sábado, 7 de março de 2020



07 DE MARÇO DE 2020
COM A PALAVRA

O CINEMA ESTÁ DECADENTE, CHATO E INFANTILIZADO.
SÉRGIO AUGUSTO

Jornalista e escritor, 77 anos Repórter e crítico com passagem por vários veículos do país, é autor, entre outros, de Este Mundo É um Pandeiro - A Chanchada de Getúlio a JK. Acaba de lançar Vai Começar a Sessão, compilação de textos sobre cinema

Tête-à-tête com François Truffaut e Jeanne Moreau, visita inesperada a Billy Wilder, volta de fusca com Fritz Lang, cachaça com pastel ao lado de Francis Ford Coppola, cruzeiro de navio entrevistando, à beira da piscina, Sharon Tate, a mulher mais linda que viu de perto (porque, frisa, nunca esteve diante de Ava Gardner). A lida a que se lançou impulsionado pela paixão cinéfila proporcionou a Sérgio Augusto encontros e prazeres memoráveis ao longo de mais de 50 anos de trajetória na imprensa. Alguns são compartilhados com os leitores de seu mais recente livro, Vai Começar a Sessão.

Sérgio Augusto é uma reverenciada eminência do jornalismo cultural brasileiro. Tem no cinema o seu primeiro e mais reconhecido campo de atuação, como crítico, repórter e ensaísta. Mas a paixão pelos filmes sempre ferveu num caldeirão de múltiplos interesses, que passou a observar pelo olhar do cronista. O volume reúne textos publicados entre 2011 e 2018, em sua grande maioria no jornal O Estado de S. Paulo - seu currículo traz, entre outros veículos, Veja, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo e o histórico O Pasquim, no qual integrou uma seleção da escrita ao lado de craques como Paulo Francis, Tarso de Castro e Millôr Fernandes.

O autor é reconhecido pelo prodígio de verter em textos leves e saborosos sua caudalosa erudição. Apelidado Sérgio Augoogle por Millôr - bem apropriado a quem de tudo parece saber e lembrar -, é apresentado no livro também com superlativa justiça: "É o único filho intelectual de um estranho casal formado pela Cahiers du Cinéma e a The New Yorker", referência às duas publicações ícones da cultura ocidental separadas por um oceano. Em Vai Começar a Sessão, Sérgio Augusto percorre de filmes clássicos a joias obscuras, de astros e estrelas que brilharam na velha Hollywood aos que sucumbiram à sombra dos holofotes, de episódios históricos a fofocas mundanas. Ele conta mais nesta entrevista concedida a Zero Hora.

COMO FOI O PROCESSO DE SELEÇÃO DOS TEXTOS PARA O LIVRO?

São artigos que não foram pensados para ser reunidos em livro, são de assuntos gerais, ao sabor do que ia pintando naquela semana em que eu os escrevia. Às vezes, você tem a ideia de escrever sobre um grande assunto, mas vê que não tem artilharia suficiente para atacar o tema e acaba desistindo. Depois da Veja e da IstoÉ, de onde saí em 1981, comecei a deixar de fazer crítica de cinema. O cinema está decante, muito chato e infantilizado. No jornalismo semanal, em revista, você consegue ser mais seletivo. Escrevo pouco sobre cinema no Estadão porque lá tem dois caras muito bons, o (Luiz) Zanin e o (Luiz Carlos) Merten, que dão conta do serviço.

A CAPA DO LIVRO TRAZ IMAGENS DE UM CORPO QUE CAI (1958), DE HITCHCOCK. POR QUE ESSA ESCOLHA?

Foi a primeira sugerida pela editora. Como gostei, nem quis ver outras sugestões. Não conheço a autora, mas já a cumprimentei. Não sei se ela também adora Um Corpo que Cai, tema de um dos textos do livro. É um dos meus três ou quatro filmes favoritos e o melhor de Hitchcock, figura de destaque no meu panteão cinematográfico. Não gosto dos últimos filmes dele. O último que admirei foi Frenesi (1972).

VOCÊ INCORPOROU EM SUA ESCRITA ANALÍTICA O OLHAR E A PROSA DO CRONISTA. A BUSCA POR ESSA MARCA PRÓPRIA FOI CONSCIENTE?

Foi natural, ao sabor do vento, lendo os outros. Minha leitura cinéfila era muito difusa. Na época em que comecei, no Correio da Manhã, em 1961, ainda não lia o (crítico de cinema americano) Andrew Sarris. A Pauline Kael ainda não tinha ido para a New Yorker. Crítica americana quase não lia, mas sim os ingleses, na Sight & Sound, e os franceses, na Cahiers du Cinéma e na Positif. E lia muito os brasileiros, como o (Antonio) Moniz Vianna, devo ter muito tique dele. Ainda bem, é um cara que escrevia primorosamente bem, um texto translúcido, bem armado. Fui depurando. Acho horrendas muitas coisas que escrevi no Correio da Manhã, coisa de jovem, embora já fosse metido a engraçadinho. Sempre digo que escrevo como gostaria que alguém escrevesse para eu ler. Aquela embocadura, a maneira de analisar as coisas como cronista, faz parte de um jogo de sedução com o leitor. Tenho horror a texto acadêmico, empolado. Foi uma lição que aprendi n?O Pasquim, escrever de forma descontraída. Tive aulas importantes sobre jornalismo na minha vida. Uma foi escrever em revista semanal de gravata e paletó, caso da Veja. E ali chegou uma época em que comecei a me sentir incomodado porque achava que estava escrevendo como a revista escrevia. Para não ser cortado ou ter qualquer tipo de interferência, já escrevia dentro do estilo Veja, que parecia uma máquina, de uma frieza como o filme Metrópolis (1927) do Fritz Lang, uma centrífuga que transformava os textos, todos com qualidade, evidentemente, numa coisa impessoal, quase metálica. Quando escrevia para outros veículos, escrevia na forma austera e compacta da Veja. Quando o (editor) Mino Carta, que já tinha saído da Veja, me chamou para a IstoÉ, em 1977, falei que queria escrever sem nenhuma padronização, na linha da revistas independentes americanas que lia na época.

O QUANTO É IMPORTANTE PARA UM CRÍTICO EXPANDIR SEU CONHECIMENTO PARA OUTRAS ÁREAS ALÉM DA QUE É DE SEU INTERESSE?

Foi uma lição que aprendi lendo o Moniz Vianna, que era médico e tinha um interesse muito grande por política, literatura, arte em geral. Os bons críticos da minha geração e da anterior eram muito cultos, como José Sanz, José Lino Grünewald, que era poeta, o Maurício Gomes Leite. A gente não era de ficar só vendo filme, gostava de outras coisas. Meu amigo Paulo Perdigão, por exemplo fez um ensaio sobre Shane (Os Brutos Também Amam, 1953, de George Stevens) que é mais grosso do que o roteiro do filme, fez também um livro sobre (o filósofo Jean-Paul) Sartre, a quem traduziu. E, pouco antes de morrer, estava na Alemanha às voltas com Heidegger. Éramos, digamos, uma geração de nerds avant la lettre. Hoje tem o nerd que fica vendo cinema o tempo todo e não se abre para outras coisas. Nos anos 1980, fiz um artigo sobre isso no Jornal do Brasil. Fiquei espantado porque ia reprisar na TV Désirée, o Amor de Napoleão (1954), com Marlon Brando e a Jean Simmons. Deram uma página, o rapaz que escreveu o fez deslumbrado, como se estivesse diante do Aurora (1927), do (F.W.) Murnau. Esse filme, nem a mãe do Henry Koster, o diretor, deve gostar, porque é uma bobagem. Não sei se fico mais triste com gente inteligente que fica babando ovo para filme que ninguém dá a menor bola ou com o cara que fala que filme dos anos 1930 e 1940 é coisa de velho.

E A HISTÓRIA DO CINEMA MOSTRA QUE AS MAIS REVOLUCIONÁRIAS INOVAÇÕES TÉCNICAS E NARRATIVAS SE DERAM NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO 20.

Sim, o cinema sonoro surgiu na época errada, quando os filmes mudos estavam no auge de seu desenvolvimento de linguagem e inventividade. Aí o som traz aquela estética pesada (por causa dos equipamentos de captação sonora), perdeu a fluidez. Essa história está bem contada em Cantando na Chuva (1952, de Gene Kelly e Stanley Donen). O final do cinema mudo é uma coisa espantosa, estava tinindo. Sobre as inovações que vieram depois, o Cinemascope começou com problemas, tinha um vazio nos cantos porque o foco se concentrava nos atores. Raros diretores conseguiram trabalhar bem no início do Cinemascope. Já o 3D sempre achei bobagem. Os primeiros filmes 3D eram coisa de criança. O cinema começou como parque de diversões, mafuá, então, de certa forma, o 3D é uma volta às origens. Há certa pureza nisso, mas o cinema evoluiu, se tornou muito mais consequente do ponto de vista dramático.

