segunda-feira, 11 de maio de 2026

Casas centenárias no bairro Farroupilha abrigarão novo complexo da Fábrica de Gaiteiros

Projeto de vida do músico Renato Borghetti, iniciativa oferecerá ensino gratuito de gaita para crianças e contará com teatro para apresentações à comunidade

Projeto de vida do músico Renato Borghetti, iniciativa oferecerá ensino gratuito de gaita para crianças e contará com teatro para apresentações à comunidade

TÂNIA MEINERZ/JC

Adriana Lampert
Adriana LampertRepórterA Fábrica de Gaiteiros, projeto idealizado pelo músico Renato Borghetti há pouco mais de 15 anos, está com obras em andamento para estabelecer sua nova sede em Porto Alegre. O novo complexo cultural ocupará duas casas geminadas centenárias nos números 156 e 158 da rua Vieira de Castro, no bairro Farroupilha. A escolha do local possui um caráter emblemático para o acordeonista, que residiu em dois endereços na mesma via e destaca a relevância histórica da região. Segundo o músico, o objetivo é equilibrar a preservação das fachadas tombadas com um interior moderno, criando um espaço de difusão artística que reflete sua trajetória. "A Fábrica (de Gaiteiros) é meu projeto de vida, que não visa ao lucro e que acabou crescendo muito mais do que eu imaginava. Estamos dando um peitaço", pontua Borghetti.
De acordo com o artista, a motivação para o projeto remonta ao cenário industrial de décadas atrás, quando o Brasil abrigava fabricantes como a Universal, em Caxias do Sul, a Escala, em Bento Gonçalves, e a Hering, em Santa Catarina. Ele destaca que, com o fechamento dessas unidades e da Danielson, em Santa Rosa, o País ficou sem produção nacional de acordeons. "Eu achei um pouco perigoso não ter fábricas, ficar dependente de um instrumento importado muito caro ou de um instrumento recondicionado, consertado, mas que também não é um instrumento muito acessível. Isso me preocupou na continuidade do instrumento", explica Borghetti. Para suprir essa lacuna, ele decidiu retomar a produção, mas com um modelo institucional: "Eu não quero virar um industrial, um cara que vive de fabricação de instrumentos, eu vivo da música. Por isso o diferencial da nossa fábrica: nós confeccionamos, mas não vendemos o instrumento, toda a produção é destinada para as aulas gratuitas que oferecemos."
Ainda conforme o músico, a sede na Capital foi projetada para ser um vibrante espaço cultural multiuso, transcendendo a função de uma escola tradicional. O complexo abrigará salas de aula, um teatro (para apresentações oficiais, recitais dos alunos e eventos culturais abertos ao público), áreas para exposições e um acervo dedicado a preservar a história do projeto e do instrumento. Além de ser a nova casa da Rádio Fábrica de Gaiteiros, o local contará com o Buliço – um café e ponto de encontro planejado para a convivência entre alunos e visitantes. O músico enfatiza que, embora a sede concentre essas atividades de difusão, ensino e memória, a parte industrial pesada não será transferida para a Porto Alegre: "O que vai ter na Fábrica da rua Vieira de Castro são essas atividades, mas não a confecção completa com máquinas, com tudo. Isso não está previsto na obra em andamento".
O músico destaca que, na unidade da Barra do Ribeiro (que recentemente passou por uma reconstrução após as enchentes no Estado), o processo é autossuficiente. "Nós produzimos 100% da gaita de oito baixos, nós não terceirizamos nenhuma peça, nada. A gente compra matéria-prima bruta (madeira, zinco, aço, alumínio...) e o instrumento fica pronto lá mesmo", detalha. Os instrumentos são emprestados gratuitamente para os alunos do projeto: crianças de sete a 15 anos – faixa etária escolhida pelo peso do instrumento e pelo potencial de transformação social. "A gente quer que a música, que a gaita participe da vida dessas crianças até ficarem adultos. Porque é uma forma de inclusão; melhora a relação familiar, melhora o rendimento escolar, a relação com os amigos", afirma Borghetti, ressaltando que a profissionalização é uma "consequência bem-vinda", mas não a meta principal.

O projeto arquitetônico da sede em Porto Alegre é assinado pela filha do acordeonista, a arquiteta e bailarina Emily Borghetti, que buscou unir funcionalidade artística e preservação histórica. No térreo, exposições permanentes mostrarão a história do projeto e a técnica de fabricação das gaitas. Um diferencial será a ala de hospedagem para visitantes e músicos, inspirada em centros culturais europeus. "Se vier um professor de fora, um músico para fazer um workshop ou uma apresentação no nosso teatro, ele pode ficar alojado ali mesmo. Isso cria uma vivência dentro da Fábrica que é muito comum lá no exterior e que a gente quer trazer para cá", explica. "O teatro será aberto à comunidade, para apresentações de outros artistas, de outros músicos, para artes cênicas, para cinema... enfim, para o que a cidade precisar", pontua o idealizador do projeto. "A ideia é que aquele complexo ali na Vieira de Castro seja um ponto de cultura vivo em Porto Alegre, onde a gaita é a anfitriã, mas que todos os artistas possam ocupar", reforça.
Atualmente, o projeto conta com 26 centros de ensino (que incluem cidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e até uma unidade no Uruguai), atendendo entre 600 e 700 crianças e adolescentes, e utiliza o conhecimento de antigos mestres das fábricas extintas para treinar novos profissionais. "A gente buscou o pessoal que trabalhava nas antigas fábricas, que tinha aquele conhecimento que estava se perdendo. E o mais bonito é que atualmente contamos com ex-alunos que aprenderam a tocar lá atrás e hoje são monitores ou professores nas nossas unidades", ressalta Borghetti. De acordo com o artista, a obra na rua Vieira de Castro depende de expandir sua sustentabilidade financeira via leis de incentivo para manter o ensino gratuito e a preservação do fole no Rio Grande do Sul. "Essa obra é um desafio... a gente está sempre buscando parceiros, porque o projeto é gratuito para as crianças, mas ele tem um custo alto. Por isso não dou uma data cravada de inauguração, porque depende desse fluxo de recursos."

Nenhum comentário:

Postar um comentário