domingo, 4 de outubro de 2015


ARNALDO NISKIER

Um tiro no Sistema S


Só um gênio do mal para mexer no sistema. Uma saída poderia ser cobrar pelos cursos, mas isso resultaria em um baque nas matrículas
É conhecida a dificuldade do governo federal para fazer o seu ajuste fiscal. Em meio a essa confusão toda, até propostas estapafúrdias acabam sendo feitas, como é o caso de sequestrar os recursos financeiros do Sistema S, o conjunto de nove instituições de interesse de categorias profissionais.
Até há pouco, falava-se em prestigiar o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego). Anunciava-se um programa de 12 milhões de técnicos. Depois, o número baixou consideravelmente, mas com a política de despir um santo para vestir o outro.
Retirar R$ 8 milhões do Sistema S e colocar nas contas baleadas do governo é condenar entidades beneméritas como o Senac, o Senai, o Senar, o Sesc, o Sesi, o Sebrae, a ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) e a Apex-Brasil (Agência Brasileira de Exportação e Investimentos) a praticamente fechar as portas, como algumas chegaram mesmo a anunciar.
Só o Sesc estima perder cerca de 27 mil funcionários, além de inviabilizar o atendimento de 200 mil alunos no Rio de Janeiro. No caso do Sebrae, o corte programado, se vier a ser confirmado, pode levar a entidade a cobrar pelos seus serviços ou reduzir o número de 8 milhões de microempresários atendidos por ano. É possível imaginar o tamanho desse prejuízo?
A se confirmar a crise, será a maior dos mais de 70 anos de existência do Sistema S, nascido na década de 1940, quando Gustavo Capanema era ministro da Educação. Foi autor das célebres e consagradas Leis Orgânicas do Ensino Industrial e do Ensino Comercial, até hoje vigentes.
A prova da competência do Senai, por exemplo, pode ser medida pelo fato de mais de 60% dos seus alunos estarem empregados, mesmo com a elevada retração do mercado. A entidade, nos 1.008 cursos que oferece, forma aproximadamente 90 mil alunos por ano em 30 segmentos industriais.
Só mesmo um gênio do mal para mexer no setor, provocando a reação indignada de dirigentes como Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Os números do Senai, por exemplo, são espetaculares: 3,64 milhões de matrículas no ano passado, dos quais 1 milhão ministrados na modalidade do ensino à distância. Já o Sesi formou 217 mil jovens e adultos.
Com essa absurda intervenção do governo federal, uma hipótese provável seria passar a cobrar pelos cursos, mas não há dúvida de que isso representaria um baque nas matrículas. É a fórmula encontrada de prestigiar o que entendemos por ensino profissional?
A se confirmar a pretensão oficial, haverá uma série de perdas nos programas hoje vigentes de educação –sobretudo a construção de creches–, saúde, cultura e esporte.
Haverá uma drástica redução de matrículas e a possível perda de gratuidade nos cursos profissionais do Senac. Enfim, uma queda considerável de substância, como se pudéssemos nos dar ao luxo dessa perda inoportuna.

CARLOS HEITOR CONY

Lula e Ronaldinho Gaúcho

RIO DE JANEIRO - São dois assuntos diferentes, que parecem conflitantes, mas no fundo se entrelaçam, formando um só problema. Tanto a reforma ministerial, prometida e em andamento, como a escalação da próxima seleção nacional, que depois dos 7 a 1, ameaça ser um revival do Titanic, saído dos destroços no fundo do mar para tentar novamente flutuar e chegar a algum lugar. No Brasil há duas coisas importantes: a Presidência da República e a seleção de futebol. O resto é segundo escalão.
O ministério está sendo catimbado pelos interessados, sabe-se que as coordenadas são múltiplas e famintas. Através dessa troca de ministros que matará a fome dos congressistas, que estão com a faca e o queijo na mão para decidir o impedimento de dona Dilma, pode-se até saber o nome do próximo presidente da República.
À medida que o governo absorver figuras comprometidas com a corrupção e a incompetência, é inevitável que apareçam cassandras profissionais ou amadoras como o cronista que vos escreve. Faz parte da profissão que exerço há anos: não exatamente prever o futuro, mas se preocupar com ele. Ao contrário do historiador, que se refocila no passado, o jornalista terá de se contentar ou com a obviedade do presente, ou com o enigma do futuro.
Por lembrar o Titanic, lembro também duas hipóteses que poderão repetir a tragédia do navio que não podia afundar mas afundou. O principal nome para a substituição de dona Dilma é o próprio inventor da mesma, o já castigado e sedento Lula. Que teve seus méritos, teve.
E Ronaldinho Gaúcho, que também teve seus méritos mas, na tentativa de ressuscitar sua carreira, veio para o Fluminense e só fez uma coisa em campo: bater laterais, às vezes sem nenhuma eficiência. Lula ameaça ser um Ronaldinho Gaúcho que talvez nem saiba mais bater laterais.


    O triste fim de Ronaldinho

    Sem motivação para o futebol profissional e com uma vida social intensa, o ex-melhor do mundo chega ao epílogo da carreira de forma melancólica

    DE SÃO PAULO
    Sem camisa, Ronaldinho Gaúcho caminha para deixar o gramado do estádio Camp Nou, em Barcelona, após vitória sobre o Athletic Bilbao. Antes de entrar no vestiário, centro das atenções dos fotógrafos e cinegrafistas, ele abaixa um pouco o calção e exibe a cintura. Sorrindo, pergunta: "estou gordo?"

    A cena aconteceu em fevereiro de 2007. Antes da partida, jornais da Espanha exibiam uma foto de Ronaldinho sem camisa. Questionavam a sua forma física e apontavam ausências em treinos e consumo de álcool como justificativas para isso. Na época, o então melhor do mundo ainda reagia, principalmente, dentro de campo.

    Oito anos depois, no Maracanã, o técnico do Fluminense, Eduardo Baptista, pede para Ronaldinho jogar até o final da partida contra o Goiás, no sábado (28). "Acho que já deu para mim", responde ele. Dois dias depois, sua saída do clube carioca é anunciada. Do ápice no Barcelona, em 2006, à saída do Fluminense, na última semana, o craque até teve lampejos de genialidade, mas conviveu com o fantasma de não ser mais o já que foi no futebol.

    Em 2006, o ex-craque da seleção e colunista da Folha, Tostão, disse que Ronaldinho Gaúcho estava "no nível do Maradona e do Garrincha e só abaixo do Pelé". Àquela altura, aos 25 anos, ele estava no ápice. Foram anos de glória, que começaram a ruir em 2008. O que explicaria a queda a partir de então?

    Não houve um único episódio específico. Ronaldinho começou a jogar em alto nível aos 11 anos. Depois de obter os maiores títulos que um jogador pode almejar, a motivação começou a se esvair. E as baladas, das quais sempre gostou, passaram a se tornar um fardo mais pesado.

    Quem conviveu com ele no Fluminense relata pelo menos três oportunidades em que o gaúcho chegou aos treinos embriagado e voltou para casa. Demonstrava mais uma vez que, embora adore o futebol, não suporta mais as cobranças do esporte profissional. Jogadores e técnicos revelam episódios semelhantes em outros clubes, desde a época do Barcelona.

    Procurado, ele não quis se pronunciar. Seu irmão e empresário, Roberto Assis, tampouco respondeu sobre os casos relatados à Folha.

    CASOS DE FAMÍLIA

    Ronaldinho perdeu o pai aos nove anos. Em 1989, o soldador João Moreira da Silva morreu ao cair e bater a cabeça no fundo da piscina vazia da casa do seu filho Assis.

    Desde então, Assis, 44, assumiu o papel de tutor do irmão. Pessoas que convivem com o atleta contam que é ele quem decide os rumos da carreira do meia-atacante e define negociações com clubes e patrocinadores. Por influência de Assis, Ronaldinho aceitou jogar no Querétaro, do México. Ele não queria morar na cidade, apesar de ser um dos lugares com melhor padrão de vida do país.

    O problema, era a falta de opções para diversão. Mais de uma vez Ronaldinho ameaçou pegar um avião e voltar para o Brasil. Criticado pela imprensa local por não render o que se esperava e rebaixado à posição de reserva, o jogador deixou o futebol mexicano. Depois da passagem malsucedida pelo México, Ronaldinho acertou com o Fluminense em julho deste ano.

