| "Estas são as mudanças da alma. Eu não acredito em envelhecimento. Eu acredito em alterar para sempre o aspecto de alguém para a luz. Eis meu otimismo." Virgínia Woolf __
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É necessário αbrir os olhos e perceber que αs coisαs boαs estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisαm de motivos nem os desejos de rαzão. O importαnte é αproveitαr o momento, pois α vidα estα nos olhos de quem sαbe ver. Tento me lembrαr, de tudo que vivi, o que tem por dentro, ninguém pode roubαr. Pois os diαs ruins, todo mundo tem já jurei prα mim, não desαnimαr, não ter mαis pressα , eu sei que o mundo vαi girar . . .Eu espero α minhα vez.
terça-feira, 30 de abril de 2013
ArnaldoJabor
30 de abril de 2013 | 2h 08
A volta dos coreanos brasileiros
Meu primeiro grande amor começou num "aparelho" do Partido Comunista Brasileiro em 1963, meses antes do golpe militar. No apartamento, havia um sofá-cama com a paina aparecendo por um buraco da mola, entre manchas indistintas - marcas de amor ou de revolução?
Na parede, havia um cartaz dos girassóis de Van Gogh e, numa tábua sobre tijolos, uns livros da Academia de Ciências da URSS. Um companheiro me emprestara a chave com olhar preocupado, sabendo que era para o amor e não para a política.
Pouquíssimas moças "davam", na época anterior à pílula; transar para elas era um ato de coragem política. Nossas cantadas tinham uma base ideológica; famintos de amor, usávamos Marx para convencer as meninas.
"Não! Aí eu não entro!", gemiam as namoradas, empacando na porta do apartamento. Nós, sordidamente, usávamos argumentos assim: "Mas, meu bem... deixa de ser 'alienada'... A sexualidade é um ato de liberdade contra a direita."
Éramos assim nos anos 60. A guerra fria, o "terceiro mundo", Cuba, China, tudo nos dava a sensação de que a "revolução" estava próxima. "Revolução" era uma varinha de condão, uma mudança radical em tudo, desde nossos "pintinhos" até as relações de produção.
Havia os radicais de cervejaria, os radicais de enfermaria e os radicais de estrebaria. Os frívolos, os burros e os loucos. Nas minhas cervejarias filosóficas do passado, o radical (que nunca havia feito nada pelo povo) enchia a cara e gritava: "Viva a Luta Armada! E, garçom, me traz um chopinho!".
Claro que havia também os grandes homens intrépidos, os guerreiros que morreram por seus ideais, com bala na agulha e coragem heroica, arrasados por militares treinados pelos americanos; foi um massacre.
Mas, na verdade, nunca houve bases concretas para o socialismo utópico que praticávamos, mesmo morrendo. Nós odiávamos os 'meios' e só amávamos os 'fins'. Os fracassos nos emprestavam uma aura de martírio que nos enobrecia.
Era uma vingança contra traumas familiares, humilhações, pequenos fracassos. Era também uma mão na roda para a justificar nossa ignorância - não, pois não precisávamos estudar nada profundamente, por sermos a 'favor' do bem e da justiça. A desgraça dos miseráveis nos doía como um problema existencial nosso.
A democracia nos repugnava, com suas fragilidades, sua lentidão, sua obra sempre aberta. A parte chata da revolução deixávamos para a liderança ao presidente da República, na melhor tradição de dependência ao Estado. Jango, coitado, teria de orquestrar as forças delirantes, feitas de restos de um getulismo tardio, oportunismo de pelegos e sonhos generosos da juventude imatura. Valeu-nos 20 anos de bode preto.
Os radicais rotulavam as pessoas como: sectários, aventureiros, obreiristas, desviacionistas de direita, revisionistas, hesitantes, liberais. Ninguém mencionava outras categorias psicológicas: paranoicos, histéricos, babacas, caretas e até filhos da p...
