sábado, 8 de abril de 2017



08 de abril de 2017 | N° 18814 
LYA LUFT

Direitos de todos, e todas

Já inventaram – inventam demais sobre a gente – que escrevo sobre mulheres, que falo para as mulheres... Só ainda não vi dizerem que escrevo como mulher. Mas há muitos anos, querendo me elogiar, um crítico de renome escreveu que, “embora sendo mulher, Lya Luft escreve com mão de homem”. Naquela época, ainda ficava aborrecida por um dia ou dois com essas eventuais bizarrices. Hoje, nem cinco minutos. (Nem tudo piora com o tempo...). 

Afinal, o que seria escrever com mão de homem? A alternativa seria: ou com coração de mulher? Um mais grosseiro, outra mais delicada? Um mais lógico, outra em devaneios? Um sobre temas importantes, outra sobre amenidades? Assisti a palestras e seminários sobre o tema, aqui e em outros lugares do mundo, e não vi chegarem a nenhuma conclusão razoável.

Mas, nessa gangorra natural nas coisas da moda, umas sérias, outras fúteis, a questão (grave) da mulher retorna sempre. Devo dizer – concordando com o que escreveu outro dia Cláudia Laitano aqui na ZH – que em minha casa, talvez sendo meu pai um intelectual liberal, nunca senti minha mãe inferiorizada, ignorada, ao contrário: ali havia respeito e parceria. Nem eu, na escola, na universidade ou na profissão, me senti submetida a algum patriarca. 

Talvez eu fosse demais distraída, ou simplesmente o fantasma saiba a quem aparece. Nunca trabalhei como funcionária de uma empresa: por estes dias, diante da minha curiosidade meio incrédula, dois amigos empresários me afirmaram que, sim, no início da carreira, muitas vezes a mulher ganha menos do que o homem, mas depois, “conforme mostra suas qualidades, ela ganha o mesmo”.

Quase não acreditei: ah, então, quando a inferior mostra serviço, ganha o mesmo que o mancebo, que, segundo essa afirmação, não passa por essa fase de experiência? Que mundo absurdo, atrasado. Que mentalidade diminuta. Que heroínas temos de ser nós, mulheres, se a sociedade do trabalho ainda pensa assim. 

Para não falar das grosserias eventuais com colegas, com amigas, com namoradas, com familiares, que se permitem isso, alguns trogloditas se achando o máximo. Apoio as atrizes que apareceram com camisetas iguais “Mexeu com uma, mexeu com todas” após incidente infeliz recentemente, numa grande empresa de comunicação, e apoiadas por ela.

Há muito pelo que lutar, porque às vezes aparecem manifestações patéticas de quem se diz “feminista”: “sou gostosa, tenho a boca vermelha, uso biquíni, mas sou capaz”. Tenho de ser gostosa? Usar batom cereja ou morango... ou não serei feminina?

O tema é sério e complexo, apesar das bizarrices e folclores que eventualmente se constroem em torno dele: o mundo precisa remover essa nódoa medieval e grosseira da nossa cultura, que ainda atinge tantas mulheres. Para que o bom combate possa se concentrar em dignidade e oportunidades para todos: velhos, crianças, homens, mulheres, de todas as etnias, orientações sexuais e classes sociais.

Com tanta coisa dramática nos convocando em tantos lugares e com tantas pessoas, violências indizíveis e brutais injustiças, ainda teremos que exigir e provar que, mesmo sendo “diferentes”, nós, mulheres, deficientes, negros, brancos, amarelos, gays ou outros, temos direito igual a manifestação, crescimento, oportunidade, realização e, sim, felicidade?



08 de abril de 2017 | N° 18814 
MARTHA MEDEIROS

Todos os sentidos da vida

No final das contas, o que somos? Matéria bruta esculpida por desejos, projeções e inocência

Assisti ao filme que deveria ter ganhado o Oscar se tivesse concorrido: Mulheres do Século XX, de Mike Mills, com a estupenda Annette Bening, que também mereceria a estatueta. Na verdade, o filme concorreu apenas na categoria roteiro, e não levou. E a Academia deve ter razão, claro. Eu é que tenho uma queda pelos alternativos.

A história se passa em Santa Bárbara, Califórnia, 1979. Dorothea, 55 anos, vive num casarão antigo que está sendo reformado, e cria sozinha um filho de 15, Jamie. Para ajudá-la a educar Jamie, Dorothea convoca reforços: a melhor amiga dele, uma lindinha de 17, e uma inquilina outsider de 24. É a força-tarefa que todo adolescente sonha.

Era uma época em que o cigarro ainda não era demonizado e o cinto de segurança não passava de um acessório supérfluo de Fuscas e Mavericks. Logo ali, dobrando a década, iríamos nos apavorar com a Aids, perder John Lennon e começar a ajoelhar para o politicamente correto, sem falar na internet, que viria mudar tudo. Era melhor naquele tempo ou avançamos? Não pergunte para essa minha alma riponga.

Há cenas inesquecíveis. Dorothea tentando entender a cultura punk, mas se rendendo, no máximo, ao Talking Heads. A palavra menstruação sendo invocada à mesa do jantar para “quebrar paradigmas” – em mais uma atuação carismática da atriz Greta Gerwig. A turma reunida em torno da tevê assistindo a um discurso histórico de Jimmy Carter. E o expressivo ator Lucas Jade Zumman, que interpreta Jamie, nos ganha do início ao fim. Um garoto cool descobrindo a vida e a sexualidade através de três mulheres malucas e divinas.

O título sugere um filme feminista, e também é. Vemos mulheres donas de seus narizes que recusam o título de piranhas por privilegiarem o sexo, mas também vemos mulheres modernas reivindicando o direito de serem mães e sentindo falta de romantismo e fantasia. Vemos tudo, porque vida é isso – tudo.

Ainda o filme: é sobre o que a gente pensa que seremos no futuro, sem cogitarmos que o destino nos levará para um caminho diferente do que sonhamos. É sobre um “sentido da vida” magnânimo que não existe nem nunca existiu: o sentido está na emoção e na perplexidade de cada dia. É sobre a dificuldade de conhecermos alguém profundamente, em suas fragilidades e grandezas. No final das contas, o que somos? Matéria bruta esculpida por desejos, projeções e inocência.

Mulheres do Século XX é divertido, terno, nostálgico, psicodélico, humano, inteligente, poético, encantador. Um mosaico de pequenas descobertas e um grande consolo: a vida não precisa de sentido. Basta vivê-la.


08 de abril de 2017 | N° 18814 
CARPINEJAR

Injustiça no lar

Você lava a roupa, estende, arruma as camas, ajeita os ambientes progressivamente dos quartos à sala, esfrega os banheiros, desmonta a bagunça generalizada, cozinha, limpa as panelas e a louça, seca e guarda os pratos, recompõe as prateleiras, varre, encera o chão, deixa o universo brilhando, lustroso, para não ser festejado.

Dedicou quatro horas do seu dia para absolutamente nada. Executou um cronograma rígido e hierárquico de faxina (uma tarefa de cada vez), cuidando para que sobrasse tempo para sair ao serviço, e não ganhará, ao final, um mísero “muito obrigado”.

Foi uma trabalheira inútil e anônima. Conheceu a essência da injustiça, que nasce da sobrecarga do lar. Como repetirá a rotina na manhã seguinte, estará escravizado pela sua disposição e força de vontade.

Não será admirado, não será elogiado, não receberá cafuné e salva de palmas. E, o mais grave, você que está errado. Pois não havia necessidade, ninguém pediu para que fizesse coisa alguma. Você fez porque quis, porque não conseguiu esperar. A casa se arrumaria sobrenaturalmente, comandado pela sombrinha e espírito da Mary Poppins. Antecipou-se de modo egoísta, por absoluto capricho.