    Antes da assinatura de contrato, o vice-presidente de futebol do clube, Mario Bittencourt, telefonou e avisou que iria à sua casa no Rio. Enquanto conversava com Assis, Bittencourt assistia à partida de Ronaldinho na quadra de futevôlei. Ele não parou de jogar nem para assinar o novo contrato. Antes do Fluminense e do México, viveu seu último momento de brilho, com o título da Libertadores-2013.

    Em Belo Horizonte, o jogador ganhou um outro "pai". Nos dois anos em que ficou no Atlético-MG, era assim que se referia ao então presidente Alexandre Kalil. Quando ensaiava se entregar a festas perto de jogos decisivos, o presidente dizia: "Você não pode fazer isso com seu pai!" Essa ligação com feições familiares devolveu parte da motivação que Ronaldinho havia esquecido na Espanha.

    Felipão, que assumira a seleção no início de 2013, o convocou em duas ocasiões. Na última, ele se atrasou 25 minutos na apresentação em Belo Horizonte, antes do amistoso contra o Chile. Segundo um integrante da comissão técnica, aparentava ter bebido.

    Depois disso, nunca mais esteve na seleção. Carlos Alberto Parreira, então coordenador técnico da equipe, nega que o atraso tenha o excluído das convocações posteriores. "Foi pela sua queda de rendimento", diz. Meses depois, foi Levir Culpi, do Atlético-MG, quem desistiu dele.

    AUGE E QUEDA

    Quando chegou à Catalunha, na temporada 2003-2004, o craque comandou a recuperação do time. "Existe um Barcelona antes dele e outro depois", afirma o ex-lateral Belletti, que dividiu o vestiário com o camisa 10. Em 2008, o Barça abriu mão do brasileiro, que foi para o Milan. Na Itália, teve altos e baixos e chegou a perder a vaga de titular do Milan e passou a ser figura rara nas convocações de Dunga, então técnico da seleção.

    Perdeu a Copa de 2010, quando a explosão em arrancadas já não era vista. Lances como o que levaram torcedores do Real Madrid a aplaudir de pé o brasileiro após uma atuação magistral num dos clássicos de maior rivalidade do mundo– no 3 a 0 do Barcelona, em 2005– se tornaram raros. A técnica apurada nos passes ainda aparecia em lampejos, assim como cobranças de faltas perfeitas. Mas, aos 30, idade em que Pelé venceu uma Copa e Maradona foi vice na Itália, o gaúcho já era apenas um esboço do tinha sido.

    sábado, 3 de outubro de 2015



    04 de outubro de 2015 | N° 18314 
    MARTHA MEDEIROS

    A cultura da humilhação

    A insensibilidade geral tem produzido gargalhadas de um lado e tragédias de outro

    Já nem lembrava de Monica Lewinsky, que foi estagiária da Casa Branca e teve um rápido affair com o ex-presidente americano Bill Clinton em 1996. O fato foi explorado à exaustão, na época.

    Pois Monica hoje tem 41 anos e fez uma palestra TED recentemente, disponível pelo YouTube. São 20 minutos em que ela conta as consequências daquele episódio comentado no mundo inteiro e faz alertas importantes sobre cyberbullying. Se você nesse instante pensou "imagina se vou perder 20 minutos ouvindo aquela desqualificada", você é o público-alvo desse vídeo.

    Você, eu e todos os que usam tecnologia precisamos refletir sobre o assunto. A internet possibilita inúmeros encontros, amplia ações sociais, estimula a criatividade, agiliza negócios e já não se pode viver sem ela, mas tem um lado obscuro, como todos sabem. Reclamamos dos agressivos da web, dos haters, mas até onde pode ir a crueldade alheia?

    Em 2010, um estudante chamado Tyler Clementi foi flagrado por uma webcam tendo relações íntimas com outro rapaz em seu dormitório na universidade. As cenas foram parar na internet. Dias depois, Tyler se suicidou. Tinha 18 anos.

    O serviço assistencial britânico Child Line, que atende crianças e adolescentes, revela um alarmante aumento no número de suicídios nos últimos anos, e as ridicularizações nas redes sociais têm a ver com esse incremento. O CVV (Centro de Valorização da Vida) também possui dados que apontam nessa direção. A insensibilidade geral tem produzido gargalhadas de um lado e tragédias de outro.

    Humilhação pública virou produto de alto valor comercial. Basta que uma pessoa passe vergonha para que o flagrante mereça muitos cliques, e esses cliques valham muito dinheiro, sustentando sites de fofocas e transformando a nós todos em imbecis digitais. Não existe mais compaixão nem respeito pela intimidade alheia.

    O que Monica Lewinsky tem a dizer sobre isso? Ouça-a. Estou aqui apenas resumindo a palestra dela a fim de atiçar você para assisti-la. Quando tinha 22 anos, ela se meteu numa encrenca federal (mesmo) e foi o que bastou para todos se sentirem no direito de acabar com sua reputação. Eu postei a palestra na minha fanpage (facebook.com/marthamattosmedeiros) e um dos comentários deixados foi: "Ah, é aquela, a sucker, tenho que ver isso, kkkk". É uma reação automática. Podendo avacalhar, não perdemos a chance. Porém, o que antes era uma pegação de pé em meio a um círculo restrito, ganhou abrangência universal e exposição vitalícia.

    Se a gente não quer que essa cultura da humilhação prevaleça, melhor começar a agir com mais responsabilidade agora, já. Até porque ninguém está livre de amanhã ser o alvo.



    04 de outubro de 2015 | N° 18314 
    CARPINEJAR

    Banho sempre juntos


    Um casal de amigos toma banho juntos todo dia. Não é exagero: todo santo ou maldito dia. Ambos não abdicam do hábito. Não se unem para sexo ou transas aquáticas, não se abraçam para sedução ou selvagerias líquidas.

    Nenhuma pornografia como é possível imaginar. Pois casa não é motel, é refúgio do tumulto do mundo. Os espelhos não estão no teto, mas nos próprios olhos. É banho para a ternura, para a transparência.

    É banho para conversar e se atualizar, lavar o silêncio, acalmar a ansiedade. É banho para chorar quando necessário, brincar de espuma, rir dos perigos e organizar os desmandos do trabalho.

    É banho de amizade, de cumplicidade auditiva, de intimidade da pele, para saber como foram a manhã e a tarde de cada um e preparar a barca dos sonhos. É banho em que os joelhos e os cotovelos são lembrados, em que as axilas e as costas são esfregadas.

    É banho de açúcar, melhor do que o sal grosso para espantar o mau olhado. Dividem o xampu e a esperança. Enquanto um se ensaboa, o outro se enxagua. O revezamento é perfeito como uma dança, como uma coreografia.

    Estão nus, sem reservas, sem receios, sem caretas e poses, sem mentiras e distorções, com a humildade de se colocar à disposição. Como Adão e Eva antes da maçã. Antes da amargura.

    Adultos que escolheram a água como o refúgio infantil, puro, um confessionário onde nenhum filho abrirá a porta com novas urgências. O box é uma piscina vertical, o box é uma hidromassagem de pé.

    O box é uma varanda fechada, uma Veneza em miniatura. O box é uma chuva particular, em que vão chapinhando nas poças e as vozes buscam alguma música brega para distrair as dificuldades.

    E se um já tomou banho antes repetirá a operação para não perder a parceria. Mesmo que isso signifique tirar o pijama e deixar o calor da cama. Não passam um dia sem tomar banho lado a lado. Descobriram que a lealdade é abrir um espaço fixo para a palavra.

    Os casais devem tirar um momento de sua rotina para estarem absolutamente entregues. Um momento apenas de atenção integral, para renovar o ímã da felicidade.

    Pode ser o café da manhã, o almoço, uma horinha de chimarrão no entardecer, uma caminhada pela praça, a leitura de jornais, o colo de uma novela. É dividindo a solidão que os dois serão um só pela vida inteira.



