segunda-feira, 12 de junho de 2017


12 de junho de 2017 | N° 18869 
L.F. VERISSIMO

Contrastantes


Christopher Hitchens e Alexander Cockburn eram os dois principais colunistas do semanário The Nation, a mais antiga publicação “de esquerda” dos Estados Unidos. Alternavam-se no mesmo espaço e tinham em comum o estilo brilhante e o fato de serem ambos imigrantes, Hitchens da Inglaterra e Cockburn da Irlanda, o que nunca os impediu de bater forte na política e nos costumes da sua terra adotada. Mas Hitchens surpreendeu todo o mundo, seus colegas e empregadores da Nation não menos do que seus leitores, apoiando a invasão americana do Iraque e justificando a política externa de Bush e seus belicosos neoconservadores – uma posição que defendeu até a morte, 

Como sabem os que o viram e ouviram na Flip, há alguns anos. Suas opiniões contrastavam tanto com a linha da revista e as expectativas do seu público, que ele acabou saindo – não sei se por iniciativa própria ou por sugestão irrecusável. Ficou Cockburn como o principal batedor do Nation.

Mas Cockburn deu uma de Hitchens. Também para a surpresa geral, atacou na sua coluna o que chamou de catastrofistas do aquecimento global, refutando suas teses sobre o efeito do dióxido de carbono produzido pelo homem no clima e comparando o medo sem fundamento que eles espalham com o terror que precedeu o fim do primeiro milênio da era cristã. 

Naquela época, quem lucrou com o apocalipse anunciado foi a Igreja Católica, vendendo indulgência divina adoidada aos assustados. Segundo dizia Cockburn, quem ganhava com o medo atual era a indústria nuclear, com sua promessa de energia não poluente – ignorando, claro, o risco da contaminação permanente por escapamento radioativo.

A Nation tem dedicado grandes espaços à ameaça do aquecimento global e sido uma crítica feroz dos interesses petroleiros e de seu desdém pela questão ambiental. Não deve ter gostado de ser chamada, nas suas páginas, de conivente com uma farsa que favorece as nucleares. Cockburn também já morreu. Não se sabe como ele reagiria ao fato de estar na mesma trincheira com o Trump, que acabou de oficializar o desprezo americano pelo envenenamento do planeta.

sábado, 10 de junho de 2017



10 de junho de 2017 | N° 18868 
ARTIGO - Lya Luft

O diabinho no ombro

Outro dia, dei a uma amiga, de presente de aniversário, uma caixinha marchetada de madrepérola, que comprei há muitos anos, talvez na Espanha. Por que não comprei algo novo para lhe dar, amiga antiga e querida que é? Talvez por isso mesmo: dei uma coisa que aprecio muito, que trago comigo há longos anos, onde eu poderia guardar um anel, até cartãozinho carinhoso mandado por alguém – mas estava vazia. Gosto de às vezes passar para alguém especial algo meu, especial. Tenho algumas caixinhas, pequenos potes, que exponho pela beleza ou pelo que significam. Nem todos estão ocupados: alguns, como a caixinha que dei para minha amiga, servem apenas para guardar belos momentos.

“Como se faz isso?”, me perguntou outro dia ironicamente alguém que gosta de mim, mas implica com meus romantismos. “Não sei direito”, respondi, “sei que olho para eles e ali estão guardadas memórias de momentos luminosos”. “Coisa da sua imaginação exagerada e romântica”. “Bem”, respondi como tantas vezes, “a imaginação paga minhas contas, me faz trabalhar”.

O mundo, a vida, nos oferecem uma sucessão de glória e danação, de alegrias e dores, de coisas medíocres ou gloriosas, tédio ou entusiasmo. A vida é assim, e pronto. Só que nós tendemos a prestar especial atenção ao ruim, escandaloso, doloroso, à desgraça, por exemplo, de um vendaval que mata pessoas que dormiam em suas camas, destrói centenas de lares, de plantações, de sonhos e duros esforços. 

Queremos saber como acabou afinal uma eleição num país estrangeiro, que poderia causar uma reviravolta em alguns aspectos deste mundo. Como foi o depoimento de um importante e digno figurão americano que talvez derrube o presidente? Quantos mortos no novo assassinato de dezenas de inocentes por um homem-bomba, cujo desejo de destruir não entendo nem quero entender?

Confesso que, embora mantendo-o sob certo controle, trago sentado no ombro um diabinho que faz careta e sussurra no meu ouvido: “Ainda bem que foi longe, que não foram seus filhos, netos, você mesma, seu marido. Sua casa ficou poupada”. Sentimentos quase inconscientes, mas nada louváveis. Enfim. Não somos boa coisa, em geral. Prefiro acumular lembranças felizes em minhas caixas e potinhos que parecem vazios.

O mal fascina? O abismo atrai? O medo nos faz espiar atrás da porta apesar de tudo, e nos leva a olhar para trás, para ver se estamos sendo seguidos por uma sombra, uma pessoa? Nestes tempos, alias, é de bom alvitre... O diabinho no ombro, entre outras loucuras e maldades, às vezes nos inspira a curtir inconscientemente mais os horrores. 

Não que a gente goste, aprove, não sinta compaixão, raiva e desejo de evitar tudo aquilo: é uma espécie de frenesi interno que faz com que à beira da estrada os carros parem para ver um acidente – ainda que polícia e bombeiros já estejam ajudando –, faz com que muitos deem risada quando alguém tropeça e cai (detesto isso) ou aprecie filmes violentos onde o sangue jorra e espirram os miolos.

Todos somos muitos, eu sei: somos o bom e o mau. A natureza, que tanto nos maltratou nestes dias, é assim também. Uma amiga minha costumava dizer: “A natureza é bela e cruel. Sublime, só Mozart”. Então, nesta manhã em que depois de tanta sombra o sol se esforça por abrir frestas nas nuvens, xô, diabinho.



10 de junho de 2017 | N° 18868 
DAVID COIMBRA

Os direitos dos ratos

Estava saindo do prédio para levar o meu filho à escola, de manhã cedo, e ele gritou:

– Um rato!

Olhei para onde seu dedo apontava: o jardinzinho ali na rua. Vi uma ratazana gorda, medindo uns 30 centímetros do focinho à ponta do rabo.

– Credo! – exclamei.

O ratão ouviu, olhou para nós com expressão assassina e investiu. Veio direto na nossa direção, em altíssima velocidade. Mas bati o pé no chão com força e ele se assustou, desviou para um jardim lateral e sumiu.

Foi a primeira vez que vi um rato por aqui. O que não quer dizer que a cidade não tenha ratos, claro que tem, todas as cidades têm. Ratos são bichos citadinos e Boston é velha de quatro séculos. Ou seja: esgotos centenários, ideais para vetustas famílias de ratões.

Mas nunca tinha visto um, nesse tempo todo. Tinha visto camundongos, mas o camundongo é um animalzinho simpático. Há um filme sobre o Walt Disney em início de carreira que narra uma história com um desses inocentes ratinhos de salão. O jovem Walt aparece falido e triste. Um dia, quando dormitava em sua mesa de trabalho, decerto sonhando com a perseguição dos credores, um pequeno camundongo surgiu a dois palmos de seu cotovelo, roendo um farelo de sanduíche que Walt havia comido parcialmente. 

