Saúde na Serra Gaúcha avança com investimentos, mas enfrenta gargalos estruturais
Roberto HunoffJornalista
Especial para o JC*
Rede hospitalar pública evolui na Serra Gaúcha e reduz dependência da Capital
Por décadas, a população dos 49 municípios atendidos pela 5ª Coordenadoria Regional da Saúde, com sede em Caxias do Sul, conviveu com a triste realidade da elevada dependência de atendimentos hospitalares em Porto Alegre por ausência de estruturas condizentes com as necessidades. A situação atual é outra por conta de investimentos públicos e dos próprios hospitais, a maioria filantrópicos, tornando a região não apenas autossuficiente para atender a praticamente todas as demandas, mas também uma referência nacional e, em alguns casos, internacional para o tratamento de várias patologias.
Titular da 5ª Coordenadoria Regional de Saúde, Tatiane Zarpeloni Misturini Fiorio destaca que na MacroSerra, com população estimada em 1,3 milhão de habitantes, atrás apenas de Porto Alegre, 22 hospitais atendem as demandas do Sistema Único de Saúde (SUS). O espaço territorial é dividido em microrregiões - Bento Gonçalves, Farroupilha, Caxias e Hortênsias, e Vacaria - cada uma com estrutura capaz de atender as demandas de alta complexidade, como oncologia, hemodiálise, cardiologia, neurologia e traumatologia, entre outras. Algumas doenças de menor incidência, porém mais graves, como oncologia para cânceres raros, implantação de marca-passos, cardiologia pediátrica e má formação congênita, todas de baixo volume, ainda têm Porto Alegre como referência.
De acordo com a coordenadora, existem projetos para também avançar nestes procedimentos. Porém, algumas dependem de equipamentos especializados, de custo elevado, e não há, ainda, volume de atendimento na região para viabilizar os investimentos, que se estendem à infraestrutura física. "Nestes casos, Porto Alegre é referência estadual, mas temos conversas com o Hospital Geral para agregar alguns destes procedimentos", frisa.
Tatiane destaca que o número de leitos de UTI foi ampliado de forma significativa com a pandemia, mas ainda há déficit considerando o cálculo da Organização Mundial da Saúde com base em quantitativo populacional. Áreas de neonatal e pediátrica estão supridas e recebendo pacientes de outras regiões, enquanto neurologia, cardiologia e traumatologia preocupam.
Ainda mais crítica é a situação da saúde mental, considerada um dos principais gargalos e a doença do século, principalmente depois da pandemia e, especificamente, no Rio Grande do Sul, após enchentes. "É a patologia que mais nos preocupa. Estamos com a sirene vermelha ligada, porque temos dezenas de pacientes aguardando leitos e regulação todos os dias. "Estamos dialogando com os hospitais para ampliar vagas nestas áreas", afirma.
Na avaliação da coordenadora Tatiane Fiorio, há avanços importantes na organização da média complexidade, enquanto a alta ainda apresenta gargalos, havendo a necessidade de abrir mais serviços para que o paciente fique mais perto de casa. Um dos problemas mais sérios é a defasagem da tabela SUS, que não tem reajuste há vários anos. "O governo paga R$ 10 por uma consulta médica, este é um problema crônico. Enquanto isso, os custos hospitalares só se elevam, exigindo financiamentos e tornando a operação deficitária. Os hospitais têm condições técnicas, mas esbarram diante desta situação", avalia.
De acordo com dados da Secretaria da Saúde, o governo do Estado já destinou mais de R$ 920 milhões por meio do programa Avançar Mais na Saúde para qualificar a rede hospitalar do Rio Grande do Sul. Na região da Serra, os investimentos ultrapassam R$ 107,5 milhões. Desse montante, R$ 82 milhões foram destinados a obras em 16 hospitais e R$ 25,5 milhões financiam equipamentos para 14 instituições.
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Rumo ao centenário, Círculo investe em expansão
Instituição com 92 anos de operação em Caxias do Sul, o Círculo Saúde ingressou em 2022 em um novo projeto, que se estrutura no crescimento a partir da ampliação da área de atuação, juntamente com a qualificação dos serviços hospitalares. O movimento mais recente contempla a retomada das atividades do hospital de Guaíba em parceria com a Bem Medical Holding. Caberá ao Círculo a gestão da operação, que deve ser retomada ainda neste semestre, após quatro anos de paralisação.
