sábado, 28 de março de 2015


28 de março de 2015 | N° 18115
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. CAMARGO

A SAUDADE QUE ENTERNECE

Usina recicladora dos afetos permanentes, ela se torna ingrediente milagroso

Ninguém encanta escrevendo sobre o que não sente. O David Coimbra sempre escreveu maravilhosamente, mas quando parecia impossível melhorar, descobrimos que é possível.

Se nos dermos ao deleite de reler suas crônicas do último ano, perceberemos que as contemporâneas, políticas ou não, são ótimas, mas as melhores são aquelas que envolvem reminiscências, onde predomina, como era inevitável, o efeito catártico da distância. Esse é o benefício dos anos sabáticos na depuração dos sentimentos.

E tudo simplesmente porque a revisão amorosa das nossas experiências de vida é enriquecida pela saudade, essa poderosa usina recicladora dos afetos permanentes. É esse o ingrediente milagroso que nos faz mais carentes, mas também enternece a nossa memória e traz os nossos sensores afetivos para a flor da pele.

Quando vivi nos EUA, senti a necessidade visceral de escrever para aquelas pessoas de quem, acabara de descobrir, gostava mais do que tinha tido o cuidado de anunciar, e aquilo de repente me parecera um imperdoável desleixo emocional. Se um paciente me lembrava algum amigo, canalizava o afeto reprimido, e cuidava dele como se cuida de um ente amado. E como carência afetiva é um mal cosmopolita, nunca me faltou um receptor disponível.

Foi assim que me aproximei do Mr. Collis, um velho plantador de milho de Minnesota que fora internado para tratar de um tumor de pulmão aparentemente precoce. Pedi a um colega para assumir o caso dele, e nunca expliquei a nenhum dos dois que eu precisava proteger a saudade que evocava aquela cabeça idêntica à do meu pai.

Compartilhei o entusiasmo com que lhe fora anunciada a perspectiva de cura e me condoí quando o meu chefe anunciou, sem preâmbulos, que infelizmente estava frustrado porque a doença estava disseminada e aquele nódulo pulmonar, de aparência inocente, era, na realidade, a ponta do iceberg de um câncer avançado.

Depois que o quarto esvaziou porque todos debandaram com aquela pressa de quem foge da impotência, ficamos sós, e ele implorou que eu desse um jeito de protelar a sua morte até depois do Natal, porque se não, a volta extemporânea do filho, envolvido num projeto milionário na Tailândia, arruinaria sua brilhante carreira de jovem engenheiro.

Ele sabia que eu não tinha como ajudá-lo. Eu também. Mas nos prometemos. E como dois seres apátridas, ficamos um tempo de mãos dadas, cada um administrando a sua saudade. Esse sentimento imenso e único, que sempre aponta para casa. Não importa a distância.


J. J. Camargo é cirurgião torácico e diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre

28 de março de 2015 | N° 18115
O PRAZER DAS PALAVRAS | Cláudio Moreno

Azulejo

ACABEI CONFIRMANDO QUE não há nada que ligue azulejo a azul, embora pareçam da mesma família

O assunto foi levantado por uma professora da rede pública estadual de Santa Catarina, do município de Lajes, cujo nome, a pedido seu, não será mencionado: “Professor, sou uma grande fã sua e tenho certeza de que vai me ajudar. Um aluno me perguntou por que, ao lado do azulejo, que obviamente vem de azul, nós não temos também verdejo, branquejo ou vermelhejo. Acho que é brincadeira, não? Que resposta posso dar a ele?”.

Cara professora, a pergunta veio sacudir a árvore da memória e despertou-me a vaga lembrança de já ter tratado deste assunto. Embora conserve hábitos um tanto fora de moda – escrevo preferencialmente a mão, com caneta tinteiro e tinta preta –, aderi à informática desde o tempo do Windows 3.1, fazendo do computador um companheiro que só vou abandonar quando deixar este mundo.

