domingo, 3 de setembro de 2023



30/08/2023 - 10h48min
J. J. Camargo

Quem serão nossos cuidadores?

Alardeamos a previsão de que nos tornaremos centenários, mas nosso corpo não foi programado para esses exageros. Devemos nos preocupar com o número crescente de idosos que dependem de assistência para os cuidados básicos.

A expectativa de vida da população de um determinado país tem sido usada como um critério de diferenciação social. O que é considerado coerente, porque afinal não se constrói longevidade sem alimentação suficiente, meio ambiente preservado, condições de moradia adequada e medicina qualificada, tanto terapêutica quanto preventiva.

Definido que vamos viver mais, duas perguntas deviam ser obrigatórias: para quê? E com que utilidade?

Em países mais desenvolvidos, como os escandinavos e o Japão, existem há algum tempo programas de reabilitação dos idosos, visando mantê-los produtivos e integrados à sociedade.

Uma política mais proativa não apenas qualifica a sociedade, pelo respeito que demonstra aos seus veteranos, mas também empresta ao idoso a chance de sentir-se útil, reconhecido como o melhor antídoto à tristeza e à depressão.

E a questão não é exclusivamente continuarem participando da preservação econômica do país, que afeta a todos; é também conservar intacta a autoestima dos nossos velhinhos, que de outra maneira estarão submetidos à sensação deprimente de hóspedes desesperançosos da sala de espera da morte. Uma política mais proativa não apenas qualifica a sociedade, pelo respeito que demonstra aos seus veteranos, mas também empresta ao idoso a chance de sentir-se útil, reconhecido como o melhor antídoto à tristeza e à depressão.

Antecipar a inutilidade em nome da aposentadoria pretensamente merecida só faz sentido àqueles portadores de limitações e dependências. Essas que, aliás, virão sempre com ares de injustiça, porque nos comportamos como se fôssemos viver para sempre. E nos surpreendemos ao descobrir que há um imenso descompasso entre o tanto que a medicina progrediu para aumentar a nossa expectativa de vida e o quanto a ciência tem patinado na busca de dignidade para esse adicional ganho com a protelação da morte. 

Sem avaliar consequências, alardeamos com euforia a previsão de que nos tornaremos centenários e mais adiante descobriremos, constrangidos, que o nosso corpo não foi programado para esses exageros. Na verdade, por otimismo exagerado, fingimos surpresa ao descobrir como é raro que, aos 70 anos, todos nossos órgãos e tecidos ainda funcionem a contento. E ficamos mais aflitos do que eufóricos com a promessa de três décadas adicionais, sem nenhuma garantia de que valerá a pena.

E mais devemos nos preocupar com o número crescente de idosos que dependem de assistência para os cuidados básicos. Alguns, ainda lúcidos o suficiente para atinarem que representam um peso insustentável para suas famílias, requerem suicídio assistido, como uma resposta desesperada ao sofrimento sem redenção. Outros, neurologicamente sequelados, representam um desafio para seus descendentes.

Os filhos bem-amados, com a plena consciência da responsabilidade de retribuir o cuidado de quem um dia os cuidou, se desdobram em desvelo até o fim, zelando por essa meia vida que se desencontrou da morte completa.

Mas até existe quem, por razões que desconhecemos, se expõe à execração pública ao colocar seu velhinho indefeso numa cadeira de rodas e abandoná-lo na calçada em frente à casa de um irmão, que, segundo se noticiou, se negava a compartilhar a tarefa.

A discussão das razões alegadas não vêm ao caso. Triste, muito triste, é que ninguém o queria.



02/09/2023 - 07h12min
BRUNA LOMBARDI

Popular na escola

Tive amigas com problemas bem maiores que os meus. Aprendi a transmutar suas dores com uma conversa, um doce, um cinema. Hoje percebo que elas me ajudaram mais do que eu as ajudei 

Normalmente eu era mandada para fora da classe por provocar risadas.

Outro dia me perguntaram se fui uma dessas meninas populares na escola. Não, não fui. Pelo menos nunca me senti. Eu me via meio esquisita correndo descabelada pelos corredores. Escolhia as amigas com mais problemas e maior senso de humor. Normalmente eu era mandada para fora da classe por provocar risadas. Eu e as loucas que gargalhavam comigo de castigo no corredor. 

Muitas vezes no recreio, sozinha, me enfiava na biblioteca descobrindo livros de poesia. Eu escrevia boas redações, mas isso não me classificava em popularidade, só ajudava a equilibrar a matemática, que era uma tortura, com a professora mais chata que se pode ter.  

Tinha problemas triviais, falta de saco para estudar, falta de grana, vivia confusa, detestava obedecer, tinha dificuldade de me encaixar nas regras, de sentir repressão. Escrevia diários onde confessava emoções repentinas. A euforia virava o mundo não me compreende, sou infeliz, na mesma frase.

Minhas três melhores amigas se autodefiniam problemáticas, e isso fazia eu me preocupar com elas mais do que comigo. O que me impediu de viver muito voltada para mim mesma nessa fase inicial da vida, quando o universo só gira em torno do nosso umbigo.

Tive amigas inseparáveis, grudadas, com problemas bem maiores que os meus. Fui compreendendo famílias disfuncionais. Comecei a conhecer sofrimentos que não tinha dentro de mim. O abandono de um pai, a mãe com depressão, o suicídio de um irmão. E falta de amor. 

O drama das amigas trazia temporais sem abrigo, e eu precisava tirar elas desse poço. Os problemas delas se agravavam por uma espinha na cara ou um amor secreto que as ignorava. Aprendi a transmutar suas dores com uma conversa, um doce, um cinema. 

Hoje percebo o quanto isso me ajudou. Elas me ajudaram mais do que eu as ajudei. Minhas três melhores amigas se autodefiniam problemáticas, e isso fazia eu me preocupar com elas mais do que comigo. O que me impediu de viver muito voltada para mim mesma nessa fase inicial da vida, quando o universo só gira em torno do nosso umbigo.

No entanto, eu precisava girar em volta delas, tentando aplacar ataques de choro, de fúria, de depressão, de não quero sair de casa porque eu tô feia e coisas assim. A gente comia vários pedaços de bolo com sorvete para depois se entregar ao açoite do arrependimento. 

Eu me via usando todos os meus recursos de alívio e consolo. Usando o meu arsenal de humor como distração. Eu precisava ser engraçada para tirar elas desses momentos de infelicidade.

Desenvolvi meu humor graças a elas e também por causa de minha mãe, que tinha um senso de humor extraordinário. Mas às vezes, derrubada por problemas cotidianos, se deixava abater. E era eu com piadas, palhaçadas e personagens que fazia qualquer esforço possível para ela ficar feliz.

Uma vez, na aula, tivemos que fazer um desenho para o Dia das Mães, e um menino começou a chorar. Disse que não tinha mãe. Fui eu que o socorri e sentei ao lado dele, com a minha invenção de gracinhas. Acho que essa sensação de poder fazer alguma coisa pelos outros se revelou cedo para mim e nunca mais me abandonou.

E assim consegui me salvar. Ao invés de ser o centro das atenções, era eu quem precisava prestar atenção nos outros.

De tudo o que aprendi na escola, isso foi o que mais me preparou para a vida.

02/09/2023 - 14h11min
Larissa Roso

 "Eu queria um olhar diante de todas as dores do mundo", diz Fabrício Carpinejar, que lança livro sobre luto

Lançamento do mais novo trabalho do escritor e colunista de GZH será neste domingo (3), na Bienal do Livro do Rio.

Fabrício Carpinejar no Cemitério São José, na Capital: "O luto seria reversível, cicatrizável, se você pudesse retornar a ser quem você era"

É como se Fabrício Carpinejar, poeta e colunista de GZH, escrevesse cartas destinadas diretamente a quem tem em mãos seu mais novo livro, Manual do Luto - Todas as Dores do Mundo (Bertrand Brasil, 144 páginas, R$ 49,90), que será lançado neste domingo (3) na Bienal do Livro do Rio.