De acordo com Leno Almeida, diretor de negócios e saúde, o projeto prevê a implantação em fases, com investimentos e ampliações progressivas ao longo de até 10 anos, acompanhando a evolução da demanda e a consolidação dos serviços. As primeiras etapas incluem a reativação do pronto atendimento 24 horas, a unidade de emergência, a implantação do Círculo 360 e a adequação de áreas para internação, seguidas pela ampliação de leitos, bloco cirúrgico e demais estruturas assistenciais.

Novo projeto começou em 2022 e inclui qualificação dos serviçosMaiara Bachi/Divulgação/JC
Com a reabertura, o hospital passa a integrar a rede de serviços do Círculo Saúde e deverá atender pacientes particulares, beneficiários dos planos da instituição e convênios externos, além de buscar parcerias com o poder público e empresas da região para ampliar o acesso da população aos serviços de saúde. "Estamos vivendo um momento de crescimento e reposicionamento do Círculo como uma solução de saúde para todo o Rio Grande do Sul. Assumir a gestão do hospital de Guaíba é um marco histórico para a instituição", assinala.
A parceria em Guaíba acompanha uma política do Círculo Saúde de instalar clínicas em vários municípios gaúchos para suprir a carência de consultas e médicos. Atualmente, são 15 espaços nas regiões das Hortênsias, Vale do Caí, Litoral e Sinos. Atualmente, o Círculo atende 146 mil vidas e o projeto de expansão para 2030 é alcançar 200 mil. "O crescimento ocorre pelas oportunidades de negócios nos municípios. Para tanto, precisamos das clínicas e parcerias em outras regiões", destaca o gestor.
A instituição também projeta a qualificação no hospital de Caxias do Sul, em funcionamento desde 1995 e que, desde então, jamais recebeu investimento na manutenção. Para este e próximo ano, a meta é realizar o retrofit completo dos equipamentos e dos 150 leitos, além de qualificar a parte civil do prédio. A estimativa é investir R$ 40 milhões nas melhorias em Caxias do Sul e em Guaíba.
Em 2025, a instituição aportou R$ 20 milhões, com destaque para o serviço de cardiologia, com a entrega de uma nova estrutura para exames de hemodinâmica, que exigiu recursos na ordem de R$ 9 milhões. O serviço tem equipamentos de última geração, incluindo tecnologia que produz imagens em altíssima definição e utiliza algoritmos inteligentes para reduzir a exposição à radiação.
A plataforma permite reconstruções em 3D e combina diferentes exames em tempo real. "Situações que antes tinham de ser levadas para Porto Alegre, agora são tratadas aqui. Procedimentos que antes demandavam uma hora, agora são feitos em 15 minutos", destaca o executivo.
A organização também investiu no conceito de clínica 360º, que atua de forma preventiva. De acordo com o diretor, em três anos houve redução de 20% no uso do plano e mais de 95% em sinistros. Serviços próprios foram transformados em parcerias com farmácias e laboratórios. As medidas adotadas permitiram sair de um prejuízo em 2022, decorrência da pandemia que afetou todo o ecossistema, para resultados positivos.
HG acelera digitalização para qualificar atendimento
Iniciado em 2025, o projeto de transformar o Hospital Geral de Caxias do Sul em uma organização totalmente digital, colocando fim ao uso e movimentação de documentos físicos, deve ser concluído até 2030. O objetivo do investimento, de acordo com a diretora-geral Izar Muller Behs, é qualificar o atendimento por meio de ferramentas que oportunizem o armazenamento centralizado de dados, permitindo acesso rápido e facilitado ao histórico de cada paciente; elevem a segurança do tratamento e repercutam em economia nos custos hospitalares.
O gerente de tecnologia da instituição, Alexandre Abadi dos Santos Orlandin, define o projeto como um conjunto de soluções e sistemas integrados a uma ferramenta de ponta. A instalação ocorre gradualmente, com algumas tarefas já automatizadas e outras em testes junto aos pacientes e colaboradores. "Avaliamos oportunidade e soluções que automatizem a operação hospitalar e resultem em melhorias na relação médico-paciente", reforça.
