quinta-feira, 5 de março de 2020



05 DE MARÇO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

O ALERTA QUE VEM DO PIB

A nova frustração com o crescimento da economia brasileira precisa fazer o governo federal, em especial o presidente Jair Bolsonaro, finalmente despertar para o papel do Executivo na construção de um ambiente mais fecundo para uma retomada robusta da atividade. E não se trata de qualquer medida ou plano mirabolante. O avanço medíocre do PIB de 1,1% em 2019 foi inferior aos dos dois últimos anos e menos da metade do esperado no início do mandato de Bolsonaro. Mais esta decepção mostra que o Planalto precisa, urgentemente, colaborar para um resgate mais firme da confiança dos agentes econômicos e, assim, recuperar a credibilidade necessária para o ressurgimento dos investimentos internos e externos que façam a roda do desenvolvimento voltar a girar.

É imperiosa uma mudança de postura do Planalto. Polêmicas estéreis, manobras diversionistas e a atenção do presidente a temas secundários, em vez de centrar foco nos problemas reais do país, passam a impressão de que a figura que ocupa o mais alto posto da República e seu núcleo ideológico vivem em uma espécie de realidade paralela, deixando de mostrar interesse e se esforçar para a aprovação das reformas essenciais para o país. Apesar de reiteradas promessas desde o ano passado, o governo ainda não enviou para o Congresso sua proposta de reforma administrativa. Em relação à tributária, outra prioridade, o Executivo foi simplesmente alijado das discussões, que passaram a ser assunto sob o domínio do Congresso.

Os constantes sobressaltos e atritos desnecessários com outros poderes muitas vezes acabam por minar o bom andamento de projetos elaborados no Ministério da Economia, uma das ilhas de excelência do governo, de resto rodeadas pelo mar revolto da guerra ideológica que não cria um emprego sequer. Pelo contrário. O discurso ambiental enviesado, outro exemplo, aumenta a desconfiança internacional em relação ao Brasil, que assim vê ameaçada a chegada de capital que seria imprescindível para investimentos produtivos e em infraestrutura.

É inegável que fatores externos como a guerra comercial entre China e EUA e a crise argentina afetaram a economia brasileira. Por outro lado, sabia-se desde o final de 2018 que o maior potencial de crescimento da economia brasileira em 2019 viria do mercado interno. Muito das expectativas positivas de empresários e consumidores estava ancorado no encaminhamento e na aprovação de reformas. Mas pouco do prometido foi entregue, incluindo abertura comercial e privatizações.

Um novo fator a preocupar o mundo agora é o coronavírus, que afetou drasticamente a economia chinesa e as cadeias globais de fornecimento de insumos e mercadorias. A epidemia se espalha rápido por outros países, fazendo com que o estrago também se alastre. O secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, sentenciou no início da semana que a melhor vacina contra os danos do vírus é o avanço das reformas. Gestos simples de Bolsonaro, repensando o tom beligerante, seriam um bom começo para que a agenda consiga avançar o possível no Congresso antes do segundo semestre, quando Brasília se esvazia devido às eleições municipais. Algo de positivo poderá ser extraído do pibinho de 2019 se o desapontamento servir ao menos para o presidente compreender a gravidade da situação e seu papel como chefe do Executivo. Caso contrário, o Brasil poderá estar condenado a mais uma frustração em 2020.


05 DE MARÇO DE 2020
L.V. VERISSIMO

O triunfo da injustiça


Gabriel Zucman e Emmanuel Saez são dois economistas franceses que lecionam no campus de Berkeley da Universidade da Califórnia. Zucman foi aluno de outro economista francês, Thomas Piketty, que ficou famoso e rico como autor de O Capital no Século 21, em que, entre outras heresias, mostrava como o capitalismo desenfreado dos sonhos neoliberais não traria felicidade geral, mas desigualdade e miséria crescentes. Saez segue a linha de Zucman e eles acabam de lançar um livro expondo suas ideias - que ganharam relevância especial porque os dois são conselheiros para assuntos econômicos dos candidatos mais progressistas do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos, Bernie Sanders e Elizabeth Warren.

A dupla francesa se junta a outros economistas do contra, como os americanos Paul Krugman e Joseph Stiglitz, para citar apenas os nomes mais conhecidos, que desafiam a ortodoxia neoliberal e suas "verdades" estabelecidas. A ideia mais chocante para os ortodoxos é a da taxação progressiva de grandes fortunas para assegurar uma melhor distribuição de renda e dar ao Estado os meios de combater as mil maneiras que os muito ricos e as grandes corporações têm de esconder seus lucros imorais. A desigualdade é uma questão moral antes de ser uma questão de economia ou política, ou simplesmente estética, de simetria.

Bernie Sanders tem se saído melhor, nas "primárias" e nas pesquisas de intenção de voto, do que Elizabeth Warren. Tem contra si a idade, quase 80, e o fato de "socialismo", mesmo que só signifique taxar os ricos e garantir programas universais de saúde, ainda ser palavrão para muitos americanos. Joe Biden, que tem o carisma de uma couve-flor, está subindo nas "primárias" e nas pesquisas e talvez acabe sendo a opção sensata para enfrentar o Trump.

O livro recém lançado de Zucman e Saez é intitulado The Triumph of Injustice, o triunfo da injustiça, um nome perfeito para o que acontece em países, como o Brasil, em que a austeridade é um disfarce para o predomínio do capital financeiro, cujo poder persiste através dos anos no que pode ser descrito como um longo, interminável, desfile triunfal.

L.V. VERISSIMO
 
05 DE MARÇO DE 2020
INFORME ESPECIAL


Uma aposta no Rio Grande que prefere a conversa ao bate-boca

Ao fazer um balanço do seu primeiro mês na presidência do Tribunal de Justiça do Estado, o desembargador Voltaire de Lima Moraes repetiu uma palavra mais do que as outras: diálogo. Não é por acaso. Conversas francas, leais e frequentes têm marcado o relacionamento entre ele, o governador Eduardo Leite e o presidente do Legislativo, deputado Ernani Polo. Essa é uma boa notícia para o Rio Grande do Sul, um Estado que exagera na polarização e que, frequentemente, se orgulha de disputas que não precisariam existir.

Voltaire de Lima Moraes completa seus primeiros 30 dias à frente do TJ em meio a um trabalho de costura e articulação. Aproveitou a ida à Expodireto-Cotrijal para se reunir com magistrados e servidores da comarca de Passo Fundo. É o que chama de "política de coparticipação de gestão". Ouvir mais do que falar tem sido um dos seus mantras.

Voltaire já percebeu que a falta de servidores atrapalha a qualidade do trabalho da Justiça. "Estamos com cerca de 30% a menos de pessoal", afirma. Com voz pausada e serena, o presidente refuta a tese de que o Judiciário é uma ilha da fantasia em meio ao caos financeiro do Estado. "Nossa participação no orçamento é insignificante", afirma, além de relembrar a ajuda dada pelo poder a órgãos como o Instituto-Geral de Perícias e a cedência de parte dos ganhos financeiros dos depósitos judiciais ao Executivo, medida tomada durante a gestão de José Aquino Flôres de Camargo. "Mas essa ajuda não é uma via de mão única", pondera.

A conversa é o ponto de partida. "Não conhecia pessoalmente o governador Eduardo Leite e o deputado Ernani Polo. Estou positivamente impressionado com ambos", conclui.

TULIO MILMAN

quarta-feira, 4 de março de 2020


04 DE MARÇO DE 2020
DAVID COIMBRA

Um não vive sem o outro

O podcast é um programa de rádio portátil, escrevi ontem, e pus-me a tecer digressão acerca da palavra "portátil", porque gosto dela.