A inspiração para os textos veio do grupo intitulado Clube dos Corações Solidários, em homenagem aos Beatles. São 25 mil pessoas com as quais o escritor se comunica semanalmente, por e-mail, em iniciativa organizada por uma empresa do setor funerário. 

"Viver é assustador", escreve Carpinejar, considerando as adversidades que atravessam todos os caminhos e a fragilidade do ser humano. "Se você ainda não sabe o que é perder alguém, não condene a duração de nenhuma saudade", afirma o autor no volume que trata das mais diferentes esferas da vida em que é sentida e lamentada a morte de um afeto.

Por que falar sobre o luto?

Porque é como se fosse uma invisibilidade. Você não nota quem está de luto. Só passa a reparar quando você entra em luto. É o que eu digo no livro. Se você se torna viúvo, você enxerga viúvos por toda parte. Se perde os pais, enxerga quem perdeu os pais por toda parte. E antes não conseguia enxergar. E você, quando tem uma perda, é prensado a se recuperar rapidamente. Não tem espaço para chorar, para refletir, para sentir saudade. Você não pode nem contar as histórias do outro, que soa como se fosse repetitivo, como se você tivesse que virar a página. Existe um hábito de quantificar a dor do outro pela proximidade. Mãe, pai, irmão, marido, esposa. E o luto tem a sua singularidade de acordo com o que foi vivido. Você pode sofrer por um amigo o que você não sofreu pelo pai ou pela mãe.

Você menciona, no livro, amigos que morreram. Quais foram suas maiores experiências com luto?

Não tive os avós vivos até o fim da minha infância. E eles foram sempre uma fonte de doçura, de acolhimento. Tanto que eu me esforço muito para guardar essas recordações do interior dos meus avós. É como se fosse um santuário porque tive pouco tempo de convivência. Tem os amigos, né? Sem sombra de dúvida. Tem os amigos dos pais. Os pais, a todo momento, estão indo a um velório. Eles se despedem aos poucos. É aquela sensação terrível de estar no velório de um amigo e olhar ao redor dos sobreviventes e pensar quem será o próximo.

Reprodução / Reprodução

"Manual do Luto", de Fabrício Carpinejar

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É um revés da idade, né? Quanto mais a gente vive...

A minha preocupação era falar da morte sem falar especificamente de uma perda minha. Porque senão seria absolutamente biográfico. Eu não estaria falando da morte, estaria falando da minha perda. O que eu queria era meditar a respeito do sofrimento sem ter um envolvimento direto. O que costuma acontecer com livros que tematizam o luto é que você está falando ou de um filho que perdeu, ou de um pai, de uma mãe... Você não está falando do luto. Você está falando do seu processo. Não que não tenha legitimidade, claro que tem, mas eu queria um olhar diante de todas as dores do mundo.

"Qualquer um que enfrenta o luto passa a limpo a sua trajetória, relê os seus rascunhos, percebe o quanto já foi feliz sem saber e o quanto foi infeliz sem necessidade", você diz na apresentação do livro. Fale mais sobre isso.

Você repara o quanto sofreu antes por bobagem, o quanto discutiu ou brigou por orgulho e o quanto, de outro modo, foi feliz e nem tinha noção do quanto aquilo era valioso. A saudade vem só depois. A saudade é um marcador de páginas na releitura.

Você afirma que "a dor encolhe depois de passarem vários anos da despedida, mas não some". Luto é para sempre?

É incurável, não é uma doença. É para sempre. O luto seria reversível, cicatrizável, se você pudesse retornar a ser quem você era. E não dá. Você vai enxergar tudo diferente. É como se despertassem em você os olhos da sensibilidade. O coração torna-se uma córnea. Você sente tudo com extrema vulnerabilidade. A questão do tempo modifica. Quando não tem o luto, você apenas se interessa pelos momentos inteiros, pelos períodos redondos, pelos círculos fechados. Você não comemora dias, semanas ou meses. Você só se interessa pelos anos. 

Já quando você tem o luto, o tempo se modifica para as frações. Em dias você é capaz de realizar uma década. Você muda a sua intensidade, a sua postura diante do tempo. Primeiro, você não vai mais adiar nada. Você tem uma urgência que se transforma em sinceridade. Se você não gosta de alguém, vai dizer que não gosta dessa pessoa. Se não quer ir a um compromisso, não vai ter pudor nenhum de recusar. Você assume as suas escolhas sabendo que não vai mais tolerar mentira. O luto acaba com a mentira. Você não tem como disfarçar sofrendo. Não tem como disfarçar suas emoções. Não tem como despistar, não tem como fingir, não tem como simular.

Você contradiz uma ideia muito repetida, a de que o sofrimento faz a gente aprender. Você afirma que o sofrimento "nem sempre gera aprendizado. Você pode ficar muito pior do que era". Por quê?

A gente tem ideia de que o sofrimento vai nos tornar sábios. Não é verdade. Há sofrimentos absolutamente inúteis e dispensáveis. Perder um filho não traz lição nenhuma. É um destino cruel. É romantizar a dor. É querer transformá-la em filantropia emocional. Não tem como. Você vai viver à míngua. É um deserto. Você não terá a alegria de antes. A sua alegria é devorada pela saudade.



02/09/2023 - 09h43min
Larissa Roso

Estresse depois dos 60 anos: causas, sintomas e como enfrentar o problema

Processo de envelhecimento apresenta uma série de desafios, como o fim da rotina profissional com a aposentadoria. Sintomas de estresse podem ser físicos ou mentais: falta de concentração, desconforto gastrointestinal, dor no pescoço e nos ombros

É comum projetar uma vida tranquila para depois dos 60 anos, época sonhada para a aposentadoria, uma rotina mais leve e o fim de grande parte dos problemas. Correto? Trata-se de um pensamento simplista. Justamente por causa do encerramento da carreira profissional é que muitos idosos perdem um dos principais elementos organizadores do dia a dia, e tudo que pode decorrer daí, como redução dos rendimentos e instabilidade financeira, torna-se grande causador de estresse.

Reação natural do ser humano diante de mudanças ou agentes agressores, o estresse se torna maléfico quando intenso, com potencial para provocar adoecimento físico e mental. O transcorrer do processo de envelhecimento apresenta uma série de desafios. De acordo com o psiquiatra geriatra Gabriel Behr, do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), ocorrem, por conta disso, mudanças transitórias e permanentes, capazes de gerar sintomas de estresse, na vida das pessoas. Uma doença crônica como a demência ou a morte do cônjuge são mudanças permanentes. Um evento tipo a aposentadoria provoca mudanças transitórias, que requerem ajustes.

— A aposentadoria não traz só a parada do trabalho. Exige reprogramar toda a vida. É muito comum ver idosos que, a partir daí, passam a conviver mais como casal, o que exige toda uma readaptação para uma vida conjunta. Isso pode gerar estresse ou sintomas de ansiedade e depressão, mas o idoso vai acabar se adaptando em um novo estado de equilíbrio — afirma Behr.

— A pessoa é tomada de um susto por uma mudança radical na vida: queda de renda, perda de status social. Muitas vezes, tem que mudar de casa e tipo de alimentação. Fica com o dia a dia empobrecido. Uma coisa é se organizar: "Quando eu ficar velho, vou plantar orquídea, fazer trabalho voluntário, buscar os netos na escola". A pessoa se sente um ser ainda desejante e inserido no cotidiano, útil para os familiares. Mas se estiver se sentindo um peso, inútil, ela acorda, fica esperando a hora do almoço, dorme, acorda para a novela. A vida fica esvaziada de sentido — comenta Maria Benedita, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Viuvez é desafio maior para os homens

Uma série de outros motivos é capaz de provocar estresse na terceira idade — ou até mesmo desencadear quadros de ansiedade e depressão. A morte de pessoas próximas, especialmente a do cônjuge, é um dos principais gatilhos para estresse, muitas vezes provocando sintomas permanentes, frisa Behr. A viuvez, segundo Maria Benedita, costuma ser um desafio maior para os homens do que para as mulheres, devido às características de comportamento e de autocuidado. A solidão, por sua vez, é outro estressor bastante comum, que tem componentes bem contemporâneos, como a inabilidade para lidar com celulares e outras tecnologias.