A diretora-geral assinala que um dos movimentos recentes é a assinatura digital de todos os processos internos para fazer a transição do papel para digital. Destaca que há uma grande oportunidade de economia por permitir o planejamento na área de compras e suprimentos. Também cita o uso de soluções mais simples, como painéis de gestão do tratamento de todos os pacientes, até mais complexas como situações de alertas, que envolvam, por exemplo, exames repetidos.
Para a gestora, o hospital digital representa o melhor desfecho para o atendimento, pois assegura tratamento correto a cada indivíduo, no lugar e tempo certos, com o menor custo. "Podemos definir o processo como um celeiro de dados e informações para pesquisa, integridade ética e troca de experiências, valorizando o tratamento e o acompanhamento por meio das consultas, exames, dados clínicos e internações. Pode se desejar muitos sonhos no futuro", comenta.
A direção trabalha na captação de recursos para harmonizar todas estas ações e manter a atualização dos equipamentos e softwares. Ela estima que já foram investidos em torno de R$ 2 milhões do valor total do contrato de gestão com o Estado e Município de Caxias do Sul.
"Não é agregação de valor, mas recurso proveniente da geração de economia com andar dos processos", assinala. A busca da redução de gastos se estende a todas as áreas, das simples às complexas, como o uso do telefone para contatar o paciente. O hospital está implantando plataforma para repassar as informações via mensagem aos usuários, o que repercutirá em economia.
Diante da demanda, o HG deve acelerar ações no atendimento da alta complexidade, como na cardiologia, que tem na região da Serra a maior fila de espera, cardiovascular e oncologia. Segundo a diretora, será preciso aumentar a área física, que opera próximo da sua capacidade máxima. Recentemente, com recursos do projeto Avançar do governo gaúcho, o hospital adquiriu uma máquina de circulação extracorpórea, somando-se a outras duas existentes no Brasil.
A gestora comenta que o momento financeiro do HG está equilibrado, recebendo recursos do Estado e da Prefeitura. Busca, no entanto, mais verbas para avançar em equipamentos, como de hemodinâmica. "Ainda temos situações em que pacientes precisam ser deslocados para Porto Alegre ou Passo Fundo. Trabalhamos para mudar esta situação com um hospital de alta tecnologia", frisa.
Durante entrega de obras complementares e novos equipamentos em fevereiro, o governador Eduardo Leite anunciou aporte de mais R$ 6,7 milhões para obras de ampliação do centro cirúrgico do hospital, por meio do programa Avançar. A obra do prédio anexo ao Hospital Geral foi entregue em 2023, com custo de R$ 22 milhões.
A expansão foi planejada para qualificar fluxos de atendimento, ampliar serviços de alta complexidade e modernizar a estrutura física e tecnológica. Entre as obras estão uma nova subestação de energia, equipamentos para as áreas de internação geral e UTI, passarela de interligação entre os prédios e instalação de isopaineis.
O Estado investiu, no ano passado, R$ 9,5 milhões em melhorias nos centros obstétrico e de diagnóstico por imagem e R$ 4,3 milhões para cardiologia e hemodiálise. Também foram abertos 91 novos leitos, garantindo 2,9 mil internações adicionais.
Com 320 leitos, o Hospital Geral tem em torno de 1.500 funcionários diretos e cerca de 500 médicos terceirizados. Focado 100% no atendimento pelo Sistema Único de Saúde, é referência no atendimento de 49 municípios da Serra Gaúcha.
Além dos recursos provenientes dos contratos firmados com o Poder Público, o hospital recebe recursos de emendas parlamentares e de ações de segmentos da comunidade. Gerido em parceria com a mantenedora Fundação Universidade de Caxias do Sul, o hospital completou 28 anos, em março.
Nossa Senhora da Oliveira assume demandas dos municípios da região
O Hospital Nossa Senhora da Oliveira, de Vacaria, é outro exemplo que saiu do atendimento básico para avançar em especialidades. Atualmente, já absorve demandas regionais em maternidade, hemodiálise e laboratórios, que antes exigiam deslocamentos para Caxias do Sul.