Quase ninguém mais fala a palavra portátil. Não surpreende, pois, basicamente, hoje tudo é portátil. Antes era indispensável explicitar que se podia portar determinado eletrodoméstico, sobretudo o rádio, que se agigantou ao diminuir de tamanho. No passado, o rádio ficava confinado em casa, encilhado a uma parede, sobre um móvel de madeira dura. Agora, o rádio, como Deus, está em toda parte. Foi isso que o radinho a pilha e os celulares fizeram com a forma do rádio. Com o conteúdo, o fez o podcast. As pessoas ouvem seus programas favoritos quando bem entendem, zanzando por aí ou no banho ou no carro.

No Rio Grande do Sul, o Potter é um dos grandes produtores de podcasts, senão o maior de todos. No seu último, do qual participei, ele pergunta se o jornalismo é salvação ou praga. Deitei falação a respeito, que o assunto me apraz. E, em meio a frases tantas, disse algo que gostaria de reproduzir aqui. Gostei da minha própria frase, confesso imodesto, e até senti certa vaidade dela. É o seguinte, vou abrir um parágrafo para destacá-la:

Não existe democracia sem imprensa livre, e não existe regime autoritário com imprensa livre.

Por imprensa, no caso, estou me referindo àquela profissional, em que veículos e jornalistas dependem da credibilidade para sobreviver. Não estou falando de órgãos acoplados a partidos, sindicatos, associações, clubes, religiões, ideologias ou quaisquer outras instituições. Estou falando da empresa e do profissional que vivem do jornalismo, que têm o jornalismo como fim, não como meio.

Redes sociais, WhatsApp e seja lá o que mais surgir no meio ambiente fluido e fugidio da internet ou outros que tais são apenas ferramentas da imprensa, não seus substitutos. O jornalista pode ter seu programa no rádio, no podcast, no canal do YouTube, não importa, desde que o programa seja, de fato, jornalístico, seguindo as velhas, certeiras e bem conhecidas diretrizes da profissão.

Jornalismo, justiça e democracia se misturam, só vicejam juntos, e um depende do outro. No Brasil, as pessoas estão um pouco confusas a respeito de como devem se relacionar com essas instituições, porque o país está em pleno processo de transformação, como se passasse pela adolescência. Tudo bem, a dor faz parte do crescimento. Sofreremos um pouco, mas cresceremos muito. E seguiremos em frente.

DAVID COIMBRA

04 DE MARÇO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

Vitória contra o crime

O Rio Grande do Sul foi palco, ontem, de uma exitosa operação policial destinada a golpear o crime organizado. Ao transferir 18 apenados para prisões federais, o Estado deu um recado claro: não se submeterá ao poder paralelo das facções, que vinham conquistando espaço no vácuo gerado por políticas de segurança ineficientes e enfraquecidas pela penúria financeira dos entes públicos.

Entre os tantos aspectos que merecem reconhecimento na Operação Império da Lei, está o trabalho integrado dos governos federal e estadual. Os envolvimentos pessoais do governador Eduardo Leite e do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, foram decisivos para o sucesso da meticulosa operação, planejada durante mais de um ano. A cooperação entre as polícias e outros órgãos técnicos e operacionais serve de exemplo em um Estado no qual, tantas vezes, as informações são tratadas como se fossem propriedade de alguns e, por isso, subaproveitadas por todos.

Na investida de ontem contra o crime, os detalhes foram minuciosamente cuidados, inclusive a possibilidade de reação às duras medidas contra traficantes e assassinos. Centenas de policiais gaúchos foram convocados extraordinariamente para, discreta ou ostensivamente, reforçar a segurança em cidades gaúchas para as quais os bandidos ampliaram suas atividades ilícitas depois que as autoridades apertaram o cerco em 18 municípios gaúchos com índices de homicídios e latrocínios mais elevados.

Apesar dos merecidos elogios à operação, emerge do episódio uma realidade desafiadora e que se desenha como um próximo passo fundamental para que o sucesso de hoje não se dilua no tempo. Ao enviar uma dúzia e meia de bandidos para penitenciárias de outros Estados, o Rio Grande do Sul deixa exposta, de forma clara, a falência do seu sistema prisional. O uso indiscriminado de celulares dentro das cadeias continua sendo uma chaga de difícil cura. Paradoxalmente, quanto mais se posterga o ataque a essa distorção, mais amargo fica o remédio. Uma outra boa notícia é que medidas nesse sentido já foram anunciadas no escopo da operação deflagrada ontem.

Resta à sociedade gaúcha trabalhar para que nossos presídios se transformem no que deveriam ser: espaços para o cumprimento de penas de restrição de liberdade e que, ao mesmo tempo, ofereçam oportunidades de ressocialização aos que verdadeiramente desejem deixar para trás o mundo do crime. O primeiro passo foi dado ontem.

OPINIÃO DA RBS


04 DE MARÇO DE 2020
RBS BRASÍLIA

Governo Bolsonaro precisa olhar para o RS

O Rio Grande do Sul precisa mais do que elogios do governo Bolsonaro. Com a confirmação dos prejuízos provocados pela estiagem, é cada vez mais urgente algum socorro do Ministério da Agricultura. Ao menos a prorrogação do prazo para pagar o custeio poderia ser liberada, já que está prevista no manual de crédito rural. 

Quem conversa com os produtores que circulam pela Expodireto-Cotrijal, em Não-Me-Toque, ouve que as perdas devem ser maiores do que as apresentadas pela Emater, de 21% na produção de milho e de 16% na produção de soja. Mas só o que a Secretaria da Agricultura confirma já representa uma perda de faturamento de R$ 4,6 bilhões. É dinheiro que deixa de circular na economia gaúcha, em um Estado que já passa por forte crise fiscal. Todas as vezes que o governador Eduardo Leite foi a Brasília e se reuniu com o ministro da Economia, Paulo Guedes, recebeu elogios. 

O próprio presidente Jair Bolsonaro reconhece que, politicamente, tem no Rio Grande uma de suas bases mais importantes, ao lado de Santa Catarina. Se existe toda essa sintonia, a equipe econômica deveria analisar com bastante atenção as reivindicações encaminhadas pelas lideranças gaúchas. O ministro de Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, já colocou na lista de prioridades obras importantes para o Estado como a BR-116 e a ponte do Guaíba. Agora, é a área agrícola que passa por uma situação de emergência.

CAROLINA BAHIA


04 DE MARÇO DE 2020
+ ECONOMIA

Cinco mil cursos online grátis

Para incentivar a inovação em Porto Alegre, a startup Innovation One, focada em educação aberta na área de de TI Digital, está oferecendo 5 mil vagas gratuitas em cursos online na área de tecnologia. As oportunidades são exclusivas para profissionais e estudantes de Porto Alegre e da Região Metropolitana. Para se inscrever no programa de bolsas, os interessados devem acessar o site digitalinnovation.one e se cadastrar. Cada módulo tem carga horária de 40 horas. Após a conclusão, os estudantes receberão certificado. Entre os temas, estão inteligência artificial e blockchain, o sistema que dá base para criptomoedas.

A surpresa dos EUA

O corte de 0,5 ponto percentual no juro básico dos Estados Unidos teve surpresa dupla: não esperou a reunião do comitê de política monetária do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), agendada para os dias 17 e 18, e veio em dose extra. A última vez em que o corte havia excedido o usual 0,25 ponto foi em dezembro de 2008, auge da crise global, quando o Fed derrubou a taxa de referência de 1% para o intervalo de zero a 0,25% ao ano.