— Nunca ficou tão perto estar longe. O idoso pode ter um filho na Austrália e falar com ele duas ou três vezes ao dia. Esse filho pode participar de uma consulta remota com o pai e o médico. Mas o idoso com analfabetismo digital não consegue nem pedir um carro por aplicativo, fica estressado, até com tremores. Os analfabetos digitais ficam com medo de golpes e acabam não tendo banco digital, deixam de usufruir de benefícios dessas coisas novas — observa a psiquiatra e psicogeriatra.

Questões ligadas à saúde também estressam. O idoso que assume o papel de cuidador de um familiar se coloca na desafiadora posição de tomar conta de uma pessoa doente, fragilizada, que pode se descaracterizar de forma profunda, como no caso de uma demência. As demandas físicas e mentais da tarefa geram muito estresse. Por outro lado, há os problemas do próprio indivíduo, como dores crônicas. O idoso acaba tendo de conviver com doenças dolorosas, articulares ou musculares, que podem não causar desconforto fortíssimo, mas são persistentes. A qualidade de vida cai, sobressaindo-se o desânimo pelo fato de o incômodo não cessar. E o envelhecimento traz outras limitações, conforme o psiquiatra Gabriel Behr:

— Quando a gente vai perdendo vigor físico, começa a aparecer a perda de autonomia, apresenta dificuldades para fazer das coisas mais complexas até as mais simples. Frequentemente, precisa-se da ajuda da família e de cuidadores. Isso tudo gera muito estresse.

sábado, 2 de setembro de 2023


02/09/2023 - 05h00min
Rosane Tremea

Um “pulinho” até a Bélgica

Com pouco mais de 11 milhões de habitantes, o país é um dos mais densamente povoados da Europa 

Castelo dos Condes, em Ghent

Talvez a Bélgica não esteja entre as suas viagens dos sonhos. Acho até que é um pouco negligenciada por quem visita a Europa (ou será que falo só por mim?) Demorei para incursionar por lá, da primeira vez indo só à capital, Bruxelas. Na segunda, há menos tempo, os destinos foram a surpreendente Ghent (ou Gent, ou Gand) e a mais popular, mas não menos interessante, Bruges. 

Com pouco mais de 11 milhões de habitantes, população equivalente à do RS, a Bélgica é um dos países mais densamente povoados da Europa (363 hab/km² contra os 232,24 km² da Alemanha ou, se quiser uma comparação mais local, os 42,5 hab/km² do RS) e faz fronteira com França, Alemanha, Holanda e Luxemburgo. No país há três comunidades diferentes (flamenga, francesa e a germanófona) e três idiomas oficiais (holandês, francês e alemão), o que torna tudo mais diverso. 

Diversidade, aliás, também é a palavra quando se fala de turismo, lazer e cultura – dos passeios de bicicleta às visitas a castelos e pequenas vilas, de caminhadas em florestas a feiras de antiguidades, dos festivais de música aos eventos e exposições internacionais.

Este texto destaca duas cidades citadas lá no início, mas Bruxelas, uma das sedes do Parlamento Europeu, com um importante conjunto de arquitetura Art Nouveau, não deve ser deixada de lado. Das exposições temporárias às permanentes, não esqueça que a Bélgica é terra de artistas e pintores como Rene Magritte (a visita ao seu museu é indispensável) e criadores como Hergé, que deu vida a Tintim (conheci um pouco mais da história no Belgian Comic Strip Center). Sim, é a terra da cerveja, dos queijos, da batata frita e do chocolate, mas eu destacaria, pelo menos em Bruxelas, os doces árabes: as vitrines parecem de joalherias. Antes que eu me estenda mais, vamos aos recortes:

Ghent 

Minha base nesta viagem, a cidade surpreende pela vitalidade e pela iluminação cênica criada por designers. Como não está entre as principais opções turísticas da Bélgica, não à toa ela apela aos visitantes que permaneçam “mais de uma noite”. Sem saber do slogan, fiquei. Aqui não é preciso andar muito para dar de cara com o Castelo dos Condes, construído em 1180 e hoje bem no miolo de Ghent, ou para surpreender-se, não muito longe, com o moderno prédio da biblioteca universitária, erguida sobre um canal nos anos 2000. Por todo lado, grafites convivem com prédios medievais, sem agredi-los.

Essa mistura a deixa vibrante sem tirar-lhe o ar de tranquilidade. Além do já citado Castelo dos Condes, visita obrigatória, eu quis ver o painel (na verdade, um total de 18 painéis) conhecido como A Adoração do Cordeiro Místico, dos irmãos Van Eyck, de 1432, uma das maiores obras de arte já produzidas, na Catedral de São Bavão. Na mesma praça, subindo ao Campanário, no alto do qual fica o dragão símbolo de Ghent, vê-se a cidade quase inteira. Acho que não mencionei que a comida, na Bélgica, é celebrada de maneira especial – é um dos pontos onde há mais restaurantes com estrela Michelin por metro quadrado...

Mas você não precisa ir tão longe. Mesmo nos lugares mais simples come-se muito bem, dos cones de papel com batatas e legumes aos waffles. Ah, um presente ou lembrança especial pode ser um potinho de cerâmica com a celebrada mostarda produzida aqui. E ainda que possa torcer o nariz, literalmente, para eles, é preciso provar os “cuberdons”, balas de goma arábica em formato de nariz – a mais tradicional, arroxeada, vem no sabor framboesa.

Bruges 

O centro histórico inteiro foi tombado como Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 2000, após vários prédios merecerem a distinção em anos anteriores – arquitetos costumam chamar a atenção para a unidade visual da cidade, sem ruídos ou deturpações. A peculiar rede de canais que faz sua ligação com o mar lhe deu o título de “Veneza do Norte”. Bruges é tão arrumadinha que parece de mentira. 

A primeira bolsa de valores (em frente à casa dos comerciantes “Van der Beurse”) nasceu aqui e ela chegou a ser um dos centros comerciais mais importantes da Europa. Apesar disso, a cidade foi abandonada e entrou em decadência, mas ressurgiu no século 19 e, mesmo tendo sido base para os nazistas na Segunda Guerra, acabou poupada da destruição. Para além do patrimônio arquitetônico, em Bruges é valorizado o patrimônio imaterial, como as procissões (desde 1304, um desses eventos transporta a relíquia do Sangue Sagrado pela cidade) e a arte flamenga. Outro espetáculo tradicional é ouvir os carrilhões do Campanário, na Praça do Mercado, também tombado. 

Por último, mas não menos importante, a cerveja é igualmente patrimônio imaterial (na cidade, há duas cervejarias e um museu da cerveja, e nos arredores há cervejeiros artesanais). Como eu passei um dia apenas, o que é sempre pouco, degustei cervejas no 2Be, na área conhecida como Rozenhoedkaai, que concentra a maioria dos bares e restaurantes e é um lugar lindo para se estar e fotografar.

02/09/2023 - 09h00min
Martha Medeiros

Só quem pode me cancelar sou eu

Recomendo prestar mais atenção à nossa integridade do que na reação de seguidores desconhecidos. A maioria dos seguidores volta, porque a razão de seguir era mais forte do que o desdém temporário

Você tem o direito de discordar do que penso. Talvez tenha se decepcionado com algum texto do passado e nunca mais tenha restabelecido contato comigo nas redes sociais. Um dia me seguiu e outro dia escapuliu, não sem antes avisar (“deixando de te seguir”, o terrorismo básico). 