Qualquer argumento mais sofisticado, qualquer sombra de complexidade era traição. O bolchevique espetava o dedo na cara do intelectual e fuzilava: "O companheiro está sendo muito liberal, pequeno-burguês revisionista". E o 'pequeno-burguês' revisionista ia vomitar atrás da porta.
Um 'camarada' me disse: "O marxismo supera a morte!". "Como?" -, disse eu, espantado. "Claro" -, me responde ele iluminado de certeza - "uma vez dissolvido no social, o mito do indivíduo se desfaz e a ilusão de que ele existe como pessoa. Ele só existe como espécie. E não morre. O marxista não morre!". E eu, fascinado, sonhei com a vida eterna...
Por que escrevo essas coisas antigas, estimado leitor? Porque li o espantoso manifesto do PC do B, em apoio aos psicóticos crimes contra a humanidade e seu povo que os Kims vêm cometendo. Defendem um dos regimes mais brutais da história.
Vejam o PC do B:
Sr. Embaixador da República da Coreia do Norte:
A campanha de uma guerra nuclear desenvolvida pelos Estados Unidos contra a República Democrática Popular da Coreia passou dos limites e chegou à perigosa fase de combate real. Apesar de repetidos avisos da RDP da Coreia, os Estados Unidos têm enviado para a Coreia do Sul os bombardeiros nucleares estratégicos B-52. Os exercícios com esses bombardeiros contra a RDP da Coreia são ações que servem para desafiar e provocar uma reação nunca antes vista e torna a situação intolerável.
As atuais situações criadas na península coreana e as maquinações de guerra nuclear dos EUA e seu fantoche aliado, a Coreia do Sul, além de seus parceiros que ameaçam a paz no mundo e na região, nos levam a afirmar:
1. Nosso total, irrestrito e absoluto apoio e solidariedade à luta do povo coreano para defender a soberania e a dignidade nacional do país;
2. Lutaremos para que o mundo se mobilize para que os Estados Unidos e a Coreia do Sul cessem imediatamente os exercícios de guerra nuclear contra a RDP da Coreia;
3. Incentivaremos a humanidade e os povos progressistas de todo o mundo, e que se opõem a guerra, que se manifestem com o objetivo de manter a Paz contra a coerção e as arbitrariedades do terrorismo dos EUA.
Brasília, 2 de abril de 2013.
Não é impressionante o atraso mental do País? Só o hospício.
Milhares de inocentes estão sendo levados a concluir que voltou a hora do 'comunismo', mesmo depois dos milhões de assassinados e do fracasso político e econômico. Milhares de jovens desinformados enchem as faculdades de 'coreanos' em defesa da morte, da repressão e da fome. E saibam que o PC do B controla o esporte e a cultura nacionais.
Quase todos os que gritam slogans como patéticos escravos coreanos não haviam nascido nos tempos de Goulart. Muita gente sem idade e sem memória ignora que o caminho é o progressivo aperfeiçoamento do que chamávamos de democracia 'burguesa', minando aos poucos, com reformas, a nossa doença fatal: tradição oligárquica e patrimonialista.
Há 40 anos, eu não sabia nada disso. Tanto que para levar meu primeiro amor ao apartamento, lembro de lhe ter dito, entre beijos: "Nosso amor também é uma forma de luta contra o imperialismo norte-americano". E ela foi.
30
de abril de 2013 | N° 17418
FABRÍCIO
CARPINEJAR
Sou um aspirador de pó
Se
quiser me ofender, terá trabalho. Não facilito a vida do agressor. Ele vai suar
frio, passar sufoco, esclarecer questões, explicar posicionamentos.
Não
sairei de cena chorando logo que ganhar um desaforo. Não aceitarei o figurino
de vítima. Não me farei de coitadinho. Não me trancarei no quarto. Não evitarei
o convívio.
Sou
muito escolado em bullying para acolher rapidamente desaforo. Só eu mesmo posso
me ofender e me perdoar – mais ninguém.
