É melhor abraçar os espinhosda verdade que as rosas da ilusão.Delicioso final de semana |
É necessário αbrir os olhos e perceber que αs coisαs boαs estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisαm de motivos nem os desejos de rαzão. O importαnte é αproveitαr o momento, pois α vidα estα nos olhos de quem sαbe ver. Tento me lembrαr, de tudo que vivi, o que tem por dentro, ninguém pode roubαr. Pois os diαs ruins, todo mundo tem já jurei prα mim, não desαnimαr, não ter mαis pressα , eu sei que o mundo vαi girar . . .Eu espero α minhα vez.
sábado, 28 de setembro de 2013
Leia a íntegra do discurso de
José Mujica na ONU
Presidente
uruguaio criticou o capitalismo e o individualismo em discurso que empolgou nas
Nações Unidas
Amigos,
sou do sul, venho do sul. Esquina do Atlântico e do Prata, meu país é uma
planície suave, temperada, uma história de portos, couros, charque, lãs e
carne. Houve décadas púrpuras, de lanças e cavalos, até que, por fim, no
arrancar do século 20, passou a ser vanguarda no social, no Estado, no Ensino.
Diria que a social-democracia foi inventada no Uruguai.
Durante
quase 50 anos, o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na realidade, na
economia, fomos bastardos do império britânico e, quando ele sucumbiu, vivemos
o amargo mel do fim de mudanças funestas, e ficamos estancados, sentindo falta
do passado.
Quase
50 anos recordando o Maracanã, nossa façanha esportiva. Hoje, ressurgimos no
mundo globalizado, talvez aprendendo de nossa dor. Minha história pessoal, a de
um rapaz — porque, uma vez, fui um rapaz — que, como outros, quis mudar seu
tempo, seu mundo, o sonho de uma sociedade libertária e sem classes. Meus erros
são, em parte, filhos de meu tempo. Obviamente, os assumo, mas há vezes que
medito com nostalgia.
Quem
tivera a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia! No entanto,
não olho para trás, porque o hoje real nasceu das cinzas férteis do ontem. Pelo
contrário, não vivo para cobrar contas ou para reverberar memórias.
Me
angustia, e como, o amanhã que não verei, e pelo qual me comprometo. Sim, é
possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez, hoje, a primeira
tarefa seja cuidar da vida.
Mas
sou do sul e venho do sul, a esta Assembleia, carrego inequivocamente os
milhões de compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos
pampas, nas depressões da América Latina pátria de todos que está se formando.
Carrego
as culturas originais esmagadas, com os restos de colonialismo nas Malvinas,
com bloqueios inúteis a este jacaré sob o sol do Caribe que se chama Cuba.
Carrego as consequências da vigilância eletrônica, que não faz outra coisa que
não despertar desconfiança. Desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego
uma gigantesca dívida social, com a necessidade de defender a Amazônia, os
mares, nossos grandes rios na América.
Carrego
o dever de lutar por pátria para todos. Para que a Colômbia possa encontrar o
caminho da paz, e carrego o dever de lutar por tolerância, a tolerância é
necessária para com aqueles que são diferentes, e com os que temos diferenças e
discrepâncias. Não se precisa de tolerância com aqueles com quem estamos de
acordo.
A
tolerância é o fundamento de poder conviver em paz, e entendendo que, no mundo,
somos diferentes.
O
combate à economia suja, ao narcotráfico, ao roubo, à fraude e à corrupção,
pragas contemporâneas, procriadas por esse antivalor, esse que sustenta que
somos felizes se enriquecemos, seja como seja. Sacrificamos os velhos deuses
imateriais. Ocupamos o templo com o deus mercado, que nos organiza a economia,
a política, os hábitos, a vida e até nos financia em parcelas e cartões a
aparência de felicidade.
Parece
que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando não podemos, nos
enchemos de frustração, pobreza e até autoexclusão.
O
certo, hoje, é que, para gastar e enterrar os detritos nisso que se chama pela
ciência de poeira de carbono, se aspirarmos nesta humanidade a consumir como um
americano médio, seriam imprescindíveis três planetas para poder viver.
Nossa
civilização montou um desafio mentiroso e, assim como vamos, não é possível
satisfazer esse sentido de esbanjamento que se deu à vida. Isso se massifica
como uma cultura de nossa época, sempre dirigida pela acumulação e pelo
mercado.
Prometemos
uma vida de esbanjamento, e, no fundo, constitui uma conta regressiva contra a
natureza, contra a humanidade no futuro. Civilização contra a simplicidade,
contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais.
O
pior: civilização contra a liberdade que supõe ter tempo para viver as relações
humanas, as únicas que transcendem: o amor, a amizade, aventura, solidariedade,
família.
Civilização
contra tempo livre que não é pago, que não se pode comprar, e que nos permite
contemplar e esquadrinhar o cenário da natureza.
Arrasamos
a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento.
Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com comprimidos, a solidão
com eletrônicos, porque somos felizes longe da convivência humana.
Cabe
se fazer esta pergunta, ouvimos da biologia que defende a vida pela vida, como
causa superior, e a suplantamos com o consumismo funcional à acumulação.
A
política, eterna mãe do acontecer humano, ficou limitada à economia e ao
mercado. De salto em salto, a política não pode mais que se perpetuar, e, como
tal, delegou o poder, e se entretém, aturdida, lutando pelo governo. Debochada
marcha de historieta humana, comprando e vendendo tudo, e inovando para poder
negociar de alguma forma o que é inegociável.
Há
marketing para tudo, para os cemitérios, os serviços fúnebres, as maternidades,
para pais, para mães, passando pelas secretárias, pelos automóveis e pelas
férias. Tudo, tudo é negócio.
Todavia,
as campanhas de marketing caem deliberadamente sobre as crianças, e sua
psicologia para influir sobre os adultos e ter, assim, um território assegurado
no futuro. Sobram provas de essas tecnologias bastante abomináveis que, por
vezes, conduzem a frustrações e mais.
O
homenzinho médio de nossas grandes cidades perambula entre os bancos e o tédio
rotineiro dos escritórios, às vezes temperados com ar condicionado. Sempre
sonha com as férias e com a liberdade, sempre sonha com pagar as contas, até
que, um dia, o coração para, e adeus. Haverá outro soldado abocanhado pelas
presas do mercado, assegurando a acumulação. A crise é a impotência, a
impotência da política, incapaz de entender que a humanidade não escapa nem
escapará do sentimento de nação. Sentimento que está quase incrustado em nosso
código genético.
Hoje
é tempo de começar a talhar para preparar um mundo sem fronteiras. A economia
globalizada não tem mais condução que o interesse privado, de muito poucos, e
cada Estado Nacional mira sua estabilidade continuísta, e hoje a grande tarefa
para nossos povos, em minha humilde visão, é o todo.