Com a decisão, o juro americano cai para o intervalo de 1% a 1,25% ao ano. Além da medida inesperada, o Fed não poupou sustos. No comunicado, habitualmente sóbrio, afirmou que "o coronavírus representa crescentes riscos para a atividade econômica". Em entrevista, o presidente do Fed, Jerome Powell, afirmou saber que não vai reduzir a taxa de infecção ou reparar a quebra na cadeia de suprimentos, mas "evitará um aperto nas condições financeiras que podem pesar na atividade".

Flybondi foca em viagens de negócios

Ao inaugurar ontem a rota Porto Alegre-Buenos Aires, a Flybondi, que cobra a partir de R$ 414 pela passagem, com volta incluída, avisou que tem foco em viagens de negócio. Conforme o diretor comercial da empresa, Maurício Sana, até agora a ocupação dos voos para o Brasil tem ocupação ao redor de 80%:

- Como oferecemos passagem entre 30% e 40% mais barata, representamos uma saída da crise econômica. Em vez de deixar de voar, passa a voar em low cost.

Para quem estranha o fato de não haver retorno direto a Porto Alegre no domingo, avisa que vai ficar assim por algum tempo. A empresa não descarta oferecer passagens nos finais de semana, desde que identifique demanda para isso. Sana observa que o fim da ligação de verão entre Buenos Aires e Florianópolis permitiu a criação da rota para Porto Alegre. A previsão para este ano é de aumento da frota, o que deve permitir a manutenção dos dois serviços no próximo verão. Para quem não sabe o que esperar do desembarque em El Palomar, Sana detalha:

- É o terceiro aeroporto de Buenos Aires, que nasceu como base militar e, em 2018, com a chegada da Flybondi, foi aberto a operações comerciais. No complexo urbano, é o único que oferece conexão por trem, a 150 metros de distância, que chega ao centro da Capital em 35 minutos. Mas também tem táxi, Uber, Cabify. Para as pessoas que trabalham, fica muito prático.

A coluna, que conhece os trens metropolitanos da capital argentina, quis saber se houve modernização no serviço. Sana admitiu que é "muito heterogêneo": circulam algumas formações novas, que têm ar-condicionado, mas também as mais antigas. O executivo ainda esclareceu que, nos voos de e para o Brasil, a Flybondi não vai exigir que a bagagem de mão caiba embaixo do assento da frente, como ocorre na Argentina:

- Recebemos notificação do Procon, então, para o Brasil não estamos exigindo que vá sob o banco. Vamos respeitar a regra de incluir bagagem com até 10 quilos, e sabemos que, com esse peso, não cabe.

MARTA SFREDO

04 DE MARÇO DE 2020
TENSÃO EM BRASÍLIA

Mobilização para destravar obras empacadas no país

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, também explicou na Rádio Gaúcha o funcionamento do programa Destrava Brasil, que vai tentar viabilizar obras que estejam empacadas pelo país. É a primeira iniciativa da instância mais alta do Poder Judiciário em uma seara que é comum ao Executivo, a infraestrutura.

Em entrevista ao programa Gaúcha Atualidade, ontem, o ministro defendeu a criação de comitês formados por representantes de diversos órgãos, das esferas estadual e federal, para resolver o problema das obras paradas. Um plano piloto do programa foi implementado em Goiás, com foco em creches.

O objetivo de Toffoli é reunir os setores - de áreas administrativas, política e jurídica - em um comitê para acelerar a resolução de burocracias. Depois, a ideia é replicar o esquema nos demais Estados.

- Em vez de o processo passar de uma competência para outra, como o Tribunal de Contas, o Ministério Público (MP), a AGU, procuradoria do Estado, todo mundo junto, em um comitê, analisa, vê a prioridade e homologa na Justiça a solução (para a obra em questão). Isso vai dar mais segurança para o gestor tocar o projeto - defende.

Índice

Segundo ele, um levantamento de obras paralisadas feito pelo STF indica que apenas 6% dizem respeito a decisões da Justiça, dos tribunais de contas ou do MP. Os demais casos seriam devido a problemas de planejamento, de projeto ou de questões que causam insegurança aos gestores.

Mesmo paradas, as obras continuam gerando gastos. No caso da BR-116, entre Guaíba e Pelotas, por exemplo, o valor da duplicação da rodovia quase dobrou em 10 anos.

- O custo das obras paradas é muito maior do que aquilo que levou ela a ser paralisada. No caso das rodovias, quantas pessoas morrem em acidentes em estradas que não foram duplicadas? Isso é salvar vidas, não tem preço, não dá para ficar parado - argumenta.

O programa foi lançado oficialmente pelo ministro no final do mês passado em Goiás, em solenidade que contou com a presença do governador local, Ronaldo Caiado (DEM), e do procurador-geral da República, Augusto Aras.

04 DE MARÇO DE 2020

NILSON SOUZA

O chimarrão descompartilhado

Tudo é delicado neste episódio do novo vírus letal que desafia a ciência médica e aterroriza a população mundial. Por mais que as autoridades recomendem evitar o pânico, ninguém está imune ao medo. O problema é quando ele nos torna irracionais e faz emergir suspeitas, preconceitos e superstições. Por isso, na tentativa de prevenir estigmas, a Organização Mundial da Saúde decidiu dar logo um nome à doença, que até a metade do mês passado era conhecida apenas como um tipo de coronavírus diferente dos demais do grupo com formato de coroa. Ao batizá-lo de covid-19, a OMS segue o princípio de evitar relação com localização geográfica, animal, indivíduo ou grupo de pessoas - equívoco que já causou muitos danos e injustiças no passado.

A gripe espanhola de 1918, por exemplo, sequer teve origem na Espanha. Foi observada pela primeira vez nos Estados Unidos e matou entre 50 e 100 milhões de pessoas. Porém, como os países que participavam diretamente da guerra censuravam as notícias, sobrou para os espanhóis, que eram neutros no conflito e divulgavam livremente os efeitos da epidemia. A gripe suína (influenza A) provocou uma crise no comércio mundial de carne de porco. Agora mesmo, antes do covid-19 se espalhar pelo mundo a partir da China, já foram registrados casos de discriminação a pessoas de aparência asiática. O inferno - como disse o filósofo francês - são os outros.

Mas está ficando cada dia mais evidente que a família humana, independentemente de cor, raça ou nacionalidade, está toda no mesmo barco - e precisa reagir com os valores familiares da união, da solidariedade e do trabalho conjunto. Nosso inimigo é o vírus, não os seus eventuais portadores. O que podemos fazer, então? Em primeiro lugar, seguir rigorosamente as orientações preventivas das autoridades sanitárias e evitar as armadilhas do medo, entre as quais o repasse irresponsável de boatos, mentiras e teorias da conspiração.

Talvez tenhamos também que mudar - ou suspender por algum tempo - hábitos arraigados como o nosso chimarrão compartilhado e alguns cumprimentos calorosos tão ao gosto dos brasileiros. Sei que é difícil, mas cautela e caldo de galinha - já diziam nossas avós - não fazem mal a ninguém. Depois da tempestade, a gente beija e abraça efusivamente os nossos amigos queridos. E convida para um mate o cientista que descobrir o antídoto para esse malfadado vírus.

NÍLSON SOUZA

terça-feira, 3 de março de 2020



03 DE MARÇO DE 2020
DAVID COIMBRA

A diferença entre o velho e o clássico

O podcast é um programa de rádio portátil. Aliás, antes de mais nada, preciso ressaltar que nutro sincera simpatia por esse termo, "portátil". Trata-se de uma palavra que servia para designar algo novo e que envelheceu precocemente, como "calça de brim", "frigidaire" e "matéria plástica".