É o
que todos deveriam pensar antes de sofrer.
O
debochado não tem repertório. Ele guarda uma ou duas tiradas engraçadas que
podem ser rebatidas com a autocrítica e inteligência.
Não
se veja derrotado no início do jogo, não se enxergue constrangido por
antecedência.
No
Ensino Fundamental, na abertura das aulas, Marquinhos, líder da bagunça e das
baixarias, buscou me humilhar na frente dos colegas. Quando a professora
abandonou a sala para repor o giz, aproveitou a ausência e se aproximou de
minha mesa.
Ele
me analisou, analisou e despejou o veredito: – Você tem cara de “aspirador de
pó”.
O
novo apelido vinha do nariz avantajado. Era uma versão doméstica para tamanduá.
Pronto:
a turma inteira gargalhava alto de mim. A investida sugeria uma desmoralização
do nome e sobrenome dali por diante.
Mas
engoli a vergonha como uma aspirina a seco. Respirei fundo. E, de modo inédito,
diferente de todas as vezes que me tolhi e me escondi, que fechei meu rosto nos
braços, decidi responder. Concordei com a observação.
–
Sim, eu sou um aspirador de pó. Ele não atinou o que desejava concordando, e
completei:
–
Sou mesmo um aspirador de pó, que bom que você descobriu. Vem trocar meu saco!
Ele
se calou. A turma agora reagiu a meu favor, dobrou o volume das risadas. Foi
uma histeria coletiva, cadernos voando, pés batendo no chão, palmas estalando.
É
certo que ele não sabia o que retrucar. Comeu a língua. Patinou na palavra.
Demorou a perceber o estrago. Ficou branco, pálido, lesma.
Não
contava com uma reação bem-humorada. Uma resposta espirituosa. Quem agride não
programa a tréplica. Planejava criar uma tristeza em mim e abandonar a vítima
no chão.
Mas
não deixaria por menos. Nunca mais.
Marquinhos
desapareceu ao longo do tempo, como poeira ranzinza da classe. Não esperava que
o aspirador de pó estivesse ligado.
30
de abril de 2013 | N° 17418
FIM
DAS OPERAÇÕES
MSN Messenger tem hoje seu último
dia
À meia-noite
de hoje, o MSN Messenger, programa de troca de mensagens online da Microsoft,
encerra de vez suas atividades. Usuários devem obrigatoriamente transferir as
contas para o Skype, software comprado pela companhia americana em 2011.
Depois
de muitas prorrogações, a Microsoft concretiza o fim do programa, anunciado
desde o ano passado e, por manifestações negativas dos usuários, prorrogado
para hoje. Quem tentar acessar o software a partir de amanhã receberá uma
mensagem dizendo que os serviços foram encerrados.
Criado
em 1999, o programa viveu seu ápice em meados dos anos 2000, quando chegou a
ser um dos dez sites (MSN.com) mais acessados do mundo e teve mais de 300 milhões
de usuários. Para especialistas, o fim do MSN ocorre de forma natural e, ao ser
integrado com o Skype, faz parte de uma tendência de unificação das redes
sociais.
30
de abril de 2013 | N° 17418
CLÁUDIO
MORENO
Homens que amam
Dez
anos os gregos mantiveram Troia sitiada; por dez anos, dia após dia, os portões
da grande cidade se abriram para que os troianos saíssem ao encontro do
inimigo, guiados pela coragem exemplar de Heitor. Heitor defende Troia, mas,
acima de tudo, defende uma mulher e uma criança.
Sabe
que o dia virá em que seus passos vão cruzar os passos de Aquiles, seu implacável
oponente – mas não pensa em outra coisa senão proteger Andrômaca, por quem está
disposto a morrer. E vai ser assim, sob o olhar desesperado da mulher, do pai,
da mãe e de todos os troianos, que ele vai, finalmente, receber de Aquiles os
golpes que o matarão.
