministro Flávio Dino, da manhã de ontem, que recolocou Rodrigues e Almada em seus postos e elevou ainda mais a tensão no Supremo. Ambos seguem em suas funções.

Merece o devido destaque também a decisão de Fachin de convocar uma sessão do plenário da Corte, para a próxima terça-feira, para analisar relatório da PF sobre a relação promíscua demonstrada nas mensagens enviadas ao ministro Alexandre de Moraes pelo ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Será discutida a validade do documento, e deve ser deliberado se será aberta uma investigação formal contra Moraes. O teor escandaloso da conversa não poderia ser ignorado pelo STF, se é que o Supremo pretende recobrar sua credibilidade perante a sociedade brasileira.

É relevante ainda a definição de Fachin de assumir a relatoria do excrescente inquérito das fake news, há sete anos sob a guarda de Moraes. O presidente do STF indica a intenção de remeter o caso, em seguida, à PF e à Procuradoria-Geral da República (PGR), o que sinaliza, finalmente, um desfecho. Parece ser o início do fim.

Fachin demorou para assumir suas responsabilidades e reagir para tentar debelar a batalha intestina no STF, com nítido fundo político, protagonizada pelas alas lideradas por Moraes e Mendonça. A crise, que deixava os brasileiros estupefatos a cada capítulo, exigia uma intervenção imediata, com instrumentos jurídicos e regimentais. A tentativa do presidente do STF de costurar um acordo interno para acomodar os ânimos e ganhar tempo fracassou. 

A procrastinação deixava a instituição sangrar em praça pública, a enfraquecia como alicerce do Estado democrático de direito e erodia a própria autoridade de Fachin. A prova é a forma como vinha sendo atropelado por outros ministros. Teve oportunidade de tomar providências ainda na terça-feira, quando a Advocacia-Geral da União (AGU) fez um pedido de suspensão de liminar para recompor a direção da PF diretamente ao presidente do STF. Fachin decidiu não decidir e deu 72 horas para Mendonça se manifestar, sinalizando hesitação e fraqueza.

A gravidade da situação exigia uma solução extraordinária que demonstrasse pulso firme. Espera-se que a atitude tomada ontem resulte na contenção da guerra de liminares. O caos jurídico em andamento fazia Vorcaro e outros enrolados em escândalos, inclusive com assento no STF, esfregarem as mãos na expectativa de a balbúrdia levar à anulação de todos os processos e à impunidade generalizada. 

10 de Setembro de 2026
EM FOCO

EM FOCO

Presidente da Corte suspende decisões de Mendonça e Dino sobre cúpula da PF e mantém, por ora, delegados em seus cargos. Também tira Moraes do inquérito das fake news e assume o caso. E convoca plenário para analisar no dia 15 a decisão de Mendonça sobre a relação de Moraes com Vorcaro

Para conter a crise no Supremo, Fachin anuncia medidas para enquadrar ministros

Em uma série de decisões ontem, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, busca conter a grave crise que atinge a Corte.

Ele suspendeu as determinações dos ministros André Mendonça e Flávio Dino que haviam, sucessivamente, afastado e restaurado Andrei Rodrigues e Leandro Almada dos cargos de diretor-geral e diretor de Inteligência da Polícia Federal (PF), respectivamente.

Na prática, os dois voltam aos seus cargos, mas em atendimento à liminar da Advocacia-Geral da União (AGU), e não em virtude da decisão de Dino, até que a decisão final sobre o caso seja tomada pelo presidente do Supremo.

Fachin também tirou o ministro Alexandre de Moraes da relatoria do inquérito das fake news e transferiu o caso para a presidência da Corte. Além disso, convocou para a terça-feira uma discussão em plenário sobre o relatório da PF que apontou suposta relação entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Na sessão, os ministros devem discutir se o documento da PF feito a pedido de Mendonça tem validade e se Moraes será investigado.