Ele despertou e viu o bichinho. Atraiu-o com mais pedaços de queijo e os dois ficaram amigos. Walt passou a levá-lo no bolso da camisa por toda parte. Um dia, porém, enquanto andava pela rua, o camundongo resolveu dar uma volta sozinho e foi flagrado por um guarda. Walt percebeu que a tragédia aconteceria e chegou a gritar um desesperado “nãããããããã...”.

Tarde demais.

O guarda esmigalhou o ratinho debaixo do solado duro do seu sapato.

Walt ficou consternado, mas o camundongo serviu-lhe de inspiração para desenhar o Mickey Mouse, graças ao que ele fez sucesso, enriqueceu, idealizou a Disneylândia e, hoje, até o ditador gordinho da Coreia do Norte é fã do ratinho americano.

Por isso é que não me apoquento com a visão de um camundongo, e sei que há muitos deles em Boston. Já essas ratazanas bem fornidas são a marca de Nova York. Os nova-iorquinos dizem que sua cidade é a que tem mais ratos no mundo. Não sei como eles contaram os ratos de lá, é possível que isso seja mais um produto da mania de grandeza dos americanos, mas o fato é que as ratazanas aparecem com frequência na Big Apple. No YouTube, há um filme no qual uma ratazana entra em um vagão do metrô. Alguém grita:

– Rato no trem!

Mas o metrô já havia trancado as portas e entrado em um túnel. Foi aquela gritaria, todo mundo de pé sobre os bancos do vagão e o rato passeando meio desnorteado para um lado e outro, até a estação seguinte. Uma cena de horror.

Em Porto Alegre também tem muito rato. Ali na Praça XV havia um guri que tinha um cachorro caçador de ratos. De repente, o cachorro saía correndo, capturava um ratão com os dentes e o estraçalhava com gosto. Virou atração na praça. Por onde esse rapaz andará? Ele ganharia dinheiro em Nova York.

Uma vez, uma moça amiga minha foi ao banheiro de sua casa, ergueu a tampa do vaso para acomodar-se e flagrou, emergindo da água, a cabeça de uma enorme ratazana cinzenta. Minha amiga engoliu o grito, fechou calmamente a tampa e fugiu para chamar socorro dos bombeiros, da polícia, do Exército, tudo. Desde então, ela só entra no banheiro depois de rezar uma ave-maria.

Mas o que queria dizer desde o início é que, depois de ver o ratão na frente do prédio em que moro, encontrei o zelador, o Julio. Esse Julio é de El Salvador, mas já mora nos Estados Unidos há 25 anos e seus filhos são tão americanos quanto o Trump. Contei para ele:

– Julio, my friend, acabei de ver um ratão desse tamanho bem aqui.

Ele apertou os lábios e respondeu num suspiro:

– Infelizmente, não podemos fazer nada a respeito...

– E por que não?

– Ele está na rua. Ele é livre. Pode andar por aí como quiser e, enquanto não invadir a propriedade, estamos de mãos atadas pela lei.

Pisquei, perplexo, sem saber exatamente o que dizer. Acabei não dizendo coisa alguma, mas saí dali pensando que esse garantismo de direitos, de fato, bem pode passar dos limites. E que o Julio faria boa carreira como ministro do TSE.



10 de junho de 2017 | N° 18868 
MARTHA MEDEIROS

O AMOR

Que seja celebrado esse 12 de junho pelo motivo mais que suficiente de o amor ser o responsável por todo esse admirável esforço de tentarmos merecê-lo

É ele o protagonista da semana, o amor, e não os bandidos da nação. Esqueçamos por um momento este Brasil infiel com quem temos feito longas DRs. Ao menos nesta segunda-feira, o amor estará em alta, mesmo que alguns acreditem que ele tenha morrido.

Morrer como? O amor tem a melhor campanha de marketing do universo, já que todos nós estamos aqui por causa dele. Todos nós. Nascemos porque um homem e uma mulher se amaram – mesmo que tenha sido um amor de verão ou que nem tenha merecido esse nome, amor. De qualquer forma, ele foi o álibi para que nascessem você, seus amigos e seus inimigos, do amor nasceram judeus e antissemitas, por causa dele vieram ao mundo os que votam na direita, na esquerda e em branco.

Já dizia Fernando Pessoa: “A gente ama porque ouviu falar do amor”. É o marketing se confirmando. Desde pequenos, preparamos o terreno para ele entrar na nossa vida como entrou na de nossos pais. É dado como certo que alguém se encaixará em nosso ideal romântico, mesmo que não seja o primeiro a surgir. Talvez seja o segundo. Talvez o terceiro. 

Talvez ninguém se encaixe totalmente, talvez todos se encaixem mais ou menos. Todo homem ou mulher que fizer disparar nosso coração, mesmo que por pouco tempo, será promovido a grande amor pelas razões mais diversas: ou pra suprir nossa carência, ou pra abrandar nossa solidão, ou pra realizar nosso desejo de procriar, ou por nossa obediência às convenções – não importa, atravessará a porta destinada a ele. É sempre aguardada a sua chegada.

O amor está no DNA dos sete bilhões de habitantes do planeta. Ateus amam, assassinos amam, até políticos amam: é a verdadeira religião universal, a que faz todos ajoelharem sob o mesmo chão sem precisar de livros sagrados, deuses, dogmas. De onde vem tanta potência?

O mundo é hostil, cruel. Até mesmo a poderosa natureza – mares, selvas, montanhas – nos coloca em risco, nos exige estado de alerta. Onde nos refugiar, onde nos conectar com a nossa verdade e com a nossa beleza interior? No amor, não há outro lugar. Sem ele, nossa existência fracassa.

Que seja o amor por filhos, por pais, pelos amigos, por mascotes, por um Deus: é tudo amor em sua abrangência, e pode bastar. Mas havendo um amor exclusivista, erótico e conjugal, a vida ganha um contorno mais fascinante, somos convocados a lutar por aceitação, e não é um desafio qualquer. Exige concessões, resiliência e variadas técnicas de sedução. Dá uma trabalheira. Mas, ainda que o amor seja um projeto de vida racional, os picos de paixão irracional que ele proporciona fazem valer a vida a dois.

A gente nasce, pensa, pira, sonha, cai, levanta, sorri, chora, desiste e insiste. A gente acorda, dorme e acorda outra vez. A gente ganha, perde, corre, alcança, não alcança, descansa e recomeça. Então, que seja celebrado esse 12 de junho pelo motivo mais que suficiente de o amor ser o responsável por tudo isso, por todo esse admirável esforço de tentarmos merecê-lo.



10 de junho de 2017 | N° 18868 
CARPINEJAR

Perigosa falta de palavras

Não deixe que a outra pessoa imagine, imaginar não é conversar.

Imaginar é quando não há conversa. Imaginar é desistir da conversa.

Todas as vezes em que sofri na vida, desde a separação dos pais até namoros rompidos, foi em função de algo que não foi dito e tive que imaginar o que aconteceu de errado. Não recebi as informações para aliviar a minha dor, a minha dor permaneceu burra, forçada a deduzir as respostas. Uma dor bem informada para de sofrer pois entende melhor a realidade.

Poderia alcançar sozinho a solução do problema, mas jamais contaria com a confirmação de que pensei certo. O engano é preencher as lacunas com os próprios medos, é completar a história com os recalques.

Não deixe os seus filhos imaginarem o que vem dentro de seu silêncio, só vai atrapalhar a pureza da relação. Quem imagina é capaz de ir para outro caminho e depois será tarde e cansativo chamar de volta.

Não deixe que a sua esposa ou seu marido imagine o que está passando pelo seu coração, a angústia é não ser útil nem para ajudar.