O que incomoda é que, além da completa ausência de reconhecimento e recompensa, você ainda terá o estigma de doente. Acabará mal falado. Sofrerá bullying da família inteira. Todos dirão que é um neurótico, um maníaco por limpeza. E que deveria procurar tratamento terapêutico, já que jamais sossega.

Nas conversas com amigos, não escutará de sua esposa ou de seu marido que é um exemplo maravilhoso, que cuida de tudo e sempre facilita a vida. Ouvirá, por sua vez, que é autoritário, impositivo e não oferece chance para qualquer um demonstrar a sua boa vontade.

Os preguiçosos são tão preguiçosos que não cuidam nem de sua culpa e repassam a responsabilidade adiante. Esquecem que não há empregada doméstica para cumprir o serviço, esquecem que o descanso não vem primeiro do que o trabalho, mas depois, resultado e glória da ordem.

É como revivêssemos a crença da teoria da geração espontânea, que vigorou até meados do século 19. Rãs, cobras e crocodilos eram gerados a partir do lodo dos rios, assim o fogão, a pia e a geladeira ressurgem limpas de nosso abandono.

Não entendo como ocorreu a inversão. Limpeza hoje é doença, sujeira é independência. Limpeza é tirania, sujeira é democracia. Limpeza é invasão da intimidade, sujeira é respeitar a liberdade do próximo.

Aqueles que se dedicam a cuidar da casa e da criação dos filhos, simultaneamente ao seu emprego, são identificados como ansiosos. Matam-se de trabalhar e ainda aguentam o questionamento perverso de sua reputação.

Os preguiçosos nunca dão o braço a torcer. Nem os braços são torcidos nos baldes da gentileza.



08 de abril de 2017 | N° 18814 
ANTONIO PRATA

MERCURY CARAGUÁ, R$ 79,99

A tecnologia avança tão rápido, que não está longe o dia – opa, olha o dia vindo aí, é hoje o dia, passou o dia – em que os algoritmos te conhecerão mais do que você mesmo.

Sábado, você vai almoçar num restaurante. A ideia é correr no fim da tarde. Você já deu um Google nos horários em que o Minhocão abre pra pedestres. Seu celular sabe pelo GPS e pela lista “Corrida 1” do Spotify que você gosta de correr no Minhocão aos sábados e por isso, quando você dá o Google “Minhocão+horário +pedestres”, ele começa a te oferecer propagandas de tênis e shorts e isotônicos. Você pede um peito de frango com batata doce e salada verde (seu celular te anuncia promoção de chia, óleo de coco, “whey protein”). 

O garçom pergunta: “Um chopinho pra acompanhar?”. Você hesita. O algoritmo também. Você pensa, poxa, um chopinho só, que mal tem? Seu algoritmo, porém, te conhece melhor do que você e sabe que mal tem. Ele sabe que depois do primeiro chope você vai tomar o segundo e os dois chopes te levarão a desistir da corrida. 

Ele te lembrará que vai passar Linense x São Paulo às 15h, indicará que a cerveja Júpiter 10 Lúpulos tá em promoção no bar Lira, sugerirá uma linguiça curada de Catanduva pra acompanhar. Bastará você se aproximar do Lira, uma hora mais tarde, pra que o celular dispare “Xanadu Sauna Mista”, “Marguerita’s Massagem Tailandesa”, depois “Engov” e, na manhã seguinte, “Gatorade” e “Rivotril”. Você, no entanto, responde ao garçom “Um guaraná zero, amigo” e o seu celular sugere Eye of the Tiger, a música do Rocky, pra download.

Você ficou de encontrar o Douglas, mas o seu celular ouviu a sua conversa com a sua mulher, ele sabe que você não quer encontrar o Douglas e sabe que você vai dizer que terá que levar os filhos numa festa infantil. (O seu celular sabia que essa seria a sua desculpa antes que você confessasse a desculpa à sua mulher, porque essa é a desculpa canalha que você sempre dá, não só se desvencilhando de um compromisso como ainda pagando de bom pai). Quando toca o telefone e é o Douglas, portanto, seu celular põe pra tocar Dente Mole, do Tiquequê e solta uma gravação antiga da sua filha falando “Papai! Papai! O Enzo fez cocô no pula-pula!”.

Você, sua mulher e seus filhos estão descendo a Tamoios, o carro cheio pra passar 30 dias na praia. Essas são as primeiras férias em família. A preparação levou meses. Rasparam as contas bancárias. A sua mulher diz que a casa alugada no Airbnb é incrível, é enorme, o quarto de vocês é bem longe do quarto das crianças, ainda bem que a irmã dela trouxe a babá eletrônica dos EUA. Se não fosse essa babá eletrônica supersônica, não ia rolar. 

Valeu gastar tanto na casa. Valeu gastar tanto na babá eletrônica. Um segundo de silêncio e ela pergunta, aterrorizada: “Você não esqueceu a babá eletrônica, né?”. Seu celular te sugere o Ibis Taubaté, R$ 89,99, o Mercury Caraguá, R$ 79,99, doutora Rose Boucinhas, advocacia familiar, e já compra, na Amazon, o guia “Fim de semana com as crianças: 100 programas pro pai divorciado e feliz”.


08 de abril de 2017 | N° 18814 
NÍLSON SOUZA

O país do depois de amanhã

Que o Brasil é o país do amanhã já sabemos desde que a primeira caravela portuguesa aportou por estas bandas. Mas, a cada dia que passa, se percebe que esta sempre foi uma visão otimista demais. Somos, isto sim, o país do depois de amanhã, do talvez na semana que vem, do passe outro dia, do me liga uma hora dessas, do empurra com a barriga e do santo padroeiro que inventamos para justificar todas as procrastinações: São Nunca.

Sabe quando o Tribunal Superior Eleitoral vai julgar a cassação da chapa Dilma-Temer? Pode ir acendendo uma vela pro santinho aí de cima. O próprio ministro relator do processo, Herman Benjamin, depois de lembrar que as eleições de 2014 serão as mais longas da história do país, acabou concordando em dar novos prazos para petistas e peemedebistas, e desabafou:

– Não podemos ouvir Adão e Eva para que se intime a serpente.

A frase de efeito certamente provocou brilho nos olhos dos advogados de defesa. Não se duvide de que os três personagens bíblicos acabem sendo arrolados como testemunhas. Se Adão e Eva não forem encontrados, serpentes não nos faltarão.

Procrastinar é um verbinho pra lá de esquisito, meio trava-língua, com inflação de erres, mas está no cotidiano dos tribunais. Significa deixar para depois, transferir para outro dia, adiar para as calendas gregas, que, como se sabe, não existiam, eram apenas uma ironia dos romanos que não tiveram imaginação para criar o seu São Nunca.

Pois é nessa data incerta que resolveremos os problemas do país. A crise vai passar, já tá passando, mas o desemprego aumenta, as placas de “vende-se” proliferam nas cidades brasileiras, o PIB cai todos os meses, o fundo do poço já deve estar chegando ao Japão.

Até a Lava-Jato, que parecia um fenômeno de celeridade, com condenações rápidas e encarceramentos sumários de corruptos e corruptores, de repente começou a soltar delatores e delatados. Basta o sujeito contar uma historinha e já sai lépido e faceiro com a sua tornozeleira eletrônica. Faz lembrar As Mil e Uma Noites: Sherazade vai enrolando o rei da Pérsia e adiando a própria execução.

O Brasil segue esperando Janot, como os personagens de Samuel Beckett esperavam o inexistente Godot. Nossa realidade política é um verdadeiro teatro do absurdo. Agora, até o senador Renan Calheiros virou oposicionista e, ao mesmo tempo, comentarista de futebol. Disse que o governo Temer parece a Seleção de Dunga e que nós precisamos é da seleção de Tite. Como é fácil ser profeta do acontecido! Quando perguntado sobre quem seria o seu Tite, desconversou. Sabe-se lá o que estará elucubrando. Boa coisa não deve ser.