Em trâmite há sete anos no gabinete de Moraes, o inquérito das fake news é considerado uma das investigações mais controversas em curso no Poder Judiciário. Instaurado no início do governo Jair Bolsonaro (PL), em meio à primeira grande onda de ataques antidemocráticos ao STF, o caso reúne uma série de particularidades, como a abertura de ofício, a escolha do relator pelo então presidente da Corte, Dias Toffoli, o sigilo máximo mantido ao longo do processo e a concentração de poderes em Moraes, que passou a receber, por prevenção, ações ligadas a desinformação.

Segurança jurídica

Ao assumir a relatoria do inquérito das fake news, Fachin argumentou que a decisão "decorre da necessidade de estabelecer segurança jurídica e adequada delimitação institucional dentro do regime de exercício da atribuição prevista no art. 43 do regimento interno do Supremo Tribunal Federal por esta Presidência". O artigo citado por Fachin estabelece que, quando houver infração penal na sede ou em dependências do tribunal, cabe ao presidente instaurar o inquérito, caso o episódio envolva autoridade ou pessoa sujeita à jurisdição da Corte (foro privilegiado), ou delegar essa atribuição a outro ministro.

Fachin pediu que a Procuradoria-Geral da República (PGR) decida quais frentes investigatórias serão alvo de denúncia e quais serão arquivadas. Em seguida, o presidente pretende encerrar o inquérito, o que representa perda de poderes de Moraes dentro do tribunal.

Já no despacho em que suspendeu as decisões de Mendonça e Dino sobre a cúpula da PF, Fachin destacou que os conflitos e "sobreposições processuais" configuram "grave lesão à ordem pública e à integridade do Supremo". O presidente criticou a guerra de decisões entre colegas.

"O afastamento das autoridades policiais que ora se examina encadeou decisões monocráticas sucessivas com comandos normativos incompatíveis entre si", disse Fachin. "É grave o quadro em que decisões de ministros passam a ser desafiadas horizontalmente, mormente quando pendentes, tanto o julgamento em curso no âmbito da Segunda Turma deste tribunal, quanto o pedido de suspensão de liminar que se encontra sob apreciação desta Presidência", acrescentou, ainda em sua decisão.

Ontem de manhã, antes que o presidente da Corte se manifestasse, Dino determinou a reintegração de Andrei e Almada. Entre os argumentos apresentados, o ministro afirmou que o partido Novo não tinha legitimidade para fazer tal pedido a Mendonça.

Também argumentou que a interrupção na produção de relatórios pela PF traria prejuízo às investigações sob sua relatoria. A decisão de Dino foi tomada no processo em que a PF analisa o material apreendido pela Polícia Civil de São Paulo em investigações sobre o desvio de emendas parlamentares para financiar a produção do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. 

10 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Os alertas da ascensão da extrema direita na Alemanha

Acompanho a ascensão da direita radical na Europa desde 1999. Naquele ano, Jörg Haider e seu Partido da Liberdade (FPÖ) ficaram em segundo lugar nas eleições austríacas. A chegada de um partido desse campo ideológico ao governo de um país da União Europeia (UE) significava a ruptura do consenso político pós-Segunda Guerra.

Haider antecipou características que reconhecemos em siglas como a Alternativa para a Alemanha (AfD), que venceu as eleições na Saxônia-Anhalt, na Alemanha.

De 1999 para 2026, partidos populistas e de direita radical cresceram nos países e no Parlamento Europeu. O Patriots for Europe, que congrega a Reunião Nacional, da França, o Fidesz, da Hungria, e o Vox, da Espanha, tornou-se a terceira maior bancada em Bruxelas. Mas, quando se trata de chegar ao Executivo, muitas dessas legendas ainda esbarram em um cordão sanitário: partidos tradicionais, mesmo adversários, unem-se ou recusam alianças para impedir que a extrema direita alcance a maioria necessária para governar.

A França é o exemplo mais conhecido dessa estratégia, com a chamada "frente republicana". A Alemanha tem Brandmauer, a "muralha de proteção" contra alianças com a AfD.