Em março, a instituição entregou o novo centro oncológico, que amplia o acesso ao tratamento especializado para a população de 120 mil habitantes em nove municípios da região dos Campos de Cima da Serra. A nova estrutura exigiu aporte de R$ 3,5 milhões, sendo R$ 2,9 milhões do programa Avançar do Estado e R$ 600 mil de contrapartida do hospital.
O novo serviço tem capacidade para atender cerca de 350 novos casos de câncer por ano. O Estado repassará, anualmente, R$ 5 milhões para o custeio dos serviços, até que ele seja habilitado pelo Ministério da Saúde. Para a diretora-presidente da instituição, Adelide Canci, a inauguração representa uma conquista coletiva. "Mais do que uma nova estrutura, estamos proporcionando dignidade, acolhimento e a possibilidade de que os pacientes realizem seu tratamento perto de suas famílias, na própria região", registrou.
Na obra de 572 metros quadrados, executada ao longo de dois anos, foram investidos R$ 2,3 milhões. O espaço é integrado por uma unidade de imunologia e quimioterapia e por locais para a realização de consultas por meio do SUS. Outros R$ 618,6 mil do Estado destinaram-se a equipamentos.
Pompéia prioriza ações para fortalecer a medicina preventiva
Desde que tomou posse como CEO do agora Pompéia Ecossistema de Saúde, Lara Sales Vieira imprimiu uma política centrada na qualificação da equipe técnica e de investimentos em tecnologias embarcadas, visando incrementar a medicina preventiva. Em cinco anos, foram aportados em torno de R$ 35 milhões em equipamentos que colocaram o hospital no radar de pacientes de praticamente todo o Brasil e, inclusive, do exterior. "Em algumas especialidades, como cirurgia a laser, por exemplo, de poucas opções no Brasil, de cada 10 pacientes que atendemos, sete são de fora de Caxias do Sul", estima.
A gestora assinala que o Pompéia não é mais somente um porto seguro para emergências ou doenças agudas, mas um sistema capaz de oferecer uma jornada de cuidados, da prevenção ao tratamento. Entre os exames mais recentes, cita o PET/CT que tem como diferencial a precisão no diagnóstico precoce de metástase, permitindo investigar e ter intervenção mais rápida. "Conseguimos fazer exames que antes eram encaminhados para outras cidades. Trata-se de um diagnóstico por imagem complementar com alta sensibilidade e especificidade, capaz de avaliar o corpo inteiro detalhadamente", argumenta.
O Centro de Especialidades Médicas, com mais de 40 consultórios, recebeu melhorias dentro da proposta da prevenção e de exames no próprio hospital. "Ampliamos a estrutura e a oferta de serviços, com laboratório produzindo exames complexos, como de genética", ressaltou.
Para os próximos anos, a prioridade será qualificar a estrutura física, com ênfase no telhado dos três prédios que passaram por intervenção há 40 anos. "A medida é necessária para garantir o funcionamento da operação", comenta. Também haverá a renovação do espaço que abrigava maternidade, fechada há dois anos. A projeção de investimentos para o ano é de aproximadamente R$ 8 milhões.
Nos últimos dois anos, a gestão negocia com a União a repactuação dos contratos de traumato-ortopedia e neurologia para reduzir o déficit que a operação com o SUS cria. "Atualmente, 70% da produção do Pompéia atende pacientes do SUS. Mas a participação na receita é de 30%", exemplifica Lara, lembrando que o hospital ainda atende planos privados e particulares.
A CEO avalia que as finanças estão melhorando, mesmo com inflação no setor de saúde na casa de dois dígitos desde a pandemia. Reconhece que o governo gaúcho, ainda que timidamente, tem melhorado o financiamento da saúde, com a compra de mais serviços. Já a União não aumenta a produção, mas recompõe os valores. O hospital ainda mantém termo de fomento com a Prefeitura, que não sofreu reajuste em 2025 e segue sem solução neste ano.
Lara Sales destaca que o Rio Grande do Sul tem desenho da saúde igual ao estado de São Paulo. Nos dois, 70% da saúde pública, podendo chegar a 80% em períodos de alta, têm atendimento pelo ente filantrópico. Nos demais, a maioria é hospital público federal, estadual e municipal. "A filantropia é um movimento comunitário histórico, orientado por entidade privada sem fins lucrativos. Defendo este modelo, que é quase perfeito, por seu caráter social. Com certeza, sem os hospitais filantrópicos, a saúde gaúcha estaria colapsada", alega. A instituição emprega 1,4 mil pessoas de forma direta. Tem em torno de 200 leitos para todas as áreas, mas com foco principal em especialidades de alta complexidade.