O Congresso é uma embromação só, toda semana tem votação adiada para a próxima ou para depois do apocalipse – que não chega nunca. As anunciadas reformas estruturais, o projeto de recuperação fiscal dos Estados, a reforma política, a reforma dos políticos – nada avança.

Nosso lema de país do depois de amanhã poderia ser esta citação anônima que anotei tempos atrás pensando que jamais usaria: “Não há dia melhor do que hoje para deixar para amanhã o que você não vai fazer nunca!”

Pois não é que esse amanhã chegou!

David Coimbra está em férias. Neste período, irão substituí-lo Marcos Piangers, Fabrício Carpinejar, Nílson Souza e Cláudia Laitano.



08 de abril de 2017 | N° 18814 
PALAVRA DE MÉDICO

EU ERRO, TU ERRAS...

tenho certeza de que teremos médicos mais qualificados daqui para a frente

A relação de benefício/risco inerente à profissão médica tem peculiaridades e exigências raramente encontradas em outras atividades humanas.

O estabelecimento de protocolos e rotinas visa reduzir, ainda que não consiga eliminar, a possibilidade de erro sempre presente a atormentar os profissionais mais zelosos. O intervencionismo da medicina moderna, em absoluto contraste com a parcimônia contemplativa dos nossos ancestrais, expôs de maneira fragorosa a frequência com que mesmo os mais competentes e criteriosos erram.

Consciente dessa ameaça e dos danos potenciais, a medicina moderna se socorreu da experiência protetora de atividades que convivem diariamente com o risco, que não deixa de ser trágico só porque é calculado. E destas profissões, nenhuma se revelou tão merecedora do plágio quanto a aeronáutica. Os modelos de check-list passaram a ser copiados e os diálogos das cabines de comandos foram transferidos para as portas dos blocos cirúrgicos, com resultados altamente gratificantes. Alguns vícios como, por exemplo, a supremacia hierárquica em que o subalterno se constrangia em repetir o questionário recém feito pelo chefe foram identificados e corrigidos. 

Da mesma maneira, foi desestimulada a informação presumida, tornando obrigatório que tudo, já confirmado, seja revisto em cada nova etapa. Uma experiência de aeroclube costuma ser usada para ilustrar o perigo de se presumir sem reiterar: um jovem na beira da pista, visivelmente ansioso, olha repetidamente o relógio, obviamente à espera do instrutor. Pouco depois, chega alguém, faz sinal de positivo, embarcam apressados e decolam. Minutos mais tarde, chegam juntos à beira da pista dois senhores com jaquetas idênticas onde se lia: instrutor. Imagine-se a surpresa e o desamparo mútuo de dois novatos que, por afoiteza, se descobrem entregues aos céus do mundo sem supervisão.

Incorporadas estas rotinas, o passo seguinte consistiu em copiar a moderna aplicabilidade das técnicas de simulação, trabalhadas exaustivamente pelos pilotos desde a primeira hora de sua formação acadêmica. A qualificação dos simuladores foi crescendo tanto que se percebeu que qualquer pessoa pode aprender a “pilotar” um avião de grande porte, a partir do computador. 

A propósito, para os atentados de 11 de Setembro, os terroristas foram inicialmente treinados em pequenos aeroclubes na Flórida, onde só aprenderam as técnicas mais elementares de aviação. O aprendizado subsequente, indispensável para o manejo de jumbos, foi todo feito em sofisticados programas de simulação em computadores. Depois da catástrofe, um dos instrutores referiu que lhe pareceu estranho que aqueles alunos não demonstrassem qualquer interesse pelas táticas de pouso!

Na esteira dessa experiência, as modernas escolas de medicina avançaram no desenvolvimento de bonecos que reproduzem com tal perfeição o corpo humano, que praticamente todos os procedimentos médicos podem ser ensaiados e repetidos infinitas vezes em busca da inalcançável perfeição. 

O uso de simuladores permite que a distribuição do conhecimento seja mais uniforme e, muito importante, que cada professor saiba instantaneamente o quanto o seu aluno, de fato, aprendeu, porque o mesmo programa registra os erros e acertos de cada um em treinamento. E como as máquinas não foram programadas para serem omissas ou condescendentes com os inaptos, é certo que teremos médicos mais qualificados daqui para a frente.

Essa perspectiva deslumbrante explica o entusiasmo com que o professor Newton Aerts recebe os visitantes no moderníssimo Laboratório de Simulação da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Um local a ser incluído em qualquer roteiro futuro de sucesso em nossa cidade.



08 de abril de 2017 | N° 18814 
PIANGERS

Homem de verdade


Sempre achei que existe um contrato social quebrado entre homens e mulheres, uma guerra não declarada disfarçada de romantismo. Como fui criado por mãe solteira, universo feminino bem presente, sempre tive apreço pela gentileza e a sensibilidade. Mas crescendo percebi que isso é sinal de fraqueza para homens, aqueles clichês todos de homem não chora, homem não diz eu te amo na frente dos amigos, homem tem que ter pegada, tem que chegar chegando, homem, quando descobre que vai ser pai, a vida dele acabou.

Eu escrevo essas coisas imaginando alguns homens dizerem: “Em que mundo você vive, essa conversa é antiga, isso não acontece hoje em dia”. Gostaria muito de viver nesse novo mundo, onde homens são sensíveis e amorosos, mas quanto mais conheço pessoas mais percebo contradições. A remota possibilidade de trair a esposa ou namorada é tratada com louvor e admiração no meio masculino. Mulheres bonitas passam, e os homens se cutucam. 

Os grupos de WhatsApp são intencionalmente podres – quem manda o vídeo mais podre é mais homem. As piadas, os piores comentários são os mais engraçados. O homem que está enganando a esposa é um herói. Até os mais corretos, homens de família com fotos dos filhos no Facebook, não conseguem escapar desse incentivo constante à traição, à malandragem, aos segredos

Somos incentivados uns pelos outros a, perversamente, reafirmarmos nossa falta de sensibilidade. Matar animais quando crianças, bater nos coleguinhas no colégio, reafirmar nossa aversão aos homossexuais quando adolescentes, demonstrar nossa falta de interesse na monogamia quando adultos. Quando confrontados com essa realidade, temos três argumentos: um homem que traz essas questões à tona é um traidor mau-caráter; a poligamia é um comportamento natural e ancestral e está errado o homem que ousa evoluir; as mulheres também são muito promíscuas, e, se elas não quisessem, não seríamos tão cafajestes. São todos argumentos que me soam como desculpas, como motivos para não mudar e deixar as coisas como estão.

Gostamos de imaginar que um homem que assedia uma mulher é um doente, mas me parece que é um doente incentivado por um pensamento comum constante. A televisão e o cinema reproduzem esse senso comum, a gostosona é burra, o homem de verdade é o que pega à força, passar a mão é um elogio à beleza. As músicas mais populares dizem que a novinha quer mesmo é ser violentada, que crianças são objeto de desejo, que meninas que bebem merecem ser abusadas. A mensagem é repetida tantas vezes nos bares, grupos de WhatsApp, rádio, TV, cinema e jornal: as mulheres não têm valor, estão aqui para servir aos homens e, se reclamarem, são loucas e desequilibradas.

A guerra entre homens e mulheres não está começando agora, ela sempre existiu. O que as mulheres se esforçam para ter agora é uma trégua. Precisamos ouvir, aprender, evoluir. Parar o ataque. Reaprender o que é ser homem.

08 de abril de 2017 | N° 18814 
L.F.VERISSIMO

Cultura de sala de espera

Revistas de salas de espera são renovadas com notória lentidão. Na única Caras disponível para ler enquanto você espera, o Fernando Henrique ainda é presidente, a Xuxa ainda está grávida e a Sandy e o Junior ainda estão juntos. Mas já foi pior. Tenho uma respeitável cultura de sala de espera e lembro quando a antiguidade das revistas era ainda maior.