Mas até quando esse cordão sanitário resistirá? O mecanismo vem se desgastando. A extrema direita deixou de ser uma anomalia e passou a ser naturalizada como alternativa de poder.

A próxima grande batalha será em 2027. Além da França, Espanha e Itália realizarão eleições nacionais. Por isso, a vitória da AfD é tão significativa: pode produzir uma onda de choque muito além das fronteiras alemãs. Na Espanha, o Vox vem crescendo nas pesquisas, impulsionado também pela crise migratória em Ceuta e pelo desgaste do governo de Pedro Sánchez. Na Itália, Giorgia Meloni exerce um governo mais pragmático. Ao mesmo tempo, surgiu um concorrente ainda mais à direita: Roberto Vannacci, do Futuro Nazionale.

Essas forças exploram problemas sistêmicos que os partidos tradicionais têm dificuldade: elevado custo de vida, estagnação econômica, desemprego, crise migratória, corrupção e descrença nas instituições. Uma França governada pela extrema direita produziria um abalo muito maior do que o avanço regional da AfD. Não apenas por ser a segunda maior economia da UE, mas porque é um dos países fundadores do projeto europeu e, ao lado da Alemanha, um dos pilares políticos da integração continental.

Desafios futuros

Do ponto de vista das forças políticas tradicionais, 2027 poderá ser apenas o preâmbulo de uma batalha ainda maior: as eleições para o Parlamento Europeu de 2029. O ponto de partida já é preocupante. As forças da direita radical estão divididas principalmente em três blocos: além do Patriots for Europe, há o European Conservatives and Reformists, os Irmãos da Itália e o polonês PiS; e o Europe of Sovereign Nations, o mais radical dos três e do qual faz parte a AfD. Somados, representam 26% de todas as cadeiras.

O cordão sanitário será colocado à prova. Se as forças tradicionais não conseguirem responder às angústias que alimentam esse movimento, 2027 poderá apenas adiar a realidade de 2029. Será um desafio hercúleo em um momento no qual a Europa está mais distante do guarda-chuva de segurança americano e confrontada com uma Rússia mais hostil. Nesse cenário, o crescimento de forças nacionalistas e eurocéticas, algumas abertamente favoráveis a uma reaproximação com o Kremlin, ameaça o equilíbrio entre esquerda e direita e põe em xeque o próprio projeto de integração europeia construído ao longo das últimas oito décadas. _

Prefeito viaja pelas capitais do Sul

O prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, viaja nesta semana para Florianópolis e Curitiba. Melo cumpre agendas nas capitais do Sul como presidente da Frente Nacional de Prefeitos e Prefeitas (FNP) e participa da 126ª Reunião do Fórum Nacional de Secretárias, Secretários e Dirigentes de Mobilidade Urbana.

Hoje, Melo participa do painel Transporte para Todos: a proposta da NTU para uma Política Nacional de Financiamento do Transporte Público Coletivo, em Florianópolis. O programa parte da separação entre a tarifa paga pelo passageiro e o custo real do serviço, estabelecida pelo Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano.

Amanhã, em Curitiba, Melo se reúne com prefeitos da região para debater a reforma tributária. Entre os assuntos em pauta, estão os impactos nos municípios após a entrada em vigor do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).

Melo retorna a Porto Alegre na tarde de amanhã. _

Dino em porto alegre

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino virá a Porto Alegre no fim do mês. Ele ministrará uma aula magna na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) no dia 25 de setembro. Com o tema Democracia Constitucional e Separação de Poderes: freios e contrapesos no Brasil contemporâneo, a palestra será realizada às 16h, no Salão Nobre do prédio histórico da faculdade. As vagas para assistir à aula são limitadas e as orientações para inscrição serão divulgadas a partir da próxima quarta-feira, nos canais oficiais da Faculdade de Direito e da universidade. Dino integra a Corte desde 2024.