Não subestime o entendimento de sua companhia. Não falar é menosprezar o conselho. Dramas aumentam com a incompreensão.

Seja didático, seja direto e diga com todas as palavras, ainda que sejam provisórias, para evitar desconfianças e suspeitas.

Quando alguém confessa “eu imagino”, desfaça a confusão enquanto é tempo.

Imaginar é solidão, intimidade vai além: é explicar o que estamos sentindo. O que estamos sentindo unicamente será verdade quando é partilhado. Versões não são verdades, são suposições. Por hipóteses, sacrificam-se relações honestas.


10 de junho de 2017 | N° 18868 
PIANGERS

Faça um pedido


Tínhamos um acordo aqui em casa de nunca brigar na frente das meninas e nunca ameaçar separação quando não estávamos realmente dispostos a pedir o divórcio. Rompimento é uma coisa muito séria pra você usar levianamente. Resultou em duas coisas: quando discutimos nossa separação, há alguns anos, sabíamos que a coisa era séria (que bom que não tão séria, ainda estamos juntos); e, em segundo lugar, sempre que falamos um pouco mais alto um com o outro, nossas filhas acham que estamos brigando.

A mais nova não aceita nem que a gente discuta roteiro de filme, já vai dizendo: “Parem de brigar”. A mais velha fica só analisando a conversa e dizendo: “A mamãe tá certa” ou “O papai tá certo”. É uma juíza de 12 anos, tentando encerrar qualquer discussão. No fundo, as duas já sabem que existe separação entre pais, não sabem bem como as pessoas chegam a esse ponto, mas sabem que existe e não querem que aconteça conosco. Sempre que assopra uma vela ou vê uma estrela cadente, minha filha deseja a mesma coisa: “Que nossa família nunca se separe”.

Acredito que as crianças lidam bem com separações se os pais forem maduros e amigos, mas, em outros casos, um rompimento deixa marcas. Nos separamos por orgulho ou raiva, por erros e mágoas, porque achamos que tem algo melhor. Mas talvez o algo melhor seja essa mesma pessoa, com os ajustes necessários. Quando algo estraga lá em casa, a gente não joga fora. A gente arruma.

Esses dias, estávamos todos no carro. Fazemos brincadeiras que, tenho certeza, vou sentir falta quando elas crescerem. Contamos carros de outras cores; citamos um país com cada letra do alfabeto; falamos uma palavra e os outros têm que adivinhar que música tem aquela palavra. 

A Aurora disse que queria ter filhos, mas só depois que soubesse todas as músicas do mundo. Rimos. Quando estamos juntos, não precisamos de nada mais. Eu agradeço por termos passado por todas as dificuldades, por estarmos ali reunidos fazendo coisas desimportantes. Pela vida ser boba e sem propósito. E, especialmente, por todas as velas e estrelas cadentes.



10 de junho de 2017 | N° 18868 
L.F. VERISSIMO

Cigarreira


Ainda existe cigarro de chocolate? Quando eu era criança, não lembro mais em que século, compravam-se cigarros iguais aos de verdade, em maços, com chocolate dentro em vez de fumo. Eles também serviam para a gente brincar de adulto. 

Antes de comê-los, “fumávamos” os cigarros, gesticulando com eles como gente grande, dizendo coisas pseudoimportantes e tragando e expelindo fumaça imaginária. Nada era mais invejável nos adultos do que a liberdade para fumar e sonhávamos com o dia em que poderíamos assumir todas as poses de fumantes, mas fumando de verdade.

Tinha um ritual de fumantes que me fascinava. O homem tirava uma cigarreira – lembra cigarreira? – do bolso de dentro do paletó, abria a cigarreira, escolhia um dos cigarros enfileirados, fechava a cigarreira com um sofisticado clic, depois batia com a ponta do cigarro no tampo da cigarreira, antes de guardá-la, colocar a ponta compactada do cigarro nos lábios e buscar o isqueiro em outro bolso do paletó. No dia em que eu pudesse fazer aquele pequeno teatro com naturalidade, eu seria um homem e, mais do que isso, um homem autossuficiente e elegante, um homem de dar inveja.

Outro gesto muito adulto era, segurando o cigarro entre o dedo indicador e o médio, usar o anular e o polegar para catar um fragmento de fumo na língua. Este eu imitava depois de cada tragada nos meus cigarros de chocolate.

Um dia, decidi que não ia esperar crescer para ficar adulto. Roubei um cigarro da minha mãe, peguei fósforos e fui para o fundo do quintal. Bati com a ponta do cigarro na caixa de fósforos. Acendi o cigarro. Traguei. 

Me sentia um ator de cinema (naquele tempo se fumava muito nos filmes), um Tyrone Power depois de acender o da moça, um Humphrey Bogart depois da briga. Mas a pose não durou muito. Foi interrompida por um acesso de tosse. Era horrível, encher a boca de fumaça daquele jeito. Nunca mais botei um cigarro na boca. Nem de chocolate.

Mas sei não. Às vezes, penso que faltou uma cigarreira na minha vida.



10 de junho de 2017 | N° 18868
RELACIONAMENTO

Quem ama briga


Não tem relação sem D.R. A boa notícia é que você pode ter discussões mais construtivas com seu par. Saiba como

Não finja que este assunto não é com você. Quem tem alguém para trocar presentes e carinhos neste dia 12, muito provavelmente já quis espremer o suco da sua metade da laranja em algum momento. Quem ama briga. Mesmo em relacionamentos saudáveis.

Mas alguns problemas de relacionamento se repetem, levam a novas brigas e irritam de tal maneira que cansam. Às vezes, levam casais a pensar se uma rotina de conflitos em looping está valendo a pena.

Donna questionou suas leitoras no Facebook sobre quais brigas faziam com que elas cogitassem, ainda que não concretizassem, voltar à solteirice. Em poucos minutos, dezenas de comentários surgiram (confira alguns, anônimos, na página ao lado) listando reclamações com duas peculiaridades: repetem-se em um coral de diferentes bocas e são interligadas entre si.

Falta de diálogo, acomodação, indecisão e desatenção a questões práticas do dia a dia são exemplos de problemas mais comuns.

Especialistas trazem boas notícias: se relacionamento é sinônimo de discussão, ao menos há maneiras de tornar essas brigas mais “construtivas” do que “destrutivas”. Existe, inclusive, um grupo especializado nisso na UFRGS. O Núcleo de Pesquisa Dinâmica das Relações Familiares, coordenado pela psicóloga Adriana Wagner, estuda o tema desde 2010, quando iniciou uma pesquisa com 750 casais gaúchos.

– Há um mito de que o casal é um sistema fechado, vem daí o “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. E isolados, os relacionamentos fenecem. A conjugalidade é, sim, um tema em que você pode ter ajuda – declara Adriana.

A partir da pesquisa, o núcleo da UFRGS criou o Viver a Dois, um programa de seis encontros destinado a casais juntos há mais de seis meses (para saber mais acesse ufrgs.br/relacoesfamiliares). Ali, os casais aprendem estratégias que vão desde formas de fazer o parceiro entender melhor o que você está sentindo até negociar para que as duas partes saiam de um conflito satisfeitas. A primeira dica é tão simples quanto difícil de cumprir: não brigar justamente quando mais sentir vontade de brigar.