    04 de outubro de 2015 | N° 18314 
    ROBERTO ROMANO

    Servidão voluntária



    É fácil notar indivíduos inteligentes e cultos que apoiam governos tirânicos e religiões genocidas. Ao dobrar a cerviz eles se reduzem a instrumentos descartáveis. A solidariedade perversa em política gera o que Merleau-Ponty intitula “a comunhão negra dos santos” (Nota sobre Maquiavel). Os piores malefícios ocorrem se ordenados por hierarcas cuja ideologia a tudo e a todos justifica. Salvo os inimigos.

    Mesmo quando vítimas da máquina partidária, militantes ideologizados guardam fidelidade canina. É o caso do Partido Comunista e dirigentes perseguidos por Stalin. A técnica predileta, nos tribunais farsantes de 1936, era colocar o réu em frágil situação psicológica. Sabedores da sua inocência, os promotores lhes perguntavam: “O Partido diz que você é culpado. 

    Sua língua nega a verdade do seu partido?”. Ir contra o “seu” partido seria destruir a própria vida, os valores defendidos no pretérito. Mas aqueles princípios eram arruinados pela polícia, promotores e juízes a soldo do “paizinho dos povos”. Situação surreal: garantir a própria inocência seria provar que o governo dos antigos camaradas era escabrosa farsa. Eles aceitaram a culpa farsesca em nome de um passado abolido.

    E falo de pessoas eruditas, como Bukharin, Kamenev, Zinoviev e outros.

    Em tempos obscurantistas da Igreja Católica, a censura e o castigo tinham um nome: sacrificium intellectus. Segundo Inácio de Loyola tal seria “o terceiro e mais elevado grau de obediência”. Trata-se de ardil para tanger o ser livre ao rebanho. A desculpa da técnica encontra-se na suposta frase de Tertuliano, “credo quia absurdum”, creio porque é absurdo. Como numerosas falas inverídicas, tal enunciado só com muita ardilosidade pode ser lido em Tertuliano. 

    Ele faz companhia ao “Paris vale uma missa” jamais dito por Henrique IV; “se eles não têm pão, comam brioches”, de Maria Antonieta; “que grande artista vai perder o mundo” atribuído a Nero. Max Weber generaliza o silêncio obsequioso para toda religião. A depender de suas circunstâncias, elas sempre exigem do fiel… a fidelidade contra o intelecto.

    Sempre que num coletivo impera o credo quia absurdum, e as falas são administradas por líderes – não por acaso, Stalin se interessou por linguística – religiosos ou civis, grassa um ódio ao pensamento crítico que aterroriza quem ousa raciocinar, pedir provas factuais ou lógicas das autoridades. É a misologia, termo inventado por Platão.

    Quais origens possui o manso, obediente silêncio obsequioso mantido pelos tesoureiros petistas condenados pela justiça? Nos casos Delúbio e Vaccari, a comunhão negra dos santos funciona a pleno vapor. E nela reside a ideologia segundo a qual, para usar a tese de Trotsky: “o partido sempre tem razão (…) só podemos estar certos com e pelo Partido (…) e se o Partido adota uma decisão que um ou outro julga injusta, ele deve dizer, justo ou injusto é o meu partido e eu apoio as consequências daquela decisão até o fim”(26/5/1924). Até o fim, as piores coisas resultaram e ainda virão de tamanho servilismo voluntário.


    04 de outubro de 2015 | N° 18314 
    ANTONIO PRATA

    Trânsito

    “E agora, trânsito! Alan Zucchini, é com você!”. “Alô, Ludmila, trânsito complicado, hoje, na capital, seis e catorze da tarde, tamos aí com mais de 500 quilômetros de engarrafamento. Vamos sobrevoando agora a região da avenida Paulista, onde um grupo de 300 manifestantes protesta contra a última chacina, aí, do fim de semana, que matou 15 pessoas em Jandira. As três faixas sentido doutor Arnaldo completamente fechadas”. 

    “Eita ferro, todo dia, agora, hein, Alan? É chacina, é professor, é sem teto, é sem isso, sem aquilo! Gente, quer protestar? Legal, mas precisa parar o trânsito? Faz corrente no Facebook! Grupo de zapzap!”. “Haha! É isso, mesmo, Ludimila.”. “Pelamor! Que mais, Alan?” “Zona Leste: pra quem pega a Radial, o trânsito também vai embaçado, aí, no sentido bairro, com uma pista interditada por causa de um acidente envolvendo uma betoneira e um motoboy. Parece que o motoboy, infelizmente, veio a falecer”. “Infelizmente. E continua na pista, o corpo, Alan?”. 

    “Pela informação que a gente tem, aqui, continua, sim, Ludmila, tá esperando a chegada da perícia, pra liberar.” “Gente, vê se pode uma coisa dessa? Todo dia morre motoboy em São Paulo! Todo dia! E não tem como agilizar essa perícia? Não tem condição, cada moto que cai, travar a cidade inteira!”. “Pois é”. “Que mais, Alan? Só notícia ruim, hoje?”. “Não tá fácil, não, Ludmila. A Marginal Pinheiros tá bloqueada na altura da ponte estaiada por causa de uma situação com reféns, num ônibus escolar, parece que tem um homem ameaçando explodir uma bomba dentro do ônibus.” “Tragédia! 

    Situação com refém na ponte estaiada, na hora do rush, quer dizer, pega a Bandeirantes, Berrini, Roberto Marinho, trava geral, ali! Vamos torcer pra não morrer ninguém, senão amanhã, já viu, lá vai todo mundo fechar a Paulista, de novo!”. “Vamos torcer. Agora, o trânsito tá ruim mesmo é no Morumbi, Ludmila. Um incêndio em 200 barracos na favela de Paraisópolis tá praticamente fechando a Giovanni Gronchi, parece que os moradores da comunidade tão inclusive invadindo as pistas, fugindo do fogo, tá um caos, aquilo ali.” “Que absurdo! 

    Um perigo pros motoristas, isso, imagina, atropelar alguém? Perigo até, aí, de assalto, arrastão, cadê a polícia, nessas horas, Alan?”. “A tropa de choque já chegou, Ludmila, tão usando gás lacrimogêneo e bala de borracha pra direcionar o pessoal de volta pra comunidade.”. “E o fogo?!”. “Tranquilo, o fogo não chega na pista, é só nos barracos, mesmo, sem perigo pros motoristas”. “Ainda bem. Bom trabalho da nossa polícia, olha aí, todo mundo critica tanto, nessas horas a gente tem que aplaudir. Mais alguma coisa, Alan?”. 

    “Opa, tá chegando aqui uma última notícia: parece que um cachorrinho foi atropelado na pista expressa da Marginal Tietê, perto ali do Cebolão”, “Ai, Alan, que horror! É grave?”, “Ainda não tenho a inf.... Ah, tem sim, parece que é uma cadelinha, uma cadelinha da raça pug, tá, o nome dela é Valkíria e, no caso, ela se encontra desacordada, enquanto vários motoristas, ali, prestam os primeiros socorros”. “Alô, prefeito, cadê o SAMU? Cadê o águia, governador? Ninguém faz nada?! Só orando, mesmo, Alan, vamos orar, vamos ter fé em Deus, que Deus vai ajudar a Val a sair dessa!”. “Amém, Ludmila!”. “Amém!”.



    04 de outubro de 2015 | N° 18314 

    L. F. VERISSIMO

    Mundo doente


    Todas as garrafas que lancei ao mar com mensagens ao desconhecido voltaram sem réplica, ou com o texto corrigido. Nenhum dos meus gurus tinha resposta para minhas indagações existenciais e um até confessou que era surdo e não ouvia as minhas perguntas, o que explica ele ter respondido “sim” quando eu perguntei se deveria seguir o Bhagavad Gita, o Kama Sutra, 

    O Capital ou uma combinação dos três. Todos os meus telefonemas dão em secretárias eletrônicas com a voz exatamente igual. Da última vez que implorei por um contato humano, alguma coisa viva – uma hesitação, um erro de concordância, um resfriado, até, em último caso, uma reação irritada – a voz disse: “Para reação irritada, digite 4”.