– Podia me passar uma revista, por favor?

– Qual a que você quer?

– O que é que tem?

– Deixa ver... Tem uma Cruzeiro de 1951... Uma Cigarra de 1949... Metade de uma Revista da Semana de 1948...

– Que mais?

– Uma National Geographic de 1940... Revista Fon Fon...

– Que ano?

– 1938. Uma Eu Sei Tudo de 37... Seleções de 33... Esta aqui eu não sei em que língua é.

– Deixa ver. Parece aramaico... O pergaminho está se esfarelando. Não será etrusco?

– Não, não. Acho que os etruscos não usavam pergaminho.

– Não tem nada mais velho?

– Bom, tem esta pedra com hieróglifos, mas eu não sei de que ano é.

– Vai essa mesmo.

Nomes

Walter Benjamin gostava de inventar nomes. Mesmo antes de ser forçado a escrever com outro nome durante a ascensão do nazismo, usou pseudônimos como Agesilaus Santander. Seu último livro publicado em vida, na Suíça, saiu com o nome Detlev Holz, que era como ele assinava seus artigos clandestinos na Alemanha. Benjamin também amava alegorias.

Seu fim é conhecido. Suicidou-se em Port Bou, na fronteira entre a Espanha e a França ocupada pelos alemães, desesperado – é o que se imagina – pela possibilidade de ver barrada a sua fuga. Não ficou vestígio dele em Port Bou. Depois se soube que as autoridades locais tinham alugado um nicho no cemitério da cidade, por cinco anos, para o corpo de um certo Benjamin Walter, alemão, presumivelmente católico como todos lá enterrados. No fim dos cinco anos, os restos de Benjamin Walter foram transferidos para uma vala comum, onde até seu pseudônimo final desapareceu.

Depois da guerra, era tanta gente procurando o túmulo de Walter Benjamin em Port Bou, que o cemitério improvisou um, para não frustrar os turistas. Hoje, além do falso túmulo, existe um monumento à memória do escritor numa encosta de montanha. Dizem que é muito bonito. O corpo do “saturnino” (como o chamou Susan Sontag) Benjamin segue misturado com o de outros anônimos, numa alegoria perfeita para quem vivia escondendo o nome.

sexta-feira, 7 de abril de 2017


Jaime Cimenti

Maria do Socorro, candidata a deputada 

Maria do Socorro é professora aposentada de uma escola pública. Filhos criados, vida arrumada, tinha tudo para seguir normalmente sua trajetória e aproveitar com o marido e a família a vida de jubilada, dentro de suas modestas possibilidades. 

Na juventude, ela participou de política estudantil e, depois de adulta, sempre esteve atenta aos problemas de sua categoria profissional e sempre procurou atuar junto à administração pública, aos órgãos de classe e aos meios de comunicação. Sentia-se cansada, desiludida e tentou esquecer dos problemas e viver sua vida. Não conseguiu. O marido disse para ela parar de reclamar tanto e, quem sabe, se candidatar a algum cargo político, para tentar construir um novo Brasil. 

Na verdade ela já pensava nisso, mas a coisa ficava na conversa, na teoria e esbarrava na dura realidade e nas impossibilidades. Há umas semanas, Maria do Socorro decidiu candidatar-se a deputada estadual. Ela imaginou que muitos brasileiros como ela estão pensando em votar apenas em candidatos não detentores de cargos eletivos e, como conhece muitas pessoas e está disposta a lutar, pensou que poderia ser a candidata dos insatisfeitos com os políticos e com a política que estão aí. 

Maria sabe que sem muito dinheiro e apoiadores, sem ter feito trabalho comunitário e sem fama e popularidade decorrentes de atuação no serviço público, no esporte e nos meios de comunicação ou artísticos, é praticamente impossível se eleger a alguma coisa neste país. Ela sabe, mas quer contrariar os fatos e acredita que é possível, com o corpo a corpo e as redes sociais, chegar lá. Ela sempre ensinou seus alunos a se dedicarem e a se focarem ao máximo nas suas metas, estudos e obrigações. Sempre disse que buscassem soluções e caminhos novos e que não deixassem de acreditar nos seus sonhos. Sempre ensinou-os a serem diferentes, a viverem com criatividade e intensidade. 

Agora está pregando, mais uma vez, tudo isso a si mesma e quer colocar seus sonhos, mesmo os mais quixotescos, em prática. Alguns familiares e amigos dizem que ela está sonhando acordada e delirando, outras pessoas sentiram o tamanho de sua decisão e vontade e até prometem ajudar, mesmo sabendo das dificuldades e da provável derrota na empreitada. Maria do Socorro sabe que dezenas de milhares de pessoas vão se candidatar, no Brasil, nas próximas eleições e que, como de costume, pouquíssimos vão conseguir extrair das urnas os diplomas de eleitos. 

Mas ela mantém seu sonho, sua decisão, e nada a deterá, mesmo sendo brasileira, mulher, professora e dona de pouquíssimas posses. Ela não quer deixar de sonhar o sonho impossível e pensa que muitos estarão com ela, na tentativa de renovar a velha política. Seu esposo já percebeu que é melhor não contrariar a candidata e que não adianta argumentar que ela vai fazer apenas um ou dois mil votos e que depois os companheiros de partido não vão lhe oferecer nada pelo esforço. a propósito... 

O esposo de Maria do Socorro e ela própria sabem que, no fundo, estão apenas participando de uma tentativa de mudar o que está aí e de motivar as pessoas a renovar. Sabem que isso não é pouco. Pensam, quem sabe, que caia um raio dourado e apareça um arco-íris quádruplo e que Maria saia vitoriosa das urnas. No Brasil até o passado é imprevisível e tudo pode acontecer. Por que não Maria do Socorro deputada, botando os caciques vitalícios a pendurarem suas velhas e espertas chuteiras? 

Quem sabe um marqueteiro genial consiga fazer com que a candidata básica, Maria do Socorro, receba alguns milhares de votos dos eleitores básicos, mostrando que ela é a cara, a cabeça e o coração deles. O novo sempre vem. Quem sabe a velha/nova novidade seja a deputada Maria do Socorro, que anda sonhando alto e querendo mudanças, como milhões aí.  

Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/04/colunas/livros/555588-amor-crime-punicao-e-perdao.html)


Amor, crime, punição e perdão 

Nossas horas felizes (Editora Record, 280 páginas, tradução de Maryanne Linz), da aclamada e multipremiada escritora coreana Gong JI-Young, em síntese, é um denso e belo romance que trata de amor, crime, punição e perdão. 

Por suas qualidades em termos de forma e conteúdo a obra, de escrita brilhante, tornou-se um best-seller internacional, com mais de 10 milhões de exemplares vendidos no mundo. Gong JI-Young é uma das romancistas mais consagradas da Coreia do Sul, tendo sido publicada em 12 países. Venceu o Prêmio Literário Yi Sang, o Prêmio Literário do Século XXI, o de Melhor Romance Coreano, o Prêmio OH Young-soo e o Prêmio Especial de Comunicação da Anistia Internacional pelo romance Nossas horas felizes, há poucos dias publicado no Brasil. 

Nossas horas felizes traz inicialmente na trama a jovem Yujeong, linda, rica e inteligente, da alta sociedade coreana, que, indiferente a tudo e todos, não consegue encontrar um sentido para a vida. Depois de três tentativas de suicídio, ela acaba definhando em meio ao álcool e ao desespero. Seus familiares não se esforçam para entendê-la, com exceção da tia freira, a irmã Mônica, com quem sempre teve uma ligação especial. 

Disposta a trazer a sobrinha de volta para a vida, Mônica sugere que Yujeong visite, com ela, semanalmente, um jovem preso que está no corredor da morte, para um trabalho voluntário. Yunsu, o jovem criminoso, anseia deixar o mundo por entender que só assim conseguirá se redimir de seus muitos pecados. Inicialmente, ele parece apenas uma pessoa agressiva e nada disposto a arrependimentos, mas depois as coisas mudam, com o contato com a jovem doente. 