A
História nos mostra que não há nada como o amor para nos tornar corajosos
diante de um perigo mortal. Esse foi, sem dúvida, o segredo do extraordinário
Batalhão Sagrado de Tebas, uma tropa de elite que, para a surpresa de toda a
Antiguidade, enfrentou e derrotou o temível exército espartano na batalha de Tégira.
Este batalhão, também conhecido como Batalhão dos Amantes, era formado por trezentos
homens – na verdade, cento e cinquenta casais de namorados, decididos, como
Heitor diante dos olhos de Andrômaca, a dar sua vida para salvar a de seu amado.
No
combate daquela época, o homem via a morte de frente: no lugar da destruição anônima
e impiedosa dos mísseis e dos canhões, a luta era sempre corpo a corpo, na distância
máxima do comprimento da lança ou do braço armado com a espada.
A
solidariedade entre os combatentes era o fator decisivo entre a derrota e a vitória;
um soldado sabia que o seu escudo devia proteger a si e parte do corpo do
companheiro a seu lado. Um dependia do outro, e todos se moviam como se fossem
um só. Com homens que se amavam, lutando lado a lado, isso chegava à perfeição,
permitindo, como sugeria Platão, que “um simples punhado de bravos enfrentasse
o mundo inteiro”.
O
Batalhão dos Amantes encontrou seu fim na batalha de Queroneia, quando
enfrentou os exércitos de Filipe da Macedônia e de seu filho, o futuro
Alexandre Magno. Acossados por um número muito maior de combatentes, lutaram até
o último homem. Conta a lenda que Filipe ficou emocionado ao ver todos aqueles
corpos juntos, e, ao saber quem eram eles, para lhes prestar a justa homenagem
de um guerreiro, enterrou-os todos no mesmo lugar, onde ergueu a estátua de um
gigantesco leão de mármore.
Escavações
modernas encontraram 254 esqueletos, lado a lado, arranjados em sete fileiras;
presume-se que os demais tenham sido feridos e capturados pelos macedônios. O
que nos serve de lição é que tanto aqueles que os mataram, quanto os que
desenterraram seus despojos em momento algum duvidaram que ali estavam homens
como eles, capazes de morrer pela pessoa – ela ou ele, não importa – que
escolheram amar.
30
de abril de 2013 | N° 17418
PAULO
SANT’ANA
Escândalo-monstro
Este
escândalo explodido ontem com a prisão dos secretários estadual e municipal do
Meio Ambiente é infinitamente maior do que o do Detran. Porque foram presos
ontem dois secretários e um ex-secretário. No escândalo do Detran, nenhuma
autoridade de expressão foi presa.
Mais
grave: o delegado da Polícia Federal que presidiu a operação disse ontem à Gaúcha
que com a prisão de 18 pessoas apenas começou a operação, “daqui por diante,
ela terá os desdobramentos mais importantes”.
Isso
quer dizer que o escândalo tem extensão muito maior do que se pode imaginar.
Também
pudera, imaginem o governador Tarso e o prefeito Fortunati tendo ido dormir
anteontem tranquilos quanto às suas áreas de Meio Ambiente e acordarem na manhã
de ontem com a notícia de que seus dois secretários tinham sido presos por
concussão! Isso é de atazanar a vida de qualquer governante.
Pior
ainda: os governantes e os cidadãos tinham o direito de imaginar que as
secretarias estadual e municipal do Meio Ambiente estavam sendo dirigidas por
secretários que estavam lá para proteger o meio ambiente.
Qual
nada! Eles estão presos e se imagina que só agora, depois de terem sido presos,
é que o meio ambiente fica temporariamente protegido.
Estão
de um jeito a política e a administração, que a corrupção parece dominante e
indiscriminada. Ela adquiriu tal metástase, que os corruptos podem estar por
todos os lados, no nosso lar, no nosso trabalho, em toda parte...
