quinta-feira, 8 de dezembro de 2022


03 DE DEZEMBRO DE 2022
FLÁVIO TAVARES

A GRANDE DÍVIDA

Todos os ramos da ciência concordam que as mudanças climáticas são o mais grave problema a enfrentar para que o planeta sobreviva. A ONU promove reuniões anuais para encontrar caminhos e comprometer os governantes a adotar medidas para evitar a catástrofe do aquecimento global antes que seja irreversível.

Dias atrás, encerrou-se em Sharm El-sheik, no Egito, a conferência deste 2022, e, outra vez, os alertas viraram advertências. É necessário agir com urgência urgentíssima, avisou o secretário-geral da ONU, António Guterres, ao abrir a reunião. As conclusões, porém, foram pífias.

De fato, os países participantes não se comprometeram a adotar medidas concretas e urgentes para minorar o aquecimento global. O documento final revela, em verdade, apenas intenções, nunca obrigações.

Em 1992, assisti no Rio de Janeiro à Eco-Rio, que preparou a "Agenda 21", advertindo para as medidas a serem adotadas no novo século. Já se passaram mais de duas décadas, e as mudanças climáticas se transformam em crise do clima. Aí estão as cenas (vistas na TV) das enxurradas em Santa Catarina, na Bahia e em Sergipe, com mortes e soterramentos.

Mas na reunião do Egito, as conclusões não levaram ao compromisso de cortar as emissões de combustíveis fósseis, como carvão e petróleo, responsáveis diretos pelo aquecimento global. Em vez de compromissos, a reunião marcou apenas meras intenções.

Continuamos com a grande dívida. O palavrório rebuscado e genérico das reuniões internacionais seguiu vigente na reunião do Egito. Jair Bolsonaro não compareceu, alardeando seu descuido pelo meio ambiente, mais preocupado em armar a população. O presidente eleito, Lula da Silva, lá esteve e se comprometeu a preservar a Amazônia. Mas enquanto não traçar os rumos do futuro governo e indicar o novo ministro do Meio Ambiente, permanece a incógnita e também a dúvida. E com ela, também a dívida, sem ser mero jogo de sons?

Além do palavrório, aqui no país um fato concreto revela o desprezo governamental pelo meio ambiente - o Ibama está sem verbas para pagar até as contas de eletricidade e água, além da pesquisa em si.

Ao ser o órgão ativo do meio ambiente, o Ibama reúne as ações governamentais de preservação, mas agora vira órgão inerte.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

03 DE DEZEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

NA SAÚDE, O TEMPO É DECISIVO

São alarmantes os dados levantados pelo Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (Conass) sobre os atendimentos e procedimentos represados na área. Conforme a entidade, os dois primeiros anos da pandemia legaram 11,6 milhões de cirurgias eletivas e ambulatoriais atrasadas em todo o país. Outros 1,3 milhão exames diagnósticos deixaram de ser feitos. As conclusões foram levadas à equipe de transição do novo governo, que agora tem de se debruçar sobre as informações e encontrar meios para começar a recuperar este déficit.

Procedimentos como cirurgias ou exames, quando não são feitos no momento certo, tendem a levar ao agravamento do quadro de saúde da pessoa que necessita do atendimento. Tratamentos iniciados tardiamente têm menores chances de alcançar o resultado esperado. São vidas que estão em jogo. Note-se que, do total de 1,3 milhão de exames abaixo da média no período, 1 milhão são mamografias. Essa é a averiguação mais adequada para descobrir o câncer de mama de forma precoce, antes da detecção clínica. O diagnóstico feito no início do surgimento do problema eleva significativamente as chances de cura. Mesmo assim, é a principal causa da morte por câncer em mulheres no país.

Esse gargalo era previsível. Hospitais, demais unidades de saúde e profissionais da área centraram esforços, nos dois anos iniciais da pandemia, no atendimento às questões relacionadas à covid-19. O temor de contaminação também diminuiu a procura por outros serviços. Será necessário, agora, encontrar estratégias para acelerar a retomada desses procedimentos, um atraso que certamente se concentra entre a população mais carente e dependente do Sistema Único de Saúde (SUS).

Para o enfrentamento deste quadro preocupante, o Conass reivindica um aporte extra e emergencial de R$ 3 bilhões pelo Fundo de Ações Estratégicas e de Compensação (Faec), o que tornaria possível começar a recuperar a defasagem a partir do início de 2023. Mais recursos, por certo, ajudam bastante, mas é preciso ter em vista que o espaço orçamentário é limitadíssimo e, neste momento, há diversas outras áreas da administração pública disputando verbas para as suas demandas. Aguarda-se do novo governo uma análise acurada para a definição das prioridades. Trata-se aqui, por exemplo, de casos cujo pior desfecho pode ser evitado.

Verbas são necessárias, mas também são imprescindíveis ações que assegurem efetividade às medidas e alocação eficiente dos recursos. Melhorar a gestão, qualificar a parceria do governo federal com Estados e municípios, buscar maior resolutividade da atenção básica, aperfeiçoar a regulação, identificar prioridades regionais e a utilização da telessaúde são algumas das estratégias complementares possíveis para alcançar melhores resultados. Na saúde, o tempo é decisivo.


03 DE DEZEMBRO DE 2022
SANEAMENTO NA CAPITAL

Grupo para deslanchar a concessão do Dmae

Ainda sem prazo para enviar à Câmara de Vereadores o projeto de concessão do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), a prefeitura de Porto Alegre acelera o passo, nas próximas semanas, para concluir os estudos que irão definir o modelo da parceria público-privada. A proposta de conceder o Dmae já havia sido assumida durante a campanha pelo prefeito Sebastião Melo (MDB), em 2020.

Em abril deste ano, o prefeito chegou a viajar para o Rio de Janeiro e a São Paulo com a finalidade de conhecer os projetos de concessão em saneamento locais.

Na última quarta-feira, Melo assinou a criação de um grupo de trabalho que ficará responsável por reunir as informações a respeito da concessão. Em 30 dias, o grupo coordenado pelo vice-prefeito Ricardo Gomes (PL) irá apresentar a Melo os resultados. No mesmo período, deve ficar pronto o estudo encomendado ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sobre a concessão.

A etapa seguinte do processo é a formulação do projeto de lei e o envio à Câmara. - Não é um grupo decisório, resolutivo. É um grupo de trabalho. Vamos organizar o checklist do que falta (para a concessão). É um processo decisório que está chegando perto do fim - explica Gomes.

Modelo

O principal ponto de interrogação é o modelo da concessão. Uma das possibilidades, citada por vereadores aliados, é a concessão apenas do serviço de coleta e tratamento do esgoto. A captação, tratamento e distribuição da água permaneceria sob gestão pública.

Mas o vice-prefeito não descarta que a água também seja concedida a um parceiro privado.

