sexta-feira, 3 de julho de 2020


03 DE JULHO DE 2020
DAVID COIMBRA

O perigoso discurso do governador

O governador Eduardo Leite fez ontem um discurso de estadista sobre a situação do Estado no combate ao coronavírus. Mas foi, também, um discurso perigoso.

Leite apresentou uma peça de oratória bem concatenada, bem medida e bem interpretada. Empregou um adequado tom emotivo para expor temas acerca dos quais ele pensou com critério, certamente com auxílio dos assessores. Quer dizer: foi uma emoção calculada, com a dose precisa de dramaticidade em cada oração.

O discurso de Leite pode ser resumido em dois pontos principais. O primeiro é a defesa das medidas tomadas por sua gestão na luta contra a peste. Ele destacou o número de novos leitos adquiridos pelo Estado e chegou a fazer uma estimativa de quantas vidas foram salvas pela política de distanciamento controlado nos últimos cem dias.

Essa primeira parte serviu para dar suporte à segunda, na qual o governador enfatizou a necessidade de concentração da população nos próximos 15 dias. E é aí, nesse nervo específico, que podem surgir as dores e os traumas do governo.

Há 12 dias, falei com o governador e ele disse que os 15 dias seguintes seriam críticos. Agora essa criticidade foi estendida para mais 15 dias. Mas, lá atrás, em março, dizia-se que o tão esperado "pico" da infecção ocorreria em 6 de abril. Depois, em 20 de abril. Depois seria em maio. E em junho. Hoje se diz que será em julho.

Daqui a 15 dias, o que será dito?

Essa é a aflição de Eduardo Leite. Se daqui a 15 dias ele não puder dizer que a maior ameaça foi debelada, não haverá discurso, por mais bem amanhado que seja, capaz de convencer as pessoas de que elas terão de suportar outros 15 dias de sacrifícios.

Leite está apostando na sua capacidade de mobilização para essas duas semanas. Está apostando na disciplina da população. Ou na força da coerção. É provável que seja bem-sucedido nesse movimento. Mas, parafraseando Garrincha, falta combinar com o vírus. A contaminação terá de retroceder, a situação do sistema de saúde terá de melhorar. Porque, daqui a 15 dias, o discurso de Leite só poderá ser otimista. Ele não terá alternativa. Entre esses dois discursos, o do começo de julho e o de meados de julho, transitará muito do futuro do governador. E do Estado que ele governa.

DAVID COIMBRA

03 DE JULHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

HORA DE UNIÃO



Passaram-se três meses e meio desde o início das medidas de distanciamento social no Estado, mas é preciso manter e reforçar o chamamento pela unidade e pela disciplina. Neste período exaustivo, divergências naturais e novos obstáculos surgiram e foram contornados, enquanto os gaúchos vivem dias duros e angustiantes pelas preocupações com a saúde e com a economia. Todos os esforços, à luz da ciência, foram empregados pelas autoridades responsáveis para debelar o inimigo comum que já vitimou mais de 61 mil pessoas no país e outras 600 no Rio Grande do Sul. Embora ainda não tenha sido possível lograr êxito contra o insidioso vírus, o caminho adotado é o correto e é preciso perseverar nele, ainda mais quando surge o alerta de um perigoso aumento da ocupação de leitos de UTI por casos do novo coronavírus.

Se reconhece o cansaço depois de mais de cem dias de afastamento de familiares e amigos e restrições de atividades e de circulação. Mas o momento desafiador exige que não se perca a confiança e não sejam jogadas fora as conquistas valiosas do Rio Grande do Sul ao longo do enfrentamento ao mais drástico evento sanitário e econômico em um século. Boa vontade, racionalidade, desprendimento, obediência às orientações e, sobretudo, a convergência sobre pontos mínimos necessários para os gaúchos ultrapassarem esta crise precisam ser preservados.

É nesta hora crucial, com toda a sociedade à prova, que é preciso demonstrar engajamento e união. Mais do que nunca. A chegada do frio mais intenso eleva a ameaça de sobrecarga dos hospitais. O tom grave do pronunciamento do governador Eduardo Leite na manhã de ontem mostrou que o Estado está em uma encruzilhada e, entre as direções que podem ser tomadas, uma tende a levar a um potencial descontrole da doença no Rio Grande do Sul, com consequências ainda mais avassaladores na saúde e na economia. 

A outra, guiada pela gestão racional da pandemia, pede um pouco mais de compreensão e comprometimento de cada gaúcho para uma travessia mais segura. Na sua fala revestida de importância histórica, o governador ressaltou a necessidade de, nos próximos 15 dias, a população retomar os níveis de isolamento observados no início de abril, evitar de sair de casa, se possível, e não esquecer dos hábitos de higiene.

O plano de distanciamento controlado elaborado pelo governo gaúcho tem qualidade reconhecida. Foi copiado por Estados e aplicado em outros países. Mas não funciona sozinho. É importante, mais uma vez, apelar para que todos adotem seus preceitos. É em torno desse planejamento que os rio-grandenses - independentemente da posição social ou política - precisam cerrar fileiras. Ninguém deseja que se chegue ao ponto de um lockdown generalizado. Por outro lado, um relaxamento irresponsável tende a agravar o quadro sanitário, fazer estragos ainda maiores no tecido econômico em um prazo mais longo e potencializar feridas que demorarão ainda mais para cicatrizar. O julgamento da história costuma ser implacável.


03 DE JULHO DE 2020
RBS BRASÍLIA

Bolsonaro promete parar de brigar

Aliados do governo comemoram o período paz e amor de Jair Bolsonaro. O presidente deixou de participar das manifestações contra o Congresso, há duas semanas se mantém distante de declarações polêmicas e, ontem, quando parou no cercadinho do Palácio do Planalto para falar com apoiadores, reconheceu uma verdade: a educação está horrível no Brasil. Na cúpula do Mercosul, ele falou pouco e sem controvérsias, concentrando o discurso na questão ambiental. Para deputados aliados, graças a esse comportamento, a temperatura política vem esfriando. 

A semana termina com o Palácio do Planalto com foco na agenda de inaugurações, em anúncios do governo e em movimentos políticos. Conhecido por circular com desenvoltura por diferentes bancadas, o emedebista Fábio Ramalho (MG) foi responsável pelo almoço da quinta-feira no Palácio do Planalto. Carro-chefe do cardápio do parlamentar, que está acostumado a receber para almoços e jantares, o leitão pururuca com torresmo foi servido para os convidados do presidente. Parlamentares aliados, ministros e um dirigente do Flamengo estavam entre os convivas. Na saída, o deputado Ubiratan Sanderson (PSL-RS) afirmou ao presidente que o clima está melhor. Em resposta, Bolsonaro disse:

- Vou focar no Brasil e parar de brigar.

Ele fica

Ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni nega que tenha a intenção de deixar o governo para concorrer à prefeitura de Porto Alegre. Esse boato começou a circular em Brasília desde que a primeira-dama, Michele Bolsonaro, começou a defender o nome de Damares Alves para assumir a pasta comandada por Onyx. À coluna, o ministro afirmou que tem um compromisso de lealdade com Bolsonaro e vai honrá-lo até 2022, quando decidirá com o presidente qual cargo irá disputar.

