sábado, 28 de setembro de 2013



É melhor abraçar os espinhos
da verdade que as rosas
da ilusão.
Delicioso final de semana

Lindo sábado pra você



Leia a íntegra do discurso de José Mujica na ONU

Presidente uruguaio criticou o capitalismo e o individualismo em discurso que empolgou nas Nações Unidas

Amigos, sou do sul, venho do sul. Esquina do Atlântico e do Prata, meu país é uma planície suave, temperada, uma história de portos, couros, charque, lãs e carne. Houve décadas púrpuras, de lanças e cavalos, até que, por fim, no arrancar do século 20, passou a ser vanguarda no social, no Estado, no Ensino. Diria que a social-democracia foi inventada no Uruguai.

Durante quase 50 anos, o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na realidade, na economia, fomos bastardos do império britânico e, quando ele sucumbiu, vivemos o amargo mel do fim de mudanças funestas, e ficamos estancados, sentindo falta do passado.

Quase 50 anos recordando o Maracanã, nossa façanha esportiva. Hoje, ressurgimos no mundo globalizado, talvez aprendendo de nossa dor. Minha história pessoal, a de um rapaz — porque, uma vez, fui um rapaz — que, como outros, quis mudar seu tempo, seu mundo, o sonho de uma sociedade libertária e sem classes. Meus erros são, em parte, filhos de meu tempo. Obviamente, os assumo, mas há vezes que medito com nostalgia.

Quem tivera a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia! No entanto, não olho para trás, porque o hoje real nasceu das cinzas férteis do ontem. Pelo contrário, não vivo para cobrar contas ou para reverberar memórias.

Me angustia, e como, o amanhã que não verei, e pelo qual me comprometo. Sim, é possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez, hoje, a primeira tarefa seja cuidar da vida.

Mas sou do sul e venho do sul, a esta Assembleia, carrego inequivocamente os milhões de compatriotas pobres, nas cidades, nos desertos, nas selvas, nos pampas, nas depressões da América Latina pátria de todos que está se formando.

Carrego as culturas originais esmagadas, com os restos de colonialismo nas Malvinas, com bloqueios inúteis a este jacaré sob o sol do Caribe que se chama Cuba. Carrego as consequências da vigilância eletrônica, que não faz outra coisa que não despertar desconfiança. Desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego uma gigantesca dívida social, com a necessidade de defender a Amazônia, os mares, nossos grandes rios na América.

Carrego o dever de lutar por pátria para todos. Para que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, e carrego o dever de lutar por tolerância, a tolerância é necessária para com aqueles que são diferentes, e com os que temos diferenças e discrepâncias. Não se precisa de tolerância com aqueles com quem estamos de acordo.

A tolerância é o fundamento de poder conviver em paz, e entendendo que, no mundo, somos diferentes.

O combate à economia suja, ao narcotráfico, ao roubo, à fraude e à corrupção, pragas contemporâneas, procriadas por esse antivalor, esse que sustenta que somos felizes se enriquecemos, seja como seja. Sacrificamos os velhos deuses imateriais. Ocupamos o templo com o deus mercado, que nos organiza a economia, a política, os hábitos, a vida e até nos financia em parcelas e cartões a aparência de felicidade.

Parece que nascemos apenas para consumir e consumir e, quando não podemos, nos enchemos de frustração, pobreza e até autoexclusão.

O certo, hoje, é que, para gastar e enterrar os detritos nisso que se chama pela ciência de poeira de carbono, se aspirarmos nesta humanidade a consumir como um americano médio, seriam imprescindíveis três planetas para poder viver.

Nossa civilização montou um desafio mentiroso e, assim como vamos, não é possível satisfazer esse sentido de esbanjamento que se deu à vida. Isso se massifica como uma cultura de nossa época, sempre dirigida pela acumulação e pelo mercado.

Prometemos uma vida de esbanjamento, e, no fundo, constitui uma conta regressiva contra a natureza, contra a humanidade no futuro. Civilização contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais.

O pior: civilização contra a liberdade que supõe ter tempo para viver as relações humanas, as únicas que transcendem: o amor, a amizade, aventura, solidariedade, família.

Civilização contra tempo livre que não é pago, que não se pode comprar, e que nos permite contemplar e esquadrinhar o cenário da natureza.

Arrasamos a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com comprimidos, a solidão com eletrônicos, porque somos felizes longe da convivência humana.

Cabe se fazer esta pergunta, ouvimos da biologia que defende a vida pela vida, como causa superior, e a suplantamos com o consumismo funcional à acumulação.

A política, eterna mãe do acontecer humano, ficou limitada à economia e ao mercado. De salto em salto, a política não pode mais que se perpetuar, e, como tal, delegou o poder, e se entretém, aturdida, lutando pelo governo. Debochada marcha de historieta humana, comprando e vendendo tudo, e inovando para poder negociar de alguma forma o que é inegociável.

Há marketing para tudo, para os cemitérios, os serviços fúnebres, as maternidades, para pais, para mães, passando pelas secretárias, pelos automóveis e pelas férias. Tudo, tudo é negócio.

Todavia, as campanhas de marketing caem deliberadamente sobre as crianças, e sua psicologia para influir sobre os adultos e ter, assim, um território assegurado no futuro. Sobram provas de essas tecnologias bastante abomináveis que, por vezes, conduzem a frustrações e mais.

O homenzinho médio de nossas grandes cidades perambula entre os bancos e o tédio rotineiro dos escritórios, às vezes temperados com ar condicionado. Sempre sonha com as férias e com a liberdade, sempre sonha com pagar as contas, até que, um dia, o coração para, e adeus. Haverá outro soldado abocanhado pelas presas do mercado, assegurando a acumulação. A crise é a impotência, a impotência da política, incapaz de entender que a humanidade não escapa nem escapará do sentimento de nação. Sentimento que está quase incrustado em nosso código genético.

Hoje é tempo de começar a talhar para preparar um mundo sem fronteiras. A economia globalizada não tem mais condução que o interesse privado, de muito poucos, e cada Estado Nacional mira sua estabilidade continuísta, e hoje a grande tarefa para nossos povos, em minha humilde visão, é o todo.

Como se isto fosse pouco, o capitalismo produtivo, francamente produtivo, está meio prisioneiro na caixa dos grandes bancos. No fundo, são o vértice do poder mundial. Mais claro, cremos que o mundo requer a gritos regras globais que respeitem os avanços da ciência, que abunda. Mas não é a ciência que governa o mundo. Se precisa, por exemplo, uma larga agenda de definições, quantas horas de trabalho e toda a terra, como convergem as moedas, como se financia a luta global pela água e contra os desertos.