COMO FOI O COMEÇO DE SUA CINEFILIA?

Fui criado pelo cinema americano, era o que dominava o mercado. Um dos primeiros filmes franceses que vi talvez tenha sido O Brinquedo Proibido (1952, de René Clément). Cinema francês, para mim, com 14, 15 anos, era aquele em que se falsificava a identidade para ver as atrizes de peito de fora. Quando a Jeanne Moreau veio ao Brasil (para filmar Joanna Francesa, de Cacá Diegues, 1973), ela não queria dar entrevista. O Cacá acabou intercedendo e consegui a única entrevista exclusiva com ela, para a Veja. E também ajudou quando contei a ela que falsificava identidade para ver seus primeiros filmes, em que fazia papéis de prostitutas, e ela ficou comovida (risos). Como os cineclubes, cinematecas, viagens ao Exterior, você acaba conhecendo outras cinematografias. Eu tive muita sorte quando, aos 15 anos, em 1957, a Cinemateca Brasileira fez uma série de grandes retrospectivas, uma por ano, começando com a história do cinema americano, o francês, o italiano, e, quando eu já trabalhava lá, o russo, o alemão, o japonês, o inglês. Eram meses e meses passando filmes na ordem cronológica, com cópias novinhas. Foi aí que vi os filmes franceses em uma perspectiva histórica, Lumière, Méliès, René Clair. A Unifrance promovia sessões com os primeiros curtas-metragens de cineastas que lançariam a nouvelle vague, Godard, Truffaut, Rommer. Éramos muito bem alimentados cinematograficamente.

FALANDO NESSA TURMA DE CRÍTICOS QUE VIRARAM CINEASTAS, NÃO DEMOROU A SURGIR UM CERTO RANÇO COM O CINEMA AMERICANO.

Os franceses sempre foram apaixonados pelo cinema americano. Godard dedica Acossado (1960) aos filmes B da Monogram, estúdio vagabundérrimo de filmes de baixo custo. Mas ficaram sem ver filmes americanos durante a Ocupação, na Segunda Guerra. Não conheciam, por exemplo William Wyler, viram Cidadão Kane (1941, de Orson Welles) com atraso e ficaram deslumbrados. Havia, na França, três correntes. Os americanófilos e não tão americanófilos, mas cinéfilos doentes, como o pessoal da Cahiers do Cinéma; a turma de esquerda meio ranheta; e a esquerda surrealista, da Positif, com uma posição mais livre e anárquica sobre o cinema. Fomos criados com isso.

VOCÊ É UM COLECIONADOR DE FILMES?

Não. Eu vejo muito filme na casa do meu amigo (diretor) Daniel Filho, que tem uma tela fantástica e uma videoteca espantosa. Tem tudo o que é novo, que acabou se ser lançado. Descubro muitos diretores e cinematografias novos com ele. Tenho os filmes que gosto de rever todos anos, como Hatari (1962, de Howard Hawks), Acossado, e Cantando na Chuva, que é meu filme favorito e vejo sempre no meu aniversário. Às vezes passos semanas sem ver nada. Meu negócio é ler.

ENTRE AS CINEMATOGRAFIAS EMERGENTES, QUAL LHE CHAMA MAIS A ATENÇÃO?

Pode ter um cineasta maravilhoso na Coreia do Sul, outro no Canadá, mas a única cinematografia em sentido amplo que me impressionou nos últimos tempos foi a da Argentina. Há consistência de produção, variedade, é popular e inteligente. Gosto dos trabalhos do Nuri Bilge Ceylan, diretor turco. Tem filmes como o (sueco) Força Maior que me impressionaram. Vou menos ao cinema. Hoje sou seletivo. Mantenho distância dos filmes do Oscar. Mas de Parasita gostei muito.

O CINEMA AINDA É O MELHOR LUGAR PARA SE VER UM FILME?

Se puder ver no cinema, melhor, acho maravilhoso, fui criado com isso. Mas a experiência de ir ao cinema mudou tanto que não me sinto obrigado a reverenciar um ritual que não é mais o mesmo. Não tinha isso de as pessoas ficarem comendo ao seu lado.

A ÁREA CULTURAL DO BRASIL VIVE UM MOMENTOS DE INSTABILIDADE DIANTE DAS AÇÕES DO GOVERNO BOLSONARO. COMO VOCÊ AVALIA ESSE PROCESSO?

Estou abismado com o que está acontecendo. Há um desmonte da cultura em geral, não só do cinema. Na época da ditadura militar havia a censura, que era forte, mas se conseguia uma maneira de driblar. Agora você não sabe o que pode acontecer. Pega os ministros, os secretários da Cultura, são de um baixo nível... É difícil avaliar com um mínimo de otimismo essa situação. Não temos ditadura, temos um governo eleito, mas com esse quadro construído. Depois daquele nazista do Roberto Alvim, Bolsonaro põe a Regina Duarte na Cultura. Ele não tem nada na cabeça, é um vazio, um nível muito baixo.

QUAL SUA AVALIAÇÃO DOS FILMES NACIONAIS HOJE?

Estamos na nossa melhor fase, em quantidade e qualidade. O Cinema Novo tinha muitos talentos, mas também muita porcaria. Essa fase, representada por filmes de diretores como o Kleber Mendonça Filho e o Karim Aïnouz, não é um movimento, como naquela época, não tem um Glauber Rocha fazendo manifesto, teorizando. É uma coisa espontânea, rica e diversificada. Acho lamentável que isso esteja acontecendo nessa época de arrocho financeiro e pressão política.

COMO CRÍTICO, VOCÊ JÁ SE COLOCOU NO PAPEL DE DEFENSOR DO CINEMA BRASILEIRO MISSÃO A QUE SE DEDICAVA, POR EXEMPLO, O DECANO DA CRÍTICA NACIONAL PAULO EMÍLIO SALLES GOMES?

Nunca tive essa coisa de patriotada. Era amigo de alguns diretores, como Cacá Diegues, Arnaldo Jabor, David Neves, mas sempre procurei manter certa distância. Fiquei muito amigo de um cineasta de quem não gostava de praticamente nada do que fazia, seus filmes não me diziam muita coisa, o Walter Hugo Khouri. Mas foi talvez de quem mais gostei como ser humano, era uma pessoa extraordinária. Nunca deixei de falar mal de filme de amigo meu. Teve um filme do Nelson Pereira dos Santos, Na Estrada da Vida (1980, ficção sobre a trajetória de Milionário & José Rico estrelada pela própria dupla). Falei mal dizendo que o Nelson tentou fazer o filme como se fosse uma pessoa totalmente ingênua, mas era um pessoa com tanta informação que nunca iria fazer com filme como se não soubesse nada de cinema. Brinquei dizendo que ele era um naïf de proveta. Ele achou engraçado, tinha um bom senso de humor.

O CRÍTICO AINDA É CAPAZ DE FAZER ALGUÉM SAIR DE CASA PARA ASSISTIR A UM FILME?

Não mais, isso acabou. O crítico perdeu a aura, não só aqui, mas no mundo inteiro. Não tem mais essa de guru, do oráculo, do cara cuja opinião você acha indispensável. Às vezes, você ficava mais ávido para ler a opinião do fulano sobre um filme do que ver o próprio filme. Era tudo muito ligado ao ritual de ler um jornal, coisas que se perderam. Hoje o que não falta é opinião. Tem uns 588 mil críticos na internet (risos). Nos anos 1980, começou esse negócio da crítica como guia de consumo, de começar a dar estrelinha. Não me interessa um leitor que não quer saber a sua opinião sobre um filme, quer é saber se o bonequinho está aplaudindo. O bonequinho vira um superego. Embora você seja determinante para fazer ele ficar olhando ou aplaudindo de pé, as pessoas não se referem a você, mas ao bonequinho.

VOCÊ É UM ATIVO USUÁRIO DO TWITTER. TEM ALGUM PROJETO DE TRANSPOR SEUS TRABALHOS PARA UM SITE?

Sou mais lido quando reproduzo os links de meus textos no Twitter. Você perde espaço em jornal e cai no oceano de informações que é a internet. Adoraria ter um site com vários amigos de alta qualidade jornalística. Mas minha preocupação é pagar minhas contas, e internet não dá dinheiro.

