segunda-feira, 6 de julho de 2026

 

06 de Julho de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Cría cuervos

Uma mulher que defende a submissão feminina pode ocupar uma posição de liderança sem perder a coerência? A conversa surgiu na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara, dias atrás, durante uma discussão sobre o projeto de criminalização da misoginia. A deputada Júlia Zanatta, do PL de Santa Catarina, invocou a Bíblia para defender a hierarquia dentro e fora de casa: marido manda, mulher obedece, Deus fiscaliza. Sâmia Bomfim, do PSOL de São Paulo, aproveitou a deixa para cutucar o antifeminismo performático das colegas da bancada conservadora: "Se realmente pensassem assim, não seriam deputadas, seriam mulheres submissas a seus maridos dentro das suas casas".

Quem assistiu Mrs. America (Disney) talvez lembre que a incoerência não é o único problema de quem escolhe militar contra os próprios interesses. A série retrata o embate travado entre mulheres de diferentes perfis ideológicos durante a campanha para a aprovação da Emenda dos Direitos Iguais, no início dos anos 1970. 

De um lado, o movimento feminista, liderado por Gloria Steinem (Rose Byrne) e Betty Friedan (Tracey Ullman), defendendo a lei que dificultaria a discriminação baseada no sexo. Do outro, a ativista conservadora Phyllis Schlafly (Cate Blanchett) e sua turma colocando-se contra a possível perda de "privilégios" femininos, como o direito à pensão e a isenção do alistamento militar obrigatório. Spoiler: o movimento conservador ganhou a parada, muito graças à tenacidade de Phyllis Schlafly. Na cena final da série, a ativista recebe o telefonema que esperou a vida inteira. 

Do outro lado da linha está Ronald Reagan, o presidente que ela ajudou a eleger liderando um exército de donas de casa indignadas. Phyllis espera um cargo como prêmio pelos bons serviços prestados, mas ganha apenas um tapinha nas costas. Em termos políticos, o recado era claro: valeu, amiga, agora volte para a cozinha. (Anos mais tarde, Schlafly serviria de inspiração para Margaret Atwood criar outra campeã na modalidade tiro no próprio pé: Serena Joy, a mulher que acaba sendo vítima da teocracia misógina que ajudou a implantar, no livro O Conto da Aia.)

Mulheres de direita são uma população em expansão e se fazem ouvir nas redes sociais, nas igrejas, nos palanques políticos. Todas usufruem do bem-bom da autonomia conquistada a duras penas pelo feminismo para defenderem qualquer ideia que lhes pareça conveniente - inclusive a de que esposas devem obediência aos seus maridos. Quando seus supostos aliados masculinos decidem atacá-las ou diminuí-las, por excesso de iniciativa ou de protagonismo, ninguém deveria se surpreender, muito menos elas mesmas. Cría cuervos y te sacarán los ojos. 

CLÁUDIA LAITANO

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