Como se recicla e se pressiona contra o aquecimento global. Quais são os limites de cada grande questão humana. Seria imperioso conseguir consenso planetário para desatar a solidariedade com os mais oprimidos, castigar impositivamente o esbanjamento e a especulação.

Mobilizar as grandes economias não para criar descartáveis com obsolescência calculada, mas bens úteis, sem fidelidade, para ajudar a levantar os pobres do mundo. Bens úteis contra a pobreza mundial. Mil vezes mais rentável que fazer guerras. Virar um neo-keynesianismo útil, de escala planetária, para abolir as vergonhas mais flagrantes deste mundo.

Talvez nosso mundo necessite menos de organismos mundiais, desses que organizam fórums e conferências, que servem muito às cadeias hoteleiras e às companhias aéreas e, no melhor dos casos, não reúne ninguém e transforma em decisões...

Precisamos sim mascar muito o velho e o eterno da vida humana junto da ciência, essa ciência que se empenha pela humanidade não para enriquecer; com eles, com os homens de ciência da mão, primeiros conselheiros da humanidade, estabelecer acordos para o mundo inteiro. Nem os Estados nacionais grandes, nem as transnacionais e muito menos o sistema financeiro deveriam governar o mundo humano.

Sim, a alta política entrelaçada com a sabedoria científica, ali está a fonte. Essa ciência que não apetece o lucro, mas que mira o por vir e nos diz coisas que não escutamos. Quantos anos faz que nos disseram coisas que não entendemos? Creio que se deve convocar a inteligência ao comando da nave acima da terra, coisas assim e coisas que não posso desenvolver nos parecem impossíveis, mas requeririam que o determinante fosse a vida, não a acumulação.

Obviamente, não somos tão iludidos, nada disso acontecerá, nem coisas parecidas. Nos restam muitos sacrifícios inúteis daqui para diante, muitos remendos de consciência sem enfrentar as causas. Hoje, o mundo é incapaz de criar regras planetárias para a globalização e isso é pela enfraquecimento da alta política, isso que se ocupa de todo.

Por último, vamos assistir ao refúgio de acordos mais ou menos "reclamáveis", que vão plantear um comércio interno livre, mas que, no fundo, terminarão construindo parapeitos protecionistas, supranacionais em algumas regiões do planeta. A sua vez, crescerão ramos industriais importantes e serviços, todos dedicados a salvar e a melhorar o meio ambiente. Assim vamos nos consolar por um tempo, estaremos entretidos e, naturalmente, continuará a parecer que a acumulação é boa, para a alegria do sistema financeiro.

Continuarão as guerras e, portanto, os fanatismos, até que, talvez, a mesma natureza faça um chamado à ordem e torne inviáveis nossas civilizações. Talvez nossa visão seja demasiado crua, sem piedade, e vemos ao homem como uma criatura única, a única que há acima da terra capaz de ir contra sua própria espécie.

Volto a repetir, porque alguns chamam a crise ecológica do planeta de consequência do triunfo avassalador da ambição humana. Esse é nosso triunfo e também nossa derrota, porque temos impotência política de nos enquadrarmos em uma nova época. E temos contribuído para sua construção sem nos dar conta.

Por que digo isto? São dados, nada mais. O certo é que a população quadruplicou e o PIB cresceu pelo menos vinte vezes no último século. Desde 1990, aproximadamente a cada seis anos o comércio mundial duplica. Poderíamos seguir anotando dados que estabelecem a marcha da globalização.

O que está acontecendo conosco? Entramos em outra época aceleradamente, mas com políticos, enfeites culturais, partidos e jovens, todos velhos ante a pavorosa acumulação de mudanças que nem sequer podemos registrar. Não podemos manejar a globalização porque nosso pensamento não é global. Não sabemos se é uma limitação cultural ou se estamos chegano a nossos limites biológicos.

Nossa época é portentosamente revolucionária como não conheceu a história da humanidade. Mas não tem condução consciente, ou ao menos condução simplesmente instintiva. Muito menos, todavia, condução política organizada, porque nem se quer tivemos filosofia precursora ante a velocidade das mudanças que se acumularam.

A cobiça, tão negativa e tão motor da história, essa que impulsionou o progresso material técnico e científico, que fez o que é nossa época e nosso tempo e um fenomenal avanço em muitas frentes, paradoxalmente, essa mesma ferramenta, a cobiça que nos impulsionou a domesticar a ciência e transformá-la em tecnologia nos precipita a um abismo nebuloso.

A uma história que não conhecemos, a uma época sem história, e estamos ficando sem olhos nem inteligência coletiva para seguir colonizando e para continuar nos transformando. Porque se há uma característica deste bichinho humano é a de que é um conquistador antropológico.

Parece que as coisas tomam autonomia e essas coisas subjugam os homens. De um lado a outro, sobram ativos para vislumbrar tudo isso e para vislumbrar o rombo. Mas é impossível para nós coletivizar decisões globais por esse todo. A cobiça individual triunfou grandemente sobre a cobiça superior da espécie.

Aclaremos: o que é "tudo", essa palavra simples, menos opinável e mais evidente? Em nosso Ocidente, particularmente, porque daqui viemos, embora tenhamos vindo do sul, as repúblicas que nasceram para afirmas que os homens são iguais, que ninguém é mais que ninguém, que os governos deveriam representar o bem comum, a justiça e a igualdade. Muitas vezes, as repúblicas se deformam e caem no esquecimento da gente que anda pelas ruas, do povo comum.

Não foram as repúblicas criadas para vegetar, mas ao contrário, para serem um grito na história, para fazer funcionais as vidas dos próprios povos e, por tanto, as repúblicas que devem às maiorias e devem lutar pela promoção das maiorias.

Seja o que for, por reminiscências feudais que estão em nossa cultura, por classismo dominador, talvez pela cultura consumista que rodeia a todos, as repúblicas frequentemente em suas direções adotam um viver diário que exclui, que se distância do homem da rua.

Esse homem da rua deveria ser a causa central da luta política na vida das repúblicas. Os governos republicanos deveriam se parecer cada vez mais com seus respectivos povos na forma de viver e na forma de se comprometer com a vida.