NO LIVRO, VOCÊ RELATA ALGUMAS ENTREVISTAS E ENCONTROS MARCANTES COM PERSONALIDADES. TEVE ALGUMA MUITO ESPECIAL?

A entrevista que não fiz, embora tenha estado na casa dele, com o Billy Wilder. Quando da estreia de O Vale das Bonecas (1967), em Los Angeles, fui apresentado ao Mark Robson, diretor do filme. E ele caiu de amores por mim quando eu disse que queria falar com mais calma sobre sua experiência com montador da RK0. Ele montou Cidadão Kane junto com o Robert Wise, além de filmes de horror maravilhosos. Eu tinha 25 anos, e ele deve ter pensado como um garoto de sei lá onde sabia essas coisas. Fui convidado pelo Robson para jantar na sua casa, que tinha muitas obras de arte. "Você gosta de arte? Então Vou te levar num vizinho meu amanhã, o Billy Wilder." E fui conhecer a pinacoteca extraordinária do Billy Wilder, não para entrevistá-lo. Ficou essa frustração. Teve ainda o (Francis Ford) Coppola. Eu o tinha entrevistado para a Veja em San Francisco, em 1974. Um tempo depois, perto do Carnaval, um assistente dele me ligou dizendo que o Coppola vinha ao Brasil e gostaria de me encontrar num camarote da Sapucaí. Eu disse que ia ficar em casa e passei o meu endereço. E o Coppola, depois de achar tudo muito chato na Sapucaí, bate na minha porta. Ficamos vendo os desfiles pela televisão, tomando cachaça e comendo pasteis que minha mãe fazia. E me deu de presente desenhos do Pato Donald e do Mickey que ele mesmo fez. E depois foi fazer o Apocalypse Now...

QUE CONSELHO DÁ AOS QUE DESEJAM SEGUIR A ESTRADA DO JORNALISMO CULTURAL?

Não me atrevo a dar lições a ninguém, nem aos catecúmenos. Talvez aconselhá-los a pensar duas, três vezes antes de optar por jornalismo cultural. A época não é propícia a esse tipo de atividade. Mas, como vocação não se trai, recomendo que leiam e estudem bastante, sejam independentes e corajosos, mantenham viva a chamada chama da curiosidade, e não tenham ilusões.

O LIVRO

Vai Começar a Sessão - Ensaios Sobre Cinema

De Sérgio Augusto. Editora Objetiva/Companhia das Letras, 440 páginas, R$ 89,90 (R$ 39,90 o e-book)

MARCELO PERRONE


07 DE MARÇO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

CORONAVÍRUS

Com disseminação rápida e letalidade baixa, porém desigual, vírus assusta o mundo
Esse coronavírus tem duas características: disseminação rápida e letalidade baixa.

Detectado pela primeira vez na China, em dezembro, em menos de três meses infectou cerca de 80 mil pessoas e causou mais de 2,6 mil mortes naquele país.

Em poucas semanas, o vírus viajou para o Japão, Coreia do Sul, Singapura, Filipinas, Vietnã, Tailândia e outros países asiáticos.

No Japão, as autoridades protagonizaram um episódio digno das epidemias de peste negra, na Idade Média: os passageiros de um transatlântico foram impedidos de desembarcar. Como consequência dessa quarentena insólita, 20% adquiriram o vírus. Na segunda-feira de Carnaval, o Japão contava 850 pessoas afetadas pela doença, das quais 691 infectadas no navio.

Como nas epidemias de gripe suína e de outros coronavírus (como sars e mers), a ofensiva do covid-19 em território chinês dá sinais de arrefecimento. Há um mês, ocorriam 2 mil casos novos por dia, na segunda-feira passada 508. O número de novos diagnósticos diários já é mais baixo do que a somatória dos que ocorrem fora da China.

Na mesma data, já havia quase mil casos na Coreia do Sul e pelo menos 12 mortes no Irã. As informações oficiais de que existiriam somente 61 iranianos infectados coloca os números iranianos sob suspeição. Como acreditar neles, se na Coreia do Sul ocorreram apenas sete mortes?

Neste momento, as autoridades internacionais consideram o Irã o segundo foco de disseminação, atrás apenas da China. Os casos diagnosticados no Afeganistão, Kuwait, Iraque, Oman, Líbano e Emirados Árabes tiveram origem iraniana.

Nada se compara, no entanto, à insegurança que se espalhou pelo mundo - e pelas bolsas de valores - com a notícia de que recentemente o número de casos na Itália quadruplicou, em 10 cidades nas proximidades de Milão e Veneza, a partir das quais o vírus se espalharia para outras regiões e para países vizinhos.

E nós, agora que surgiu o primeiro brasileiro infectado?

O período de incubação de três a 14 dias e a possibilidade de transmissão na ausência ou na presença de sintomas mínimos dificultam o controle sanitário. Não será possível nem desejável isolar o país. Estudo publicado pela London School of Hygiene and Tropical Medicine calculou que em cada 100 viajantes infectados, 46 podem passar despercebidos pelos aeroportos de saída e de entrada.

Embora já haja estudos com vacinas, não há evidências de que chegarão a tempo de imunizar todos. Da mesma forma, a indústria farmacêutica não conseguirá concluir os testes com novos medicamentos em tempo hábil para proteger os mais velhos.

A taxa de letalidade do covid-19 é baixa, porém desigual. Na China, a mortalidade dos doentes com menos de 40 anos foi de 0,2%, contra 14,1% naqueles com mais de 80 anos.

A considerar a experiência internacional, o vírus infectará grande número de brasileiros, antes de desaparecer do mapa. Quase todos desenvolverão quadros respiratórios semelhantes aos do resfriado comum. Alguns, entretanto, com o sistema imunológico debilitado pela idade avançada, por doenças crônicas ou com os pulmões afetados pelo maldito cigarro, terão quadros respiratórios mais agudos que exigirão encaminhamento para unidades hospitalares que disponham de aparelhos de ventilação mecânica.

A infraestrutura do SUS será suficiente para atender a todos? Vai depender do número de doentes graves. Se forem milhares, é provável que não, razão pela qual todos os esforços da sociedade e das secretarias de saúde devem estar concentrados na prevenção. Até agora, pelo menos, as medidas adotadas pelo Ministério da Saúde têm sido irrepreensíveis.

Além dos cuidados óbvios como lavar as mãos, não tossir nem espirrar na cara dos outros e usar máscara ao cuidar de um familiar doente, é preciso não perder a racionalidade. Correr para o pronto-socorro ao primeiro sinal de tosse ou febre é o pior a fazer.

As epidemias de gripe têm demostrado que as aglomerações nas salas de espera das unidades de pronto atendimento, são o lugar ideal para quem gosta de ficar gripado. Só devem procurar os hospitais aqueles que sentirem falta de ar e aumento da frequência respiratória. Na quase totalidade dos casos, os resfriados causados pelo coronavírus atual deverão ser tratados em casa, do jeito que nossas bisavós recomendavam: repouso e canja de galinha.

DRAUZIO VARELLA


07 DE MARÇO DE 2020
BRUNA LOMBARDI

BRINCAR É COISA SÉRIA!

Você já se deu conta quantas funções a gente exerce? Quantas centenas de milhares de pequenas tarefas se acumulam semana após semana numa pilha que parece nunca diminuir?

Por mais ativo e ocupado que sejamos e por mais coisas que façamos, a gente continua devendo, tá sempre em falta, as coisas continuam vindo incessantemente numa espécie de trabalho contínuo, o tecer de Penélope, que todo dia recomeça e nunca termina.

Ouço amigos dizendo vamos desacelerar, ter uma vida mais tranquila, sem tantas obrigações etc etc.

Mas, mesmo para quem consegue isso, as pequenas tarefas eternas continuam e, por mais incrível que pareça, mesmo se a gente não acrescentar nada, tal montanha só aumenta.

O mundo externo cria um monte de tarefas básicas que se reproduzem velozmente, se multiplicam, cada uma com seus muitos desdobramentos.

Ufa! Fazer o quê?

Tudo isso interfere nas nossas vidas, nos enrola num emaranhado sem fim de burocracias diárias, coisas que emperram, esperas, fila, banco, boleto, atendimento, registro, contrato, pagamento, prestações, transporte, notícias, segurança, a demora dos outros, erros, perdas e você pode acrescentar o que quiser e continuar a sua própria lista. O mundo agride por todos os lados.