    Decidi procurar consolo na internet, mas sabia o que me esperava. Cairia num site que me ensinaria a fazer bombas caseiras, outro de alguém que teria tara por Matildes, outro o de um movimento pela canonização do papa Francisco em vida, outro de um onanista compulsivo cheio de erros de digitação porque, presumivelmente, seus textos seriam escritos com uma mão só, outro de um homem que propunha a troca de fotografias do seu bigode ridículo com as de bigodes ridículos de todo o mundo, com a possibilidade de casamento, e até imaginei o site de alguém que pediria para comprar vários dos meus órgãos para comer. 

    Este eu nem pensaria em atender, sou muito apegado a todos os meus órgãos apesar do que alguns têm me feito passar, mas só por curiosidade perguntaria como ele prepararia, por exemplo, meu fígado e, num rasgo de sentimentalismo, sugeriria que o servisse acompanhado de um Sauterne de boa safra. E que desagravasse meu coração com batatas dauphinoise.

    Todos, inclusive o cara que estaria a fim das minhas tripas à moda de Caen, só demonstrariam como eu entrara num fascinante mundo doente, o da humanidade reduzida às suas fomes e às suas esquisitices primevas, ao entrar na internet. Terroristas, fascistas, fetichistas e canibais são – ou espero que sejam – minorias entre os habitantes deste mundo, e se sexo é o assunto preferido da maioria é porque sexo, no fim, é a preocupação dominante da espécie, nada de novo. 

    Mas há algo de assustador nessa variedade de prospecções predatórias de gente atrás de afinidades. Sei lá se eu não tenho alguma obsessão secreta (pés de noviças?) só esperando um correspondente para se manifestar. Mas desisti de localizar meus similares (os revoltados com a revolta, os que já desistiram até de desistir) e concluí que a primeira condição para encontrar a minha turma é jamais frequentar a internet.



    RUTH DE AQUINO
    02/10/2015 - 21h38 - Atualizado 02/10/2015 21h38

    Perdidos no espaço

    Dilma desperdiçou o esforço de cooptação, pois Eduardo Cunha foi atingido pelas últimas denúncias


    Em aventuras que misturam comédia e ficção científica, a tripulação da nave Brasília luta às cegas para encontrar o caminho de volta para casa e o poder eterno. O Professor Lula, sua companheira Dilma e seus pupilos Wagner, Mercadante e Renan são atacados pelo Doutor Eduardo Cunha, agente inimigo, que tem uma obsessão: sabotar a missão de Lula, Dilma, filhos e afilhados no planeta vermelho.

    Cunha é tão desastrado e abilolado que embarca na mesma nave que a família. Não estava preparado para a revolta do robô humanoide, que escapa ao controle de todos e destrói o sistema de navegação da nave Brasília. Estão todos agora perdidos no espaço – mas com contas milionárias, em dólar, em alguma parte da Terra.

    O seriado se passa no presente, já teve várias temporadas e se arrasta em capítulos inverossímeis, sob o comando do Professor, o grande timoneiro. A viagem começou com objetivos grandiosos e idealistas. A família embarcou com a missão de encontrar uma alternativa para a supercorrupção política no Planalto. Mas foram desmascarados. Só queriam salvar sua pele, mancomunados em objetivos a anos-luz do bem comum.

    A primeira temporada, em preto e branco, tinha embasamento ideológico e apresentava o Doutor Cunha como um espião inimigo, que se revelou perigoso e imprevisível. Na segunda temporada, com ênfase na comédia, as aventuras tornam-se mais absurdas, recheadas de alienígenas birutas (não dá para citar todos aqui, o Congresso brasileiro é um dos maiores do mundo). E a série passa a ser em cores e ao vivo. Na temporada atual, os vilões se alternam no destaque. Não há previsão de fim. Todos podem ser destruídos, especialmente quem não embarcou na nave-mãe e está, hoje, na fila do seguro-desemprego, da escola ou do hospital.

    Pressionada pelo Professor, Dilma age em favor de tripulantes que só querem saber de continuar a voar na primeira classe. A troca na poltrona premium da Educação é a mais grave. Sai o filósofo e professor universitário Renato Janine Ribeiro – aplaudido ao sentar ali há poucos meses – e entra quem? Aloizio Mercadante, o “quadro” de Dilma, um quadro desbotado, um economista que pouco fez pela Educação quando foi ministro da Pasta.

    Em 2009, Mercadante afirmou, em discurso, que deixaria de ser líder do PT no Senado. Protestava contra o PT, por arquivar investigação da Comissão de Ética contra José Sarney. Após uma noite de conversa com o Professor Lula, voltou atrás. Tudo gogó. O “quadro Mercadante” pode ser pendurado em qualquer parede. Curioso é ele substituir Janine, que declarou ser “assustador” o nível da má alfabetização no Brasil. Mercadante é o terceiro ministro da Educação em dez meses. Leia de novo a última frase.

    Outro expulso da nave foi o ministro da Saúde, Arthur Chioro, que cedeu seu assento ao PMDB (Partido Master da Dilma Bolada). O escolhido foi Marcelo Castro, do Piauí, cujo mérito na Saúde é ter como padrinho Leonardo Picciani, líder do PMDB na Câmara. O demitido, Chioro, teve, como Janine, seu momento de sincericídio dias antes. Afirmou que o SUS – Sistema Único de Saúde –, por falta de dinheiro, entrará em colapso em setembro de 2016.

    Afinal, por que nos preocupamos com Educação e Saúde num país com tantos analfabetos e semianalfabetos, doentes desassistidos, hospitais em calamidade pública? Por quê? Se o grande timoneiro conseguiu colocar no comando da nave civil o baiano Jaques Wagner, para evitar pedaladas que derrubem a nave Brasília, não precisamos nos preocupar. Wagner sai do Ministério da Defesa para defender Dilma.

    Ao menos, quem dá valor à Ciência e Tecnologia pode comemorar! Porque a poltrona, estratégica num país em desenvolvimento, será ocupada por um deputado pau-mandado do espião Cunha, Celso Pansera. Você conhece o Pansera. Lembra aquele episódio do seriado em que o doleiro delator Alberto Youssef acusa Pansera de ameaçar a ele e a sua família para obrigá-lo a calar a boca? Esse mesmo. Grande companheira Dilma.

    Ela desperdiçou o esforço de cooptação, pois Cunha parece ter sido atingido pelas últimas denúncias. O “bastião da moralidade” da Câmara, que promove cultos evangélicos na nave Brasília, tem, segundo o Ministério Público da Suíça, US$ 5 milhões em contas bancárias no país europeu com a mulher, Cláudia Cruz, e uma das filhas. Em depoimento à CPI da Petrobras, em março, negou a conta.

    O nariz das autoridades máximas no Brasil cresce na mesma proporção em que nosso queixo cai. De episódio em episódio, aumenta a sensação de que somos nós os perdidos no espaço e que o filme em exibição é um apanhado verídico de relatos selvagens. Em vez de rir ou chorar, é hora de agir e protestar.


    03 de outubro de 2015 | N° 18313 PALAVRA DE MÉDICO

    J.J. CAMARGO


    Felicidade em fatias

    Desconfie dos faceiros crônicos. com esses tipos, todo cuidado é pouco
    Como não existe felicidade completa e ninguém consegue ser feliz o tempo todo, aprendemos a desconfiar dos faceiros crônicos: porque afora a monotonia irritante da eterna alegria, eles devem ser muito dissimulados e, com esses tipos, todo cuidado é pouco.

    Habituados com as saudáveis oscilações de humor reveladoras da nossa condição anímica, pouco atentamos para os graus possíveis de felicidade que, para alguns felizardos, projetam-se na conquista tão fantasiosa quanto inatingível de uma Mega Sena. A maioria mais modesta se contenta com menos, por exemplo, com o resgate das pequenas perdas, essas que só dimensionam bem os que perderam.

    Sempre me comovi com a alegria genuína e, geralmente, solitária, dos velhinhos quando retiram o tampão do olho de onde foi removida uma catarata e se deslumbram com o arco-íris das cores que desbotaram no tempo e que agora estão vivas outra vez. Ou com a euforia da avózinha que vinha sendo interpretada como caduca porque quase sempre o que respondia não tinha nada a ver com o perguntado e que, agora, com o aparelho novo ajustado, retoma o convívio ativo com a família e pede, com um certo orgulho na voz, que as pessoas, por favor, falem um pouco mais baixo porque, afinal, ninguém aguenta mais esta gritaria. Parece uma casa de loucos!