- Tem vários cenários na mesa, e a gente vai considerar todos. Existem casos (no mundo) em que houve concessão plena de água e esgoto, ou concessão de esgoto, ou da gestão da água e do esgoto - pondera Gomes.

Tecnicamente, o processo em estudo envolve a concessão do Dmae e não a privatização. Ocorre que o departamento é uma autarquia e, por questões jurídicas, não pode ter o patrimônio alienado a um terceiro. Se quisesse privatizar, a prefeitura teria de enviar proposta à Câmara para transformar o Dmae em empresa pública, mas isso está fora de cogitação neste momento.

Se a concessão se concretizar, a prestação do serviço será transferida para uma empresa privada por um determinado período - que ainda não está definido e dependerá da modelagem.

A prefeitura argumenta que o investimento privado é o caminho mais viável para cumprir as metas do marco legal do saneamento, aprovado em 2020 no Congresso. A legislação determina que 99% da população tenha acesso a abastecimento de água e 90%, a coleta e a tratamento de esgoto até 2033.

Abrangência

No início da semana, vereadores aliados de Melo afirmaram que havia a expectativa do envio de projeto de concessão apenas para o tratamento de esgoto.

Na segunda-feira, o líder do governo na Câmara, vereador Claudio Janta (Solidariedade), chegou a dizer que a prefeitura não abriria mão de "captar e distribuir" a água.

Procurado na quinta-feira, Janta ponderou que haverá muita dificuldade para aprovar a proposta em caso de concessão conjunta da água e do esgoto. Na visão do vereador, a melhor alternativa seria o município manter a gestão pública da água.

- Nada na Câmara é impossível, mas hoje eu acho muito difícil. Vamos precisar de muita negociação, se a água entrar (na concessão). Se for só esgoto, acredito que seja mais fácil - avalia Janta.

O presidente do Legislativo, Idenir Cecchim (MDB), faz coro à avaliação de Janta.

- O prefeito tem falado principalmente sobre o tratamento de esgoto. Porto Alegre tem capacidade instalada para tratar 80% do esgoto, com dutos por dentro do rio, e estamos tratando 60% só. Falta perna para o Dmae. Talvez o esgoto (seja concedido). A água acho que ainda não, mas o esgoto deverá entrar em discussão - afirmou Cecchim à reportagem, na última terça-feira.

Críticas

Líder da oposição na Câmara, o vereador Aldacir Oliboni (PT) considera "lamentável" a posição de Melo de buscar a concessão do Dmae.

- Quem vai pagar o preço é a população. O que aconteceu na Corsan vai acontecer no Dmae. O preço vai subir, e os pobres vão pagar a conta. É lamentável a posição de um governo que não quer fazer gestão do serviço público, quer entregar tudo.

Oliboni diz que a oposição buscará impedir na Justiça a concessão. O vereador do PT afirma que a justificativa de que é preciso cumprir o marco do saneamento é uma "desculpa" do governo:

- A Justiça é o que nos resta, tomara que consigam nos ouvir. A população, gente do próprio governo e da própria base deles estão indignados. Ele (Melo) que reduza o quadro dos CCs. Se a empresa é superavitária, por que não tem condições de buscar recursos?

 BRUNO PANCOT


Fundação anuncia iniciativas selecionadas

Pelo sétimo ano consecutivo, o Grupo RBS e a Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho (FMSS) promovem o projeto Editais, direcionado a ações que contribuem para a transformação da sociedade. Neste ano, por meio de leis de incentivo fiscal, a iniciativa destinará cerca de R$ 149 mil para quatro ONGs de Porto Alegre voltadas às crianças e aos adolescentes, à cultura e ao esporte.

Na área da cultura, os selecionados são o projeto Lupi: Pode Entrar que a Casa é Tua, da Invideo Produções Cinematográficas Ltda, que propõe uma exposição em homenagem ao músico e compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues; e Tito Lívio Firmino de Sousa Filho, que pretende fortalecer o acesso à arte circense.

Hidroterapia

Na categoria Funcriança, a Casa do Menino Jesus de Praga foi a iniciativa escolhida com o projeto Terapia na Piscina. A ideia é reativar a piscina de hidroterapia da instituição, visando melhor qualidade de vida ao público acolhido atualmente.

Por meio da Lei de Incentivo ao Esporte, a iniciativa selecionada é a L?aqua - Centro de Desenvolvimento de Esporte, Lazer e Cultura para Pessoas com Necessidades Especiais. Com o benefício, o programa dará continuidade às atividades realizadas, promovendo a inclusão social de pessoas com deficiência física, visual, intelectual, auditiva e deficiência múltipla, por meio do esporte e lazer.

Alcance

Os valores para cada modalidade foram distribuídos entre os projetos de acordo com a solicitação durante a inscrição, considerando a viabilidade de execução e a possibilidade de alcançar o maior número possível de beneficiados. Essa é uma das principais ações sociais do Grupo RBS, por meio da FMSS. Desde 2016, o projeto já beneficiou mais de 75 mil pessoas no RS, totalizando R$ 1,1 milhão em doações para todo o Estado.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022


02 DE DEZEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Roda mundo

Concordo com a juíza Monica Ribeiro Teixeira: Roda Viva não é de Chico Buarque. Já é patrimônio da nossa cultura, já é acervo da história do país, já é tesouro do folclore popular. 

Alcançou tamanha popularidade que a sua autoria foi transferida para quem a canta. É uma canção que fala por nós, naquele dom do artista de traduzir as nossas emoções mais secretas, nossas inquietações mais inefáveis.

Pablo Neruda, poeta chileno Nobel de Literatura, em suas memórias Confesso que Vivi, conta que ouviu um poema de sua lavra recitado por pescadores. Fingindo-se de bobo, perguntou quem o tinha feito, qual a sua origem.

Os pescadores responderam: "são palavras do mar, são nossas". Talvez o maior feito de um poeta seja transformar a dor individual em pertencimento coletivo. Roda Viva são murmúrios de nosso oceano, de nossa saudade salgada, de nossas lágrimas de espanto. Suas estrofes chegam à praia dos ouvidos com ondas sonoras aflitas.

Roda Viva é minha, é sua, é de quem sofreu na vida a privação de seus direitos de amor e liberdade.

Partiu, sim, do punho de Chico, por um capricho cronológico. O que prevalece é o resultado, sua herança: foi ela que bombeou o nosso coração para sobreviver por mais de duas décadas até a volta da democracia, como se seus versos fossem nossa aorta. Os créditos do Ecad vão para Chico por uma questão formal, porém os efeitos terapêuticos atingem a todos.

