Uma trilha sonora diferente.
Quem se forma conta com o direito de escolher uma música de sua preferência, que ocupará o fundo sonoro para a entrega do capelo e do diploma e para os cumprimentos da Reitoria.
A melodia e a letra ocupam o lugar do discurso e dos ideais; produzem o efeito contagiante de transmitir uma mensagem, de realizar um protesto, de marcar a noite com um grito de insubordinação ou de ovação.
Vale tudo: hinos de clubes, gospel, samba, rock, MPB, pagode. É aquilo que faz a cabeça do universitário que dedicou anos ao estudo de uma área, embalando a gravação de seu ponto de partida profissional.
Unicamente os oradores se pronunciam pela turma no microfone. Então, cada um se expressa pelo seu hit favorito. Uma formanda da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em 8/8, inovou na escolha da trilha para o instante em que seu nome fosse anunciado na colação de grau.
Não sei como ninguém pensou nisso, mas Manoela, 23 anos, natural de Tupanciretã, alcançou um insight da mais pura sensibilidade e gratidão. Com seu gesto, mudou a tradição para sempre.
Em vez de optar por uma canção famosa, reuniu áudios de WhatsApp de seus familiares. As palavras cotidianas, cheias de sotaque e do calor do cuidado, ditas espontaneamente e enviadas no dia a dia, ilustraram a jornada de Manoela para receber o canudo de Zootecnia.
"Mimosa do vovô" "Coisa mais linda" "O coração não cabe no peito" O timbre não deixa de ser a mais íntima fotografia, porque devolve a presença: contém respiração, humor, carinho.
Transformou a rotina mais banal no acervo de sua conquista. Há quem acelere as conversas em 1,5x ou 2x; a jovem imortalizou-as na lentidão inesquecível da saudade, contemplando a retaguarda do vestibular, das avaliações, do cansaço, do medo de reprovação, do estágio, das contas, das viagens diárias, das madrugadas sem dormir.
Na seleta, reuniu seis vozes de seu repertório de apoio. A montagem começa com sua mãe e, em seguida, traz as falas do pai, das avós, do avô paterno e do irmão.
Um dos trechos mais marcantes e pessoais é da avó Fátima: "vem dormir uma noite aqui para coçar tuas costas". - Desde a minha infância, ela coça as minhas costas. É o nosso código de visita. Tenho um apego a esse ato de proteção - explica Manoela.
As palmas e os assobios da plateia foram substituídos pelo silêncio da comoção. Lágrimas selaram os rostos, pois o que era para ser um momento exclusivo de uma só aluna serviu para todos.
Antes de uma profissão, Manoela já tinha uma torcida. Ela não subiu sozinha ao palco. Levou consigo os apelos que a ajudaram a chegar até ali: os degraus da sua motivação. Incluiu implicitamente, no seu documento afetivo, as caronas, os telefonemas, o dinheirinho para os livros, a comida pronta, o incentivo, as preocupações, o "como foi a prova?", o "vai dar certo".
Nenhum artista seria capaz de traduzir melhor quem ela é do que aqueles que a chamam pelo apelido.
Ela aplaudiu a família sem esperar pelo próprio aplauso. Por fim, encontrou um jeito de diplomar a família inteira junto. Ao atingir seu destino, reverenciou sua origem. Nossas raízes são nossas asas. _