Quem mais quer paz, sossego, quer jogar tudo pro alto e sair por aí, cantando na rua e olhando tudo como se fosse pela primeira vez?

Quem quer deitar na grama de um parque no fim de tarde e ficar olhando o sereno movimento das nuvens? Olhar o horizonte, o mar, o rio, o pôr do sol, as belezas do mundo que são de graça?

Qual foi a última vez que você dançou sozinho no quarto? Que você cantou no chuveiro? Que deu uma gargalhada de bobeira lembrando de um amigo?

Sei que não parece conciliável brincar e se levar a sério, mas quem se leva a sério só pode estar brincando. E saber brincar é um lance muito sério.

Quando eu era criança, achava estranho os adultos não quererem brincar, lembro de ter falado isso com a minha mãe, que naturalmente não levou a sério. Uma pena perder isso.

Bruna Lombardi escreve a cada 15 dias neste espaço.

Na próxima semana, leia a coluna de Monja Coen.

BRUNA LOMBARDI


07 DE MARÇO DE 2020
J.J. CAMARGO

AS LÁGRIMAS QUE NÃO ESCOLHEMOS

Chora-se de dor, de tristeza, de inveja, de ódio, de orgulho, de solidão e de remorso. Às vezes, chora-se pelo próprio choro

Muito provavelmente, nenhuma reação humana se presta para tantas expressões emocionais, quanto o choro. Praticamente se pode chorar por qualquer coisa. Pelo objeto conquistado ou perdido. Pelo amor que partiu de repente e o que voltou quando já não se esperava. Pelo noivado da filha deslumbrada e pelo fim do casamento que já ninguém aguentava mais. Pela biópsia negativa e pelo câncer inoperável. Pela conclusão do Ensino Médio e pela reprovação no vestibular. Pela necessidade de um transplante e pela chamada no meio da madrugada, comunicando que encontraram um doador. Pela notícia da morte do padrinho rico querido que não podia ter morrido e pela descoberta fatídica de que não fora incluído no testamento do miserável, que já foi tarde.

O estímulo ao choro é que difere em cada criatura. Existem pessoas que choram vendo famílias chorando de alegria porque o rebento se classificou para próxima fase do The Voice, enquanto outros põem óculos escuros para que ninguém perceba os olhos secos no enterro da mãe.

Chora-se da dor física que exige morfina e de felicidade quando ela finalmente alivia. Muito se chora de tristeza, de frustração, de inveja e de ódio. Chora-se do orgulho de ter dito o que merecia e da vergonha de ter engolido. Também se chora de abandono, de solidão, de arrependimento e de remorso. Chora-se sozinho, no quarto escuro e silencioso, e aprende-se a desconfiar do choro espalhafatoso e teatral.

Nunca esquecemos a amizade omitida nem o ombro oferecido para o choro compartilhado. Existem choros que doem na garganta como se houvesse cacos de vidro na saliva, e outros que se resolvem com duas assoadas do nariz.

Com lágrimas, tudo é possível, até se arrepender delas. Isso aprendi com a Ana Luiza. Lembro dela, chorando muito, quando lhe disse que o Hermano tinha por fim morrido, depois de uma longa agonia que começou com pneumonia dupla depois de uma dose de quimioterapia, e evoluiu para a falência de múltiplos órgãos, e todos os seus desdobramentos, com várias tentativas de resgatá-lo. Todas sofisticadas e inúteis. Um mês depois, quando ela veio apanhar o atestado para cobrança do seguro, estava muito mais magra, com olheiras fundas, cutículas negligenciadas e choro engatilhado para mais uma sessão, se houvesse qualquer estímulo. Resolvi poupá-la e falamos de outras coisas, e até do calor que fazia, que assunto mais insosso não há.

Poucos meses depois, cruzamos no supermercado. Estava elegante, de salto alto e maquiada. Antes que lhe fizesse qualquer pergunta, ela desatou:

- O senhor acredita que aquele filho da mãe tinha outra mulher e chamava os filhos dela pelos mesmos apelidos carinhosos com que chamava os meus?

Percebendo que eu não sabia o que dizer, ela se antecipou:

- Eu sei que o senhor tentou o que podia, e acho que até não lhe agradeci tanto quanto devia, mas hoje, se eu pudesse voltar no tempo, só o que queria eram as minhas lágrimas de volta!

Se eu não tivesse ficado tão surpreso, talvez tivesse chorado um choro solidário pela fraude que a tinha feito tanto chorar.

J.J. CAMARGO


07 DE MARÇO DE 2020
DAVID COIMBRA

A maior maldição da liberdade

Eu dizia que Nova York era a minha Gramado, quando morava nos Estados Unidos. Para me exibir, claro, mas não era mentira. Nós íamos para a Big Apple com a naturalidade de quem sai de Porto Alegre num sábado, sobe a Serra, bebe um vinho, morde uns chocolates e volta no domingo. Tudo muito fácil. Tomávamos um trem na South Station de Boston pela manhã e, na hora do almoço, estávamos refestelados em frente ao insuperável bife com fritas do Relais de Venise, na Lexington.

Já falei sobre esse restaurante, mas falarei de novo, para gáudio dos amados leitores. É uma espécie de franquia do Relais d?Entrecôte, de Paris. Mas, se você quiser experimentar, não precisa atravessar o Mar Tenebroso: já há Relais no Rio e em São Paulo. Eles servem um único prato: entrecot (óbvio) com salada e fritas. O segredo está no molho, verde, denso e, ao mesmo tempo leve, algo com ervas e mostarda, suponho. Você pergunta o que há naquele molho e eles não dizem nem se estiverem sob a tortura das mil maneiras, a pior de todas as torturas, criada, evidentemente, pelos chineses.

Eu, por mim, iria ao Relais todos os dias, mas a Marcinha não - mulheres gostam de novidades, e Nova York é cheia de novidades.

Aí é que está: Nova York tem muitas opções. Você caminha pela rua e para onde olha há algo para ver. Seus sentidos são atraídos por cores, sons e belezas que só existem lá em tamanha abundância. São muitas coisas para ver, tocar, sentir, comprar e provar. É uma cidade intensa. Mais do que tudo, intensa.

A questão é que a diferença entre a sanidade e a loucura é, justamente, a intensidade. Porque pedaços de loucura todos temos. O louco, porém, não tem apenas um pedaço: ele é intenso.

Nova York é assim. É tão vibrante, tão repleta de tudo, tão intensa, que se torna meio louca. Nós íamos passar dois ou três dias em Nova York e, quando chegávamos de volta a Boston, eu suspirava:

- Ah, que saudade que estava sentindo da paz?

Sentia-me aliviado ao chegar a Boston e mais ainda à "town" onde morava, Brookline, um lugar idílico, com casinhas de madeira, ruas margeadas por árvores e passarinhos cantando no começo das manhãs e no fim das tardes.

Então, afundado na poltrona da minha casa, no momento em que relaxava do frenesi nova-iorquino, pensava que havia entendido o que anda acontecendo com o mundo. Essas explosões de insatisfação nas ruas, esses ataques e contra-ataques nas redes sociais, essas brigas de grupos de WhatsApp, essa mania que as pessoas têm de julgar, de criticar, de condenar e de "cancelar" o outro, essas tantas angústias que causam depressão, estresse, síndrome do pânico e infarto, tudo isso é produto do excesso de possibilidades.

A maior maldição da liberdade é que ela nos obriga a fazer escolhas. É horrível ter de optar, é horrível estar diante de muitas ofertas e precisar ficar com uma delas. Mil canais de TV a cabo, mil formas de se informar, mil dietas, mil eventos, mil restaurantes. A abundância de ofertas do mundo de hoje gera angústia, porque há tanto de tudo que a festa parece estar sempre em outro lugar.

A simplicidade, como dizia Da Vinci, é o máximo da sofisticação. A ânsia por novas experiências, desafios e aventuras pode ser excitante, mas também pode ser bem estressante. Melhor tomar uma boa decisão, ficar com ela e acalmar a mente. Se abrir um Relais perto da minha casa, é lá que irei todos os dias.

DAVID COIMBRA



07 DE MARÇO DE 2020
MÁRIO CORSO

O primeiro leitor da cidade

A vida é uma coleção de ironias. Carrego o nome do meu avô paterno, mas cresci na galáxia afetiva do materno. Animicamente, sinto-me portando o nome do outro avô.

Este avô começava o dia agarrado ao jornal. Devorava-o em um silêncio majestoso, era sua oração diária mais ardente. Quando lembro dele, a imagem que se impõe traz a luz dos primeiros brilhos do dia, a noite cansada indo embora. Ele sentado em sua poltrona-trono, com o jornal aberto, escancarado de notícias. Se tiver que ter um cheiro, seria de pão com manteiga e mel ao fundo.

