sábado, 5 de março de 2022


05 DE MARÇO DE 2022
MARCELO RECH

É o câmbio, camaradas!

Na primeira vez que desembarquei em Moscou, em novembro de 1991, para radiografar, como repórter de ZH, o impacto do ocaso da URSS na vida dos soviéticos, abdiquei da bolha de um hotel luxuoso e aluguei um apartamento próximo ao centro. A família, um casal de professores de economia na Universidade de Moscou e dois filhos, se mudou para o apartamento da mãe dela. Três semanas depois, entreguei à professora US$ 120, o valor combinado para o aluguel. A economista segurou as notas na mão e desatou a chorar. Devo estar sendo um maldito capitalista explorador, imaginei. Diante do meu semblante desconcertado, ela redarguiu, emocionada.

- Esse é meu primeiro negócio privado.

Dois anos mais tarde, para uma reportagem sobre o primeiro inverno no caos econômico da nova Rússia, voltei ao apartamento na companhia do fotógrafo Ricardo Chaves, e o aprendizado capitalista tinha avançado rápido: as três semanas já custavam US$ 500 - no mercado paralelo, o suficiente para alentadas provisões de importados em supermercados para estrangeiros. A nota de US$ 100 do aluguel de dois anos antes havia sido xerocada e pendurada como quadro na cozinha.

Em 30 anos, o câmbio passou de uma ficção soviética - no mercado oficial, a paridade era 1 rublo igual a 1 dólar - para flutuar livremente, medir a prosperidade de cada cidadão russo e permitir que ele sonhasse com Paris e Roma. Na primeira semana de guerra, porém, a cotação saiu de 70 para 110 rublos por dólar. As sanções que visam a implodir o rublo têm como alvo um símbolo da estabilidade. Abatê-lo derrete a moral da população e tem o poder de devolver a Rússia ao desarranjo de três décadas atrás, arrastando a imagem de Putin como salvador da pátria.

Com a moeda desmoralizada, poucas nações se aguentam de pé, como testemunhei em 1993 na antiga Iugoslávia sob sanções, quando a inflação atingiu nos primeiros 10 meses inacreditáveis 44 milhões por cento. Em um restaurante em Belgrado, o dono teve a gentileza de não reajustar o preço do jantar enquanto eu fazia a refeição. A Sérvia entrou em depressão e todo dia a embaixada do Brasil, onde a inflação chegava a já absurdos 2.500% ao ano, recebia levas de pedidos de migração.

Para conter a queda do rublo, o Banco Central russo elevou a taxa de juros para 20%, um susto para os padrões locais, e estabeleceu uma série de restrições para saída de moeda estrangeira. As próximas semanas serão definidoras. O rublo perdeu mais de um terço de seu valor desde a invasão da Ucrânia. Se não houver reversão, um quadro de inflação combinada com depressão será inevitável e, com ele, o descontentamento em relação ao governo. Sem disparar um tiro, EUA e Europa podem ter lançado uma bomba de nêutrons na economia russa.

MARCELO RECH

05 DE MARÇO DE 2022
J.R. GUZZO

Os limites das "superpotências"

Para um país do tamanho da Rússia, e para um país do tamanho da Ucrânia, a guerra que explodiu deveria ter começado e acabado no mesmo dia. Não acabou - e o resultado é que a cada dia mais de demora, o país mais fraco ganha força política e o mais forte perde gás. O resultado é que vai se tornando indispensável, cada vez mais, trocar a vitória inicialmente pretendida por outra coisa - algum arranjo que permita aos russos dizer que a operação deu certo e, portanto, já pode ser encerrada.

O objetivo estratégico inicial, basicamente, era liquidar a Ucrânia como um Estado realmente independente e colocar em seu lugar uma prefeitura administrada por Moscou e disfarçada de república. Isso não foi possível. Será preciso encontrar uma outra "narrativa", como se diz hoje.

A invasão da Ucrânia mostrou, como talvez nenhum conflito armado tinha mostrado até hoje, os limites daquilo que se chama de "superpotência". Nos inventários oficiais, consta arsenal nuclear completo, capaz de destruir o mundo inteiro sete vezes em seguida. Há jatos de combate de última geração, que países subdesenvolvidos vivem querendo comprar. Há última palavra em tecnologia de combate, mísseis inteligentes, tanques com controle remoto, guerra a distância, guerra eletrônica, o diabo. Mas na hora de colocar tudo isso em ação, o que se tem na prática são vários dias seguidos de operações militares confusas, lentas e indecisas. Já deveria ter acabado. Se não acabou é porque a superpotência não funcionou.

Não há nada de animador no que a Rússia tem diante de si nos dias que vêm aí pela frente. A opção adotada pelo comando russo no momento é uma escalada cada vez mais violenta contra a população civil, na esperança de obter uma rendição mais rápida. O problema, como sempre acontece com as escaladas, é que elas não podem durar pelo resto da vida - uma hora vão ter de parar, e se o inimigo não estiver morto até lá, o esforço terá sido inútil.

O passar do tempo agrava as dores do pacote gigante de represálias econômicas e de outras naturezas que foi jogado em cima da Rússia pela Europa e pelos Estados Unidos. Os desastres provocados pelo boicote podem até não criar problemas insolúveis para os russos - mas, obviamente, não é assim que eles pretendem viver para sempre, e cada dia a mais de guerra é um dia a menos para a reconstrução da Rússia.

O presidente Vladimir Putin parece não reagir de maneira coerente à lógica dos fatos. O mundo deixou claro, também, que a Rússia está sozinha; tem a seu lado apenas figuras como Nicolás Maduro e outras pequenas calamidades da cena internacional. Os prejuízos fora do campo de batalha, com a crescente e inédita desconexão da Rússia do sistema econômico mundial, machucam cada vez mais.

Está na hora, realmente, de o presidente Putin e sua base de apoio pensarem a sério em dizer "missão cumprida" e tentar construir de novo a casa que caiu.

J.R. GUZZO

sexta-feira, 4 de março de 2022


04 DE MARÇO DE 2022
DAVID COIMBRA

O hotel de Erechim

Contei, outro dia, no Timeline da Gaúcha, de um café da manhã que tomei em Erechim. Eu estava lá para escrever meu primeiro livro, sobre o "Caso Daudt". Estava sem muito dinheiro, por isso escolhi um hotel simples. Eu havia pedido demissão do jornal em que trabalhava para escrever aquele livro, num típico caso de fé no pressentimento, algo que vive me acontecendo.

Então, lá estava eu num hotelzinho de viajantes, pronto para tomar o meu primeiro café da manhã da estadia. Cheguei à sala do café, sentei-me e senti o odor que dominava o ambiente. Era cheiro de pão quente, feito na hora. Aquilo me entorpeceu. Em seguida, veio a mulher, a garçonete, e colocou na minha frente queijos, salames, manteigas e schimiers.