A verdade é que cultivamos arcaísmos feudais, cortesias consentidas, fazemos diferenciações hierárquicas que, no fundo, amassam o que têm de melhor as repúblicas: que ninguém é mais que ninguém. O jogo desse e de outros fatores nos retém na pré-história. E, hoje, é impossível renunciar à guerra quando a política fracassa. Assim, se estrangula a economia, esbanjamos recursos.

Ouçam bem, queridos amigos: em cada minuto no mundo se gastam US$ 2 milhões em ações militares nesta terra. Dois milhões de dólares por minuto em inteligência militar!! Em investigação médica, de todas as enfermidades que avançaram enormemente, cuja cura dá às pessoas uns anos a mais de vida, a investigação cobre apenas a quinta parte da investigação militar.

Este processo, do qual não podemos sair, é cego. Assegura ódio e fanatismo, desconfiança, fonte de novas guerras e, isso também, esbanjamento de fortunas. Eu sei que é muito fácil, poeticamente, autocriticarmo-nos pessoalmente. E creio que seria uma inocência neste mundo plantear que há recursos para economizar e gastar em outras coisas úteis. Isso seria possível, novamente, se fôssemos capazes de exercitar acordos mundiais e prevenções mundiais de políticas planetárias que nos garantissem a paz e que a dessem para os mais fracos, garantia que não temos.

Aí haveria enormes recursos para deslocar e solucionar as maiores vergonhas que pairam sobre a Terra. Mas basta uma pergunta: nesta humanidade, hoje, onde se iria sem a existência dessas garantias planetárias? Então cada qual esconde armas de acordo com sua magnitude, e aqui estamos, porque não podemos raciocinar como espécie, apenas como indivíduos.

As instituições mundiais, particularmente hoje, vegetam à sombra consentida das dissidências das grandes nações que, obviamente, querem reter sua cota de poder.

Bloqueiam esta ONU que foi criada com uma esperança e como um sonho de paz para a humanidade. Mas, pior ainda, desarraigam-na da democracia no sentido planetário porque não somos iguais. Não podemos ser iguais nesse mundo onde há mais fortes e mais fracos. Portanto, é uma democracia ferida e está cerceando a história de um possível acordo mundial de paz, militante, combativo e verdadeiramente existente. E, então, remendamos doenças ali onde há eclosão, tudo como agrada a algumas das grandes potências. Os demais olham de longe. Não existimos.

Amigos, creio que é muito difícil inventar uma força pior que nacionalismo chovinista das grandes potências. A força é que liberta os fracos. O nacionalismo, tão pai dos processos de descolonização, formidável para os fracos, se transforma em uma ferramenta opressora nas mãos dos fortes e, nos últimos 200 anos, tivemos exemplos disso por toda a parte.

A ONU, nossa ONU, enlanguece, se burocratiza por falta de poder e de autonomia, de reconhecimento e, sobretudo, de democracia para o mundo mais fraco que constitui a maioria esmagadora do planeta. Mostro um pequeno exemplo, pequenino. Nosso pequeno país tem, em termos absolutos, a maior quantidade de soldados em missões de paz em todos os países da América Latina.

E ali estamos, onde nos pedem que estejamos. Mas somos pequenos, fracos. Onde se repartem os recursos e se tomam as decisões, não entramos nem para servir o café. No mais profundo de nosso coração, existe um enorme anseio de ajudar para que o homem saia da pré-história. Eu defino que o homem, enquanto viver em clima de guerra, está na pré-história, apesar dos muitos artefatos que possa construir.

Até que o homem não saia dessa pré-história e arquive a guerra como recurso quando a política fracassa, essa é a larga marcha e o desafio que temos daqui adiante. E o dizemos com conhecimento de causa. Conhecemos a solidão da guerra.

No entanto, esses sonhos, esses desafios que estão no horizonte implicam lutar por uma agenda de acordos mundiais que comecem a governar nossa história e superar, passo a passo, as ameaças à vida. A espécie como tal deveria ter um governo para a humanidade que superasse o individualismo e primasse por recriar cabeças políticas que acudam ao caminho da ciência, e não apenas aos interesses imediatos que nos governam e nos afogam.

Paralelamente, devemos entender que os indigentes do mundo não são da África ou da América Latina, mas da humanidade toda, e esta deve, como tal, globalizada, empenhar-se em seu desenvolvimento, para que possam viver com decência de maneira autônoma. Os recursos necessários existem, estão neste depredador esbanjamento de nossa civilização.

Há poucos dias, fizeram na Califórnia, em um corpo de bombeiros, uma homenagem a uma lâmpada elétrica que está acesa há cem anos. Cem anos que está acesa, amigo! Quantos milhões de dólares nos tiraram dos bolsos fazendo deliberadamente porcarias para que as pessoas comprem, comprem, comprem e comprem.

Mas esta globalização de olhar para todo o planeta e para toda a vida significa uma mudança cultural brutal. É o que nos requer a história. Toda a base material mudou e cambaleou, e os homens, com nossa cultura, permanecem como se não houvesse acontecido nada e, em vez de governarem a civilização, deixam que ela nos governe.

Há mais de 20 anos que discutimos a humilde taxa Tobin. Impossível aplicá-la no tocante ao planeta. Todos os bancos do poder financeiro se irrompem feridos em sua propriedade privada e sei lá quantas coisas mais. Mas isso é paradoxal. Mas, com talento, com trabalho coletivo, com ciência, o homem, passo a passo, é capaz de transformar o deserto em verde.

O homem pode levar a agricultura ao mar. O homem pode criar vegetais que vivam na água salgada. A força da humanidade se concentra no essencial. É incomensurável. Ali estão as mais portentosas fontes de energia. O que sabemos da fotossíntese? Quase nada. A energia no mundo sobra, se trabalharmos para usá-la bem.

É possível arrancar tranquilamente toda a indigência do planeta. É possível criar estabilidade e será possível para as gerações vindouras, se conseguirem raciocinar como espécie e não só como indivíduos, levar a vida à galáxia e seguir com esse sonho conquistador que carregamos em nossa genética.

Mas, para que todos esses sonhos sejam possíveis, precisamos governar a nos mesmos, ou sucumbiremos porque não somos capazes de estar à altura da civilização em que fomos desenvolvendo.

Este é nosso dilema. Não nos entretenhamos apenas remendando consequências. Pensemos na causa profundas, na civilização do esbanjamento, na civilização do usa-tira que rouba tempo mal gasto de vida humana, esbanjando questões inúteis.

