terça-feira, 1 de setembro de 2026

01 de Setembro de 2026
CARPINEJAR

Uma trilha sonora diferente.

Quem se forma conta com o direito de escolher uma música de sua preferência, que ocupará o fundo sonoro para a entrega do capelo e do diploma e para os cumprimentos da Reitoria.

A melodia e a letra ocupam o lugar do discurso e dos ideais; produzem o efeito contagiante de transmitir uma mensagem, de realizar um protesto, de marcar a noite com um grito de insubordinação ou de ovação.

Vale tudo: hinos de clubes, gospel, samba, rock, MPB, pagode. É aquilo que faz a cabeça do universitário que dedicou anos ao estudo de uma área, embalando a gravação de seu ponto de partida profissional.

Unicamente os oradores se pronunciam pela turma no microfone. Então, cada um se expressa pelo seu hit favorito. Uma formanda da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em 8/8, inovou na escolha da trilha para o instante em que seu nome fosse anunciado na colação de grau.

Não sei como ninguém pensou nisso, mas Manoela, 23 anos, natural de Tupanciretã, alcançou um insight da mais pura sensibilidade e gratidão. Com seu gesto, mudou a tradição para sempre.

Em vez de optar por uma canção famosa, reuniu áudios de WhatsApp de seus familiares. As palavras cotidianas, cheias de sotaque e do calor do cuidado, ditas espontaneamente e enviadas no dia a dia, ilustraram a jornada de Manoela para receber o canudo de Zootecnia.

"Mimosa do vovô" "Coisa mais linda" "O coração não cabe no peito" O timbre não deixa de ser a mais íntima fotografia, porque devolve a presença: contém respiração, humor, carinho.

Transformou a rotina mais banal no acervo de sua conquista. Há quem acelere as conversas em 1,5x ou 2x; a jovem imortalizou-as na lentidão inesquecível da saudade, contemplando a retaguarda do vestibular, das avaliações, do cansaço, do medo de reprovação, do estágio, das contas, das viagens diárias, das madrugadas sem dormir.

Na seleta, reuniu seis vozes de seu repertório de apoio. A montagem começa com sua mãe e, em seguida, traz as falas do pai, das avós, do avô paterno e do irmão.

Um dos trechos mais marcantes e pessoais é da avó Fátima: "vem dormir uma noite aqui para coçar tuas costas". - Desde a minha infância, ela coça as minhas costas. É o nosso código de visita. Tenho um apego a esse ato de proteção - explica Manoela.

As palmas e os assobios da plateia foram substituídos pelo silêncio da comoção. Lágrimas selaram os rostos, pois o que era para ser um momento exclusivo de uma só aluna serviu para todos.

Antes de uma profissão, Manoela já tinha uma torcida. Ela não subiu sozinha ao palco. Levou consigo os apelos que a ajudaram a chegar até ali: os degraus da sua motivação. Incluiu implicitamente, no seu documento afetivo, as caronas, os telefonemas, o dinheirinho para os livros, a comida pronta, o incentivo, as preocupações, o "como foi a prova?", o "vai dar certo".

Nenhum artista seria capaz de traduzir melhor quem ela é do que aqueles que a chamam pelo apelido.

Ela aplaudiu a família sem esperar pelo próprio aplauso. Por fim, encontrou um jeito de diplomar a família inteira junto. Ao atingir seu destino, reverenciou sua origem. Nossas raízes são nossas asas. _

CARPINEJAR

 

01 de Setembro de 2026
OPINIÃO RBS

Açodamento eleitoreiro

O esforço concentrado do Congresso nesta semana, com uma série de sessões e votações sobre temas relevantes e de interesse do governo, prevê para amanhã a apreciação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6x1 na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Ávido pelos ganhos eleitorais prometidos pela pauta, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pressiona para que o texto seja votado ainda nesta semana pelo plenário da Casa. A matéria foi aprovada em maio pela Câmara. O relator no Senado, Omar Aziz (PSD-AM), manteve o mesmo conteúdo e rejeitou emendas para evitar a possibilidade de a PEC ter de ser reanalisada pelos deputados federais.

Apesar do propósito meritório, a redução da jornada de trabalho, da forma como está indicada na PEC, pode ter um impacto significativo na economia e na saúde de empresas intensivas em mão de obra. Trata-se de um tema que, pelas repercussões na competitividade e na sustentabilidade financeira das companhias, deveria ser discutido com mais cautela, com base em evidências, amplo diálogo com todas as partes interessadas e análise aprofundada das peculiaridades setoriais.