Nova unidade será em Canela
Com 70% das obras encaminhadas, o novo hospital do Pompéia Ecossistema de Saúde está em construção em Canela, em uma parceria com a Novalternativa Incorporadora. O investimento estimado em R$ 70 milhões resultará em um prédio de 15,6 mil metros quadrados de área construída, em um terreno de 173 mil metros quadrados, que comportará, além do hospital, centro de convenções, condomínio e hotel.
O Pompéia Prime atenderá da prevenção ao tratamento em todas as fases de assistência, com foco na saúde suplementar. O padrão arquitetônico diferenciado também permitirá fomentar o turismo pelo serviço médico. Será uma operação totalmente privada, visando gerar recursos para qualificar ainda mais o hospital de Caxias, que se aproxima de 113 anos de fundação. "É preciso reduzir a dependência dos recursos públicos", defende a CEO Lara Sales. O empreendimento deve gerar 500 empregos diretos e 800 indiretos.
A estrutura terá um centro cirúrgico, com seis salas para procedimentos de média e alta complexidade e equipamentos de última geração; capacidade total de 90 leitos de internação entre unidades pós-operatória, clínica e de atendimento intensivo, além da prestação do serviço domiciliar pós-alta. O empreendimento oferecerá 40 especialidades médicas e terá 200 médicos.
São Carlos é o terceiro no Rio Grande do Sul a oferecer cirurgia de escoliose
Desde o ano passado, o Hospital São Carlos, de Farroupilha, oferece cirurgias de escoliose, eliminando a necessidade de deslocamento para a capital. "A instituição já é referência em traumatologia, tem equipe especializada e absorve demandas a partir de uma faixa etária. São poucas unidades no Estado e, portanto, virou referência para outras regiões", assinala a coordenadora Tatiane Fiorio.
Os procedimentos realizados pela equipe do médico Asdrúbal Falavigna têm apresentado alto índice de sucesso, com baixíssimas complicações pós-operatórias e ausência de infecções. Devido a esses resultados, o Estado autorizou o hospital a realizar cirurgias de escoliose não apenas em adultos, mas também em pacientes a partir dos 14 anos.
As operações corrigem deformidades graves da coluna, como escolioses severas e hérnias de disco. São procedimentos que podem durar até 10h e exigem uma grande equipe de especialistas dentro da sala cirúrgica. O Hospital São Carlos está entre as três instituições autorizadas no Rio Grande do Sul a realizar essas cirurgias, junto com a Santa Casa de Porto Alegre e o Hospital de Passo Fundo.
O hospital também recebeu um ambulatório de oftalmologia, que oferecerá mensalmente 240 consultas e 100 procedimentos. Com a nova estrutura, a instituição passa a ser referência na especialidade para 12 municípios da região. Ainda em 2025, inaugurou o Serviço Especializado de Referência à Saúde da Mulher (SERMulher RS), igualmente contemplado por incentivos estaduais.
Desde fevereiro deste ano, tornou-se referência de atendimento regional com o ambulatório especializado em feridas crônicas, financiado pelo SUS Gaúcho. O serviço já é oferecido em Parobé, Santa Cruz do Sul, Rio Grande e Passo Fundo.
Virvi Ramos intensifica prestação de serviços
Em operação desde 1957, o Hospital Virvi Ramos tem investido, nos últimos anos, na oferta de novos serviços para atender demandas crescentes da comunidade ou para suprir espaços abertos pela desativação de atendimentos. Os movimentos feitos em 2025 resultaram na implantação da unidade materno-infantil e do Centro de Atendimento em Saúde à Pessoa Idosa, conhecido como ambulatório 60, que se somaram ao Programa TEAcolhe, criado em 2022 para pessoas com transtorno do espectro autista, e aos serviços oftalmológicos e auditivos, referências na região há 15 anos.