-Como o pão, é tudo feito aqui - informou.

Por fim, ergui-me para me servir de um café preto, porém sincero e, ao aterrissar na minha mesa outra vez, já estava diante de mim a olorosa cesta de pães. Eram seis da manhã, eu estava numa cidade distante, num pequeno hotel de viajantes, sem saber se atingiria meu objetivo, com pouco dinheiro no bolso e sem emprego, mas, ah, como me senti feliz.

Eu cortava fatias da espessura de um dedo do Mike Tyson naquele pão e espalhava a manteiga com uma faca. O pão estava tão quentinho que a manteiga se derretia e penetrava nele. Dava-me vontade de espalhar mais manteiga, muito mais, mais e mais, mas não, eu era cirúrgico naquele instante: deitava nele uma fina fatia de queijo, duas rodelas de salame, talvez três, e dava uma mordida feliz, temperada com um gole do café forte, porém sincero.

Na segunda fatia, não repetia o mesmo procedimento. Não. Espargia a manteiga, sim, é claro que sim, seria louco se não o fizesse. No entanto, antes do queijo e do salame, eu untava a fatia com uma parede generosa de schmier de uva, ou de amoras ou de morangos. Só então acrescentava queijo e salame e comia.

Oh, eram alegremente calóricos meus começos de manhã em Erechim, e eu agradecia a Deus por isso. Saía do hotelzinho com muito mais confiança. Acho que foi essa confiança que me ajudou a convencer o então prefeito da cidade, Antônio Dexheimer, a me conceder a entrevista que seria o cerne do livro. Um homem deve estar bem alimentado quando vai fazer algo importante na vida. Meus últimos dissabores de saúde, tenho certeza, são frutos do uso exagerado do micro-ondas e da telentrega.

DAVID COIMBRA

04 DE MARÇO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

PANDEMIA, DOR E ESPERANÇA

O Brasil chegou, quarta-feira, a 650 mil mortes por covid-19, consolidando-se na indesejável segunda posição em números absolutos de vítimas fatais, atrás apenas dos Estados Unidos. Atingir a marca funesta serve para lembrar que, enquanto todas as atenções se voltam para a guerra na Ucrânia, ainda é preciso manter as defesas em alerta para combater o vírus responsável por ceifar quase 6 milhões de vidas em todo o planeta.

O novo coronavírus segue circulando e causando uma quantidade elevada de casos devido à alta capacidade de contágio da variante Ômicron, mas felizmente, graças especialmente às vacinas, o número diário de mortes não acompanhou o mesmo ritmo da escalada das infecções, poupando dor para milhares de famílias brasileiras. Nos últimos dias, observa-se um nítido arrefecimento da doença, indicando que o pior momento, ao menos relacionado à cepa identificada pela primeira vez na África do Sul, ficou para trás.

Especialista respeitado, o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, projeta que o país não terá uma nova enxurrada de casos pós-Carnaval pelo menor número de pessoas suscetíveis e por uma mobilidade não tão superior à que vinha sendo registrada. Mas isso, ressalta ele, vale para o contexto atual de dominância da Ômicron e para um período de aproximadamente quatro semanas.

Segue essencial, portanto, o incentivo para que se amplie a cobertura vacinal, além da manutenção dos cuidados pessoais, como o uso da máscara. O país está com 72% da população imunizada com duas doses ou com a aplicação única, no caso do produto da Janssen. No Rio Grande do Sul, a taxa é um pouco maior, da ordem de 75%. No caso da dose de reforço, os percentuais são de 30% e 33%, respectivamente. É uma abrangência que precisa subir significativamente para aumentar as esperanças de debelar a pandemia e proteger mais pessoas do risco de casos graves e que levem à morte. As estatísticas, lembram especialistas e autoridades de saúde, mostram que as complicações e óbitos estão ocorrendo basicamente entre não vacinados e pessoas sem o esquema completo.

É compreensível que, nos últimos dias, o conflito no Leste Europeu tenha monopolizado as atenções. A covid-19, no entanto, segue matando no Rio Grande do Sul e no Brasil, o que requer a manutenção dos esforços para ampliar a vacinação. Inclusive entre as crianças. Até agora, 45% deste público, entre cinco e 11 anos, recebeu a primeira dose no Estado. Deve-se reconhecer o avanço recente, mas é necessário elevar a taxa, ainda mais devido à volta às aulas.

A controvérsia mais recente no Rio Grande do Sul é sobre a decisão do Piratini de desobrigar o uso de máscaras por crianças com menos de 12 anos. A utilização passou a ser uma recomendação. É de se esperar, portanto, que prevaleça o bom senso, em nome da proteção individual e do respeito aos demais que compartilham o mesmo ambiente.


04 DE MARÇO DE 2022
DAVID COIMBRA

O hotel de Erechim

Contei, outro dia, no Timeline da Gaúcha, de um café da manhã que tomei em Erechim. Eu estava lá para escrever meu primeiro livro, sobre o "Caso Daudt". Estava sem muito dinheiro, por isso escolhi um hotel simples. Eu havia pedido demissão do jornal em que trabalhava para escrever aquele livro, num típico caso de fé no pressentimento, algo que vive me acontecendo.

Então, lá estava eu num hotelzinho de viajantes, pronto para tomar o meu primeiro café da manhã da estadia. Cheguei à sala do café, sentei-me e senti o odor que dominava o ambiente. Era cheiro de pão quente, feito na hora. Aquilo me entorpeceu. Em seguida, veio a mulher, a garçonete, e colocou na minha frente queijos, salames, manteigas e schimiers.

-Como o pão, é tudo feito aqui - informou.

Por fim, ergui-me para me servir de um café preto, porém sincero e, ao aterrissar na minha mesa outra vez, já estava diante de mim a olorosa cesta de pães. Eram seis da manhã, eu estava numa cidade distante, num pequeno hotel de viajantes, sem saber se atingiria meu objetivo, com pouco dinheiro no bolso e sem emprego, mas, ah, como me senti feliz.

Eu cortava fatias da espessura de um dedo do Mike Tyson naquele pão e espalhava a manteiga com uma faca. O pão estava tão quentinho que a manteiga se derretia e penetrava nele. Dava-me vontade de espalhar mais manteiga, muito mais, mais e mais, mas não, eu era cirúrgico naquele instante: deitava nele uma fina fatia de queijo, duas rodelas de salame, talvez três, e dava uma mordida feliz, temperada com um gole do café forte, porém sincero.

Na segunda fatia, não repetia o mesmo procedimento. Não. Espargia a manteiga, sim, é claro que sim, seria louco se não o fizesse. No entanto, antes do queijo e do salame, eu untava a fatia com uma parede generosa de schmier de uva, ou de amoras ou de morangos. Só então acrescentava queijo e salame e comia.