Interino preferido

O Ministério da Saúde está há quase dois meses sem ministro titular, mas o presidente Jair Bolsonaro não reclama do interino. Em almoço com deputados na semana passada, ele elogiou a atuação de Eduardo Pazuello, classificando o general como discreto. Mesmo assim, cada vez que o deputado Osmar Terra (MDB) entra no Palácio do Planalto, volta a especulação sobre a possibilidade da nomeação do gaúcho para a pasta.

Previsões

Oficialmente, Terra esteve duas vezes no gabinete do presidente Bolsonaro em junho e, na última quarta-feira, passou por lá novamente. O discurso do deputado contra o isolamento social agrada aos bolsonaristas. Vale lembrar que, nas redes sociais, o deputado afirmou que a doença chegaria ao fim em junho. No Rio Grande do Sul, o governador Eduardo Leite fez um apelo dramático para que as pessoas fiquem em casa e colaborem pelo menos por mais 15 dias.

CAROLINA BAHIA

03 DE JULHO DE 2020

GRATUITO

Ferramenta para pequenos negócios é lançada



Aos 48 anos de existência, a confeitaria Dona Ines, na zona norte de Porto Alegre, jamais havia deparado com tamanha crise como a trazida pelo coronavírus. Com as restrições impostas ao atendimento presencial e um estágio ainda muito incipiente de encomendas via WhatsApp, o tradicional negócio viu as vendas desabarem 80%.

- Não sabíamos o que fazer para manter a empresa aberta - conta a diretora Mara Rita dos Santos.

Ela resolveu buscar ajuda em um projeto da Universidade Federal do RS (UFRGS) que auxilia pequenos empresários a enfrentar a crise, o SOS PME. Professores de administração e alunos a ajudaram a criar um plano de contingência para organizar as finanças, ampliar os canais de entrega dos doces e salgados e criar kits para atrair atenção de um público pouco afeito a gastar na crise.

- Começamos a montar kits de chá da tarde para home office e receber encomendas de outras cidades. Graças a essas mudanças, estamos conseguindo manter a empresa - comemora Rita.

Divulgação

O projeto SOS PME, que está salvando o negócio de quase meio século, é uma das iniciativas que compõem a plataforma virtual Supera, ferramenta que reúne 29 serviços de apoio aos micro e pequenos empreendedores da Capital durante a pandemia. A ferramenta foi lançada ontem com o objetivo de preparar os negócios para atravessarem a tormenta e deixá-los mais fortes após a pandemia. A iniciativa é uma parceria entre Pacto Alegre, Aliança pela Inovação e prefeitura de Porto Alegre.

Entre os recursos à disposição estão rodadas de negócios online, acesso a conteúdos de diversas áreas (finanças, planejamento, gestão de projetos e de pessoas etc.), atividades de mentoria, consultorias, serviços de diagnóstico empresarial, opções de financiamentos e soluções para digitalização dos negócios.

O empreendedor pode acessar a relação de serviços gratuitos no site pactoalegre.poa.br/supera.

03 DE JULHO DE 2020
EDUARDO BUENO

João de quê?

Embora por motivos de foro íntimo eu jamais tenha trajado aquelas vestes vermelhas e nem me autointitulado "rajneesh" - até porque o termo correto era "sanyassin" (que quer dizer "devoto") -, o fato é que durante dois anos de minha vida fui entusiástico simpatizante da doutrina do guru indiano Bagwan Shree Rajneesh, que mais tarde trocou de nome para Osho (na época em que eu já estava começando a achá-lo osho duro de roer).

Passados 40 anos desde os tempos em que bailei seminu, com o mala a rodopiar ("mala" é um tipo de rosário, colar de contas para reza e meditação, não uma pessoa chata), e exatas três décadas desde a morte de Osho, explodiu, faz já um tempo mas com a força de um ciclone-bomba, o documentário Wild, Wild Country, sobre a loucura e os desmandos dos "devotos" de Osho que, com a omissão (ou o beneplácito) dele, formaram uma milícia e, trocando o mala pelas armas (e com bactérias na manga), tentaram tomar o poder num vilarejo no Oregon (EUA ), dispostos a matar ou envenenar quem fosse contra.

Mas o caso é que, após assistir à série Em Nome de Deus, uma admirável pro?dução da Globoplay sobre o monstruoso "médium" brasileiro João de Deus, o velho safado Osho renasceu feito um Buda para mim. Particularmente, nunca fui com a cara desse João de Deus, mesmo quando gente ligada a mim o consultava. Isso, claro, antes de imaginarmos que ele fosse a figura abjeta que é. Mas o fato é que sempre segui o lema: quem vê cara vê coração. E o tal João de Deus, ex-garimpeiro e vaqueiro, arigó goiano, camelô da fé e farsante vil, era um abusador inveterado, invertebrado estuprador que seviciava suas vitimas rezando a Ave Maria.

Mas pelo amor de - vá lá, pelo amor de Deus: não estava na cara? Quem poderia crer que Deus era brasileiro e operava milagres nos cafundós de Goiás? Bem, talvez gente como a que faz parte do rebanho dos pastores evangélicos da estirpe de Edir Macedo, Silas Malafaia, R.R. Soares e o sertanejo Valdemiro. Juntos, eles têm fortuna calculada (pela Forbes) em R$ 3 bilhões. E devem R$ 276 milhões para a Receita (mas o atual desgoverno já aventa perdoá-los de seus pecados fiscais).

Supõe-se que Deus - se é que existe - aja por caminhos misteriosos como os caminhos do vento, e que insondáveis sejam seus desígnios, mas, de boa, com aquela cara, aquele sotaque, aquela boiada, aquela pança e aqueles olhos revirando? As faces de Deus podem ser múltiplas, mas certos caretas estão na cara. Então, me dá meu Osho, e meu mala, de volta, cara. E joga esse João de Deus na cadeia pela eternidade e mais um dia - sem esquecer, é claro, de cobrar o dízimo dos hipócritas pastores de gado.

EDUARDO BUENO

03 DE JULHO DE 2020
INFORME ESPECIAL

Propósitos

Um dos momentos mais interessantes do Jornal Nacional, desde que a pandemia começou, é aquele em que são destacadas as ações de empresas solidárias. Modéstia à parte, o Informe Especial foi pioneiro em dar visibilidade a essas iniciativas. A seção Do bem já registrou centenas de iniciativas. Mas não era esse o meu tema. Gosto dessa parte do Jornal Nacional porque descobri que essas grandes empresas têm rostos humanos. São presidentes e diretores que falam, que ficam nervosos diante da lente e que às vezes estão com as roupas amassadas. 

Confesso que passei a gostar mais de algumas empresas depois que vi seus representantes expostos em rede nacional, falando das suas casas, sem superproduções, sem cenários espetaculares e sem as proteções impostas pela liturgia de seus cargos. Homens e mulheres falando sobre o que estão fazendo. Com sinal ruim de internet, sem maquiagem, com a barba meio crescida, sem briefing do marketing e sem blá-blá-blá.