Enfim, você tem o meu respeito, mesmo que me odeie, pois o ódio é apenas um dos lados da moeda e estamos todos sujeitos a ele. Mas você não tem o poder de me cancelar. Ninguém cancela ninguém, é só um verbo da moda.

Se não foi comigo, foi com outra pessoa. Você discordou das posições de um humorista, de uma influencer, de um jornalista. Só que eles continuam existindo à sua e à nossa revelia, pois você e eu não temos o poder de aniquilar a carreira de ninguém, a não ser que a própria pessoa tenha colaborado muito para isso – sendo negligente, mentirosa, corrupta, sei lá. 

Uma opinião atravessada não é suficiente, e deixar de segui-la nas redes gera apenas uma falsa ilusão de fracasso. Realidade: a maioria dos seguidores volta, porque a razão de seguir era mais forte do que o desdém temporário.

Se em vez de algoz, você foi a vítima, acalme-se, portanto. Cancelam-se matrículas, encontros, reservas em hotéis. Cancelar uma pessoa – conhecida ou desconhecida – é um recurso sensacionalista e causa um pânico artificial. Tentativa de exercer um poder que, de fato, ninguém tem. 

Quando são inúmeros os raivosos, causa certo alvoroço, mas é só uma onda quebrando na areia, o oceano continua manso em sua fundura abissal. Só quem pode cancelar você é você mesmo. Só quem pode me cancelar sou eu.

O autoboicote, sim, é preocupante. Posso me abalar com uma ofensa. Deixar de dizer o que sinto. Não alimentar mais minhas amizades. Desconsiderar minha família. Terminar uma relação amorosa e me fechar para as próximas. Omitir minhas próprias opiniões. Perder a coragem de existir. Sair de cena, me trancafiar no quarto. É o mais parecido com um cancelamento, e mesmo assim, é uma vida que não saiu do ar em definitivo, apenas está gerenciando a própria dor e precisando de ajuda.

Só a morte nos cancela em definitivo. Cancelamento nas redes é uma ameaça com jeito de cartão amarelo, uma tentativa de contenção que ganhou uma relevância exagerada. 

Recomendo prestar mais atenção à nossa integridade do que na reação impulsiva de seguidores desconhecidos. Em tempo: não estou escrevendo em defesa própria, costumo ser muito bem tratada. Estou apenas analisando uma neura que se generalizou.

Que tal retornar ao ponto de partida, quando éramos seres humanos e não números e algoritmos? Ainda dá tempo de não se afogar em uma barafunda sem nexo ou profundidade. Cancelamento? Uma petulância a mais neste hospício digital.

02/09/2023 - 09h00min

Claudia Tajes

Dia do Patriota? Me inclua fora dessa

Agora que se sabe que basta uma ideia de jerico para criar uma data municipal em Porto Alegre, pensei em instituir algumas efemérides no calendário da cidade. Deve estar faltando o que fazer na Casa do Povo, bora contribuir com ideias cidadãs.

Agora que se sabe que basta uma ideia de jerico para criar uma data municipal em Porto Alegre, e o já revogado Dia do Patriota está aí para provar, pensei em instituir algumas efemérides no calendário da cidade.

Verdade que não sou vereadora, mas examinando a nominata dos nossos edis, acredito que conseguirei o apoio de um ou outro para os meus pleitos. São 365 dias – que passam voando, é fato –, juntos encontraremos uma vaguinha para louvar algo que não precisaria ser homenageado. Deve estar faltando o que fazer na Casa do Povo, bora contribuir com ideias cidadãs.

Porto Alegre, afinal, tem poucos problemas. O lixo talvez seja prosaico demais para merecer a atenção da Câmara. Já reparou no estado dos containers, vandalizados, estourando, imundos em volta? Faz tempo que a cidade e o lixo andam se estranhando, e o lixo está vencendo. Só não fotografo o container da minha rua para não estragar o apetite dos amigos.

Daria para citar muitas outras demandas com potencial para encher a agenda dos vereadores nos sete dias da semana, incluindo feriados e férias. Mas já que a educação, a saúde, a segurança, a moradia, o transporte e outras miudezas do tipo não parecem relevantes, venho por meio desta sugerir algumas datas comemorativas que podem colocar Porto Alegre, mais uma vez, nos principais jornais e noticiários do país. 

Ou você não ficou orgulhoso de ver o Dia do Patriota no Jornal Nacional, no Jornal da Band, no UOL Notícias, no ICL, no Reinaldo Azevedo, na CNN, nos canais de youtubers e até mesmo na Jovem Pan – na Jovem Pan! – todos ressaltando a inconstitucionalidade da medida, alguns estupefatos e outros tirando sarro da nossa cara?

Mais ainda por ter sido a proposta de um vereador cassado que, na ausência de desculpa melhor, tirou o corpo fora dizendo que apresentou o projeto sem ler. O que me consola é saber que os vereadores que eu sigo não votaram a favor, nem se abstiveram, mas deram o contra direto nesse despautério.

Sem mais delongas, vão aqui minhas sugestões de efemérides para o calendário de Porto Alegre.

Dia do Entrevero: churrasco tem em todo lugar, até na China. Proponho que se homenageie o Entrevero, esse prato único da nossa culinária, que além de tudo é melhor que o triturador da pia da cozinha para acabar com os restos. Aquela lente de contato que você não acha? Procurando bem, vai encontrar no meio do Entrevero. 

Dia do Sorvete Quente: não sei se é típico daqui, mas jamais encontrei aquela maria-mole com gosto de isopor dentro de uma casquinha murcha nos outros lugares por onde andei. É uma homenagem à infância de todos nós, da direita, da esquerda, do centro e de muito pelo contrário.

Dia da Bergamota: data a ser comemorada em um dia de sol de inverno, descascando a berga sem medo de ficar com cheiro na mão e fazendo campeonato de quem cospe a semente mais longe. Um clássico que merece seu lugar no calendário.

Dia do Eleitor Não-Arrependido: depois da promulgação do Dia do Patriota, muitos eleitores porto-alegrenses devem ter se arrependido do seu voto para vereador. Pelo menos, é isso que o bom senso recomendaria. O Dia do Eleitor Não-Arrependido não é fixo, efeméride que acompanha a data das eleições municipais. 

Tudo começa com o cidadão se informando sobre os candidatos à vereança e as propostas que eles têm para a cidade. Depois disso, é só colocar um voto certeiro na urna – independentemente do espectro político do escolhido. Depois é passar os quatro anos do mandato comemorando que não elegeu uma nulidade ou um desastre para a Câmara. No ano que vem já dá para fazer o teste. 

Cumpra-se.


02 DE SETEMBRO DE 2023
CARPINEJAR

Números quebrados

Há dois momentos em que festejamos os números quebrados: com o recém-nascido e com o morto.

É paradoxal que o início e o fim estejam entrelaçados em rara contagem.

Não há espera pelas idades completas e arredondadas. Você experimenta intensamente um dia de cada vez, numa matemática distinta daquela que realiza consigo.

No primeiro caso, você comemora a vida que acabou de surgir. No segundo caso, homenageia a vida que acabou de partir. No primeiro caso, assinala a esperança. No segundo caso, sublinha a saudade. No primeiro caso, seus olhos estão voltados para o futuro. No segundo caso, para o passado.

São celebrações opostas em que se pratica idêntico exercício de fixação dos pequenos acontecimentos.

Pois não se quer perder nada dos dois testemunhos, demonstrando-se uma atenção extrema tanto no nascer quanto no pesar. Ritualiza-se a passagem das 24 horas da folhinha do calendário.

Com o bebê, é exaltada a sua evolução, lembrando-se a primeira semana, os primeiros 30 dias, os primeiros meses. E não se dá nenhum desconto, numa agenda precisa e fidedigna. Você é capaz de registrar exatamente passo a passo da sua formação com meses e dias, sem esquecer um amanhecer, sem generalizar, antes de o círculo etário se fechar.