O jovem preso é de origem humilde, mas tem muita coisa em comum com a menina aristocrata. Os dois têm um triste passado de abusos físicos e psicológicos. Dos encontros semanais de algumas horas, às quintas-feiras, surge uma conexão inesperada entre eles e que gradualmente desperta nas pobres almas um desejo novo de viver. 

Os dois jovens revelam um ao outro seus segredos mais obscuros e as poucas horas felizes juntos produzem efeitos que eles nunca imaginaram. Entre um capítulo e outro da obra estão epígrafes com poemas de T.S. Eliot, frases de Nietzsche, Albert Camus e Goethe, entre muitos outros autores clássicos, revelando leituras e inspirações que a autora utilizou para compor seu trabalho, que apresenta linguagem elaborada e referências literárias requintadas. 

lançamentos 

Eduardo II (Movimento, 192 páginas), do clássico britânico Christopher Marlowe, tradução interlinear, introdução e notas de Elaine Indrusiak e Elvio Funck, traz a tragédia histórica sobre o Rei Eduardo II. Marlowe, ao lado de Shakespeare, é um gigante do teatro elisabetano e impressiona pela naturalidade com que trata de temas que se tornariam tabus. Bíblia de Estudo da Reforma (Sociedade Bíblica do Brasil, 2.304 páginas, R$ 159,90) comemora os 500 anos da Reforma Protestante de Lutero. Há notas, artigos e orações com base em cada livro das escrituras sagradas. 

Há sempre uma introdução sobre o pensamento de Martinho Lutero e referências históricas. Blasfêmeas - mulheres de palavra (Casa Verde, 216 páginas), organizado por Marilia Kubota e Rita Lenira de Freitas Bittencourt, traz poemas de Ana Mariano, Ana Mello, Laís Chaffe e Maria Rezende, entre outras, num total de 64 autoras, contendo sussurros, impropérios, risadas e gritos de dor e de êxtase. Hilda Hilst, claro, na epígrafe. - Jornal do Comércio 

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/04/colunas/livros/555588-amor-crime-punicao-e-perdao.html)

07 de abril de 2017 | N° 18813 
CARPINEJAR

Campinho de piche

O campo de futebol da Escola Municipal Imperatriz Leopoldina, no bairro Petrópolis, era de piche e brita. As pedras saltavam do solo escuro da quadra, pequenas lâminas refletidas pelo sol.

Eu sabia o quanto custaria qualquer queda. E não havia partida, sempre empolgantes e aflitivas em busca do escore, em que eu não caísse fragorosamente e esfolava as pernas. A textura da carne se esticava em arranhões e me conformava com o que tínhamos e com o que podíamos.

Suportava a desvantagem do campinho. Não parava o prazer de futebol pelo sofrimento antecipado. Levantava os prós e os contras, fazia um balanço do suor e seguia com o hábito de me reunir com os colegas por uma meia hora de chutes e cabeceios.

Não jogo mais bola na escola, mas permaneço me raspando todo na vida. A diferença é que não uso mercurocromo, não sopro as feridas, não coço as casquinhas antes da hora. O que mudou é que fico em carne viva por debaixo da pele. Às vezes, não encontro uma posição para dormir.

Não tenho controle sobre os fatos. Com o tempo, a vida é cada vez menos minha. Como se eu precisasse me conformar em apenas limpar a ferida para não infeccionar.

É a morte de um amigo, é a doença de um familiar, é o egoísmo de alguém próximo, são o desentendimento e a briga com quem amamos, é a velhice preocupada dos pais. Mobilizo a maior parte de minha rotina em situações imprevisíveis.

Acordo de manhã disposto a jogar, mas vivo sendo arremessado ao chão, o sangue não tem tempo de escorrer e já estou de novo em pé. Não é teimosia, masoquismo, mas amor inexplicável pela sensibilidade.

Não deixo de sentir porque sofro, é por sofrer que me torno ainda mais sensível e entendo quem se machuca e estendo a mão para ajudar a levantar e seguir em frente, respeitando tudo o que foi experimentado lá atrás, na infância de meu futuro.

Acho que venho me acostumando a me despedir. Não somente dos outros, mas de mim mesmo. É uma longa aceitação desde a infância, desde os cambaleios no piche. O meu possível é o meu melhor.

Continuar, eis o que posso fazer. Com a curiosidade pelo placar até o último minuto. Sem reclamar das pedras, que não têm culpa de meus tombos.

David Coimbra está em férias. Neste período, irão substituí-lo - Marcos Piangers, Fabrício Carpinejar, Nílson Souza e Cláudia Laitano.




07 de abril de 2017 | N° 18813 
NÍLSON SOUZA

VELHOS JORNALISTAS

Os fantasmas do Copacabana mal podem esperar pelo encontro de amanhã. Outro dia, estive lá com a minha turma da Fabico e pude observá-los, inquietos em suas fotografias nas paredes do restaurante, alguns sorrindo, outros fazendo morisquetas para o fotógrafo, a maioria olhando sério para a posteridade. Junto com Ivo Stigger, Juarez Fonseca, Mário Marcos de Souza e Claiton Selistre, meus colegas de faculdade, me envolvi no desafio de identificá-los e de recordar suas funções nas diversas redações de jornais por onde também passamos. Os mais belos capítulos da história do jornalismo gaúcho, não tenho dúvida, estão na galeria de fotos do Restaurante Copacabana.

Pois, amanhã, os fotografados que já se foram e os que se mantêm firmes e fortes dividirão o espaço para celebrar o jornalismo. A ideia do encontro partiu de Ibsen Pinheiro, que convocou para uma reunião de pauta informal a Núbia Silveira e o Carlos Bastos, todos mestres do ofício. A proposta inicial era convidar alguns conhecidos para o almoço, mas a lista começou a crescer. Critério básico: 80 anos ou mais. Alguns, na antevéspera dos oitentinha, também foram incluídos. Até o início desta semana, 56 veteranos da profissão já estavam confirmados.

Vem gente de Brasília, do Rio e de outros lugares. Critério secundário: só jornalistas que nasceram no Estado ou que passaram por algum veículo de comunicação da Capital. Pelo menos quatro guerreiros da informação já viraram o velocímetro dos 90: Ib Kern, com 98 anos; Hugo Hammes, com 91; Lucídio Castelo Branco e José Silveira, ambos com 90.

O evento estava marcado inicialmente para 31 de março, mas os organizadores se deram conta de que a data, por sua referência histórica, não era adequada a uma celebração do jornalismo. Ficou melhor assim: esta sexta-feira, por coincidência, é o Dia do Jornalista, data criada pela Associação Brasileira de Imprensa em homenagem ao coleguinha Líbero Badaró, assassinado quando lutava pela independência do Brasil. Não duvido de que ele também apareça no almoço.

Eu só não vou porque algum desses veteranos pode me confundir com um estagiário e me pedir para buscar a calandra.

Os velhos jornalistas sabem do que estou falando.



07 de abril de 2017 | N° 18813 
CLÁUDIA LAITANO

Mea-culpa

Em 1991, fazia muito sucesso no Brasil uma música gravada por um casalzinho de irmãos recém lançado na vida artística pelo pai famoso. Sandy, oito anos, e Junior, sete, divertiam o público interpretando, em dueto, o malicioso diálogo de Maria Chiquinha com o namorado Genaro. “Que cocê foi fazer no mato, Maria Chiquinha? Eu precisava cortar lenha, Genaro, meu bem.” Nas estrofes seguintes, Genaro pressiona, Chiquinha se esquiva – e a coisa não acaba bem: “Então eu vou te cortar a cabeça, Maria Chiquinha / Que cocê vai fazer com o resto, Genaro, meu bem? / O resto? Pode deixar que eu aproveito”.