Nunca aconteceu, mas penso que se alguém lhe perguntasse: ou ganhas o café da manhã ou o jornal, ele tivesse preferido o segundo. Era tal a voracidade, que eu imaginava que talvez ele estivesse em um concurso imaginário, que consistiria em ser o primeiro da cidade a terminar de ler o jornal. Invisíveis gnomos tipógrafos acompanhavam os jóqueis destacados de tal empreitada. Sabe-se lá qual o prêmio...

Finda a reza, abria-se a vez dos comentários. Meu avô estava pronto para fornecer a sinopse das leituras. Contava como andava a novela da política, as últimas do futebol, os crimes de arrepiar o cabelo, as bizarrices do momento. Treinava e amealhava o estoque de assuntos para o café com os amigos, mais tarde, no Centro.

Quando chegava minha vez, ganhava o jornal sublinhado pela sua fala. Buscava as matérias que lhe fizeram questão e desenvolvia o meu jeito de orientar-me no labirinto das enormes páginas em preto e branco. A tinta escurecia os dedos. No meu caso, o contágio foi mais fundo. Tenho a pele fina, a química das rotativas chegou ao sangue. Nunca mais larguei o vício.

Eu sou um convicto do jornal pela sua presença formadora. Ele é a continuação da escola para quem saiu da escola. A escola para quem teve pouco tempo com os professores. O treino cerebral diário com o texto. Um momento de exercício cognitivo básico. Assim era para meu avô. Assim deve ser para muitos.

Agora a situação mudou de lado, eu escrevo no jornal. Tenho uma satisfação em entrar na casa das pessoas. Fazendo-as rir, chorar, pensar, lembrar. Alguns gostam, outros xingam, só temo a indiferença. Tenho carinho pela missão semanal e pelos destinatários. Faço com esmero, mas temo enganar meus leitores em um detalhe.

Então, mais vale a verdade. Eu penso em vocês, faço pautas que lhes possam interessar, mas escrevo mesmo para meu avô. Tenho esperança que, de tanto ele ler, eu do meu lado, de tanto escrever, possa ocorrer um lapso temporal/espacial que envie minhas linhas aos jornais de quando meu avô era vivo.

Penso que até já aconteceu. Um dia, há uns 50 anos, ele quebrou a solenidade, olhou para mim demoradamente, algo incrédulo, sorriu e voltou a mergulhar na sua missa cívica particular.

MÁRIO CORSO
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07 DE MARÇO DE 2020
DIA INTERNACIONAL DA MULHER

"Mulheres podem decidir por suas vidas"

Foi durante as pesquisas de doutorado, ao estudar um novo modelo de educação para gestores no Brasil e no Canadá, que a empresária Soraia Schutel, 39 anos, natural de Florianópolis e moradora de Porto Alegre, identificou que o desenvolvimento sustentável requer liderança feminina. E foi essa constatação que a fez identificar-se ainda mais com a causa das mulheres.

Para não deixar a tese apenas nas prateleiras virtuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), como costuma dizer, criou a Sonata Leadership Academy, uma escola para lideranças que promete ser uma alternativa ao sistema tradicional de educação.

Metade das pessoas que procuram a instituição são do sexo feminino: executivas, profissionais liberais, empresárias, pessoas em transição de carreira:

- As mulheres que nos procuram sentem uma inquietude. Mesmo que tenham atingido já um sucesso de carreira ou financeiro, sabem que podem fazer algo a mais. É quase um chamado metafísico, vinculado à busca de autorrealização, como identificado pelo psicólogo humanista Abraham Maslow.

Por isso, a escola desenvolveu dois programas específicos para mulheres. Um deles tem três módulos imersivos em São Paulo, que aprofundam aspectos integrais da líder feminina do nosso tempo: equilíbrio entre vida pessoal e profissional, maternidade e carreira, autoestima, empreendedorismo e estilos de liderança mais femininos. Tudo é feito por meio do autoconhecimento, de visitas a empresas, de cases com personagens que atingiram sucesso integral em suas vidas, associando experiências artísticas e culturais.

Transformação

O outro programa é uma imersão exclusiva para mulheres na França, onde entendem por que os franceses tiveram tantas mentes extraordinárias ao longo dos séculos, como Joana D?Arc, Marie Curie, Piaf, Chanel, Veuve Cliquot.

Para Soraia, ainda há muito caminho a ser trilhado quando falamos de independência:

- Só precisamos do tempo para a transformação, assim como de qualquer mudança cultural. O advento das leis do século passado permitiu acesso e liberdade de escolha, como ter direito a herança, votar, trabalhar e estudar, trazendo uma mudança como nunca vista. Mulheres podem decidir por suas vidas. Não precisam mais ser produto de troca em negociações matrimoniais familiares. Podem escolher qual profissão ter.

A empreendedora vê nas escolhas de carreira da avó materna, professora e única filha a estudar, e da mãe, médica, o início da própria trajetória profissional. Aos 13 anos, começou a estudar francês. Três anos depois, foi morar na Bélgica para fazer um intercâmbio e acabou se tornando poliglota e cidadã do mundo. No retorno ao Brasil, ingressou na faculdade de Administração na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), dando início à carreira no mundo da gestão. Apaixonada por compreender o ser humano, ao mesmo tempo, passou a estudar as áreas da psicologia e da filosofia.

Soraia fundou a primeira empresa aos 22 anos. Vendia passagens aéreas e organizava viagens internacionais. Na sequência, trabalhou em consultoria, passou por organizações internacionais, ONGs e empresas dos setores de educação executiva. Aos 28 anos, tornou-se professora universitária, e foi onde se descobriu educadora. Ao longo dos anos, passou por experiências educacionais em diferentes partes do mundo (Estados Unidos, Canadá, França, Itália, Bélgica, Rússia e China).


07 DE MARÇO DE 2020
+ ECONOMIA

Juro e dólar em impasse no Brasil

Como se previa nos relatórios matinais, a bolsa de valores de São Paulo perdeu, na sexta-feira, o nível simbólico dos 100 mil pontos alcançado pela primeira vez em março de 2019. Um novo tombo de 4,14% levou o Ibopespa a 97.997 pontos. O dólar, no entanto, freou uma sequência de 11 recordes consecutivos e fechou em ligeira baixa de 0,36%, para ficar em R$ 4,634.

Pesou no mercado financeiro a informação de que a saída de investidores estrangeiros do mercado de ações no Brasil somou R$ 44,8 bilhões entre 1º de janeiro e 4 de março. O valor superou, em apenas 64 dias, a soma das saídas acumuladas em todo o ano passado, de R$ 44,5 bilhões, por sua vez um recorde histórico no Brasil. Essa fuga decorre principalmente dos sucessivos cortes no juro básico, que levaram a taxa Selic a 4,25%. Quase do mesmo tamanho da inflação anual, não rende a investidores o ganho extra que compensaria o risco maior de apostar no Brasil.

Esse é um dos motivos pelos quais os investidores no Brasil estão com incertezas ainda maiores do que nos demais mercados. Desde que o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) anunciou um inesperado corte de 0,5 ponto percentual, na terça-feira, há expectativa de que o Banco Central brasileiro faça o mesmo.

No entanto, economistas ponderam que não faz sentido o BC manter a intervenção no câmbio para frear a alta do dólar se vai tomar uma medida - nova poda na Selic - que incentiva esse mesmo movimento.

Até entender o que pode acontecer, o mercado freou o movimento de alta contínua mesmo sem novas medidas do BC, como os investidores pediam na véspera. Depois do fechamento do mercado, a instituição anunciou um leilão de linha - oferta de dólares físicos, com compromisso de recompra posterior - de US$ 1 bilhão para a próxima segunda-feira. É uma tentativa de garantir mais tranquilidade na retomada das operações.

Feira negociou ausência de chineses

Para garantir a realização da 44ª edição da Fimec, em Novo Hamburgo, na próxima semana, foi preciso negociar a ausência de chineses e italianos. A prefeita de Novo Hamburgo, Fátima Daudt, havia sugerido cancelar.

No início de janeiro, a inquietação era com o risco de guerra entre Estados Unidos e Irã. Quinze dias depois, já havia negociações para que os chineses não viessem à feira. Dois dos maiores expositores são italianos - Atom e Comelz -, então também foi preciso discutir a conveniência da presença de pessoas do país que mais tem casos depois da China. Como ambas têm unidades em Novo Hamburgo, ficou combinado que os funcionários brasileiros vão se encarregar dos estandes.