O que está proposto é que, no calor eleitoral, o Senado, a Casa revisora da República, apenas carimbe o texto aprovado na Câmara. O açodamento avilta o processo legislativo e impede uma discussão responsável, imprescindível para uma matéria de tamanha importância. O racional seria retomar o debate após o pleito de outubro, evitando-se a tendência natural do período de aprovar bondades sem medir as consequências.

A PEC propõe reduzir a carga horária máxima de trabalho semanal de 44 para 40 horas, sem redução de salário. Também garante dois dias de repouso remunerado, sendo um deles preferencialmente aos domingos. O período de transição previsto é de 14 meses, considerado curto por diversos setores.

É fundada a reivindicação de trabalhadores por mais tempo para a convivência com a família, para o lazer e para a qualificação, com reflexos na qualidade de vida e na aquisição de conhecimento e competências. O perigo está em apressar esse passo, ignorando-se as condições necessárias para ser uma mudança sustentável. No Brasil, o custo de empregar está entre os mais elevados do mundo e a produtividade do trabalho não cresce de forma aceitável há décadas, ao contrário de outros países onde as jornadas foram reduzidas. A discussão sobre uma menor carga laboral deveria ser acompanhada pela busca por formas de reduzir encargos e de elevar a produtividade.

O risco, portanto, é o de um grande número de empresas não conseguir absorver esses custos. Uma saída será repassar gastos adicionais com mão de obra ao consumidor, provocando inflação. Não se descarta também o aumento da informalidade como reflexo. Outras empresas - e as vagas que geram - poderão ficar inviabilizadas pela pressão extra, em meio a um ambiente de alto endividamento e de sufoco provocado pelo juro extorsivo, cenário que já tem levado a uma onda de recuperações judiciais. O momento exigiria maior responsabilidade e contenção do ímpeto eleitoreiro. 

OPINIÃO RBS


01 de Setembro de 2026
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Como se explica a ascensão de Cury

Com a ressalva de que pesquisas precisam ser analisadas com cautela, especialmente neste ano em que novas formas de coleta de dados estão sendo usadas, é preciso reconhecer que há uma novidade no cenário eleitoral. É a ascensão do médico, escritor e palestrante Augusto Cury, do minúsculo Avante, um partido de escassa capilaridade no Brasil. Divulgadas ontem, as pesquisas AtlasIntel e BTG/Nexus mostram que Cury produziu um pequeno furo na bolha da polarização.

Antes de AtlasIntel e BTG/Nexus detectarem o crescimento de Cury nas intenções de voto, seu nome começou a aparecer em diferentes bolhas da internet - de empresários a jovens que se perguntavam "quem é esse cara do qual está todo mundo falando?". Todo mundo é um exagero, naturalmente, mas na semana passada Cury foi quem mais ganhou seguidores no Instagram, atrás apenas do perfil da cantora country Dolly Parton, que morreu no dia 25 de agosto.

O que dizem as pesquisas? A do BTG/Nexus coloca Cury com 11% das intenções de voto, salto de nove pontos em relação ao levantamento anterior. Na mesma sondagem, o presidente Lula caiu de 41% para 39% (dentro da margem de erro) e Flávio Bolsonaro perdeu quatro pontos (de 37% para 33%). Ronaldo Caiado (PSD) se manteve nos 5%, assim como Renan Santos (Missão) em 3%. Romeu Zema caiu de 3% para 1% e o resto ficou abaixo de 1%.

Na AtlasIntel, Lula tem 43,4%, Flávio, 33,7%, e Cury subiu para o terceiro lugar com 7,8%, empatado com Renan (7,6%). Caiado e Zema ficaram para trás.

Como explicar a ascensão de Cury? Não dá para atribuir à entrevista ao Jornal Nacional, feita na noite de sábado, quando a maioria das entrevistas já tinha sido feita. Mais provável que quedas de Lula e Flávio tenham relação com a entrevista.

A audiência do debate da Band (baixa) também é insuficiente para explicar o salto, se ele realmente ocorreu. A hipótese mais provável é subjetiva: parte dos brasileiros incomodados com a polarização entre Lula e Flávio encontrou um outsider para chamar de seu.

Mestre na autoajuda

Cury vive da palavra. É mestre na autoajuda. Natural, portanto, que consiga encantar plateias desencantadas com a política, mesmo que suas propostas sejam superficiais e, em alguns casos, flertem com a fantasia, como se viu no Jornal Nacional.

