01 de Agosto de 2026
MARTHA MEDEIROS
Caos calmo
Quando li o título Caos Calmo destacado na capa, logo entendi que não era apenas o nome de mais um livro brilhante de Sandro Veronesi, e sim a definição de uma era.
Até uma matéria de jornal sobre a final da Copa ganhou a manchete "Caos x Calma". Pegou. Reflexo do jogo que estamos todos jogando, desde a primeira hora da manhã até a noite, inclusive dormindo. A paz do sono tenta neutralizar a bagunça da mente, mas pergunte aos insones quem está vencendo.
Viramos administradores do caos. Tentamos não entrar em desespero diante do evidente descontrole climático, que tem potencial para nos enlouquecer. Morrer de causa natural, agora, significa morrer de ventania, de alagamento. Além disso, governos continuam a confirmar seu poder através de guerras. Afetam a economia mundial e desconsideram a perda de vidas humanas, o que influencia nossas perspectivas.
As pessoas estão escolhendo sexo em cardápios virtuais, encontros rápidos para alívio da tensão. Quase ninguém quer investir tempo na construção de uma relação. Os desejos mudaram: em vez de amor e felicidade para sempre, dinheiro para gastar hoje ainda. O futuro já não entusiasma. Das coisas mais tristes que li outro dia: depois da eficiente campanha antitabagista, jovens estão voltando a fumar. E o motivo dói na alma: a longevidade começa a deixar de ser atrativa. Olha a profundidade disso.
Se tudo será destruído - cidades, amores, sonhos, florestas - o quanto importa viver?
O próprio luto perdeu significado. Difícil honrar um sofrimento pessoal em um mundo onde a dor passou a ser uma banalidade. Nosso cotidiano está tão embrutecido e trepidante que, curiosamente, o lugar onde menos encontramos turbulência é dentro de aviões.
Seria importante conversarmos sobre essas questões durante o jantar, não estivéssemos com os olhos e ouvidos ocupados com nossos celulares. A tecnologia raptou a humanidade. Viramos dependentes do que desconhecidos ostentam, vendem e ensinam em tutoriais e podcasts. Todos têm algo definitivo a dizer, uma dica imperdível de filme, livro, padaria. Todos sabem tudo: psicanalistas, escritores, cozinheiros, deputados. Tagarelas sortidos. Lá estou eu, lá está você, nós e nossas boas intenções, dentro do mesmo caldeirão de opiniões, imagens falsas, violências verbais, tentando manter a cabeça fora d´água com medicamento, meditação ou optando por uma saída mais radical: se mudar para o mato, fugir dessa loucura para manter nossa autenticidade, nosso "eu" original. Mas está sabendo, né? Ser quem você é se tornou obsoleto.
Costumo ser mais calma do que caótica, você me conhece. Mas não sei o que me deu. Precisando viajar. De avião. Algumas horas sem turbulência, paquerando o céu. _
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