Como
se isto fosse pouco, o capitalismo produtivo, francamente produtivo, está meio
prisioneiro na caixa dos grandes bancos. No fundo, são o vértice do poder
mundial. Mais claro, cremos que o mundo requer a gritos regras globais que
respeitem os avanços da ciência, que abunda. Mas não é a ciência que governa o
mundo. Se precisa, por exemplo, uma larga agenda de definições, quantas horas
de trabalho e toda a terra, como convergem as moedas, como se financia a luta
global pela água e contra os desertos.
Como
se recicla e se pressiona contra o aquecimento global. Quais são os limites de
cada grande questão humana. Seria imperioso conseguir consenso planetário para
desatar a solidariedade com os mais oprimidos, castigar impositivamente o
esbanjamento e a especulação.
Mobilizar
as grandes economias não para criar descartáveis com obsolescência calculada,
mas bens úteis, sem fidelidade, para ajudar a levantar os pobres do mundo. Bens
úteis contra a pobreza mundial. Mil vezes mais rentável que fazer guerras.
Virar um neo-keynesianismo útil, de escala planetária, para abolir as vergonhas
mais flagrantes deste mundo.
Talvez
nosso mundo necessite menos de organismos mundiais, desses que organizam fórums
e conferências, que servem muito às cadeias hoteleiras e às companhias aéreas
e, no melhor dos casos, não reúne ninguém e transforma em decisões...
Precisamos
sim mascar muito o velho e o eterno da vida humana junto da ciência, essa
ciência que se empenha pela humanidade não para enriquecer; com eles, com os
homens de ciência da mão, primeiros conselheiros da humanidade, estabelecer
acordos para o mundo inteiro. Nem os Estados nacionais grandes, nem as
transnacionais e muito menos o sistema financeiro deveriam governar o mundo
humano.
Sim,
a alta política entrelaçada com a sabedoria científica, ali está a fonte. Essa
ciência que não apetece o lucro, mas que mira o por vir e nos diz coisas que
não escutamos. Quantos anos faz que nos disseram coisas que não entendemos?
Creio que se deve convocar a inteligência ao comando da nave acima da terra,
coisas assim e coisas que não posso desenvolver nos parecem impossíveis, mas
requeririam que o determinante fosse a vida, não a acumulação.
Obviamente,
não somos tão iludidos, nada disso acontecerá, nem coisas parecidas. Nos restam
muitos sacrifícios inúteis daqui para diante, muitos remendos de consciência
sem enfrentar as causas. Hoje, o mundo é incapaz de criar regras planetárias
para a globalização e isso é pela enfraquecimento da alta política, isso que se
ocupa de todo.
Por
último, vamos assistir ao refúgio de acordos mais ou menos
"reclamáveis", que vão plantear um comércio interno livre, mas que,
no fundo, terminarão construindo parapeitos protecionistas, supranacionais em
algumas regiões do planeta. A sua vez, crescerão ramos industriais importantes
e serviços, todos dedicados a salvar e a melhorar o meio ambiente. Assim vamos
nos consolar por um tempo, estaremos entretidos e, naturalmente, continuará a
parecer que a acumulação é boa, para a alegria do sistema financeiro.
Continuarão
as guerras e, portanto, os fanatismos, até que, talvez, a mesma natureza faça
um chamado à ordem e torne inviáveis nossas civilizações. Talvez nossa visão
seja demasiado crua, sem piedade, e vemos ao homem como uma criatura única, a
única que há acima da terra capaz de ir contra sua própria espécie.
Volto
a repetir, porque alguns chamam a crise ecológica do planeta de consequência do
triunfo avassalador da ambição humana. Esse é nosso triunfo e também nossa
derrota, porque temos impotência política de nos enquadrarmos em uma nova
época. E temos contribuído para sua construção sem nos dar conta.
Por
que digo isto? São dados, nada mais. O certo é que a população quadruplicou e o
PIB cresceu pelo menos vinte vezes no último século. Desde 1990,
aproximadamente a cada seis anos o comércio mundial duplica. Poderíamos seguir
anotando dados que estabelecem a marcha da globalização.
O
que está acontecendo conosco? Entramos em outra época aceleradamente, mas com
políticos, enfeites culturais, partidos e jovens, todos velhos ante a pavorosa
acumulação de mudanças que nem sequer podemos registrar. Não podemos manejar a
globalização porque nosso pensamento não é global. Não sabemos se é uma
limitação cultural ou se estamos chegano a nossos limites biológicos.
Nossa
época é portentosamente revolucionária como não conheceu a história da
humanidade. Mas não tem condução consciente, ou ao menos condução simplesmente
instintiva. Muito menos, todavia, condução política organizada, porque nem se
quer tivemos filosofia precursora ante a velocidade das mudanças que se
acumularam.
A
cobiça, tão negativa e tão motor da história, essa que impulsionou o progresso
material técnico e científico, que fez o que é nossa época e nosso tempo e um
fenomenal avanço em muitas frentes, paradoxalmente, essa mesma ferramenta, a
cobiça que nos impulsionou a domesticar a ciência e transformá-la em tecnologia
nos precipita a um abismo nebuloso.
A
uma história que não conhecemos, a uma época sem história, e estamos ficando
sem olhos nem inteligência coletiva para seguir colonizando e para continuar
nos transformando. Porque se há uma característica deste bichinho humano é a de
que é um conquistador antropológico.
Parece
que as coisas tomam autonomia e essas coisas subjugam os homens. De um lado a outro,
sobram ativos para vislumbrar tudo isso e para vislumbrar o rombo. Mas é
impossível para nós coletivizar decisões globais por esse todo. A cobiça
individual triunfou grandemente sobre a cobiça superior da espécie.
Aclaremos:
o que é "tudo", essa palavra simples, menos opinável e mais evidente?
Em nosso Ocidente, particularmente, porque daqui viemos, embora tenhamos vindo
do sul, as repúblicas que nasceram para afirmas que os homens são iguais, que
ninguém é mais que ninguém, que os governos deveriam representar o bem comum, a
justiça e a igualdade. Muitas vezes, as repúblicas se deformam e caem no
esquecimento da gente que anda pelas ruas, do povo comum.
Não
foram as repúblicas criadas para vegetar, mas ao contrário, para serem um grito
na história, para fazer funcionais as vidas dos próprios povos e, por tanto, as
repúblicas que devem às maiorias e devem lutar pela promoção das maiorias.
Seja
o que for, por reminiscências feudais que estão em nossa cultura, por classismo
dominador, talvez pela cultura consumista que rodeia a todos, as repúblicas
frequentemente em suas direções adotam um viver diário que exclui, que se
distância do homem da rua.