– É natural que ocorra ao casal discutir quando o problema surge, mas é ruim quando um casal debate um impasse ainda impregnado de emoções muito fortes. Às vezes, é preciso dizer para si e para o outro que está com muita raiva para discutir naquele momento – recomenda a psicóloga Patrícia Scheeren, também do núcleo da UFRGS.

Porém, tão importante quanto evitar uma discussão no momento da raiva é voltar a ela mais tarde, de forma que aquele sentimento não forme um passivo de mágoa em relação ao outro. E quando se volta ao assunto, é mais eficiente dizer a outra pessoa como ela fez você se sentir, o motivo da sua insatisfação, do que fazer uma acusação.

Após ter dedicado o seu doutorado a táticas de resolução de conflitos conjugais, a psicóloga catarinense Simone Azeredo Bolze dá um exemplo vindo do seu consultório:

– Uma paciente reclamava que o marido passava um turno inteiro em casa por semana, mas que só limpava o banheiro naquele dia, conforme o combinado entre eles, depois de ela chegar em casa. Ele argumentava que não via diferença entre fazer a tarefa no turno livre ou à noite. Perguntei, eu mesma, qual era a diferença. “É que se ele tira uma hora para limpar o banheiro nesse horário, é uma hora que ele não fica no sofá comigo”. Era isso que ela tinha de dizer a ele, entende?

A estratégia é tornar o parceiro empático ao seu sentimento, já que dificilmente uma pessoa quer deliberadamente fazer mal ao outro ao fazer algo que incomode. Isso evita, também, que a pessoa instintivamente se veja como injustiçada diante de um apontamento do outro.

– Se você disser ao outro que ele nunca escuta o que você fala, ouvirá de volta que é besteira. Mais eficiente é apontar uma situação específica em que a outra pessoa ignorou um comentário seu. E então dizer como aquilo fez você se sentir diminuída – compara Simone.

A esse processo, Patrícia chama de “dar um nome” ao sentimento:

– Muitas vezes, uma briga começa sem nem sabermos exatamente o porquê. Quando vê, o casal está discutindo. Deixar para discutir uma questão de cabeça fria e, nesse meio-tempo, pensar no motivo da própria insatisfação com o relacionamento deixa a situação mais clara para você. Depois, fica mais fácil de debater com o companheiro.

Por fim, as especialistas apontam que uma forma de ter discussões mais produtivas é estabelecer como regra que todo impasse deve ser solucionado com os dois lados cedendo em um ponto e ganhando em outro. Se incomoda almoçar todo domingo na casa da sogra, a solução pode ser combinar um final de semana mensal de viagem em troca. Se o parceiro nunca decide para onde sair de férias (e tampouco deseja decidir), combine de você decidir o destino e ele reservar passagens e hotel. Assim por diante.

O lado alentador de tudo isso é que a ocorrência de conflitos é algo absolutamente normal em relacionamentos, mesmo os mais felizes. Adriana tem isso contabilizado em números. Apesar dos pratos quebrados revelados em inúmeros outros índices, 85% dos casais de sua pesquisa relatavam bons níveis de qualidade conjugal.

Então, feliz Dia dos Namorados e boas (e produtivas) brigas.

CAUE FONSECA

sexta-feira, 9 de junho de 2017



Dia do amor 

Dia dos Namorados. Melhor seria Dia Internacional do Amor. Amor por pessoas, ideias, artes, plantas, animais, santos, deuses e tudo mais. Amor acima de raça, religião, gênero, nacionalidade, acima de tudo. Amor sem definições, regras, limitações, envolvendo seres, silêncios, sensações e palavras num mar infinito. 

Há quem diga que o único amor eterno é o amor próprio. Nada contra ninguém, mas melhor pensar que o amor que dura é quando as pessoas mudam a alma e o corpo de casa e depois de tórrida paixão, que antigamente durava um ano ou dois, passam a viver o doce e o amargo dos dias de olhos e mãos dadas, até onde o infinito durar, como disse o Vinicius. O amor está muito acima de contratos, tempos determinados, regras de conduta, etiqueta ou de religião. O amor paira sobre qualquer definição. 

Óbvio que o amor precisa de alguma disciplina, mas não demais, que essa vida pós-moderna está mais para quadro surrealista de Salvador Dali do que para teoremas científicos. Uns dizem que a cura de um amor platônico, se é que ele precisa ser curado, é uma transa homérica. Há quem ache o amor platônico o único perfeito, ele que vive nos castelos da fantasia. Há os aparentemente simplórios que simplesmente dizem: amor é como pirulito, primeiro é doce, depois é palito. Exagero, acho, visão triste. 

Os para-choques de caminhões não mentem: amor sem ciúme é flor sem perfume; amor sem beijo é macarrão sem queijo; nas curvas do teu corpo capotei meu coração; no baralho da vida só uma dama encontrei. Filósofos e cientistas pensam, estudam e escrevem sobre o amor, algo infinito, múltiplo e único como os bilhões de humanos, que já viveram, estão vivendo e vão viver neste planeta. 

Aqui e ali uma sacada boa dos pensadores e cientistas, uma pesquisa interessante e algo novo sobre cérebros e corações. Uns dizem que o amor mora na cabeça, outros no coração, outros mais na alma e alguns em outras partes do corpo humano. Desde que amem, todos têm razão e emoção. Uns dizem que o coração é só um músculo. Outros, que o amor não deve morar na cabeça. Frases simples e estratosféricos ensaios à parte, o amor é que deve vencer no final e tornar feliz as noites de domingo. 

Será que o amor é maior e mais imortal do que os namorados, as pessoas, os animais, os seres vivos e tudo mais da natureza? Será que o amor é maior que os mares, os céus, o sol e a lua? Será que, mesmo para os amantes, o que importa mais é o amor em si? Será que o amor tipo o dos santos, que amam toda a humanidade, é maior do que o amor das gentes por algumas pessoas apenas? Amar é não perguntar muito. 

Nem responder muito. É quando, por vezes, as palavras são ditas com os olhos, as mãos, a alma, o corpo e o silêncio. Amor é não matar. Quem ama não mata. Quem ama mesmo vai amar outra pessoa. "Morreu, o nosso amor morreu/ Mas cá para nós/ antes ele do que eu" - está lá, na sábia canção do Paulinho da Viola. Um amor morre, outro nasce. Ou não. Solamente uma vez se ama en la vida? 

a propósito... 

Para encerrar, uma linda, atual e incomum história de amor. Um amigo e sua esposa, gaúchos, jovens e de classe média, adotaram, há poucas semanas, cinco crianças, irmãos, oriundos de outro estado brasileiro. As crianças têm aproximadamente de três a 10 anos e já estão morando, felizes, com os pais adotivos. É um caso raro, não chega a ser o único. Os pais preferiram não dar publicidade à adoção múltipla em respeito às crianças. 

Acho que a história fala por si e não há muito o que acrescentar. Nesse momento de crise moral, ética, política e econômica, num planeta violento, o exemplo diz tudo e nos faz acreditar no amor e nos seres humanos. Feliz Dia dos Namorados e Dia do amor! - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/06/colunas/livros/566809-bukowski-o-velho-safado-e-o-amor.html)

Notícia da edição impressa de 09/06/2017. 
Alterada em 08/06 às 19h18min 

Bukowski, o velho safado, e o amor 


Detalhe da capa do livro de Bukowski LPM/DIVULGAÇÃO/JC Bem no clima do Dia dos Namorados, a L&PM Editores lançou, há poucos dias, a coletânea Sobre o amor, do escritor Charles Bukowski, nascido na Alemanha em 1940, mas criado em Los Angeles. 