Pensem que a vida humana é um milagre. Que estamos vivos por um milagre e nada vale mais que a vida. E que nosso dever biológico, acima de todas as coisas, é respeitar a vida e impulsioná-la, cuidá-la, procriá-la e entender que a espécie é nosso "nós".

Obrigado.


Tradução: Fernanda Grabauska

28 de setembro de 2013 | N° 17567
NILSON SOUZA

O sol dos guarda-chuvas

Tenho uma dor infinita dos guarda-chuvas abandonados pelas calçadas da cidade. Toda vez que nossa urbe incorpora Macondo, onde choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias, os restos mortais dessa família-morcego ficam espalhados pelas ruas e praças, especialmente pelas paradas de ônibus – a roda dos enjeitados da espécie envaretada.

Guarda-chuvas são seres quase animados, alguns até se abrem por conta própria. Funcionam como extensão do corpo, do braço humano. Servem de proteção, abrigo e companhia. Não merecem o tratamento ingrato que muitas pessoas lhes dão. Basta uma varetinha torta, uma ponta de pano solta e lá vai a bengala vestida para o brejo. Sem dó nem piedade.

Sinceramente, acho que os abandonadores deveriam ser punidos. Talvez possam ser enquadrados na legislação que está sendo gestada para reprimir quem joga lixo na rua, com os devidos agravantes para um objeto tão carente de afeto. Ou mesmo no Código Penal, que tem um artigo específico para abandono de incapaz. Um guarda-chuva destrambelhado é incapaz de se erguer sozinho, de abrir as suas asas e sair do lugar em que foi jogado. Mesmo em dias de vento, o máximo que eles conseguem é dar três ou quatro passos, antes de desabarem inertes sob o peso da haste em forma de jota.

Culpa dos fabricantes, argumentarão os infratores, alegando que a qualidade é tão ruim, que os produtos se tornam descartáveis. Culpa dos chineses, dirão alguns mais xenófobos, lembrando que quinquilharias oriundas da Ásia costumam se desmanchar antes de serem usadas. Nada disso, porém, isenta o sujeito da responsabilidade no abandono.

Em compensação, ainda tem neste mundo quem se preocupe com os guarda-chuvas extraviados. Além de remanescentes oficinas de conserto, cada vez mais raras, de vez em quando aparece alguém mais criativo para dar sobrevida às sombrinhas sequeladas.

Outro dia, descobri que uma vizinha minha recolhe guarda-chuvas abandonados para transformá-los em bolsas. Retira o pano pacientemente, recorta de acordo com os seus moldes, costura e dá um formato elegante ao novo objeto, que voltará a acompanhar algum dono pelas ruas. Achei a ideia tão boa, que até andei recolhendo algumas peças extraviadas para presenteá-la.


Só pelo prazer de imaginar que aqueles objetos descartados depois de enfrentarem bravamente chuvas e tempestades para proteger seus donos voltarão a viver a glória de um dia de sol, pois até na enfeitiçada Macondo ele voltou a brilhar.

28 de setembro de 2013 | N° 17567
EDITORIAL

CIDADES ENGARRAFADAS

Tem saída? Estudo divulgado nesta semana pelo Sindicato da Arquitetura e da Engenharia do Rio Grande do Sul afirma que, em menos de três décadas, a Grande Porto Alegre terá quase o dobro de carros da frota atual, com praticamente um veículo por habitante ou seja, cerca de 3 milhões de automóveis.

No mesmo dia, a população de São Francisco do Sul, no extremo norte de Santa Catarina, passou momentos de angústia e pânico num engarrafamento de trânsito na saída da cidade, quando tentava fugir da fumaça causada por um incêndio de produtos químicos na área portuária. A cidade tem apenas 43 mil habitantes, mas o engarrafamento de veículos em fuga atingiu a extensão de 10 quilômetros.

Se tiver saída, certamente não será de carro.

Metrópoles brasileiras, cidades médias e até pequenas vivem hoje um verdadeiro caos, provocado pelo excesso de veículos. E a tendência é piorar, pois as frotas urbanas aumentam em proporção maior do que o crescimento populacional e não há qualquer possibilidade de que obras viárias solucionem o problema.

O alargamento de estradas, a construção de rodovias, viadutos e túneis, a instalação de equipamentos de sinalização e controle, o estímulo ao transporte coletivo e a criação de corredores exclusivos são políticas públicas que até podem atenuar os atuais transtornos, mas dificilmente os extinguirão. A questão maior, irresolvível no momento, é a cultura do automóvel, baseada em valores que nem sempre se materializam: conforto, status, segurança e agilidade.

Não é exclusividade brasileira nem sul-americana. Na Europa, na Ásia e na América do Norte, o culto ao automóvel também provoca polêmicas intermináveis e situações desconcertantes.

Uma pesquisa norte-americana sobre estresse mostrou que, de cada 12 ataques car- díacos masculinos, um tem relação com engarrafamentos, incomodação no trânsito e contato com a poluição. Reportagem da revista The Economist registrou que os engarrafamentos na capital da Tailândia são tão demorados, que os motoristas costumam carregar garrafas plásticas para urinar quando estão presos no trânsito. Tem saída?

Ampla, geral e irrestrita talvez não tenha, mas tem escapes – que é o que se busca na hora do engarrafamento.

O modelo europeu de atenuar o problema consiste em investir no transporte público e dificultar a vida dos indivíduos que optam por carro próprio. O modelo americano contempla a engenharia de trânsito e soluções inovadoras de tecnologia para fazer o tráfego fluir melhor. Nenhum dos dois resolve completamente o problema.

É verdade que os sistemas de transporte público funcionam bem nas principais cidades europeias, especialmente o metrô. Nas cidades mais organizadas, os ônibus são pontuais, limpos e confortáveis, além de operarem com tarifas acessíveis. Além disso, em alguns locais, metrôs, bondes e ônibus não só oferecem tarifas promocionais como também as conjugam com ingressos para eventos culturais.

E o estímulo à bicicleta também ajuda muito, especialmente em localidades com ciclovias modernas. Ainda assim, para aliviar os congestionamentos, os governantes veem-se obrigados a penalizar os condutores, elevando os impostos sobre combustíveis, cobrando pedágio em áreas centrais e aumentando o preço dos estacionamentos.

Há cidades alemãs em que as prefeituras só autorizam a construção de prédios sem garagem, para desestimular o uso do carro. Punir quem anda de carro e premiar quem opta pelo transporte coletivo não resolve tudo, mas está ajudando os europeus a se estressar menos.