Esse
homem da rua deveria ser a causa central da luta política na vida das
repúblicas. Os governos republicanos deveriam se parecer cada vez mais com seus
respectivos povos na forma de viver e na forma de se comprometer com a vida.
A
verdade é que cultivamos arcaísmos feudais, cortesias consentidas, fazemos
diferenciações hierárquicas que, no fundo, amassam o que têm de melhor as
repúblicas: que ninguém é mais que ninguém. O jogo desse e de outros fatores
nos retém na pré-história. E, hoje, é impossível renunciar à guerra quando a
política fracassa. Assim, se estrangula a economia, esbanjamos recursos.
Ouçam
bem, queridos amigos: em cada minuto no mundo se gastam US$ 2 milhões em ações
militares nesta terra. Dois milhões de dólares por minuto em inteligência
militar!! Em investigação médica, de todas as enfermidades que avançaram
enormemente, cuja cura dá às pessoas uns anos a mais de vida, a investigação
cobre apenas a quinta parte da investigação militar.
Este
processo, do qual não podemos sair, é cego. Assegura ódio e fanatismo,
desconfiança, fonte de novas guerras e, isso também, esbanjamento de fortunas.
Eu sei que é muito fácil, poeticamente, autocriticarmo-nos pessoalmente. E
creio que seria uma inocência neste mundo plantear que há recursos para
economizar e gastar em outras coisas úteis. Isso seria possível, novamente, se
fôssemos capazes de exercitar acordos mundiais e prevenções mundiais de
políticas planetárias que nos garantissem a paz e que a dessem para os mais
fracos, garantia que não temos.
Aí
haveria enormes recursos para deslocar e solucionar as maiores vergonhas que
pairam sobre a Terra. Mas basta uma pergunta: nesta humanidade, hoje, onde se
iria sem a existência dessas garantias planetárias? Então cada qual esconde
armas de acordo com sua magnitude, e aqui estamos, porque não podemos
raciocinar como espécie, apenas como indivíduos.
As instituições
mundiais, particularmente hoje, vegetam à sombra consentida das dissidências
das grandes nações que, obviamente, querem reter sua cota de poder.
Bloqueiam
esta ONU que foi criada com uma esperança e como um sonho de paz para a
humanidade. Mas, pior ainda, desarraigam-na da democracia no sentido planetário
porque não somos iguais. Não podemos ser iguais nesse mundo onde há mais fortes
e mais fracos. Portanto, é uma democracia ferida e está cerceando a história de
um possível acordo mundial de paz, militante, combativo e verdadeiramente
existente. E, então, remendamos doenças ali onde há eclosão, tudo como agrada a
algumas das grandes potências. Os demais olham de longe. Não existimos.
Amigos,
creio que é muito difícil inventar uma força pior que nacionalismo chovinista
das grandes potências. A força é que liberta os fracos. O nacionalismo, tão pai
dos processos de descolonização, formidável para os fracos, se transforma em
uma ferramenta opressora nas mãos dos fortes e, nos últimos 200 anos, tivemos
exemplos disso por toda a parte.
A
ONU, nossa ONU, enlanguece, se burocratiza por falta de poder e de autonomia,
de reconhecimento e, sobretudo, de democracia para o mundo mais fraco que
constitui a maioria esmagadora do planeta. Mostro um pequeno exemplo,
pequenino. Nosso pequeno país tem, em termos absolutos, a maior quantidade de
soldados em missões de paz em todos os países da América Latina.
E
ali estamos, onde nos pedem que estejamos. Mas somos pequenos, fracos. Onde se
repartem os recursos e se tomam as decisões, não entramos nem para servir o
café. No mais profundo de nosso coração, existe um enorme anseio de ajudar para
que o homem saia da pré-história. Eu defino que o homem, enquanto viver em
clima de guerra, está na pré-história, apesar dos muitos artefatos que possa
construir.
Até
que o homem não saia dessa pré-história e arquive a guerra como recurso quando
a política fracassa, essa é a larga marcha e o desafio que temos daqui adiante.
E o dizemos com conhecimento de causa. Conhecemos a solidão da guerra.
No
entanto, esses sonhos, esses desafios que estão no horizonte implicam lutar por
uma agenda de acordos mundiais que comecem a governar nossa história e superar,
passo a passo, as ameaças à vida. A espécie como tal deveria ter um governo
para a humanidade que superasse o individualismo e primasse por recriar cabeças
políticas que acudam ao caminho da ciência, e não apenas aos interesses
imediatos que nos governam e nos afogam.
Paralelamente,
devemos entender que os indigentes do mundo não são da África ou da América
Latina, mas da humanidade toda, e esta deve, como tal, globalizada, empenhar-se
em seu desenvolvimento, para que possam viver com decência de maneira autônoma.
Os recursos necessários existem, estão neste depredador esbanjamento de nossa
civilização.
Há
poucos dias, fizeram na Califórnia, em um corpo de bombeiros, uma homenagem a
uma lâmpada elétrica que está acesa há cem anos. Cem anos que está acesa,
amigo! Quantos milhões de dólares nos tiraram dos bolsos fazendo deliberadamente
porcarias para que as pessoas comprem, comprem, comprem e comprem.
Mas
esta globalização de olhar para todo o planeta e para toda a vida significa uma
mudança cultural brutal. É o que nos requer a história. Toda a base material
mudou e cambaleou, e os homens, com nossa cultura, permanecem como se não
houvesse acontecido nada e, em vez de governarem a civilização, deixam que ela
nos governe.
Há
mais de 20 anos que discutimos a humilde taxa Tobin. Impossível aplicá-la no
tocante ao planeta. Todos os bancos do poder financeiro se irrompem feridos em
sua propriedade privada e sei lá quantas coisas mais. Mas isso é paradoxal.
Mas, com talento, com trabalho coletivo, com ciência, o homem, passo a passo, é
capaz de transformar o deserto em verde.
O
homem pode levar a agricultura ao mar. O homem pode criar vegetais que vivam na
água salgada. A força da humanidade se concentra no essencial. É
incomensurável. Ali estão as mais portentosas fontes de energia. O que sabemos
da fotossíntese? Quase nada. A energia no mundo sobra, se trabalharmos para
usá-la bem.
É
possível arrancar tranquilamente toda a indigência do planeta. É possível criar
estabilidade e será possível para as gerações vindouras, se conseguirem
raciocinar como espécie e não só como indivíduos, levar a vida à galáxia e
seguir com esse sonho conquistador que carregamos em nossa genética.
Mas,
para que todos esses sonhos sejam possíveis, precisamos governar a nos mesmos,
ou sucumbiremos porque não somos capazes de estar à altura da civilização em
que fomos desenvolvendo.