Existe o manuscrito do autor. Existe o registro fotográfico da sua peça teatral homônima, que foi encenada pelo Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa. Existe a filmagem da primeira apresentação pública da composição no III Festival da Música Popular Brasileira, da Record, de 1967, que unicamente aceitava canções originais e inéditas. Nela podemos testemunhar que Chico é Chico cantando no palco com MPB-4 e obtendo o terceiro lugar. Existe o LP, o CD, o DVD, várias gravações no timbre do cantor.

Apesar das provas incontestáveis da paternidade de Roda Viva, concordo com a juíza: o DNA desse samba ainda é nosso, de cada brasileiro. Porque a música nunca envelheceu. Pode ser entoada como o nosso presente mais imediato, ou como profecia do nosso futuro. O passado serve apenas como um ponto de referência.

Ultrapassa o protesto político contra a ditadura militar. É uma radiografia emocional, ao mesmo tempo engajada e lírica, sobre o desencanto.

Quem já não se percebeu tonto de tanto que o mundo muda e nos rouba a nossa viola e expressão? Quem já não acordou como quem partiu ou morreu? Quem já não se viu em dias estranhos, em que tudo estanca de repente? Quem já não teve a sua roseira mais linda, que cultivou com esmero, levada para longe?

Não adianta recorrer da decisão, meu estimado Chico Buarque, Roda Viva é nossa e jamais iremos devolver.

CARPINEJAR

02 DE DEZEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

OS SINAIS PARA O PIB DE 2023

O Produto Interno Bruto (PIB) do país variou 0,4% no terceiro trimestre em comparação com o intervalo de três meses imediatamente anterior. Foi um avanço abaixo do esperado pelo mercado, é verdade. O consenso indicava uma alta de 0,6%, com uma desaceleração já aguardada da economia. Mesmo assim, não se deve perder a perspectiva de que o desempenho da atividade no Brasil ao longo de 2022 é muito melhor do que era vislumbrado na virada do ano.

Ao final de 2021, economistas renomados e instituições financeiras respeitáveis projetavam um crescimento pífio, ao redor de 0,5%. Até o risco de uma recessão entrou no radar. Mas os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentados ontem mostram que, no acumulado do ano, o PIB sobe 3,2%. É claro que, ao longo dos meses, fatos novos surgiram e alteraram o horizonte, como a significativa valorização das commodities, o que sempre impulsiona a economia brasileira, e medidas voltadas a elevar a renda de parcela da população movidas pelas urgências eleitorais. Mesmo que no quarto trimestre a atividade ande de lado, o PIB encerrará 2022 com uma alta próxima de 3%. É para ser celebrado.

O mercado de trabalho também surpreendeu positivamente, com quedas sucessivas, até chegar a uma taxa de desemprego de 8,3% no trimestre encerrado em outubro. Mas o Caged, que mostra a geração de postos com carteira assinada, apontou para o mesmo mês uma criação de vagas formais bem abaixo do esperado. É um novo sinal de acomodação.

Deve ser lembrado que o país atravessa um período de juro básico em patamar bastante elevado. Os 13,75% ao ano da Selic, um freio para a economia, representam o maior aperto monetário desde o início de 2017. Também se esgotou o impacto da reabertura das atividades após o período mais crítico da pandemia, os estímulos internos perderam o efeito e a economia global, outro fator que influencia o PIB brasileiro, está cambaleante e sem perspectivas alvissareiras para 2023.

Passa a ser a hora de centrar mais as atenções para o ano que se avizinha. Do novo governo, se aguarda que consiga entregar suas promessas sociais, sem ameaçar deteriorar o lado fiscal. Se conseguir emitir sinais firmes de que não descuidará da sustentabilidade da dívida pública, será possível injetar confiança nos agentes econômicos - consumidores, empresários e investidores - e manter a perspectiva de que o Banco Central encontrará fundamentos para, como se espera, começar a reduzir a Selic em 2023. A mediana das projeções de mercado para o PIB do próximo ano, conforme o Boletim Focus, está em 0,7%, o que seria uma alta bastante modesta. Está posto para o novo governo, portanto, o desafio de calibrar suas ações e mensagens para o país ter novas surpresas positivas e alcançar um avanço mais robusto da economia, com a continuidade da queda do desemprego e a melhora da renda, mas mantendo o controle da inflação.


02 DE DEZEMBRO DE 2022
BENEFÍCIOS DO INSS

STF aprova a revisão da vida toda para aposentadorias

Em votação apertada, o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou ontem, por seis a cinco, a revisão da vida toda para o cálculo das aposentadorias. Com isso, aposentados poderão solicitar que toda a vida contributiva seja considerada no cálculo do benefício. Até então, era obrigatório seguir a regra de transição que contabilizava apenas os salários a partir de julho de 1994.

Os ministros Alexandre de Moraes, Edson Fachin, Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski e Rosa Weber acompanharam o relator, Marco Aurélio Mello, já aposentado, a favor da tese. O ministro Kássio Nunes Marques, que reabriu o julgamento na quarta-feira, abriu a divergência e foi seguido por Luis Roberto Barroso, Luiz Fux, Dias Toffoli e Gilmar Mendes. O ministro André Mendonça, que entrou na Corte para substituir Marco Aurélio, não votou.

Os ministros que votaram a favor da revisão ressaltaram que o segurado tem direito ao melhor benefício e que, em alguns casos, a lei de transição é prejudicial ao aposentado. Já os ministros contrários à tese argumentaram que a revisão pode ser difícil em razão dos altos índices de inflação anteriores a 1994. Sustentaram, ainda, que o número de solicitações pode colapsar o atendimento do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Na prática, a tese revisional será válida para pessoas que tinham salários de contribuição maiores no período anterior a julho de 1994. Atualmente, já existem 10.617 sobrestados - processos que aguardavam a decisão da Suprema Corte.

Transição

A advogada Carina Tomazzoli Santarosa, especialista em direito previdenciário, explica que, antes de 1999, a lei determinava que somente os últimos 36 meses de contribuição compunham o cálculo da aposentadoria. Isso permitia ao segurado contribuir a maior parte do período com base no salário mínimo e, nos três anos anteriores ao pedido de aposentadoria, realizar contribuições pelo valor do teto. Assim, recebia o benefício conforme esse último valor.

Do ponto de vista financeiro, a norma era onerosa para os cofres da Previdência Social. Por isso, em 1999 foi criada a Lei 9.876, prevendo que seria considerado no cálculo da aposentadoria todo o período contributivo do segurado (desde o início da vida laboral), não apenas os 36 meses anteriores à aposentadoria.

Contudo, a mesma lei criou regra de transição, que excluía do cálculo das aposentadorias os períodos anteriores a julho de 1994. A data foi fixada também para retirar do cálculo do INSS os planos econômicos que precederam o Real e tornavam complexa a atualização monetária.