 Usando de feitiço poderoso (na verdade, o Google Desktop), vasculhei os meus arquivos e encontrei, no início de 2000 (credo! já faz 15 anos!), um e-mail de nosso Luiz Achutti, enviado de Paris, comentando uma coluna em que eu afirmava, oblíqua mas claramente, que azulejo viria de azul. Dizia ele: “Escrevo apenas para dizer-te que vi ontem na TV uma matéria sobre o Museu dos Azulejos em Portugal.

O cara lá pelas tantas falou que a palavra azulejo não veio de azul (como está implícito no teu artigo), mas sim de uma palavra árabe, de som parecido, que teria algo a ver com revestimento. Não lembro qual era a palavra do Árabe, mas espero que mesmo assim faças bom proveito da minha dica”.

A dica foi realmente valiosa; com a pulga atrás da orelha e um dicionário na mão, acabei confirmando que não há nada que ligue azulejo a azul, embora pareçam ser gente da mesma família. Corominas (conquanto seja um dicionário etimológico do Espanhol, sempre é útil quando estudamos formas compartilhadas entre os dois idiomas) diz que azulejo vem de al-zuleig ou al-zuleij (o al é apenas o artigo), que significa, aproximadamente, “pedrinha polida”, uma referência à arte dos mosaicos romanos, que os árabes conheciam tão bem. Por outro lado, azul, a cor, é uma forma reduzida de al-lzaward, vocábulo que os árabes foram buscar na Pérsia e que você conhece como o segundo elemento de lápis-lazúli (do Latim lapis, “pedra” + lzaward, “azul”).

Embora haja um marcante predomínio do azul nos ladrilhos portugueses, todas as outras cores sempre estiveram presentes. Numa descrição da China, em 1520, o viajante informa que “As casas são ladrilhadas de azulejos de muitas cores”. Em 1603, Fernão Mendes Pinto (1603) descreve “um coruchéu [campanário] de azulejos de porcelana muito fina brancos e pretos”. Já no séc. 18, contudo, o bom Bluteau se encarregava de espalhar a falsa etimologia em seu dicionário: “azulejo - “espécie de ladrilho envernizado, com figuras ou sem elas; há brancos e verdes, mas pela maior parte são azuis, e desta cor tomou esta obra o nome”. Sendo ele o grande nome que foi em nossa lexicografia, desconfio que tenha contribuído – e muito! – para espalhar esta lenda.


Cláudio Moreno, escritor e professor, escreve quinzenalmente aos sábados

28 de março de 2015 | N° 18115
CLÁUDIA LAITANO

Visita oportuna

Um deputado federal chamado Cabo Daciolo, bombeiro evangélico eleito pelo PSOL do Rio, protocolou quarta-feira na Câmara uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que altera o parágrafo único do artigo 1º: em vez de “todo poder emana do povo”, o deputado gostaria de fazer constar na carta magna do país que “todo poder emana de Deus”.

Diante de uma notícia desse tipo, nossa porção cínica e fleumática tende a balançar a cabeça e quase acha graça da piada involuntária do aprendiz de aiatolá. Já a parte da nossa consciência formada pelos nossos instintos mais paranoicos, aqueles que costumam farejar situações de risco antes que elas se tornem realmente incontornáveis, alertam para a necessidade de reação enérgica e imediata – ou, na hipótese menos nobre e corajosa, exige uma rota de fuga para as colinas.

Por uma daquelas coincidências capazes de restaurarem ânimos combalidos, no mesmo dia em que a PEC de Deus foi protocolada na Câmara veio a notícia de que o mais célebre e atuante defensor da causa do Estado laico está a caminho de Porto Alegre. O biólogo britânico Richard Dawkins, um dos mais influentes intelectuais do mundo nos dias de hoje, vai abrir a programação do Fronteiras do Pensamento no dia 25 de maio.

Com um discurso que não costuma fazer concessões, esse intelectual formado na elite acadêmica de Oxford atrai para suas conferências multidões de pessoas que se sentem representadas pela sua visão de mundo radicalmente racional e humanista. Essa fama de estrela do rock, porém, tem seu custo. Dawkins costuma ser criticado pela ênfase com que critica a influência da religião na esfera pública.