Polícia
não prende ninguém. A Polícia Federal, pois, apenas executou ontem 18 mandados
de prisão. É verdade que quem solicitou os mandados de prisão à Justiça foi a
Polícia Federal.
E
para que um juiz decrete a prisão de dois secretários e um ex-secretário, então
é porque os indícios de corrupção neste caso são veementes. Repito, veementes.
E
mais: trabalhou junto com a Polícia Federal, durante quase um ano, para chegar
a esse brilhante arremate de ontem, o Ministério Público.
Então,
minha gente, preteou o olho da gateada. Polícia Federal e Ministério Público
juntos numa investigação, então é porque não tem bagrinhos nessa rede, só tem
tubarão.
Foi
quase um ano de investigações, o que quer dizer que houve cautela entre os que
investigavam. Eles pisavam em ovos para não ferir a reputação de ninguém, até que
ontem explodiu essa cautela e eles entenderam que era o momento propício para
estourar a gangue.
Por
falar em cautela entre os que investigaram essa tramoia, isso é o que não falta
entre eles: ontem mesmo, até a hora em que escrevo, eles não divulgaram o nome
dos outros presos. E se calcula que haja importantes empresários entre eles. Este
escândalo é muito grande.
Tão
grande, que ontem a Polícia Federal começou a encaminhar os presos para o
sistema carcerário, inclusive para o Presídio Central. Eu falei Presídio
Central, lá onde os presos são criados como porcos.
Esta
coluna se ocupou mais de um mês atrás com a retirada clandestina e criminosa de
milhares de toneladas de areia das margens do Rio Jacuí.
Pois
não é que a operação de ontem prendeu subornados e subornadores na retirada de
areia aquela, criticada por esta coluna!
É agressão
terrível ao meio ambiente, acobertada por autoridades corruptas. Quem há de
dizer?
Polícia
Federal e Ministério Público não estão para brincadeira.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Como amo essas belezas embutidas uma dentro da
outra.
Somos capazes de buscar o
tempo perdido nas esquinas da vida.
Não vamos deixar acumular porque perderíamos as
belezas,
num simples descaso
deixar escapar nossos sonhos e credos.
Manter a leveza nos momentos únicos nas
decisões.
Com modéstia e alegria
o adversário se entrega sem rebeldia.
Quem observa de longe fica estupefato com o
milagre.
Soltando risos cobrindo
as maldades na suavidade deixando
um abraço apertado e risos
folgados.
Sol
Holme
29
de abril de 2013 | N° 17417
KLEDIR
RAMIL
Música e matemática
Por
incrível que possa parecer, Kleiton e eu somos formados em engenharia. Eu sou
engenheiro mecânico, e ele, eletrônico. Cantores-engenheiros não são raros na
MPB: Ivan Lins, João Bosco e Francis Hime também são. No fim é isso, artistas,
engenheiros é tudo a mesma turma.
Para
fazer um show, por exemplo, a gente depende de vários profissionais da área.
Precisamos de um prédio, um teatro com tratamento acústico e equipamentos
elétricos/eletrônicos de última geração. Nossos instrumentos musicais são
ferramentas de alta precisão, projetados segundo formas, medidas, resistência
dos materiais e até cálculo de engrenagens, como é o caso das chaves usadas
para afinar as cordas do violão.
O
mundo está cada vez melhor graças aos engenheiros, nossos colegas. Se não fosse
o domínio de toda essa tecnologia, nós estaríamos vivendo no meio do mato,
cantando e dançando na volta de uma fogueira.
Adoro
ciências exatas, tenho uma mente concreta, um pensamento lógico. O problema é
que eu era um cara atrapalhado com as questões afetivas e corria o risco de me
tornar um sujeito cartesiano. A música me salvou. Encontrei uma atividade
absolutamente rigorosa, de precisão matemática, onde posso extravasar as minhas
emoções.