Calça de brim, você sabe, é a nossa ubíqua calça jeans. Até os anos 70, os brasileiros falavam "brim" por causa de uma fábrica de calças paulista que produzia os "Brins Coringa". As pessoas diziam:

- Tenho que comprar um Brim Coringa. Falavam tanto em Brim Coringa, Brim Coringa, Brim Coringa, que eu pensava ser uma palavra só: brincoringa.

O curioso é que o nome correto do tecido, "jeans", não veio dos Estados Unidos, veio da Itália. Descobri isso anos atrás, ao ler sobre a Corrida do Ouro. Farei um resumo rápido: no meio do século 19, quando os americanos estavam acometidos pela perigosa febre do enriquecimento rápido, arrancando metais preciosos da terra da Califórnia, um alemão chamado Levi Strauss percebeu que os mineiros se queixavam muito da fragilidade de suas calças. 

Elas se rasgavam e puíam com facilidade na lida diária. Então, ele tomou de lonas que deveriam servir para fazer barracas e com elas costurou calças. Ofereceu-as aos mineiros, que as aprovaram de imediato. Era daquela robustez que necessitavam. Mas as calças de lona tinham um problema: eram incômodas, tolhiam a mobilidade do trabalhador. Strauss, assim, saiu a pesquisar tecidos que possuíssem a mais importante reunião de qualidades que quase tudo deve ter, inclusive os seres humanos: a resistência acoplada à flexibilidade.

Strauss descobriu o que procurava na sua velha Europa, mais especificamente em Gênova, onde operários e pescadores já vestiam roupas feitas com um tecido forte e maleável. Esse tecido era azul, de um tom chamado "azul genovês", ou "genes", que os americanos pronunciavam? "jeans"! Donde o "blue jeans".

Levi Strauss ficou riquíssimo vendendo suas calças de azul-genovês, bem mais do que os mineiros que se esfalfavam com suas bateias e picaretas, o que mostra que as grandes oportunidades da vida às vezes são alcançadas por caminhos vicinais, e não pelo engarrafamento das grandes estradas.

Com outra palavra que citei, frigidaire, deu-se o mesmo fenômeno do Brim Coringa: era marca; virou sinônimo. No caso, de geladeira. A pronúncia é francesa, requintada, meio esnobe: "frigidérr".

Já a "matéria plástica" foi simplificada e virou plástico mesmo, mas, antes disso acontecer, corremos o risco de a tão abrangente e útil palavra "matéria" tornar-se definição de plástico. Uma vez, lá em Cachoeira do Sul, um dos amigos do bloco Alá-lá-ô apareceu vestindo uma calça feita de um tecido sintético, uma imitação de couro, sei lá, só sei que um outro amigo olhou maliciosamente para ele e comentou:

- Hmmm, calcinha de matéria?

Felizmente, hoje plástico é plástico e matéria é um monte de coisas.

Mas o que interessa aqui é que essas palavras surgiram de repente, foram içadas a enorme popularidade e, também de repente, viraram obsoletas. São como a lambada, as músicas do RPM, a leva-tudo e os romances de Sidney Sheldon. O sucesso universal que faziam é incompreensível hoje em dia.

O que torna algumas coisas clássicas e outras ultrapassadas? Essa pergunta eu iria tentar responder quando comecei a falar do podcast, esse programa de rádio portátil. Mas tergiversei, terei de concluir amanhã. Tenha, por favor, paciência, essa virtude dos homens superiores.

DAVID COIMBRA

03 DE MARÇO DE 2020
ARTIGOS

SOMOS PARCEIROS DE NOSSOS PACIENTES


Estamos passando por uma transformação na formação de médicos no Brasil. Hoje, nos bancos das faculdades de Medicina e nos hospitais, estamos encontrando médicos angustiados, preocupados muito mais com o processo jurídico que pode vir do que com o atendimento baseado em anatomia, fisiologia, semiologia e empatia. A preocupação é fazer exames e mais exames, alguns com custo elevado e sem nenhuma resolutividade para o caso, apenas para se salvaguardar. 

Palpar um abdômen e dizer se é cirúrgico ou não transformou-se em ressonância magnética, tomografia e vários exames laboratoriais. Isso se inicia cedo, com os doutorandos (5° e 6° ano do curso de Medicina), que atualmente não têm a oportunidade de praticar diversos procedimentos por excessiva necessidade de precaução, que dirá correr o risco de errá-los.

Fora dos bancos de faculdades e hospitais universitários, esse novo padrão é utópico. Em muitas cidades deste nosso imenso país, temos, quando muito, um aparelho de raios X. Estamos preparando médicos para grandes centros. Fugimos do nosso antigo objetivo, que era o paciente e fundamentalmente examiná-lo baseado em exames clínicos e diálogo para indicar o tratamento.

Não que para um tratamento adequado não sejam necessários exames para comprovação diagnóstica, mas a sofisticação e judicialização dos grandes centros tirou do médico seus maiores poderes: o de conhecer a profundeza da medicina e o de conhecer o seu paciente. Hoje temos preocupados prescritores de medicação e exames.

Medicina é conhecimento aliado a prática e, quanto mais praticar, mais vai aprender - tanto com o temido erro quanto com o acerto. O atual medo de errar impede o aprendizado. Só teremos médicos nos grandes centros, reféns da tecnologia que pode lhes proteger dos processos judiciais?

Em pouco tempo, teremos o maior percentual de médicos per capita do mundo. Porém, sem resolutividade e sem a perspectiva de aplicação de uma medicina com universalidade, equidade e integralidade. Devemos voltar a ser conscientes quanto ao papel do médico frente a um Estado incapaz de prover tecnologias de ponta para todas as suas regiões. Somos parceiros de nossos pacientes e não prescritores de respaldos judiciais.

LEANDRO NETTO

03 DE MARÇO DE 2020
RBS BRASÍLIA

Tereza Cristina ficou devendo

A passagem da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, pela Expodireto-Cotrijal, em Não-Me-Toque, frustrou as expectativas dos produtores que aguardavam o anúncio de medidas contra a estiagem. Da lista de reivindicações repassada à ministra, a mais viável era a prorrogação dos débitos, mas nem isso saiu. Os protestos, porém, foram poucos e concentrados.

Fechado com o presidente Jair Bolsonaro, o agronegócio gaúcho evita fazer críticas ao governo. Há outras bandeiras mais ideológicas e consideradas estratégicas, como as questões agrária e ambiental, que se sobrepõem à falta de socorro imediato. Com a quebra de safra que se desenha - a Emater apresenta hoje o levantamento -, a cobrança poderia ser maior.

Não é segredo que o ministro da Economia, Paulo Guedes, não apoia renegociações de dívidas e socorros a setores. Há uma barreira na política econômica liberal do ministro.

Resta aos produtores aguardar que a política tenha um peso maior para o presidente Bolsonaro do que as convicções do seu posto Ipiranga.

Recado da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, para o governador Eduardo Leite (PSDB):

- É de gestores como o senhor que o Brasil precisa.

Desperdício

Aliás, o ministro Onyx Lorenzoni perdeu a oportunidade de mostrar para os produtores gaúchos todas as mudanças que está promovendo no Ministério da Cidadania. Veterinário e ligado às questões do agronegócio, ele tampouco falou de agricultura. Os quase 20 minutos de discurso na abertura da Expodireto foram dedicados a atacar a imprensa.

Gastança

Os primeiros relatórios do pente-fino que está sendo feito nos contratos do Ministério da Cidadania vão ser entregues hoje a Onyx Lorenzoni. O ministro adiantou à coluna que só com aluguéis a pasta gasta por ano R$ 32 milhões. Onyx nega que essa devassa cause mal-estar com o antecessor e colega de bancada Osmar Terra (MDB).