Tanto o ministério quanto a secretaria estadual da Saúde garantiram que não havia objeção, desde que fossem tomadas providências para evitar contágio. A organização contratou um infectologista e montou um plano que inclui até um contêiner, para checagem médica, pelo qual vão passar participantes que vêm dos países considerados de risco antes de entrar na feira.

Cada visitante receberá, na entrada, um sachê com álcool gel. Há mais uma dezena de medidas de precaução. Segundo Márcio Jung, diretor-presidente da Fenac, esses cuidados aumentaram em cerca de 3% o custo total da montagem da feira.

- Foi mais trabalhoso do que caro - detalha.

"Vamos investir em infraestrutura em energia"

CARLOS TAKAHASHI Diretor da BlackRock no Brasil

A carta de Larry Fink, CEO da maior gestora de recursos do mundo, a BlackRock, orientando clientes a não investir ou sair de empresas não sustentáveis, redefiniu a questão ambiental nos negócios. Na sexta-feira, o diretor nacional da administradora de US$ 7,4 trilhões, Carlos Takahashi, disse que a BlackRock vai investir em energia no Brasil, depois de uma palestra em evento do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

O viés ambiental nos negócios é moda ou vai se impôr?

Definitivamente não é modismo. É uma necessidade. Os investidores estão acordando para isso. Essa mudança é geracional. A mudança demográfica que estamos experimentando, com participação maior da mulher nos processos de decisão, e a maior consciência das gerações anteriores fazem com que os investidores acordem para isso. Quando os empresários começam a trazer essa preocupação, isso gera uma capacidade grande de mover todo o ecossistema ligado aos investimentos e, consequentemente, à economia. Até porque hoje a gente já vê que descuidos com aspectos ambientais, como o da Vale, causam impacto nos preços dos ativos. Essa precificação vai estar cada vez mais presente: o risco e o retorno, considerados os aspectos ambientais e sociais.

A BlackRock está saindo de investimentos que usem carvão como fonte de energia?

Há duas decisões. No caso de empresas de mineração, a BlackRock vai desinvestir (vender sua parte). Já estamos fazendo isso. Para as que usam energia que têm carvão como fonte, vamos solicitar informações sobre como farão a transição para fontes limpas. Também pedimos a quem tem índices, como o Ibovespa, para inclusão de critérios ambientais e sociais na composição.

A BlackRock vai investir em energia no Brasil?

Vamos investir em energia. É uma ação ainda bastante inicial. É focada em geração hídrica, eólica e solar. Já está começando, é uma estratégia de longo prazo. Temos um time no Exterior que faz esse trabalho. Eles têm olhado com bastante atenção as oportunidades aqui. A BlackRock já tem participação importante no negócios de infraestrutura no México, tem negócios na Colômbia, e a ideia é trazer para o Brasil essa experiência nesses países. Vemos oportunidades interessantes de investimento no Brasil.

<< A SEMANA QUE EU VI

O TIRO DO FED

A decisão do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) de fazer um corte extraordinário de 0,5% ponto percentual, na terçafeira, deveria tranquilizar os mercados. Acabou acentuando o nervosismo. Uns dizem que foi um tiro no pé, outros no peito. Desde então, os tombos nas bolsas se acentuaram.

NEGÓCIOS NO RS

No Estado, há empresas que enfrentam redução de estoques e outras que projetam mais vendas devido à epidemia de coronavírus, de álcool gel a máquinas. Também há casos de aumento de preços, especialmente de eletroeletrônicos.

PIBINHO...

Embora não tenha surpreendido pelo resultado geral, um pequeno avanço de 1,1%, o PIB de 2019 trouxe dados inquietantes do quarto trimestre, como a queda de 3,3% nos investimentos. Como são novos projetos que fazem a economia andar, houve redução geral nas projeções para o crescimento em 2020.

... E DOLÃO

Intervenções do Banco Central não evitaram que o dólar engatasse sequência de altas que impressionou até o ministro da Economia, Paulo Guedes. Ele admitiu que pode chegar a R$ 5 "se tiver muita besteira", mas "desce" se ele fizer tudo certo. Todos na torcida para que assim seja.

MARTA SFREDO

07 DE MARÇO DE 2020
RBS BRASÍLIA

O que é urgente no Dia da Mulher

As políticas de combate à violência contra a mulher não podem ficar só no discurso ou nas boas intenções. Deputadas que integram a bancada feminina já protocolaram um projeto que cria um fundo específico para esse objetivo. O projeto está pronto para votação em plenário. É claro que o direcionamento de recursos não significa sucesso no enfrentamento de uma chaga da sociedade, algo que na maioria dos casos ocorre dentro de casa.

Mas a aprovação desse fundo, ao lado de um trabalho robusto do governo federal junto aos Estados, poderia render resultados efetivos. Números da Secretaria de Segurança do Estado, divulgados no início de fevereiro, mostraram que o número de feminicídios triplicou em janeiro em relação ao ano passado.

Para poucos


Decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro proíbe a utilização de aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) por ministros interinos ou substitutos. A regra foi assinada mais de um mês depois de o então adjunto da Casa Civil, Vicente Santini, ter usado aeronave para ir à Índia e à Suíça na época do Fórum de Davos. O decreto também veda que ministros voltem ao Estado em que têm residência utilizando avião da FAB.

CAROLINA BAHIA


07 DE MARÇO DE 2020

POLÍTICA +

Mais do que flores no 8 de março

Convencido de que a mulher do século 21 merece mais do que flores no dia 8 de março, o governador Eduardo Leite resolveu incluir o respeito e uma ação de conscientização sobre a violência na pauta das comemorações.

Em um vídeo produzido pela Secretaria de Comunicação, Leite conversa com quatro mulheres que atuam na linha de frente da Segurança Pública: a chefe de Polícia, Nadine Anflor, a coordenadora estadual das patrulhas Maria da Penha, major Karine Brum, a diretora do Instituto-Geral de Perícias, Heloísa Kuser, e a diretora do Departamento de Políticas para as Mulheres, Bianca Feijó.

- As mulheres merecem todas as homenagens pelo importante papel que cumprem na sociedade, mas temos de usar a data para refletir. Os índices de violência contra a mulher caíram em 2019, cresceram em janeiro de 2020. Crimes como o feminicídio são difíceis de combater, mas o Estado tem uma rede que está trabalhando forte para isso -justificou Leite.

No vídeo, que será postado neste domingo nas redes sociais, as convidadas detalham as ações de cada instituição e reiteram a importância de se denunciar os crimes.

- Não existe mais essa história de que em briga de marido e mulher não se mete a colher. Se mete, sim - orienta a delegada Nadine.

Pratos quebrados


Não convidem para a mesma roda de chimarrão o líder do governo Nelson Marchezan na Câmara, Mauro Pinheiro (PL), o vice-líder, Moisés Barboza (PSDB), e o secretário de Relações Institucionais, Christian Lemos.


Nada a ver com o coronavírus e a recomendação para que cada um tenha a sua própria cuia. O problema é de incompatibilidade de gênios e de métodos de trabalho. As relações estão mais do que estremecidas.

ALIÁS

Assediado por uma dezena de partidos, o vereador Mauro Pinheiro optou pelo PL, depois de uma série de encontros com o deputado Giovani Cherini. Será o segundo vereador da bancada, ao lado de Wambert Di Lorenzo.


ROSANE DE OLIVEIRA

sexta-feira, 6 de março de 2020



06 DE MARÇO DE 2020
DAVID COIMBRA

Ronaldinho, o quase menino

O futebol existe para meninos que gostam de jogar bola. É essa a essência do futebol, e nenhuma outra mais. Todos nós, que gostamos desse jogo, ainda que sejamos velhos senhores ou calejados profissionais, todos nós, quando estamos vendo uma partida, pensando ou falando a respeito, somos, na alma, exatamente isso: meninos que gostam de jogar bola.

Quando o futebol perde essa leveza, perde também a sua magia. E deixa de encantar multidões para se tornar apenas um negócio.

Ronaldinho, quando surgiu, representava essa pureza do jogo: ele era um menino que jogava por prazer. Era essa a imagem que passava e era isso que enfeitiçava o mundo. De certa forma, uma espécie de Garrincha, inocente e maravilhoso.

Testemunhei o minuto exato em que esse personagem nasceu e também os vários momentos em que ele foi perdendo pedaços de candura pelo caminho.