Alterações na emissão do IPTU

A recente alteração no sistema de consulta e emissão das guias do IPTU tem despertado dúvidas entre leitores da coluna. Antes, para emitir a guia de pagamento bastava informar, por exemplo, Inscrição do Imobiliário e o número do logradouro.

Em agosto, o sistema passou a exigir, além da Inscrição do Imobiliário, o CPF ou CNPJ do proprietário. O problema relatado por contribuintes é que nem sempre esse dado está disponível. Um exemplo típico é o caso de uma pessoa que comprou um imóvel, mas não o passou para seu nome. O CPF registrado no sistema da prefeitura, nesse caso, é o do antigo proprietário. Se desconhecer o número ou não ter acesso ao antigo dono, o cidadão não conseguirá emitir a guia.

A Secretaria Municipal da Fazenda informou que a mudança nos critérios para acesso ao sistema foi adotada com o objetivo de proteger os dados do contribuinte e garantir o cumprimento do sigilo fiscal. "Identificamos consultas em massa e automatizadas ao sistema e, para impedir o mapeamento indevido de imóveis por terceiros, os critérios de acesso precisaram ser reforçados".

A prefeitura orienta que, até que uma nova solução seja implementada, contribuintes que estiverem com dificuldades para acessar o documento podem solicitar auxílio pelo 156 por telefone ou WhatsApp.

A Fazenda também orienta que proprietários que compraram ou herdaram um imóvel façam a atualização cadastral. O procedimento pode ser realizado pelo Portal de Serviços da Fazenda > IPTU > Averbação. Não há custos ao contribuinte para averbação do imóvel. 

INFORME ESPECIAL

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

09 de Setembro de 2026
MARIO CORSO

Natalidade baixa

A questão não é encolher a população, é encolher o número de pessoas em idade produtiva. Nos sistemas de previdência e saúde, são os jovens que movem a engrenagem que sustenta os velhos. Em um país com a maioria da população envelhecida, a economia quebra.

Não se trata de um problema local, a queda da natalidade baixou no mundo todo. O motivo dessa queda ninguém sabe responder com certeza. Provavelmente uma combinação de fatores.

A vida está muito cara, os jovens de hoje têm um poder aquisitivo menor que o das gerações precedentes. Existe muita instabilidade no mercado de trabalho, profissões surgem enquanto outras desaparecem velozmente.

Como nunca antes, as mulheres podem optar por não ter filhos, já não sofrem uma pressão social ou religiosa tão forte. Ainda, os filhos atrapalhem o trabalho da mulher, elas recebem quase nenhum suporte. Praticamente não há mais famílias em que um só consegue sustentar a casa.

Há uma mudança social nos cuidados com os filhos, os pais começam a ajudar na criação deles, mas ainda são raros, e as crianças ainda sobrecarregam só às mulheres. A vida urbana dificulta redes de apoio familiar, que seriam de grande ajuda.

Ter filhos antes era um dever social inquestionável, parte do destino coletivo. Hoje, tornou-se uma decisão subjetiva tomada internamente, antes de ser negociada socialmente. Posso ser uma boa mãe, ou pai? É isso que quero ser? Viverei melhor sem isso?

A decisão de não ter filhos (ou adiar) reflete uma avaliação, consciente ou não, sobre a capacidade de oferecer um ambiente suficientemente bom, numa época percebida como hostil. O clima político se radicalizou, a crise climática bate na porta, a economia não inspira confiança e o negacionismo científico aumenta. Mas não é só medo objetivo do futuro, é uma configuração subjetiva de insegurança quanto à própria capacidade de sustentar outra vida. A desesperança campeia, os jovens duvidam do futuro, o seu e o do planeta.

Talvez a pergunta não seja: como fazer os jovens quererem filhos, mas como fazer o futuro parecer, de novo, um lugar habitável. Ainda, como fazer para que uma mulher se sinta socialmente segura para uma aventura que envolve seu corpo. 

Mário Corso

OPINIÃO RBS

Degradação institucional

A decisão drástica do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça de afastar do cargo o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, traga o governo federal para a tensão que estremece a Corte e amplia a crise institucional. 