Oh, eram alegremente calóricos meus começos de manhã em Erechim, e eu agradecia a Deus por isso. Saía do hotelzinho com muito mais confiança. Acho que foi essa confiança que me ajudou a convencer o então prefeito da cidade, Antônio Dexheimer, a me conceder a entrevista que seria o cerne do livro. Um homem deve estar bem alimentado quando vai fazer algo importante na vida. Meus últimos dissabores de saúde, tenho certeza, são frutos do uso exagerado do micro-ondas e da telentrega.

DAVID COIMBRA

quinta-feira, 3 de março de 2022


03 DE MARÇO DE 2022
DAVID COIMBRA

O defeito da juventude

Os sumérios e os egípcios foram os primeiros a abrir escolas públicas no Ocidente. Naturalmente - eles eram povos comerciantes e precisavam registrar suas compras e vendas. Então, os garotos sumérios estudavam a escrita cuneiforme e os egípcios se dedicavam aos hieróglifos, nenhuma disciplina "boinha", como se dizia no IAPI. Eu preferiria trigonometria à escrita cuneiforme.

Há um relato delicioso sobre um menino egípcio que tentou subornar o professor com um jantar na casa dele - parece que passou de ano... Em todo caso, a figura do professor, do mentor, do mestre sempre foi fundamental. O mestre de Alexandre Magno foi Aristóteles, imagine. Não é por acaso que ele fez tudo o que fez aos 32 anos de idade.

E o que é o mestre? Ele é um controlador dos arroubos da juventude. É quem diz: "Calma!" É ele quem adverte: "Não vá".

Porque a juventude é bela, é fresca e está repleta de energia, mas seu problema é que não sabe esperar. É algo curioso: um jovem sabe que tem um mundo inteiro diante dele, mas isso não lhe dá paciência. O velho, não. O velho sabe que seus dias são poucos, mas pode passá-los, imóvel, sem fazer nada, até que aconteça o que ele queria que tivesse acontecido.

Digamos que você seja, por exemplo, o já claudicante Biden, presidente dos Estados Unidos. Você tem de enviar alguém para discutir com Putin a guerra da Ucrânia. Dessa discussão pode derivar a paz. A sua vontade é de enviar um rapaz que vem se destacando muito em Harvard, mas ele tem apenas 19 anos. Putin vai estraçalhá-lo. Então, você opta por alguém não tão brilhante, mas com mais tempo de vida e mais resiliência.

É assim. Certas funções são de confiança. Não adianta só ser bom, é preciso ter história. Caso da posição de goleiro do Grêmio. Ali, onde já pegaram Lara, Germinaro, Alberto, Arlindo, Leão, Mazzaropi, Manga, Danrlei e Grohe, ali não pode estar um novato, mesmo que seja dos que prometem ser grandes.

Hoje, o Grêmio não precisa só de um goleiro. Precisa de um mestre, que ajude os jovens a crescer. A juventude é sempre a idade mais doce da vida, é sempre uma época inesquecível. Mas, se você não dispuser de mecanismos para conter o arrebatamento de seus próprios hormônios em flor, talvez cometa erros que a tornem inesquecível, sim, mas não pelo lado bom da vida.

DAVID COIMBRA

03 DE MARÇO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

O GARGALO DOS FERTILIZANTES

A crise no Leste Europeu fez reaparecer com força a discussão sobre a necessidade de o Brasil, uma das maiores potências agrícolas mundiais, diminuir a dependência de fertilizantes importados. Em média, o país tem buscado no Exterior 80% dos adubos que utiliza em suas lavouras. Entre os principais fornecedores estão Rússia e Belarus, que passaram a sofrer com sanções e dificuldades logísticas que barram embarques. Mas mesmo antes da invasão da Ucrânia, Moscou já tinha comunicado a decisão de suspender temporariamente as vendas de nitrato de amônio, um dos principais itens da sua pauta de fertilizantes. Belarus, por sua vez, também foi atingida por medidas restritivas de nações do Ocidente por ser aliada da Rússia no conflito.

É esperado para os próximos dias que o governo federal apresente o chamado Plano Nacional de Fertilizantes. Era para ser conhecido no final do ano passado, mas a divulgação foi adiada. É um tema de grande interesse do Rio Grande do Sul, um dos principais consumidores de adubos do Brasil por ser o terceiro maior produtor de grãos do país. E ganha importância não apenas pela escassez causada pela guerra, mas pela disparada dos preços nos últimos meses, pressionando as margens no campo.

São aguardados, portanto, os detalhes da proposta. Mas sabe-se que só será possível ter resultados no médio e longo prazos devido à complexidade que envolve todo o processo, desde a identificação de jazidas, passando pelos licenciamentos, até a construção efetiva dos projetos. Um dos objetivos conhecidos, por exemplo, é diminuir a dependência da importação para 60% em um intervalo de 30 anos. Mesmo parecendo uma meta modesta, pode ser a factível. Planejar e executar o programado não é exatamente o ponto forte do Brasil. 

Entre 2008 e 2009, o mundo viveu uma crise no fornecimento, com escalada das cotações, e o país esboçou a intenção de ampliar a oferta interna para mitigar futuros choques globais, mas os planos pouco andaram. Os principais produtos empregados na agricultura são à base de nitrogênio, fósforo e potássio. No curto prazo, não há saída para o gargalo a não ser procurar novos países para assegurar o suprimento para a agricultura brasileira.

Pelo que se conhece do planejamento a ser detalhado nos próximos dias, as iniciativas incluem incentivos tributários, desburocratização, estímulo a novas tecnologias para substituir os compostos tradicionais e uma campanha de orientação para otimização do uso e redução de desperdícios. Pesquisas conduzidas pela Embrapa indicam potencial significativo da utilização de fertilizantes produzidos a partir de resíduos da cadeia do próprio agronegócio. Há, claro, a intenção de mapear áreas para ampliar a exploração mineral. Mas deve-se ter extrema cautela com propostas para mineração em regiões sensíveis, como a Amazônia e terras indígenas.

De 2020 para 2021, as importações brasileiras subiram 21% em volume, para 41,5 milhões de toneladas. Em valores, no entanto, o aumento foi de quase 90%, chegando a US$ 15 bilhões, de acordo com dados do governo federal. Com a crise bélica em curso, os preços seguem em disparada. Há razões suficientes para o Brasil se dedicar a alternativas, como aumentar a produção local. O plano, no entanto, deve ser consistente, praticável e executado à risca, para que não ocorra o mesmo que se verifica nos episódios de estiagem que acometem o Rio Grande do Sul periodicamente: bastam uma ou duas safras com chuvas abundantes após uma seca para o assunto da irrigação cair no esquecimento.