Nos Estados Unidos, tais restrições são impensáveis. Os norte-americanos são apaixonados por carros e desfrutam de condições econômicas para consumi-los. Então, optam por estradas amplas, rodovias de alta velocidade e muita tecnologia, especialmente em sistemas de monitoramento de tráfego e de sinalização.

No Brasil, infelizmente, não temos soluções tecnológicas de vanguarda como os norte-americanos nem o espírito comunitário que leva os europeus a aceitarem regras no limite do arbítrio. Aqui, o transporte coletivo é ruim, os metrôs são raros e até mesmo obras viárias necessárias parecem complicar mais o trânsito do que desafogá-lo. Com o aumento do poder aquisitivo da população, a busca por carros se intensificou e as cidades se transformaram em verdadeiros bretes. Tem saída?

Tem, mas precisa conjugar mudança de mentalidade por parte dos cidadãos, ousadia administrativa por parte dos governantes e rigor por parte das autoridades.

O modelo europeu de atenuar o problema consiste em investir no transporte público e dificultar a vida dos indivíduos que optam por carro próprio.


O modelo americano contempla a engenharia de trânsito e soluções inovadoras de tecnologia para fazer o tráfego fluir melhor.

28 de setembro de 2013 | N° 17567
PAULO SANT’ANA

Sua Majestade, o burro

O burro, indivíduo que se caracteriza por oblíquos raciocínios, quando envereda pela burrice, faz um trajeto reto, nunca desvia de rumo. Interessante é que o burro para si próprio parece ser brilhante: o burro possui atilado orgulho.

Não raro, em nosso meio, o burro se consagra exatamente por ser burro. Alguns burros ficam famosos pela sua burrice. O burro é como uma parede de aço, sua burrice é imarcescivelmente férrea: a ideia bate na cabeça do burro e volta, ela não penetra.

Invariavelmente, o burro é um debatedor, quase ninguém concorda com ele, aliás, só concorda com ele quem for também burro. Existem os burros cordatos e os burros enraivecidos. O burro enraivecido é aquele que puxa briga quando discordam dele.

E o burro cordato é o que se conforma com sua burrice. Ele é humilde, sabe que é burro e admite sua inferioridade: é o tipo mais raro de burro. O burro não se corrige, não se regenera, nasce burro e morre burro.

A caixa craniana do burro é feita de material impenetrável, nada a vaza, nem as ideias mais magistrais. Se você atirar um burro na água profunda, a sua cabeça, podem notar, será a única parte de seu corpo que ficará boiando, ela é vedada completamente à água e às ideias inteligentes.

Também interessante é que o burro quase sempre se acha inteligente, exceção feita ao burro humilde. Ele passa a vida inteira achando que é brilhante e que a sociedade não lhe faz justiça.

Mas ele vai em frente na esperança de que um dia lhe considerem genial. A burrice é um exercício de perseverança, de não desistência. Afinal, o que o burro vai fazer, se não sabe fazer outra coisa senão ser burro para sempre?

O mundo é feito de burros e inteligentes. O burro dá azar de ser burro. Mas há um ponto de vista que considera um burro feliz por ser burro: por passar a vida inteira sem se dar ao trabalho de pensar, o que desgasta muito os que pensam.


Com o burro não se dá assim: sabe lá que vantagem têm essas criaturas burras de viver a vida inteira sem pensar? É uma moleza! Quem não pensa não sofre.

28 de setembro de 2013 | N° 17567
CLÁUDIA LAITANO

Mujica

Sou do Sul, venho do Sul. Começa assim, com uma afirmação enfática de identidade que particularmente nos toca, o histórico discurso que o presidente uruguaio José Mujica proferiu na ONU esta semana.

A “esquina do Atlântico e do Prata” que Mujica menciona como coordenada geográfica e mental fica na nossa rua, defronte a nossa casa. Seu “eu sou do Sul”, porém, não é bravata ou fanfarra patriótica, mas apenas um ponto de partida. Mujica não foi até Nova York para celebrar a nostalgia ou um orgulho provinciano (“não vivo para reverberar memórias”), mas para lembrar que, da periferia de onde ele vem às metrópoles onde se reúnem os grandes líderes mundiais, é do interesse de todos construir para o futuro uma pátria moral que transcenda fronteiras, individualismos e mesmo inclinações políticas.

Foi como embaixador da nação invisível dos homens que colocam a defesa da humanidade como valor acima de todos os outros que Mujica falou terça-feira para o mundo. E como falou. (O discurso, publicado na íntegra em Zero Hora Online, pode ser visto, também na íntegra, no You Tube.)

Mujica é de uma sabedoria serena e engajada ao mesmo tempo. Defende a tolerância, a sobriedade e a simplicidade que demonstra, na prática, como homem e como político. Fala de amor, amizade, aventura, solidariedade. Elogia a ciência, mas não descarta as utopias. Critica o consumismo e uma vida cotidiana baseada apenas nas regras de mercado. Condena as guerras e a quantidade de dinheiro que se desperdiça com elas.

É um discurso anticapitalista, sem dúvida, mas não apenas. O que Mujica coloca em xeque são os valores da civilização contemporânea: “Enfrentamos o sedentarismo com esteiras, a insônia com comprimidos, a solidão com eletrônicos. Somos felizes longe da convivência humana? Essa é a pergunta que temos que nos fazer”.

Com a autoridade de reconhecido homem de bem, mais do que de grande estadista, Mujica propôs ao mundo uma pausa para refletir sobre quem realmente está no volante do planeta em que estamos todos, mais ou menos passivamente, instalados: “Nem os grandes Estados nem as transnacionais e muito menos o sistema financeiro deveriam governar o mundo humano, mas sim a política entrelaçada com a sabedoria científica. Ali está a fonte”.

Nos últimos dias de setembro, mês em que celebramos a nostalgia de uma glória imaginada e o pensamento mágico de que a identidade é um valor em si mesma, esse belo e inspirador discurso me fez, mais do que nunca, ter orgulho de ser do Sul. Não pela história ou pela geografia, nem mesmo porque este é o canto do mundo em que me tocou viver e amar, mas simplesmente por ter o privilégio de ser vizinha do senhor Mujica e dos seus sonhos, não impossíveis, de fraternidade e humanismo.


Meu Sul é o dele.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013


Tenha um lindo dia...

Linda sexta-feira pra você

Delicioso Final de semana
Jaime Cimenti

O novo livro de Liberato Vieira da Cunha

De Pero Vaz de Caminha a Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, passando por Machado de Assis, José de Alencar e Nelson Rodrigues, chegando a autores contemporâneos como Carlos Heitor Cony, Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura, a crônica no Brasil percorreu um longo caminho e segue encantando os leitores.