Prejudicados

A especialista explica que as regras de transição são criadas para minimizar os efeitos mais rígidos de uma norma nova, ou seja, é proteção ao segurado. Mas a de 1999 não beneficiou a todos.

- Percebeu-se que algumas pessoas ficavam prejudicadas. Normalmente, as pessoas começam a vida contributiva com salários mais baixos, se qualificam e aumentam os rendimentos ao longo da vida laboral. No entanto, ao contrário, para aquelas que começaram ganhando bem e ao longo do tempo diminuem o valor de contribuição, a aplicação da regra de transição é prejudicial - argumenta.

Assim, a tese discutida desde 2020 no Supremo tem objetivo de garantir aos segurados que possuíam salários de contribuição mais altos antes de 1994 a aplicação da regra definitiva da lei, que inclui todas as contribuições da vida e não apenas aquelas vertidas após julho daquele ano.

Carina cita o caso de um cliente que no começo da vida ocupava um alto cargo bancário e depois migrou para a iniciativa privada. As contribuições minguaram e sua aposentadoria, que não abarcou o período anterior a 1994, ficou reduzida.

- A revisão da vida toda, contemplará um número pequeno de segurados, pois são poucos os que iniciam a vida de trabalho com rendimentos maiores e diminuem a contribuição ao longo da vida - destaca Carina.

*Com agências de notícias.

Tira-dúvidas

Quem tem direito à revisão da vida toda?

Podem solicitar a revisão os aposentados que tinham, antes de julho de 1994, média salarial maior do que no final da carreira, para que essa média possa ingressar no cálculo da aposentadoria. Como os benefícios previdenciários têm prazo decadencial (aceitável) de revisão fixado em 10 anos, as pessoas que podem ingressar com a revisão da vida toda são as que tiveram aposentadorias concedidas depois da Lei 9.876 de 1999, quando mudou a regra, e antes da reforma da Emenda Constitucional 103, de 2019, desde que dentro do prazo aceitável.

O que é preciso considerar antes do pedido?

Para saber se vale a pena fazer a revisão, é preciso colocar o cálculo em uma planilha e simular. É preciso considerar que as contribuições anteriores a julho de 1994 envolvem planos econômicos diferentes e demandam atualização monetária. A dica, para tanto, é procurar um especialista.

Que documentos são necessários?

A base de dados do Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS) do INSS foi instituída em 1989. Por isso, são poucos os registros pregressos a essa data, razão pela qual o segurado precisará ter em mãos documentos da época capazes de comprovar os salários, preferencialmente, mensais. A carteira de trabalho é importante, mas além dela é recomendável apresentar contracheques, folhas de pagamento e algo que mostre qual era o salário efetivo, pois o ônus da comprovação é sempre do aposentado. Sem a documentação, a base passa a ser o salário mínimo, o que derrubaria as vantagens do benefício.

Ao que se deve ficar atento?

Os benefícios previdenciários têm prazo de revisão fixado em 10 anos. Ao se considerar esse período, que começa a contar a partir da efetivação do depósito do primeiro pagamento do primeiro benefício, as aposentadorias recebidas antes de dezembro de 2012 já estão fora da nova regra, salvo se os beneficiários já tenham ingressado com pedido por via judicial ou administrativa (no INSS), pois isso interrompe o prazo decadencial.

Qual o prazo ideal para acionar o INSS ou a Justiça?

Se a pessoa calcula e conclui que vale a pena pedir a revisão, é preciso fazê-lo logo para interromper o prazo decadencial. No caso administrativo, direto no INSS, os pedidos não estão sendo analisados. Na Justiça, as ações estavam sobrestadas, ou seja, em espera pela decisão do Supremo. Mas a partir da manifestação pelo direito, em ambos os casos, o prazo decadencial é interrompido - o tempo pode passar, mas o direito a revisão estará garantido.

RAFAEL VIGNA*


02 DE DEZEMBRO DE 2022

DIÁRIOS DO PODER

O apagão da gestão Bolsonaro

Dias atrás, vi o delegado gaúcho Andrei Augusto Passos Rodrigues, chefe da segurança do presidente eleito, Lula, assistir, em uma das tantas coletivas do governo de transição, em Brasília, ao ex-governador do Maranhão Flávio Dino dizer que a Polícia Federal não tem dinheiro nem sequer para pagar as diárias dos agentes que garantirão a posse, no dia 1º de janeiro. Vivíamos o contingenciamento que obrigou a PF interromper a produção de passaportes.

A fala de Dino, cotado para o Ministério da Justiça, escancarou um cenário devastador, que abrange também a Polícia Rodoviária Federal (PRF), no qual faltam recursos para abastecimento, manutenção de viaturas, diárias e passagens.

Fossem apenas as falas das coletivas no QG da transição, poderíamos insinuar a catastrofização de um contexto pelo olhar de quem se saiu vitorioso da eleição e que pretende ver o atual governo sangrar pelas próximas horas, até a transmissão de poder, marcada para as 15h do dia 1º.

Mas o que se vê, no apagar silencioso das luzes dos quatro anos de mandato de Jair Bolsonaro, é uma admissão de paralisia da máquina pública. Conforme o Relatório de Receitas e Despesas do Ministério da Economia, as pastas da Educação e da Saúde sofreram os maiores bloqueios do orçamento no quinto bimestre.

Dos R$ 5,3 bilhões contingenciados, R$ 1,4 bi foram para a Educação - R$ 300 mi para as universidades federais, muitas delas gaúchas - e R$ 1,3 bi para a Saúde. No ano, o maior bloqueio, R$ 3,9 bi, foi para o Ministério do Desenvolvimento Social.

O argumento é a necessidade de que as despesas não ultrapassem o teto de gastos. E, assim, seguem os bloqueios: Ministério da Defesa, R$ 559 milhões; Ciência e Tecnologia, R$ 379 milhões; e Infraestrutura, R$ 349 milhões. Por trás dos números, normalmente frios, há pessoas. E usemos o exemplo do Ensino Superior para ilustrar que os R$ 344 milhões, que, felizmente, o governo resolveu desbloquear ontem servem para pagar energia elétrica, bolsas de estudo e funcionários terceirizados, que, por exemplo, fazem a limpeza de salas e banheiros.

Estive também esta semana no Palácio Planalto - e a sensação é de ocaso, de "vamos terminar logo com isso". Se, possível, acelerando os dias: o próprio Bolsonaro lamentou, recentemente, tempo longo entre o segundo turno e a posse. Ainda que tenha comparecido a seu local de trabalho poucas vezes desde a eleição, Bolsonaro não abandonou a política, ainda que se possa imaginar diante de seu silêncio.

Participou ativamente das reuniões que levaram o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, a entrar com a ação no Superior Tribunal Eleitoral (TSE) argumentando supostos problemas nas urnas eletrônicas de 2020 para trás. Também tem trabalhado para evitar, agora que Arthur Lira está de braços com Lula, a reeleição à presidência da Câmara. E, de birra, interrompeu o fluxo das verbas das emendas de relator - como um Vladimir Putin a fechar as torneiras do gás para a Europa.