OPINIÃO DA RBS

03 DE MARÇO DE 2022
O PRAZER DAS PALAVRAS

Recebidos

Arminda P., leitora de longa data, confessa que decidiu escrever para esta coluna ("é a primeira vez em quinze anos, professor!") para perguntar sobre esse vocábulo recebidos que ela começou a ver brotar por toda parte, como cogumelos depois da chuva. "Agora que minha neta instalou o Instagram no meu celular, não passa dia que eu não veja alguém se gabando dos novos recebidos. Pelos vídeos, dá para ver claramente que são presentes, mas não entendo por que resolveram usar este nome".

Prezada Dona Arminda, isso são novidades trazidas pelas chamadas mídias digitais, que vêm alterando tanto nosso vocabulário quanto nosso relacionamento com os amigos e nossos hábitos de compra. Nesse novíssimo cenário - que não vou defender com entusiasmo nem vou lamentar com previsões sombrias porque não sou profeta - surgiu, entre outras criaturas, a figura do/da influencer, que, como diz o flamante rótulo em Inglês, atrai milhões de seguidores e influencia seus corações e mentes. Comercialmente, dizem, alguns desses influenciadores são muito valiosos, porque o simples fato de usarem uma marca de tênis específica ou adotarem uma fórmula milagrosa de emagrecimento faz subir vertiginosamente as vendas de qualquer felizardo que consiga convencê-los a aparecer no Instagram "recebendo" o seu produto - os tais objetos ou presentes recebidos.

Não estranhe, cara leitora. Esse emprego de um adjetivo no lugar do substantivo que ele costuma acompanhar é muito mais comum do que se pensa, especialmente na linguagem específica de determinadas atividades ou áreas de conhecimento, como é aqui o caso das novas mídias. O processo é muito simples: o namoro começa quando um determinado substantivo aparece com grande frequência acompanhado de um mesmo adjetivo. Por exemplo, um dia o substantivo impressão encontra o adjetivo digital. Os dois passam a ser vistos por toda parte, e nós aos poucos vamos nos habituando ao novo parzinho. 

Com o tempo, como muitas vezes acontece nas famílias humanas, o comparecimento do substantivo a certos eventos e cerimônias deixa de ser necessário. Ele pode ficar em casa sem nenhum problema, porque todos sabem que o adjetivo, que vai a todas, está representando o casal. Como explica Mary Kato, linguista várias vezes citada aqui, o adjetivo "acaba incorporando em si o sentido desse substantivo, cuja presença física se torna até dispensável". Por isso, sem prejuízo da compreensão, podemos deixar o substantivo impressão descansando em paz em sua poltrona enquanto anunciamos que "a polícia encontrou uma digital do acusado na arma do crime".

Quando o jornal fala no salário das domésticas, todos os leitores entendem que se trata das (empregadas) domésticas; o substantivo empregada pode ser dispensado porque ele fica claramente subentendido. Por esse mesmo processo, os (bens) imóveis viram simplesmente os imóveis, os (vendedores) ambulantes viram os ambulantes, chamamos as (notas) promissórias de promissórias e os (dentes) caninos de caninos. Os jovens que encheram as ruas do país bradando por (eleições) diretas prestaram (concurso) vestibular, cresceram e hoje muitos deles, depois de todos esses anos, defendem a formação de uma nova constituinte, em que claramente está implícito o substantivo assembleia.

Muitos desses exemplos têm valor universal; contudo, existem alguns em que o substantivo que ficou implícito só vai ser identificado pelo contexto. "Ele levou duas inteiras e uma meia e não pagou" pode se referir a três entradas para um espetáculo ou a três garrafas de vinho. A manchete "Veja os classificados na edição de hoje" pode se referir a candidatos de um concurso público, a participantes de uma competição ou a pequenos anúncios de compra e venda; uma frase como "Aumentou a procura por conversíveis" vai ser entendida diferentemente por um vendedor de automóveis ou por um operador do Mercado de Capitais. 

Na fala, "ele tomou um e[?]presso pode se referir tanto a um trem quanto a um café - na escrita, porém, a confusão evidentemente se desfaz: expresso, "rápido; que não para no trajeto", é escrito com X, o que não ocorre com espresso (do Italiano espresso, "café feito sob pressão"). Era isso. E se a senhora quiser me seguir no Instagram, onde vivo como claudio_moreno.rs, será bem-vinda.

CLÁUDIO MORENO

03 DE MARÇO DE 2022
CARPINEJAR

Presente de segunda mão

Não repasse presentes adiante. Pode virar uma maldição, um bumerangue espiritual. É mais temerário do que quebrar um espelho.

Tia Lily deu uma echarpe que ganhou da tia Naná para a tia Sueli, que ofereceu para a tia Jurema, que deu para uma colega de hidroginástica chamada Noemi, que transferiu de novo para a tia Lily depois de cinco anos. Só mudou o papel do pacote, a encomenda voltou para o berço original. Lily recebeu o mesmo presente duas vezes de pessoas diferentes. Era para ser dela mesmo.

Ela desencadeou uma ciranda de desvalia, uma caravana da ingratidão, um carma da suspeita. Não teve como fugir do seu destino, da corda no seu pescoço que era aquela echarpe marrom.

Nem correspondia a um presente de segunda mão, mas já de quarta mão, veterano no descarte.

Há um grande risco de o mimo empreender uma volta ao mundo e retornar ao seu início, já que ninguém o deseja.

Aposto que uma história parecida aconteceu com alguém que você conhece. Uma vez preterido, o destino do regalo costuma se repetir. Não que a peça seja feia, imprópria, inadequada. É que a recusa impregna a alma do objeto, formando uma eletricidade do mal. O presente carrega a energia da rejeição.

Você toca nele e observa que tem algo errado, que não foi feito para você, que é um agrado forçado, como um uísque batizado. Não tem nenhuma conexão com o seu momento. Na verdade, você percebe o arranjo improvisado, o durex solto, a etiqueta sem cola, a fita lânguida.

Quem dá sorri amarelo, não olha nos olhos, já chega constrangido, com a pressa de virar as costas e mudar de assunto. Nem quer que a pessoa abra o embrulho na sua frente.

Melhor seria adquirir uma lembrança inédita em um posto de gasolina ou farmácia.

Não ficará com o presente? Troque imediatamente. Não invente de forçar convergências, ou ter compaixão, ou se salvar de gastos futuros. A avareza vai lhe custar a paz de espírito.

Por pretensa polidez, perderá a confiança dos aniversariantes. Por embaraçosa educação, terá um brechó em seus armários. É um empurra-empurra em que você acaba caindo.

Uma saída é dizer a verdade: "recebi e não gostei, te interessa?" E, de preferência, fora da celebração da idade e de qualquer homenagem. Promova a adoção consciente e interrompa a corrente de desinformação.

Deveria existir um teste de DNA dos presentes. Descobriríamos que muitos não vieram das lojas.