Este
é nosso dilema. Não nos entretenhamos apenas remendando consequências. Pensemos
na causa profundas, na civilização do esbanjamento, na civilização do usa-tira
que rouba tempo mal gasto de vida humana, esbanjando questões inúteis.
Pensem
que a vida humana é um milagre. Que estamos vivos por um milagre e nada vale
mais que a vida. E que nosso dever biológico, acima de todas as coisas, é
respeitar a vida e impulsioná-la, cuidá-la, procriá-la e entender que a espécie
é nosso "nós".
Obrigado.
Tradução:
Fernanda Grabauska
28
de setembro de 2013 | N° 17567
NILSON
SOUZA
O sol dos
guarda-chuvas
Tenho
uma dor infinita dos guarda-chuvas abandonados pelas calçadas da cidade. Toda
vez que nossa urbe incorpora Macondo, onde choveu durante quatro anos, onze
meses e dois dias, os restos mortais dessa família-morcego ficam espalhados
pelas ruas e praças, especialmente pelas paradas de ônibus – a roda dos
enjeitados da espécie envaretada.
Guarda-chuvas
são seres quase animados, alguns até se abrem por conta própria. Funcionam como
extensão do corpo, do braço humano. Servem de proteção, abrigo e companhia. Não
merecem o tratamento ingrato que muitas pessoas lhes dão. Basta uma varetinha
torta, uma ponta de pano solta e lá vai a bengala vestida para o brejo. Sem dó
nem piedade.
Sinceramente,
acho que os abandonadores deveriam ser punidos. Talvez possam ser enquadrados
na legislação que está sendo gestada para reprimir quem joga lixo na rua, com
os devidos agravantes para um objeto tão carente de afeto. Ou mesmo no Código
Penal, que tem um artigo específico para abandono de incapaz. Um guarda-chuva
destrambelhado é incapaz de se erguer sozinho, de abrir as suas asas e sair do
lugar em que foi jogado. Mesmo em dias de vento, o máximo que eles conseguem é
dar três ou quatro passos, antes de desabarem inertes sob o peso da haste em
forma de jota.
Culpa
dos fabricantes, argumentarão os infratores, alegando que a qualidade é tão
ruim, que os produtos se tornam descartáveis. Culpa dos chineses, dirão alguns
mais xenófobos, lembrando que quinquilharias oriundas da Ásia costumam se
desmanchar antes de serem usadas. Nada disso, porém, isenta o sujeito da
responsabilidade no abandono.
Em
compensação, ainda tem neste mundo quem se preocupe com os guarda-chuvas
extraviados. Além de remanescentes oficinas de conserto, cada vez mais raras,
de vez em quando aparece alguém mais criativo para dar sobrevida às sombrinhas
sequeladas.
Outro
dia, descobri que uma vizinha minha recolhe guarda-chuvas abandonados para
transformá-los em bolsas. Retira o pano pacientemente, recorta de acordo com os
seus moldes, costura e dá um formato elegante ao novo objeto, que voltará a
acompanhar algum dono pelas ruas. Achei a ideia tão boa, que até andei
recolhendo algumas peças extraviadas para presenteá-la.
Só
pelo prazer de imaginar que aqueles objetos descartados depois de enfrentarem
bravamente chuvas e tempestades para proteger seus donos voltarão a viver a
glória de um dia de sol, pois até na enfeitiçada Macondo ele voltou a brilhar.
28
de setembro de 2013 | N° 17567
EDITORIAL
CIDADES
ENGARRAFADAS
Tem
saída? Estudo divulgado nesta semana pelo Sindicato da Arquitetura e da
Engenharia do Rio Grande do Sul afirma que, em menos de três décadas, a Grande
Porto Alegre terá quase o dobro de carros da frota atual, com praticamente um
veículo por habitante ou seja, cerca de 3 milhões de automóveis.
No
mesmo dia, a população de São Francisco do Sul, no extremo norte de Santa
Catarina, passou momentos de angústia e pânico num engarrafamento de trânsito
na saída da cidade, quando tentava fugir da fumaça causada por um incêndio de
produtos químicos na área portuária. A cidade tem apenas 43 mil habitantes, mas
o engarrafamento de veículos em fuga atingiu a extensão de 10 quilômetros.
Se
tiver saída, certamente não será de carro.
Metrópoles
brasileiras, cidades médias e até pequenas vivem hoje um verdadeiro caos,
provocado pelo excesso de veículos. E a tendência é piorar, pois as frotas
urbanas aumentam em proporção maior do que o crescimento populacional e não há
qualquer possibilidade de que obras viárias solucionem o problema.
O
alargamento de estradas, a construção de rodovias, viadutos e túneis, a
instalação de equipamentos de sinalização e controle, o estímulo ao transporte
coletivo e a criação de corredores exclusivos são políticas públicas que até
podem atenuar os atuais transtornos, mas dificilmente os extinguirão. A questão
maior, irresolvível no momento, é a cultura do automóvel, baseada em valores
que nem sempre se materializam: conforto, status, segurança e agilidade.
Não
é exclusividade brasileira nem sul-americana. Na Europa, na Ásia e na América
do Norte, o culto ao automóvel também provoca polêmicas intermináveis e
situações desconcertantes.
Uma
pesquisa norte-americana sobre estresse mostrou que, de cada 12 ataques car-
díacos masculinos, um tem relação com engarrafamentos, incomodação no trânsito
e contato com a poluição. Reportagem da revista The Economist registrou que os
engarrafamentos na capital da Tailândia são tão demorados, que os motoristas
costumam carregar garrafas plásticas para urinar quando estão presos no
trânsito. Tem saída?
Ampla,
geral e irrestrita talvez não tenha, mas tem escapes – que é o que se busca na
hora do engarrafamento.
O
modelo europeu de atenuar o problema consiste em investir no transporte público
e dificultar a vida dos indivíduos que optam por carro próprio. O modelo
americano contempla a engenharia de trânsito e soluções inovadoras de
tecnologia para fazer o tráfego fluir melhor. Nenhum dos dois resolve
completamente o problema.
É
verdade que os sistemas de transporte público funcionam bem nas principais
cidades europeias, especialmente o metrô. Nas cidades mais organizadas, os
ônibus são pontuais, limpos e confortáveis, além de operarem com tarifas
acessíveis. Além disso, em alguns locais, metrôs, bondes e ônibus não só
oferecem tarifas promocionais como também as conjugam com ingressos para
eventos culturais.
E o
estímulo à bicicleta também ajuda muito, especialmente em localidades com
ciclovias modernas. Ainda assim, para aliviar os congestionamentos, os
governantes veem-se obrigados a penalizar os condutores, elevando os impostos
sobre combustíveis, cobrando pedágio em áreas centrais e aumentando o preço dos
estacionamentos.