PP e Republicanos abandonaram o PL em sua luta inglória e solitária contra o resultado das urnas. Pragmático e de olho no poder, Lira está com Lula. O centrão migra para Lula. O PL está sozinho. Bolsonaro está sozinho.

Principal pensador da política externa no governo Lula, ministro das Relações Exteriores (1993 e 1995 no governo Itamar Franco e entre 2003 e 2010, nas gestões do PT), Celso Amorim terá, certamente, um papel fundamental no novo mandato. O ex-chanceler é cotado para ser o assessor presidencial, invertendo uma dobradinha que Lula adotou nos dois primeiros mandatos, em que Amorim era o ministro e o gaúcho Marco Aurélio Garcia o auxiliar. Ou, mesmo, voltar a ser o titular do Itamaraty. Ele atendeu a coluna rapidamente, ontem.

Sabemos como a política externa andou nos dois mandatos de Lula, a sua visão de relações internacionais, mas o mundo mudou de lá para cá. O que é necessário readequar no futuro governo Lula?

Naquela época, as coisas eram mais ou menos claras, as abjeções de defesa do interesse do Brasil, por isso acentuei muito, por orientação do presidente Lula, a questão da política ativa e altiva, isto é, nossa capacidade de fazer agenda internacional e não nos inibirmos de mobilizar esforços nesse sentido. E também não aceitar a agenda dos outros, como era o caso da Alca, a maneira como estava sendo colocada a negociação da OMC (Organização Mundial do Comércio). 

Problemas desse tipo não desapareceram de todo, mas, hoje em dia, você tem razão, o mundo mudou consideravelmente. Não víamos, em 2002, 2003, risco de uma guerra mundial, por exemplo, ou nu­clear, ainda que limitada. Nem sequer risco de guerra no coração da Europa, embora víssemos já ações unilaterais, como já tinha ocorrido no Iraque, na Sérvia, e outras. Independentemente de julgar o mérito, eram ações condenáveis às luzes do multilateralismo. Mas agora acho que é um problema diferente: estamos com uma ameaça planetária, que é a mudança climática. 

Não é mais questão para se discutir se sim ou se não, mas o que devemos fazer. Tivemos com a pandemia, que não está totalmente dominada, a demonstração de que outros riscos existem, não sei se propriamente a sobrevivência da humanidade, mas as condições de vida e até uma certa arrogância na forma de viver e de se relacionar com a natureza. E temos a guerra no coração da Europa, no coração geopolítico do mundo, sem falar na continuidade dos problemas gerados pela desigualdade, pobreza, pela fome. 

Acho que, ao invés de ver questões pontuais que o Brasil tinha de resolver, o país hoje tem de estar envolvido de maneira mais ampla no encaminhamento do conjunto dessas questões. Não são questões para o Brasil ou do Brasil. São para o Brasil também. Mas são para o mundo, então, acho que isso nos obriga a outra visão do mundo. Claro que isso não exclui questões que já existiam, como a necessidade de integração sul-americana, a busca da multipolaridade, mas a forma de buscar é diferente. E a urgência de mudança na governança global para evitar essas questões é muito maior.

Com relação à disputa entre Estados Unidos e China, o senhor é um defensor do pragmatismo brasileiro, de não comprar briga de nenhum dos lados. É esse o caminho?

Pragmatismo não significa que você não tenha os seus valores. Mas, obviamente, não temos de entrar nessa briga. Aliás, fiquei satisfeito, depois do encontro do presidente Joe Biden com o presidente Xi Jinping no G20, que não necessariamente teremos uma Guerra Fria. Não há por que temer uma Guerra Fria. É isso que queremos, um mundo em que a cooperação prevaleça sobre o conflito. E o que pudermos fazer para contribuir, faremos.

E com relação ao Mercosul e o acordo? A ideologização parece que sempre atrapalha. O que vocês pretendem?

Não acho que seja um problema de ideologia. Qual acordo?

O acordo entre o Mercosul e a União Europeia.

Temos hoje duas questões importantes a tratar: uma é Mercosul-União Europeia, do ponto de vista de uma visão mais global, um acordo entre a América do Sul em geral, e o Mercosul em particular, e a União Europeia. É importante estrategicamente para esse mundo multipolar, mas isso não significa que esse acordo como foi firmado seja intocável. Os próprios europeus querem tocar na questão do clima. Tudo bem, desde que não seja nenhum protecionismo escondido por detrás disso. 

Por outro lado, também temos o desejo de receber investimentos, queremos desenvolvimento tecnológico. Como esse acordo foi firmado às pressas, abriu concessões, a meu ver, excessivas. Então, é preciso revisitar. Não estou dizendo que é preciso reabrir tudo, começar tudo de novo, mas tem de ser revisitado. Mas, claro, isso vai depender também de outras áreas de governo, não sei nem exatamente em que área vou estar, se vou estar. Mas essa é uma questão. 

A outra questão, que revela que não é ideológica, é a questão do Uruguai em relação ao Mercosul e a constante busca de acordos em separado. Durante o governo da Frente Ampla, sobretudo durante o governo Tabaré Vásquez, o ministro da Economia uruguaio queria porque queria fazer um acordo com os EUA. Hoje, eles têm um governo de direita e querem fazer um acordo em separado com a China. A gente tem de entender isso, não é questão ideológica necessariamente. Mas há uma insatisfação do Uruguai em relação ao Mercosul que temos de compreender e para qual temos de trabalhar.

DIÁRIOS DO PODER

02 DE DEZEMBRO DE 2022
EDUARDO BUENO

A COPA

A Copa do Mundo original foi esculpida pelo francês Abel Lefleur, em 1929, em ouro 18 quilates com a imagem de Nike, deusa grega da vitória, e pedras semipreciosas encrustadas na base. Pesava quatro quilos e tinha 55 centímetros. Virou taça Jules Rimet em 1946 - em homenagem ao idealista que, inspirado no Barão de Coubertin, criou o campeonato mundial de futebol. Ficou decidido, desde o início, que quem conquistasse três vezes o torneio, ficaria com o troféu para sempre.

Em março de 1966, quando já havia três bicampeões (Uruguai, Itália e Brasil), e a taça tinha passado toda a Segunda Guerra escondida numa caixa de sapatos, o troféu foi roubado na Inglaterra, onde a Copa seria disputada. "Isso jamais aconteceria no Brasil", disse um dirigente inglês. "Lá, até os ladrões amam futebol". A Scotland Yard escapou do vexame graças a Pickles, cão da raça collie, que encontrou a taça entre arbustos de um parque.

