sexta-feira, 1 de maio de 2026

 Milton Hatoum narra traumas de uma geração e a tragédia do País

dança de enganos

dança de enganos

COMPANHIA DAS LETRAS/DIVULGAÇÃO/JC

Jaime CimentiDança de enganos (Companhia das Letras, 256 páginas, R$ 82,00) é o romance mais recente do multipremiado escritor e professor amazonense Milton Hatoum, nascido em 1952, e se trata do último e extraordinário capítulo da trilogia O Lugar Mais Sombrio. A noite da espera (2017) e Pontos de fuga (2019) são os dois primeiros volumes da trilogia.
Neste volume final, um drama familiar com forte pano de fundo histórico e político, estilo que  caracteriza o autor, a história é narrada a partir da protagonista Lina e os temas anteriores ganham novas perspectivas. A saga de Martin, o protagonista dos romances anteriores, recebe sentidos e lances imprevistos. Sua jornada em Brasília, no contexto tumultuado da ditadura, e depois em São Paulo, durante o período mais duro dos anos de chumbo, é agora também a de sua mãe, Lina.
Sempre trabalhando muito e bem as relações e conflitos familiares, o tempo, as grandes e pequenas histórias  e a memória, Hatoum, a partir das anotações e da memória de Lina, vai mostrando uma dimensão surpreendente de sua trajetória, cheia de segredos, pessoas, amores, desilusões, angústias e, sobretudo, marcada pela ausência do filho.
No emaranhado dos fios da memória, onde o silêncio e o esquecimento são partes imprescindíveis, Lina revisita sua vida e a das pessoas ao seu redor, revelando uma galeria notável de almas desgarradas , que entram e saem da narrativa como se fossem sombras num longo e nebuloso sonho.
Lina lembra o filho Martin, reflete que "nem todas as dúvidas são vazias" e mostra que a memória, onde as coisas acontecem muitas vezes, também pode ser o espaço onde as pessoas esquecem o que não querem lembrar.
Um dos maiores nomes da literatura brasileira atual, com obras de ficção publicadas em dezessete países, há poucos dias Milton Hatoum tomou posse na Academia Brasileira de Letras. Em 2025, seu nome foi cogitado, com justiça, para receber  o Prêmio Nobel de Literatura. Quem sabe os suecos, em outubro, anunciem pela primeira vez um brasileiro? Está mais do que na hora.
 

Lançamentos

O Pensamento de Guilherme Socias Villela e o olhar de um cronista (Bá Editora, 184 p.) organizado pelo renomado advogado e escritor Eduardo Battaglia Krause, com apresentações de Gabriel Souza e Deborah Villela, traz artigos  de um dos maiores prefeitos de Porto Alegre, escritos ao longo  de uma vida familiar e profissional plena, que muito beneficiou os cidadãos e a cidade.
Histórias Miseráveis (Maralto, 160 p.) de José Castello, grande jornalista, cronista, romancista e biógrafo, com seleção, organização e apresentação de Rogério Pereira, jornalista, editor e escritor, tem 35 crônicas literárias, muito bem escritas, sobre jornalismo, curiosidade, vida, perguntas, pessoas e situações do cotidiano inspiradoras que o autor generoso e bem humorado nos oferece.
Pintor. Despintor. Faxineiro.Doutor  o Iberê Camargo  (Reler, 210 p.) da arquiteta Christina Thereza Dias de Aguir e do geólogo Enio Soliani Júnior traz textos saborosos sobre Iberê e sua obra, frutos de uma convivência amiga de doze anos. Dezenas de fotos das obras de Iberê estão no volume, apresentado com carinho pela consagrada galerista Tina Zappoli.