Há
cidades alemãs em que as prefeituras só autorizam a construção de prédios sem
garagem, para desestimular o uso do carro. Punir quem anda de carro e premiar
quem opta pelo transporte coletivo não resolve tudo, mas está ajudando os
europeus a se estressar menos.
Nos
Estados Unidos, tais restrições são impensáveis. Os norte-americanos são apaixonados
por carros e desfrutam de condições econômicas para consumi-los. Então, optam
por estradas amplas, rodovias de alta velocidade e muita tecnologia,
especialmente em sistemas de monitoramento de tráfego e de sinalização.
No
Brasil, infelizmente, não temos soluções tecnológicas de vanguarda como os
norte-americanos nem o espírito comunitário que leva os europeus a aceitarem
regras no limite do arbítrio. Aqui, o transporte coletivo é ruim, os metrôs são
raros e até mesmo obras viárias necessárias parecem complicar mais o trânsito
do que desafogá-lo. Com o aumento do poder aquisitivo da população, a busca por
carros se intensificou e as cidades se transformaram em verdadeiros bretes. Tem
saída?
Tem,
mas precisa conjugar mudança de mentalidade por parte dos cidadãos, ousadia
administrativa por parte dos governantes e rigor por parte das autoridades.
O
modelo europeu de atenuar o problema consiste em investir no transporte público
e dificultar a vida dos indivíduos que optam por carro próprio.
O
modelo americano contempla a engenharia de trânsito e soluções inovadoras de
tecnologia para fazer o tráfego fluir melhor.
28
de setembro de 2013 | N° 17567
PAULO
SANT’ANA
Sua Majestade, o
burro
O
burro, indivíduo que se caracteriza por oblíquos raciocínios, quando envereda
pela burrice, faz um trajeto reto, nunca desvia de rumo. Interessante é que o
burro para si próprio parece ser brilhante: o burro possui atilado orgulho.
Não
raro, em nosso meio, o burro se consagra exatamente por ser burro. Alguns
burros ficam famosos pela sua burrice. O burro é como uma parede de aço, sua
burrice é imarcescivelmente férrea: a ideia bate na cabeça do burro e volta,
ela não penetra.
Invariavelmente,
o burro é um debatedor, quase ninguém concorda com ele, aliás, só concorda com
ele quem for também burro. Existem os burros cordatos e os burros enraivecidos.
O burro enraivecido é aquele que puxa briga quando discordam dele.
E o
burro cordato é o que se conforma com sua burrice. Ele é humilde, sabe que é
burro e admite sua inferioridade: é o tipo mais raro de burro. O burro não se
corrige, não se regenera, nasce burro e morre burro.
A
caixa craniana do burro é feita de material impenetrável, nada a vaza, nem as
ideias mais magistrais. Se você atirar um burro na água profunda, a sua cabeça,
podem notar, será a única parte de seu corpo que ficará boiando, ela é vedada
completamente à água e às ideias inteligentes.
Também
interessante é que o burro quase sempre se acha inteligente, exceção feita ao
burro humilde. Ele passa a vida inteira achando que é brilhante e que a
sociedade não lhe faz justiça.
Mas
ele vai em frente na esperança de que um dia lhe considerem genial. A burrice é
um exercício de perseverança, de não desistência. Afinal, o que o burro vai
fazer, se não sabe fazer outra coisa senão ser burro para sempre?
O
mundo é feito de burros e inteligentes. O burro dá azar de ser burro. Mas há um
ponto de vista que considera um burro feliz por ser burro: por passar a vida
inteira sem se dar ao trabalho de pensar, o que desgasta muito os que pensam.
Com
o burro não se dá assim: sabe lá que vantagem têm essas criaturas burras de
viver a vida inteira sem pensar? É uma moleza! Quem não pensa não sofre.
28
de setembro de 2013 | N° 17567
CLÁUDIA
LAITANO
Mujica
Sou
do Sul, venho do Sul. Começa assim, com uma afirmação enfática de identidade
que particularmente nos toca, o histórico discurso que o presidente uruguaio
José Mujica proferiu na ONU esta semana.
A
“esquina do Atlântico e do Prata” que Mujica menciona como coordenada
geográfica e mental fica na nossa rua, defronte a nossa casa. Seu “eu sou do
Sul”, porém, não é bravata ou fanfarra patriótica, mas apenas um ponto de
partida. Mujica não foi até Nova York para celebrar a nostalgia ou um orgulho
provinciano (“não vivo para reverberar memórias”), mas para lembrar que, da periferia
de onde ele vem às metrópoles onde se reúnem os grandes líderes mundiais, é do
interesse de todos construir para o futuro uma pátria moral que transcenda
fronteiras, individualismos e mesmo inclinações políticas.
Foi
como embaixador da nação invisível dos homens que colocam a defesa da
humanidade como valor acima de todos os outros que Mujica falou terça-feira
para o mundo. E como falou. (O discurso, publicado na íntegra em Zero Hora
Online, pode ser visto, também na íntegra, no You Tube.)
Mujica
é de uma sabedoria serena e engajada ao mesmo tempo. Defende a tolerância, a
sobriedade e a simplicidade que demonstra, na prática, como homem e como
político. Fala de amor, amizade, aventura, solidariedade. Elogia a ciência, mas
não descarta as utopias. Critica o consumismo e uma vida cotidiana baseada
apenas nas regras de mercado. Condena as guerras e a quantidade de dinheiro que
se desperdiça com elas.
É um
discurso anticapitalista, sem dúvida, mas não apenas. O que Mujica coloca em
xeque são os valores da civilização contemporânea: “Enfrentamos o sedentarismo
com esteiras, a insônia com comprimidos, a solidão com eletrônicos. Somos
felizes longe da convivência humana? Essa é a pergunta que temos que nos
fazer”.
Com
a autoridade de reconhecido homem de bem, mais do que de grande estadista,
Mujica propôs ao mundo uma pausa para refletir sobre quem realmente está no
volante do planeta em que estamos todos, mais ou menos passivamente,
instalados: “Nem os grandes Estados nem as transnacionais e muito menos o
sistema financeiro deveriam governar o mundo humano, mas sim a política
entrelaçada com a sabedoria científica. Ali está a fonte”.
Nos
últimos dias de setembro, mês em que celebramos a nostalgia de uma glória
imaginada e o pensamento mágico de que a identidade é um valor em si mesma,
esse belo e inspirador discurso me fez, mais do que nunca, ter orgulho de ser
do Sul. Não pela história ou pela geografia, nem mesmo porque este é o canto do
mundo em que me tocou viver e amar, mas simplesmente por ter o privilégio de
ser vizinha do senhor Mujica e dos seus sonhos, não impossíveis, de
fraternidade e humanismo.
Meu
Sul é o dele.