É verdade que não foram poucas as vezes em que ele sacrificou a diplomacia em nome da firmeza de posições. Por outro lado, é preciso reconhecer que são cada vez mais raros os intelectuais que, como ele, ousam abandonar o conforto e a proteção da vida acadêmica para sujar as mãos nos ásperos embates da vida real.


A oportuna visita de Dawkins ao Brasil, neste momento em que a liberdade para crer e deixar de crer está sob ameaça, é um ótimo pretexto para que todos nós, paranoicos ou não, celebremos o Estado laico mandando um recado simples e claro para a vanguarda do retrocesso: no pasarán!

sexta-feira, 27 de março de 2015

Jaime Cimenti

Porto Alegre, São Patrício e a Santa Ceva

Para não me estressar e não enervar ainda mais os já atarantados e queridos leitores, que já devem estar lendo os jornais, ouvindo as notícias do rádio e assistindo aos trepidantes e metralhantes telejornais com mais e mais notícias sobre os infindáveis escândalos sobre a interminável corrupção, peço licença para falar de nossa mui leal e valerosa Porto Alegre e sobre cerveja, tudo a ver.

Porto Alegre está de aniversário. Ela não é só um bom lugar para se voltar, como disse um enfastiado, aí. Nem é um lugar para morar só em abril ou outubro, como disse outro enjoadinho, lamentando nosso lamentável clima. Porto Alegre pode ser legal até em julho e agosto, desde que a Paola Oliveira apareça por aqui e mesmo que venha com roupas de inverno.

Porto Alegre é legal, é parecida com São Francisco, na Califórnia. Com o cais novo, ficará igual a SF, teremos cais tipo Fischerman's Wharf. Sonho meu. Feliz Niver, POA, Deus te ajude a ter um metrô, uma pista maior para o aeroporto, um porto novo, um trânsito transitável e a volta de pessoas caminhando por aí de noite.

Lá por 1824, os alemães foram chegando em São Leopoldo e começaram a marcar presença em Porto Alegre. A cerveja e chope chegaram para ficar. Porto Alegre, a açoriana tímida, até hoje uma açoriana meio tímida, gosta muito de um bar, de uma cervejinha. Perto do aeroporto surgiram várias micro-cervejarias nos últimos tempos.

Nos últimos tempos, a açoriana-alemã virou meio irlandesa. Pubs, cervejas, cardápios e outros lances irlandeses foram aparecendo. No dia de São Patrício, 17 de março, a galera, mais uma vez, comemorou bebendo milhares e milhares de litros de ceva e chope. Acha que estou exagerando? Um armazém do Moinhos esgotou em poucas horas um estoque de 2 mil cervejas e chopes. Os comerciantes próximos tiveram que fornecer o resto, mais o que tinham de destilados. Um famoso pub da Padre Chagas vendeu 80 barris de 50 litros de chope no dia 17.

Na Fernandes Vieira e João Telles, na Cidade Baixa e em outros points o santo irlandês também foi reverenciado. Ano que vem tem mais Saint Patrick. Na real, para muitos São Patrício é inspiração cotidiana. A galera espera boa quantidade de ceva e chope geladésimos, banheiros químicos, uma estrutura melhor de trânsito, policiais carinhosos, população compreensiva etc.

Acho essa movimentação da ceva simpática. É uma bebida leve, geralmente não muito cara, às vezes de fabricação caseira e/ou artesanal e os efeitos nos bebedores são mais suaves e passam mais rápido do que os de outras bebidas e drogas.

Enfim, creio que devemos agradecer a grande colaboração irlandesa para nossa cultura. Além de James Joyce, agora a ceva e São Patrício. Legal. Porto Alegre incorporou bem a coisa. Porto Alegre incorporou bem Portugal, Espanha, Japão, Itália, China, França, África, Líbano, Alemanha, hermanos argentinos e uruguaios e outros povos. Porto Alegre é universal, é diiiiimaaaaiisss!

a propósito...

Porto Alegre merece elogios pelos esforços na área turística, tanto os feitos por autoridades públicas quanto os desenvolvidos pela iniciativa privada. Muitos hotéis foram construídos, hostels e pousadas abertos. A ideia é deixar de depender tanto do turismo de estudo e de negócios e contar com o turismo de lazer. A Secretaria Municipal de Turismo, entre tantas realizações que desenvolve, implantou um interessantíssimo projeto de Turismo Criativo, envolvendo oficinas de churrasco, mandala de fios, fabricação de cerveja artesanal e outras atividades que colocam o turista em contato direto com a cultura local.