CAROLINA BAHIA


03 DE MARÇO DE 2020
+ ECONOMIA

Aceno de ação conjunta de países ricos e BCs alivia bolsas

A confirmação de que os ministros de finanças do G7 se reúnem hoje para definir "ações combinadas" que freiem o princípio de crise global no mercado financeiro deu alívio às bolsas nos Estados Unidos e no Brasil.

O índice mais tradicional de Nova York, o Dow Jones Industrial, disparou para fechar com alta de 5%. No Brasil, a subida ficou na metade do caminho (2,36%), enquanto o dólar ignorou a tentativa de tranquilização para avançar mais 0,13% e fechar com novo recorde nominal, a R$ 4,487.

Bancos centrais de Japão e Estados Unidos também indicaram "resposta coordenada à crise" e até Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial afirmaram estar prontos para "ajudar países-membros a enfrentar os desafios humanos e econômicos do surto de coronavírus em rápida expansão".

A ágil mobilização é um aprendizado de 2008, quando esse tipo de medida demorou, prolongando e aprofundando a crise.

No entanto, analistas ponderam que o cardápio de iniciativas à disposição dos governos hoje é menor do que há 12 anos. As taxas de juro estão em pisos históricos, como no Brasil - onde voltaram as apostas de novos cortes -, e instrumentos como facilidade de crédito não respondem às necessidades.

Para o economista-chefe da corretora Necton, André Perfeito, há dois problemas que será preciso enfrentar nessa "ação coordenada": a falta de "orçamento monetário" nos bancos centrais, com taxas de juro "no chão" e oferta de recursos já no limite, além da dificuldade de compensar fechamento de fábricas e cancelamentos de eventos. Na Europa, fecharam em queda as bolsas de Milão (1,5%) e Frankfurt (0,27%). Houve reação em Londres (1,13%) e Paris (0,44%).

RISCOS PARA A PRODUÇÃO

A indústria eletroeletrônica é uma das mais afetadas pelo coronavírus. Muitos componentes deveriam vir da China, onde as fábricas estão paradas desde o final de janeiro e, apesar de sucessivas tentativas, a produção ainda está longe de se normalizar. Em empresas como a Exatron Indústria Eletrônica, de Gravataí, o estoque está com áreas vazias que deveriam estar cheias, e o ritmo da produção teve de ser reduzido à espera de insumos.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), o volume importado da China representou quase metade (42%) do total do segmento em 2019. Outros países asiáticos, que também dependem de fornecedores chineses, respondem por mais 38% das compras no Exterior. Régis Haubert, diretor da Exatron, detalhou ontem o tamanho do impacto nas linhas de produção. Como fornece equipamentos de automação para residências, pondera que até a construção civil pode enfrentar problema com abastecimento desse tipo de equipamento. Caso a produção chinesa seja retomada nesta semana, Haubert estima que ainda vai levar de 30 a 60 dias para que as fábricas consigam colocar a produção em dia. Depois disso, ainda serão necessários 15 dias, por avião, ou 60 dias, por navio, para que os componentes cheguem às fábricas do Estado.

A BOLSONARO O QUE É DE BOLSONARO

A recente alta do dólar, contida por bilhões ofertados pelo Banco Central, é debitada na conta da gestão interna da economia, logo do presidente Jair Bolsonaro. "Dólar a R$ 5 e a culpa é do coronavírus? Ah, tá?" é uma formulação usual. O dólar fechou ontem com alta de 0,13%, em R$ 4,487, ainda por força dos temores despertados pelo coronavírus. Vinha embalado por vários discursos do ministro da Economia, Paulo Guedes, defendendo "juro mais baixo e dólar mais alto". Mas estava em R$ 4,16 quando o mercado começou a ter calafrios.

Na economia real, o Brasil já não vinha em velocidade de cruzeiro quando foi atropelado pelo coronavírus. Os sinais de que o último trimestre de 2019 não foi o que se esperava começaram a provocar reduções das projeções de alta no PIB antes dos tremores com o contágio do vírus na economia.

Um dado divulgado ontem pela Serasa Experian mostra que a reação já estava comprometida (veja gráfico acima). No ano passado, o número de empresas que não conseguem pagar suas contas em dia foi o maior desde o início da série histórica, em março de 2016. Em dezembro, muito antes que se ouvisse a palavra "contágio" no Brasil, subiu 9,5% em relação ao mesmo período de 2018 e de 1,6% na comparação com o mês anterior. Então, é preciso separar a conta de Bolsonaro, que vai até meados de janeiro, e a do coronavírus, que começa logo em seguida. Agora, o Brasil está na mão do G7. E o país já sabe que transformar tsunami em marolinha não evita perdas, só as transfere no tempo.

LEITORES INFORMARAM FALTA DE ÁLCOOL GEL, NO FINAL DE SEMANA, NO ZAFFARI E NA PANVEL. AS DUAS EMPRESAS CONFIRMARAM QUE HOUVE PROBLEMA NOS ESTOQUES, MAS ASSEGURARAM QUE A SITUAÇÃO JÁ FOI NORMALIZADA. A PANVEL MENCIONA "CRESCIMENTO EXPONENCIAL" DA PROCURA POR MÁSCARAS E ÁLCOOL GEL.

Negócios de futuro | RANDON VAI ACELERAR STARTUPS

Com foco em projetos para os segmentos de logística, serviços financeiros, seguros e mobilidade, a tradicional empresa de montagem de reboques da Serra lançou no final de fevereiro o Randon Ventures, um fundo de investimentos em startups.

A primeira rodada está aberta e prevê R$ 3 milhões para acelerar até 12 negócios inovadores em um ano.

Terá apoio da aceleradora ACE, responsável pela governança do fundo, além da Ventiur e da Baita Aceleradora. O primeiro projeto será com a startup paranaense TruckHelp, que desenvolveu plataforma de soluções e serviços para caminhoneiros e transportadoras, com ferramentas que conectam esse público a lojas de autopeças e oficinas.

MARTA SFREDO


03 DE MARÇO DE 2020
CARPINEJAR

Contra o suicídio, só a família

As estruturas familiares precisam ser mais fortes do que as redes sociais. É o antídoto usado para não perdermos os nossos jovens pelo suicídio. É fundamental que os likes e os comentários dentro de casa sejam mais contundentes e numerosos do que nas páginas pessoais.

Estaremos, dessa forma, combatendo as aparências dos avatares, aquela vida perfeita e ilusória que só aumenta o sofrimento, por contraste, de quem se sente excluído.

Ou alguém duvida que a angústia vem aumentando na web, onde o mundo inteiro é feliz, sarado e influente? É stalkear algumas horas para se descobrir fracassado. Qualquer um sente que sua biografia não presta, que seus problemas são exceção diante da harmonia coletiva.

Antes, era difícil sobreviver à infância, pela precariedade das vacinas e qualidade dos partos. Hoje, mais do que a velhice, o difícil é superar a adolescência, quando a carência e a necessidade de afirmação escancaram a porta com perigosas precipitações. O adolescente tem mais risco de morrer do que o velho. É uma estatística, não uma opinião.

Pois ele conta unicamente com a família para ajudar a digerir as altas expectativas da escolha profissional, as transformações do corpo, o bullying, a aceitação sexual. Não é pouca coisa para suportar.

A família não pode se tornar mais um lar-dormitório. Urge assumir a sua condição de retaguarda moral e emocional. Temos a obrigação de mostrar as nossas dores e dúvidas para que os filhos não pensem que somos também super-heróis.

Que os pais diminuam o ritmo do trabalho, que os avós recebam convocação para um convívio mais estreito, que as madrastas e os padrastos não tenham um papel decorativo, que os irmãos sejam postos a par de tudo, como anjos infiltrados na escola e na rua.