CARPINEJAR

quarta-feira, 2 de março de 2022


02 DE MARÇO DE 2022
DAVID COIMBRA

Eu beijaria todos os dias a mesma mulher

Ontem tive de pegar um Uber, e o rádio do carro começou a tocar uma música antiga do Barão Vermelho. O cara faz as promessas mais absurdas para ficar com a moça, tipo dançar tango no teto de algum prédio, limpar os trilhos do metrô e viajar a pé do Rio a Salvador, o que dá 1.631,9 passos, se você considerar cada passo um metro.

É normal você fazer sacrifícios em nome da mulher amada, a paixão leva a esses gestos grandiloquentes e, às vezes, ridículos. Nada de novo, portanto. Mas há, na música, uma promessa intrigante. É quando ele jura:

"Eu desejaria todo dia a mesma mulher". No início, não entendia bem a letra. Parecia-me: "Eu beijaria todo dia a mesma mulher".

Isso é factível. Você garante a ela que a beijará todos os dias das suas vidas. Perfeito. É até poético. Você pode dizer: "Lá vai a mulher que beijo todos os dias". Ou ela: "Aí vem o homem que me beija todos os dias".

Bonito. Agora, "desejar todos os dias a mesma mulher" não faz parte da natureza humana. O ser humano, depois de conquistar o que desejava, passa de nível. Não que ele desgoste do que obteve. Ele gosta. Ele ama. Ele quer preservar. Mas, como já o possui, não o deseja mais.

Não se trata de ambição, de ganância ou de mau-caratismo. É um processo natural, schopenhauriano, quase físico. É difícil sentir desejo pelo que já se tem. Sinta amor. Sinta respeito. Sinta admiração. Mas o desejo é algo que titila e floresce em outro lugar, independente de todos os órgãos, pensamentos, planejamentos e racionalizações. O desejo às vezes se manifesta contra eles e estraga tudo o que eles estavam prontos a fazer. Simplesmente porque o desejo busca o novo, o que não foi conquistado, o que parece inatingível.

Então, o autor dessa bela música, o Frejat, deveria mudar a letra. Deveria trocar "desejaria" por "beijaria", que é igualmente romântico e muito mais realista. Frejat, ou seu personagem, dançou tango em lugares inóspitos, caminhou 1,6 mil quilômetros até Salvador, fez as coisas mais loucas, e ela se comoveu, e eles ficaram juntos para sempre.

Agora, eles têm problemas em escolher o colégio dos filhos, em definir o local onde guardarão o papel higiênico, em ver uma série ou o BBB na TV, em contratar ou não a Nelci para fazer a faxina duas vezes por semana. Vivem uma vida normal. Sem arroubos. Mas ainda se gostam. Eventualmente, um olha de forma doce para o outro, de vez em quando se amam com carinho e, o principal, ele a beija todos os dias. Não para cumprir qualquer promessa. Não por ter que fazer assim. Ele faz porque faz. Porque quer. Pelo menos um beijo. Todos os dias.

DAVID COIMBRA

02 DE MARÇO DE 2022
JEFERSON TENÓRIO

De que lado você samba?

Eu deveria gostar de Carnaval desde criança. Sou carioca. Nasci em Madureira. Me criei entre Lapa, Bangu e Vila Kennedy. Tinha tudo para gostar de Carnaval. Dona Sandra, minha mãe, também se esforçou para isso: me levava aos ensaios das escolas de samba, o que para mim era um suplício. E eu não compreendia, na época, o porquê de tantos risos, de tanta alegria e felicidade.

Lembro ainda, pequeno, dormindo emburrado, entre cadeiras das quadras de samba, ouvindo o surdo e o tamborim reverberando em meu peito, enquanto minha mãe se acabava no samba. Dona Sandra também me levava nos blocos de rua, me fantasiava de pirata, arlequim ou Tarzan, mas tudo a contragosto.

Depois, na adolescência, a época do Carnaval ainda soava estranha para mim. Havia uma incongruência entre a festa popular e o meu mundo interior. Minha timidez, meu jeito introspectivo, me impediam de enxergar a exuberância carnavalesca. Eu era um fracasso como folião.

Então veio a vida adulta. Voltei ao Rio, anos atrás, com a intenção de visitar museus em pleno Carnaval. Não foi uma boa ideia, já que a cidade se transforma nesse período e é quase impossível transitar por ela sem passar por um bloco de rua. Assim, entre um bloco e outro, entre uma rua e outra, deixei-me levar pela batucada. Mexi a cabeça, os braços e timidamente ensaiei um sambinha no pé. A partir dali, comecei a ver o Carnaval de outra forma, pois já havia passado por tantas coisas difíceis na vida. E ao lembrar dos ensaios, das idas aos blocos e daquela alegria que presenciara na infância, tudo passou a fazer sentido para mim naquele instante.

O Carnaval não é uma festa popular qualquer. Há algo de onírico e belo. Há algo importante e que nos liga à ancestralidade. Nossas máscaras carnavalescas foram substituídas pelas máscaras cirúrgicas da pandemia.

Por isso, no próximo Carnaval, se me chamarem para desfilar na avenida, não pensarei duas vezes. Eu vou. Colocarei de lado todo o meu acanhamento, toda a minha timidez, todo o meu descompasso, mas irei.

JEFERSON TENÓRIO

02 DE MARÇO DE 2022
MÁRIO CORSO

Os aniversários chegam outro dia

Existe algo mágico nos nossos aniversários. Eles representam como foi nossa chegada ao mundo. Recriam o clima daquele dia. Traduzem como nossa família lidou com a nova aquisição. O peso da data é incontornável, por isso tantos amam ou odeiam seus aniversários. Festejam ou escondem-se quando eles chegam. A indiferença, nesses casos, tende a ser mentirosa.

Porém, uma coisa é o calendário, os anos que se contam a cada 365 dias, outra é a idade do nosso corpo. As marcas que os anos nos fazem nem sempre coincidem com as efemérides. Inclusive, diria ser ao contrário. Completamente desavisado, um dia você se olha no espelho e nota que aquele outro aniversário chegou. Não fica clara a mudança, nem onde foi, mas você percebe. Chamaria estes eventos de "aniversários da carne". Apenas acontecem, são aleatórios, não marcam nos calendários quando resolvem comparecer.

Até aqui tudo bem. Não é um grande problema envelhecer. O que realmente incomoda é quando os aniversários corpóreos chegam juntos. Sabe-se lá o porquê, eles não os entregam todo ano. Gostaria de consolar dizendo que o corpo faz suas mudanças em anos bissextos. Mas não, ele é imprevisível. Talvez nem seja a burocracia que não permitiu despachar, seja por uma mera questão de economia mandarem dois ou vários juntos.

Aí então é que pega, quando eles chegam em grupo. Você está sozinho no banheiro, cedinho, arranjando forças para encarar o dia, e o espelho mostra que foi feita uma baixa de vários aniversários. Ninguém está verdadeiramente preparado para aniversários múltiplos. As pessoas ficam iguais a si mesmas por anos, até que vários aniversários caem dentro delas.