Simples, barato e eficiente. Isso também é estar perto do cliente.

O Facebook acabou

O boicote cresce e com ele morre um sonho. A praça virtual onde todos se encontram sem mediação e sem leis era remédio. Virou veneno. Dezenas de empresas mundo afora estão cancelando anúncios no Facebook. Milhões de pessoas estão parando de postar e ler. E aqueles que continuam, o fazem sem o mesmo entusiasmo de antes - sou um deles. A plataforma parou de servir aos propósitos das marcas quando uma onda planetária contra o discurso de ódio ganhou dimensões gigantescas.

Era uma utopia bonita: a autorregulação popular, sem autoridade e sem filtro. Uma festa open bar sem porteiro e sem precisar de convite, na qual cada um era responsável pelos seus atos. Acabou em porre coletivo. Porre de racismo, de ódio, de terrorismo, de desinformação, de manipulação eleitoral, de mentiras, de ignorância e de práticas comerciais mentirosas. O Facebook diz que entrega conteúdos de graça, mas na verdade ganha dinheiro retirando informações de seus usuários sem que eles entendam direito como.

Mas o naufrágio do Facebook nos deixa uma lição. Nós, seres humanos, precisamos de regras. E de autoridade. Regra não é ditadura. Ao contrário. Disciplina é liberdade, vocês devem lembrar da música. Autoridade não é autoritarismo. É a segurança de que a democracia vale para todos.

Para sobreviver, o Facebook só tem agora um caminho. Se voltar cada vez mais para aquilo que, primeiro ingenuamente e depois com propósitos econômicos, se propunha a combater: regras editoriais, responsabilidade sobre o que publica e, principalmente, nomes e sobrenomes verdadeiros e públicos.

TULIO MILMAN

quinta-feira, 2 de julho de 2020



02 DE JULHO DE 2020
DAVID COIMBRA

A resistência está acabando

Quanto tempo mais teremos de viver assim? Com medo do mundo exterior. Com medo uns dos outros. A vacina, se tudo der certo, estará pronta em seis meses. Até nos alcançar, talvez mais uns três. É o período de uma gestação humana. Duvido que tenhamos têmpera e recurso para suportar tanto.

Já há muita gente desempregada. Muitas empresas já fecharam, sem perspectiva de reabrir. Mas, além disso, além do massacre material produzido pela peste, há o massacre espiritual. No caso específico do sul brasileiro, o que abateu os ânimos foi algo terrível para quem está em combate: a reversão de expectativas.

Eis uma lição que você deve aprender, se quiser ser bom pai, bom chefe, bom líder de qualquer empreendimento: não há nada que desmotive e desagregue mais um grupo do que o pacto rompido, mesmo que o pacto seja implícito.

O pacto rompido é a promessa quebrada, e promessas são quebradas, em geral, porque o líder não tem rumo. Como ir atrás de um líder que não sabe o caminho a seguir?

Não estou dizendo que as atuais lideranças do Estado e da cidade são ineptas. Não. Estou dizendo que foi criada uma ilusão, entre a população gaúcha, e que essa ilusão se desfez nos últimos dias. Isso desmancha qualquer resistência.

Porque nos disseram, e repetiram mil vezes, que fecharíamos cedo para reabrir mais cedo, que tínhamos de nos recolher para diminuir a curva do contágio e aumentar a do sistema de saúde. Era preciso ganhar tempo, foi o que nos disseram.

E agora a impressão é de que nada do que foi feito adiantou. As declarações das lideranças são catastrofistas e o mantra do "fique em casa" parece uma maldição.

Por pior que seja a situação, o líder tem de compreender que o pessimismo continuado causa duro impacto psicológico nos liderados. Esse é o efeito do abre e fecha, do recrudescimento de restrições e da eterna ameaça do lockdown: o desânimo e a descrença.

É claro que o líder não toma medidas antipáticas por gosto. A situação o obriga. O que talvez esteja faltando é um pouco de flexibilidade. Porque as pessoas estão há muito tempo fazendo sacrifícios. Elas precisam de perspectivas para continuar fazendo.

Perspectiva, essa é a palavra - é o que faz a vida valer a pena.

Agora, ainda que os perigos pareçam maiores, é necessário assumir riscos calculados.

Tenho de minudenciar um pouco esse argumento, para não ser mal compreendido. Vou repetir o que disse na abertura do texto: essa dificuldade não se extingue antes de oito ou nove meses. Logo, há atividades que terão de ser retomadas, mesmo com a ameaça do vírus. Porque, se não o forem, deixarão de existir. É o raciocínio que precisa ser feito: qual é o tamanho do risco da volta ao funcionamento de cada setor?

Por exemplo: os cinemas, os teatros, os shows, as casas noturnas, os restaurantes com bufê. Nesses casos, o risco é altíssimo. Isso torna a possibilidade de retorno pouco plausível. Ou seja: o prejuízo é inevitável. Mas há casos em que o prejuízo é evitável ou, pelo menos, pode ser reduzido.

Aí desponta o futebol profissional.

A dupla Gre-Nal adotou controles sanitários rígidos no seu sistema de trabalho, inclusive com um volume de testagens único na sociedade gaúcha. Por que não podem voltar a treinar coletivamente e, depois, a jogar? Seus profissionais são jovens atletas, saudabilíssimos, não há ninguém mais distante do que eles do grupo de risco. Se os clubes ficarem inativos até que se atinja a segurança total, simplesmente fecharão. Não haverá mais Grêmio ou Inter. Pode-se permitir isso? Grêmio e Inter são patrimônios materiais, culturais e espirituais do Rio Grande do Sul. Se voltarem a jogar, darão novo ânimo à população. Darão esperança. E, neste momento tão duro, nada é mais importante do que a esperança.

DAVID COIMBRA

02 DE JULHO DE 2020
ARTIGOS

O PARADOXO DO BARCO DE TESEU E A IDENTIDADE DO BRASIL

O poeta Plutarco nos brindou com o legado mítico de Teseu de Atenas. Teseu teve de enfrentar o monstro Minotauro, que ficava num labirinto na ilha de Creta. Era tradição da época que os navios usassem velas brancas em caso de sucesso ou pretas nos casos de fracasso de suas missões. Teseu venceu o Minotauro, mas em seu retorno não içou as velas brancas. Quando seu pai viu o navio no horizonte com as velas pretas, lançou-se ao mar em desespero.

Teseu assumiu o trono de Atenas, consolidou a democracia ateniense e reinou num período de grande prosperidade. O povo de Atenas construiu um monumento a Teseu com seu barco ao centro. À medida que peças do barco apodreciam, estas eram substituídas por madeira nova. Surge, então, o dilema filosófico de identidade: mesmo sendo substituídas todas as peças do barco, este continuaria sendo o barco de Teseu? E o Brasil nessa trama filosófica?