É possível que você já tivesse esquecido, como eu, do desfecho trágico da história, apesar da onipresença do número musical nos programas de auditório da TV brasileira no início dos anos 90. Isso porque nada daquilo, que eu me lembre, parecia excepcional ou inapropriado – nem o fato de duas crianças cantarem uma música com alusões a sexo e adultério, nem o brutal desenlace do dueto com ameaça de morte e sugestão de necrofilia.

Parece um tempinho de nada, mas 25 anos foram suficientes para transformar Maria Chiquinha em uma pequena aberração. Costumes saem de moda quase tão rapidamente quanto os penteados, embora de forma menos óbvia. Há sempre uma geração pressionando a anterior para abrir espaço para novos hábitos, novas ideias, novas sensibilidades – e isso não é uma invenção da nossa época, embora a aceleração cotidiana trazida pela tecnologia nos dê a sensação de que as mudanças nunca foram tão rápidas, e o terreno onde repousamos nossas convicções nunca tenha sido tão instável. 

Algumas pessoas têm mais facilidade para, ao longo da vida, refazer os cálculos e corrigir a própria rota de forma a aproximá-la do “espírito da época”. Outras preferem se apegar ao que é conhecido – por princípios, comodismo ou simplesmente pela incapacidade de perceber os sinais mais evidentes de que as coisas já não são mais como eram.

Tenha sido escrito pelo próprio ator ou redigido por uma equipe especializada em gestão de crises, o mea-culpa de José Mayer, lançado com o objetivo de amenizar o estrago causado a sua imagem pela denúncia de assédio sexual, chama a atenção, entre outros motivos, por mencionar o componente geracional de certo tipo de comportamento. 

O ator dirige-se diretamente àqueles que consideram a persona do garanhão indomável que ele consolidou nas novelas tão divertida e inofensiva quanto os cigarrinhos de chocolate ou a degola musical da Maria Chiquinha. “Espero que este meu reconhecimento público sirva para alertar a tantas pessoas da mesma geração que eu, aos que pensavam da mesma forma que eu, aos que agiam da mesma forma que eu, que os leve a refletir e os incentive também a mudar.”

E eu acrescentaria: que o alerta seja ouvido por homens de todas as idades – e que a defesa do respeito e da civilidade não seja uma causa das mulheres, mas de todas as pessoas de bom senso.

quinta-feira, 6 de abril de 2017



06 de abril de 2017 | N° 18812
O PRAZER DAS PALAVRAS | Cláudio Moreno

Do peru

RESPOSTA SOBRE A ORIGEM da expressão é mais simples (e mais rasteira) do que imaginam alguns

É relativamente fácil a tarefa de investigar a formação, o significado e o emprego de uma palavra dentro da história do idioma. Desde a primeira vez em que foi usada por escrito, sua trajetória pode ser reconstituída nos dicionários etimológicos e nos vários córpus que a internet põe a nosso alcance. Com expressões populares, no entanto, não temos a mesma precisão, pois na sua formação intervêm muitos outros fatores imponderáveis.

Como o exemplo é sempre mais claro que a explicação, vamos examinar duas consultas sobre o mesmo tema. A primeira veio de Recife, do leitor Ubirajara T., que se dirige a mim num tom que não me permite decidir se é elogio sincero ou ironia deslavada: “Ilustríssimo Mestre! Considerando que o senhor é um daqueles que sabem tudo sobre tudo, gostaria que me explicasse duas coisas: por que as orelhas às vezes ficam vermelhas do nada? E o que isso quer dizer? Quando é a direita que esquenta, alguém está falando bem ou mal da gente?”.

Ora, caro Ubirajara, só um bom médico pode te explicar a razão das orelhas esquentarem; quanto à interpretação do fato, bem, aí depende. O povo, na sua alegre ignorância, costuma atribuir significados para essas manifestações do corpo (orelha quente, comichão na mão, no pé, etc.), interpretando-as como avisos premonitórios; o problema é que essas interpretações variam de acordo com as épocas e os lugares.

Na minha infância, na minha cidade, na minha família, esta era a tabela: orelha esquerda quente, alguém estava falando bem de mim; orelha direita, estava falando mal (nunca ouvi uma interpretação para as duas orelhas quentes...). Comichão na mão direita, dinheiro que está a caminho; na esquerda, aviso de despesa iminente. Comichão na sola do pé, viagem próxima – e assim por diante. O problema é que outros diziam exatamente o inverso: orelha direita quente, elogio; orelha esquerda, maledicência. Dizem que os chineses dão ao espirro esse significado que damos para o rubor nas orelhas, e por aí vai a valsa. Expressões e crendices populares, como vemos, não permitem jamais uma pesquisa segura; tudo fica na base do “dizem”, “acho”, etc.

A segunda consulta é sobre a origem da expressão “É do peru!”. O leitor Carlos V., de Porto Alegre, ficou desconfiado quando viu um desses especialistas de caracacá apontar duas origens diferentes para o surgimento desta expressão: “Ele afirma que a primeira se deve ao espanto dos colonizadores com a civilização inca, levando os europeus usar do Peru para dizer que algo era espetacular. 

A outra teria relação com o animal peru, que exibe comportamento extravagante e chamativo; daí compararmos com um peru as pessoas exibicionistas ou envolvidas em situações ridículas”. Credo! Que viagem! Se a expressão data, segundo ele, do período colonial, por que não aparece em nenhum texto espanhol escrito entre o séc. 16 e o 19? E em que parte do mundo o pobre do peru exibe comportamento extravagante e chamativo? Em Hollywood? 

Mas por que ir tão longe, quando a resposta é bem mais simples (e mais rasteira)? Como é que ele não levou em conta – espero que não haja crianças na sala – que peru é um dos nomes populares para o membro masculino e que, portanto, do peru faz parte de uma lista maior de expressões chulas, de sentido e emprego equivalentes, como do cacete, da p*rra, do c*r*lho? No afã de encontrar uma explicação engenhosa, o autor terminou produzindo uma peça delirante de pura imaginação.



06 de abril de 2017 | N° 18812
REPORTAGEM ESPECIAL

SARTORI APELA POR APOIO PARA PRIVATIZAÇÕES

PIRATINI ALEGA NÃO TER RECURSOS para evitar quebra de estatais ou permitir investimentos. Medida é exigência para socorro da União

Em mais uma tentativa de reerguer as contas públicas, o governo do Estado lançou uma ofensiva para privatizar estatais, incluindo companhias superavitárias. Detalhado na manhã de ontem, o plano abrange as deficitárias CEEE Distribuição (D) e Companhia Riograndense de Mineração (CRM), mas também as autossustentáveis CEEE Geração e Transmissão (GT) e Sulgás. No horizonte da equipe de José Ivo Sartori, está o programa de ajuda do governo federal, que pede a venda de ativos como garantia de socorro.

O argumento do Piratini está na incapacidade de investimento do Estado. Imerso em previsão de déficit de R$ 3 bilhões para este ano e sem recursos para aprimorar os serviços, as estatais virariam sinônimo de prejuízo em breve. Somente para manter a operação da CEEE-D, seria necessário R$ 1,2 bilhão para cobrir os rombos de 2016 e 2017 que ameaçam a manutenção da concessão. Na Sulgás, o governo calcula que precisaria investir pelo menos R$ 1,1 bilhão na construção de terminal e de gasoduto ligando Rio Grande a Porto Alegre e outros R$ 150 milhões por ano na ampliação da rede para ter competitividade.

– Para que possamos atrair investimentos para o Rio Grande do Sul no momento em que a economia começa a crescer, precisamos de oferta de energia elétrica e, consequentemente, de investimento nessas empresas. O Estado não tem condições de fazer esses investimentos, portanto, precisamos de alguém que possa ser parceiro – defendeu o secretário de Planejamento, Governança e Gestão, Carlos Búrigo.