O agravamento do conflito, detonado com a revelação, por ordem de Mendonça, da troca de mensagens comprometedoras entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o colega Alexandre de Moraes, aumenta a responsabilidade do presidente do STF, Edson Fachin, de quem se aguarda ansiosamente o posicionamento firme prometido por ele.

Não pode mais ser procrastinada a convocação de sessão do plenário da Corte para deliberar sobre a abertura de um inquérito para investigar a conduta de Moraes. Esse é o primeiro passo para o Supremo começar a recuperar a sua credibilidade. Proteger a instituição, pilar do Estado democrático de direito, pressupõe demonstrar que ela paira acima do espírito de corpo e dos interesses individuais.

Ainda que controversa, a decisão de Mendonça, que já tem maioria na 2ª Turma do STF, traz acusações graves contra Rodrigues e o diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa, também afastado. 

O ministro afirma que passou por "monitoramento sistemático" e "coleta dirigida" de dados, que também teriam atingido o advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias. Seria uma bisbilhotagem nas sombras contra altas autoridades da República patrocinada pela cúpula da PF. Cumpre também observar que, a exemplo dos métodos discutíveis de Moraes, Mendonça tomou uma decisão em um caso em que seria vítima.

O episódio, se ocorreu como Mendonça sustenta, demonstra a contaminação de instituições basilares do país pela disputa política. A PF deveria ser mantida como técnica, profissional e apartidária, mas também sofre tentativas de instrumentalização. Em 2020, Alexandre de Moraes suspendeu a nomeação de Alexandre Ramagem para a diretoria-geral por indícios de que o então presidente Jair Bolsonaro buscava interferir na instituição.

O abandono da tradição da lista tríplice para a definição do procurador-geral da República é outro sintoma dessa degradação. Bolsonaro e Lula, em seu terceiro mandato, ignoraram os nomes selecionados pela Associação Nacional dos Procuradores da República e preferiram escolhas pautadas pela fidelidade. A opção colide com a independência necessária do Ministério Público e, nesses anos, abriu larga margem para acusações de omissão e de alinhamento escancarado.

Mas nada é mais grave do que o que ocorre no STF, sob o contágio da desconfiança de decisões movidas por envolvimento político. A credibilidade da Corte não será recuperada enquanto os ministros forem identificados pelos cidadãos como agentes vinculados a um ou outro lado da polarização, e não como guardiões da Constituição. A crise atual, pela seriedade inaudita, deve fortalecer a discussão sobre a mudança das regras de indicação dos ministros. 

É preciso ter normas que diminuam a discricionariedade atual ampla do presidente da República e enfraqueçam escolhas pela expectativa de lealdade. A seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entregou há menos de um mês uma proposta que une pontos de várias PECs e pode ser a base para essa discussão, que não pode mais ser adiada.

A saúde da democracia brasileira depende de instituições livres de aparelhamentos. Como está, não pode ficar. _ 

Matheus Schuch

Mais desgaste para o governo

Já faz um bom tempo que o presidente Lula se afastou de Alexandre de Moraes para tentar evitar o desgaste da crise do Master. Agora, o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, sob suspeita de produzir relatórios de inteligência e monitorar o relator do caso Master, André Mendonça, aproxima o governo da crise e pode ampliar os danos ao presidente a menos de um mês das eleições.

Na semana passada, o pedido de investigação de Moraes contra Mendonça foi encaminhado a partir de relatórios apócrifos, que provocaram desconfiança sobre origem e até mesmo sobre legitimidade. Agora, a decisão de Mendonça afirma que o material foi construído a partir de um acompanhamento ilegal de suas ações.

O curioso é que o advogado-geral da União, Jorge Messias, outra pessoa da confiança de Lula, também seria alvo de monitoramento. Nos bastidores, Messias já era considerado próximo a Mendonça e isso foi apontado como um dos motivos de seu nome ter sido rejeitado para uma vaga no STF. Na ocasião, ministros da Corte e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, trabalharam fortemente pela derrota.