Ao longo de nossa história, consolidou-se o princípio e a prática do apadrinhamento e do acesso privilegiado aos recursos. Neste momento, enfrentamos a pandemia de covid-19. As consequências da construção de uma sociedade desigual e injusta se revelam. As periferias das grandes cidades se tornaram epicentros da tragédia.

Esperava-se que o enfrentamento dessa calamidade poderia nos sensibilizar e provocar mudanças em nossos princípios e identidade. Mas não. Tão logo o governo federal criou um programa de apoio aos entes federativos para enfrentar os efeitos da pandemia, que entre seus pilares tem o congelamento temporário dos exuberantes salários dos servidores públicos, as classes e corporações de ofício dos servidores dos três poderes trataram de obter rapidamente aumentos salarias antes da entrada em vigor da nova regulamentação. Outros gestores públicos e privados se aproveitaram das compras emergenciais para superfaturarem e se apropriarem ilegalmente de recursos. Várias centenas de milhares de pessoas estão acessando indevidamente os recursos do auxílio emergencial.

Ao que estamos lamentavelmente assistindo no Brasil neste momento de tragédia é a comprovação da hipótese de que embora se troque ou mudem as pessoas e as gerações de uma sociedade, sua identidade permanece. A pandemia de coronavírus não foi suficientemente forte para nos tornar uma sociedade mais justa, igualitária, honesta e menos corrupta. Não foi desta vez.

Professor titular na Escola de Administração da UFRGS adpadula@ea.ufrgs.br - ANTONIO DOMINGOS PADULA


02 DE JULHO DE 2020

OPINIÃO DA RBS

ÉTICA NA EDUCAÇÃO

A educação não é feita apenas do ensino de matemática, línguas, ciências, história e geografia. Sem precisar constar na grade curricular, a ética e a integridade são valores essenciais que precisam impregnar os alunos desde a mais tenra idade, por serem pressupostos básicos da vida em coletividade. Mas, para aprender esses significados e tê-los como norte nas relações com a sociedade, crianças e jovens precisam se mirar especialmente em bons exemplos. Sejam eles de professores, pais, líderes, sejam de governantes que se transformem em referência para aqueles que ainda se encontram na fase de formação de sua personalidade.

Todas essas condições básicas tornaram insustentável a manutenção de Carlos Alberto Decotelli no Ministério da Educação. O que parecia um currículo sólido mostrou-se um engodo, desmontado em poucas horas e, entre o seu anúncio para o cargo e a confirmação de que sequer tomaria posse, passaram-se apenas cinco dias. A falta de credibilidade foi fatal. Não restou alternativa após Decotelli ser flagrado em desvios éticos que inflavam seu histórico acadêmico.

Tivesse sido honesto quanto à sua formação, sem maquiá-la para de forma indigna ganhar pontos entre seus pares, poderia ser um perfil bem-vindo para um ministério conflagrado e que tanto terreno tem a recuperar no país, ainda mais com todas as incertezas causadas pela pandemia do novo coronavírus, da realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) a uma solução para o ano letivo. Mas Decotelli foi pego no pecado da vaidade, prima-irmã do passo em falso da falta de ética, este sim um quesito que deve ser eliminatório para o preenchimento de cargos relevantes, sobretudo quando se trata de uma função pública importantíssima e que deve servir de espelho para milhões de brasileiros.

Do episódio infeliz, deve restar agora uma análise mais atenta da trajetória dos candidatos a assumir o MEC, ministério de fundamental importância para um futuro melhor para o Brasil e os brasileiros. Se foi azarado no nome, espera-se que o presidente Jair Bolsonaro insista no perfil de alguém técnico para a pasta. E que, além de conhecimentos robustos sobre o tema, tenha autoridade moral para servir de inspiração e uma índole aberta ao diálogo para pacificar relações com secretários estaduais, reitores e todos os atores vinculados à educação no Brasil.

A experiência de Abraham Weintraub foi traumática e, para o bem do país e dos milhões de estudantes, não pode se repetir. É preciso, sobretudo, evitar alguém dogmático e que tenha a guerra ideológica como principal fator de motivação. O Brasil clama por um ministro que busque a conciliação e comece a formular, coordenar e colocar em prática políticas de ensino que tragam esperança e não condenem novas gerações de brasileiros a uma formação deficiente.


02 DE JULHO DE 2020
+ ECONOMIA

Renner não vê problema em abre e fecha

Ontem, a Lojas Renner marcou seus 15 anos de atividades como corporação, ou seja, com capital pulverizado, sem controlador e com todas as ações negociado em bolsa de valores. Foi a primeira do Brasil a operar com esse modelo e até hoje é referência para empresas que estudam movimento semelhante, da Eletrobras à Braskem.

- Na época, não sei se a JC Penney avaliou corretamente o risco de criar a primeira corporação do Brasil - brinca José Galló, que comandou o processo na época e hoje preside o conselho de administração da corporation, referindo-se à empresa americana que comprou a Renner da família gaúcha, em 1998, e ficou por sete anos como controladora.

Galló e Fabio Faccio, atual CEO da rede, participaram de um evento virtual na bolsa de valores (foto). Ambos em Porto Alegre, destacaram a valorização nominal (sem contar a inflação) de 4.559% da companhia, que saiu de avaliação de mercado de R$ 935 milhões em 2005 para R$ 33 bilhões atualmente. Há 20 dias, a empresa marcou os 55 anos de existência com um evento virtual. Segundo Faccio, a pandemia é um momento desafiador, mas para a Renner apenas acelerou processos já em desenvolvimento na empresa. Relatou à coluna que a proporção de lojas abertas e fechadas muda diariamente, mas, com base nos países que passaram antes por essa fase, a companhia já previa o "abre e fecha".

- A gente já imaginava que seria assim. Infelizmente, faz parte abrir, quando for seguro, e fechar quando houver um pouco mais de risco. A empresa é flexível, não temos problemas com isso. Hoje, estamos com 68% das lojas abertas no país, mas o número varia a cada dia.

Durante a crise provocada pelo coronavírus, a Renner também foi beneficiada pelo aumento de pessoas físicas no mercado de capitais: em junho, ganhou 11 mil novos acionistas, ante média mensal de 5 mil nos períodos anteriores. Quando a companhia se tornou uma corporation, tinha um total de 861 investidores, dos quais 185 estrangeiros, que representavam cerca de 89% do capital social. Hoje, a estrutura tem 73% do capital em mãos de estrangeiros, 23% de fundos brasileiros e 4% de pessoas físicas.

Para explicar seu comentário sobre o risco que a JC Penney teria corrido, Galló lembra que a Renner foi uma das pioneiras do mercado de capitais brasileiro, com ações em bolsa desde 1967. Nos Estados Unidos, onde a rede varejista operava, havia mais de uma centena de corporations, mas nenhuma no Brasil.

O banco Credit Suisse, que era assessor financeiro da JC, sugeriu a operação, e todos aceitaram, mas não havia regras nem estatutos no Brasil para companhias desse tipo.

- Quando foi feita a operação, falou-se em IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês), mas era um follow-on. O que facilitou foi que a Renner havia mantido 2% das ações na bolsa e resultados consistentes ao longo dos anos. Mas só foi possível concretizar porque todos os agentes tiveram interesse em viabilizar essa novidade para o país - lembra Galló.