O surgimento do menino Ronaldinho para o mundo se deu, ironicamente, no Paraguai, há 21 anos. Eu estava lá, eu vi. Era o jogo da Seleção Brasileira contra a Venezuela no estádio de Ciudad del Este. Ronaldinho entrou no segundo tempo e protagonizou o lance mais lindo daquela Copa América: recebeu a bola dentro da área, deu um balãozinho no primeiro zagueiro, driblou o segundo e chutou: gol, golaço. A plasticidade da jogada encantou o mundo, mas o que mais chamou a atenção foi a comemoração. Ronaldinho corria, saltava, socava o ar e ria com tanto entusiasmo, que chegava a ser comovente. Era uma alegria genuína, uma felicidade explosiva que só poderia ser expressada por uma criança.

Por um menino que gosta de jogar bola. Ronaldinho tinha tudo para ser esse menino: o gênio inato de um Michelângelo de chuteiras, o dom de brincar com a bola como se ela fosse um apêndice do seu pé direito, um sorriso de 200 dentes e uma certa alienação da vida adulta que fazia com que os outros o olhassem com doce condescendência.

Mas Ronaldinho não era assim, e essa verdade foi aparecendo aos poucos. A primeira surpresa se deu em 2001, quando Ronaldinho logrou o Grêmio e fugiu para o PSG. Como assim? O Grêmio não era o seu clube do coração? Ele não dizia que no Grêmio jogaria até de graça? Que conhecia mais o Olímpico do que a sua casa? Meninos não traem os clubes para o qual torcem. Ronaldinho traiu e, ali, ficou menos menino.

Mas Ronaldinho jogava como nenhum outro. Em cinco anos, ele era o dono do planeta, multicampeão, autor de jogadas inverossímeis. Se quisesse, Ronaldinho teria sido Pelé. Ou, talvez, se pudesse. Ele não podia, porque não era quem parecia ser. E, no evento em que Ronaldinho deveria ter se consagrado para sempre, a Copa de 2006, as deformidades da sua personalidade foram mais fortes do que a excelência do seu futebol. Eu também estava lá e também vi. O Ronaldinho que chegou à Alemanha era um desconcentrado, distante, dava a impressão de não compreender o que se esperava dele. Tive a oportunidade de entrevistá-lo com exclusividade no vestiário da Seleção. O então preparador físico Paulo Paixão me levou até ele e ficamos a sós, o que era raro naquela cobertura. Perguntei:

- Quando tu vai jogar a tua bola? Quando tu vai para cima deles? Quando tu vai assumir o protagonismo desse time?

Ronaldinho tergiversou, disse que não era bem assim, que os outros jogadores eram igualmente importantes? Estava cheio de reticências e cheio de reticências foi o seu jogo até a eliminação do Brasil. Depois da Copa, Ronaldinho nunca mais foi o mesmo. Teve lampejos, como na Libertadores do Atlético Mineiro, mas deixou de ser aquele feiticeiro da bola. Agora, o prazer do futebol perdia para outros prazeres. Agora, definitivamente, ninguém mais o via como um menino.

Esse Ronaldinho detido no Paraguai com passaporte falso não passa de uma lembrança daquele Ronaldinho que vibrou com euforia juvenil a marcação de um gol. Não passa de um traço triste de alguém que ele poderia ter sido. E não foi.

DAVID COIMBRA

06 DE MARÇO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

A DISTORÇÃO DAS EMENDAS

A controvérsia que levou o presidente Jair Bolsonaro a endossar a movimentação para a realização de protestos contra o Congresso turva um debate que deveria ser travado com maior sensatez e despido de disputas políticas. Muito acima do desentendimento entre a Câmara e o Planalto pelas chamadas emendas impositivas está a discussão do papel do parlamento na alocação de recursos do Orçamento. A grande disfunção está no fato de que, no Brasil, parlamentares distribuem dinheiro público, muitas vezes a seu bel-prazer, atendendo a interesses específicos. Não raro são recursos que seriam melhor aplicados se fossem observados critérios mais objetivos, e não uma conveniência eleitoreira.

O parlamento deveria ser a arena dos grandes debates, da maturação de importantes projetos e da construção de legislações que ajudassem a mudar o país para melhor. É preciso reconhecer que, nos últimos anos, o Congresso tem méritos na condução e aprovação de uma série de reformas, como a trabalhista, a da Previdência, e a Lei da Liberdade Econômica. Mas utilizar o dinheiro do contribuinte para proselitismo, mesmo quando direcionado para causas válidas, é uma distorção da atividade e um apequenamento da função para a qual os parlamentares são eleitos.

Não há dúvida de que a fragilidade dos últimos três presidentes da República abriu uma brecha para que o Congresso aumentasse seu poder, inclusive sobre os recursos da União. O recente episódio, uma disputa em torno de R$ 30 bilhões, surge da proposta aprovada do Orçamento 2020, em que foi incluída como obrigatória a execução também de emendas definidas pelo relator e pelas comissões do Congresso - que assim ficaria com cerca de 30% dos R$ 137 bilhões livres para aplicação. 

Como Bolsonaro vetou trecho da LDO que ampliava o controle dos congressistas sobre as verbas, os deputados, principalmente, ameaçaram derrubar a decisão do presidente, o que deu origem à refrega. O problema se agrava devido ao grande engessamento dos gastos públicos, fazendo com que o governo fique diminuído em sua tarefa precípua de executar o orçamento. Apesar do tensionamento, os parlamentares agiram com bom senso e mantiveram os vetos de Bolsonaro, após costura de acordo. O próximo passo, agora, é analisar e votar os projetos que tentam deixar mais cristalinas as regras sobre a execução de emendas parlamentares.

O festival de emendas também deturpa o processo eleitoral. É nítido que um detentor de mandato, ao fazer cortesia com o chapéu alheio, larga em vantagem na disputa com candidatos que não dispõem dessa arma à mão, usando recursos públicos para reforçar laços e compromissos com prefeituras e lideranças de comunidades beneficiadas pelo instrumento. Está na hora de acabar com essa disfunção, em nome da valorização da verdadeira atividade do Legislativo, e para que se evite que o equilíbrio entre os poderes comece a ser comprometido, pendendo demais para um lado.


06 DE MARÇO DE 2020

EDUARDO BUENO


Doutrinação


Inspirado no exemplo da mãe e da filha de Caçador (SC) que decidiram processar não só o Estado de Santa Catarina como o colégio onde a menina de 16 anos teria sido vítima de "doutrinação" por parte da professora de História, resolvi fazer o mesmo: também vou acionar na Justiça as escolas onde estudei e os Estados onde ficam.

Primeiro, é claro, o Ginásio Nuno de Andrade, em São Paulo, onde cursei a pré-escola. Lá estava eu, Gumex no topete, no dia 1º de abril de 1964, quando anunciaram que um certo Leonel Brizola iria "tocar fogo em Porto Alegre". Caindo em prantos, urrei: "Mas a tia Zilah mora lá!". Levaram-me para a direção e me deram água com açúcar. Vou processá-los não só por fake news mas pelo vício adquirido, pois aquele pó branco, como se sabe, é a porta de entrada para drogas ainda mais pesadas.

Vou processar o Colégio Rio Branco, também de SP, onde cursei do 1º ao 4º ano do primário. Lá, além de me terem feito ler Éramos Seis, defendiam a Revolução de 1932. Quando a profe chamou nosso Getúlio Vargas de "ditador sanguinário", tive uma dor de cabeça lancinante. Então, me deram Melhoral, que "era melhor e não fazia mal". Jamais abandonei as farmácias - nem voltei a confiar em paulistas.

Vou processar também o Colégio Anchieta, onde gastei oito anos da minha vida e no qual, dentre horrores indizíveis, me fizeram escrever uma redação sobre a Transamazônica e tentaram me convencer de que o dito Anchieta era defensor dos índios (até os da Amazônia). Quando descobri que Anchieta (hoje santo) considerava o tabaco "erva santa", me pus a fumar a erva errada. Mas essa eu já larguei.

Vou processar (in memoriam) o IPV, cursinho pré-vestibular onde o professor barbudo como Che Guevara me garantiu que ele fora um herói. Apaixonei-me pelo pôster do Che, pela Bolívia e por seu produto nacional refinado. Fui reduzido a pó.

Vou processar a UFRGS por ter frequentado lá a cadeira de Estudo de Problemas Brasileiros, na qual afirmavam, em plena ditadura militar, que não havia problemas no Brasil - o que me fez mergulhar na tarja preta (e não foi só a da censura).