Que se estabeleça uma rotina de falar muito para que o adolescente encontre liberdade de opinar. Não é com meia horinha de cumprimento à noite que dá para entrar de sola num assunto sério.

Que o almoço e o jantar voltem a reinar dentro de casa, com as pessoas se servindo e se observando. Sem essa de comer depois, sem essa de se trancar no quarto.

Os espaços de coexistência exigem uma nostálgica ampliação. Ninguém diz o que incomoda em particular, mas dentro do manancial de longa presença, num comentário fortuito em brincadeira, sem grandes pretensões de lição de moral.

Avisem aos seus filhos que eles não estão sozinhos, que as publicações não são bem assim, que o medo passa e o afeto fica.

CARPINEJAR

segunda-feira, 2 de março de 2020



02 DE MARÇO DE 2020
DAVID COIMBRA

O assalto ao restaurante mexicano

Será que agora os ladrões de Porto Alegre vão começar a assaltar restaurantes? Sexta-feira à noite um restaurante mexicano da cidade foi assaltado. Havia 60 clientes no lugar. Os bandidos chegaram, anunciaram o assalto e passaram a recolher carteiras e celulares. Uma moça que demorou a compreender o que estava acontecendo levou um tapa, mas não houve mais violência. Os assaltantes foram de mesa em mesa, recolhendo celulares e carteiras e colocando tudo em um saco de pano. Depois de 20 minutos de terror, saíram agradecendo pela colaboração.

Entre os clientes se encontrava o vereador Valter Nagelstein e sua família. Nagelstein é defensor da liberação das armas. Ontem, a repórter Adriana Irion o entrevistou para GaúchaZH. O vereador reconheceu que, se alguém estivesse armado naquele momento, poderia haver uma tragédia. Os ladrões reagiriam e, como sempre, os inocentes pagariam a conta. Mesmo assim, ele continua defendendo o porte de armas "desde que haja treinamento". Como se vê, o vereador é um otimista. Acredita que o treinamento dará, ao homem armado, não apenas a destreza, mas o equilíbrio e o bom senso.

Antes que os machos defensores das armas se levantem para atirar em mim, ressalto que não sou contra a POSSE de armas restrita a residências. Contra o PORTE, sim. Mil vezes sim. Ocorrências recentes, como o assassinato de uma família inteira na zona sul de Porto Alegre, demonstram com clareza o que pode acontecer quando pessoas andam armadas pelas ruas. Os Estados Unidos, país em que há quase tantas armas quanto habitantes, propicia fartos exemplos disso. Os Estados mais seguros, como Massachusetts, onde vivi, são os que impõem as maiores restrições às armas.

Mas o que mais interessa, no momento, é a pergunta que fiz no começo da crônica: será que agora os ladrões de Porto Alegre vão começar a assaltar restaurantes? O próprio Valter Nagelstein disse, na entrevista, que tentará evitar os restaurantes de rua. Ou seja: irá apenas a shoppings.

É quase uma sentença de morte para a cidade. Porto Alegre já teve uma noite feérica, que encantava os forasteiros. Os hábitos noturnos dos porto-alegrenses eram parecidos com os dos argentinos, dos uruguaios e dos espanhóis. No fim de semana, você saía de casa à meia-noite e percorria uma cidade iluminada, colorida e feliz, que, não raro, só ia dormir ao amanhecer.

A partir dos anos 90, o medo foi, paulatinamente, trancando as pessoas em casa. As ruas restaram para os bandidos e os temerários. Quando um cidadão sai para jantar, fica tenso ao descer do carro e ao entrar no carro, fica tenso ao parar debaixo de um semáforo e ao acionar a porta da garagem de casa. Será que ficará tenso também dentro dos restaurantes? Será que não há lugar em que o porto-alegrense possa viver uma vida normal, em paz?

As autoridades do Estado têm de tomar o caso deste assalto como um símbolo e um cavalo de batalha. Têm de se manifestar a respeito, têm de traçar um plano e, principalmente, têm de agir, para dar alguma garantia à população. Ou as pessoas farão como querem os amantes de armas: vão reagir por conta própria. E, como sempre, os inocentes pagarão a conta.

DAVID COIMBRA


02 DE MARÇO DE 2020
EM DIA

MENTES QUE QUEIMAM

As máquinas sempre estiveram presentes na vida dos homens, tornando as tarefas menos árduas, deixando para o homem atividades mais nobres. Do arado aos computadores, celulares e robôs. Mas tudo foi ficando tão acelerado que, ao contrário do que era imaginado, as pessoas estão trabalhando cada vez mais.

Crises constantes, maior competição, busca por maior produtividade, redução de equipes, mais pressão por resultados, prazos cada vez menores. Isso tem levado muita gente a sofrer o burnout, verdadeiros apagões mentais. Em tradução livre, "queimar até o fim". Quando isto acontece as pessoas começam a fazer coisas sem nexo, tomam atitudes esquisitas, impensadas ou agressivas. É como se o corpo e a mente dissessem: "Chega, não dá mais!"

O que era um fenômeno do mundo do trabalho, passou a ser uma doença. E cresceu tanto no mundo que já se fala em epidemia. O Japão é o líder, com 70% da população economicamente ativa sofrendo de burnout. Em 2016, quase um quarto das empresas japonesas exigia que os funcionários cumprissem mais de 80 horas extras por mês. Em segundo lugar vem o Brasil com 30%, seguido pela China com 24%, e os EUA com 20%. Na China, é comum os funcionários trabalharem das 9h às 21h durante seis dias por semana. As causas do burnout são pessoais e pelas condições de trabalho das empresas.

Pessoas depressivas, perfeccionistas, que se cobram demais, os workaholics, que se dedicam excessivamente ao trabalho e pouco ao descanso têm mais propensão ao burnout. Os fatores que mais contribuem para essa doença estão ligados a burocracia, excesso de horas no trabalho, uso constante do computador, falta de respeito por chefes e colegas, compensação ($) insuficiente e a falta de autonomia. Em três palavras: exaustão, ineficiência e cinismo. O aumento alarmante de casos de burnout é um sintoma de ambientes inadequados para o desenvolvimento saudável do ser humano. Quando os valores pessoais e os da empresa são incompatíveis, algumas pessoas passam a ter um sofrimento interno que pode se transformar nessa doença.

Para que as pessoas não adoeçam por esgotamento profissional, algumas organizações têm usado o mindfulness, meditação, workshops de inteligência emocional. A Microsoft, por exemplo, começou a experimentar modelos como o fim de semana de três dias. A produtividade aumentou 40%. É preciso reinventar as empresas, torná-las mais humanas e respeitar as individualidades, usando as máquinas para facilitar a vida das pessoas e não para eliminar o ser humano. Buscar o equilíbrio entre os tempos dedicados a trabalho, afetos, cuidados pessoais e à sociedade, nos reconectando à natureza, tocando a vida sem tanta pressa.

Alfredo Fedrizzi escreve às segundas-feiras, a cada 15 dias.

Amanha Fábio Bernardi, sócio-diretor de criação da Morya

ALFREDO FEDRIZZI

02 DE MARÇO DE 2020
+ ECONOMIA

Indústria chinesa tem pior índice da história

Um indicador do ritmo da China assustou investidores em pleno sábado, quando foi divulgado pelo governo do país asiático. E promete provocar reações fortes hoje no mercado financeiro, que acabou de passar pela pior semana desde a crise de 2008. O PMI Industrial chinês despencou de 50 pontos, em janeiro, para 35,7 em fevereiro. Trata-se do Manufacturing Purchasing Managers Index, índice baseado nas expectativas de executivos sobre ritmo de produção, encomendas, velocidade de reposição de estoque e nível de emprego para o mês seguinte.