MARTA SFREDO

02 DE JULHO DE 2020
VERISSIMO

Os próximos

Você já deve ter se perguntado onde o governo Bolsonaro & Filhos vai buscar seus colaboradores e ministros. A nação geralmente só fica sabendo quem são quando já é tarde, eles ou elas já tomaram posse e já se descobriu que não servem. Às vezes não servem porque são tão melhores do que o presidente, que causam inveja e são chutados - caso do ministro da Saúde que teve a audácia de entender de Saúde e portanto não podia durar -, ou tão ruins, que eram até divertidos, como o ministro da Educação que recomendava prizão com "z" para os juízes do Çupremo.

Pode-se imaginar uma reunião de Bolsonaro & Filhos com assessores para escolher um ministro. Alguém sugere um nome.

- Quem é esse cara? - quer saber Bolsonaro & Filhos.

- Ninguém conhece. - É perfeito!

Como um serviço à nação, adianto aqui alguns nomes que cedo ou tarde chegarão a um ministério do atual governo e o que os jornais descobrirão sobre cada um, tarde demais.

Terencio Godiva de Vieira Tararé. Vulgo Terê. Ministro da Justiça. Nada que o desabone, uma vez esclarecida a questão dos terrenos na Barra e do miliciano loiro.

Dagoberto Luxemburgo Pitti. Vai para a Economia, quando o Guedes finalmente desistir. O diploma da Universidade de Chicago é falso, mas ele tem bom trânsito no Planalto.

Suertina Conceição. Senadora, nunca apareceu no Senado mas joga no seu time de vôlei. Provável ministra do Meio Ambiente, defende a privatização da Amazônia, se lhe explicarem onde fica.

Ludwqig Von Silveira. Correntes do governo não se conformaram com a queda do ministro da Cultura que se apresentou plagiando Goebbels sob um fundo musical de Wagner e querem tentar de novo, desta vez com o Silveirinha tocando Granada no acordeão.

Panzer Godinho. General, vai para o ministério que escolher e pode estacionar seu tanque onde quiser. Pelos velhos tempos.

L.F. VERISSIMO

02 DE JULHO DE 2020
INFORME ESPECIAL

Em tempo



Publiquei ontem aqui na coluna um texto explicando por que ainda é difícil acreditar na versão paz e amor de Jair Bolsonaro. Usei um argumento que gerou a compreensível reação de alguns leitores, aos quais agradeço pela disposição do diálogo.

Afirmei que a parcela de 30% da população brasileira que apoia o presidente se alimenta do antagonismo, especialmente em relação ao STF, ao Congresso e à esquerda em geral. Deixei de contemplar, no texto, o segmento que gosta do presidente por outros motivos. Foram integrantes dessa parcela que me escreveram.

Tanto não são movidos pelo ódio, que foram extremamente cordiais, embora incisivos, nas suas manifestações. "Honestidade" e "vontade de mudar o Brasil" são alguns dos atributos que identificam no presidente.

Faço esse registro com imensa alegria e com a renovada convicção de que o diálogo, também na discordância, é bem mais construtivo do que a gritaria e os dedos em riste.

Do bem

Mais de 31 mil máscaras foram doadas para 10 instituições sociais das cidades de Campo Bom e Novo Hamburgo (foto) e para a Delegacia Regional de Policia Civil do Vale do Sinos. A ação foi da Texstan, indústria de equipamentos de proteção facial. A empresa foi criada há dois meses pelo grupo Boxflex e, por causa da pandemia, foi expandida de uma para oito linhas de produção, empregando 50 pessoas na fabricação de 400 mil máscaras por dia.

Um recorde para comemorar no RS

As destinações de imposto de renda para ajudar crianças e idosos no Rio Grande do Sul bateram um recorde esse ano: projeções indicam que os fundos estaduais da criança e do idoso receberão diretamente cerca de R$ 20 milhões que, em vez de irem para Brasília, serão repassados a creches, casas de acolhimento, abrigos, lares e asilos. O sucesso se deve, entre outros fatores, à mobilização de amplos setores da sociedade. Um deles é a Assembleia Legislativa, que lançou a campanha "Valores que ficam". Mais do que o resultado, merece destaque o fato de a iniciativa ter sido lançada na gestão passada, liderada pelo deputado Luís Augusto Lara, e ter continuado na atual, do deputado Ernani Polo.

As destinações aos fundos da criança e do idoso podem ser feitas por empresas e por pessoas físicas, que entregam uma parte do imposto de renda para esse fim, seja na captação realizada pelas instituições do terceiro setor ou diretamente pelos fundos responsáveis pela projeção de R$ 20 milhões referida anteriormente. Os valores definitivos devem ser conhecidos na semana que vem.

Boa parte do terceiro setor depende dessas verbas para manter suas estruturas de atendimento que, além de cuidar das pessoas que precisam, ajudam a reduzir a pressão sobre os serviços do Estado.

Para o ano que vem, o desafio será ainda maior. Com a desaceleração da economia, os valores disponíveis para doação no imposto de renda deverão sofrer uma queda considerável. O terceiro setor precisará ainda mais da mobilização de todos nós.

TULIO MILMAN

quarta-feira, 1 de julho de 2020



Les Moulins de Mykonos_Alain Morisod & Sweet People ♥


Frank Michaël ~ ♫*Entends ma voix


Et la vie continue_Alain Morisod & Sweet People



carezze - matteo e federica - orchestra italiana bagutti



Amanti - Orchestra Italiana Bagutti



Dio dei monti - Franco Bagutti



L'universo per me - Angelica



01 DE JULHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Adivinhe o que os chineses descobriram agora

Quando a noite está fria, e chove lá fora, e troveja no céu, é bom estar deitado na cama, no escuro do quarto, debaixo dos cobertores, sentindo o torpor mole do sono que chega. Dá a sensação de que você está bem resguardado dos terríveis perigos do mundo exterior.

Algum psicanalista talvez dissesse que o aconchego do leito remete ao útero materno, lugar em que você fica quente e confortável como em nenhum outro ficará durante a vida. Mas não. Não é boa comparação - o útero materno é úmido, com toda aquela placenta, enquanto os edredons deixam-no seco e acalentado.

Então, você passa a noite enrodilhado em um sono profundo, como se fosse um gato no sofá, e, às vezes, acorda, ouve o som dos relâmpagos ao longe, e volta a dormir com um suspiro longo e um meio sorriso.

É bom. Mas, quando a manhã chega, você abre os olhos e vê que o céu está, como diriam antigos cronistas, "plúmbeo". A chuva não cessou. Ao contrário, está alagando tudo à sua volta, você teme ficar ilhado, teme que caia a energia elétrica e, o horror! o horror!, fique o dia inteiro sem internet.

Sim, você sabe que isso pode acontecer, essa ameaça se aproxima rastejante e silenciosa, como o leão se acerca da manada de gnus na savana. Você engole em seco. Você se sente um gnu. Pior: aquele gnu que se atrasa na hora de fugir do bando de leoas que atacam.