Como já tenho dezenas dessas experiências, acumulei sabedoria sobre sua chegada. Diria, antes de mais nada, que elas são furtivas. Gostam da noite, preferem o escuro para não serem notadas. Escondem-se porque sabem que não trazem boas notícias. Chegam manhosamente e simplesmente se instalam. Naquele infausto dia você acorda, olha para o espelho, e lá está estampado em você, mais um bloco de aniversários.

Essa prática é realmente cruel. Deveriam ser proibidos envios de aniversários em engradados. Fico me perguntando onde está o STF frente a essa escabrosa prática de abuso ao consumidor. Para economizar no correio, o destino despacha nossa idade em pacotes.

Nem sequer há piedade: a pessoa pode ser cardíaca e igual eles entregam a idade na modalidade jumbo. Digo mais, eu acredito que também existem casos em que eles mandam antes. Sim, esse é o verdadeiro escândalo. Sem nenhuma justiça, até por não haver instâncias regulatórias nessa área, eles entregam aniversários previamente. Pergunte para um careca se não foi isso que aconteceu? Ainda nem chegou aos 30, com o cabelo - ou a falta dele - como o do avô? Isso é justo?

MÁRIO CORSO

02 DE MARÇO DE 2022
CHAMOU ATENÇÃO

Uma flor no planeta vermelho

A Agência Espacial Norte- Americana (Nasa) divulgou recentemente imagens de um aglomerado de cristais tridimensionais encontrado em Marte que tem formato parecido com o de uma flor. O registro foi feito pelo rover planetário (veículo de exploração espacial) Curiosity.

Os cientistas batizaram o conjunto de cristais de Black- thorn Salt. Segundo as pesquisas, o material é constituído de estruturas de minerais precipitantes na água. Como Marte não tem, atualmente, água em seu solo, seria praticamente impossível encontrar no planeta flores semelhantes às da Terra.

Em rede social, Abigail Frae- man, uma das cientistas da missão Curiosity, falou sobre os cristais e revelou que essa não é a primeira vez que localizam um material como esse em Marte. "Já vimos estruturas como essas antes, com destaque para Pahrump Hills (na base do Monte Sharp). Lá, as feições eram feitas de sais, chamados sulfatos", relembrou.

A captação fotográfica se baseia em um processo de focagem a bordo: mesclagem de duas a oito imagens. Cada mesclagem de foco produz três tipos de registros: um colorido, outro com melhor foco e o último em preto em branco. Com a fusão do foco, é possível fazer uma composição de imagens do mesmo alvo adquiridas em diferentes posições de foco.

Para capturar detalhes da estrutura encontrada recentemente em Marte, a equipe de pesquisadores teve que utilizar o sensor Mars Hand Lens Imager (Mahli) do robô. Além disso, para conseguir registrar os minerais e as texturas nas superfícies das rochas, foi necessário aplicar um plano fotográfico bem próximo dos elementos - conhecido como "close-up".

A câmera do equipamento conta com uma lente de aumento e tem uma qualidade próxima a tecnologias usadas geralmente por geólogos em trabalhos de campo.

terça-feira, 1 de março de 2022


01 DE MARÇO DE 2022
DAVID COIMBRA

Putin é um tipo antigo e conhecido

Por um tempo, tive a ilusão de que o mundo ia para frente. Esse é um defeito de quem gosta de História. Você estuda as sociedades e vê que há uma nítida evolução em várias áreas da vida humana. A tecnologia e as comunicações são os setores mais evidentes. Imagine o filósofo Sócrates, que viveu cinco séculos antes de Cristo, vendo uma TV de plasma ligada no Big Brother, um telefone celular e uma fusqueta 68. O que ele diria? Eu sei: "Eu só sei que nada sei".

Mas o mais importante é que nunca o mundo teve tanta noção do valor do indivíduo e dos direitos humanos. O homem está mais civilizado, mais sensato e mais cordato.

E as cidades? Tente, agora, imaginar Roma em sua época áurea, do césar Augusto. As vilas dos nababos e os palácios da realeza eram formidáveis, certo. Mas a maioria da população vivia em edifícios de madeira chamados insulae, que eram construídos verticalmente, uma moradia em cima da outra, chegando a oito ou nove andares, elevando-se tão precariamente que, no alto, os prédios se encostavam, como se estivessem tocando as cabeças. Isso tornava as ruas escuras mesmo de dia, já que o sol não conseguia penetrar naquela estrutura. E ainda havia o cheiro nauseabundo das vielas, porque, lembre-se, não existia sistema de esgotos. Então, as pessoas faziam suas necessidades num penico e o conteúdo era jogado pela janela. Quem estivesse lá embaixo que se cuidasse com os perigos que vinham do alto.

A vida, portanto, melhorou. Evoluímos.

Mas nossa evolução se deu de dentro para fora. Nós temos realizações, a mente humana dominou o planeta. Porém, será que evoluímos no espírito? Veja esse ditador russo, Vladimir Putin. Ele é o típico ditador dos anos 40, de sonhos de conquistas militares e desprezo por outros povos. Olho para ele e vejo um arremedo de Mussolini, de Hitler, de Stalin.

Não deveríamos ter passado essa fase? O mundo não aprendeu que esse tipo de figura é perigosa? Mas, não. O pequeno ditador Putin está aí, fazendo o mesmo que outros já fizeram, prestes a obter os mesmos resultados.

É uma decepção com a raça humana. É a prova de que todos aqueles sentimentos mesquinhos de dominar o outro e de usar os outros para alcançar seus objetivos continuam aí, intactos, como estavam 10 mil anos atrás. Nossa vida, de fato, evoluiu. Nossa alma permanece a mesma.

DAVID COIMBRA

01 DE MARÇO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

BASTA DE VIOLÊNCIA NO FUTEBOL

O lamentável ataque ao ônibus do Grêmio que deixou jogadores tricolores feridos deve servir para uma profunda reflexão sobre as causas da violência no futebol e em relação a medidas para dar um basta às agressividades. O ponto de partida para que se comece a encontrar e implementar soluções é evitar que clubismos contaminem a discussão. Dessa vez a agressão partiu de torcedores colorados contra atletas gremistas. Mas também não são raros episódios de hostilidades de aficionados direcionadas a desportistas dos próprios times. Conflitos entre torcidas rivais, como também ocorreu no sábado, são infelizmente até corriqueiros.

O fato é que a história do Gre-Nal foi manchada de forma inédita. Pela primeira vez em mais de 110 anos de jogos entre Grêmio e Inter, um clássico deixou de ser realizado por violência de torcedores contra jogadores.