Mendonça descreveu como "surreal" e "abjeta" a conclusão de relatórios da PF de que a sua conduta e a do advogado-geral da União, de não acatar solicitações da PF, poderia ser explicada pelo fato de possuírem "matriz religiosa comum" e terem tido apoio de igrejas evangélicas em suas candidaturas ao STF.

Ao afastar Andrei, Mendonça também deixa claro que não pretende recuar de sua ofensiva contra Moraes. O caso só aumenta a pressão para que o presidente do STF, Edson Fachin, defina se vai submeter logo ao plenário a possibilidade de autorizar investigação formal contra Moraes - algo que seria inédito na história da Corte. 

CONEXÃO BRASÍLIA 

09 de Setembro de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

A antropofagia entre os poderes da República

O modernismo brasileiro transformou a antropofagia em metáfora: devorar o outro para absorvê-lo e produzir algo novo.

Quase um século depois do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, Brasília criou sua própria versão. Na capital federal, um poder já não se limita a fiscalizar o outro. Come.

A antropofagia começa dentro das próprias instituições. No Supremo Tribunal Federal (STF), ministros travam uma batalha pública, com Alexandre de Moraes pedindo a investigação de André Mendonça e Mendonça reagindo agora com o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação.

O que deveria ser um sistema de freios e contrapesos começa a assumir a forma de uma disputa em que cada movimento provoca outro ainda mais grave. A institucionalidade vai se liquefazendo e levando, de roldão, para o lamaçal, a República.

O presidente candidato Lula tentou permanecer alheio à guerra no Supremo, embora já sofresse seus efeitos na campanha eleitoral pela associação entre seu nome e o de Moraes. A decisão de Mendonça arrastou o Executivo diretamente para o conflito ao atingir Andrei, escolhido pelo presidente e subordinado ao Ministério da Justiça. A AGU prepara recurso contra o afastamento, enquanto a crise que começou dentro do Judiciário cruza, a passos rápidos, a Praça dos Três Poderes.

A antropofagia institucional avança, um órgão sobre o outro. O passo seguinte pode ser uma névoa, na qual já não se saiba onde termina a defesa legítima de uma prerrogativa e começa uma guerra de poder.

Também preocupa a resposta sugerida por assessores palacianos. Marco Aurélio de Carvalho, coordenador jurídico da campanha do presidente, defendeu a convocação do Conselho da República para enfrentar o que classificou como uma "crise institucional sem precedentes". O colegiado existe para aconselhar o presidente sobre temas de enorme gravidade, como intervenção federal, estado de defesa e de sítio. A simples associação, em meio a uma campanha eleitoral e a uma batalha aberta entre integrantes do Supremo, eleva ainda mais a temperatura. O reverso precisa ser acionado.

Caso de emergência

Crises institucionais graves devem ser tratadas como uma emergência de pronto-socorro: primeiro, é preciso impedir que a infecção se espalhe pelo organismo. Nesses casos, em geral, para preservar o corpo, é necessário afastar a parte comprometida até que se saiba exatamente o que aconteceu.

O Executivo acaba de perder, ainda que preventivamente, o seu diretor-geral da PF. Cabe ao Supremo fazer a sua parte, criando uma saída institucional capaz de interrompê-la.

Se Brasília continuar praticando sua antropofagia pública, chegará um momento em que não haverá vencedor. Todos cairão. Com os poderes devorados uns pelos outros, o que restará sobre a mesa do banquete de vaidades será a própria República. _

O humano em tempos de IA

Para reafirmar que o lado humano permanece insubstituível na relação ensino-aprendizagem, a 14ª edição do Inteligência Coletiva, que inicia hoje e vai até sábado, em Porto Alegre, debate o tema "O futuro da educação continua humano". O evento é gratuito para professores da rede pública e estudantes de licenciatura e magistério. Para as escolas privadas, o investimento varia de R$ 40 a R$ 98 por pessoa, conforme a modalidade escolhida.