Mesmo pouco conhecido do público em geral, é um dos termômetros mais usados por operadores de bolsa e outros ativos, além de orientar decisões empresariais. Existe em cerca de 30 países além dos Estados Unidos, onde nasceu em 1948. Na China, é calculado pelo National Bureau of Statistics of China, equivalente ao IBGE no Brasil. Varia de zero a cem pontos e, se o resultado ficar acima de 50 indica aceleração da atividade, caso se situe abaixo disso, sugere contração.

Embora a queda fosse previsível, porque há muitas fábricas paradas na China sem efetiva previsão de retomada da normalidade, o tamanho do tombo deixou analistas impressionados. Na avaliação de Pablo Spyer, diretor da corretora Mirae, "vai chocar os mercados" nesta semana.

- Ficou muito abaixo de qualquer expectativa. Esse PMI é pior do que o pior momento da crise financeira, é o pior da história - observa, detalhando que o nível mais baixo já registrado desse indicador havia sido de 38,8 pontos durante a crise global de 2008.

Para dar ideia do susto com o resultado, a média das expectativas dos analistas ouvidos pela agência de notícias Reuters era de 46.

MARTA SFREDO


02 DE MARÇO DE 2020
POSSE NO URUGUAI

Lacalle Pou não quer ideologias no Mercosul

O novo presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, pediu ontem que se deixe de lado as ideologias no Mercosul. No discurso em que foi empossado, no parlamento, também anunciou medidas imediatas nas áreas de segurança e economia, entre outras.

- Não deve importar a ideologia política de cada membro do Mercosul. Se deixarmos de lado essas questões ideológicas que podem nos diferenciar, o bloco irá se fortalecer no conjunto internacional - disse o centro- direitista, que, com sua posse, encerrou 15 anos de governos de esquerda no Uruguai.

As diferenças entre os presidentes do Brasil, Jair Bolsonaro, e da Argentina, Alberto Fernández, pesam sobre o bloco econômico, formado também pelo Paraguai. O chefe do Executivo brasileiro participou da posse, em Montevidéu.

Durante a eleição uruguaia, Bolsonaro havia declarado apoio público a Lacalle Pou por avaliar que ele e seu partido estão "mais alinhados com os nossos pensamentos liberais e econômicos", disse, na época, o presidente ao jornal O Estado de S. Paulo. A atitude gerou atrito nas relações bilaterais, e Lacalle Pou rebateu, também nas eleições:

- Se eu fosse presidente e houvesse processo eleitoral no Brasil, por mais que gostasse mais de um do que de outro, esperaria os resultados, pois, ganhe quem ganhar, é com ele que tenho de me dar bem.

Prioridades

Após compromisso de honra constitucional na Assembleia Legislativa e antes de seguir até a Praça Independência para receber a faixa das mãos do então presidente, Tabaré Vázquez (da Frente Ampla, de esquerda), Lacalle Pou repassou, em um discurso de 30 minutos, os temas que serão prioridade em sua gestão e anunciou medidas concretas.

Em panorama econômico que classificou como "deteriorado", e após citar que 150 mil uruguaios perderam o emprego, o novo presidente destacou a importância de agir sobre o custo dos serviços:

- Temos um compromisso do qual não se pode fugir, de melhorar a qualidade e o preço dos serviços públicos, adequar os recursos humanos do Estado, gerar apoio direto às micro, pequenas e médias empresas.

Lacalle Pou insistiu em sua promessa de campanha de cortar as despesas públicas:

- O cidadão já fez o esforço para sustentar os gastos públicos e o aparelho estatal. Este governo tem o compromisso de administrar de forma austera, cuidaremos de cada peso do contribuinte.

O novo presidente citou um dos temas que mais preocupam a população e que analistas apontam como fator relevante para a derrota da Frente Ampla: a insegurança.

- Estamos diante de uma emergência. O orçamento de segurança pública quadruplicou desde 2005, e, apesar do gasto, a piora aumenta a cada dia - assinalou.

Por isso, anunciou que irá convocar, hoje, "todas as hierarquias policiais do país, para lhes dar orientações claras sobre a estratégia a ser levada adiante".

Lacalle Pou se tornou, aos 46 anos, o presidente mais jovem do Uruguai desde 1985, ano em que a democracia foi restaurada no país. Formado em Direito, deputado por três mandatos e senador por um pelo Partido Nacional (centro- direita), é filho de ex-presidente e bisneto de líder político histórico.

Como parlamentar, em consonância com a postura conservadora que identifica sua força política, ele votou contra a descriminalização do aborto e o casamento homossexual. Ele também rejeitou a regulamentação da maconha promovida pelo governo de José Mujica (2010-2015), embora já tivesse apresentado projeto de legalização para o autocultivo da erva, que ele declarou abertamente ter consumido em sua juventude, assim como a cocaína.

Ele terá mandato de cinco anos.

02 DE MARÇO DE 2020
CLÁUDIA LAITANO

A peste

No século 14, quando a peste negra dizimou cerca de um terço da população da Europa, a ciência ainda não estava suficientemente desenvolvida para entender o que causava a doença e como ela era transmitida. Desorientados e com medo, nossos antepassados fizeram o que estava a seu alcance: rezaram, testaram curas que não curavam e caçaram culpados que não tinham culpa. Enquanto judeus e outros bodes expiatórios eram perseguidos e mortos à toa, a bactéria que causava a doença continuava fazendo seu trabalho, pulando dos ratos para as pulgas e das pulgas para o homem, sem respeitar fronteiras ou credos religiosos.

Nada indica que corremos o risco de o coronavírus varrer do mapa um terço da população do mundo, mas enquanto a vacina não chega podemos aproveitar a comoção global para observar como a desinformação se espalha pelo planeta usando a tecnologia como hospedeira. Das mais modernas teorias conspiratórias às piores charlatanices, não há disparate que dra. internet e sua equipe se recusem a receitar a alarmados e alarmistas do século 21. No caso de doenças como o sarampo e a poliomielite, já é possível dimensionar o tamanho do estrago causado por esse tipo de desinformação. Um estudo divulgado pela Avaaz, sobre a volta de doenças que haviam sido controladas no Brasil, mostra uma queda brutal nos índices de vacinação contra o sarampo (de 96%, em 2015, para 57%, em 2019) e da pólio (de 95%, em 2015, para 51% em 2019) - causada, basicamente, por mentiras espalhadas pela internet.

A informação falsa é um risco para a saúde pública da mesma forma que a fake news é um risco para a democracia. Cada vez fica mais evidente que o combate contra a desinformação deveria se tornar a prioridade número 1 da nossa época. Nada é tão importante, em 2020, quanto desmascarar quem desqualifica a ciência e o conhecimento dos especialistas, compartilha mentiras e banaliza a expressão "fake news" referindo-se a jornalistas que estão fazendo seu trabalho de forma séria e responsável.

Nenhuma teoria conspiratória é inofensiva, nenhuma mentira é inocente, nenhuma desinformação é sem consequências. Podemos achar graça de quem acredita que a Terra é plana, mas na hora em que um novo vírus bate na porta não é o dr. WhatsApp que vai para a bancada do laboratório desenvolver uma vacina. Nesse momento, quem nos salva são cientistas e especialistas. Na batalha contra a desinformação e a mentira, estamos exatamente como os europeus do século 14 flagelados pela peste: desorientados, com medo e ainda muito longe de uma cura.