Aí, para se distrair, você faz um café e vai ver as notícias. Foi o que fiz nessa terça-feira.

E li que a nuvem de gafanhotos que está sobre a Argentina ainda ronda a fronteira gaúcha. Fiquei apreensivo.

Li sobre o Flamengo. Fiquei mais apreensivo. Porque é óbvio que o Flamengo urdiu um plano para transformar os outros clubes brasileiros em seus servos. Para isso, associou-se a Bolsonaro e está buscando aliados no Exterior. O Flamengo está se transformando na praga de gafanhotos do futebol brasileiro. Maldito Flamengo!

Li que moradores do litoral do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina filmaram e fotografaram luzes desconhecidas no céu. Fiquei muitíssimo mais apreensivo. São discos voadores, evidentemente. Eu sabia que eles viriam um dia. E não terão intenções amistosas, claro que não. Eles serão como o Flamengo - vão querer nos escravizar. Malditos ETs flamenguistas!

Já estava no fim do café e da leitura, olhando melancolicamente para o céu... bem... plúmbeo, quando esbarrei no seguinte título:

"Chineses identificam, em porcos, vírus de gripe com potencial de gerar nova pandemia".

Fui conferir aquilo. É sério: cientistas chineses anunciaram a descoberta de um subtipo de vírus influenza em fazendas que criam suínos em 10 regiões do país. O vírus já infectou humanos, e eles temem que se alastre pelo planeta, se não for contido rapidamente.

Terminei a leitura. Terminei o café. Um gnu. Eu era, definitivamente, um gnu.

Voltei para a cama. Para baixo dos cobertores. Lá fora estava frio, chovia, trovejava no céu.

DAVID COIMBRA

01 DE JULHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

A esperança da vacina

Em meio à profusão de más notícias relacionadas à covid-19 no país, a informação de que o Brasil está em um pequeno grupo de nações que vão testar e, se tudo der certo, produzir a possível vacina contra o coronavírus que é considerada até agora a mais promissora traz esperanças de que finalmente a pandemia possa ser freada. Esta é, possivelmente, também a melhor novidade sobre o tema vinda do governo federal ao longo dos últimos meses, uma vez que a parceria com a Universidade de Oxford, da Inglaterra, e com a gigante farmacêutica AstraZeneca foi anunciada pelo Ministério da Saúde, por meio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

É prudente ressaltar que não há garantia de sucesso no desenvolvimento do imunizante, mas o fato de ser apontada como a mais próxima de ter a sua efetividade comprovada é algo especialmente alvissareiro para o Brasil, o segundo país com o maior número de infectados e mortes no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Com a promessa de transferência de tecnologia e produção local, os brasileiros também não correm o risco de ficar no fim da fila para receber e aplicar a vacina na população, especialmente nos grupos considerados de risco.

Desde que a covid-19 se alastrou, a partir da China, o mundo vive uma corrida pelo desenvolvimento de uma substância que seja capaz de evitar a infecção, enquanto pesquisadores e médicos também se esforçam para identificar quais medicamentos seriam mais eficientes para o tratamento de doentes, uma empreitada até aqui com poucos resultados sólidos. A expectativa por uma conclusão relativamente rápida para os estudos de que o Brasil agora participa existe por estar na chamada fase 3, de testes em humanos, com possibilidade até de um possível início de utilização entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021. Inglaterra, Estados Unidos, Quênia e África do Sul são os outros locais onde a vacina já vem sendo aplicada em testes.

Ainda fora de controle em grande parte dos países, o novo coronavírus já atingiu a impressionante marca de mais de 500 mil vítimas fatais em todo o mundo e infectou mais de 10 milhões de pes- soas. Para conter a pandemia e salvar vidas, é preciso apostar em diagnósticos e terapias eficazes. Mas, em primeiro lugar, encontrar uma vacina efetiva que diminua o número de casos e alivie a pressão nos sistemas de saúde. 

Esta será uma condição que permitirá que o mundo e o Brasil caminhem de forma segura para uma normalização das atividades, dando início à jornada que promete ser penosa de recuperação de uma crise econômica poucas vezes vista e com um impacto particularmente devastador no Brasil, onde o negacionismo do governo federal, personalizado pela postura do presidente Jair Bolsonaro, teve uma colaboração decisiva para aumentar a disseminação do vírus.

OPINIÃO DA RBS

01 DE JULHO DE 2020
RBS BRASÍLIA

O ministro que derreteu

O ministério mais importante da Esplanada está novamente sem comando porque o currículo de Carlos Alberto Decotelli derreteu em cinco dias. Festejado por ex-alunos e até ex-ministros da Educação, o professor sustentou que tinha títulos de doutorado e pós-doutorado que jamais conquistou.

Além da suspeita de plágio no mestrado, a Fundação Getulio Vargas afirmou que ele jamais foi professor do quadro, mas chegou a ser contratado para cursos a executivos. Mas esse desmentido foi a gota d´água para a única saída possível, que foi o pedido de demissão. À repórter Silvana Pires, Decotelli afirmou que a FGV acabou com a reputação dele. Não é bem assim.

O desgaste relâmpago ocorreu pelas inconsistências em série. E lá se vai mais um ministro, enquanto o MEC permanece em constrangedora paralisia. Em um ano e meio de governo, o presidente Jair Bolsonaro terá que escolher o quarto titular para a pasta. As alas ideológica e militar fracassaram nas indicações. E isso não ocorreu à toa.

A educação está abandonada desde os primeiros dias da administração. Jamais houve um plano para a área, levando-se em consideração as mudanças no Ensino Médio, necessidades de investimento, financiamento da educação básica, papel das universidades federais e assim por diante. Distraído com as questões de costumes, o presidente jamais se debruçou sobre o que realmente interessa.

Questionado pela coluna, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, deu a dica: o próximo ministro tem de conhecer o sistema educacional e ser um bom gestor. O general só se esqueceu de citar que aquela clássica revisada no currículo nunca é demais.

Superstição

Políticos experientes jamais sentam na cadeira de titular antes da cerimônia de posse. No governo Bolsonaro, o delegado Alexandre Ramagem fez reunião e ocupou o gabinete na sede da Polícia Federal antes do tempo. Decotelli também se adiantou e já organizava até reunião de transição. Nenhum dos dois, escolhidos pelo presidente Jair Bolsonaro, esquentou a cadeira.

Seguindo o roteiro

Em clima de brincadeira com os presidentes da Câmara e do Senado, o presidente Bolsonaro fez um discurso equilibrado e sem ataques ao anunciar a prorrogação do auxílio emergencial. A equação foi política: antes que o Congresso anabolizasse parcelas menores, o governo mesmo manteve mais dois meses de R$ 600. O próximo passo é ampliar a agenda de inaugurações para as viagens presidenciais.