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Jaime
Cimenti
O novo livro de Liberato Vieira da
Cunha
De
Pero Vaz de Caminha a Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos
Drummond de Andrade, passando por Machado de Assis, José de Alencar e Nelson
Rodrigues, chegando a autores contemporâneos como Carlos Heitor Cony, Luis
Fernando Verissimo e Zuenir Ventura, a crônica no Brasil percorreu um longo
caminho e segue encantando os leitores.
Pelas
qualidades literárias de alguns textos e pela sua profunda brasilidade, a crônica
mereceu status de gênero jornalístico e literário, e os trabalhos mais perenes
figuram em antologias, muitas reeditadas e estudadas em escolas e universidades.
O jornalista, contista, romancista e cronista Liberato Vieira da Cunha, nas últimas
décadas, marca presença na literatura brasileira como um dos cronistas mais
lidos. Acaba de lançar O silêncio do mundo, com crônicas publicadas entre 2002
e 2013.
Como
ele mesmo diz, se diverte escrevendo, usando a primeira pessoa, histórias com
começo, meio e fim, falando de homens, mulheres, casas, situações, amores e
desamores do cotidiano. Com seu estilo simples e direto, nostálgico , lírico,
com leves e sutis toques de humor, o autor nos fala de seus pais, da primeira
Feira do Livro, de ruas de Porto Alegre, especialmente a Duque de Caxias, de
antigas mansões, damas misteriosas, mulheres lindas, encontros e desencontros,
de alegrias e tristezas e de presenças e ausências.
Liberato,
em seus textos, também fala de cinema, de livros, da inevitável passagem do
tempo e de instantes que merecem registro na memória e no papel, por sua
beleza, sua singularidade e por se apresentarem aos sentidos atentos e aguçados
do cronista.
O
autor escreveu que não sabe bem o que é o passado, mas sabe que o presente é a
soma de todos os passados. Num momento em que a crônica se transformou, na
maior parte do tempo, para o bem e para o mal, em pequenos artigos de opinião, é
importante a presença de um autor que trabalha - e muito bem - os fundamentos e
as raízes de um gênero que os brasileiros consagraram e nos apresenta temas tão
essenciais, eternos e inspiradores. Nem todo o tempo e nem todos os assuntos
estão perdidos.
Ah,
o Liberato espera os amigos dia 1 de outubro, às 19h, na Saraiva do Moinhos
Shopping, para autógrafos, conversas, vinhos, apertos de mão, abraços, beijos, sorrisos y otras cositas más.
Editora AGE, 206 páginas, R$ 38,00, www.editoraage.com.br.
Jaime
Cimenti
Amor, perda, fidelidade e
segredos
O
romance Desejos inacabados, da escritora norte-americana Gail Godwin, nascida
no Alabama e premiada com o Guggenheim Fellowship, o National Endowment for the
Arts e o American Academy Awards of Arts and Letters, ora lançado no Brasil, é
um de seus mais de 10 livros.
A
narrativa trata de amor, perda, fidelidade, segredos, rivalidade e fé através
de um conjunto encantador de personagens muito humanos. A autora, que vive em
Wood-stock, Nova Iorque, também é libretista com mais de 10 trabalhos na área
feitos em conjunto com o compositor Robert Starer. Desejos inacabados trata de
episódios ocorridos no outono de 1951, em Mount St. Gabriel, uma escola para
moças localizada na Carolina do Norte.
Tidly
Stratto, a inesquecível aluna líder de sua turma, faz uma nova amizade: Chloe
Starnes, recém-chegada, cuja mãe, pouco antes, teve uma morte misteriosa. A
amizade entre as duas preenche uma lacuna na vida de ambas, mas, ao mesmo
tempo, desencadeia uma série de eventos que afetarão o rumo de muitas vidas,
entre elas a da jovem professora das meninas e de Suzzane Ravenel, então diretora
da escola.
Segredos
muito bem escondidos virão à tona. Cinquenta anos depois, ao olhar para trás e
escrever a história da escola a pedido de ex-alunas, Suzanne relembra uma noite
fundamental em sua vida e na história do colégio, e tenta conciliar passado e
presente. Para tanto, volta ainda mais no tempo, para quando era aluna, época
em que estão fincadas as raízes de uma tragédia e um segredo mais profundo e
bem-guardado.
Gail
Godwin, reconhecida pela sofisticação de sua narrativa e por sua criatividade,
bem como pela elegância e pela fina ironia, apresenta uma história com
personagens instigantes e com uma trama envolvente. No romance, a autora conta
uma história de amizade, lealdade e mentiras que se tornam verdades absolutas e
desejos não realizados que passam de geração para geração e, com muita
competência, capta o raríssimo momento de redenção em que uma alma se liberta
de suas amarras.
Não
por acaso Gail tem sido considerada uma das autoras mais inteligentes e
talentosas da atualidade e mereceu críticas altamente favoráveis do The New
York Times Book Review, do Chicago Sun Times, do Miami Herald, do Boston Globe
e do Denver Post. Bertrand Brasil, tradução de Michel Marques, 616 páginas, mdireto@record.com.br.
27
de setembro de 2013 | N° 17566
EDITORIAIS
ZH
TETO PARA TODOS
Depois
de constatar que nada menos de 464 servidores do Senado recebem salários acima
do teto constitucional de R$ 28.059,29, o equivalente aos vencimentos de um
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o Tribunal de Contas da União (TCU)
determinou não apenas a interrupção da regalia como também a devolução do
dinheiro desembolsado a mais aos cofres públicos. Já não era sem tempo.
O
curioso é que o relator da matéria, o ministro Raimundo Carreiro, defendeu que
os valores foram recebidos de boa-fé e, por isso, não precisariam ser
devolvidos. Foi voto vencido, felizmente. Se era irregular, tem que ser
restituído, ainda que o beneficiário, numa hipótese remota, ignorasse estar
recebendo acima do previsto por lei.
São
conhecidas as resistências de servidores dos três poderes e de todas as
instâncias da federação em se conformar com um teto de vencimento que, no
Brasil, mantém uma distância abissal da remuneração de categorias
financeiramente desprestigiadas ao longo do tempo, como professores e
policiais.
A
definição de um valor máximo estabelecido em lei só se impôs na prática porque
dirigentes de corporações influentes se comprometeram em abrir mão dos chamados
penduricalhos – vantagens que, até então, se acumulavam sem qualquer limite. A
questão é que, ainda assim, uma elite do funcionalismo insiste em continuar
ganhando acima do valor máximo fixado em lei, amparada na ideia de que jamais
ocorrerá qualquer problema.
Por
isso, a decisão do TCU de suspender os salários acima do teto no Senado e, mais
do que isso, de exigir de volta os valores pagos a mais tem efeito didático
importante que não pode ser desperdiçado. Em recente iniciativa referente à
Câmara, não houve a determinação de cobrar a quantia desembolsada a mais.