CLÁUDIA LAITANO


02 DE MARÇO DE 2020
INFORME ESPECIAL

Êxtase e medo

O recente pânico nos mercados financeiros mostra o perigo da euforia. Os últimos que chegam na festa pagam a conta de quem está indo embora. E geralmente são os incautos pequenos investidores. Principalmente no Brasil. São os retardatários que sonham com o ganho alto e rápido.

Em abril de 2008, o país era premiados com o grau de investimento. Um futuro brilhante pela frente. Levas de pessoas físicas entraram na bolsa, após vários anos de bons resultados. O céu era o limite. No mês seguinte, recorde de pontuação do índice Ibovespa. Mas, ao final de maio, a crise do subprime nos EUA deflagrou uma vertiginosa queda nas ações.

No início de 2018, a moda era o bitcoin. Cerca de 1,4 milhão de brasileiros queriam surfar nos lucros alucinantes da criptomoeda que disparou 2.000% em 2017. O resultado? Perda de dois terços do valor no ano.

No fim de janeiro, com o coronavírus já no radar, a bolsa brasileira atingia mais um recorde. Cerca de 240 mil pessoas entraram no mercado entre dezembro e janeiro. Agora, são 1,8 milhão. Mais do que o dobro de um ano antes, movimento creditado à firme queda do juro e às prometidas reformas que colocariam o Brasil outra vez nos trilhos.

As próximas semanas mostrarão se foi apenas um susto ou, outra vez, os atrasados receberão a fatura da festança. Fica a máxima de que convive com estes ciclos: venda ao som de violinos, compre ao estrondo dos canhões.

CAIO CIGANA - INTERINO

sábado, 29 de fevereiro de 2020



29 DE FEVEREIRO DE 2020
LYA LUFT

Não vou falar naquilo

Tanto assunto neste mundo vasto, vastíssimo, e vou procurar alguma coisa bem comum, bem cotidiana, porque há um assunto em que não quero falar. Vou conseguir?

Começo pela volta da praia, ou da serra (muito mais gente busca a praia no verão), para ver como nos adaptamos. Estranhamente, demoramos mais a nos acostumar de novo em casa do que no lugar escolhido para férias. Porque lá, diferente da vida comum, tudo é novidade, e nas coisas daqui esbarramos com certo tédio. A mesma sala, a mesma cama, a mesma comida, os mesmos programas de TV, e, se não formos meio ignorantes, até os mesmos livros na prateleira. E como livro anda caro, acabamos lendo na internet, o que também eu eventualmente faço.

A volta, o retorno, depois daqueles dias sonhados um ano inteiro. Meu irmão pequeno e eu, em outubro, clareando céus e paisagens quando havia estações distintas, já dizíamos senti "cheiro da praia". Devia ser meio fantasia, meio memória da maresia, das comidas de lá, das gentes e bichos... ele andava na carretinha puxada por um cabrito, eu já montava a cavalo com meu pai muitas vezes, adorando aqueles rumores, aquele cheiro meio selvagem.

O ano inteiro sonhávamos com a praia. O ano inteiro nos preparávamos, de alma e pensamento, para aquele mês, às vezes dois - , aí a gente começava a se entediar um pouco, porque o ser humano é isso mesmo, novelo de complicações, enredo de chatices.

Vai daí que além da volta das férias, porque as aulas estão começando, temos o cansaço do calor. Muitas pessoas adoram, eu desgosto um pouco, porque calor só em praia e piscina, lugares onde geralmente hoje não estou. Detesto a preguiça que o calor me causa, maior ainda do que minha já natural preguiça desde sempre (essa guria nasceu cansada, diziam em casa). Desmarcamos uma viagem à Itália nos próximos dias, não vou dizer por que motivo, e acho que ficamos um pouco mais tristes. Meu novo livro, As Coisas Humanas, deve sair pela Record em fim de abril, mas vamos ver se se farão grandes reuniões - minha ilusão de sempre, em geral correta, gracias, leitores amados - ou se vai ser adiado também. De momento nada sabemos, além das notícias que ocupam quase todos os espaços, inclusive de esportes e economia... sobre o assunto que não abordarei.

Então, começo das aulas. Lembro com que alegre expectativa, nos tempos de escola ou universidade, esperávamos por essa hora. Que novos colegas, que professores, que matérias, que interesses, que entusiasmos ou... que tédios também? Mas haveria sempre a biblioteca quando o resto estava meio sem graça.

Esta é uma época de retornos, recomeços, reencontros... ou fins. O namorico da praia, a amizade da serra, os aromas, os ruídos, as pessoas... o retorno troca o cenário, mas os bastidores são os mesmos: nossa alma alegre ou melancólica, nossa realidade boa ou péssima, ou razoável, mas quem quer o razoável? E como nós em parte construímos nossa vida, mãos à obra.

Consegui uma coluna inteira sem falar... no coronavírus. Ou nas entrelinhas ele esteve aqui o tempo todo?

LYA LUFT

29 DE FEVEREIRO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Amigos imaginários

Foi das boas surpresas cinematográficas deste verão: Jojo Rabbit. O filme (que ganhou o Oscar de melhor roteiro adaptado) é lúdico, divertido, inteligente e ousado: dá para imaginar um garotinho que tenha Hitler como amigo imaginário?

Pequena ainda, eu me fechava no quarto e cantava para plateias que só eu enxergava, mas um amigo imaginário, nunca tive. Uma pena, pois toda criança tem múltiplas razões para providenciar um cúmplice secreto e invisível que concorde com o plano de assaltar a geladeira de madrugada e que ajude a enfrentar os monstros embaixo da cama. Crianças têm medo e não gostam de se sentir sozinhas.

Hoje, crescidos, ainda temos amigos imaginários, e acho que é por medo também. Sabe aqueles milhares de nomes que te seguem no Facebook e no Instagram? Não custa lembrar: são amigos só na sua cabeça.

Não temos mais idade para fazer xixi na cama, mas ainda ficamos apavorados só de pensar na solidão, o bicho-papão de 10 entre 10 adultos. Em vez de aceitar que ela é parte de nós e que não é tão medonha assim, preferimos disfarçá-la através de uma socialização de faz de conta. Fotografo meu congrio com batatas, posto nas redes, 42 pessoas curtem, e já não estou almoçando sozinho.

Enquanto isso, a Maria, uma das que curtiu seu peixe com batatas, está compartilhando um texto sobre política e recebendo dezenas de aprovações em forma de likes, e o João, que também curtiu seu congrio, está postando a foto da afilhada que hoje faz 15 anos. Todos com o celular na mão buscando a confirmação de que não estão sós.

É uma cachaça, eu sei, também posto. Mas temos que falar sobre isso. Ficar tanto tempo no celular, ao contrário do que parece, é a maneira mais rápida de sucumbir à solidão, pois não se está com ninguém, nem consigo próprio. Desperdiçamos um tempo que poderia ser dedicado à introspecção, à leitura, à música - à nossa insubstituível companhia.

Tem muita coisa interessante na timeline de pessoas interessantes, e muita bobagem na timeline dos bobos. Sabendo fazer uma filtragem, as redes se tornam proveitosas fontes de informação. Se, além disso, elas forem usadas para dar o pontapé inicial numa relação de amizade, profissional, romântica ou sexual, ótimo - a internet ajuda a adiantar o serviço. Mas, se a ideia é apenas colecionar milhares de seguidores, adicionar o amigo do amigo do amigo de algum conhecido, sem jamais transformar isso em alguma experiência de troca real, aí é só um exercício de ilusão para amenizar carências infantis. Serão sempre amigos imaginários que, caso você conhecesse mesmo, talvez não merecessem se sentar com você à mesa para compartilhar seu peixe com batatas.

MARTHA MEDEIROS