De acordo com a diretora executiva Cleciane Doncatto Simsen, a abertura da maternidade exigiu aporte de R$ 18 milhões, com R$ 8,3 milhões do Estado, R$ 8,5 milhões de emendas parlamentares e mais R$ 1 milhão da Câmara de Vereadores. A estrutura, que supriu serviço até então oferecido pelo hospital Pompéia e que abriu mão do contrato em julho de 2024, contempla centro obstétrico, unidade de terapia intensiva neonatal e área de internação obstétrica. O espaço de 1,5 mil metros quadrados tem realizado média mensal de 100 partos, podendo chegar a 130.
O ambulatório 60, habilitado junto ao programa Avançar Saúde 60 do Estado está preparado para 1,2 mil atendimentos mensais. Até novembro do ano passado, os pacientes eram atendidos nas unidades básicas de saúde, onde aguardavam em lista de espera. Agora, o atendimento é feito em ambulatório específico no hospital, inicialmente, para algumas especialidades já habilitadas, como cardiologia e neurologia.
O serviço é voltado a pacientes classificados como frágeis na atenção primária ou com diagnóstico de demência, funcionando como continuidade do trabalho realizado pelas unidades básicas de saúde. O encaminhamento é realizado pela atenção primária, seguindo critérios como o índice de vulnerabilidade clínica funcional ou o diagnóstico de demência. A estimativa é que o serviço beneficie uma população local de aproximadamente 83 mil pessoas.
Desde 2011, a instituição mantém o Centro de Saúde Clélia Manfro, responsável atualmente por serviços de atendimento mental, transtorno de espectro autista, reabilitação auditiva e intelectual, e oftalmológicos. Por meio da unidade auditiva, o hospital busca habilitação para procedimentos de alta complexidade, como o implante coclear, equipamento eletrônico computadorizado que substitui totalmente o ouvido de pessoas que têm deficiência auditiva severa para profunda ou profunda. Atualmente, a cirurgia é feita somente em dois hospitais de Porto Alegre.
Na avaliação da diretora Cleciane Doncatto Simsen, importante avanço no serviço hospitalar filantrópico pode ser feito por meio de parcerias público-privadas, cabendo ao público o fornecimento do equipamento e ao hospital a estrutura. "As tabelas do SUS são irrisórias. Com as parcerias seria possível gerar mais sustentabilidade financeira. Atualmente, se consegue o equilíbrio pelos convênios. Senão, é insustentável", afirma.
O hospital, originalmente denominado Nossa Senhora de Fátima, atuou como privado até 2002, quando passou a ser filantrópico com a criação da Associação Cultural e Científica Virvi Ramos. Atualmente, dedica 60% da sua produção para o SUS, além de garantir bolsas de estudo na escola técnica.
A estrutura contempla 183 leitos, sendo 71 para convênios e particulares, e 112 para atendimento de demandas do SUS. Tem 30 leitos de UTI, divididos em 20 para adultos e 19 neonatal. A entidade tem sob sua responsabilidade a coleta e processo de todos os exames realizados em todas as unidades básicas de saúde de Caxias do Sul.
A produção média mensal é de 700 cirurgias e 100 mil exames, incluindo endoscopias, tomografia, raio-x convencional e ecografia. Recentemente, o hospital recebeu R$ 6 milhões do Estado para aquisição de equipamento de ressonância magnética e investiu, de recursos próprios, outros R$ 3,5 milhões para adequações das áreas. "Depois da covid, o custo da estrutura hospitalar aumentou muito. Todo novo projeto precisa de exaustão, umidificação e troca de ar em todos os espaços. São equipamentos caros, além da tubulação ser, agora, uma demanda legal", afirma. Na área oftalmológica, o serviço atende 95% das demandas do SUS.
Neste ano, com verba parlamentar de R$ 889 mil, o hospital entregou nova área de mamografia, no centro de diagnóstico por imagem. O equipamento é totalmente digital e tem capacidade para até 800 exames mensais com mais agilidade, precisão e redução do tempo de realização.
O hospital já opera 100% com prontuário eletrônico, sistema beira-leito, código de barra e carrinhos com computador. As interfaces entre as áreas ainda são feitas por meio físico, mas a meta é até o fim do ano ter toda a parte assistencial digitalizada. De acordo com a diretora, a implantação do beira-leito elevou a segurança e gerou reflexos positivos na logística e no custo final, com redução de desperdícios. Para este ano, os investimentos serão priorizados em equipamentos e programas de TI.