Jaime Cimenti

Amor e redenção a qualquer custo

Redenção (Editora Planeta, 440 páginas, tradução de Valéria Lamim Delgado), de Karen Kingsbury e Gary Smalley, é o primeiro de uma série de cinco volumes. O livro vendeu mais de um milhão de cópias nos Estados Unidos. É o início da saga da família Baxter. Karen é best-seller nos EUA, onde já vendeu mais de 25 milhões de exemplares e se consolidou na ficção inspiracional. Karen já escreveu mais de 50 romances, muitos adaptados para a TV e o cinema.

Recebeu muitos prêmios e faz palestras para mais de cem mil mulheres por ano. É casada e mãe de cinco filhos. Gary é palestrante e especialista em amor, relações familiares e conjugais. Ele é autor de best-sellers na área. Escreveu cerca de 30 livros. É casado há mais de 40 anos.

Neste alentado romance, os autores apresentam a família Baxter, seus medos e desejos, seus pontos fortes e fracos, suas perdas e vitórias. Uma família comum e com muito a nos ensinar sobre a vida. É uma família temente a Deus e que enfrenta problemas como qualquer outra.

Os cinco romances da série são sucesso nos Estados Unidos pelaforma como foram escritos e, certamente, por tratarem de problemas de relacionamento familiar, questões do cotidiano das famílias, dos casais, dos filhos, de alegrias e de tristezas que estão em todas as casas, todos os dias, em todos os lugares do planeta.

Kari Baxter Jacobs descobre que o marido, Tim, um respeitado professor de jornalismo, tem um romance extraconjugal com uma de suas alunas. Pensa em divorciar-se. Mas, depois, vai questionando a ideia inicial. Atordoada, Kari regressa à casa dos pais para tentar resolver as coisas. Como se não bastasse, um antigo amor reaparece em sua vida, trazendo antigos sentimentos. Ela se confunde ainda mais. Ela conseguirá perdoar o marido? O que fazer com sua dor? O que fazer com seus próprios sentimentos, revividos pelo antigo amor, Ryan? Será que Kari deve evitar Ryan?

Enquanto vai duramente procurando por respostas em meio a tantas incertezas, Kari faz uma descoberta inesperada. Será que, no emaranhado de pensamentos e emoções tão difíceis e tumultuados, ela poderá encontrar a fé e a força que necessita para seguir em frente? Será que a crença em Deus será suficiente para Kari vencer momentos tão complicados em sua vida? É uma decisão delicada, difícil.

Karen Kingsbury mostra muita habilidade na construção do enredo e na descrição de emoções, relacionamentos e climas familiares. Karen também revela muita destreza na formulação dos diálogos, tarefa quase sempre muito difícil para os escritores. Karen não foge da tarefa.



27 de março de 2015 | N° 18114
SOCIEDADE O EXEMPLO VEM DE CASA

CRISE DE AUTORIDADE E INVERSÃO DE PAPÉIS

ESPECIALISTAS AFIRMAM QUE casos de superproteção ou omissão em relação aos filhos podem revelar pais desnorteados sobre o limite de atuação da escola

Um aluno do 6º ano do Ensino Fundamental comparece à sala de aula com 30 minutos de atraso. Em observância às normas da escola, a professora orienta-o a ir até a direção para solicitar uma autorização de entrada. Minutos depois, o garoto reaparece, acompanhado pela mãe. A mulher mete o pé na porta, entra na sala, xinga a professora do filho, puxa-a pelos cabelos e a arrasta pátio afora. O aluno, horrorizado, suplica que a mãe cesse as agressões.

Esse episódio grotesco ocorreu no dia 4 deste mês, na Escola Municipal Irmão Pedro, em Canoas. Trata- se de um caso absurdo e despropositado, mas não completamente desvinculado de um fenômeno que tem preocupado os especialistas. A agressão no colégio da Região Metropolitana parece ser uma manifestação radical e extrema de uma crise no papel educacional desempenhado por pais e mães.