Já com o ente querido que faleceu, executa-se igualmente uma contagem rigorosa, só que da distância, a partir da missa ou do culto. Começa com o sétimo dia e se estende aos meses subsequentes de desamparo. Você aniversaria o sofrimento sem esquecer um anoitecer, antes da virada completa da idade.

Os números quebrados indicam mudanças decisivas e cruciais, seja pelo acolhimento, seja pela despedida. Existiu uma transformação da sua personalidade. Ou passou a exercer uma nova função afetiva, ou deixou de tê-la. Nunca voltará a ser quem era.

Um traço em comum é que está escrevendo a memória por alguém, pois ambos - bebê e falecido - não têm como formalizar suas datas comemorativas. Assim como você não pode controlar a felicidade - cada instante é perpetuado -, tampouco pode controlar a dor - cada lacuna é eternizada.

O que me põe a concluir que a tristeza entra pela mesma porta da alegria. Apresentamos a mesma conservação de miudezas e detalhes diante de uma e de outra. Ou aprendendo a conviver com uma alma, ou aprendendo a sentir a sua falta.

A alma é o como. Como a pessoa particularizava atributos extensivos a todo mundo, como fazia de maneira única aquilo que era padronizado. Como gargalhava. Como dançava. Como conversava. Como caminhava. Como corria. Como transbordava.

Você guarda essas singularidades para jamais esquecer que o tempo não é feito pelos relógios, ele segue unicamente os ponteiros da sua emoção.

CARPINEJAR

02 DE SETEMBRO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

ECONOMIA RESISTENTE

Assim como no período de janeiro a março deste ano e em boa parte de 2022, a economia brasileira voltou a crescer acima do esperado no segundo trimestre de 2023. A atividade, outra vez, mostrou sinais de resiliência e a esperada desaceleração não foi tão aguda quanto projetavam os mais pessimistas. De abril a junho, o PIB do país avançou 0,9% sobre o trimestre imediatamente anterior, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As estimativas do mercado se situavam ao redor de 0,3%. Com a nova grata surpresa, o indicador subiu 3,7% no semestre e foram deflagradas novas rodadas de revisões para cima para o fechamento do ano, para ao menos 3%.

Vieram do consumo das famílias, com crescimento também de 0,9%, alguns dos sinais mais positivos. É possível inferir serem reflexo de uma série de fatores combinados. Entre eles, a própria resistência da economia, que parece não ter sido tão afetada pelo juro alto, usualmente um fator contracionista. Com isso, o mercado de trabalho se mantém aquecido. 

O próprio IBGE mostrou na quinta-feira que a taxa de desemprego no trimestre encerrado em julho ficou em 7,9%, o menor nível para o período desde 2014. Ao mesmo tempo, a renda da população segue a toada de recuperação. A inflação, corrosiva para os ganhos dos trabalhadores, está em processo de acomodação. Mesmo que de forma tímida, a inadimplência começa a recuar, o que pode renovar o fôlego do consumo das famílias no restante do ano.

O bom desempenho do PIB do segundo trimestre de 2023 foi ajudado ainda pela indústria (0,9%), em especial a extrativa, serviços (0,6%) e consumo do governo (0,7%). A agropecuária recuou 0,9%, o que já era esperado em virtude da alta surpreendente do primeiro trimestre, quando o campo foi decisivo para a economia avançar 1,8%. Preocupa, no entanto, a estagnação dos investimentos (0,1%), o que sempre sugere risco inflacionário à frente diante do avanço do consumo das famílias. É também um sinal amarelo quanto à capacidade de expansão do PIB no futuro. Espera-se, porém, que o ciclo de corte do juro e a própria maior confiança na continuação da atividade econômica em uma cadência razoável voltem a trazer ânimo para os empresários.

É verdade que ainda há certo grau de incerteza à frente, especialmente no aspecto fiscal do país. Reside na dificuldade que o governo federal terá de cumprir a promessa de zerar o déficit primário em 2024. Mas há uma nova regra e o próprio ritmo da economia um pouco acima do esperado pode ajudar nas receitas que são necessárias para a arrecadação se aproximar mais das despesas. A conferir.

Deve-se lembrar ainda que o Brasil passa por um período de menor turbulência política e institucional, elemento que também influencia nas expectativas. O andamento da reforma tributária, após décadas de frustração nas tentativas de mudar o sistema de cobrança de impostos, é outra razão a injetar confiança nos agentes econômicos. Mas confiança é um fator que precisa ser cotidianamente alimentado. Conquistá-la demora. 

Mas, em um país com histórico de crises como o Brasil e baixíssimo crescimento nas décadas mais recentes, bastam alguns maus sinais para perdê-la. O momento, de qualquer forma, sem dúvida pende para um cenário mais benigno na comparação com os temores que existiam há poucos meses, apesar de permanecerem as previsões de arrefecimento da economia até dezembro. Basta lembrar que, no início do ano, projetava-se que o país cresceria menos de 1% em 2023. Agora, as projeções já são de 3%.


02 DE SETEMBRO DE 2023
vELHO CASARÃO

Um ano após ultimato de Melo, Olímpico segue abandonado

Há pouco mais de um ano, uma manifestação do prefeito de Porto Alegre trouxe resquício de esperança aos gremistas e moradores do bairro Azenha. Sebastião Melo tentava resolver o impasse que envolve a área do estádio Olímpico. Na ocasião, anunciou que o atual regime urbanístico do imóvel seria revogado se o terreno continuasse abandonado. O prefeito, inclusive, estabeleceu período de 12 meses para que as ações fossem tomadas.

Em setembro de 2022, um projeto de lei foi protocolado na Câmara com este objetivo. A matéria ainda está tramitando na Casa. Se houver alteração no regime urbanístico, o valor do terreno acaba diminuindo. Se mesmo assim nada for feito, Melo sugeriu até que a prefeitura pudesse desapropriar a área e vendê-la.

O prazo passou, e o terreno segue do mesmo jeito que estava em agosto de 2022. O Olímpico é motivo de preocupação para os moradores das redondezas. Eles alegam falta de segurança na região em razão do abandono.

O Grêmio vem buscando articular solução para o problema com as empresas Karagounis e OAS 26. O foco principal é fazer a troca de chaves entre as partes. Hoje, o Grêmio é o responsável pelo Olímpico. Já as duas empresas são as proprietárias do terreno da Arena.

Justiça

No Rio Grande do Sul, o processo é debatido na Justiça. Decisão de junho reafirma que a construtora OAS é a responsável pela realização das obras no entorno da Arena do Grêmio. Se a decisão for mantida, caberá à prefeitura e ao Ministério Público buscar o ressarcimento dentro da recuperação judicial da OAS.

Além disso, os bancos financiadores da construção da Arena se movimentaram. Banrisul, Banco do Brasil e Santander cobram R$ 226,39 milhões por terem liberado recursos para a construção. E a Justiça de São Paulo determinou a penhora do novo estádio.

JOCIMAR FARINA

02 DE SETEMBRO DE 2023
DIÁRIOS DO PODER

O julgamento do século

Os Estados Unidos, sempre excelentes em rotular midiaticamente episódios estrondosos, têm os seus "julgamentos do século". São aqueles casos rumorosos que costumam dividir opiniões, mas amalgamar a audiência em frente aos aparelhos de TV ao vivo. O século 20 teve vários julgamentos históricos. Mas o último a receber esse estigma foi o caso do ex-ídolo da NFL O. J. Simpson, em 1995.

O primeiro "julgamento do século 21" não será também um só. Serão vários, mas envolverão a mesma pessoa: Donald Trump, suspeito pelo que fez antes, durante e depois da presidência. São quatro processos até agora.

Antes da Casa Branca: ele é acusado de ter subornado a ex-atriz pornô Stormy Daniels para que silenciasse, durante a campanha presidencial de 2016, sobre um suposto relacionamento entre os dois. O caso tramita em Nova York, e o julgamento está marcado para 25 de março de 2024.