Pelas qualidades literárias de alguns textos e pela sua profunda brasilidade, a crônica mereceu status de gênero jornalístico e literário, e os trabalhos mais perenes figuram em antologias, muitas reeditadas e estudadas em escolas e universidades. O jornalista, contista, romancista e cronista Liberato Vieira da Cunha, nas últimas décadas, marca presença na literatura brasileira como um dos cronistas mais lidos. Acaba de lançar O silêncio do mundo, com crônicas publicadas entre 2002 e 2013.

Como ele mesmo diz, se diverte escrevendo, usando a primeira pessoa, histórias com começo, meio e fim, falando de homens, mulheres, casas, situações, amores e desamores do cotidiano. Com seu estilo simples e direto, nostálgico , lírico, com leves e sutis toques de humor, o autor nos fala de seus pais, da primeira Feira do Livro, de ruas de Porto Alegre, especialmente a Duque de Caxias, de antigas mansões, damas misteriosas, mulheres lindas, encontros e desencontros, de alegrias e tristezas e de presenças e ausências.

Liberato, em seus textos, também fala de cinema, de livros, da inevitável passagem do tempo e de instantes que merecem registro na memória e no papel, por sua beleza, sua singularidade e por se apresentarem aos sentidos atentos e aguçados do cronista.

O autor escreveu que não sabe bem o que é o passado, mas sabe que o presente é a soma de todos os passados. Num momento em que a crônica se transformou, na maior parte do tempo, para o bem e para o mal, em pequenos artigos de opinião, é importante a presença de um autor que trabalha - e muito bem - os fundamentos e as raízes de um gênero que os brasileiros consagraram e nos apresenta temas tão essenciais, eternos e inspiradores. Nem todo o tempo e nem todos os assuntos estão perdidos.


Ah, o Liberato espera os amigos dia 1 de outubro, às 19h, na Saraiva do Moinhos Shopping, para autógrafos, conversas, vinhos, apertos de mão,  abraços, beijos, sorrisos y otras cositas más. Editora AGE, 206 páginas, R$ 38,00, www.editoraage.com.br.
Jaime Cimenti

Amor, perda, fidelidade e segredos

O romance Desejos inacabados, da escritora norte-americana Gail Godwin, nascida no Alabama e premiada com o Guggenheim Fellowship, o National Endowment for the Arts e o American Academy Awards of Arts and Letters, ora lançado no Brasil, é um de seus mais de 10 livros.

A narrativa trata de amor, perda, fidelidade, segredos, rivalidade e fé através de um conjunto encantador de personagens muito humanos. A autora, que vive em Wood-stock, Nova Iorque, também é libretista com mais de 10 trabalhos na área feitos em conjunto com o compositor Robert Starer. Desejos inacabados trata de episódios ocorridos no outono de 1951, em Mount St. Gabriel, uma escola para moças localizada na Carolina do Norte.

Tidly Stratto, a inesquecível aluna líder de sua turma, faz uma nova amizade: Chloe Starnes, recém-chegada, cuja mãe, pouco antes, teve uma morte misteriosa. A amizade entre as duas preenche uma lacuna na vida de ambas, mas, ao mesmo tempo, desencadeia uma série de eventos que afetarão o rumo de muitas vidas, entre elas a da jovem professora das meninas e de Suzzane Ravenel, então diretora da escola.

Segredos muito bem escondidos virão à tona. Cinquenta anos depois, ao olhar para trás e escrever a história da escola a pedido de ex-alunas, Suzanne relembra uma noite fundamental em sua vida e na história do colégio, e tenta conciliar passado e presente. Para tanto, volta ainda mais no tempo, para quando era aluna, época em que estão fincadas as raízes de uma tragédia e um segredo mais profundo e bem-guardado.

Gail Godwin, reconhecida pela sofisticação de sua narrativa e por sua criatividade, bem como pela elegância e pela fina ironia, apresenta uma história com personagens instigantes e com uma trama envolvente. No romance, a autora conta uma história de amizade, lealdade e mentiras que se tornam verdades absolutas e desejos não realizados que passam de geração para geração e, com muita competência, capta o raríssimo momento de redenção em que uma alma se liberta de suas amarras.


Não por acaso Gail tem sido considerada uma das autoras mais inteligentes e talentosas da atualidade e mereceu críticas altamente favoráveis do The New York Times Book Review, do Chicago Sun Times, do Miami Herald, do Boston Globe e do Denver Post. Bertrand Brasil, tradução de Michel Marques, 616 páginas, mdireto@record.com.br.

27 de setembro de 2013 | N° 17566
EDITORIAIS ZH

TETO PARA TODOS

Depois de constatar que nada menos de 464 servidores do Senado recebem salários acima do teto constitucional de R$ 28.059,29, o equivalente aos vencimentos de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou não apenas a interrupção da regalia como também a devolução do dinheiro desembolsado a mais aos cofres públicos. Já não era sem tempo.

O curioso é que o relator da matéria, o ministro Raimundo Carreiro, defendeu que os valores foram recebidos de boa-fé e, por isso, não precisariam ser devolvidos. Foi voto vencido, felizmente. Se era irregular, tem que ser restituído, ainda que o beneficiário, numa hipótese remota, ignorasse estar recebendo acima do previsto por lei.

São conhecidas as resistências de servidores dos três poderes e de todas as instâncias da federação em se conformar com um teto de vencimento que, no Brasil, mantém uma distância abissal da remuneração de categorias financeiramente desprestigiadas ao longo do tempo, como professores e policiais.

A definição de um valor máximo estabelecido em lei só se impôs na prática porque dirigentes de corporações influentes se comprometeram em abrir mão dos chamados penduricalhos – vantagens que, até então, se acumulavam sem qualquer limite. A questão é que, ainda assim, uma elite do funcionalismo insiste em continuar ganhando acima do valor máximo fixado em lei, amparada na ideia de que jamais ocorrerá qualquer problema.

Por isso, a decisão do TCU de suspender os salários acima do teto no Senado e, mais do que isso, de exigir de volta os valores pagos a mais tem efeito didático importante que não pode ser desperdiçado. Em recente iniciativa referente à Câmara, não houve a determinação de cobrar a quantia desembolsada a mais.