Dia do Trabalho

A origem da palavra trabalho é horrível: vem do latim tripalium, instrumento de tortura com três estacas, usado para imobilizar e punir pessoas ou animais. Por isso, por muito tempo, a associação do trabalho com pena, esforço duro e sofrimento. Na Antiguidade, trabalho manual era visto como inferior, e cidadãos livres valorizavam o pensamento e a política, o tal trabalho 'intelectual'.
Na Idade Média, servos trabalhavam para os senhores e a religião dava um sentido meio moral a isso tudo, dizendo que era um dever. Na Idade Moderna, com a Revolução Industrial, o trabalho passou a ser assalariado e iniciaram as lutas por direitos trabalhistas: oito horas de trabalho, oito de descanso e oito xelins por dia, pediam os trabalhadores. No mundo contemporâneo, o trabalho é para ser fonte de renda, identidade e autonomia. Tecnologia, automação, trabalho remoto e outras novidades estão aí.  
A história do trabalho humano, provavelmente, é a parte mais bonita e significativa da história da humanidade. Para a maior parte das pessoas, a relação com o trabalho é a mais longa ou das mais longas da vida. É uma relação consigo mesma, e se a pessoa trabalha com prazer, então, é das maiores realizações da vida. Infelizmente muitos trabalham por necessidade de sustento próprio e da família, por mera obrigação, e passam décadas suportando dificuldades até chegar o momento da aposentadoria. Muitos, infelizmente, não sobrevivem apenas com a aposentadoria e têm que seguir trabalhando.
Felizmente, os ordenamentos legais ligados à medicina, segurança e bem-estar físico e psíquico dos trabalhadores têm evoluído no Brasil e no exterior. Para os trabalhadores, para as empresas e para os órgãos públicos, muito melhor que o trabalho seja feito com o maior profissionalismo e com a maior alegria possível. Ginástica laboral, intervalos para alimentação, descanso ou relaxamento, programas de incentivo a ambientes de trabalho saudáveis e incentivo a boas condutas e práticas corporativas sem dúvida são elogiáveis e trazem melhores resultados para todos. Na medida do possível, e seguindo o pensador italiano Domenico De Masi, é bom cultivar o ócio criativo, que certamente vai redundar adiante em trabalho mais produtivo e divertido.
Nesse dia e nos outros é preciso valorizar as pessoas que nos auxiliam no dia a dia, seja nas nossas casas ou quando necessitamos transporte, saúde, mercadorias, serviços e, enfim, sempre que tenhamos contato com trabalhadores que muitas vezes têm salários baixos e ainda por cima se tornam invisíveis por conta da insensibilidade, da falta de educação e de delicadeza de quem se acha superior. Dependemos uns dos outros, somos anjos de uma asa só que precisam se aproximar do próximo para voar. Chamar pelo nome, cumprimentar, sorrir, agradecer, pedir desculpas, falar baixo, dar gorjeta, pedir licença e outras gentilezas vão gerar gentilezas e trabalhos e relações melhores, nesse mundinho barulhento, estressado e briguento.
a propósito
Por falar em trabalho, é bom sempre lembrar uma bela tradição japonesa: no Japão não existe aposentadoria total, o tal ócio com dignidade. Depois que se aposentam os japoneses seguem trabalhando em empregos mais leves ou fazendo alguma outra coisa, como trabalho voluntário, artesanato, estudos, exercícios, cuidados com a casa, cultivo de horta e/ou jardim, auxílio para os necessitados da comunidade e outras ocupações. Eles procuram ter um propósito, um bom motivo para levantar da cama e seguir se ocupando até que a saúde permita. Como dizia o Dr. Cyro Martins, quem não se ocupa, se preocupa. Feliz Dia do Trabalho feliz!
 (Jaime Cimenti)

 Governo Federal entrega trecho da BR-290 e autoriza nova etapa de duplicação no RS