Durante a Casa Branca: são dois casos, e os mais graves para suas aspirações políticas. Trump é acusado de ter tentado alterar o resultado da eleição de 2020 na Geórgia. Nessa ação, ficou famoso o telefonema que deu a uma autoridade local - e cuja gravação vazou -, no qual ele ordena que sejam "encontrados 12 mil votos", o suficiente para superar Joe Biden, de quem acabou perdendo no Estado.

Foi por esse caso que ele foi fichado recentemente, tendo sua foto registrada, a famosa mugshot. Ainda não há data para o julgamento, mas a Justiça do condado de Fulton já autorizou a transmissão. Isso não deve ocorrer nos demais Estados, onde a legislação impede o acompanhamento ao vivo.

O outro caso refere-se a seu suposto envolvimento nos ataques de 6 de janeiro, quando seus apoiadores invadiram o Capitólio. O início do julgamento está previsto para 4 de março, uma data fatídica para Trump, que estará em campanha. No dia seguinte, 5 de março, é a Superterça, o famoso dia em que vários Estados americanos votam nas prévias internas dos partidos. Em se tratando de Trump, adepto do "falem mal, mas falem de mim", pode ser tanto bom quanto ruim. Ele ficará fora da maratona eleitoral, mas seu nome estará presente em todos os noticiários.

Depois da Casa Branca: o ex-presidente é acusado de ter levado para sua residência de Mar-a-Lago, na Flórida, documentos sigilosos da administração.

Em 17 de junho de 1994, os americanos acompanharam ao vivo a perseguição policial a O. J. Simpson. Em 2024, o mundo assistirá aos advogados de Trump tentarem driblar a Justiça para postergar audiências. Como nos EUA não há lei equivalente à Ficha Limpa, o ex-presidente, que se diz vítima de perseguição, vai tentar esticar ao máximo os prazos.

Na prática, poderá concorrer. O caso do socialista Eugene Debs, que disputou a presidência em 1920 mesmo estando preso, é sempre lembrado. O ex-presidente, no entanto, se tiver o mesmo destino, será o primeiro político com chances reais de vitória a encarar a situação. O único caso que pode torná-lo inelegível é o do ataque ao Capitólio. A 14ª Emenda proíbe pessoas envolvidas em insurreição ou rebelião contra o governo de ocupar cargos federais ou estaduais.

RODRIGO LOPES

Escola Sesi é inspiração para gestores

Mesmo que uma escola não tenha os recursos de que o Sesi dispõe para criar escolas-modelo, a metod0ologia pode ser replicada por meio do Instituto de Formação de Professores, que começou a funcionar neste ano e que pretende ser um centro de disseminação do conhecimento.

As excursões ao Ceará, a Pernambuco, à Dinamarca e à Finlândia para ver como funciona um sistema de educação que dá certo já podem ser suspensas.

Mais simples e mais barato é ir a uma das cinco escolas de Ensino Médio do Sesi-RS e ver como é possível reproduzir no Estado e nos municípios uma escola praticamente sem evasão. Uma escola em que os alunos terminam o Ensino Médio craques em robótica e fluentes em inglês, têm bom desempenho no Enem e surpreendem os professores na universidade pela maturidade e pelo conhecimento.

Visitei o campus de Gravataí, que também abriga a Educação Infantil, EJA, contraturno escolar e iniciação às artes, mas direcionei o foco para o Ensino Médio, que é o grande desafio dos gestores públicos.

Com ampla área verde e uma arquitetura pensada para tornar o ambiente atraente e sustentável, é uma escola voltada para filhos de trabalhadores da indústria, mas que também recebe alunos da comunidade. Hoje, são 1,2 mil alunos, sendo 400 do Ensino Médio.

Antes que alguém pergunte como são os salários, a resposta é "sim, os professores são bem remunerados", mas esse está longe de ser o único motivo para explicar a empolgação e o comprometimento.

O modelo, construído a partir de visitas a escolas de referência em diferentes Estados e países, empolga professores e alunos porque conseguiu derrubar a ideia de que a escola é chata.

A autonomia dos alunos é construída dos detalhes. No início, nos intervalos e no fim do turno (que é integral), não se ouve sineta ou campainha. Os estudantes sabem que é hora do intervalo ou de ir embora. As turmas não têm uma sala de aula: movem-se de acordo com a disciplina. As salas são equipadas de acordo com a área do conhecimento e mobiliadas de forma a estimular o trabalho em grupo. O que se aprende na teoria é mostrado na prática, em diferentes laboratórios.

Os alunos também são preparados para o trabalho, com os cursos oferecidos pelo Senai como parte do currículo. A diretora da escola de Gravataí, Bianca Visentin, deixa claro que o foco da escola não é o Enem: é preparar o aluno para os desafios do século 21. O bom desempenho no Enem e no vestibular é consequência.

Os estudantes trabalham por projetos e são instados a buscar soluções para os problemas da comunidade. Nesses projetos, aplicam conhecimentos de diferentes áreas e, sob orientação dos 

ROSANE DE OLIVEIRA 


02 DE SETEMBRO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Ilusão instagramável

Foram dois meses de espera para conseguir reservar uma mesa. Agora, finalmente, você vai poder viver a experiência de degustar um daqueles pratos sensacionais que viu tantas vezes na tela do celular - sempre em posts de gente bacana. Você também quer ser bacana e postar tudo no Instagram, aquela rede social onde a vida (dos outros) é sempre perfeita.

Chegou a tão esperada noite. Você entra no restaurante e, de cara, é mal atendido. Deixa por isso mesmo - "o garçom deve estar num mau dia" - e faz o seu pedido.

Parece uma obra de arte: tudo muito "clean", tudo muito "poser", tudo muito pouco. Com certeza, o chef usou uma pinça para finalizar a decoração do prato, com direito a espuma saborizada e fumacinha (deve ter um nome em inglês para isso também).

Antes de qualquer coisa, é preciso fotografar, selecionar a melhor imagem, dar aquele brilho, ajustar a cor, aplicar um filtro e publicar. Na legenda, um clássico: "Gratidão". Pronto!

Você dá a primeira garfada, esperando o sabor incomparável. Vem a segunda decepção: a comida é ruim. Melhor tentar a sobremesa. É, também não é lá essas coisas. Você pensa na torta de bolacha da sua mãe.

Hora de pedir a conta. Caro! Um acinte. Mas? é instagramável. Você então faz uma selfie caprichada, sorrindo e olhando confiante para a câmera, antevendo a chuva de "likes".

Quem nunca fez um papelão desses ou caiu numa armadilha do tipo? Provavelmente, só aqueles que ainda resistem ao mundo virtual. Nesse universo paralelo orquestrado pelos algoritmos, as arapucas estão por todos os lados: na praia paradisíaca e deserta que, na verdade, é suja e superlotada, no muro multicolorido e fotogênico que esconde um lixão, no mirante encantador onde é preciso encarar meia hora de fila para tirar uma foto (e ter direito a 30 segundos de contemplação).

A coisa toda virou um negócio. Já existem listas dos lugares "mais instragramáveis do mundo" (e isso vale também para TikTok, Facebook e o que mais houver). Há hotéis, lojas, confeitarias, casas noturnas e bares com ambientes hiperdecorados, pensados sob medida para atrair o público das redes.

A turma do marketing não tardou a descobrir que posts e curtidas são o novo "boca a boca", com a vantagem de que cada publicação tem um alcance infinitamente maior. O impacto é ainda mais extenso quando se contrata um "influencer" para "dar o start". Se o estabelecimento viralizar, não tem erro: no dia seguinte, haverá clientes aos borbotões.