Após rápido pronunciamento de Sartori, secretários esmiuçaram, durante quase duas horas, a situação das companhias incluídas na proposta de emenda à Constituição (PEC) enviada à Assembleia Legislativa. O projeto termina com a exigência de plebiscito para a privatização das quatro estatais. São necessários 33 votos para a aprovação. Para levar a medida adiante, a mais recente estratégia é detalhar a realidade de cada empresa para pressionar os deputados. Diante dos números negativos, caberia aos parlamentares decidir se o Estado deve arcar com rombos ou se livrar deles.

Entre os dados apresentados, destaca-se a situação da Sulgás. Isso porque a companhia está com as contas em dia e acumulou lucro de R$ 130,8 milhões em 2016. A dificuldade, segundo o secretário de Minas e Energia, Artur Lemos, estaria na incapacidade de investimento na expansão da rede, hoje restrita ao eixo Capital-Caxias do Sul.

Também superavitária, a CEEE-GT teve resultado positivo em 2016, mas com balanço puxado para cima em razão do pagamento de uma indenização da União – ou seja, receita que não se repetirá nos próximos anos. Porém, na bagagem, a companhia acumula passivo bilionário que teria de ser incluído na negociação. Conforme Lemos, o Estado não contrairia qualquer dívida:

– Não há possibilidade de o Estado assumir nenhum passivo. O resultado vai ser o que a companhia possui de ativos e passivos, faz-se uma conta, um menos o outro, e o resultado vai para o acionista.

Na outra ponta, aparecem as deficitárias CEEE-D e CRM. A companhia de energia elétrica teve prejuízo de R$ 527,1 milhões em 2016 e corre o risco de perder a concessão caso tenha um segundo ano de déficit. Já a estatal de mineração, também com as contas no vermelho, tem um único cliente – que está em crise.

RESISTÊNCIA NA ASSEMBLEIA E EM ENTIDADES DO FUNCIONALISMO

Diante do cenário, o Piratini reconhece que o avanço de pacote de privatizações é tarefa árdua. O primeiro entrave está na aprovação da PEC na Assembleia, ainda mais às vésperas do desembarque definitivo do PDT da base aliada.

– Vamos votar contra, porque temos convicção de que o governo comete erro estratégico ao tirar o Estado da atividade energética, que é área rentável – disse o deputado Luiz Fernando Mainardi, vice-líder do PT na Assembleia.

A ofensiva também é alvo de duras críticas de entidades como a Federação Sindical dos Servidores Públicos do Estado. O presidente Sérgio Arnoud diz que “lutará até o fim” para evitar a venda:

– É um equívoco enorme do governo, uma irresponsabilidade sem tamanho. Vender CEEE, CRM e Sulgás vai eliminar os últimos ativos do Estado.

Outra dificuldade está em encontrar compradores, já que o setor de energia nacional encara grave crise. O mais provável é que o governo dependa de investidores estrangeiros, avalia Rafael Herzberg, consultor da Interact Energy Consulting.

debora.ely@zerohora.com.br

A SITUAÇÃO DAS ESTATAIS

SULGÁS
Responsável pela comercialização e
distribuição de gás natural canalizado no Estado
Acionistas
51% do Estado
49% da Petrobras Gás
Receita líquida (2016)
R$ 599,3 milhões
Lucro (2016)
R$ 130,8 milhões
152 funcionários
ATRATIVOS, SEGUNDO O GOVERNO
-É lucrativa para os acionistas
-Gasodutos demandam baixa manutenção
-Estrutura de pessoal adequada
ENTRAVES, SEGUNDO O GOVERNO
-Estado diz não ter capacidade de investimento para expandir a rede
-Não conseguirá atender demanda de gás a médio e longo prazo
-Há risco de queda na arrecadação de ICMS em razão da importação de gás pelo Mato Grosso do Sul
COMPANHIA RIOGRANDENSE DE MINERAÇÃO
Responsável pela exploração, produção e comercialização
de carvão e outros minerais no Estado
Acionistas
99% do Estado
Receita líquida (2016)
R$ 160,3 milhões
Prejuízo financeiro (2016)
R$ 31,8 milhões
Prejuízo operacional (2016)
R$ 3,3 milhões
415 funcionários
ATRATIVOS, SEGUNDO O GOVERNO
-Contrato de sete anos com a Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica (CGTEE)
-Bens compõem o patrimônio
-Direito de exploração sobre jazidas de carvão com 3 bilhões de toneladas
ENTRAVES, SEGUNDO O GOVERNO
-Depende de um único cliente, a CGTEE, que está em dificuldades financeiras
-Renegociação do contrato prevê redução de fornecimento e valor menor
-Estrutura de pessoal inadequada e cara (média salarial de R$ 6,4 mil)
CEEE GERAÇÃO E TRANSMISSÃO
Responsável pela transmissão e distribuição
de energia elétrica para parte do Estado
Acionistas
66% do Estado
33% da Eletrobras
Receita líquida (2016)
R$ 1,9 bilhão*
Lucro (2016)
R$ 923,7 milhões
*Incluindo receita extra que
não se repetirá nos próximos anos
1.681 funcionários
ATRATIVOS, SEGUNDO O GOVERNO
-Está com as contas em dia
-É lucrativa, mesmo que em razão de receita que não se repetirá, proveniente de indenização do governo federal por antecipação da concessão
-Tem investimentos em títulos públicos
ENTRAVES, SEGUNDO O GOVERNO
-Acumula prejuízos superiores a R$ 300 milhões por ano em razão da renovação antecipada da concessão
-Estrutura de pessoal inadequada e cara (salário médio de R$ 14 mil)
-Soma passivos de R$ 1,3 bilhão
CEEE DISTRIBUIÇÃO
Responsável pela distribuição de energia elétrica
a um terço dos consumidores do Estado
Acionistas
66% do Estado
33% da Eletrobras
Receita líquida (2016)
R$ 2,8 bilhões
Prejuízo (2016)
R$ 527,1 milhões
3.543 funcionários
ATRATIVOS, SEGUNDO O GOVERNO
-Contrato de concessão renovado, em dezembro de 2015, por 30 anos
-Queda nos custos operacionais
-Tem bens sem relação direta com a concessão e podem ser vendidos
ENTRAVES, SEGUNDO O GOVERNO
-Tem prejuízos financeiros
-Corre o risco de perder a concessão caso tenha um segundo ano de déficit
-Não há condições de melhorar os índices de qualidade técnica sem investimento
-Estrutura de pessoal inadequada e cara (média salarial de R$ 11,4 mil)


06 de abril de 2017 | N° 18812 
PIANGERS

Quarto cheio


Adoro aquela história dos dois filhos, um pessimista e o outro otimista, cujos pais resolveram fazer um experimento. Encheram o quarto do filho pessimista de brinquedos, os melhores e mais caros jogos e bonecos e carrinhos; no quarto do filho otimista, colocaram um monte de bosta de cavalo. Quando chegou, o filho pessimista olhou todos aqueles brinquedos e começou a chorar. Não queria abri-los pois tinha certeza de que iria quebrá-los. Já o otimistinha, chegando em casa, correu para o quarto. Voltou em alguns segundos, com sorriso no rosto. Olhou para os pais e perguntou: “Cadê o pônei?”.

Eu virei essa figura que escreve sobre filhos – escrevi dois livros, foram traduzidos em três idiomas, quarto lugar em Portugal, lançaremos em Londres na semana que vem, os editores querem que eu escreva mais, mas sou pessimista. Acho que o próximo livro pode não vingar, acho sempre que alguma coisa terrível vai me acontecer profissionalmente, agora inclusive, substituir David Coimbra, imagino milhares de homens e mulheres inteligentíssimos lendo este texto e dizendo: “Quanta pobreza”. Bem dizer, concordo com os senhores. Mas voltando, como virei essa figura que escreve sobre filhos, as pessoas têm me perguntado como os filhos podem nos transformar em pessoas melhores. Ora, isso acontece o tempo todo.