Um risco a ser evitado agora, portanto, é o de que a exigência de restituição venha a ser revista. Outra ameaça é de que a devolução acabe sendo feita não com dinheiro dos funcionários favorecidos, mas com recursos públicos, levando o contribuinte a arcar com o prejuízo duas vezes.

O teto salarial do setor público só tem sentido se valer para todos os servidores, indistintamente. Só no caso do Senado, os gastos com os funcionários remunerados acima da lei alcançam R$ 60 milhões por ano.


São essas deformações que, somadas, agravam as iniquidades no setor público, impedem maior eficiência em serviços essenciais e dificultam uma remuneração mais digna para quem, mesmo exercendo funções igualmente nobres, se mantém na base da pirâmide do funcionalismo.

27 de setembro de 2013 | N° 17566
ARTIGOS - Wilma Resende Araujo Santos*

Carta ao voluntário

O voluntário é um doador de tempo, de conhecimento, de história de vida.

É levado por compaixão, por solidariedade ou por indignação. Por qualquer dessas razões, ele transforma impulso em compromisso e provoca uma revolução nas atitudes individuais. Se for por compaixão, procura dar atendimento a creches, asilos e hospitais, levando conforto. Por solidariedade, se junta a grupos e desenvolve um trabalho de mutirão. Por indignação, é quando as angústias se acumulam ao perceber a insuficiência dos poderes constituídos, a fragilidade da área da saúde, as más condições do ensino, a exposição de tantas iniquidades sociais.

E, então, a sociedade passa a ser chamada, como coadjuvante na solução dos problemas. As empresas que se sentiam de missão cumprida ao praticar a filantropia fazendo generosas doações assistenciais se veem obrigadas a repensar seu papel na participação da Responsabilidade Social. Com nova postura, planejada e monitorada, dispõem seus recursos privados para fins públicos.

O cidadão, por sua vez, se impõe desafios na busca de uma sociedade mais justa. Qual a melhor maneira, senão se tornar um agente de transformação de quem será o protagonista do futuro?

Atendendo a uma vontade sincera de deixar um legado, se buscam serviços organizados, estruturados com métodos eficientes, metas específicas, tarefas definidas. É o voluntariado planejado que observa a “Lei do Serviço de Voluntários”. E aquela sua antiga indignação passa a ser reação para se transformar em ação.

O voluntariado passou a ser ferramenta fundamental ao dar vida às mais nobres aspirações da humanidade.

O voluntariado corporativo expressa a relevância do que a empresa permite que ele faça, tornando possível a realização de interesses públicos e se tornando também um estímulo profissional, gerador de energia em benefício da própria empresa.

As entidades que trabalham com voluntários estão empenhadas em otimizar a eficiência dos processos.

Você, que nunca viveu a experiência de ser voluntário, faça-o, tornando-se voluntário da educação.

Prepare-se para ser um agente de transformação.

É bonita essa tarefa de mostrar ao jovem a importância de estudar. De lhe dar segurança para investir em sua própria vida, descobrindo seus sonhos, seu potencial e os desafios a serem encarados para a construção do seu futuro.

Reforce seus valores. Mostre que a honestidade rende dividendos, que podemos criar riquezas respeitando o próximo e atuando com ética.

Você vai perceber que o jovem está ouvindo com uma premente necessidade de acreditar.

Seu coração vai se aquecendo, porque você está contribuindo para construir o Brasil de amanhã, para construir um modelo de futuro, capaz de conciliar estabilidade econômica com a redução das mazelas sociais e o cuidado maior com o planeta.

Estaremos cumprindo nosso dever de cidadãos!

*DIRETORA SUPERINTENDENTE DA JUNIOR ACHIEVEMENT BRASIL

27 de setembro de 2013 | N° 17566
PAULO SANT’ANA

Importa só a intenção

Tive ontem uma reunião que vai me catapultar para incontáveis conquistas pessoais (e coletivas), se eu não morrer antes de atingi-las.

Se eu não morrer, o plano que foi objeto da reunião de ontem está fadado a um espetacular sucesso. Basta que eu não morra para atingir o céu. Gozado, há homens tão virtuosos, que com eles ocorre o contrário: basta que eles morram para ingressar imediatamente no céu.

Estive pensando ontem: ao lado de um homem de sucesso, diz-se, sempre está presente uma grande mulher. É uma frase lapidar. Mas eu quero modificá-la: ao lado de um homem de sucesso, estarão sempre presentes grandes amigos.

Agora vejam a alegria imensa que nos pode dar de repente uma pessoa humilde. O vendedor de jornais José Carlos da Silva, com 30 anos de idade, aproximou-se de mim ontem e me disse: “Meu ponto de venda de Zero Hora é na esquina das avenidas Benjamin Constant e Brasil. A maioria das pessoas que compram nosso jornal de mim, no meu ponto, diz que o adquire por vários motivos, mas o principal é sempre a sua coluna”.

Evidentemente que fui às alturas depois que ouvi isso. Há coisas que a gente sabe que estão acontecendo, mas só se dá conta profunda delas quando alguém vem-nas revelar.

Voltando à filosofia, importa menos que ajudemos uma pessoa do que queiramos ajudá-la.

Não sei se me explico bem: é possível que não possamos ajudar uma pessoa em sua necessidade máxima, o que importa é que tenhamos vivo dentro de nós o desejo de ajudá-la, senão a intenção de ajudá-la, mesmo que nos frustremos no sucesso de nosso propósito.

Esses dias, morreu uma pessoa próxima de mim. E eu só lamentava no enterro que não tinha podido ajudá-la em sua necessidade imperiosa. Sabem como me consolei? Pois foi na convicção de que fiz tudo o que estava ao meu alcance para ajudá-la. Se não pude é porque os fados não quiseram, não foi por culpa e responsabilidade minhas.

Eu sempre digo que Deus não mandou ninguém vencer, mandou tentar. Isto é, se alguém não atingiu êxito em uma tarefa ou façanha, isso não importa, o que interessa é se a pessoa que queria atingir determinado alvo arregaçou as mangas para atingi-lo.

Se arregaçou, dormirá com a consciência tranquila do dever cumprido, mesmo sem êxito.

Eu sempre digo também: não importa o resultado que obtemos, o que importa é que nos atiremos a ele com esforço e obstinação.


E, se não atingimos nosso objetivo, com esforço e obstinação, ali adiante atingiremos outro alvo importante se prosseguirmos assim nessa doida e incontida ânsia de chegar aonde almejamos.