A compilação é de Abel Debritto, biógrafo de Bukowski e que já editou outras coletâneas temáticas do "velho safado": Sobre gatos e Escrever para não enlouquecer. Sobre o amor tem 224 páginas, preço de R$ 35,90 e foi muito bem traduzido pelo jornalista, tradutor e escritor gaúcho Rodrigo Breunig. Bukowski faleceu em 1994 e publicou mais de 45 livros de prosa e verso. 

A L&PM já publicou 23 obras dele, entre as quais Cartas na rua; Crônica de um amor louco; Mulheres e Pedaços de um caderno manchado de vinho. Honesto, reflexivo, alternando-se entre a dureza e a sensibilidade, Bukowski, o velho nem tão safado, nesses versos fala de várias formas de amor e relaciona o tema com as filhas, as muitas mulheres, as amantes que teve, o trabalho e os amigos. 

Está tudo bem embolado: o amor, a luxúria, a paixão, o desejo, o egoísmo, o narcisismo, o misterioso, o aleatório, o misterioso, a glória e a miséria deste sentimento frágil e eterno. Não ficaram de fora da obra o alto poder redentor do amor, as confusões e o lado bem-humorado do amor. Feroz, vulnerável, lírico e irônico, Bukowski mostra que muitas vezes o amor, especialmente o paterno, fulminou seu coração aparentemente empedernido. 

Alguns versos do poeta: "O amor não passa de um farol aceso à noite cortando a névoa / O amor não passa de uma tampinha de cerveja na qual você pisa a caminho do banheiro/ o amor é a chave perdida da sua porta quando você está bêbado"; e "Gosto de você, querida, eu te amo / a única razão por que trepei com L. é porque você trepou com Z, e aí eu trepei com R. e porque você trepou com N. eu preciso trepar com Y". 

Outro poema: "filha/certo ou errado/eu te amo, sim/ é só que às vezes eu ajo como se/ você não estivesse presente/mas houve brigas com mulheres/ bilhetes deixados em cômodas / trabalhos em fábricas / pneus furados em Compton às 3 da manhã/ todas essas coisas que impedem as pessoas de conhecer umas às outras e pior do que isso/ obrigado pelas flores." 

Sobre o amor é um livro peculiar, muito pessoal, sobre um dos temas mais antigos e humanos. Entre a sarjeta e a lua, entre o doce amor paternal e em meio à brutalidade e à beleza dos amores adultos, Bukowski parece dizer que, ao fim e ao cabo, o amor é o que interessa. Mesmo e principalmente quando pareça não interessar mais ou quando só um futuro amor interessar. 

lançamentos 

As heresias de Pedro Abelardo (Coleção Medievalia, É Realizações, 118 páginas), de São Bernardo de Claraval, abade francês e reformador da Ordem Cistercience, traz o essencial sobre seu célebre combate com Pedro Abelardo, lógico e retórico, sobre altas questões envolvendo a fé, Cristo e Deus, em pleno século XII. Cidade de Deus - a história de Ailton Batata, o sobrevivente (FGV Editora, 286 páginas), da professora Alba Zaluar, da Unicamp e do professor-doutor e psicanalista Luiz Alberto Pinheiro de Freitas, narra a saga de Ailton, que passa de bandido a estudo de caso e, hoje, contribui para a ciência. 

Mitos e verdades para uma vida saudável (Imprensa Livre, 272 páginas), da professora de educação física e palestrante motivacional Cláudia Lucchese, de modo interativo e com linguagem informal e divertida, mostra como podemos mudar. Pensamentos, ações, energia e motivação valem em qualquer idade. - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/06/colunas/livros/566809-bukowski-o-velho-safado-e-o-amor.html)


09 de junho de 2017 | N° 18867 
CLÁUDIA LAITANO

Aqui não, violão

É cada vez mais comum que discussões graves brotem do esforço, mais ou menos bem-sucedido, para ser engraçado – talvez porque nunca, antes, tanta gente tenha dedicado tanto tempo a criar, compartilhar e consumir piadas. Junto com o sexo, o humor é hoje um dos tópicos mais populares da internet. E é no humor (e às vezes também no sexo) que se manifestam idiossincrasias que, em outras circunstâncias, talvez nunca viessem à luz.

As dúvidas surgem quando a mesmíssima piada, boa ou ruim, é considerada inofensiva por uns e intolerável por outros. Defender a liberdade de expressão implica defender o direito inalienável à zoeira? Como decidimos que determinado assunto é sensível demais para virar material de piada? Existe diferença entre ser racista e compartilhar uma piada racista? Qual é?

Nos últimos dias, três episódios envolvendo alunos e professores, dois nos Estados Unidos e um no Brasil, chamaram a atenção para o grau de sensibilidade do assunto, principalmente quando crianças e adolescentes estão implicados. 

1) No Rio Grande do Sul, a festa “se nada der certo”, promovida em uma escola particular, associou profissões como faxineiro e balconista com uma vida de segunda categoria, derrotada pelo destino. Não pegou bem. 

2) No Texas, uma professora do Ensino Fundamental distribuiu aos alunos prêmios como “o mais inclinado a se tornar um terrorista” e “o mais inclinado a se misturar com gente branca”. Foi demitida. 3) Em Harvard, 10 jovens que haviam acabado de ser aprovados pela universidade compartilharam, em um grupo fechado do Facebook, memes antissemitas e com sugestões de pedofilia. Perderam as vagas.

Um garoto inteligente o suficiente para ser selecionado por Harvard sabe exatamente o que está fazendo quando tenta extrair graça do preconceito ou da violência: está colando na testa um cartazinho escrito “sou um babaca”. Se uma universidade como Harvard começa a aceitar alunos que acham divertido bancar o idiota, das duas uma: ou o sistema de seleção é muito falho, ou a direção não considera assim tão grave que alunos façam piadas sobre Holocausto ou abuso de crianças. A resposta de Harvard foi curta e rápida: aqui não, violão.

A liberdade de expressão, inclusive dos idiotas, é um valor a ser defendido, em princípio, mas todas as opiniões (e piadas) estão sujeitas a consequências, como aconteceu agora em Harvard. A decisão da universidade foi histórica e pode servir de exemplo para outras instituições em situações parecidas. 

Por outro lado, o episódio deixou claro que, em tempos de redes sociais, o que acontece em Vegas nunca fica em Vegas. Toda e qualquer manifestação, no chat privado do Facebook ou no WhatsApp da família, está sujeita a tornar-se pública em algum momento. Ou seja: você é o que você posta e já não há diferença entre “ser babaca” e “parecer babaca”.

Se é que um dia houve.

09 de junho de 2017 | N° 18867 
DAVID COIMBRA

Conhece-te a ti mesmo

Fico entusiasmado quando descobrimos coisas a respeito do nosso passado. “Conhece-te a ti mesmo”, era a frase inscrita na entrada do Templo de Apolo, em Delfos, e foi o lema de Sócrates com certeza e talvez de Heráclito e Pitágoras, antes dele. Bem depois, Nietzsche mudou a frase e manteve o sentido, formulando aquela sentença que hoje está tatuada em douradas omoplatas femininas: “Torna-te quem tu és”.

Parece um conselho fácil, isso de você se conhecer, devido à longa convivência que você tem consigo mesmo. Mas que nada. Você vive se surpreendendo com você. Fosse simples, os psicanalistas não estariam ricos, e eles estão.