    Ou de um paciente transplantado de pulmão por um enfisema que representara uma sucessão de perdas acumuladas durante os 10 anos que antecederam a cirurgia e que, às vésperas de ter alta, chamou-me para um pedido: “Doutor, por favor, me examine porque tem uma coisa errada comigo”. Quando quis saber o que sentia, ele surpreendeu: “A impressão que tenho é de que me entra ar por tudo quanto é lugar!”. Depois de 10 anos de esforço progressivo para respirar, era compreensível que a ausência da percepção dessa atividade gerasse a ansiedade em quem tinha esquecido do simples que é o normal.

    O Geraldo fumou cigarro de palha durante os 50 anos em que trabalhou na liberdade do pampa. Nos últimos tempos, a atividade física se restringiu ao mínimo e descobriu que um simples banho podia ser uma tarefa bem desagradável. Encantado com o desempenho de um vizinho transplantado de pulmão, marcou uma consulta para saber quando poderia fazer o seu. Foi duro acompanhar seu desencanto na medida em que as contraindicações para o transplante (mais de 70 anos, infarto prévio) foram anunciadas.

    Felizmente, seu enfisema comprometera menos os lobos inferiores e foi comunicado que ele era bom candidato para a chamada cirurgia redutora do volume pulmonar, que permite a retirada de áreas mais afetadas para que as menos comprometidas tenham mais espaço para funcionar. Depois de uma fase inicial de desconfiança, o entusiasmo voltou, e ele foi submetido à cirurgia depois de uma intensa preparação para que fosse operado na melhor condição possível.

    Decorridos seis meses do procedimento, voltou para a revisão, e foi logo anunciando: “Não tenho ideia de há quanto tempo não respirava tão bem!”. Ele voltara a trabalhar no campo com tal euforia e a relação de proezas e façanhas era tão entusiasmante, que foi inevitável perguntar: “E como é que anda a sua vida sexual?”. Ele fez um longo silêncio e, acomodando o chapéu sobre o joelho magro, confessou: “Mas o senhor sabe que eu nem me lembro!”. Como escrevi, em algum lugar aí acima, felicidade completa é, quase sempre, uma grande fantasia.


    03 de outubro de 2015 | N° 18313 
    NÍLSON SOUZA

    HOMENS VERDES


    Tudo bem, tem água lá, mas não me convidem para passar as férias de verão em Marte. Estou fora. Viagens longas não me atraem. São 226 milhões de quilômetros, e a previsão, com a tecnologia disponível atualmente, é de que uma nave levaria de seis a nove meses para percorrer a distância entre a Terra e o planeta vizinho. Prefiro ver o filme, ler o livro e ficar olhando daqui mesmo aquela estrelinha avermelhada que não pisca. Mas reconheço que o planeta enferrujado fascina, e como fascina!

    É impressionante como a humanidade viaja (no sentido figurado, de sonhar, imaginar, cismar...) quando se fala em vida fora da nossa Terrinha. As recentes notícias sobre a descoberta de córregos gelados no solo marciano tiveram audiência planetária, inundaram os veículos tradicionais de imprensa e as redes sociais. As águas de Marte e os marcianos imaginários também viraram charges, memes e gozações de todo tipo. 

    Nossos inspirados chargistas produziram duas das mais divertidas: Iotti publicou um desenho em que aparecem dois homenzinhos verdes pescando num riacho, visivelmente contrariados com a presença de um robô de observação terráqueo; e Marco Aurélio imaginou os mesmos personagens verdinhos estacionando um disco voador para vender garrafões de água mineral marciana. Se o planeta é vermelho, por que seus habitantes seriam verdes? Invenção do escritor norte-americano Edgar Rice Burroghs, criador de Tarzan. Pegou.

    Temos uma velha cisma com Marte, planeta historicamente apontado por cientistas e ficcionistas como provável base para uma invasão à Terra. Duvido que atualmente os verdoengos queiram desembarcar em algum ponto da nossa conflagrada superfície, mas marcianos e marcianitas já causaram terror e euforia por aqui, tanto no tempo do rádio pré-histórico quanto nos Carnavais de antanho. Talvez por isso, cada vez que surge uma informação nova sobre a possibilidade de vida por lá, ainda que microbiana, entramos em surto.

    Para não ficar de fora dessa piração, entro na onda pela lógica simplista dos meus antepassados lusitanos. Se há água, ainda que gelada e salgada, pode mesmo haver vida. Talvez até haja vida inteligente – o que seria um belo exemplo para nós. Como temos excursões agendadas para o Planeta Vermelho, em breve saberemos. Só espero que, por enquanto, os homens verdes não nos desafiem para um jogo de futebol interplanetário.

    Afinal, Messi está lesionado.



    03 de outubro de 2015 | N° 18313 
    DAVID COIMBRA

    Aí vem o furacão

    O furacão Joaquim vem vindo. Está a caminho, desloca-se com a previsível velocidade do vento, subindo o litoral a partir das Bahamas. A chegada dele a Boston está prevista para terça-feira. Dizem que estará mais calmo, mas ainda assim é um furacão. Há que se respeitar.

    Pense num leão de circo. Um velho leão de circo, desdentado, de juba rota e olhar cansado. Você entrará na jaula dele? Não. Não entrará. Você terá medo. Porque um leão sempre será um leão.

    Um furacão desanimado também é um furacão, e por isso causa expectativa a irrupção iminente de Joaquim.

    Nunca antes vi um furacão em pessoa, só em fotos e filmes. No ano passado, na véspera do 4 de julho, dia da independência americana, passou pelo litoral de Nova York um furacão chamado Arthur, e um resto dele deu uma chicotada aqui em Boston, pegando-me desprevenido, na rua.

    Esses eventos climáticos dificilmente pegam os americanos desprevenidos. Quando vai ocorrer alguma intempérie importante, eles interrompem os programas da TV para dar alertas e mandam mensagem para a gente pelo celular. Como é que eles têm o meu número, isso não sei, só sei que, no dia em que ia desabar uma tempestade de neve, a Defesa Civil me ligou.

    – O senhor já comprou lanternas? Tem lanternas em casa? – perguntou-me o cara com voz aflita.

    Respondi que não. Ele ficou mais nervoso: – Compre lanternas! Compre lanternas! Pode faltar energia! Compre lanternas!

    Por mil Thomas Edisons! Saí correndo à procura das lanternas. Não encontrava em nenhum lugar. Todo mundo havia comprado lanterna na cidade. Numa ferragem pequena, achei as últimas três da região. Comprei-as. Ainda não as usei. Não faltou luz na tempestade nem depois dela.

    Mas a chibatada do Arthur atingiu-me em cheio. Em um segundo, foi como se uma caixa-d’água cheia tivesse sido despejada na minha cabeça.

    De assustar. Mesmo assim, a chance de observar um furacão me deixa curioso. A natureza em ação é coisa bonita de se ver.

    Durante a Copa de 2002, no Japão, fomos para uma região em que ocorrem terremotos todos os dias. Fiquei encantado com a possibilidade de testemunhar um terremoto e disse isso para os jornalistas próximos. O Luis Fernando Verissimo era um deles. Ele me olhou com os olhos arregalados e sussurrou:

    – Não, não... Percebi que o medo dele era genuíno.

    Compreendo o Verissimo. Também não sou de me arriscar em vão. O que queria era um terremotinho que balançasse os lustres, mas não fizesse mal a ninguém. Acabou sendo um “inho” mesmo. À noite, a cama deu uma tremida. Assim: br. Nem percebi. Pensei que fosse o trem passando. No dia seguinte é que me disseram que era um terremoto. Uma decepção.

    O fato é que ainda somos surpreendidos, assolados e flagelados pelos eventos mais comuns do clima, como a chuva, o vento, o frio ou o calor. Não é por outro motivo que, se você falar do tempo, pode falar com qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo. Nossa história debaixo do sol é, basicamente, a luta não tanto pela derrota, mas pelo controle da natureza. 

    E estamos fazendo avanços. Li que, em cinco anos, a Nasa vai lançar um foguete que desviará meteoros da Terra. Se a Nasa tivesse feito isso 65 milhões de anos atrás, ainda teríamos dinossauros andando por aqui. Não sei se seria boa ideia. O jeito é confiar na natureza, mas com alguma desconfiança, como quem olha um velho leão de circo. Sabe-se lá... Que venha o Joaquim!



