19 de março de 2012 | N° 17013
L. F. VERISSIMO
Ratos
charmosos
Minha neta entrou correndo no escritório e pulou no meu colo.
Contou que vira dois ratos no quintal, um rato malvado e um rato charmoso.
– E você está fugindo do rato malvado? – perguntei.
– Não – disse ela. – Estou fugindo do rato charmoso.
Não sei bem onde ela aprendeu “charmoso”, mas achei a sua lógica
irretocável. Lição inconsciente de vida: um rato charmoso é mais perigoso do
que um rato malvado. Um rato malvado é um rato malvado, sem fingimento. Um rato
charmoso é um dissimulado.
Esconde a sua condição de rato. Pode convencer menininhas a
mimá-los como coelhinhos, antes de mostrar sua malvadeza. Você sabe o que
esperar de um rato malvado. Você não sabe o que há por trás da falsa fachada de
um rato charmoso.
Assim é na vida, muito particularmente na vida brasileira. Temos
bandidos sem qualquer encanto que os redima, e temos bandidos que usam seu
charme para fazer carreira, progredir, se eleger, ganhar respeito e cargos
oficiais e, às vezes, até monumentos e, finalmente, imunidade vitalícia. Todo o
mundo sabe que são ratos, mas o disfarce os salva.
Há casos, é verdade, em que os ratos charmosos são pegos
como reles ratos malvados, nos raros casos em que a ratoeira funciona da mesma
maneira para uns e para os outros. Mas os ratos charmosos sempre conseguem se
safar.
Voltam à vida pública, são reaceitos no Congresso, mantêm o
cargo na confederação etc.Os ratos malvados têm julgamentos sumários, os ratos
charmosos podem contar com processos longos e inconclusivos.
Os dois vistos no quintal eram imaginários, mas espero que
minha neta e sua geração saibam diferenciar os ratos, na realidade. Talvez
quando ela crescer já tenham inventado algum modo de imunização para diminuir
os efeitos do charme na vida nacional.
Uma espécie de dedetização moral. Sei lá.