A cura pela novidade
Estudo
gaúcho identifica fator de tratamento do estresse pós-traumático
Apresentar
uma novidade horas antes do início de uma sessão de terapia. Essa pode ser uma
tática para a extinção da memória de medo ou de um trauma, segundo revelou uma
pesquisa do Centro de Memória da PUCRS publicada no final do ano passado.
O
estudo comprovou, por meio de testes em laboratório, que uma nova informação
induz a síntese de proteínas no hipocampo, a região cerebral mais envolvida na
formação de memórias, fixando o aprendizado – no caso, a extinção da memória de
medo.
Publicado
em 31 de dezembro na revista científica americana Proceedings of the National
Academy of Sciences (PNAS), o artigo intitulado Behavioral Tagging of
Extinction Learning (em português, marcação comportamental de aprendizagem da
extinção) já teve mais de 4,5 mil acessos ou downloads até a última quinta-feira,
o que mostra o impacto e relevância do tema em nível internacional.
A
autora da pesquisa, Jociane Myskiw, criou um protocolo no qual a novidade é capaz
de facilitar a formação da memória de extinção em ratos. Ela identificou que a
introdução de uma novidade, duas horas antes da sessão de extinção (ou de
terapia), foi capaz de influenciar, de forma positiva, na formação dessa memória.
Embora
a pesquisa seja baseada em uma evidência já conhecida – a ideia de que uma
novidade ajuda a esquecer um problema – essa é a primeira vez que o tema é comprovado
cientificamente.
– Isso
pode servir para acelerar a extinção de respostas do medo – destaca o
neurocientista Iván Izquierdo, coautor da pesquisa.
No
estudo, usa-se a extinção no tratamento do estresse pós-traumático. Submete-se
o paciente a estímulos que remetem ao trauma, sem o motivo causador. O
tratamento psíquico é a extinção do trauma, e consiste em fazer o indivíduo
aprender a diferença entre o estímulo causador do medo e o fato em si.
O
estudo levou cerca de dois anos para ser concluído e agora avançará para uma
nova etapa, que consiste na análise farmacológica e comportamental dos ratos. Izquierdo
explica que, por meio de cânulas colocadas no hipocampo cerebral dos animais,
serão aplicadas drogas e testados os neurotransmissores envolvidos no processo
de extinção do medo. Por enquanto, o teste em pacientes não será feito.
– Essa
pesquisa será utilizada por profissionais com prática clínica e técnica, como
psiquiatras ou psicólogos – afirma Jociane.
Além
de Izquierdo e Jociane, o estudo tem participação de Fernando Benetti, bolsista
de pós-doutorado no Centro de Memória. Todos os testes foram desenvolvidos na
PUCRS e seguiram as normas do Comitê de Ética em Pesquisa e os direitos e
cuidados com os animais foram respeitados, observam os cientistas.
lara.ely@zerohora.com.br