    03 de outubro de 2015 | N° 18313 
    CLÁUDIA LAITANO

    Matutar


    Todas as noites, antes de dormir e quase até pegar no sono, eu pensava nos meus problemas. Eram três, disso eu tenho certeza, e um deles envolvia uma encomenda feita sem autorização dos adultos a um vendedor ambulante que passava de tempos em tempos na frente da nossa casa – dos outros eu esqueci. Quando minha mãe me botava na cama e apagava a luz, eu acendia meus três problemas para jogar com eles no escuro. Ainda não tinha aprendido a ler, mas já sabia me preocupar.

    Apesar de a palavra “problema” ter entrado tão cedo no meu vocabulário, não tive uma infância “problemática” – os maiores problemas de uma criança, em geral, não são esses que ela consegue partir em pequenos pedaços e observar. 

    Que eu tenha captado o sentido da palavra ouvindo a conversa dos adultos (ou vendo novela) e tenha me apressado a colocá-la em uso todas as noites apenas demonstra certa predisposição precoce para o lado não prático da existência – e hoje me parece fabuloso que uma das minhas memórias mais nítidas da infância diga respeito não a algo que me aconteceu ou que eu vi, mas a uma atividade puramente mental: matutar.

    Com o passar dos anos, meus problemas ganharam em concretude e variedade. Os menos graves foram parar na maçaroca indistinta das aflições superadas, lá onde uma não desprezível montanha de preocupações antigas causadas por atritos na família, amores frustrados ou dissabores no trabalho já perderam boa parte do poder que um dia tiveram sobre mim – tenham sido solucionados, esquecidos ou voluntariamente descartados. Quase tenho carinho por eles.

    Porque ter um problema é ruim, claro, mas não como um acontecimento trágico ou um fato consumado diante do qual só nos resta sofrer com maior ou menor resignação. Problema é aquilo que a gente fica remoendo não apenas porque nos incomoda, mas porque imaginamos que existe uma solução, em algum lugar, esperando por nós. Como um enigma que nos parece absolutamente banal – mas apenas depois que conseguimos decifrá-lo. Problema resolvido produz conhecimento.

    Não devemos subestimar nossa capacidade para resolver impasses, conflitos, crises de pequenas ou grandes proporções. Quando não contempla a possibilidade de solução, não estamos diante de um problema, mas de uma sentença. Costumamos associar a expressão “esquentar a cabeça” com reações impulsivas e violentas, mas, às vezes, o que mais nos esgota mentalmente é o oposto disso: o esforço para buscar não a solução mais rápida, mas a melhor. Matutar.

    sexta-feira, 2 de outubro de 2015


    REINALDO AZEVEDO

    Em defesa da serpente


    Vejo brotar o ódio à política e ao capital e torço para que os jovens que ganharam as ruas não caiam nessa conversa. A despeito de tudo, sou otimista quanto ao futuro do Brasil. Acho que a necrose do PT é um momento inaugural.

    Amplas camadas da população se dão conta de que milagres não existem; de que ninguém será por nós se não formos por nós mesmos. Até Joaquim Levy é personagem desse salto de qualidade. Gosto quando ele diz que, a cada novo gasto, há de corresponder um novo imposto. Alguém sempre paga a conta.

    Mais do que a agonia das velhas raposas, interessam-me movimentos de rua de uma juventude que tenta dar à luz o liberalismo em terras nativas. No Brasil das ideias fora do lugar, banqueiros se encantam com o coaxar de pererecas e se deixam seduzir pelo papo-furado distributivista. Alguns querem mais do que juros altos, acreditem. Ambicionam mesmo a ascese!

    Constatação à margem: países em que banqueiros fazem questão de ter coração costumam ser governados por pilantras populistas que têm cérebro. O mundo ainda é mais produtivo quando financistas são maus e padres são bons. Sigo.

    Algo de novo está em curso, e espero que resista e se espraie, ainda que haja um esforço enorme da imprensa conservadora –de esquerda– de matar essa juventude brandindo contra ela ideias caridosas de anteontem ou a suposta contemporaneidade do "thomas-picarettysmo".

    Sou otimista, sim, mas tenho preocupações. Já escrevi neste espaço que seria lamentável se restasse da Operação Lava Jato o ódio à iniciativa privada e ao capital, tomados como corruptores da pureza original. Qual?

    Em seu voto contra a doação de empresas privadas a campanhas –uma decisão moralmente dolosa tomada pela maioria do STF–, a ministra Rosa Weber, por exemplo, disse: "A influência do poder econômico culmina por transformar o processo eleitoral em jogo político de cartas marcadas, odiosa pantomima que faz do eleitor um fantoche, esboroando a um só tempo a cidadania, a democracia e a soberania popular".

    A tolice é tal que nem errada a frase chega a ser. Eu duvido que Rosa tenha pensado nos desdobramentos da "influência do poder econômico" na vacinação em massa, na produção e distribuição de comida ou na universalização da telefonia.

    Por que a ministra pretende que a disputa eleitoral deva ser um domínio impermeável às empresas, que, até onde se sabe, não são abscessos malquistos da civilização, mas uma das formas que esta encontrou de produzir e de multiplicar riqueza?

    Junto com o ódio ao capital, vejo brotar em certos nichos o ódio à política, como se já tivéssemos descoberto outra maneira de resolver conflitos distributivos ou de opinião. Torço para que os jovens que ganharam as ruas não caiam nessa conversa de esquerdista desiludido e de anarquista ignorante.

    Se, em certa mitologia, o primeiro homem foi Adão, e Eva, a primeira mulher –ambos inocentes como as flores–, a serpente foi o primeiro político. E devemos dar graças a Deus –que já tinha tudo planejado em sua mente divinal– que assim tenha sido, ou aquela duplinha passaria eternidade afora a pôr pontos de exclamação no coaxar das pererecas.

    Que os moços acreditem na política! Bem pensado, o esquerdismo, quando genuíno, nada mais é do que a ânsia de matar a política para reconstruir o Éden com homens e mulheres puros. Sem a serpente das tentações. E quando o esquerdismo é uma farsa? Aí dá em Lula e seus Lulinhas endinheirados...

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    hélio schwartsman

    02/10/2015  02h00

    SÃO PAULO - Dilma Rousseff tornou-se uma personagem trágica. Um pouco por acaso, um pouco não (Dirceu e Palocci haviam caído em desgraça), ela foi escolhida por Lula para sucedê-lo. Eleita em 2010, experimentou os favores da sorte em sua plenitude. Seu governo era um sucesso. Dilma bateu todos os recordes de popularidade e, num de seus muitos momentos de "hýbris" (soberba), tentou até ensinar à chanceler alemã, Angela Merkel, o que países devem fazer para sair de crises econômicas.

    Como convém às tragédias, porém, houve a "peripéteia" (peripécia), que transformou em má a boa fortuna de Dilma. De fato, seu governo hoje são ruínas. A presidente, que agora sofre a maior rejeição popular jamais registrada pelas pesquisas, divide-se entre esforços para tentar salvar seu mandato e não deixar que a situação econômica degringole ainda mais. E todas as suas iniciativas parecem fadadas a fracassar.

    A crer em Aristóteles e sua "Poética", na origem de tudo está a "hamartía" da personagem. O termo é traiçoeiro. Às vezes é traduzido como "erro". Pode ser também "falha de caráter". Na teologia cristã, "hamartía" virou "pecado". Dilma, com ou sem intenção, pouco importa, deu causa a sua perdição. Suas ações é que levaram à destruição econômica, e suas omissões, aos escândalos de corrupção que agora a assombram.

    Aonde isso nos leva? Segundo Aristóteles, tragédias, ao inspirar pena e terror na audiência (isto é, em nós), levam-nos a uma "kátharsis" (purgação). Talvez, mas será que é realmente Dilma a personagem trágica aqui? Ela, afinal, foi escolhida pela maioria dos brasileiros, que, se foram enganados, o foram voluntariamente, já que os sinais de que a então candidata mentia sobre a situação econômica do país estavam ao alcance de quem quisesse ver. Neste caso, o personagem trágico somos nós. "De te fabula narratur" (a fábula fala de ti), sentenciou Horácio. 