Minha filha de quatro anos é a pessoa mais otimista que eu conheço. Ela pode não ser a menina mais bonita da sala, nem a mais inteligente, ela usa a tesoura com a boca aberta e não consegue jogar uma bola de vôlei pra cima e agarrá-la novamente, mas é otimista e deslumbrada e feliz com tudo o que está acontecendo ao seu redor. É o que ela sabe fazer, o que a diferencia. Fui vê-la na aula de natação esses dias: ela não dá saltos bonitos; é a única que ainda não consegue mergulhar sem colocar a mão no nariz; é lenta ao atravessar a piscina, sempre chegando entre os últimos. No fim da aula, abraçou o professor e disse: “Natação é muito legal! Acho que hoje dei show!”. O professor sorriu. No final da aula, abraçou todos os professores e alguns coleguinhas, que tentavam escapar do apertão.

Perguntamos o que ela gostaria de ganhar no Natal. “Qualquer coisa. Eu gosto de tudo”, ela disse. E disse isso sinceramente, porque realmente gosta de tudo, agradece por tudo, todos os dias abraça as pessoas e os dias. Divide seu lanche com os amigos – às vezes, com inimigos. Acredita que alguém violento pode se tornar uma pessoa boa e calma.

Acorda sorrindo todos os dias, não entendo como. Não herdou meu mau humor matutino. Não herdou meu olhar desconfiado, meu pessimismo. Me ajuda, todos os dias, a ver o mundo de forma mais positiva. Estar ao lado dela me dá até confiança em um mundo melhor. Me torna mais alegre e esperançoso.

O pessimista torce contra essa alegria toda. Ele diz: “É melhor preparar essa menina para o lado duro da vida”. Mas acredito que não. Acredito que nós, adultos, já lidamos com o lado duro da vida o tempo todo. Somos, na imensa maioria, um amontoado de promessas que não se concretizaram. Éramos astronautas, bailarinas, jogadores de futebol. Tornamo-nos assalariados, pagadores de contas, burocratas, esperando o pior para os outros, talvez para nós mesmos. Com a minha filha, eu aprendo todos os dias que posso estar sentado, chorando a dureza da vida, com um quarto cheio de presentes esperando para serem abertos.

David Coimbra está em férias. Neste período, irão substituí-lo

Marcos Piangers, Fabrício Carpinejar, Nílson Souza e Cláudia Laitano.



06 de abril de 2017 | N° 18812 
L. F. VERISSIMO

Em comum

O homem é o único animal que fala pela mesma razão que é o único animal que se engasga. Algo a ver com a localização da laringe. Ou é da faringe? Enfim, algo no homem lhe dá o dom da expressão verbal que nenhum bicho tem, mas os bichos, em compensação, nunca se veem na situação embaraçosa de dizer o que não deviam ou se engasgar na mesa. 

O fato também sugere uma questão: foi a necessidade que o homem – ou, mais provavelmente, a mulher – sentiu de falar que determinou a eventual localização privilegiada da laringe, ou foi o acaso de a laringe humana evoluir como evoluiu que determinou a fala? O ser humano desenvolveu a fala por um acidente anatômico e assim virou gente ou a linguagem foi uma etapa lógica da sua evolução, porque para ser gente só faltava falar?

O próprio Darwin chegou a especular que a fala começou como pantomima, com os órgãos vocais inconscientemente tentando imitar os gestos das mãos. A linguagem oral teria se desenvolvido porque, antes da invenção do fogo, a linguagem gestual não era vista no escuro e as pessoas, ou as pré-pessoas, não podiam se comunicar. A linguagem é filha da noite!

Teorias estranhas sobre a origem da linguagem não faltam. No século 17, um filólogo sueco afirmou com certeza que no Jardim do Éden Deus falava sueco, Adão falava dinamarquês e a serpente falava francês. 

(Sempre a má vontade com os franceses.) Na sua infância – a palavra “infância”, por sinal, vem do latim “incapacidade de falar” –, a humanidade não produzia palavras, mas certamente produzia sons, e uma das teorias sobre o nascimento de fonemas é que o ser humano teria começado a imitar os sons dos animais para identificá-los e que esta foi a última vez em que o mundo teve uma linguagem comum. Foi chamada de “teoria bow wow”, e o nome já a desmentia, pois “bow wow” é como latem os cachorros anglo-saxões, enquanto os luso-brasileiros fazem “au-au” e os japoneses, segundo os japoneses, “bau-bau”.

A única linguagem comum a toda a humanidade é a dos ruídos involuntários do nosso corpo. Toda a espécie humana espirra e tosse da mesma maneira, não há como variar a pronúncia de um arroto e nada simboliza melhor a nossa igualdade intrínseca do que o pum, que todos dão da mesma maneira, não importa o que digam do pum alemão. Eis uma receita para o entendimento, inclusive entre os grupos e facções em choque no Brasil de hoje, esquerda x direita, políticos x Lava-Jato etc. Todos os confrontos entre partes litigantes deveriam começar com um coro de ruídos elementares, para enfatizar nossa humanidade em comum.

terça-feira, 4 de abril de 2017



04 de abril de 2017 | N° 18810 
CARPINEJAR

Quem é mais dono da morte?

Vejo inventários que se prolongam por décadas, com famílias disputando judicialmente o que dividiriam naturalmente se o pai e a mãe mortos estivessem vivos.

É uma jornada perigosa e violenta, capaz de destruir o legado e manchar a harmonia de um sobrenome. Uma longa guerra de inveja e de ciúme entre crianças disfarçadas de adultos e com escudo dos advogados.

Da mesma forma como os irmãos concorriam pela atenção dos pais, pela predileção psicológica, enquanto todos existiam pacificamente, passam a brigar pela propriedade das lembranças. São filhos se odiando como nunca, sem castigo e sem cinto, selvagens no ato de possuir um imóvel ou um bem. Não pensam pelo morto, o quanto ele trabalhou para garantir paz e conforto, o quanto suou e sacrificou os seus finais de semana para assegurar tranquilidade aos pósteros. Pensam com a mesquinhez de arrematar os melhores brinquedos e as condições mais prósperas. Buscam os seus direitos e apagam os deveres familiares que continuam existindo, com ou sem os pais vivos.

Nesta conflagração de egos, a alegria de um é maior se criar também a tristeza na companhia. A satisfação cresce ainda mais ao abocanhar a maior parte e conseguir subtrair os demais dos privilégios.

Diante do falecimento do ente querido, os filhos esquecem que têm irmãos e se transformam em filhos únicos. Tem em curso uma esquisita e infeliz alienação filial.

Puxam para si as mangas da ausência da roupa maternal e paternal imitando as suas presenças durante a infância.

Tentam reconstituir em vão no colo da lei o aconchego dos abraços, mas apenas se distanciam dos manos que sofrem igual e que restaram ao lado. A partilha se converte em monopólio, a custo de isolamento e desconfiança.

Querem ser donos da morte do pai ou da mãe. Como se a morte possibilitasse algum dono. A morte é de ninguém. A morte é saudade de quem amamos, de quem nos habitará por toda a vida, independentemente de ações e liminares.

O que mais ansiava aquele que partiu era uma família unida, porém o que mais amarga com a despedida é o contrário: a dissolução dos laços. O espólio que serviria para acalmar as dores em tempos de crise é manobrado em xadrez de interesses e maquinações, em tabuleiro de vinganças e vitimizações.

Não se pretende perder o pai e a mãe pela segunda vez, agora simbolicamente para o irmão, e o herdeiro faz de tudo para manter a sobrevida moral dos falecidos.

O orgulho de filho mimado, de filho cheio de si, não permite cedências e recuos, desculpas e generosidade. Crê que será novamente enganado, pois entende a morte como uma trapaça, jamais como a grande prova de amor e de caráter moldado pela educação recebida.