A crítica também é hipócrita, afinal, as armadilhas só existem porque nós, humanos, somos vaidosos por natureza. Todo mundo quer estar "bem na foto". Só que a busca pela perfeição também é perversa. Não é à toa que a saúde mental das pessoas anda aos frangalhos. E isso não aparece nas redes.

Proponho, pois, um desafio. Neste fim de semana, vou fazer uma fotografia de um prato de comida delicioso e nada instagramável e - doce vingança! - vou postar no meu perfil (@ju_bublitz) no Instagram. Quem me acompanha? Se aderir, já sabe: prepare-se para perder seguidores.

Queremos diminuir a fila de espera por transplantes no país inteiro. Nasce em Porto Alegre essa campanha de solidariedade.

Marcos Frota

Ator, ao se tornar embaixador da campanha lançada pelo Estado para incentivar a doação de órgãos e tecidos no Rio Grande do Sul.

Tudo que acontece no Samu é de conhecimento da chefia toda.

Jimmy Herrera Espinoza

Agora ex-coordenador da central estadual do Samu, em Porto Alegre, admitindo possíveis irregularidades no cumprimento dos horários de médicos, reveladas por Giovani Grizotti, do Grupo de Investigações da RBS.

Sempre estão encontrando jeito de burlar lei para não pagar imposto.

Luiz Inácio Lula da Silva

Presidente da República, após enviar ao Congresso Nacional propostas que mudam a tributação sobre fundos de altíssima renda.

O que me deixa mais feliz é poder gerar emprego.

Galvão Bueno

Comunicador, em entrevista à colunista Gisele Loeblein, na Expointer, sobre sua atuação como empresário do agronegócio.

Meu sentimento é igual ao de cada um dos gaúchos, de total e profunda indignação.

Eduardo Leite

Governador do Estado, ao comentar as revelações sobre supostas fraudes no Samu.

Eu vejo, muitas vezes, isso ser tratado como uma espécie de ação ?Robin Hood?, de uma revanche, e não é nada disso.

Fernando Haddad

Ministro da Fazenda, ao defender a taxação dos fundos de super-ricos.

Estamos numa fase que exige 100%. Se sair meio dormido no primeiro jogo, pode levar dois ou três e depois custa muito. Fomos bem nesses jogos de mata-mata.

Enner Valencia

Jogador do Inter, sobre o confronto na semifinal da Libertadores da América contra do Fluminense.

Uma denúncia pode ser, inclusive, anônima, mas tem que existir formalmente.

Arita Bergmann

Secretária estadual da Saúde, ao confirmar que denúncias sobre o Samu chegaram ao governo, mas não avançaram por falta de formalização.

Não há segredo, é trabalho sério e compromisso com o povo e com o futuro do país.

simone tebet

Ministra do Planejamento e Orçamento, sobre o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre, que veio com alta de 0,9%, em comparação com os primeiros três meses de 2023.

Não é porque eu tenho dinheiro que estou bem. Tudo isso que eu fiz também é feito no SUS, e isso precisa ser valorizado. É importante que todos se informem sobre, e essa será agora a minha missão.

Fausto Silva

Apresentador de TV, que fez questão de exaltar o SUS e a família do doador que permitiu o seu transplante de coração.

Além de pintor, o artista italiano Michelangelo, ícone do Renascimento no século 16, foi um proeminente escultor. São dele duas obras marcantes da arte ocidental: David, sobre a qual escreverei na próxima semana, e Pietà (abaixo).

Criada em 1499 a pedido de um cardeal francês, a estátua de quase dois metros de altura representa Jesus morto nos braços da mãe. Ainda que a mesma imagem tenha sido reproduzida por um número infindável de artistas, a mais famosa é a de Michelângelo. Esculpida em mármore de Carrara, ela está na Basílica de São Pedro, no Vaticano. Repare no realismo dos traços e nos detalhes impressionantes, como as dobras de roupas, os semblantes e os gestos.

JULIANA BUBLITZ

sexta-feira, 1 de setembro de 2023



01 DE SETEMBRO DE 2023
CARPINEJAR

O desbunde dos pais

A existência é fascinante nos seus ciclos. Tudo o que vai volta. Na infância, havia a tensão dos pais quando me levavam com meus irmãos ao restaurante. Tinham que controlar o apetite de quatro filhos. Regravam cada porção, cada troco a mais, cada centavo. Nosso medo era de que faltasse comida, o medo deles era que sobrasse.

Fiscalizavam as quantidades, dividiam as colheradas harmonicamente, jamais toleravam gastos desnecessários. Não podíamos pedir doce ou qualquer extravagância. Sofriam moderando os nossos excessos, a nossa gula por novidades. Não deixavam que olhássemos as tentações no cardápio.

A conta não poderia vir abusiva, pois comprometeria o orçamento do mês. Agora, já adulto, creio que os pais estão se vingando de mim. Sabendo que eu vou pagar a fatura no restaurante, não experimentam mais nenhuma cautela, prurido, medo das cifras. Mostram-se absolutamente à vontade, inconsequentes. Sequer carregam bolsa ou carteira.

Não é natural. Existe uma conspiração por baixo da toalha da mesa. Pedem tudo o que têm direito. Solicitam entradas, prato principal, sobremesa. Consultam o maître pelo vinho de rótulo mais raro. Sinto calafrios quando os pais colocam os óculos para analisar o menu.

Se antes observavam os valores mais do que a descrição das iguarias, inverteram a ordem: decidiram desprezar as dezenas de zeros à direita e valorizar a alta gastronomia à esquerda. Parece que testam o meu poder econômico. Sem nenhuma compaixão com as despesas. Sem nenhuma piedade com os prejuízos. Que eu me vire com o cheque especial. Preciso bancar o convite, assumir o meu lugar na cabeceira.

São crianças grandes na maior molecagem culinária. Talvez estejam me dando uma lição, a última lição de desapego, contra o materialismo e a favor dos momentos em família. Ou realmente relaxaram de vez como comensais gratuitos, meros espectadores do meu crescimento profissional.

Ainda por cima, para encerrar o banquete, querem embrulhar as sobras para casa, jamais cogitando o meu possível interesse.

A encenação é engraçada. Fingem que estão fazendo um favor não desperdiçando a comida, não jogando fora nada, como se o excedente não tivesse sido premeditado para obter justamente aquela marmita. Eles não me enganam. Ao almoçar comigo, buscam a sobrevida alimentar de um jantar ou café da manhã.

Brincadeiras à parte, feliz do filho que pode cobrir as despesas dos seus pais e ser anfitrião do amor. É um superpoder da gratidão: ter a oportunidade de devolver num gesto a proteção recebida durante a sua formação, trocar de papel por um momento e cuidar da felicidade deles.

Certamente, eles vão abusar na refeição, mas não confunda com egoísmo. Estarão profundamente emocionados e orgulhosos. Repare no brilho úmido dos olhos do seu pai e da sua mãe diante da sua cortesia. Além do carinho, desfrutam de indescritível certeza de que você foi bem encaminhado na vida.

CARPINEJAR

01 DE SETEMBRO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

A FORÇA DA AGRICULTURA FAMILIAR

O pavilhão da agricultura familiar se consolida a cada edição da Expointer como uma das principais atrações para os visitantes e participantes da feira. O sucesso da iniciativa, que agora celebra 25 anos, pode ser medido, por exemplo, pelo número de expositores. Em 1999, quando se iniciou, eram apenas 30 participantes. Desde então, não parou de crescer e inovar. Agora, na mostra de 2023, são 372 empreendimentos, oriundos de 174 municípios, que caminham para bater a marca de 2022 de R$ 8 milhões em vendas. São lácteos, embutidos cárneos, bebidas, biscoitos, erva-mate e doces, entres outros diversos tipos de delícias, avidamente procurados pelos consumidores.

O espaço dentro do Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, é apenas uma amostra da competência e da diversidade da produção da agricultura familiar do Rio Grande do Sul. Conforme o mais recente Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicado em 2019, com dados coletados em 2017, são 992 mil gaúchos que vivem e tiram o sustento em pequenas propriedades. No Estado, 80% dos estabelecimentos rurais são classificados como familiares. Ao lado de médios e grandes produtores, são parte da pujança do agronegócio do Estado.