    02 de outubro de 2015 | N° 18312 
    DAVID COIMBRA

    Estou com pena da Dilma


    A primeira vez que entrevistei Lula foi nos anos 1980. Não me lembro exatamente do ano, lembro-me exatamente do lugar. Foi no salão paroquial da Igreja São José, na Praça Nereu Ramos, centro de Criciúma. Lula puxou uma cadeira e nós nos sentamos em volta. Éramos poucos, Lula então não passava de curiosidade. Ele ficou falando durante muito tempo. O que me chamou a atenção foi exatamente isso: como ele gostava de estar ali, falando, se promovendo. Seus olhos brilhavam, enquanto se expressava.

    Lula nunca foi grande orador. Sempre foi grande comunicador. Grande orador foi Pedro Simon. Não pelo conteúdo; pela forma. Se você larga a lista de compras do súper na mão do Simon, ele vai começar a ler aquilo: “Trezentos gramas de carne moída, massa, um quilo de arroz, papel higiênico, cebola, feijão mulatinho, creme de leite...”. Ele vai começar suavemente, quase de forma sussurrada, na carne moída, e vai no que os jogadores chamam de “num crescendo”, e vai, até que, quando chegar ao creme de leite, você é que estará urrando, de punhos cerrados e dentes rilhados, querendo fazer a Revolução.

    Brizola também foi grande orador. Usava umas figuras de linguagem que tocavam o ouvinte e lhe suavizavam o conteúdo. Chamava o Cid Moreira de “bugio branco” e, de Garotinho, disse que não se podia confiar num sujeito de cara redonda. Como não rir?

    Collor é outro que sabe discursar. Melhor do que Lula, até. Mas não tem o mesmo poder de comunicação. Lula nunca fala além do óbvio, mas sabe para quem fala.

    Curioso, isso. Poucos políticos brasileiros são oradores de texto, como era João Neves da Fontoura.

    Churchill era homem de texto, mas não tinha ênfase. Hitler, sim. Hitler empolgava pelo vigor.

    Como será que discursava Marco Antônio, que, com a toga ensanguentada de César nas mãos, levou os romanos à sedição, pelo menos segundo Shakespeare?

    Mas estou divagando. O que queria dizer é que o político tem de ser inflamado por essa verve, tem de gostar da palavra, ou será sempre um político das sombras, não das luzes.

    Dilma não tem isso. Dilma não gosta de falar, atrapalha-se quando discursa, fica aborrecida quando questionada. O que me leva a concluir que ela talvez nunca quisesse realmente estar tão exposta quanto está. Talvez ela faça sacrifícios para exercer o cargo.

    Por essa razão, sinto pena de Dilma. Sei que já vão gritar: “Tinha de ter pena dos brasileiros, que...”. Sei, sei. Mas não estou falando do governo de Dilma, que de fato é ruim. Estou falando da pessoa e da cruz que tem de carregar. Suponho que Dilma teve, por exemplo, de receber esse rapaz que faz na internet o perfil “Dilma Bolada”. Os marqueteiros devem tê-la forçado a suportar tal constrangimento. Ela tirou fotos com ele, os dois cabeça com cabeça, sorrindo. Ele começou esse perfil, uma página bobinha no Facebook, quando tinha 19 anos, idade em que as pessoas, se não forem precoces como um Rimbaud, são mesmo bobinhas.

    Esse menino ficou famoso graças à ligação com Dilma, ganhou por isso patrocínios indiretos do PT. Recebeu gordo dinheiro. Lucrou com a imagem de Dilma. E agora anuncia que está “rompendo” com a presidente. Um rapazote de 25 anos, que nunca foi nada além de fake em rede social, diz que “retira o apoio” à presidente do Brasil. E a presidente, além de todas as tragédias do seu governo, além da sua natural incompatibilidade com certas funções, além dos problemas com a oposição e até com a situação, tem de lidar com isso. Francamente. Coitada da Dilma.


    02 de outubro de 2015 | N° 18312 
    PIANGERS

    Sou contra


    Sou contra a batata frita com hífen. Sou contra ideia sem acento. Sou contra escrever zoeira corretamente. Acaba com toda a beleza da zuera. Sou contra porque, por que, porquê e por quê. Sou contra celulares com telas grandes demais. Sou contra utilizar a imagem da televisão pro juiz decidir se foi pênalti ou não.

    Sou contra raízes de árvores que destroem calçadas. Sou contra calçadas construídas em cima de raízes de árvores. Sou contra buzina. Sou contra o Programa do Ratinho. Sou contra o gosto de melancia velha. Sou contra quem diz que o povo brasileiro é corrupto e merece os políticos que tem. Ninguém merece.

    Sou contra o aumento do dólar. Sou contra o Fred na seleção. Sou contra ter que tirar o sapato pra passar no raio X do aeroporto. Sou contra preencher fichas longas pra fazer o checkin em hotéis. Sou contra tatuagem no pé. Sou contra carro rebaixado. Sou contra celular que quebra com qualquer quedinha. Sou contra o Sarney, o Barbalho e o Cunha. Sou contra senha pra internet do restaurante.

    Sou contra comida sem gosto. Sou contra banheiro sujo. Sou contra bafo de cigarro. Sou contra insensibilidades. Sou contra quem paga insensibilidade com mais insensibilidade. Sou contra a narração do Tiago Leifert no Fifa. Sou contra motorista babaca. Sou contra o parcelamento do pagamento dos servidores públicos. Sou contra os benefícios dos deputados. Sou contra quem não liga pra mãe de vez em quando pra dizer “eu te amo”.

    Sou contra “não pode passar”. Sou contra pinhão quando vem podre. Sou contra o novo padrão de tomadas. Sou contra criança se machucar. Sou contra pessoa boa morrer. Sou contra não existir alienígena. Sou contra viver só cem anos. Sou contra praia com repuxo.

    Sou contra comentários trouxas na internet. Sou contra trocar a senha do e-mail da firma de três em três meses. Sou contra tirar frases de contexto por crueldade. Sou contra garçom que marcou chope a mais. Sou contra filme bom que desaparece do Netflix. Sou contra viver a vida preocupado com a opinião das pessoas que não gostam de você. Sou contra encher linguiça, mas às vezes é necessário. Às vezes, sou a favor.

    quinta-feira, 1 de outubro de 2015



    01 de outubro de 2015 | N° 18311
    EDITORIAL ZH

    A DANÇA DOS MINISTROS


    Além de ter demitido o ministro da Saúde por telefone para levar adiante a reforma ministerial, a presidente Dilma Rousseff está promovendo uma verdadeira dança das cadeiras nos ministérios da cota petista. Se prevalecerem as intenções no anúncio oficial, o novo primeiro escalão do governo federal irá contemplar principalmente as pretensões do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além disso, ampliará consideravelmente a presença do PMDB. Mais uma vez, o que menos conta são os interesses da população de maneira geral, que é diretamente afetada pelas mudanças.

    Ainda que o total de pastas seja reduzido de 39 para 29, como pretendido, as mudanças ficarão longe de configurar uma reforma administrativa, como forma de contribuição do poder público para o ajuste fiscal. As alterações, num momento em que pesquisas de opinião reiteram o desgaste na credibilidade da presidente da República, visam mais a facilitar a aprovação de projetos de interesse do Planalto e a dificultar a instalação de um eventual processo de impeachment do que a conter custos.

    O aspecto mais criticável na reforma ministerial movida por interesses políticos é o descaso com a competência técnica no preenchimento de pastas. É lamentável que indicações em áreas tão relevantes para a sociedade, como educação e saúde, sejam incluídas num verdadeiro balcão de negociações.

    Fica difícil imaginar que, num cenário de crise como o enfrentado hoje, o país possa se livrar de vícios de uma política arcaica. Ainda assim, a sociedade precisa manter as pressões pela profissionalização da máquina pública, não só em âmbito federal, mas também nas demais instâncias da federação.