Ministro dos Transportes, George Santoro, inaugurou trecho em Pantano Grande

Ministro dos Transportes, George Santoro, inaugurou trecho em Pantano Grande

Dani Barcellos/Especial/JC
Gabrieli Silva
Gabrieli SilvaRepórterde Pantano Grande
duplicação da BR-290, um dos principais corredores logísticos do Sul do país, voltou ao centro da agenda de infraestrutura nesta quinta-feira (30), com a entrega de 14 quilômetros em Pantano Grande e a assinatura da ordem de início de serviços do Lote 2, entre Arroio dos Ratos e Butiá. O avanço ocorre em meio a obras em diferentes estágios, com paralisações e revisões de projeto. 
A liberação do trecho foi marcada por ato simbólico no local, com a presença de autoridades federais, estaduais e municipais, além de técnicos do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).
O ministro dos Transportes, George Santoro, afirmou que a entrega integra um esforço de retomada de obras interrompidas ao longo da última década. “Hoje vamos liberar 14 quilômetros para tráfego normal e assinar a ordem de serviço para o início do Lote 2. Temos clareza da importância dessa rodovia, que é um eixo de conexão do Mercosul”, disse.
Segundo ele, já foram entregues 28 quilômetros duplicados no total, com previsão de novos trechos até agosto. “O mais importante é garantir que as obras não parem, que tenham fluxo contínuo de recursos”, acrescentou.
A nova ordem de serviço autoriza o consórcio responsável a retomar a duplicação no segmento entre os quilômetros 142 e 172, com extensão de 30,08 quilômetros e investimento estimado em R$ 320 milhões. O prazo contratual é de 900 dias contados a partir da assinatura de hoje.
A duplicação da BR-290 entre Eldorado do Sul e Pantano Grande — cerca de 115 quilômetros — foi iniciada na década passada no âmbito do PAC, mas sofreu interrupções prolongadas. Segundo o ministro, o país acumulou estruturas inacabadas por mais de uma década — cenário também lembrado pelo deputado federal Paulo Pimenta, que participou da ordem inicial em 2014. ‘Infelizmente, a obra foi interrompida por anos. Isso explica estruturas inacabadas que ainda vemos hoje”, afirmou.
Com a retomada recente, o governo federal afirma ter incluído a rodovia como prioridade dentro do novo ciclo de investimentos, com recursos garantidos.
A BR-290 é um dos principais eixos de escoamento da produção agrícola do oeste gaúcho em direção ao porto de Rio Grande, desempenhando papel estratégico para a competitividade do Estado no comércio exterior.
 BR-290 é um dos principais eixos de escoamento da produção agrícola do oeste gaúcho | Dani Barcellos/JC
BR-290 é um dos principais eixos de escoamento da produção agrícola do oeste gaúchoDani Barcellos/JC

Situação atual

Apesar dos avanços recentes, o panorama ainda evidencia entraves estruturais:
  • Lote 1: contrato rescindido, sem cronograma definido. Execução chegou a 13,86%. O projeto passará por readequação, incluindo trecho elevado após impactos das enchentes de 2024.
  • Lote 2: estava paralisado, com 10,15% executados. Retomada iniciada com nova ordem de serviço.
  • Lote 3: em andamento, com 43,15% executados. Previsão de conclusão em 2027.
  • Lote 4: estágio mais avançado, com 86,01% executados e previsão de entrega até agosto de 2026.
No total, o empreendimento soma cerca de R$ 1,4 bilhão em investimentos, incluindo pontes, viadutos e travessias urbanas.
O prefeito de Pantano Grande, Alcides Emílio Paganotto, destacou o simbolismo da entrega. “Muitos não acreditavam que isso aconteceria. Para nós, é um momento único”, afirmou.
Ele também ressaltou os desafios locais: “Não é fácil cortar o pátio de uma casa onde famílias viveram por gerações. Construir uma rodovia dentro de uma cidade é um desafio enorme”.
Segundo o prefeito, restam cerca de R$ 60 milhões para concluir os últimos quatro quilômetros do trecho municipal. 
Diversas lideranças participaram da cerimônia nesta quinta-feira | Dani Barcellos/Especial/JC
Diversas lideranças participaram da cerimônia nesta quinta-feiraDani Barcellos/Especial/JC

Impacto das enchentes e revisão de projetos

As enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 também alteraram o planejamento da obra. O Lote 1, mais próximo da Região Metropolitana, precisou ser reavaliado.
“Os projetos antigos consideravam a cota da enchente de 1941. Agora, precisamos trabalhar com a nova realidade climática”, explicou Pimenta.
O ministro confirmou que a revisão está em andamento e deve ser concluída até o fim do ano.