Falta pouco mais de um mês para a eleição. Lula e Flávio vão continuar se atacando - e o presidente sendo atacado por todos. As duas campanhas terão de encontrar uma estratégia para lidar com Cury, levando em conta a tradição de uma parte significativa do eleitorado brasileiro de votar no improvável, desde que diga o que ele quer ouvir. Foi assim com Fernando Collor em 1989 e com Jair Bolsonaro em 2018. _

Compromisso firmado com agendas ligadas às mulheres

No último dia de agosto, mês usado para conscientização e combate da violência doméstica, um trio de mulheres firmou 15 compromissos com os candidatos Gabriel Souza (MDB) e Ernani Polo (PSD). Valéria Leopoldino, primeira-dama de Porto Alegre e uma das coordenadoras da campanha, Talise Tiecher e Alessandra Polo - esposas de Gabriel e Polo - comandaram o ato ontem, no comitê central da campanha.

Junto de representantes das 59 candidatas da coligação, sendo 30 que concorrem a deputada estadual e 29 a federal, as mulheres apresentaram um documento que sintetiza ações voltadas ao eleitorado feminino em diversos setores.

O texto, assinado por todas elas, reforça medidas que integram o plano de governo da chapa, ligadas ao mercado de trabalho, qualificação profissional, independência econômica, saúde, proteção e acolhimento às vítimas de violência doméstica.

O movimento é uma tentativa de aproximar a chapa majoritária emedebista das mulheres, já que não inclui mulheres concorrendo. A ideia é fazer com que as candidatas a deputada divulguem as propostas do plano de governo de Gabriel para combate aos feminicídios e proteção das mulheres, além de incentivar as candidaturas femininas. _

Teste de popularidade

A visita de Augusto Cury à Expointer, em Esteio, hoje, será um teste de popularidade para quem deu um salto nas pesquisas. Cury chegou a anunciar que iria à Expointer ontem, mas acabou mudando a agenda e limitando as atividades do dia a um comício em Cachoeirinha, cidade administrada pelo Avante. Cury chega ao parque Assis Brasil pouco depois das 10h. 

Dono de várias fazendas, o candidato vai disputar a simpatia dos produtores gaúchos com o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que tem agenda confirmada para o dia seguinte. _

Prevenção ao feminicídio

Há um Espaço Lilás no Pavilhão da Agricultura Familiar da Expointer. Mais do que uma área física, é um espaço de reflexão sobre violência de gênero e orientação para as mulheres se prevenirem de relacionamentos abusivos. A iniciativa é da Secretaria da Mulher, em trabalho conjunto com a Emater e a Secretaria de Desenvolvimento Rural. Todos os dias, a partir das 10h, começa uma roda de conversa sobre prevenção e enfrentamento da violência de gênero. Com duração de uma hora e meia, os encontros abertos a quem quiser participar têm formato participativo, com dinâmicas de grupo, reflexão coletiva e orientação sobre a rede de proteção. _

Marjorie assume cargo no Sebrae-RS

Com o voto das 14 entidades que participaram da reunião do conselho, ontem, pelo Sistema Fecomércio-RS, a engenheira florestal Marjorie Kauffmann foi eleita por unanimidade nova diretora superintendente do Sebrae-RS, cargo que ocupará até meados de 2027. Ela completará o mandato de Joel Vieira Dadda e, depois, passará por nova eleição para continuar. Marjorie deixou a Secretaria do Meio Ambiente na semana passada. 

POLÍTICA E PODER

01 de Setembro de 2026
EM FOCO

Em foco

Rio Grande do Sul é o quinto com mais reclamações no país no período de 15 dias de campanha oficial. Até agora, foram 640. Nesse ritmo, volume poderá igualar quantidade constatada no pleito de 2022. Tipo de infração mais comum é nas vias públicas, seguida de abuso na internet

De olho na propaganda eleitoral irregular

Humberto Trezzi

A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto. Ao longo dessas duas semanas, a Justiça Eleitoral já recebeu 640 queixas de propaganda irregular no Rio Grande do Sul. Ao ritmo atual, o volume de suspeitas apontadas pode igualar o de 2022, último pleito de alcance federal, quando foram registradas 3.053 denúncias nos dois meses anteriores à eleição. O levantamento é do aplicativo Pardal.

Trata-se da ferramenta de recebimento de denúncias desenvolvida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O canal foi criado para ações rápidas que façam cessar a irregularidade, explica o coordenador de assessoramento eleitoral do Ministério Público do Rio Grande do Sul, promotor de Justiça Rodrigo López Zilio.

- A ideia é que a denúncia parta do cidadão comum, para que o juiz tome uma medida de caráter administrativo, fazendo cessar a ilegalidade. Ela não tem contraditório, apenas manda parar o ilícito - explica Zilio.