No dia a dia, esse fenômeno se manifesta em uma série de eventos prosaicos, como no caso do pai que quer ser o melhor amigo do filho, do casal que leva a criança de três anos para escolher a escolinha que quer frequentar, da vizinha que fala que o filho de quatro anos tem uma personalidade tão forte que “não tem mais jeito” de educá-lo, da mãe que chega exausta depois de um dia de trabalho e decide não insistir com a filha para que ela coma algo saudável, porque afinal tem pouco tempo para “curtir”. Em comum, essas situações mostram pais desnorteados em relação ao seu papel, oscilando entre a omissão (que pode sobrecarregar a escola) ou a superproteção (potencial geradora de conflitos com professores).

– Claro que a gente não conhece a situação específica dessa mãe de Canoas, mas podemos falar genericamente de um fenômeno de grupo. Os pais estão completamente perdidos. Eles têm muita dificuldade de tolerar a frustração. Então como é que vão colocar limites adequadamente? Uma coisa que se verifica nos últimos tempos é que não são mais as crianças que têm o adulto como modelo, mas o contrário.

Nesse episódio, não é a mãe quem tem noção de realidade, mas o filho, que pede para ela parar a agressão – analisa Tania Marques, professora de psicologia da educação da Faculdade de Educação da UFRGS.

PSICÓLOGA FALA EM DITADURA DA CRIANÇA

Incapazes de estabelecer limites e ansiosos por evitar qualquer conflito com os filhos, mas prontos a comprar brigas por eles, os pais enfrentam uma crise de autoridade. Vivem também uma inversão de papéis no interior da família, quadro tão alastrado que há quem entenda que estamos vivendo uma “ditadura da criança”, como define a psicóloga Aidê Knijnik Wainberg.

Essas mudanças tornam mais complexos os processos educativos tanto em casa quanto na escola, levantando a pergunta: afinal, quem educa quem? Aidê lembra que, depois de gerações crescendo com o discurso de “liberdade total” na educação, agora a escola de psiquiatria francesa volta a recomendar mais repressão e hierarquia.

– Antes havia uma geração em que nada era permitido, depois veio outra em que tudo é permitido. E, agora, volta a ideia da repressão. Então, os pais ficam atrapalhados. Até os especialistas ficam perdidos. O que vale mesmo? – questiona.

Para em seguida completar:

– O que vale é o bom senso.

O difícil é encontrar bom senso entre adultos cada vez mais atordoados com sentimentos como culpa, ansiedade e insegurança. Com pouco tempo para ficar com os filhos, frequentemente os pais jogam para a escola a responsabilidade de educá- los, numa tentativa de terceirização. Uma missão fadada ao fracasso por vários motivos, especialmente porque o sistema de ensino tradicional também está em crise.

– Muitas vezes, a escola culpa a família, e a família culpa a escola. Isso é preconceito, não contribui. Escola e família precisam trabalhar juntas. Mas também existem muitos professores desmotivados, e se estão desestimulados, provavelmente sua autoridade vai estar comprometida.

Quem só reproduz conteúdo, em geral vai enfrentar problema de autoridade, porque ensinar é quase como um traço autoral – alerta Luciana Fevorini, doutora em psicologia escolar e diretora do colégio Equipe de São Paulo.

DILEMAS COTIDIANOS, APRENDIZADO DIÁRIO

Fora da imagem idealizada da família de comercial de margarina, pais, mães e outros agregados enfrentam uma série de dilemas cotidianos, como aprender a dizer não, impor regras e limites. Uma missão nem sempre simpática. Mas necessária.

– Quem educa vai ter de fazer papel de fada e de bruxa ao mesmo tempo. Só que as pessoas têm receio em exercer o papel da bruxa. Às vezes é chato dar limites, isso vai frustrar o outro. Mas frustrar é necessário para educar. Impor limites é cuidar do outro – observa Tania Marques.


letícia.duarte@zerohora.com.br

27 de março de 2015 | N° 18114
ARTIGOS - SÉRGIO KAPRON*

CUSTO SARTORI

Quanto custa uma empresa parada? Sem comando para produzir, com máquinas e tecnologia ociosas? Pelo menos o custo da folha, encargos, luz. R$ 4,8 milhões é o que custou aos cofres do Estado, nos dois primeiros meses, a super (!) Secretaria do Desenvolvimento, criada pelo governador Sartori. E se foi apenas um custo, o foi por opção do governo de que seus mais de cem servidores públicos nada produzissem.