CAROLINA BAHIA

01 DE JULHO DE 2020
MÁRIO CORSO

A máscara que revela


Sábado, dia 20 de junho, foi um anoitecer quente para esta época do ano em Vacaria. Um cliente entra em um supermercado para compras. Como estava sem máscara, o gerente pede que ele a coloque, ou então que se retire. O cliente rejeita ambas as sugestões. A discussão segue e o cliente puxa uma faca e desfere dois golpes no abdômen do gerente. Este reage com dois tiros no agressor.

O drama estilo Velho Oeste terminou no hospital. O cliente morreu e o gerente, felizmente, passa bem. Mas a questão é: o que leva alguém a um ato extremo para evitar uma máscara?

As evidências de que a máscara previne a dispersão do vírus são claras. Porém, muitas pessoas, como nosso infeliz cidadão vacariense, teimam em não usar. O que essa atitude diz delas?

Quem também se fez essa pergunta foi o psicólogo Pavel S. Blagov. Ele recrutou 502 americanos adultos e aplicou uma bateria de perguntas. Mesclava questões sobre medidas básicas de proteção, incluindo o uso da máscara, com outras que indicavam traços de personalidade.

Cruzando os dados, obteve que as pessoas com altos traços de narcisismo, psicopatia e maquiavelismo são as que menos aderem às recomendações sanitárias. O leitor perguntará: então, quem não usa máscara é psicopata?

Calma, são indicativos de traços de personalidade. Isso pode resultar em um leque de possibilidades, que vai de uma misantropia leve, um mero ermitão, até uma verdadeira personalidade antissocial e criminosa.

Acho precipitadas as conclusões com amostragem baixa, mas a pesquisa deixa-nos pensando. O falecido de Vacaria tinha antecedentes por ameaça e crime de trânsito. Ou seja, um comportamento no espectro da tendência antissocial. Essas pessoas que só pensam em si, não fazem nada para a coletividade, tampouco sentem empatia com o sofrimento alheio.

Ainda faltam ingredientes nesse caldo. Pouca escolaridade pesa muito, e o oposicionismo à ciência, que é uma escolaridade ao avesso, conta ainda mais. No caso dos homens, a masculinidade frágil é decisiva. Acreditam que para parecer bem homem - note que a dúvida é do próprio sujeito - tem que se evitar a máscara. Não querem passar por medrosos. O uso revelaria fraqueza, considerada algo feminino, na cabeça dessas mentes confusas quanto a sua identidade viril.

Pensem a respeito. É uma oportunidade de conhecer a índole e civilidade dos vizinhos e conhecidos. Está na cara.

MÁRIO CORSO

terça-feira, 30 de junho de 2020



30 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Quanto custa uma consciência

Um dos tesouros da história do Brasil é a gravação da reunião em que foi decidida a instauração do AI-5, em dezembro de 1968, no Palácio das Laranjeiras, sede do governo do Rio.

É uma preciosidade. Pode-se ouvir com clareza a manifestação de cada um dos ministros presentes. Como se sabe, o único que se opôs ao ato foi o vice-presidente Pedro Aleixo. Alguém perguntou se ele não concordava com o AI-5 por não confiar "nas mãos honradas do presidente Costa e Silva". Aleixo respondeu:

"No presidente eu confio, eu não confio é no guarda da esquina".

Um visionário.

Os outros presentes, todos, chamaram o ato pelo que era: a instituição da ditadura. Mas não a lamentaram. Ao contrário, aplaudiram-na. Delfim Netto, da Fazenda, chegou a dizer que as medidas não eram suficientemente duras. E o ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, pronunciou a grande frase do encontro, uma espécie de resumo do Brasil. Ele disse:

"Às favas, neste momento, todos os escrúpulos de consciência!".

Se a reunião ministerial fosse do atual governo, os escrúpulos não seriam mandados "às favas"; seriam mandados para um lugar mais sujo. Aliás, eis algo interessante a fazer: uma comparação formal entre duas reuniões ministeriais gravadas, a de 13 de dezembro de 1968 e a de 22 de abril de 2020. Em ambas, os presidentes são militares, em ambas os temas debatidos são antidemocráticos, mas o nível da de 1968 é de general, e o da de 2020 é de capitão reformado.

"Às favas todos os escrúpulos de consciência!", gorjeou o Passarinho. Uma sentença perfeita não só para o momento como para o lugar. Essa máxima poderia ser a divisa da bandeira brasileira, em vez daquele tão pouco praticado lema positivista, "ordem e progresso".

Porque é isso que nós fazemos a todo instante, nós brasileiros: nós estamos sempre mandando os escrúpulos de consciência às favas. Muitos criticam Bolsonaro por incentivar aglomerações durante a pandemia, outros já criticaram Lula por aliar-se afetuosamente a Maluf, deputados são criticados por trocar votos por cargos, prefeitos, governadores, juízes, todas as autoridades são criticadas a todo momento, e quase sempre com razão, porque, volta e meia, elas estão mandando os escrúpulos às favas.

Mas a população brasileira, o povo trabalhador, o pagador de impostos, esse que protesta contra a corrupção e que pragueja contra as elites, o que ele faz, em meio à crise produzida pela peste? Ele não precisa, mas ele toma o auxílio emergencial que o Estado oferece para os necessitados. Não foram centenas de brasileiros que fizeram isso, não foram milhares; foram centenas de milhares. Pessoas perdendo empregos, empresas fechando, o país passando por dificuldades, e o que eles dizem?

"Às favas todos os escrúpulos de consciência!".

Veja como os preços caem a cada ano no Brasil: hoje, você compra uma consciência com R$ 600.

DAVID COIMBRA


30 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

AUXÍLIO PARA QUEM PRECISA

São assustadoras as conclusões do relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) que apontam um enorme número de pessoas no Brasil que não teriam direito ao auxílio emergencial mas mesmo assim conseguiram o benefício de forma indevida. O recurso de R$ 600, que deveria ser uma ajuda destinada apenas aos mais necessitados, que perderam grande parte de sua pequena renda devido à pandemia, acabou no bolso de cidadãos que estão longe de passar qualquer dificuldade e, pelo contrário, em alguns casos até ostentam certos luxos inalcançáveis para a esmagadora maioria da população. Pelo levantamento do TCU, cerca de 620 mil benefícios foram concedidos de maneira irregular para empresários, familiares de políticos e até mortos, um desvio que, se não for interrompido, pode gerar prejuízo de R$ 1 bilhão aos cofres públicos.

O relatório que embasou a reportagem que foi ao ar no domingo à noite no programa Fantástico e publicada em GaúchaZH revela o descontrole na concessão do benefício. Uma lástima para uma iniciativa que, em si, é altamente meritória. As fraudes explicitam uma falta de controle gritante e liberalidade demasiada dos filtros que deveriam fazer a seleção de quem tem direito à verba e quem não tem. Compreende-se o desafio que foi colocar rapidamente para funcionar um programa que vem garantindo um amparo essencial a cerca de 50 milhões de brasileiros. Mas isso não significa que não seja necessário acelerar o aperfeiçoamento dos mecanismos de inspeção, uma vez que, infelizmente, ficou provado ser ingenuidade esperar que somente a consciência individual assegure que parte dos recursos deixe de ser canalizada para brasileiros que não necessitam do dinheiro, enquanto outros que estariam enquadrados como possíveis beneficiários relatam grande dificuldade para conseguir o auxílio emergencial.