A punição mais comum é a retirada imediata da propaganda. Existe um outro tipo de denúncia, menos frequente e mais elaborada, que se chama representação. É uma ação (geralmente, impetrada pelo MP), com direito a contraditório e ampla defesa, ajuizada e que pode resultar em multa de R$ 5 mil a R$ 25 mil. Em casos graves e de reiteração, pode levar à cassação do registro do candidato ou do eleito (se já diplomado).

Inteligência artificial

A legislação proíbe propagandas em bens públicos e de uso comum (inclusive parques e jardins), em outdoors e por meio de amplificadores de som nas proximidades de tribunais, quartéis, hospitais, entre outros locais públicos. O uso de inteligência artificial na internet deve ser mencionado pelo político.

As 640 queixas ocorreram em 80 municípios gaúchos. Mais da metade delas, 387, por propaganda ilegal em vias públicas. A seguir vêm irregularidades na internet (45), em bens públicos (41) e outdoors ilegais, inclusive eletrônicos (39). Os carros de som continuam perturbando e somam 31 relatos até agora.

O desembargador Luciano Losekan, presidente da Comissão de Combate à Desinformação do TRE-RS, saúda a chegada do sistema Pardal.

Ele lembra que todos os cidadãos têm um computador em mãos, que é o celular. Até por isso, foi montado um aplicativo que permite gravação de voz e envio de fotos para as autoridades.

- O que mais nos preocupa nas queixas é a questão das deepfakes (montagens pela internet) e o uso de inteligência artificial sem mencionar essa ferramenta (o que é exigido por lei). Felizmente, ainda não é a irregularidade mais comum, que continua sendo a das propagandas em vias públicas e outdoors - afirma Losekan.

Por cargos

A maioria das denúncias, 260, se refere a propagandas para deputado estadual. Outras 233, para deputado federal. As demais, distribuídas entre senador, governador e partidos, com apenas quatro referentes a candidatos a presidente da República.

Os municípios que registram mais queixas até o momento são Porto Alegre (204), Passo Fundo (30) e Pelotas (30). Tanto o promotor Zilio como o desembargador Losekan acreditam que o uso do aplicativo Pardal pode estar mais popularizado, o que facilita o aumento no número de queixas apresentadas.

No Brasil, foram registradas até a manhã de ontem 8.706 denúncias de irregularidades. O RS é o quinto colocado no ranking dos Estados com mais queixas protocoladas - embora seja o sexto em população. Perde em registros de suspeitas eleitorais para São Paulo (1.650), Bahia (1.067), Pernambuco (698) e Minas Gerais (661). _

Acordo para combater as manipulações digitais

Paulo Rocha

O Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RS) e o Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT4) firmaram na sexta-feira acordo de cooperação voltado ao combate à manipulação digital nas eleições. A parceria, já editada em pleitos anteriores, possibilita que peritos do TRT4 façam exames especializados em processos eleitorais que envolvam ilícitos digitais.

Entre as apurações que poderão ser feitas, estão a verificação de adulteração de fotos, vídeos, áudios e documentos, a identificação de conteúdo gerado ou alterado por inteligência artificial (IA) e a análise de deepfakes e clonagem de voz.

- Recentemente, 200 servidores da Justiça Eleitoral participaram de um curso com o nosso setor de perícia digital porque, no período de eleições, se utiliza muito as redes sociais e há possibilidade das deepfakes. Esse ensinamento vai permitir que se possa verificar dentro dos processos que correm na Justiça Eleitoral se houve o cometimento de um ilícito ou não - destaca o desembargador Alexandre Corrêa da Cruz, presidente do TRT4.

Pelo acordo, os peritos do TRT4 farão apenas análise técnica, sem poder de decisão sobre questões eleitorais e de fiscalização de redes sociais. Os juízes eleitorais seguirão responsáveis pelos processos e decisões finais.

Recente levantamento do Tribunal Superior do Trabalho revelou que cinco Estados concentram o maior volume de ações de assédio eleitoral no trabalho. O estudo se debruçou sobre 738 processos ajuizados entre maio de 2023 e dezembro de 2025. São Paulo lidera, com cerca de 17,5% das ações. Em seguida vêm Paraná (14,6%) e Rio Grande do Sul (10,5%). Para o TRE-RS, o avanço de casos é motivo de preocupação.

- Até mesmo em função da facilidade da mídia, de meios de comunicação como o WhatsApp, esse tipo de ameaça é cada vez mais comum, mas esperamos que isso ocorra o mínimo possível - afirma a desembargadora Maria de Lourdes Galvão Braccini de Gonzalez, presidente do TRE-RS.