Sem orientação, sem prioridades, a maioria deixou de executar os projetos de desenvolvimento das empresas e das regiões do RS. Na Agência de Desenvolvimento, sequer um diretor foi nomeado, todas as diretorias seguem acéfalas. Há uma evidente falta de prioridade ou de capacidade de condução.

Sequer podem usar o argumento da falta de recursos. Este governo encontrou programas de desenvolvimento estruturados, em pleno funcionamento e com recursos do Banco Mundial e do BNDES: R$ 43 milhões, já contratados e autorizados, para serem executados só no ano de 2015. Recursos que ainda devem aumentar em 50%, pois quando contratados o dólar estava em menos de R$ 2,00.

Estão comprometidas obras na área industrial de Guaíba, a Política Industrial, os Núcleos de Extensão e Inovação a empresas, os Arranjos Produtivos Locais que se desmobilizam e param de atuar, e ainda, os novos parques tecnológicos em regiões menos desenvolvidas, como Fronteira e Missões.

Falta governo exatamente onde reside a saída para a crise financeira histórica do RS: no crescimento produtivo e da renda, no desenvolvimento! Tal inoperância poderá ainda fazer com que o RS perca esses recursos, o que seria uma vergonha.

Mas ainda há custos difíceis de medir, como a desestruturação dos projetos, a desmobilização de equipes e obras no Interior e as empresas que deixam de ser capacitadas e apoiadas em projetos cooperados e de inovação. Ações que farão falta em empregos, PIB e impostos para saldar compromissos, como a própria folha do funcionalismo ou os 12% para a saúde.

Por fim, o custo maior, pelo seu efeito multiplicador, está no descrédito que o governo passa para a sociedade e na desmotivação dos servidores públicos. Projetos parando e servidores sem direção, desmotivados, são os ativos mais difíceis de recuperar. O desânimo daqueles com 20 ou 30 anos de serviço público e dos jovens com sólida formação, experiência no setor privado, mestres e até doutores, que recentemente optaram por servir ao público, é o retrato maior do custo que se agrava para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul.


*ECONOMISTA

27 de março de 2015 | N° 18114
DAVID COIMBRA

A receita da felicidade

O filé há de ser cortado em fatias delgadas, da espessura do dedo minguinho de uma criança de sete anos de idade. Se você não tem criança de sete anos de idade em casa, peça uma emprestada ao vizinho. Ou procure no Google, o Google tudo sabe. Ah: é fundamental que o filé seja fatiado na direção das fibras.

Vamos preparar um estrogonofe simples, mas, você sabe: as coisas simples são as melhores da vida, e esse estrogonofe, eu o preparei ontem e extraí suspiros e sorrisos dos comensais agradecidos.

Certo. O próximo passo é remover a indesejável capa de gordura que eventualmente exista no flanco de qualquer pequena tira. Feito isso, tempere com sal e pimenta-do-reino. Essa dupla, sal e pimenta-do-reino, já mudou o mundo. Lembre-se: de sal vem a palavra salário, porque salarium era o que os legionários romanos recebiam para comprar... sal. E Jesus disse a nosso respeito, nos superestimando: “Vós sois o sal da terra!”

Já a pimenta-do-reino era tão valiosa que, no século 5, quando o bárbaro Alarico submeteu Roma após três meses de cerco, exigiu 2,5 mil quilos de ouro, 15 mil de prata e 1,5 mil de pimenta-do-reino. Os romanos, escandalizados com o valor do resgate pedido, balbuciaram:

– O que vai sobrar para nós?

E Alarico:

– Suas vidas.

Então, saiba que nossas fatias de filé estarão ricamente temperadas apenas com sal e pimenta-do-reino.