Música
é pura matemática. O que a gente chama de nota musical é, na verdade, uma
frequência determinada. Lá 4 é uma vibração de 440 hertz. Frequências mais
altas, notas mais agudas. Mais baixas, notas graves. Além da altura, uma nota
musical tem um tempo de duração, curto ou longo.
Uma
sequência de notas “constrói” uma melodia. Notas tocadas ao mesmo tempo criam
acordes, harmonias. Aí, esse monte de notas com frequências e tempos variados,
são executadas em um ritmo, tipo 4/4, 6/8... E com um andamento determinado,
como 120 bpm (beats por minuto). Por isso, é necessário um maestro para fazer
uma contagem e dirigir a orquestra.
Além
de todas essas medidas musicais, na hora de compor uma canção ainda é preciso
“encaixar” uma letra. Versos respeitando a métrica (um número certo de
vocábulos), a prosódia (a acentuação tônica das palavras coincidindo com a
acentuação melódica) e a rima. Aí, no fim, tudo isso tem que fazer algum
sentido e ter um mínimo de beleza. Ou seja, é uma loucura, é mais complicado do
que construir um edifício. Acho que vou voltar pra engenharia.
Comentário
final: Maria Fumaça... só mesmo dois engenheiros malucos para fazerem uma
canção de amor em homenagem a uma locomotiva.
29
de abril de 2013 | N° 17417
PAULO
SANT’ANA
Arbitragem
desastrosa
Triste
desclassificação do Grêmio no Gauchão. No sábado, no entanto, o Grêmio foi
totalmente espoliado pela arbitragem que anulou dois gols legítimos de Barcos e
Vargas.
Um
bandeirinha foi cego ou parcial, o juiz foi um desastre.
Mas
o Luxemburgo teve parte na derrota. Inventou a escalação estapafúrdia de Fábio
Aurélio, quando tinham de ter jogado o Biteco ou o Marco Antônio de saída.
E é
impressionante a teimosia e a birra de Luxemburgo: ele foi advertido por esta
coluna na semana passada pela maneira errada com que os jogadores do Grêmio
estão cobrando as faltas que têm de ser lançadas sobre a área adversária. Por
sinal, recebi dezenas de cumprimentos por aquela coluna.
Escrevi
que o ócio de Luxemburgo se ressalta porque ele não ensina a seus jogadores que
devem lançar as bolas para a imediação da risca da grande área, fora da área de
ação dos goleiros, nas faltas elevadas sobre a área adversária.
Pois
sábado essa burrice esférica se verificou nas três faltas cobradas pelo Grêmio,
uma delas de novo pelo Fábio Aurélio: todas foram parar nas mãos do goleiro. Ou
seja, mesmo advertido por esta coluna, por orgulho ferido ou por alienação, ou
até mesmo por surto de incompetência, Luxemburgo não corrigiu esse defeito
vital: essas cobranças sobre a área são arma decisiva nos gols que as outras
equipes marcam.
Mas
o Luxemburgo encasquetou em não ver isso.
No
entanto, discordo dos que falaram no rádio e na televisão que o Grêmio jogou
contra o Juventude tão mal como já tinha jogado nos cinco compromissos
anteriores.
Desta
vez o Grêmio não jogou mal, Barcos fez um gol espetacular e Vargas marcou, mas
a estupidez da arbitragem anulou o gol.
A
atuação do Grêmio no sábado, desculpem o que disseram alguns outros, me anima
um pouco para o jogo contra o Santa Fé depois de amanhã. Se o Luxemburgo não
insistir erradamente com Fábio Aurélio.
Na
entrevista coletiva pós-jogo e desclassificação, Luxemburgo prometeu à torcida
que seu Grêmio vai ganhar o Brasileirão. Ou seja, às portas do inferno, o
Luxemburgo promete o paraíso para os torcedores.
Ele
deve estar se apoiando, assim para ser tão prometedor, na multa contratual
gigantesca que impôs na assinatura de seu contrato com o Grêmio, hipótese em
que for demitido.
