O vento aqui é uma pessoa
Ficamos preocupados se a janela está aberta, se a porta está encostada, se há algum parente na rua no momento do torvelinho.
Decidimos se vamos caminhar ou pedalar de acordo com sua intensidade. Palpitamos com naturalidade: "O vento virou", "o vento não veio", "o vento não dá trégua". Chegamos ao preciosismo de medir sua velocidade como se fosse um carro na Freeway, pego por um radar.
Se, no restante do país, a meteorologia se concentra em saber se o tempo será aberto ou fechado, seco ou chuvoso, azul ou violáceo com pancadas de água, no Sul demonstramos mais interesse em opinar e perguntar a respeito da força da corrente de ar.
Somos filhos do vento. Na tragédia e na graça. Há a mania de identificar quem está entre nós: o Minuano, o Nordestão, o Vento Sul, o Vento Norte. Cléo Kuhn, nosso galo da temperatura, explica a genealogia de cada um:
? O Minuano é conhecido como o vento da limpeza. Quando surge, parece que varre o excesso de umidade. É proveniente do Centro da Argentina, que tem estiagem no inverno. Costuma aumentar rapidamente por aqui, com um frio seco que permanece de 3 a 5 dias.
? O Nordestão é o vento quente, chato, insistente, famoso no Litoral. Recebe a culpa por nos deixar inquietos, irritados ou com enxaqueca. Ocorre a formação de nuvens entre o mar e a serra, que depois de três dias se converte em chuva.
? O Vento Sul, o Pampeano, traz a umidade da bacia do Prata para boa parte do RS, com a proliferação de nuvens acumuladas de 4 a 5 dias. É o aviso da hora de recolher. ? O Vento Norte, entre o Planalto, o Centro e a Campanha, é sinal de estufa, de abafamento, de excesso de umidade, da iminência de borrascas duradouras. Põe a todos em alerta.
Talvez o hábito de vasculhar os ventos, muito presente na vida urbana, tenha começado nas estâncias do Pampa, já que a sua aparição determinava o trabalho no campo e a lida com o rebanho.
Até o nosso figurino tradicional - o poncho, o lenço e o chapéu - é uma armadura contra as frentes frias, contra as imprevisíveis rajadas que balançam as figueiras e desenham ondas na grama do descampado.
Não é coincidência que o nosso grande clássico seja O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo. O vento, no romance, indica o nosso lugar de origem e também expressa a resiliência e a continuidade da luta, mesmo após o declínio da família Terra-Cambará. Erico usou os elementos da natureza para descrever a nossa geografia, tanto física quanto emocional e psicológica.
Na própria trama, o comentário de Ana Terra se eternizou: "Noite de vento, noite dos mortos". Nas superstições, o vento ruidoso batia nas frestas das casas de madeira e sussurrava o nome dos que iam morrer ou dos antepassados.
Realmente, o nosso vento é uma pessoa. Chora, geme, ri, grita, derruba, levanta, bagunça os papéis, embaralha as roupas no varal. No imaginário dos antigos tropeiros, quando se agitava o capim das coxilhas durante a noite, dizia-se que era o Negrinho do Pastoreio cruzando o campo a galope, conduzindo a sua tropilha invisível.
Na nossa galeria histórica, existe uma cena de cinema: na Revolução Farroupilha, Giuseppe Garibaldi liderou a épica travessia dos lanchões Seival e Farroupilha por terra. Para burlar o bloqueio naval imperial na Lagoa dos Patos, os barcos foram colocados sobre imensas carretas com rodas de 3,5 m, e puxados por cem juntas de bois por cerca de 80 km.
Somos como navegadores no seco. Seguimos por onde o vento sopra.

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