São Pedro avança em especialidades
Outro exemplo de evolução é o Hospital São Pedro, de Garibaldi, que era focado somente em atendimentos de média complexidade, e se tornou referência ao aceitar programas do governo. Uma das especialidades é a litotripsia, exame para tratamento de pedra nos rins, antes feito em Erechim. "Houve negociação com o Estado, o hospital aceitou e tornou-se referência para a Serra", destaca a titular da 5ª Coordenadoria da Saúde Tatiane Fiorio. O investimento de R$ 7,8 milhões garantiu obras, equipamentos e ampliação do bloco cirúrgico.
Com 93 anos de existência, a instituição inaugurou, também no ano passado, o novo centro cirúrgico e o centro de endoscopia e colonoscopia, ampliando a capacidade de atendimento e incorporando equipamentos modernos. Além da estrutura, o hospital tem direcionado investimentos estratégicos para pessoas e tecnologia.
Outro diferencial é a presença de dois centros de especialidades, em Garibaldi e em Carlos Barbosa, voltados a consultas eletivas em diversas áreas médicas. A estrutura permite acesso a diferentes especialidades sem a necessidade de deslocamento para grandes centros, fortalecendo a autonomia regional e oferecendo mais comodidade às famílias. "Investimos fortemente em pessoas, porque são elas que fazem a diferença no cuidado. Ao mesmo tempo, buscamos tecnologia e inovação para garantir um atendimento cada vez mais seguro e resolutivo, sem que a comunidade precise sair da sua cidade", afirma o diretor Jaime Kurmann.
Tacchini destina R$ 35 milhões para construir o Medical Center
Com o centenário de fundação comemorado em 2024, o Hospital Tacchini, de Bento Gonçalves, avança na modernização de sua estrutura nos últimos 15 anos, tendo sido o primeiro no estado a obter a certificação digital por meio do prontuário eletrônico. Em março deste ano, entregou à comunidade o Tacchini Medical Center, resultado de investimento próprio na casa dos R$ 35 milhões, valor financiado pelo Sicredi.
A estrutura foi concebida para concentrar diferentes etapas do cuidado em saúde. O prédio de 30 mil metros quadrados concentra posto de coleta de exames de sangue, centro de diagnóstico por imagem e um centro cirúrgico preparado para procedimentos ambulatoriais de média complexidade.
Entre os grandes diferenciais estão o parque tecnológico, com uso de inteligência artificial para auxiliar na análise das imagens; a integração dos serviços em um mesmo ambiente e a experiência centrada no paciente, reduzindo deslocamentos e otimizando o tempo de atendimento. Outro destaque é a atuação de equipes multiprofissionais de forma coordenada, favorecendo uma abordagem mais completa e resolutiva.
O atendimento foi pensado para receber os clientes com agilidade e independência. Para isso, não há balcão de atendimento, guichê ou totem. Tudo é feito de forma digital: o cliente realiza o check-in via aplicativo Meu Tacchini, a partir da leitura de um QRCode, ou tem a ajuda de um atendente, que realiza a abertura do atendimento a partir de um tablet. Uma vez incluído no fluxo de atendimento, é acompanhado em cada etapa da jornada por um profissional, que indica o caminho para a realização dos procedimentos.
O serviço oftalmológico, que há alguns anos estava centralizado em Carlos Barbosa, retorna para Bento Gonçalves. A estrutura está preparada para realizar cirurgias de baixa e média complexidade, incluindo procedimentos como vitrectomia para tratamento de retina, ampliando o acesso a técnicas antes restritas a grandes centros. O projeto também contempla o Espaço da Mulher, reunindo mamógrafo e sala de ecografia no mesmo ambiente.
A gerente do Tacchini Medical Center e do Tacchini Diagnósticos, Fabiane Dolinski, assinala que, feita a consulta e realizados os exames, o resultado pode ser obtido em até 30 minutos e a recomendação de tratamento encaminhada, inclusive com agendamento de cirurgia para o mesmo dia, se necessária. "No sistema convencional, este prazo pode chegar a 20 dias. Em torno de 98,6% dos serviços médicos são solicitados via digital", reforça.