O
Grêmio não dá sorte com o comentarista Batista, da televisão. Em quase todos os
lances polêmicos sobre arbitragem, ele assinala opinião contra o Grêmio. Em
quase todos os lances, é demais!
O
Batista jogou no Inter, depois jogou no Grêmio. Mas só guardou trauma do Grêmio.
Chegou
ao ponto de sua opinião, sábado, contrastar frontalmente com a opinião do
narrador em um lance polêmico e decisivo. O narrador deixou para lá para não
armar um barraco na transmissão. E nesse lance a opinião de Batista foi também
desfavorável ao Grêmio.
O
Batista vai ter de autovigiar-se em seu subconsciente.
29
de abril de 2013 | N° 17417
L.
F. VERISSIMO
A ginga
irrelevante
A
ideia que se tinha do futebol europeu como um futebol sem cintura custou a
morrer. Já deveria ter acabado há 60 anos, com o exemplo da seleção húngara de
Puskas e companhia, mas ainda persistiu por muito tempo. O futebol da Europa
podia ser eficiente, bem organizado e até vitorioso, mas lhe faltava o nosso poder
de improvisação, o nosso talento inato, a nossa ginga.
A
morte protelada mas definitiva deste preconceito se deve em grande parte à
proliferação de canais de TV que hoje mostram todos os campeonatos europeus,
numa dieta intensiva de grandes jogos, saborosa para quem gosta de futebol, mas
que, ao mesmo tempo, nos faz muito mal. Porque o contraste entre o que se vê lá
e o que se vê aqui é óbvio. Basta comparar o último jogo da Seleção Brasileira
com as semifinais da Liga dos Campeões da Europa que a TV está mostrando. É de
se suspirar de inveja.
Mas
nem a ginga perdeu seu valor nem, numa surpreendente evolução biológica, os
europeus adquiriram cinturas. Jogadores brasileiros continuam a ter sucesso no
mundo todo com sua habilidade de nascença e ninguém jamais dirá que um Robben
ou um Schweinsteiger, do triturador Bayern Munich, tem ginga, ou o seu
equivalente em alemão. O que eles têm é tudo que vem depois da ginga, ou que
torna a ginga irrelevante. Schweinsteiger é o maior exemplo atual da falta que
“cintura”, com tudo que o termo significa e resume, não faz.
O
jogador que mais se aproxima de um Schweinsteiger na Seleção Brasileira é o
volante Fernando, e a diferença entre os dois é o que mais acentua o contraste.
E como o Felipão não escalou o Fernando para começar o jogo contra o Chile e
tem dito que volante que também ataca é uma quimera, corremos o risco de
desperdiçar nosso único simulacro de Schweinsteiger.
Eu
sei, eu sei. Não se deve admirar super-homens alemães muito rapidamente. É o
que nos ensina a História, inclusive do futebol. Mas Schweinsteiger é apenas o
exemplo mais evidente no momento do futebol utilitário, que brilha porque
funciona, mesmo sem cintura, e que sem o Fernando nós não temos.
Talvez
a supercobertura do futebol europeu pela TV nos eduque. No fim da I Guerra
Mundial, quando os soldados americanos voltavam para casa, fizeram até uma
música que perguntava “como vamos mantê-los trabalhando no campo depois que
eles conheceram Paris?” Começou aí a urbanização acelerada do país. Uma
transformação parecida pode acontecer no futebol brasileiro, de tanto ver como
estão jogando na Europa.
29
de abril de 2013 | N° 17417
ARTIGOS
- Paulo Brossard*
Muito
grave
Entre
nós, é comum empregar-se a palavra crise para quase tudo, com propriedade ou
sem ela, razão por que não surpreenderá a ninguém se eu aludir à “crise” ao
apreciar o público e inédito desentendimento entre dois poderes da República.