"A taça do mundo é nossa/com brasileiros, não há quem possa": composta em 1962, a marchinha virou realidade em 1970, no México, quando o Brasil ganhou seu terceiro título e passou a ser dono do troféu "para sempre". Mas a eternidade só durou até 1983, quando a taça foi roubada, derretida e fundida por um ex-PM carioca (nossa!) e um joalheiro... argentino (nooooossa!). O Brasil deveria ter sido banido do futebol, mas não só foi perdoado como ganhou duas outras edições do Mundial.

Antes de virar lingote, a taça estivera nas mãos dos uruguaios em 1930 (após uma batalha campal contra seus vizinhos argentinos) e, a seguir, erguida duas vezes consecutivas pelo líder fascista Benito Mussolini, em 1934 e 1938. Nas duas ocasiões, ele enviara um bilhetinho para os jogadores da Itália onde se lia: "Vencire o morrire". Em 1950, após quatro anos escondida na caixa de sapatos sob a cama de um dirigente italiano, a taça voltou a ser uruguaia, em pleno Maracanã. Em 1954, os alemães ergueram o troféu, no qual, felizmente, Hitler nunca havia tocado (embora assim o quisesse). Em 1958, enfim deu Brasil, que bisou a conquista em 1962, foi bisonho em 1966 e em 1970, em plena ditadura militar, virou dono da taça, que deixaria desaparecer.

Moral da história: a Copa nunca mais foi a mesma e o que agora está em jogo é só um simulacro. Até porque a taça atual, feita em 1974, não sai mais da sede da Fifa, na Suíça. O vencedor leva só uma réplica. Ou seja, quem ganhar no Catar poderá dizer: "A cópia do mundo é nossa".

EDUARDO BUENO

02 DE DEZEMBRO DE 2022
INFORME ESPECIAL

O papel de um líder

O homem mais rico do mundo, que já foi definido como um ícone da "liderança criativa" e invejado pela forma pouco ortodoxa como conduz os negócios, está dando o que falar. De novo. Depois de ter viajado ao espaço na própria aeronave e arrematado o Twitter (rede social com mais de 200 milhões de usuários) pela bagatela de US$ 44 bilhões, Elon Musk (na foto) virou exemplo... do que não fazer. Pois é.

Na acepção ampla do termo (não estou falando apenas de executivos), líderes são fundamentais na sociedade. São eles (ou elas) os indutores de grandes mudanças e de quebras de paradigma. Pela capacidade de engajar, funcionam como guias em momentos de transformação.

O problema é quando esses faróis - em especial figuras de grande visibilidade midiática - cegam ou emitem sinais errados. Parece ser o caso de Elon Musk.

O novo dono do Twitter fez o contrário do que orientam todas as cartilhas da boa gestão. Para citar apenas um exemplo, mandou um ultimato aos colaboradores por e-mail, dizendo mais ou menos assim: ou você deixa de ser preguiçoso, assumindo uma cultura de trabalho "extremamente hardcore" e virando noites por mim, ou caia fora. Não deu outra: centenas de funcionários pediram demissão no dia seguinte, provocando um baque na operação do negócio. Baita tiro no pé.

Um líder de fato é alguém que inspira. É alguém que não precisa ameaçar os subordinados ou gritar para chegar onde quer. No fundo, é aquele que atrai as melhores pessoas para perto de si, porque personifica um propósito de vida, algo que dê orgulho. Ególatras arrogantes já eram.

Arte gaúcha na terra da Copa

O criador do Mural Lutz - pintado recentemente em homenagem ao ambientalista José Lutzenberger, em Porto Alegre - deixou sua marca no país da Copa do Mundo.

Formado no Instituto de Artes da UFRGS, Kelvin Koubik coloriu a fachada do Centro Cultural Katara, em Doha, em uma ação que teve a parceria da Embaixada do Brasil na cidade. Com elementos da natureza, a obra (veja as fotos) ganhou o nome de Borderless (sem fronteiras).

- Decidi pintar esse tema a partir da perspectiva das aves, afinal, elas não têm fronteiras - conta o artista, que tem ateliê na Vila Flores, na Capital.

O painel tem 10 metros de altura e levou 10 dias para ficar pronto, mais do que o habitual, segundo Koubik, em razão do forte calor no Catar.

JULIANA BUBLITZ

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022


01 DE DEZEMBRO DE 2022
ZÉ VICTOR CASTIEL

Hora de uma reflexão importante

Já se passaram 30 e poucos dias das eleições presidenciais e o clima continua como se ainda houvesse uma campanha. As hostilidades entre eleitores são visíveis e absolutamente incríveis. De um lado, brasileiros que não se conformam com os resultados, baseando-se em tudo o que leem nas redes sociais, sem nunca tentar se certificar se as informações são realmente verdadeiras. De outro, brasileiros fazendo proliferar, também, pelas redes e atitudes, seu desdém e desinformação. O resultado é nefasto.

Minha ingenuidade presumia que, terminadas as eleições, as pessoas retomariam suas caminhadas e continuariam a tocar suas vidas, ajudando o país a se levantar. É necessário enveredarmos para o lado da razão. Nem a Copa do Mundo, que sempre foi um momento de confraternização patriótica em torno do futebol, está conseguindo modificar a situação de relações belicosas e altamente prejudiciais ao progresso do Brasil.

Está mais do que na hora de o maior número de pessoas darem-se conta de que, da maneira como estamos agindo, nada vai para a frente. Talvez seja a hora de uma reflexão importante, qual seja, a de que quanto mais tempo devotarmos ao ódio e altercações, menos teremos para resolvermos nossos problemas pessoais cotidianos, e esses são os que realmente são importantes.

Não é possível que parte da torcida brasileira torça contra um atleta que declarou seu voto em um candidato que não era o da preferência do detrator e muito menos que um artista de 80 anos, quase um símbolo da cultura brasileira, seja hostilizado por um homem jovem e, possivelmente, com muito mais responsabilidades a cumprir do que ficar gravando vídeos para postar na internet com demonstrações de violência verbal.

Estamos entrando no mês de dezembro. É justamente nesta época que as pessoas mais participam de solenidades e confraternizações. A época de Natal sempre foi o período de maiores manifestações de solidariedade, carinho, gratidão, encontro entre amigos e reuniões familiares. Mas como poderá acontecer isso se existem amigos que já nem mais se falam e famílias estão rachadas por discussões que, na verdade, já não têm mais razão de existirem? Sim, porque as pessoas discutem como se estivessem falando de futebol, até porque de política e políticos, na maioria, entendem muito pouco.

Não, meus amigos. Todos estamos errados. Vamos tentar arrefecer os ânimos e partir para um Ano-Novo realmente cheio de esperanças, planos e realizações.

Do jeito que está é insano.