Depois, acomode na frigideira um naco de manteiga do tamanho exato de uma caixa de fósforos Paraná. E acenda o fogo. Frite os pedaços de carne aos poucos, para que não liberem caldo.

Um punhado.

Em seguida: outro punhado.

Agora é a hora dos champignons, delicada intervenção francesa nesse prato tipicamente russo. Aliás, da nobreza russa. Dizem que foi no tempo dos czares que a baronesa Stroganov criou essa iguaria, que permaneceu no interior das fronteiras da terra gelada de Dostoiévski e Yelena Isinbayeva até que a revolução bolchevique expulsou do país os nobres e sua boa mesa.

Quando eu era pequeno, muito ouvi acerca da fidalguia do estrogonofe, servido com pompa no famoso Maxim’s, de Paris. Agora, que tudo se vulgarizou sob o pretexto de tudo se democratizar, é que qualquer bufê serve estrogonofe, inclusive de camarão e frango, o que são, obviamente, repugnantes excrescências (se você gostar de estrogonofe de frango, por favor, não fale mais comigo).

Mas, enfim, havíamos acrescentado a fleuma do champignon. Assim, precisamos nos debruçar sobre ingredientes aparentemente brutos, mas eficientes, como a mostarda e o ketchup, uma colherada de sopa dela e três dele, e mexa. Mexa, mexa, mexa suave e incessantemente, sabendo que, ali ao lado, aguarda o astro da noite: o creme de leite.

Com o soro separado, evidentemente.

Mas, calma, ainda não derrame o creme de leite. É o momento do toque de gênio, e o gênio não é outro senão minha mãe, dona Diva, a melhor de todas as cozinheiras, como o são todas as mães.

Ocorre que minha mãe flamba.

Também nós flambaremos.

Peguemos uma taça daquele líquido cremoso, de cor âmbar: o conhaque. Derramemos metade na nossa alquimia. Na outra metade, basta encostar a chama de um palito de fósforo (Paraná) e... fogo! A seguir, juntemos o fogo à superfície do molho. Pronto. Flambamos.

E aí vem ele: o creme de leite, afinal. Diminua o fogo, porque, se ferver, o creme talha. E mexa.

Mexa, mexa, mexa. Meiga, doce, carinhosamente.


O arroz branco já está pronto. Todos estão em torno à mesa, salivando. Sirva. Vamos esquecer, por um momento, do Sartori, da Dilma, das dores do mundo.

quinta-feira, 26 de março de 2015


26 de março de 2015 | N° 18113
FRONTEIRAS DO PENSAMENTO

O DESAFIO DA CONVIVÊNCIA

CICLO DE CONFERÊNCIAS trará à Capital o biólogo inglês Richard Dawkins, o escritor português Valter Hugo Mãe e o fundador da Wikipédia

O projeto Fronteiras do Pensamento anunciou ontem à noite o time que virá a Porto Alegre para discutir um tema desafiador: como conviver.

A equipe escalada é de peso. Entre os nove conferencistas, estão o biólogo Richard Dawkins, já incluído entre os cem maiores gênios vivos, o visionário Jimmy Wales, fundador da Wikipédia, e a socióloga Saskia Sassen, um dos 10 nomes mais influentes na área das Ciências Sociais na atualidade.

A provocação que eles receberam foi a de discutir novas formas de sociabilidade, tolerância e cooperação em um mundo cada vez mais conectado, populoso e urbanizado, em franco processo de concentração ao redor de megacidades. Segundo os organizadores da série de conferências, que começa em maio, com Dawkins, a ideia foi reunir um grupo de pensadores que viessem de áreas distintas do conhecimento (como biologia, sociologia, economia da cooperação, comportamento, filosofia e artes), mas que tivessem em comum o fato de inclinar-se à inquietude e à interdisciplinaridade.

Nesse perfil, encaixaram-se também o escritor português Valter Hugo Mãe, o filósofo inglês John Gray, a neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, o filósofo espanhol Fernando Savater e a urbanista americana Janette Sadik-Khan. Cada um deles ficará responsável por uma conferência do ciclo, que se estende até novembro. Um dos encontros, no entanto, será duplo: em 24 de agosto, um debate especial reunirá Saskia Sassen e seu marido, o também sociólogo Richard Sennett.