O CEO Hilton Mancio entende que o modelo proposto, com um combo de serviços, não tem similar no estado e poucos no Brasil. A expectativa é de 1,2 mil cirurgias e 9 mil exames mensais, com crescimento gradual. O serviço é prestado para clientes do plano Tacchini Saúde, particulares e outros convênios. "Investimentos como este ano, além de qualificar o atendimento, são necessários para cobrir o déficit gerado pelo sistema público", frisa. Inicialmente, foram abertas 50 vagas de trabalho, número que deve avançar para 200 quando o projeto estiver a pleno. Os consultórios médicos têm quadros próprios.
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Hospital aposta em projeto de expansão continuado e prevê 120 novos leitos
Hilton Mancio recorda que, em 2019, teve início o projeto de expansão do hospital com novo prédio de nove andares, dos quais dois estão ocupados. Ele estima que o investimento realizado desde então já supere a marca de R$ 100 milhões e projeta outro tanto para breve, incluindo 120 novos leitos. "As tecnologias de bloco cirúrgico e diagnóstico passam por atualização a cada cinco anos, com acoplamento de serviços complementares, braços mecânicos e uso de laser, entre outros avanços", explica.
Assinala que a modernização também eleva a produtividade de atendimento, o que representa maior segurança para o paciente. "Tratando e recuperando no menor tempo possível, minimizamos os riscos. A demanda do SUS é grande, que é parcialmente sanada com o giro maior na ocupação dos leitos", ressalta.
Projeto em andamento, em parceria com a Univates, é a criação do curso de medicina, que ocupará um andar do novo prédio. Para que se consolide o investimento de R$ 30 milhões a ser feito pela universidade, falta a habilitação do curso pelo Ministério da Educação. A expectativa é de ofertar 60 vagas por ano.
Outro avanço, incorporado em 2022, é a farmácia digital, que fornece prescrições 24 horas por dia. O sistema é responsável por realizar uma série de ações com o objetivo final de impor barreiras de segurança extra nos atendimentos e, ao mesmo tempo, tornar o atendimento ainda mais ágil. Entre os recursos oferecidos pela ferramenta estão os alertas para relações medicamentosas, como incompatibilidades, duplicidades e reatividades cruzadas, e prescrições fora do padrão, detectando possíveis erros de dosagem e frequência. O sistema também oferece um gráfico de evolução personalizado para cada exame, destacando alterações que podem gerar impacto na saúde do paciente.
Carlos Alberto Bertollo, gerente de TI do Tacchini Saúde, recorda que o sistema anterior era manual. A medida, segundo ele, além de elevar a segurança, tem potencial econômico substancial. "Só em 2025, a economia apurada foi de R$ 750 mil", registra.
O Tacchini também faz uso, há cinco anos, dos dispensadores para remédios, que evitam erros de aplicação dos remédios nos pacientes. O sistema ainda é pouco adotado, mas tende a ser massificado no futuro. Atualmente, a estimativa é que 600 hospitais façam o seu uso, pouco mais de 10% do total existente no país.
Mancio admite que a situação econômica do hospital no ano passado não foi boa, apurando o maior déficit da história no atendimento pelo SUS. "Gastamos R$ 115 milhões e recebemos R$ 80 milhões. O SUS não mexe na tabela de custeio há muito tempo, paga R$ 10 por consulta. Conseguimos zerar o prejuízo por meio do ingresso de recursos de outras formas. Mas fechar no zero é péssimo, porque compromete a capacidade de investimento, de crescimento e de qualificação. Não é problema de gestão, é de subfinanciamento público", assinala. O CEO afirma que a rede filantrópica é a salvação do atendimento SUS, pois são poucos os hospitais públicos.
O hospital possui caráter comunitário, com mais de 66% dos atendimentos realizados em 2025 por meio do SUS. É gerido por um Conselho de Administração formado por 27 empresários. Emprega 2,2 mil pessoas diretas nas operações de Bento Gonçalves e Carlos Barbosa e, por meio do plano de saúde, atende em torno de 66 mil usuários. Em Bento, são 280 leitos e 22 em unidade psiquiátrica. Em Carlos Barbosa, onde também mantém um residencial com capacidade para 55 idosos, são mais 70 leitos.












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