ZÉ VICTOR CASTIEL

01 DE DEZEMBRO DE 2022
ARTIGOS

A BOLA VAI ROLAR ATÉ O NATAL

Para quem gosta de emoções fortes e muita estratégia, temos pela frente semanas de um campeonato tão midiático quanto a Copa do Mundo do Catar e com bola rolando até a final, em 25 de dezembro. E ainda pode ter prorrogação, porque a semana posterior ao Natal é movimentada pela troca de presentes. O estado de alerta do varejo já vem de meses porque os lojistas sabiam que seria um fim de ano atípico e inédito. E o consumidor para onde está olhando?

Se o sentimento das pessoas pudesse ser traduzido em emojis, teríamos três imagens emblemáticas. A cabeça fervente sinaliza: "Só de saber o que ainda tem por vir neste fim de ano, já torrei meus miolos". Tem também o da gratidão - "Acho que só temos que agradecer, porque, no final de 2021, a gente tava bem pior". E o terceiro traz uma expressão pensativa, algo como: "Vou botar a cabeça para funcionar para aumentar a minha renda porque a conta não tá fechando".

Esse último ratifica um dos principais propósitos das pessoas, que é renegociar ou quitar débitos, voltar ao jogo do crédito e do consumo. Porém, os consumidores estão demonstrando a consciência de que não adianta ter a oportunidade se não houver condição de honrar o compromisso. Tanto que a maior parte pretende usar o 13º para pagar dívidas e se livrar das pendências. Muitas demonstram determinação em aumentar a receita. São comportamentos que remetem a uma maior maturidade e a uma nascente educação financeira.

Resiste um otimismo em relação ao apagar das luzes de 2022, pois, quando questionadas sobre a perspectiva para o novo ano, mais de 80% das pessoas acreditam que 2023 será melhor em comparação a 2022. O Natal é envolto por uma certa magia. O apelo não se limita ao aspecto comercial da compra do presente. É emocional e emotivo, é o estar presente.

O desafio do lojista e do empreendedor é comunicar diferentes mensagens ao mesmo tempo e ao mesmo destinatário. As marcas precisam se posicionar como opção aos consumidores. Um ponto é pacífico: pensar no cliente, como ele gosta, ser relevante e disponível na jornada de compra. Afinal, é assim que se constroem vínculos. Não só para o final, porém para o ano inteiro. E temos 2023 inteirinho pela frente. 


CORREÇÃO DE EXCESSOS

Com a PEC da Transição protocolada no Senado e a chegada do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, a Brasília para liderar as articulações políticas, está em curso a fase mais decisiva em torno das tratativas que vão moldar a redação a ser submetida ao voto dos parlamentares. Até aqui, o futuro governo cedeu especialmente no prazo. 

A intenção inicial era deixar indefinidamente o Bolsa Família fora dos limites impostos pelo teto de gastos, mas o texto que chegou para a primeira análise dos senadores prevê quatro anos de excepcionalidade. É típico da arte de negociar partir do que seria o ideal para as partes nos lados opostos do balcão até se chegar a um consenso.

O mesmo vale para o montante previsto de gastos extrateto. O governo que vai assumir em janeiro pede uma licença de R$ 198 bilhões, mas todas as sinalizações apontam para um valor final abaixo, talvez da ordem de R$ 150 bilhões. Sequer o prazo deve permanecer em quatro anos e possivelmente diminua para dois.

É dever do Congresso corrigir os exageros da PEC da Transição para se alcançar um acordo responsável que assegure o benefício prometido por Lula - e também por Jair Bolsonaro - no valor de R$ 600, além dos R$ 150 a mais por criança de até seis anos, outro compromisso do petista. Ao longo das tratativas, no entanto, também deve ficar claro como e onde a nova gestão pretende fazer os demais gastos a partir do espaço aberto, assegurando ao máximo possível que não será assinado um cheque em branco para a próxima gestão.

Não se põem em dúvida as urgências sociais do país, mas da mesma forma seria imprudente flertar com a irresponsabilidade fiscal. Uma sinalização de torneiras abertas para a gastança certamente impactaria indicadores financeiros que nada têm de abstrato: afetam a vida real, o dia a dia dos cidadãos, o ritmo da economia e o apetite para os investimentos produtivos. É preciso evitar, da mesma forma, que a barganha implique a criação de novos jabutis, como são chamadas demandas de grupos de interesse, parlamentares ou não, que acabam penduradas em textos em avaliação no Congresso. Geralmente não têm relação com o tema principal e significam mais gastos.

Os últimos dias também têm sido um banho de realidade em relação a como expectativas de campanha muitas vezes colidem com o pragmatismo. Antes da eleição, Lula chegou a chamar de "imperador" o presidente da Câmara, Arthur Lira, classificar o orçamento secreto de "excrescência" e prometer que acabaria com o mecanismo que concentra poder no Congresso. O fato, no entanto, é que o petista precisa de Lira para aprovar a PEC e para a governabilidade. 

Ontem, os dois voltaram a se encontrar. O deputado, aliado de Jair Bolsonaro e adversário do PT, recebeu da sigla e de outras agremiações de esquerda o compromisso de apoio à sua candidatura à reeleição no comando da Casa. Não se ouviu mais falar em fim das emendas de relator, apesar de continuarem sendo uma distorção que mereceria ser enterrada. É a realpolitik em ação em Brasília. 


01 DE DEZEMBRO DE 2022
TULIO MILMAN

A Copa e o copo

São justas e, ao mesmo tempo, exageradas as críticas ao Catar, o país da Copa. Justas, porque o relativismo cultural não pode ser confundido com vale-tudo. Cada povo tem seus hábitos e costumes, mas devemos, todos, lutar por valores universais. Entre eles, a liberdade de fé, de pensamento e de identidade de gênero, sem margem para qualquer espécie de discriminação. Há também as denúncias de mortes e de trabalho escravo na construção dos estádios, lamentáveis e inaceitáveis. O Catar está longe de ser uma democracia, muito longe. Por tudo isso, ferro neles.

O país-sede da Copa tem mais de 60% do PIB ligado ao petróleo. As exigências de sustentabilidade ambiental e as pesquisas com energias limpas indicam que o fim desse ciclo está cada vez mais próximo. A festa do dinheiro fácil vai acabar, o que é uma boa notícia, já que, além de poluir, o combustível fóssil sustenta algumas das ditaduras mais sanguinárias do planeta. A Copa é marketing para aumentar as receitas do turismo? Sim, mas vai além.

A realização de uma competição aberta para o mundo pode ser encarada como um bom sinal. Vimos, na cerimônia inaugural, apelos que passaram pela diversidade e pelo respeito.

Se um pássaro nasceu em uma gaiola, não adianta abri-la, pensando que isso significa liberdade. Com certeza, a ave morreria de fome ou pela ação do primeiro predador que cruzasse seu caminho. Mudanças culturais levam tempo. Exigem inteligência e perseverança.