Conhecer a si mesmo, portanto, é a base da filosofia e da psicanálise.

Coisa importante.

Por isso, é animadora a recentíssima descoberta de que nós, Sapiens, somos mais velhos do que pensávamos. Cientistas alemães encontraram, no Marrocos, ossos humanos de 300 mil anos de idade. Até há pouco, os fósseis mais antigos eram de 200 mil anos.

Esses cem mil anos a mais têm vários significados. Um deles é que encolhe o percentual de tempo de vida civilizada na Terra. Antes, eram 190 mil anos de nomadismo e 10 mil anos de sedentarismo. Hoje sabemos que foram, no mínimo, 290 mil anos de existência nômade.

Você pode pensar que se trata de histórias velhas, que não têm nada a ver com temas importantes, como o aumento da conta de luz.

Errado. A luta entre nomadismo e sedentarismo representa um confronto eterno da humanidade, uma questão que o aflige desde sempre e sempre afligirá, mesmo que você não tome consciência dela. A seguinte:

Você prefere liberdade ou segurança?

É dos maiores dilemas da humanidade e, o pior, sem solução. Quanto mais liberdade, menos segurança; quanto mais segurança, menos liberdade. Não há como ter muito de ambas ao mesmo tempo.

Ao longo da vida, a sua necessidade de uma e de outra vai se alternando. A criança não apenas prefere, ela PRECISA de mais segurança do que liberdade. O adolescente se rebela contra os pais exatamente porque ele anseia por liberdade. Mas, com o amadurecimento, ele percebe que necessitará de mais segurança logo adiante. Então, entrega pedaços da sua liberdade até se ver prisioneiro das próprias opções. Nesse momento, sua única saída saudável é sorver as delícias da rotina.

Quando um homem se aferra à rotina, ele está, tão somente, buscando segurança. Em tese, se fizer todos os dias as mesmas coisas, alcançará todos os dias os mesmos resultados. Não haverá surpresas. Tudo está previsto e controlado. Tudo está seguro.

Em tese. Na verdade, o maior divertimento da vida é fraturar rotinas, desmembrar grupos e fechar ciclos. É uma mania dela. Da vida.

Assim, você teve a sensatez de valer-se da aceitação em vez da revolta, você está feliz com todos os pequenos prazeres previsíveis com os quais são feitos os seus dias, mas, de repente, algo que parecia pequeno se torna grande: a picada do mosquito, os 30 segundos de distração na ultrapassagem, a rua errada, a decisão precipitada na empresa. É o que basta. Agora, tudo está confuso e fora de foco. Você está se sentindo inseguro. Você é como nossos ancestrais, vagando pela savana à mercê do leopardo sorrateiro ou do bando de hienas que riem.

Esse pavor primevo, essa incerteza sobre o que virá é que nos tornou quem somos. O celular 4G, a pizza delivery e a maciez da pele de Megan Fox, tudo isso é obra de um único sentimento: o medo.

Obedeça Sócrates. Conhece-te a ti mesmo. E você verá o medo que faz bater seu coração.

quinta-feira, 8 de junho de 2017



08 de junho de 2017 | N° 18866
LITERATURA

Leandro Karnal abre projeto de palestras


Um dos palestrantes mais requisitados do país, Leandro Karnal (na foto) volta a Porto Alegre como principal atração da série Provocações Contemporâneas, hoje, às 19h, no Teatro do Sesi (Avenida Assis Brasil, 8.787). 

O historiador abre a programação do projeto, que vai trazer à Capital pensadores, jornalistas, escritores, artistas e publicitários para debater a nova ordem mundial. Karnal apresentará a palestra A Vida que Vale a Pena Ser Vivida.

Gaúcho nascido em São Leopoldo, Karnal, 54 anos, é autor de best-sellers como Pecar e Perdoar: Deus e Homem na História e Todos Contra Todos: O Ódio Nosso de Cada Dia. Seu livro mais recente é Detração: Uma Breve História do Maldizer.

O evento contará ainda com conferência do empresário, advogado e escritor Othon Gama, autor de O Código da Mudança. Já o economista Paulo Afonso Pereira, o cineasta José Pedro Goulart e a escritora Semadar Marques discutirão a polarização de opiniões no mundo contemporâneo. Ingressos de R$ 100 a R$ 140. Veja mais informações no roteiro da página 6.


08 de junho de 2017 | N° 18866 L.F. VERISSIMO
A cadeira da rainha


A cada notícia sobre atentados terroristas na Inglaterra, penso na rainha Elizabeth. Simpatizo com a velhinha. Ela parece exercer seu reinado com placidez e um toque de tédio, de quem preferiria estar com seus cachorros – embora às vezes seja difícil saber se alguém está chateado ou apenas sendo inglês em público. 

Gostei de saber que, não faz muito, ela abriu um site na internet. Deduziu-se que o enfaro da rainha escondia um desejo secreto de modernização e relevância. O blog da rainha seria uma resposta às repetidas sugestões para que se aposente. Ela se renova para ficar. Ou talvez só esteja preocupada em poupar a nação do Charles, seu herdeiro. Ou o Charles da nação.

Nas fotografias de Elizabeth quando moça, nota-se – se não for só uma tara minha – uma certa sensualidade no rosto, algo nos olhos que ela teve que controlar para não largar tudo e fugir com um cavalariço, mas ficar e cumprir suas obrigações. Sobrou disso uma resignação irônica que se vê nos cantos da sua boca até hoje.

O inglês Alan Bennett escreveu uma peça sobre Anthony Blunt, um aristocrático historiador de arte que era consultor do palácio e também, soube-se muitos anos depois, espião da União Soviética, em que a rainha aparece, de surpresa, numa cena. Elizabeth e Blunt têm uma conversa sobre a autenticidade na arte que também é uma conversa sobre a duplicidade nas pessoas e a crescente vulgarização da monarquia e suas riquezas, e em que ela diz: 

“Um monarca já foi definido como alguém que não precisa olhar antes de sentar-se. Não mais. É preciso olhar, hoje em dia, pois há uma boa possibilidade de sua cadeira não estar ali, mas em exibição em outro lugar”.

A frase é de Bennett, mas é possível imaginá-la dita pela rainha, com o meio sorriso desencantado de quem um dia sonhou ser outra coisa, mas não teve escolha. E, em vez do risco de a cadeira da rainha não estar ali, há o risco crescente de, embaixo da cadeira, ter uma bomba.


08 de junho de 2017 | N° 18866
ZONA NORTE

We are waiting for you, people

EMPOLGADOS COM A ABERTURA DO CONSULADO dos Estados Unidos, a partir de hoje, comerciantes das imediações apostam em novos empreendimentos

Prestes a iniciar o atendimento ao público em geral, que começa hoje, o Consulado dos Estados Unidos, na Avenida Assis Brasil, em Porto Alegre, já motiva viagens. De olho nas oportunidades criadas pela emissão de vistos, comerciantes da região foram a outros Estados para ver de perto o funcionamento dos consulados norte-americanos e identificar possíveis maneiras de lucrar com a chegada do novo vizinho.

Proprietário de quatro estacionamentos na Rua Andaraí, atrás do consulado, o empresário Tiago Guerrieri, 39 anos, foi um dos que não perderam tempo. Ao saber, pela imprensa, que o departamento do Tio Sam se instalaria nas proximidades, tratou de ampliar seu negócio. Em 2015, ele abriu o quarto ponto com vagas para veículos na mesma rua onde possui outros três e atua há mais de 15 anos:

– Está tudo tão ruim que cair um negócio desses próximo do teu comércio gera uma expectativa enorme. Todo mundo está ajustando alguma coisa.