Autoridades da área de segurança, dirigentes da Federação Gaúcha de Futebol e dos clubes têm, agora, o dever de debater formas de evitar que acontecimentos do gênero se repitam. Será preciso aperfeiçoar a escolta da delegação do time visitante. O policiamento no entorno dos estádios e nos pontos onde torcedores rivais podem se encontrar durante deslocamentos também merece ser reanalisado. Aos clubes, cabe empenho para indivíduos agressivos serem identificados e punidos, inclusive com banimento das praças esportivas e expulsão de seus quadros sociais. Sanções previstas na legislação também parecem ser demasiadamente brandas. Muitas vezes sequer são cumpridas. Se for necessário, as leis devem ser revisadas para que as condenações se tornem verdadeiramente pedagógicas, inibindo atitudes selvagens. Os próprios clubes, muitas vezes, são prejudicados pelo comportamento tresloucado de seus fãs, como aconteceu com o Grêmio, no ano passado, que perdeu mandos de campo após vândalos pularem das arquibancadas para destruir a cabine do VAR.

Ocorrências deploráveis, infelizmente, não faltaram nos últimos dias no futebol brasileiro. O goleiro do Bahia Danilo Fernandes ficou ferido após torcedores do clube jogarem artefatos explosivos contra o ônibus do time. No fim de semana, atletas do Paraná Clube foram agredidos após invasão de campo. Em Caxias do Sul, houve uma detenção por racismo.

No caso de sábado na Capital, dois suspeitos foram localizados com a ajuda do Inter e levados para a delegacia, mas depois liberados por falta de provas de seu envolvimento. Espera-se que as investigações avancem até a identificação dos celerados que atiraram pedras e uma barra de ferro no veículo. O meio-campista Villasanti sofreu traumatismo craniano e concussão cerebral. Os responsáveis tendem a ser indiciados por tentativa de homicídio. Essas pessoas e outras que se envolvem em episódios de violência, aliás, sequer devem ser chamadas de torcedores. São, em primeiro lugar, delinquentes. Assim, devem ser afastadas do ambiente do futebol, pelo bem do esporte e dos verdadeiros apaixonados pelas cores de seus clubes.

Aventa-se, agora, até a possibilidade de o Gre-Nal remarcado ser realizado sem os fãs do time visitante. Sem entrar no mérito da conveniência desta decisão neste momento, significaria uma derrota da civilidade. Ainda mais para um clássico que chegou a ser celebrado como exemplo mundial pela criação do espaço para a torcida mista. Torcer não deve ser sinônimo de ódio ao adversário. O esporte foi criado para disputas sadias e o congraçamento.

OPINIÃO DA RBS

01 DE MARÇO DE 2022
+ ECONOMIA

Sanções se acumulam contra a Rússia

A proposta de exclusão de "um certo número de bancos russos" do Swift ainda não evoluiu, mas ontem as sanções econômicas fizeram o Banco Central da Rússia levar a taxa básica de juro de 9,5% para 20%, e suspender a negociação de ações.

A moeda do país voltou a despencar, acumulando perda de 30% desde o ataque. A cotação atual chega a 99,5 rublos por dólar em Moscou, e há relatos de corrida de clientes aos bancos, grave sinal de instabilidade.

A mais antiga agência de classificação de risco, a S&P, reduziu a nota da dívida soberana russa para a faixa mais arriscada, apelida de "junk" (lixo) no mercado financeiro. Significa que o país tem de pagar mais para colocar seus títulos de dívida no mercado, mecanismo usado para financiar gastos públicos, inclusive os militares. Negociações de papéis russos devem ser proibidas por Estados Unidos, União Europeia e Japão.

Havia temor de que a Rússia escapasse das punições, inclusive da exclusão do Swift. O país ensaiou uma alternativa, System for Transfer of Financial Messages (SPFS), com cerca de 400 bancos, a maioria russos ou de países que fizeram parte da União Soviética. Outra opção seria o China Interbank Payments System (Cips), com alcance modesto. Enquanto o Swift chegou a 50,3 milhões de mensagens diárias em novembro, o Cips fez 2,2 milhões em todo 2021.

até a sempre neutra suíça decidiu aplicar todas as sanções da União Europeia (EU) contra a Rússia. isso inclui congelar ativos russos no país e impor sanções a Vladimir Putin. não há "neutralidade" diante do ataque.

US$ 2,2 bi

é o valor dos recursos que saíram de países emergentes cinco dias depois do ataque da Rússia à Ucrânia, conforme o Instituto Internacional de Finanças (IIF). O dado não é considerado "inusualmente grande" diante de conflitos.

+ ECONOMIA

01 DE MARÇO DE 2022
NÍLSON SOUZA

Lobos e cordeiros

No preâmbulo de seu livro A História da Raça Humana através da Biografia, o historiador Henry Thomas divide os personagens reais de seu ensaio em duas categorias: a dos que procuram melhorar a civilização e a dos que a retardam. Os primeiros são os pacifistas, os segundos são os provocadores de guerras.

Ele publicou a sua obra em 1938, antes da Segunda Guerra Mundial, com biografias de profetas, guerreiros, filósofos, cientistas e políticos - lideranças reconhecidas que influenciaram povos e nações para o bem e para o mal. Nessa original recapitulação da caminhada da humanidade sobre o planeta, o escritor chega a uma conclusão: a guerra não é só uma carnificina, é também um suicídio. Segundo seu levantamento, todas as nações agressivas da História acabaram por matar a si próprias, juntamente com seus inimigos.

- Levamos 10 mil anos trágicos para alcançar o grau atual da civilização. Num mundo isento de guerras, teríamos chegado ao mesmo resultado em 500 anos - estimou o historiador.

No momento em que a humanidade recua mais algumas casas no tabuleiro da civilização por conta da invasão russa à Ucrânia, a releitura dessas biografias ilustres nos mostra que nem os tiranos mais astuciosos escapam do julgamento da História. É verdade que nem todos acabam pendurados pelos pés, como pareceria mais justo para os seus contemporâneos, mas cedo ou tarde eles recebem o devido castigo por seus crimes e maldades, ainda que seja apenas a execração póstuma. Antes, infelizmente, costumam causar dor e sofrimento não só aos que perseguem e oprimem como também ao próprio povo.

Só a democracia previne e corrige essa monstruosa deformação do poder, desde que seus valores primordiais sejam efetivamente observados: eleições livres e idôneas, liberdade de expressão, alternância, livre acesso à informação, transparência, instituições sólidas e representatividade de minorias. Não é por outro motivo que candidatos à tirania atacam e tentam desconstituir tais princípios, invariavelmente com pretextos tão cínicos como aqueles apontados por La Fontaine na célebre fábula do lobo e do cordeiro.

Identificar potenciais autocratas é essencial para preservarmos o nosso direito de escolher lideranças que ao menos nos permitam viver em paz.

NÍLSON SOUZA

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022


28 DE FEVEREIRO DE 2022
CAPA

Quem tem medo da Alexa e da Siri?