Como tais crimes não prescrevem e minha vitória é certa, penso em doar metade da grana para essa professora de Caçador - oh, belo nome! - que tentou convencer seus alunos a não votarem no mais desqualificado presidente da história do Brasil - mas foi, digamos, voto vencido. A outra metade vou investir numa máquina do tempo. Com ela, convencerei a atenta mãe e a vilipendiada filha de Caçador - ah, belo nome - a cursarem as aulas de História entre 1964 e 1984.

Só espero que a doutrinação não as leve a consumir tantas substâncias quanto eu.

EDUARDO BUENO

06 DE MARÇO DE 2020
INFORME ESPECIAL

A vilã esquecida na epidemia do novo coronavírus

Sempre impliquei com maçanetas. De vez em quando, embebo um pano em álcool e, tomado por uma espécie de fúria higiênica compulsiva, desinfeto todas elas no apartamento onde moro. Tenho alguns truques que, em tempos de coronavírus, merecem compartilhamento.

Banheiros públicos. Você entra, faz o que tem que fazer e lava as mãos corretamente. Mas, na sua frente, uma maçaneta emporcalhada põe em risco o seu esforço. Em geral, espero uma carona. Quando uma outra pessoa sai, vou no vácuo. Um truque: se a porta for daquelas automáticas e estiver fechando na sua frente, ponha o pé e impeça. Um exercício leve de contorção e pronto. Você está fora. E seguro.

Se o banheiro é pouco movimentado, quase ninguém entra e sai, nada de desespero. Use o mesmo papel com o qual secou as mãos para improvisar uma espécie de luva. Abra a porta e deposite o lixo no primeiro local adequado que encontrar. Se for preciso dar descarga, use o cotovelo. Se a descarga for um fio de puxar, procure segurar mais lá em cima, onde quase ninguém alcança e onde o cordão, em geral, é menos sujo.

A epidemia de coronavírus nos confronta, novamente, com o antigo desafio de equilibrar o individual e o coletivo. Basta que um espirre e não cubra o nariz ou não lave as mãos para que todos sejam atingidos. Na dúvida, não economize álcool nas maçanetas.

TULIO MILMAN

quinta-feira, 5 de março de 2020



05 DE MARÇO DE 2020
DAVID COIMBRA

O que Fernando Henrique Cardoso aprendeu

Algumas pessoas, quando atingem certa idade, não conseguem mais entender o mundo, porque não aceitam que tudo, inclusive elas, esteja sempre mudando. Mas a regra da transformação inexorável é universal, e Heráclito já a ensinou 25 séculos atrás. Nós mudamos, a vida muda, e nenhuma nostalgia trará de volta o que já foi.

Por isso, fiquei surpreso, ontem, quando entrevistamos o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, no Timeline Gaúcha. Porque, às vésperas de completar 90 anos de idade, ele analisou o mundo atual com uma coerência e uma agudeza raras. Para falar a verdade, ainda não tinha visto alguém apresentar compreensão tão sutil do que está acontecendo e do que pode acontecer.

Fernando Henrique, que mantém conta razoavelmente ativa no Twitter, chegou a se entusiasmar quando foi perguntado acerca das redes sociais. E observou, com lógica impecável: a internet permitiu a conexão de micropartículas da sociedade que antes não se comunicavam. Essas micropartículas, depois de coesas, tornam-se poderosas. Só que elas não têm rumo certo, elas podem mudar de forma e de posição, e estão constantemente fazendo isso, o que tem resultado em súbitas detonações de insatisfação sem lideranças ou reivindicações claras, como se deu há pouco no Chile. Essas ondas são muito fluidas, voláteis e velozes, um problema para as instituições, porque os governos precisam de estabilidade para funcionar.

É isso.

A intensa, maciça e incessante troca de opiniões entre essas micropartículas das sociedades produziu um fenômeno inédito na História: a geração de gigantescas ondas de descontentamento sem causas definidas. É o que vem acontecendo no Brasil há sete anos e ainda acontece no Chile, na França, em Hong Kong e em muitos outros lugares do planeta. As pessoas saem às ruas e expressam publicamente sua infelicidade sem que haja um líder para negociar por elas ou uma exigência para ser atendida. Que bandeira elas carregam? Não há uma, são várias, nenhuma em especial. Elas simplesmente não estão mais contentes com a vida que levam e querem que alguém faça algo a respeito.

Esses motins em massa podem explodir a qualquer momento, por qualquer motivo, em qualquer país, com qualquer regime político, porque a contrariedade está no ar, unindo os espíritos na mesma angústia, que talvez seja apenas a angústia de viver num mundo tão cheio de ofertas, apelos, ameaças e opções, um mundo que muda com velocidade tão insuportavelmente alta, que nem um Heráclito poderia prever, talvez um Fernando Henrique entronado à distância segura de quem já fez o que achava que deveria fazer e que já viveu tudo o que poderia viver.

Ele mesmo, Fernando Henrique, abordou isso na entrevista. Disse que tentou experimentar com plenitude cada fase da sua trajetória, sem reclamar, sorvendo o momento. Fez isso como professor, como presidente da República e, agora, como um nonagenário que observa o mundo ao redor, que pensa e que se esforça para entender. Sem nostalgia. E, sobretudo, sem amargura. Porque nenhuma manifestação de amargura vai tornar a vida mais fácil de se viver.

DAVID COIMBRA


05 DE MARÇO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

O ALERTA QUE VEM DO PIB

A nova frustração com o crescimento da economia brasileira precisa fazer o governo federal, em especial o presidente Jair Bolsonaro, finalmente despertar para o papel do Executivo na construção de um ambiente mais fecundo para uma retomada robusta da atividade. E não se trata de qualquer medida ou plano mirabolante. O avanço medíocre do PIB de 1,1% em 2019 foi inferior aos dos dois últimos anos e menos da metade do esperado no início do mandato de Bolsonaro. Mais esta decepção mostra que o Planalto precisa, urgentemente, colaborar para um resgate mais firme da confiança dos agentes econômicos e, assim, recuperar a credibilidade necessária para o ressurgimento dos investimentos internos e externos que façam a roda do desenvolvimento voltar a girar.

É imperiosa uma mudança de postura do Planalto. Polêmicas estéreis, manobras diversionistas e a atenção do presidente a temas secundários, em vez de centrar foco nos problemas reais do país, passam a impressão de que a figura que ocupa o mais alto posto da República e seu núcleo ideológico vivem em uma espécie de realidade paralela, deixando de mostrar interesse e se esforçar para a aprovação das reformas essenciais para o país. Apesar de reiteradas promessas desde o ano passado, o governo ainda não enviou para o Congresso sua proposta de reforma administrativa. Em relação à tributária, outra prioridade, o Executivo foi simplesmente alijado das discussões, que passaram a ser assunto sob o domínio do Congresso.

Os constantes sobressaltos e atritos desnecessários com outros poderes muitas vezes acabam por minar o bom andamento de projetos elaborados no Ministério da Economia, uma das ilhas de excelência do governo, de resto rodeadas pelo mar revolto da guerra ideológica que não cria um emprego sequer. Pelo contrário. O discurso ambiental enviesado, outro exemplo, aumenta a desconfiança internacional em relação ao Brasil, que assim vê ameaçada a chegada de capital que seria imprescindível para investimentos produtivos e em infraestrutura.

É inegável que fatores externos como a guerra comercial entre China e EUA e a crise argentina afetaram a economia brasileira. Por outro lado, sabia-se desde o final de 2018 que o maior potencial de crescimento da economia brasileira em 2019 viria do mercado interno. Muito das expectativas positivas de empresários e consumidores estava ancorado no encaminhamento e na aprovação de reformas. Mas pouco do prometido foi entregue, incluindo abertura comercial e privatizações.

Um novo fator a preocupar o mundo agora é o coronavírus, que afetou drasticamente a economia chinesa e as cadeias globais de fornecimento de insumos e mercadorias. A epidemia se espalha rápido por outros países, fazendo com que o estrago também se alastre. O secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, sentenciou no início da semana que a melhor vacina contra os danos do vírus é o avanço das reformas. Gestos simples de Bolsonaro, repensando o tom beligerante, seriam um bom começo para que a agenda consiga avançar o possível no Congresso antes do segundo semestre, quando Brasília se esvazia devido às eleições municipais. Algo de positivo poderá ser extraído do pibinho de 2019 se o desapontamento servir ao menos para o presidente compreender a gravidade da situação e seu papel como chefe do Executivo. Caso contrário, o Brasil poderá estar condenado a mais uma frustração em 2020.