    01 de outubro de 2015 | N° 18311
    ARTIGOS -GABRIEL WEDY*

    O TRIBUNAL MAIS EFICIENTE DO PAÍS

    O Poder Judiciário, muitas vezes criticado, às vezes de modo justo, outras tantas de modo insensato, é um dos pilares do Estado democrático de direito. Sociedades sem juízes independentes não estão inseridas em democracias republicanas. O debate público sobre as questões de Estado, outrossim, faz cada vez mais parte do dia a dia das maiores democracias e dos países com os melhores índices de desenvolvimento econômico e humano. O Judiciário está inserido neste contexto global.

    Neste sentido, com alegria, tomei conhecimento de que o nosso egrégio Tribunal Regional Federal da 4ª Região foi escolhido pelo Conselho Nacional de Justiça, órgão de controle externo do Poder Judiciário, como o TRF mais eficiente, virtual e com a menor taxa de congestionamento no âmbito da Justiça federal brasileira. Não me surpreende, o TRF 4, entre outras ações de vanguarda, criou a primeira Vara Federal ambiental da América Latina e o processo virtual (referência para os Poderes Judiciários dos países desenvolvidos).

    Aliás, o processo eletrônico foi idealizado por um abnegado magistrado federal gaúcho, Dr. Sérgio Tejada Garcia. É no âmbito do TRF4, por sua vez, que construíram-se ao longo da história tantas jurisprudências inovadoras em temas relevantes. A Operação Lava-Jato, apenas para exemplificar, está sendo processada sob a sua jurisdição.

    Foi atribuída à Corte federal mais célere do país 100% de eficiência de acordo com o Índice de Produtividade Comparada da Justiça, que resume os dados recebidos pelo Sistema de Estatística do Poder Judiciário. Em virtude do processo eletrônico, implantado há cinco anos, nos primeiro e segundo graus e em todas as matérias, o TRF4 foi considerado o mais virtual, com um índice de 96% de informatização no processamento das ações. No primeiro grau, que compreende os Estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, 100% das novas ações foram processadas eletronicamente.

    Esses dados positivos não são obra do acaso, mas o resultado do abnegado trabalho de desembargadores, juízes e servidores, além do planejamento e investimento da Corte na qualificação do seu capital humano.

    *Juiz federal, presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), biênio 2010-2012


    01 de outubro de 2015 | N° 18311 
    DAVID COIMBRA

    O nude do Stênio

    Vi as fotos do Stênio Garcia sem roupa na internet. As pessoas disseram que ele “fez um nude”.


    Gosto desse eufemismo. Nude. Antes as pessoas ficavam peladas, o que é desagradável. Uma pessoa pelada anda por aí balançando suas partes, ela não se preocupa com a assistência, ela não quer provocar ninguém nem mostrar um belo corpo, não: ela está pelada como um bicho. Um bicho não fica pelado, ele está sempre pelado. Seu estado natural é ser pelado, o estranho é ver um bicho vestido. Assim é um ser humano pelado. Um bicho.

    Já um ser humano “nu” é diferente. “Nu” é mais divertido. “Nua”, mais ainda. Se você escrever “Ela estava nua. Completamente nua”, se você escrever isso, escreverá sussurrado, rouco, escreverá com os olhos semicerrados e a boca entreaberta. Ou, pelo menos, será lido assim.

    E você pode melhorar o texto, vamos lá:

    “Ela acordou completamente nua, numa cama estranha”.

    Uh! Temos uma história aqui! Garanto que você quer continuar. Tipo: “Depois de alguns segundos de perplexidade, ela se sentou no colchão. Olhou em volta. Não conhecia aquele quarto. Não se lembrava de nada da noite anterior. Caminhou, sentindo nos pequenos pés descalços a maciez de um tapete tão alto, que seria capaz de esconder as vergonhas mais inconfessáveis. Deslizou até a grande janela. Abriu a cortina. E viu o Empire State. Estava num apartamento suntuoso, em um andar elevadíssimo de um arranha-céu de Manhattan”.

    Ah, que bela história nós contaríamos sobre essa mulher completamente nua que acordou numa cama estranha! Mas estamos aqui para falar do Stênio Garcia pelado, que fazer? É o assunto do dia...

    Como havia dito, tenho a maior simpatia por essa palavra, “nude”. Você não fica nude. Você “faz” nude. É algo artístico, até. É uma obra. E é muito delicado, muito polido, como diriam os americanos. Porque, se você fizer um nude, algum crítico pode olhar e dizer:

    – Não gostei muito deste seu nude.

    E tudo bem! Ele não está chamando você de bagulho, não está dizendo que você anda fora de forma nem nada. Você pode ir lá e mudar a coisa, pode fazer outro nude. Pelo menos é essa a impressão que passa, e é isso que importa.

    O nude do Stênio Garcia, por exemplo. Vi dois: o de ladinho e o de frente. O de frente não aprovei muito, e digo isso não como crítica à condição física do Stênio, que, aos 83 anos, está ó-ti-mo, mas como analista de nudes. Não aprovei porque ele parece desanimado, está com os braços largados ao longo do corpo, olhando para a câmera com resignação, como se dissesse para a esposa, ao lado: “Está bem, vamos fazer esse nude...”

    Não! Um nude não pode ser feito com reticências. Tem de ser feito com exclamação. Ou até com uma interrogação insinuante: hmm? Mas nunca assim, como fez o Stênio no seu nude frontal, onde ele parece estar apenas pelado.

    O de ladinho, sim. O de ladinho é um bom nude. Stênio cuida da silhueta, encolhe a barriga e... sensualiza... Aliás, sensualizar é outro verbo de que gosto. Inclusive... mas vamos deixar esse assunto para outro dia, pensar no Stênio pelado me esgotou a verve.


    01 de outubro de 2015 | N° 18311 
    L.F.VERISSIMO

    Caretice


    Sou tão careta, que ainda uso o termo “careta”. Nos últimos 50 anos, minha caretice se manifestou principalmente numa absoluta indiferença pelo rock. Não deveria ser assim, porque vi e ouvi o “rock” nascer. Estava nos Estados Unidos quando as primeiras músicas do “rhythm and blues”, até então feitas por negros exclusivamente para negros, começaram a ser produzidas por brancos para brancos, com o nome de “rock’n’roll”. Apareceram as primeiras bandas brancas da nova música, como a de Bill Haley e seus Cometas, e não estava longe o surgimento de Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e outros. 

    Aconteceu com o “rhythm and blues” uma usurpação parecida com a que acontecera com o jazz. Nos anos 20 e 30, já havia grandes músicos de jazz, como Louis Armstrong, tocando para negros e brancos, mas o título de “Rei do Jazz” foi dado a Paul Whiteman, branco como seu nome, que liderava uma banda branca como ele. Na Inglaterra, outro estilo antigo, chamado “skiffle”, americano de nascença mas adotado pelos ingleses, incorporou o “rock” e deu origem aos Beatles. 

    Que eu acompanhei até a dissolução do grupo, quando, por alguma razão, decidi que meu interesse pelo rock também se dissolvia. Claro que meu gosto pelo jazz, pela música popular brasileira e pela música erudita influenciou a rejeição. E, pelo entusiasmo do público em eventos como esse Rock in Rio, imagino o que perdi desprezando o rock nesses anos todos. Mas o que fazer? Caretice não se explica.

    A grande novidade prometida pela Nasa era, afinal, a presença de água líquida salobra em Marte. O que não deixou de ser um anticlímax. Não sei o que eu esperava, mas as especulações sobre o que teria sido encontrado se multiplicavam. As sondas mandadas ao planeta vermelho teriam fotografado seres vivos rondando-as, chutando seus pneus e entortando suas antenas. Teriam sido descobertos vestígios de uma antiga civilização que ocupara o planeta num passado remoto, inclusive as ruínas de um McDonald’s carcomidas pelo vento solar. Etc. 

    Mas não: a novidade, nada espetacular, era a água. O que deve nos animar na presença de água em Marte é a possibilidade de colonizá-lo, mandando para lá famílias inteiras, como as que colonizaram o Novo Mundo num passado não tão remoto. Uma viagem para Marte levaria nove meses, seria uma aventura inédita na experiência humana. Mas aí você começa a imaginar as agruras da viagem. Nove meses, as famílias apertadas numa cápsula espacial, e as crianças perguntando a toda hora:

    – Nós já chegamos?

    Não me animei.