Empolgado com a chance de aumentar a clientela, Guerrieri foi mais longe. Meses atrás, tomou um avião rumo a São Paulo para descobrir que outros nichos de mercado o consulado poderia movimentar. A empreitada o lançou em um novo ramo: em dezembro, inaugurou uma hamburgueria na Rua Bezerra de Menezes, a poucos metros do prédio. Os constantes adiamentos da operação do consulado, porém, frustraram a expectativa dos primeiros meses, marcados por mesas vazias:

– Penei esperando por eles. Agora, o movimento está melhor. Os funcionários gostaram. Vou fazer um cardápio em inglês. Mas eles sabem mais ou menos o que são as coisas, apontam. Bacon, essas coisas, eles conhecem.

Perto da hamburgueria de Guerrieri, Alexandre Tomasel, 44 anos, corria para dar os últimos retoques na cafeteria Garden Coffee, inaugurada na segunda-feira. O empreendimento não foi sua única aposta na chegada do consulado. A poucos metros do local, na mesma rua, ele abriu outro café em 2016.

Seu ímpeto empreendedor também passou por uma pesquisa de mercado. Em dezembro, ele esteve por dois dias no Rio de Janeiro para estudar possibilidades de negócio perto do departamento norte-americano. Hospedou-se em um hotel nas proximidades e monitorou a atividade na vizinhança.

– Eu ia às seis horas da manhã para lá, sentava em um café que tem na frente e ficava observando. Uma vez contei quantos vistos deram: 970 até as 9h30min – relata.

GUARDA-VOLUMES E CARDÁPIOS BILÍNGUES

Do monitoramento na capital carioca saiu a ideia para o que deve ser um dos principais diferenciais de seus dois cafés: o serviço de guarda-volumes. Informado sobre restrições para o acesso ao local, que não permite a entrada com diversos tipos de objetos, incluindo relógios e aparelhos de celular, Tomasel instalou armários com compartimentos para guardar esses equipamentos.

Para não fazer feio no atendimento, ele ainda providenciou cardápios bilíngues e investiu em um curso intensivo de inglês para si e para os funcionários. Tomasel acredita que as aulas, que ocorreram de janeiro a maio, foram suficientes para as primeiras abordagens.

– Agora, a gente tem alguns macetes para atender eles, tipo slowly (lentamente), que é para dizer quando eles começarem a falar, para falarem mais devagar. Mas acho que o cliente, vendo que a gente tem boa vontade, já é um jeito de cativar – avalia.

Se os espíritos mais empreendedores andam inquietos, também há os indiferentes. A despeito do que indica um cavalete ostensivo anunciando um xerox em frente ao número 71 da Rua Bezerra de Menezes, Jorge Sperb Morandi, 32 anos, não traçou um plano para capturar clientes que eventualmente precisem de cópias de documentos – exigidas para alguns vistos. Sócio de uma assistência técnica no primeiro andar do prédio, ele diz que a demanda para esse serviço costuma ser pequena, e está longe de ser o foco de seu estabelecimento, voltado ao conserto de computadores. Apesar da falta de estratégia, Morandi vê com bons olhos a possibilidade de movimentar os negócios.

– Escolhemos o lugar, no ano passado, pelo preço e pela localização, perto da Assis Brasil. Só temos uma copiadora, que colocamos para atrair as pessoas e divulgar o serviço de assistência – afirma. – Na verdade, é bem difícil alguém aparecer aqui por causa do xerox. Agora, acho que vai ser uma consequência inevitável. Mas a impressora estragou, está no conserto – diz.

bruna.vargas@zerohora.com.br

quarta-feira, 7 de junho de 2017



07 de junho de 2017 | N° 18865
ARTIGO - PAULO AMORIM*

PRECISAMOSDE LÍDERES, NÃO DE SALVADORES

Há algum tempo, fui apresentado a um conceito da física que eu não conhecia, a paralaxe. Trata-se da mudança de perspectiva sobre algo observado, a partir de uma mudança do observador. Extrapolando, quer dizer que a mudança ocorre em nós mesmos, na forma de olhar as coisas, na nossa perspectiva. Quando iniciei a vida profissional, entendia que o líder era aquela pessoa que dominava o conhecimento, sabia “tudo sobre tudo” e que tinha a resposta para todos os problemas que surgissem. Descobri que se tratava de uma idealização, no mínimo, equivocada.

Quando iniciei a vida profissional, entendia que o líder era aquela pessoa que dominava o conhecimento, sabia “tudo sobre tudo” e que tinha a resposta para todos os problemas que surgissem. Descobri que se tratava de uma idealização, no mínimo, equivocada.

Não vivemos em um mundo de verdades absolutas e de soluções únicas e para liderar não é preciso ter um cargo, mas, sim, comportamentos e atitudes que visem ao bem comum. No centro dessa ideia, estão as pessoas, a sociedade.

É fundamental nos darmos conta de que um excelente líder não é aquele que age em benefício próprio, mas tendo os outros como o centro de sua atenção e ação. Parece simples, mas não é. Muitos dos que julgamos “salvadores da pátria” demonstram comportamentos que podemos considerar esdrúxulos e inaceitáveis.

Na busca de uma saída para a crise de liderança que vivemos, esquecemos de ampliar nosso olhar para o todo. Se não identificamos alternativas, é porque não as criamos ou, pelo menos, não as enxergamos.

Precisamos participar ativamente da política do país e eleger pessoas que coloquem o bem da sociedade acima de suas próprias ambições. Estes, na minha percepção considero os “verdadeiros líderes”.

Temos que abominar falsos líderes, que estejam mais preocupados em defender suas próprias convicções do que em criar a sustentabilidade da liderança, agindo com os olhos no futuro.

Não acredito que em um país com mais de 200 milhões de habitantes inexistam pessoas com a vontade de construir um Brasil melhor para si e para as próximas gerações. Talvez essa pessoa possa ser você ou alguém muito próximo.

Não existem salvadores da pátria. Nosso país precisa de líderes, não de figuras caricatas que estão sempre rondando o caos, na busca de uma oportunidade para satisfazer suas próprias necessidades.

Professor, consultor amorim@parallaxinstitute.com


07 de junho de 2017 | N° 18865 
MARTHA MEDEIROS

O labrador e as raposas

Nada mais redundante do que dizer que se é fã de Gustavo Kuerten. Quem não é? Um garoto catarinense, até então desconhecido, foi a Paris e venceu três vezes um dos maiores torneios internacionais de tênis, o Roland Garros, isso aos 20 e poucos anos. Em vez de retornar com o peito inflado por ser o novo herói nacional, tratou tudo como se fosse uma inesperada aventura – sem jamais esquecer de agradecer a seu treinador e sua família. A partir daí, intensificou sua responsabilidade social, promovendo o esporte entre crianças e adolescentes. Deveria ser regra, mas até hoje esse comportamento é tratado como exceção.

Guga é um campeão nato: já começou dando certo por sua maneira de encarar a vida. Claro que teve que ralar muito até chegar aonde chegou, nada foi de mão beijada, nunca é. Mas não se tornou um obcecado. Ele tem dito, em entrevistas, que não tinha noção da grandiosidade de Roland Garros quando derrotou os maiores do mundo. Sorte dele. A ausência de deslumbramento e a manutenção do foco costumam ser o segredo de gente vencedora.