A reportagem, apesar do comprovado interesse público, ainda foi alvo de censura prévia que postergou sua divulgação, mas que acabou revertida. Cabe agora às autoridades responsáveis pelo programa encontrar meios para que todos os recursos pagos indevidamente sejam devolvidos, enquanto também é imperioso trabalhar para aprimorar os crivos de definição dos benefi- ciários, uma forma de evitar um desperdício ainda maior de dinheiro do contribuinte que, por exemplo, chegou às mãos de mais de 230 mil empresários que não se encaixam nos critérios definidos e outras 15,8 mil pessoas com renda acima da mínima estabelecida para terem acesso à ajuda. Afinal, o auxílio será prorrogado, conforme anunciou o governo federal, o que impõe ter um controle mais rígido para evitar novas fraudes.

Apesar do grande avanço em algumas frentes ligadas à tecnologia, como a urna eletrônica, em que o país é vanguarda mundial, o Brasil ainda deixa a desejar em sistemas de identificação e cadastro da população. Enquanto na Índia, com 1,3 bilhão de residentes, quase todos os habitantes foram recadastrados de forma biométrica pela íris e pela face, criando uma espécie de carteira de identidade digital, o Brasil descobriu em 2020, com a chegada da crise sanitária, a existência de mais de 40 milhões de desvalidos invisíveis aos olhos do Estado por não terem CPF regular, conta em banco ou acesso à internet. É uma situação que escancara o quanto o país precisa conhecer melhor seus cidadãos.



30 DE JUNHO DE 2020
INCONSISTÊNCIAS NOS TÍTULOS

Currículo desgasta ministro da Educação

As revelações de que o novo ministro da Educação, Carlos Decotelli, incluiu informações equivocadas em seu currículo geraram incertezas sobre a permanência dele no Ministério da Educação (MEC).

A nomeação foi publicada em edição extra do Diário Oficial na quinta-feira, após anúncio feito pelo presidente Jair Bolsonaro. O governo planejava solenidade de posse para hoje, mas a realização do evento não estava confirmada até o fechamento desta edição.

"Em nenhum momento a Secom (Secretaria de Comunicação) confirmou o evento à imprensa e, até agora, não há previsão para essa cerimônia", informou ontem o Planalto sobre a posse.

Aliados de Bolsonaro relataram que o mais provável é que a cerimônia ocorra só na semana que vem, após pente-fino no currículo do novo ministro. Segundo relatos à agência de notícias Folhapress, Bolsonaro ficou incomodado com a repercussão negativa de erros no currículo de Decotelli e de acusações de plágio. A nova análise no histórico do ministro, ordenada pelo presidente, serve para apurar se há mais inconsistências. A ala militar também criticou os erros, uma vez que foi fiadora de sua indicação. O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) entrou com representação pedindo apuração do órgão de possíveis prejuízos ao erário da nomeação do novo ministro.

Declaração

Constava no currículo de Decotelli um doutorado pela Universidade Nacional de Rosario, da Argentina, mas o próprio reitor da instituição, Franco Bartolacci, negou que ele tenha obtido o título. Há ainda sinais de plágio na sua dissertação de mestrado, e a Universidade de Wuppertal, na Alemanha, informou que o novo ministro não possui título da instituição, ao contrário do que constava em seu currículo.

À noite, Decotteli falou com a imprensa na porta do ministério e afirmou que se reuniu com Bolsonaro, ontem, e que, no encontro, foi questionado sobre o currículo. Perguntado se seguirá no cargo, respondeu que sim.

- Ele queria saber detalhes sobre a minha vida de 50 anos como professor em todas as entidades do Brasil - disse Decotelli à Globonews.

Segundo o ministro, o presidente quis saber o "lastro de vida" dele.

- Ele perguntou: Como é essa questão de detalhe acadêmico e doutorado, pós-doutorado, pesquisa de mestrado? Como é essa estrutura de inconsistência? Então, expliquei - acrescentou o ministro.

Segundo Decotelli, o assunto do doutorado está "resolvido". A respeito da denúncia de plágio no mestrado, o titular foi questionado:

- Não houve plágio, então, ministro?

E respondeu: - Não. O plágio é considerado quando o senhor faz control C, control V. E não foi isso.

Após a entrevista, Bolsonaro se manifestou em rede social: "Desde quando anunciei o nome do Professor Decotelli para o Ministério da Educação só recebi mensagens de trabalho e honradez. Por inadequações curriculares o professor vem enfrentando todas as formas de deslegitimação para o Ministério. O senhor Decotelli não pretende ser problema para a sua pasta (Governo), bem como está ciente de seu equívoco. Todos aqueles que conviveram com ele comprovam sua capacidade para construir Educação inclusiva e de oportunidades para todos", escreveu o presidente.

30 DE JUNHO DE 2020
NÍLSON SOUZA

Renascimento pós-pandemia


Sei que meu otimismo beira a ingenuidade, mas estou a cada dia mais convencido de que a pandemia, em paralelo ao sofrimento que causa, também está fazendo a Terra ficar redonda novamente e colocando o obscurantismo no seu devido lugar. Acuada pelo inimigo comum, parcela expressiva da humanidade volta-se para a ciência, para a colaboração e para a valorização da democracia - ainda que persistam no mundo preocupantes focos de negacionismo, autoritarismo e falta de compaixão.

É inquestionável que sairemos quebrados desta crise, pois a paralisação das atividades econômicas e o desemprego certamente condenarão milhões de indivíduos a um período prolongado de privações. Já há, porém, sinais visíveis de adaptação aos novos e desafiadores tempos que virão. Isoladas pelo medo do contágio, as pessoas estão se descobrindo menos egoístas e consumistas, e ao mesmo tempo mais cooperativas, criativas e fraternas.

Não me arrisco a dizer que sairemos dessa encrenca muito melhores como seres humanos, pois a história da nossa espécie mostra o quanto somos suscetíveis a recaídas. Mas creio firmemente que, depois da catástrofe, ingressaremos num período de renascimento moral e cultural, caracterizado pelo amor à vida e à natureza, pela busca do conhecimento e pelo respeito ao outro.

Como o vírus não faz distinção entre povos ricos e pobres, nem entre nacionalidades, raças e religiões, fica escancarado que somos todos parentes e que estamos no mesmo barco. Só nos resta, portanto, remar juntos (por enquanto, com o devido distanciamento social) para sairmos da tormenta e voltarmos a águas tranquilas.

Está bem, barco talvez seja uma imagem demasiado reducionista. Segundo o Woldometers, um site perturbador que atualiza dados mundiais em tempo real, éramos 7.794.469.895 humanos no exato momento em que digitei esta linha. Mesmo com a pandemia, os algoritmos mostravam mais do que o dobro de nascimentos por segundo em relação às mortes. Em breve seremos 8 bilhões de sobreviventes - a maioria conscientes de que a saúde é a nossa maior fortuna.

NÍLSON SOUZA