Suspense de Steven Soderbergh, "Kimi" traz discussão sobre segurança e privacidade em meio aos avanços tecnológicos

Recém-lançado pela HBO Max, Kimi (2022) é mais um filme que, a exemplo de Match Point: Ponto Final (2005) e Pig: A Vingança (2021), ganha no Brasil um subtítulo desnecessário, além de tirar a carga de mistério do original: Alguém Está Escutando.

Pelo menos o adendo é honesto. Este suspense tem como personagem principal Angela Childs, uma analista do fluxo de dados de uma assistente virtual tipo Alexa e Siri - a Kimi. O trabalho de Angela é ouvir gravações das interações dos clientes com o produto, de modo a aperfeiçoar a inteligência artificial, que nem sempre entende os pedidos feitos. De cara, o filme nos lembra que segurança e privacidade são temas sensíveis em meio aos avanços tecnológicos.

O enxuto (1h29min) longa-metragem foi escrito por David Koepp, roteirista responsável pelas adaptações cinematográficas de Jurassic Park (1993), Missão: Impossível (1996), Homem-Aranha (2002) e Anjos e Demônios (2009), entre outros títulos. A direção é de Steven Soderbergh, cineasta que desde a volta de uma aposentadoria prematura vem emendando um filme depois do outro: Logan Lucky (2017), Distúrbio (2018), High Flying Bird (2019), A Lavanderia (2019), Let Them All Talk (2020), Nem um Passo em Falso (2021) e agora Kimi, no qual, como de costume, também assina a fotografia e a montagem, sob os pseudônimos Peter Andrews e Mary Ann Bernard.

A protagonista é interpretada por Zoë Kravitz, filha da atriz Lisa Bonet e do roqueiro Lenny Kravitz, a Leta Lestrange da franquia Animais Fantásticos e a Selina Kyle do vindouro Batman. Angela trabalha em casa e sofre de agorafobia, que foi potencializada pela pandemia: ela não consegue vencer o medo de deixar o apartamento para se encontrar com Terry (Byron Bowers), o vizinho do prédio da frente com quem mantém uma espécie de romance. Sua ansiedade vai aumentar quando escutar o áudio do que parece ser um crime cometido por um homem contra uma mulher.

Clássicos

O parágrafo acima permite inferir que Kimi faz uma modernização de clássicos do gênero, como Janela Indiscreta (1954), de Alfred Hitchcock - e a orquestração da trilha sonora composta por Cliff Martinez reforça o tom hitchcockiano -; Blow-Up: Depois Daquele Beijo (1966), de Michelangelo Antonioni; A Conversação (1974), de Francis Ford Coppola; e Um Tiro na Noite (1981), de Brian De Palma (a imagem de Angela pressionando os fones contra os seus ouvidos remete à de John Travolta neste último filme). As características psicológicas de Angela sugerem uma aproximação com uma vertente da literatura e do cinema de suspense (vide A Mulher na Janela e sua paródia, A Vizinha da Mulher na Janela), a das protagonistas solitárias que testemunham um ato criminoso, mas são desacreditadas por causa de seus problemas de saúde mental - às vezes, elas próprias já não sabem distinguir a realidade da ilusão.

O que aconteceu com a tal cliente e como Angela vai lidar com a situação são coisas que cabem ao espectador descobrir. O que dá para dizer, sem escorregar para o terreno dos spoilers, é que, como este é um filme de Steven Soderbergh, o entretenimento paranoico/conspiratório está aliado ao comentário crítico. O alvo evidente são as chamadas big techs, as grandes empresas de tecnologia, patrocinadoras, por omissão e por interesse econômico, de discursos de ódio, misoginia, racismo, negacionismo etc., artífices de um mundo sob constante vigilância e com uma tênue fronteira entre vida pública e vida privada, vida pessoal e vida profissional.

Na comparação com as obras anteriores do diretor, Kimi não é tão visualmente inventivo quanto Distúrbio, não tem a acidez de High Flying Bird e carece do elenco carismático de Nem um Passo em Falso. Mas, além de contar com uma atuação vigorosa de Zoë Kravitz, Soderbergh compensa com sua maestria no ritmo - sabe a hora de criar clima ou de acelerar o passo - e com a habilidade para amarrar pontas, juntar peças. Apesar da tensão e da violência de algumas cenas, é difícil não esboçarmos um sorriso ao perceber que elementos jogados despretensiosamente na trama são, lá na frente, retomados com protagonismo.

 TICIANO OSÓRIO


28 DE FEVEREIRO DE 2022
DAVID COIMBRA

A dor

As pessoas superestimam o sofrimento. Alguém está lutando contra uma doença ruim e elas se compadecem: é um guerreiro, é um herói. Sei de onde vem isso: do cerne duro do Cristianismo. Segundo a interpretação da igreja, todo o sofrimento de Jesus na cruz era necessário e inadiável. Por que ele tinha de passar por aquilo? Era um sacrifício. Jesus suportou humilhações, espancamentos e tortura para nos livrar dos pecados. Morreu por nós.

Assim, o cristão sempre vê a dor como um sacrifício. O cristão adora se sacrificar. Está doendo por algum motivo. No final você vai aprender e crescer com essa experiência. Alguns que sofrem acreditam nisso. O muçulmano que se explode pensando em receber 72 virgens e toda a cerveja do mundo também acredita que o sacrifício vale a pena.

Já o soldado, se volta para casa com uma perna mutilada, digamos, se torna um homem respeitado pelo resto da vida. Ele se sacrificou em nome da pátria.

O imbecil que pega em armas para defender uma ideologia e derrubar um governo que ele acha injusto, também. Até os adversários reconhecem sua bravura.

Agora, um cara que está doente e sente dor, qual é o mérito dele?

Isso aconteceu comigo nos últimos dias. Passei um tempo com dor, mas é irrelevante, não se assuste, nem vou aborrecer o leitor com pormenores. Eu não pensava, como muitos pensam: "Por que comigo?" Não. Essa é uma pergunta tola. Afinal, criancinhas estão chorando na Ucrânia e pais desesperados sabem que seus pequenos podem sofrer amputações terríveis que os marquem para sempre, se antes não vier a morte de todos numa explosão russa.

A pergunta que faço é: que vantagem eu tenho. Passo por tudo isso e não levo nada? Olha lá o soldado que perdeu a perna em batalha. Ele é venerado e digo que merece a veneração.

Mas a dor anônima e vulgar, como a minha? Ela não serve para nada, ela não produz nada para a sociedade. Ela só fica ali, incomodando um único indivíduo.

Aí as pessoas cometem o erro de achar que a dor do seu amigo é uma dor com propósito. "Você vai mudar", elas dizem. "Essa dor, no fim, vai ser boa, e você vai ver o mundo de outra maneira."

Não é. Não é boa. 

Não haverá evolução alguma, você voltará à convivência das pessoas como um trapo emaciado e emagrecido que terá medo de voltar a tomar cerveja. É isso. Você passou por tudo aquilo e não houve glória, não houve honra. O mundo é injusto.

DAVID COIMBRA