27 de setembro de 2013 | N° 17566
DAVID COIMBRA

Uma coisa brilhante na calçada

Outro dia, caminhava de mãos dadas com meu filho e vimos um brinco caído na calçada.

Antes de prosseguir, preciso dizer que gosto muito de caminhar de mãos dadas com meu filho. Ao segurar-lhe a mão de menino, sinto como se pudesse protegê-lo de todos os males do mundo. Uma ilusão boba, claro que sim, mas esse momento, para mim, é de intensa paternidade, e uma das poucas coisas de que sinto real orgulho é de ser pai.

Com essa informação, o leitor perceberá o tamanho da minha insignificância. Qualquer um pode ser pai, sempre houve pais no mundo, há bilhões de pais por aí, e é essa condição trivial que me faz sentir orgulho. Quisera eu ser um paladino da justiça, um defensor dos oprimidos, um mobilizador de multidões, um talento genial em qualquer coisa. Não sou. Sou apenas pai. Um pai banal. E o pior é que gosto disso. Isso me satisfaz. Cada qual com suas limitações.

Mas o brinco. Era um brinco de mulher de forma ovalada, do tamanho de uma moeda de um real. Faiscava num desvão da calçada. Um único brinco, seu par não cintilava pelas cercanias, suponho que balançasse solitário do lóbulo da orelha de sua dona, onde quer que ela estivesse.

Agachei-me, colhi o brinco do chão e dei para o meu filho. Ele ficou a analisá-lo. Nesse momento, já tinha se despegado da minha mão. Isso me incomoda um pouco: quando ele pode, se solta da minha mão. Eu ali, pensando em protegê-lo, pensando na paternidade e tudo mais, e ele querendo independência aos seis anos de idade. Francamente.

De qualquer modo, o que interessa é o brinco. Não devia ser valioso. Não sou conhecedor de joias, mas aquele brinco dava a impressão de ser uma reles bijuteria. Quanto custaria? Cem reais? Duzentos? Não faço ideia.

Meu filho sorria enquanto examinava o brinco, e sorrindo olhou para cima, fitou-me nos olhos e disse:

– Vamos dar para a mamãe?

Antes que eu respondesse, ele tornou a olhar para o brinco, colocou-o com cuidado no bolso da jaqueta, e comentou:

– Ela vai adorar. As mulheres adoram coisas brilhantes...


Com essa conclusão, olhou para a frente e fez o que eu queria, mas não esperava: pegou na minha mão. Seguimos caminhando, pai e filho, ele sorrindo, satisfeito, e eu pensando que ele tinha razão: as mulheres adoram coisas brilhantes.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

ROBERTO DE OLIVEIRA- DE SÃO PAULO

Há quatro meses, cão monta guarda, em vão, à espera do dono

Ninguém imaginaria que aquele bichinho, abandonado numa favela, infestado de carrapatos e tomado pela sarna, sobreviveria a doenças de pele espalhadas pelo corpo.

Voluntários de uma ONG recolheram o cão e lhe deram tratamento. Faltava um lar. José Santos Rosa, funileiro da zona leste paulistana, quis ficar com ele. O filhote chegou numa caixa de sapatos.

Zé pensou em levá-lo para casa, mas, ao saber que o cão ficaria "gigante", herança de seus traços genéticos, mezzo labrador, mezzo rottweiler, resolveu deixá-lo na oficina.

Logo, Beethoven passou a orquestrar barulhos por onde andava. Serelepe, cruzava fácil as grades do portão, que ganhou tampões de madeira para mantê-lo a salvo da rua.

O cãozinho, lembra a vizinha Margareth Thomé, 47, "achava que era gato": escalava o muro da funilaria e andava sobre ele, espreitando, ansioso, a chegada do dono.

Na tentativa de conter o ímpeto felino do cão, Zé levantou ainda mais o muro.

Por volta das 7h, o barulho do molho de chaves de Zé era a senha para Beethoven pular da cama e ir direto se sacudir no colo do dono.

Sábado, domingo ou feriado, sol e chuva, pouco importava o dia, tampouco o clima, lá estava ele, postado na entrada, fazendo festa para Zé.

Mas, desde o dia 8 de junho, uma manhã de sábado, o silêncio e a tristeza tomaram conta de Beethoven: a rotina de latidos, saltos e carinhos, ao longo de quatro anos, foi interrompida.

Na noite anterior, depois de se despedir do "amigão", como era de costume, o funileiro pegou o carro para ir embora. Dirigia pela avenida Rio das Pedras (zona leste), quando, sentindo fortes dores no peito, procurou às pressas um lugar para estacionar.

Ligou para o Samu. A emergência veio rápido, só que tarde demais: Zé, 54, sofreu um ataque cardíaco. Deixa a mulher, duas filhas e Beethoven.

'SEMPRE AO SEU LADO'

"O cachorro ficou tão desamparado quanto elas", diz Margareth. A vizinha fez uma "vaquinha" para comprar ração, mas o apetite do cão, antes voraz, diminuiu bastante.

Ela pretende encontrar um novo lar para Beethoven, que hoje divide o teto com outros seis cães de rua, trazidos por um carroceiro que está "ocupando" a funilaria. A família de Zé não tem condições de ficar com Beethoven, que foi para adoção (www.facebook.com/cristiane.biral ).

"Quando ele ouve o barulho de chaves, vem correndo para o portão", conta Margareth. "Acha que é o Zé."

Elvira Brandolin, 79, outra vizinha, lembra que a rua nunca esteve tão calada. "Ele latia fazendo festa para o Zé. Infelizmente, a festa acabou."

Autora de livros como "Um Cão pra Chamar de Seu", a veterinária Regina Rheingantz Motta, 53, explica que Beethoven continua exercitando sua rotina "de encontros e despedidas de seu dono, mas ele ainda não aprendeu a incluir nela a morte".

A persistência de Beethoven fez com que seus vizinhos enxergassem semelhanças entre o cão sem raça definida e a tocante história de Hachiko, o cachorro akita do filme "Sempre ao Seu Lado".

Após a morte do dono, Hachiko continua indo "buscá-lo" na estação de trem, assim como Beethoven continua lá, às portas da funilaria, à espera do amigo humano.

Baseado em uma história real acontecida no Japão, o longa fez sucesso com Richard Gere no papel do professor, dono do cão, que morre, assim como o Zé, vítima de um ataque fulminante.

Mesmo calado e desolado, Beethoven continua fiel à guarda matinal à espera de Zé, todos os dias, às 7h.


O que ele ainda não sabe é que o dono jamais voltará.