Vale lembrar que, a cerca de 500 quilômetros dali, os Emirados Árabes Unidos assinaram recentemente um acordo de paz com Israel, precedido de ensaios que passaram pela presença de atletas israelenses em competições em Dubai, onde o hino do país, até então inimigo, foi tocado pela primeira vez. Um teste que deu certo. Israel não está na Copa, mas o Ocidente, sim.

Em 1991, a Argélia, que não tinha cultura democrática, realizou eleições livres. Os ultrarradicais religiosos da Frente Islâmica de Salvação venceram o primeiro turno. Não houve segundo. Um golpe, com o apoio do Ocidente, encerrou a conversa para sempre. Por isso, a Copa do Catar pode ser encarada como a metade cheia ou como a metade vazia do copo. Ou como ambas, o que me parece mais correto, já que as duas compõem um todo. De ar e de água, porque álcool é proibido por lá. Quanto a isso, nada a opor. Essa sim é uma questão cultural e religiosa que precisa ser respeitada.

TULIO MILMAN


01 DE DEZEMBRO DE 2022
INFORME ESPECIAL

Já pode chamar o síndico

Depois de mais de uma década de jornalismo, Félix Zucco (foto) decidiu que era hora de tentar algo novo. Aos 35 anos, trocou a câmera fotográfica - com a qual registrou milhares de imagens na carreira - por um balcão. Mas não é qualquer balcão.

Em um tradicional ponto na esquina da Rua dos Andradas com a General Portinho, Zucco acaba de abrir a Síndico Torra e Café, uma cafeteria cheia de personalidade, que reforça o movimento de renovação no Centro Histórico de Porto Alegre.

- Decidi transformar um antigo hobby em negócio. Desde o início, queria um grande balcão para receber as pessoas, inspirado na estética dos botecos clássicos, estilo rodoviária, com a cara do Brasil - conta o ex-fotógrafo de ZH.

O nome do empreendimento, claro, é um tributo ao cantor Tim Maia, que ressoa nas caixas de som junto de outros ícones da MPB. Mas as estrelas de fato são outras: as sacas de café, ainda verde, de São Paulo e do Espírito Santo, cujos grãos são torrados e moídos ali mesmo, para deleite da clientela. O resultado, acredite, é uma bebida (ao lado) naturalmente adocicada, de primeira linha. Se a vontade apertar, já sabe: chama o síndico!

Mais um passo rumo à mobilidade elétrica no RS

Um dos setores mais promissores da indústria automotiva do futuro está avançando no Rio Grande do Sul. Depois de iniciar a instalação do primeiro laboratório privado de testes de baterias para veículos elétricos do Brasil, o Parque Científico e Tecnológico da PUCRS (Tecnopuc) selou uma nova e promissora parceria.

A instituição será a sede brasileira da empresa sul-coreana Chaevi, líder na fabricação de estações de recarga no país asiático. Articulado pelo Labelo-PUCRS (complexo de laboratórios especializados em eletroeletrônica, calibração e ensaios) e pelo hub Plug Future Mobility, voltado a novos modelos de mobilidade, o acordo é mais uma etapa do trabalho que vem sendo desenvolvido para colocar o Estado no mapa-múndi do setor.

A Chaevi vai começar atuando em formato "softlanding", o que significa que, inicialmente, fará estudos sobre o mercado brasileiro e irá buscar conexões com futuros parceiros, trazendo sua experise para o solo gaúcho. Nessa fase, contará com a rede tecida pelo hub.

- A ideia é que a Chaevi use o ecossistema da PUCRS para desenvolver pesquisas e articulações. Isso vai gerar uma série de desdobramentos e, dependendo de como o país evoluir no mercado da eletromobilidade, a empresa pode inclusive instalar fábricas aqui. Quem sabe o Rio Grande do Sul não se torna o primeiro Estado verde do país? Temos tudo para isso e estamos no rumo certo - projeta o diretor do Labelo-PUCRS, Israel Teixeira.

JULIANA BUBLITZ

quarta-feira, 30 de novembro de 2022


30 DE NOVEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Um verso de Camões

Cristiano Ronaldo, quando não faz gol, ainda faz gol. Ele ultrapassou 800 gols na carreira, de tudo o que é jeito: de trivela, de calcanhar, de letra, e até de bicicleta pelo Real Madrid em quartas de final da Liga dos Campeões contra o Juventus, uma das mais perfeitas pedaladas no ar da história da competição europeia, com o pé muito acima da cabeça do defensor.

Agora fez um gol que nem mesmo Pelé conseguiu: um gol de corta-luz. O capitão lusitano, cinco vezes melhor do mundo (2008, 2013, 2014, 2016 e 2017), único jogador a marcar em cinco Copas, não precisou tocar na bola para ela entrar contra o Uruguai.

Mas a bola só entrou porque ele se posicionou na frente do goleiro uruguaio Sergio Rochet e empreendeu o movimento de cabeçada que camuflou o quique da pelota lançada por Bruno Fernandes, seu sucessor no reinado português.

Já tinha visto tudo o que é gol, até de barriga de Renato no Fluminense, mas jamais um gol tão poético como o do Cristiano Ronaldo, um gol que é heterônimo de Fernando Pessoa, um gol que é verso de Camões, um gol que "é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer".

Um gol de espírito, um gol de sopro, um gol de alma. Um gol ausente feito de uma presença assustadora na pequena área, do medo do arqueiro diante da lenda em carne e osso.

Um gol de cortina. Um gol que não permite a zagueiro algum entender o que está acontecendo.

Cristiano Ronaldo diz ter roçado na bola, talvez tenha comprovado a eficácia do seu gel e de seu penteado imutável. O atrito sequer desalinhou os seus cabelos, e deu a impressão de que não houve o contato. Quem sabe?

Na súmula da Fifa, o crédito foi para Bruno Fernandes, mas não é verdade. Não só do visível vive o futebol. O gol é de Cristiano Ronaldo, um gol sobrenatural, derivado de sua astúcia, de seu posicionamento, de sua mímica.

Hoje sem time, mas imbatível com a camiseta vermelha e verde, campeão de uma heroica Eurocopa, merece ter a sua autoria legitimada.

Com esse gol inusitado, imprevisível, ele se iguala a Eusébio como maior artilheiro da seleção portuguesa em Copas do Mundo (o Pantera Negra tem nove gols no Mundial de 1966).

É mais um recorde na sua trajetória profissional de superação. Aos 15 anos, ele foi diagnosticado com um problema no coração, quando estava na categoria de base do Sporting, e aconselhado a abandonar as chuteiras. Atravessou uma cirurgia e voltou a treinar, porque diagnóstico não é destino.

CARPINEJAR