O evento é idealizado pela Escola de Professores Inquietos, iniciativa do Colégio Farroupilha. Hoje, no Teatro CIEE, o médico e escritor J.J. Camargo palestra sobre a relação entre o técnico e o humano. O sábado será dedicado à apresentação dos relatos de práticas pedagógicas e experiências de pesquisa de professores de diferentes escolas selecionados por edital e de workshops com diferentes profissionais nas dependências do Colégio Farroupilha.

Entre os temas abordados estão saúde mental; aprendizagem inovadora; processos inclusivos; sustentabilidade e cidadania; e relações escolares e convivência. Inscrições no site gzh.digital/inteligênciacoletiva. _

Islândia no mapa dos Estados Unidos

Após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicar nas redes sociais um mapa fictício no qual mostrava a Islândia - além de México, Cuba e Groenlândia - coberta pela bandeira americana, indicando que o território faria parte dos EUA, o Ministério das Relações Exteriores islandês convocou, ontem, o embaixador americano, Billy Long, para conversas.

Desde as investidas de Donald Trump nos últimos anos para que os Estados Unidos adquiram a Groenlândia - território autônomo dinamarquês -, as relações entre os americanos, países europeus e aliados da Otan ficaram estremecidas. No mês passado, os eleitores islandeses rejeitaram a retomada das conversas para aderir à União Europeia. Durante a campanha para a votação, os planos de Trump para a Groenlândia integraram o debate político no país.

Alguns defensores da retomada das negociações citaram a preocupação com a confiabilidade dos Estados Unidos como motivo para considerar uma aproximação maior com a União Europeia.

A publicação de Trump também coincidiu com uma nova demonstração de apoio europeu à Groenlândia. Horas antes, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou um pacote de 200 milhões de euros (cerca de R$ 1,2 bilhão, na cotação atual) para o território autônomo dinamarquês. _

Honoris Causa a Conceição Evaristo

A linguista e escritora brasileira Conceição Evaristo será agraciada com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Apesar de a data da cerimônia de outorga ainda não ter sido definida oficialmente, a entrega do título, segundo a reitoria, está prevista para meados de dezembro.

A proposta que deu origem à homenagem partiu do Coletivo de Estudantes Negros da Pedagogia, do Coletivo UFRGS Negra e do Movimento Negro Unificado, sendo encaminhada pela Faculdade de Educação (Faced) ao Conselho Universitário (Consun).

Segundo a universidade, a honraria reconhece a trajetória de Conceição Evaristo e a contribuição de sua produção literária e intelectual para a literatura brasileira, a educação e o enfrentamento do racismo. A justificativa apresentada ao Consun destaca também a presença e a influência do pensamento da escritora na produção acadêmica da UFRGS.

- É muito importante esse reconhecimento, pois ela, além de escritora, é uma linguista muito relevante. Alguns conceitos que ela introduz, além, obviamente, da questão do racismo e da linguagem, envolvem a escrevivência, ou seja, essa escrita que traz de onde tu vens e o que tu representas. É mais do que um pensamento de ação afirmativa, é incorporar à criação de conhecimento quando trazemos pessoas com outras culturas e vivências para dentro da universidade. É a transformação da universidade, e a entrega desse título é o reconhecimento dessa transformação - comentou a reitora Márcia Barbosa à coluna.

Nascida em uma favela de Belo Horizonte, Conceição Evaristo é filha de uma lavadeira e, desde os 8 anos de idade, vivenciou o trabalho doméstico nas casas das elites mineiras. Atuou como professora primária no Rio de Janeiro e, posteriormente, graduou-se em Letras. Tem o mestrado em Literatura Brasileira e o doutorado em Literatura Comparada.

É autora, entre outras obras, de Ponciá Vicêncio (2003), Becos da Memória (2006), Olhos d?Água (2014) e Canção para Ninar Menino Grande (2018). 

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