Um
risco a ser evitado agora, portanto, é o de que a exigência de restituição
venha a ser revista. Outra ameaça é de que a devolução acabe sendo feita não
com dinheiro dos funcionários favorecidos, mas com recursos públicos, levando o
contribuinte a arcar com o prejuízo duas vezes.
O
teto salarial do setor público só tem sentido se valer para todos os
servidores, indistintamente. Só no caso do Senado, os gastos com os
funcionários remunerados acima da lei alcançam R$ 60 milhões por ano.
São
essas deformações que, somadas, agravam as iniquidades no setor público,
impedem maior eficiência em serviços essenciais e dificultam uma remuneração
mais digna para quem, mesmo exercendo funções igualmente nobres, se mantém na
base da pirâmide do funcionalismo.
27
de setembro de 2013 | N° 17566
ARTIGOS
- Wilma Resende Araujo Santos*
Carta ao
voluntário
O
voluntário é um doador de tempo, de conhecimento, de história de vida.
É
levado por compaixão, por solidariedade ou por indignação. Por qualquer dessas
razões, ele transforma impulso em compromisso e provoca uma revolução nas
atitudes individuais. Se for por compaixão, procura dar atendimento a creches,
asilos e hospitais, levando conforto. Por solidariedade, se junta a grupos e
desenvolve um trabalho de mutirão. Por indignação, é quando as angústias se
acumulam ao perceber a insuficiência dos poderes constituídos, a fragilidade da
área da saúde, as más condições do ensino, a exposição de tantas iniquidades
sociais.
E,
então, a sociedade passa a ser chamada, como coadjuvante na solução dos
problemas. As empresas que se sentiam de missão cumprida ao praticar a
filantropia fazendo generosas doações assistenciais se veem obrigadas a
repensar seu papel na participação da Responsabilidade Social. Com nova
postura, planejada e monitorada, dispõem seus recursos privados para fins públicos.
O
cidadão, por sua vez, se impõe desafios na busca de uma sociedade mais justa.
Qual a melhor maneira, senão se tornar um agente de transformação de quem será
o protagonista do futuro?
Atendendo
a uma vontade sincera de deixar um legado, se buscam serviços organizados,
estruturados com métodos eficientes, metas específicas, tarefas definidas. É o
voluntariado planejado que observa a “Lei do Serviço de Voluntários”. E aquela
sua antiga indignação passa a ser reação para se transformar em ação.
O voluntariado
passou a ser ferramenta fundamental ao dar vida às mais nobres aspirações da
humanidade.
O
voluntariado corporativo expressa a relevância do que a empresa permite que ele
faça, tornando possível a realização de interesses públicos e se tornando
também um estímulo profissional, gerador de energia em benefício da própria
empresa.
As
entidades que trabalham com voluntários estão empenhadas em otimizar a
eficiência dos processos.
Você,
que nunca viveu a experiência de ser voluntário, faça-o, tornando-se voluntário
da educação.
Prepare-se
para ser um agente de transformação.
É
bonita essa tarefa de mostrar ao jovem a importância de estudar. De lhe dar
segurança para investir em sua própria vida, descobrindo seus sonhos, seu
potencial e os desafios a serem encarados para a construção do seu futuro.
Reforce
seus valores. Mostre que a honestidade rende dividendos, que podemos criar
riquezas respeitando o próximo e atuando com ética.
Você
vai perceber que o jovem está ouvindo com uma premente necessidade de
acreditar.
Seu
coração vai se aquecendo, porque você está contribuindo para construir o Brasil
de amanhã, para construir um modelo de futuro, capaz de conciliar estabilidade
econômica com a redução das mazelas sociais e o cuidado maior com o planeta.
Estaremos
cumprindo nosso dever de cidadãos!
*DIRETORA
SUPERINTENDENTE DA JUNIOR ACHIEVEMENT BRASIL
27
de setembro de 2013 | N° 17566
PAULO
SANT’ANA
Importa só a
intenção
Tive
ontem uma reunião que vai me catapultar para incontáveis conquistas pessoais (e
coletivas), se eu não morrer antes de atingi-las.
Se
eu não morrer, o plano que foi objeto da reunião de ontem está fadado a um
espetacular sucesso. Basta que eu não morra para atingir o céu. Gozado, há
homens tão virtuosos, que com eles ocorre o contrário: basta que eles morram
para ingressar imediatamente no céu.
Estive
pensando ontem: ao lado de um homem de sucesso, diz-se, sempre está presente
uma grande mulher. É uma frase lapidar. Mas eu quero modificá-la: ao lado de um
homem de sucesso, estarão sempre presentes grandes amigos.
Agora
vejam a alegria imensa que nos pode dar de repente uma pessoa humilde. O
vendedor de jornais José Carlos da Silva, com 30 anos de idade, aproximou-se de
mim ontem e me disse: “Meu ponto de venda de Zero Hora é na esquina das
avenidas Benjamin Constant e Brasil. A maioria das pessoas que compram nosso
jornal de mim, no meu ponto, diz que o adquire por vários motivos, mas o
principal é sempre a sua coluna”.
Evidentemente
que fui às alturas depois que ouvi isso. Há coisas que a gente sabe que estão
acontecendo, mas só se dá conta profunda delas quando alguém vem-nas revelar.
Voltando
à filosofia, importa menos que ajudemos uma pessoa do que queiramos ajudá-la.
Não
sei se me explico bem: é possível que não possamos ajudar uma pessoa em sua
necessidade máxima, o que importa é que tenhamos vivo dentro de nós o desejo de
ajudá-la, senão a intenção de ajudá-la, mesmo que nos frustremos no sucesso de
nosso propósito.
Esses
dias, morreu uma pessoa próxima de mim. E eu só lamentava no enterro que não
tinha podido ajudá-la em sua necessidade imperiosa. Sabem como me consolei?
Pois foi na convicção de que fiz tudo o que estava ao meu alcance para
ajudá-la. Se não pude é porque os fados não quiseram, não foi por culpa e
responsabilidade minhas.
Eu
sempre digo que Deus não mandou ninguém vencer, mandou tentar. Isto é, se
alguém não atingiu êxito em uma tarefa ou façanha, isso não importa, o que
interessa é se a pessoa que queria atingir determinado alvo arregaçou as mangas
para atingi-lo.
Se
arregaçou, dormirá com a consciência tranquila do dever cumprido, mesmo sem
êxito.
Eu
sempre digo também: não importa o resultado que obtemos, o que importa é que
nos atiremos a ele com esforço e obstinação.
E,
se não atingimos nosso objetivo, com esforço e obstinação, ali adiante
atingiremos outro alvo importante se prosseguirmos assim nessa doida e
incontida ânsia de chegar aonde almejamos.