A agricultura familiar é responsável por uma produção variada. É garantia de oferta de alimentação saudável à população urbana. Os pequenos agricultores e pecuaristas cultivam hortigranjeiros, grãos, produzem leite, criam suínos e aves, entre outras atividades às quais se dedicam. Vendem diretamente para os consumidores, para o varejo de seus municípios, integram cadeias maiores ou beneficiam os seus produtos e os transformam em itens elaborados. São as agroindústrias familiares, como as que estão na Expointer.

A agropecuária de menor escala é um dos pilares da economia do Rio Grande do Sul. Merece, portanto, atenção especial em termos de políticas públicas para que possa se atualizar, produzir mais e melhor, gerar renda e, assim, o êxodo rural ser minimizado. Há um aspecto social a ser também observado, portanto.

Os pequenos produtores, por exemplo, têm grande participação na produção de leite no Rio Grande do Sul. É um segmento que enfrenta uma crise séria devido ao aumento das importações do Mercosul. Problemas semelhantes que se refletem na renda, em anos anteriores, já têm levado ao abandono da atividade, provocando maior concentração. 

O governo federal anunciou aquisições do produto por meio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para tentar enxugar o mercado, mas ainda se aguardam políticas mais estruturantes, que possam tornar o setor mais competitivo. O Brasil, ao contrário do que se previa, não conseguiu se tornar um grande exportador de lácteos. Não houve o mesmo êxito dos grãos e das carnes. Os produtores ficam mais suscetíveis, assim, a fatores domésticos e surtos de importação.

Mas, adversidades pontuais à parte, a agricultura familiar do Rio Grande do Sul tem se mostrado capaz, aberta à assistência técnica, à incorporação de tecnologia e atenta aos desafios de elevar a produtividade. Mesmo assim, alguns gargalos persistem, como energia de qualidade e internet na zona rural, fatores essenciais para modernizar a produção e fixar as famílias no campo, o que também poderia ajudar a amenizar o problema da sucessão nas pequenas propriedades.



01 DE SETEMBRO DE 2023
POLÍTICA +

Conselheira dá aval à compra de Audi

A notícia está no site do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul: a conselheira substituta Letícia Ayres Ramos, do Tribunal de Contas do Estado (TCE), negou ontem pedido de tutela de urgência para barrar a compra de cinco automóveis Audi A4 S Line, ao custo de R$ 358 mil cada. O pleito partiu da equipe de auditoria do TCE.

A conselheira acatou todos os argumentos do TJ-RS e disse que não encontrou indícios de irregularidades na licitação.

Apesar disso, a compra dos carros de luxo segue suspensa por decisão da juíza Silvia Muradas Fiori, da 4ª Vara da Fazenda Pública de Porto Alegre.

Nas mãos do ministro

Aproveitando a vinda de comitiva do governo federal para a Expointer, o deputado estadual Adão Pretto Filho (PT) entregou ontem ao ministro Carlos Fávaro, da Agricultura, o texto de uma proposta que incentiva o uso de insumos biológicos no lugar de agrotóxicos. O projeto de autoria do petista já tramita na Assembleia Legislativa.

Os insumos biológicos ou bioinsumos são produtos naturais que podem ser produzidos pelo próprio agricultor para aplicar nas plantas e na terra. Ao entregar a proposta ao ministro, Adão Pretto tem a expectativa de que o governo federal abrace a ideia e envie texto semelhante ao Congresso. Fávaro prometeu analisar o projeto.

O deputado do PT ressalta que a iniciativa não tem o objetivo de proibir o uso de agrotóxicos.

- Queremos oferecer alternativa. Não queremos punir quem produz da forma convencional - explica.

Quem não deve não silencia

A opção do casal Jair e Michelle Bolsonaro, de silenciar no depoimento à Polícia Federal, põe em xeque a afirmação dele de que "quem não deve, não teme". O silêncio costuma ser usado quando o advogado teme que seu cliente se incrimine.

Com depoimentos no mesmo horário, em salas separadas, a chance de contradição era imensa.

Bolsonaro esqueceu até o seu versículo preferido da Bíblia: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará".

ROSANE DE OLIVEIRA


01 DE SETEMBRO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Coração verde para a doação de órgãos

Você deve ter reparado que tem algo diferente no topo da página: um coração verde, estampado ao lado do meu nome. Não é um símbolo qualquer. É a marca da nova campanha da Santa Casa de Porto Alegre, que será lançada hoje, para estimular um ato de amor. Estamos entrando no mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos.

A convite da instituição, aderi à causa. A ideia é a seguinte: incentivar o público a incorporar o coração verde aos seus perfis nas redes sociais. Ao lado, vai a frase "Sou doador (ou doadora) de órgãos".

Em muitos casos, esse pode ser o primeiro e decisivo passo para falar sobre o tema, especialmente na família - que é quem dá a palavra final para os procedimentos. Sem o "sim" dos parentes, não há transplantes.

Nos próximos dias, você verá um vídeo, gravado pela atriz Mônica Martelli, detalhando a campanha e fazendo o convite para que todos participem.

Sempre é bom lembrar: uma única pessoa é capaz de salvar até oito vidas. Não é pouco.

Depois do tombo registrado na pandemia, o Rio Grande do Sul voltou a ter um aumento (de 35,9%) no número de transplantes no primeiro semestre de 2023, em comparação com o mesmo período de 2022.

De acordo com a Central Estadual, foram realizadas 378 cirurgias do tipo entre janeiro e junho, mas a fila de espera - gerida pelo SUS - continua gigantesca. Só no território gaúcho, são mais de 2,7 mil pacientes aguardando órgãos e tecidos, de corações a córneas. No Brasil, segundo os dados do Ministério da Saúde, o número é de 66 mil pessoas.

Referência internacional

O caso do apresentador Faustão, que se recupera de um transplante de coração, serviu para dar visibilidade ao assunto. Depois de toda a polêmica em torno do procedimento, realizado em tempo recorde, ficou provado o que já se sabia: o Brasil é referência internacional na área e ostenta o maior sistema público de procedimentos do tipo. Em números absolutos, o país é o segundo maior transplantador do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Cerveja porto-alegrense em Lisboa

O nome escolhido não poderia ser melhor. Quando os jornalistas Luciana Borba e Tárlis Schneider (foto) decidiram abrir uma cervejaria artesanal na capital portuguesa, a ideia foi unir a paixão por Lisboa, sua casa desde 2017, e pela capital gaúcha, onde viveram até então. Não deu outra: prestes a fazer um ano, a LisPoa Craft Beer é um sucesso.

Mistura de pub e fábrica de bebida, o negócio funciona no bairro Arroios, eleito, em 2019, o "mais legal do mundo" pela Revista Time Out. De zona estigmatizada, a região passou a caldeirão multicultural e virou a "queridinha" de lisboetas e turistas. Lá, vivem imigrantes de mais de 90 nacionalidades.

Com as economias que conseguiram juntar, a ajuda de familiares e amigos e o apoio de um programa de aceleração de empreendimentos da prefeitura, Lu e Tárlis transformaram o hobby em profissão, e mais: souberam "surfar" na onda pop de Arroios, apostando em shows ao vivo, eventos e novidades.

No início de agosto, durante a Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa, eles lançaram um chope de erva-mate batizado de Chimas Blonde. Com forte presença de fregueses latino-americanos (em especial, gaúchos e hermanos), os primeiros 20 litros acabaram em minutos.

- A receptividade está sendo incrível. É um público bem variado, e tem a gauchada marcando presença. Agora, nossa meta é achar um vocalista para fazer uma noite de rock gaúcho. O resto da banda a gente já tem - brinca Tárlis.

JULIANA BUBLITZ