Impossível não recordar de um vídeo que tem circulado nas redes sociais, a de um técnico de basquete da Lituânia que dispensou uma das estrelas do seu time para que fosse assistir ao parto da esposa, mesmo estando em meio às eliminatórias de um campeonato. Quando um jornalista, durante uma coletiva, questionou a atitude do técnico, recebeu uma situada: títulos não são tão importantes, não diante de algo muito maior, como o nascimento de um filho.

No fim das contas, a gente mete os pés pelas mãos por não conseguir dimensionar o que é valioso de verdade. Dinheiro, poder e status: de tanto colocarmos essa tríade acima de tudo, nossa história de vida se torna miúda, mesquinha, com uma pseudomagnitude, porém pobre em afetividade, decência, alegria, humanismo, diversão. Vejo esses bandidos engravatados que não saem das primeiras páginas dos jornais, passando vergonha pública, e me pergunto do que adiantou tanta ganância e soberba, qual o orgulho que restou agora que estão sendo desprezados por uma nação inteira e tratados como os ladrões que de fato são.

Os 20 anos da primeira vitória de Guga em Roland Garros têm mesmo que ser celebrados e trazê-lo de volta para os holofotes, a fim de lembrar a todos nós um cálculo que não envolve milhões nem bilhões: competência + gratidão + consciência do papel que representa = admiração plena de todos os brasileiros. Essa é a conta que fecha


07 de junho de 2017 | N° 18865 
DAVID COIMBRA

Um grito de liberdade

O velho Roy Larner estava bebendo uma grande caneca de cerveja no Black and Blue, bar encarapitado na Ponte de Londres, quando três terroristas armados de compridas facas invadiram o lugar. Isso aconteceu agora, dias atrás, no atentado da London Bridge.

Roy, para falar a verdade, nem é tão velho assim, tem 47 anos, mas pode ser considerado um genuíno representante das antigas tradições inglesas. Torcedor fanático do Millwall, clube pequeno, mas com 140 anos de resistência no futebol de Londres, Roy está acostumado a vibrar, beber e, eventualmente, brigar como um hooligan.

Foi um hooligan que os terroristas encontraram no Black and Blue. Eles entraram no bar clamando por Alá e, em seguida, entoaram:

– Islã! Islã! Islã!

Para Roy, aquilo deve ter soado como um grito de guerra da torcida do Arsenal ou outro rival qualquer, porque, em resposta, ele urrou:

– Millwall! Millwall! Millwall!

E, urrando “Millwall!” sem parar, partiu para cima dos terroristas. Lutando sozinho e desarmado contra os três, Roy foi esfaqueado na cabeça, no pescoço, no peito, nas costas e nas mãos.

– Havia sangue por toda parte – descreveu, mais tarde. Sangue dele próprio.

Roy levou oito facadas e foi parar no hospital, mas sobreviveu. Acabou salvando os outros frequentadores do bar e, por isso, está sendo chamado de “O leão da London Bridge”.

Os terroristas lutando por Islã e por Alá; Roy lutando pelo Millwall. E Roy, de certa forma, venceu.

Esse time ainda vai ser campeão.

Os britânicos têm uma admirável história de resiliência. No século 1, a rainha Boadicea, que alguns diziam ser uma druida, ou seja, uma bruxa, liderou uma revolta que desafiou as legiões de Roma. Boadicea venceu os romanos várias vezes e só não os fez fugir a nado da ilha porque não havia comparação entre os bravos, porém desorganizados, guerreiros britânicos e a disciplinada máquina militar de Roma.

Mil e quinhentos anos depois, outra mulher, a rainha Elizabeth, venceu a Invencível Armada espanhola.

Os espanhóis chegaram ao Canal da Mancha cheios de confiança, exatamente por se acharem invencíveis, com seus 130 navios. Mas os ingleses, comandados pelo famoso corsário Francis Drake, contragolpearam de madrugada, atirando sobre a Armada navios em chamas. Os espanhóis entraram em pânico, cortaram as amarras dos navios e perderam a coesão. Os ingleses os trucidaram. Para arrematar, uma tempestade deu conta do que restava da Armada. A Inglaterra estava salva. Com essa batalha, Elizabeth foi alçada da guerra para a glória.

Quatro séculos mais tarde, lá estava a ilha de novo em perigo. Hitler havia conquistado praticamente toda a Europa e só a Inglaterra resistia. Alguns líderes britânicos queriam fazer acordo com os nazistas. Essa, inclusive, era a intenção de Hitler, que aceitava deixar os ingleses com todas as suas colônias, desde que a Europa ficasse para ele. Churchill, no entanto, foi ao rádio e anunciou:

– Nós nunca nos renderemos! Nunca nos renderemos!

E a ilha não se rendeu. E venceu.

Confio na fibra inglesa, nessa ameaça contemporânea. Mas o inimigo, desta vez, é mais fluido, mais difícil de combater. Calcule: há 1 bilhão e 600 milhões de muçulmanos no mundo. É verdade que a grande maioria deles não apoia o terror. Não precisa. Basta uma minúscula parcela e haverá milhares de pessoas suportando moralmente e financiando os terroristas.

Essa é a verdadeira guerra do fim do mundo, a guerra das luzes contra as trevas. Que a humanidade se erga, em defesa da civilização, e lance aos ares um grito trovejante de exaltação ao intelecto, à razão, à ciência e à vitória:

– Millwall!

terça-feira, 6 de junho de 2017



06 de junho de 2017 | N° 18864
CARPINEJAR

O caçula

O caçula é o que mais sofre. Costuma ser o último a sair de casa. Costuma ser o último a receber condecorações na hierarquia da idade. Costuma ser o último a entender o que aconteceu do divórcio dos pais, quando ninguém tem mais paciência para explicar e voltar ao assunto.

O caçula é o último a aprender a dirigir, quando todos tiraram carteira e o teste não é mais nenhuma novidade. O caçula é o último a entrar na universidade, quando virou obrigação passar no vestibular. O caçula é o último a perder o apelido doméstico e ser chamado pela realeza do nome. O caçula é sempre o último. 

O último a ter um quarto próprio, o último a ter os seus segredos respeitados, o último a ganhar roupas que condizem com o seu tamanho – o seu armário será confundido com uma campanha de agasalho. É o último a conquistar a independência. É o último a se casar. É o último a se separar e se casar de novo. É o que tem pena materna e tolerância inexplicável do pai.

O caçula é o último a poder expressar sua opinião porque é um pirralho. O caçula sofre da superproteção e não tem como se defender do amor excessivo. O caçula é o mais subestimado e o mais esquecido. O caçula não inaugura nada, não estreia nada e se sente mais um do mesmo. Tudo o que deu errado com os demais filhos é consertado com o caçula. Ele é a margem de segurança, a previdência, a cautela. Não desfrutará das brigas libertadoras, nas quais a confissão libera a personalidade.

Não pode ser louco, pois a loucura perdeu a graça. Não pode ser o exemplo, porque será sempre o derradeiro a definir as suas escolhas e descobrir os seus prazeres. É feito da correção dos projetos anteriores e da sobra dos sonhos.

Caçula é o que mais apanha secretamente da vida familiar. Todos pensam que ele é o dileto, menos ele, com a sua experiência de criança eterna no corpo de adulto.

E não venha dizer que os últimos serão os primeiros, que essa sentença bíblica é o que mais irrita os caçulas.