27
de setembro de 2013 | N° 17566
DAVID
COIMBRA
Uma coisa brilhante na
calçada
Outro
dia, caminhava de mãos dadas com meu filho e vimos um brinco caído na calçada.
Antes
de prosseguir, preciso dizer que gosto muito de caminhar de mãos dadas com meu
filho. Ao segurar-lhe a mão de menino, sinto como se pudesse protegê-lo de
todos os males do mundo. Uma ilusão boba, claro que sim, mas esse momento, para
mim, é de intensa paternidade, e uma das poucas coisas de que sinto real
orgulho é de ser pai.
Com
essa informação, o leitor perceberá o tamanho da minha insignificância.
Qualquer um pode ser pai, sempre houve pais no mundo, há bilhões de pais por
aí, e é essa condição trivial que me faz sentir orgulho. Quisera eu ser um
paladino da justiça, um defensor dos oprimidos, um mobilizador de multidões, um
talento genial em qualquer coisa. Não sou. Sou apenas pai. Um pai banal. E o
pior é que gosto disso. Isso me satisfaz. Cada qual com suas limitações.
Mas
o brinco. Era um brinco de mulher de forma ovalada, do tamanho de uma moeda de
um real. Faiscava num desvão da calçada. Um único brinco, seu par não cintilava
pelas cercanias, suponho que balançasse solitário do lóbulo da orelha de sua
dona, onde quer que ela estivesse.
Agachei-me,
colhi o brinco do chão e dei para o meu filho. Ele ficou a analisá-lo. Nesse
momento, já tinha se despegado da minha mão. Isso me incomoda um pouco: quando
ele pode, se solta da minha mão. Eu ali, pensando em protegê-lo, pensando na
paternidade e tudo mais, e ele querendo independência aos seis anos de idade.
Francamente.
De
qualquer modo, o que interessa é o brinco. Não devia ser valioso. Não sou
conhecedor de joias, mas aquele brinco dava a impressão de ser uma reles
bijuteria. Quanto custaria? Cem reais? Duzentos? Não faço ideia.
Meu
filho sorria enquanto examinava o brinco, e sorrindo olhou para cima, fitou-me
nos olhos e disse:
–
Vamos dar para a mamãe?
Antes
que eu respondesse, ele tornou a olhar para o brinco, colocou-o com cuidado no
bolso da jaqueta, e comentou:
–
Ela vai adorar. As mulheres adoram coisas brilhantes...
Com
essa conclusão, olhou para a frente e fez o que eu queria, mas não esperava:
pegou na minha mão. Seguimos caminhando, pai e filho, ele sorrindo, satisfeito,
e eu pensando que ele tinha razão: as mulheres adoram coisas brilhantes.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
ROBERTO
DE OLIVEIRA- DE SÃO PAULO
Há quatro meses, cão monta guarda,
em vão, à espera do dono
Ninguém
imaginaria que aquele bichinho, abandonado numa favela, infestado de carrapatos
e tomado pela sarna, sobreviveria a doenças de pele espalhadas pelo corpo.
Voluntários
de uma ONG recolheram o cão e lhe deram tratamento. Faltava um lar. José Santos
Rosa, funileiro da zona leste paulistana, quis ficar com ele. O filhote chegou
numa caixa de sapatos.
Zé
pensou em levá-lo para casa, mas, ao saber que o cão ficaria
"gigante", herança de seus traços genéticos, mezzo labrador, mezzo
rottweiler, resolveu deixá-lo na oficina.
Logo,
Beethoven passou a orquestrar barulhos por onde andava. Serelepe, cruzava fácil
as grades do portão, que ganhou tampões de madeira para mantê-lo a salvo da
rua.
O
cãozinho, lembra a vizinha Margareth Thomé, 47, "achava que era
gato": escalava o muro da funilaria e andava sobre ele, espreitando,
ansioso, a chegada do dono.
Na
tentativa de conter o ímpeto felino do cão, Zé levantou ainda mais o muro.
Por
volta das 7h, o barulho do molho de chaves de Zé era a senha para Beethoven
pular da cama e ir direto se sacudir no colo do dono.
Sábado,
domingo ou feriado, sol e chuva, pouco importava o dia, tampouco o clima, lá
estava ele, postado na entrada, fazendo festa para Zé.
Mas,
desde o dia 8 de junho, uma manhã de sábado, o silêncio e a tristeza tomaram
conta de Beethoven: a rotina de latidos, saltos e carinhos, ao longo de quatro
anos, foi interrompida.
Na
noite anterior, depois de se despedir do "amigão", como era de
costume, o funileiro pegou o carro para ir embora. Dirigia pela avenida Rio das
Pedras (zona leste), quando, sentindo fortes dores no peito, procurou às
pressas um lugar para estacionar.
Ligou
para o Samu. A emergência veio rápido, só que tarde demais: Zé, 54, sofreu um
ataque cardíaco. Deixa a mulher, duas filhas e Beethoven.
'SEMPRE
AO SEU LADO'
"O
cachorro ficou tão desamparado quanto elas", diz Margareth. A vizinha fez
uma "vaquinha" para comprar ração, mas o apetite do cão, antes voraz,
diminuiu bastante.
Ela
pretende encontrar um novo lar para Beethoven, que hoje divide o teto com
outros seis cães de rua, trazidos por um carroceiro que está
"ocupando" a funilaria. A família de Zé não tem condições de ficar
com Beethoven, que foi para adoção (www.facebook.com/cristiane.biral ).
"Quando
ele ouve o barulho de chaves, vem correndo para o portão", conta
Margareth. "Acha que é o Zé."
Elvira
Brandolin, 79, outra vizinha, lembra que a rua nunca esteve tão calada.
"Ele latia fazendo festa para o Zé. Infelizmente, a festa acabou."
Autora
de livros como "Um Cão pra Chamar de Seu", a veterinária Regina
Rheingantz Motta, 53, explica que Beethoven continua exercitando sua rotina
"de encontros e despedidas de seu dono, mas ele ainda não aprendeu a
incluir nela a morte".
A
persistência de Beethoven fez com que seus vizinhos enxergassem semelhanças
entre o cão sem raça definida e a tocante história de Hachiko, o cachorro akita
do filme "Sempre ao Seu Lado".
Após
a morte do dono, Hachiko continua indo "buscá-lo" na estação de trem,
assim como Beethoven continua lá, às portas da funilaria, à espera do amigo
humano.
Baseado
em uma história real acontecida no Japão, o longa fez sucesso com Richard Gere
no papel do professor, dono do cão, que morre, assim como o Zé, vítima de um
ataque fulminante.
Mesmo
calado e desolado, Beethoven continua fiel à guarda matinal à espera de Zé,
todos os dias, às 7h.
O
que ele ainda não sabe é que o dono jamais voltará.
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