A
propósito, lembro-me de três episódios, todos provocados pelo Executivo,
envolvendo o Supremo Tribunal Federal; o primeiro cometido pelo Marechal
Floriano, por omissão, ao deixar de nomear tantos ministros que a Corte perdeu
as condições de funcionar, pois deixara de ter quórum; o outro, pelo Marechal
Hermes, ao negar formalmente cumprimento à decisão do Tribunal; o terceiro foi
a cassação de acórdão unânime do Supremo por Getúlio Vargas.
Agora
a fórmula passou a ser outra, quase inocente, mas igualmente deletéria, por
meio de mera troca de cifras, elevando o número de votos necessário para
afirmar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do poder público,
exigência constitucional desde a Lei Suprema de 1934, de maioria absoluta,
seis, para quatro quintos dos membros, ou nove votos entre os 11 ministros. Nem
sempre é fácil alcançar a maioria absoluta, e a exigência de quatro quintos da
Corte, nove em 11, torna essa hipótese extremamente difícil.
Por
meio de expediente supostamente ingênuo, opera-se a efetiva mutilação do
Supremo Tribunal Federal e abole-se dessa forma, sem o dizer, mas de maneira
inegável, sua competência histórica nos países, como o Brasil, que consagram a
fiscalização jurisdicional da espécie; ainda mais, indiretamente, enseja-se a
elaboração de atos legislativos até ostensivamente inconstitucionais.
Destarte,
sob essa singela manobra, o Supremo Tribunal sofreria a ablação da sua mais
relevante atribuição, mais que centenária, a de decretar a
inconstitucionalidade de lei quando o ato legislativo se desvia da Lei Maior.
Deixando de lado o referente ao artigo 103-A, envolvendo à súmula vinculante,
caso distinto que não posso examinar aqui por falta de espaço, passo à outra
alteração proposta, artigo 102 §2 da Constituição.
Trata-se
do processo concentrado ou em abstrato, caso em que o tribunal julga a lei ou o
ato questionado, em tese. Enquanto a Constituição estabelece que, nesse caso,
“nas ações diretas de inconstitucionalidade e nas ações declaratórias de
constitucionalidade, produzirão eficácia contra todos e efeito vinculante”, o
projeto em curso é diametralmente contrário, verbis “...não produzem imediato
efeito vinculante e eficácia contra todos, e serão encaminhadas à apreciação do
Congresso Nacional...”
Até
agora, nenhum jurisconsulto, estadista, pensador, escritor político, professor
de Direito, em livros, parecer, conferência, ou qualquer outro meio de
comunicação, divulgou ser sequer simpático à iniciativa ora bafejada pela douta
Comissão de Constituição e Justiça, em votação simbólica com a presença de
apenas 21 de seus 68 membros.
Ocorre-me
notar que não faltará quem estranhe que se possa pôr em dúvida a pretendida
transferência do Supremo para o Congresso da competência irrecorrível. Em
matéria jurídica, e precipuamente constitucional, não troco o Supremo pelo
Congresso, Câmara e Senado, que também integrei e sempre exaltei, mas cuja
composição proteiforme carece da familiaridade necessária com temas
evidentemente fora da experiência do comum dos homens comuns, em prejuízo de
homens obrigatoriamente neles versados.
Ainda
teria muito a dizer, mas limito-me a salientar que, exceção do período estado
novista, em mais de cem anos nunca houve quem agredisse o Supremo dessa
maneira, nem nos 20 anos em que a nação viveu sob o regime mais autoritário,
sem excluir os períodos de militarismo sem peias, ensejando toda a sorte de
violências e casuísmos; sequer nessas fases alguém pensou em lesar a majestade no
órgão supremo da Justiça. Esta “glória” estava reservada ao século 21, o nosso
tempo e o nosso Supremo. O nosso Supremo e o nosso Congresso.
*
JURISTA, MINISTRO APOSENTADO DO STF
domingo, 28 de abril de 2013
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