O Fronteiras do Pensamento Porto Alegre é apresentado por Braskem e tem patrocínio de Unimed Porto Alegre e Hospital Mãe de Deus com parceria acadêmica da UFRGS. As empresas parceiras são Liberty Seguros, BNDES e CMPC. Parceria institucional de PUCRS e Fecomércio e parceria cultural da UFCSPA. Promoção: Grupo RBS.

JIMMY WALES 22/6

Graças a Jimmy Wales, é bastante fácil dizer quem é Jimmy Wales. Basta olhar na Wikipédia, a enciclopédia colaborativa virtual que ele fundou em 2001. Gratuita, sem fins lucrativos e disponível em cerca de 300 idiomas, trata-se da maior obra de referência que a humanidade já teve a disposição, dentro ou fora da internet, com espantosos 30 milhões de verbetes, 867 mil deles em português. Nada menos do que 500 milhões de pessoas – usuários únicos – consultam-na a cada mês.

Esse colosso, que um estudo da revista científica Nature apontou como tão confiável quanto a tradicional Enciclopédia Britânica, nasceu da ideia do norte-americano Wales de tornar qualquer cidadão interessado em autor. Hoje, há 69 mil editores ativos, atualizando a Wikipédia constantemente.

RICHARD DAWKINS 25/5

Há 39 anos, com a publicação de seu primeiro livro, o biólogo britânico Richard Dawkins foi catapultado à condição de nome incontornável da ciência contemporânea. O Gene Egoísta, a obra em questão, renovou os estudos sobre a seleção natural ao colocar o gene como seu principal agente. Na concepção de Dawkins, os organismos vivos são como “máquinas de sobrevivência” do gene e existem para que ele possa se replicar. No mesmo livro, apresentou o termo “meme”, que mais tarde acabaria por se difundir na internet.

Na última década, Dawkins ganhou um novo tipo de protagonismo, como expoente do movimento batizado de Novo Ateísmo. Em livros como Deus, um Delírio, analisou a religião a partir de um ponto de vista científico, procurando mostrar sua irracionalidade e os malefícios que causou à humanidade. Em 2006, criou a Fundação Richard Dawkins pela Razão e a Ciência, que tem a missão de combater a influência religiosa no ensino e nas políticas públicas.

JOHN GRAY 8/7

Dono de uma longa e produtiva carreira – marcada pela produção acadêmica, por uma série de livros e pelo sucesso em prever fatos como a queda do comunismo ou a crise financeira internacional – o filósofo britânico John Gray tornou-se uma estrela do pensamento mundial há pouco mais de um década, com a publicação do livro Cachorros de Palha (2002).

Nesta obra de fôlego, o professor de pensamento europeu da London School of Economics nadou contra a corrente. Para ele, a tradição filosófica ocidental é arrogante na sua definição do lugar do homem no mundo. Gray defende no livro, um grande best-seller que valheu tantos aplausos quanto ataques, a ideia de que o progresso humano não passa de um mito. Ele vê os homens como seres vorazes, ávidos por matar e destruir outras formas de vida.

SASKIA SASSEN E RICHARD SENNETT 24/8

A socióloga holandesa Saskia Sassen, professora universitária nos EUA, está entre os principais teóricos da globalização. Ela também tornou-se conhecida por trabalhos sobre o fenômeno da “cidade global”, termo que se difundiu a partir de suas análises, e das imigrações. É casada com o sociólogo e historiador norte-americano Richard Sennett, autor de uma série de obras sobre temas como a experiêcia urbana, o desenvolvimento das cidades, a conexão entre autoridade e vida pública e a natureza do trabalho na sociedade contemporânea. O livro mais conhecido de Sennett, O Declínio do Homem Público (1977), é considerado um clássico das ciências sociais. Leciona na London School of Economics e na New York University.

FERNANDO SAVATER 26/10

O filósofo e escritor Fernando Savater é uma instituição na Espanha. Defensor de uma filosofia atuante, ganhou projeção internacional devido a uma série de livros sobre ética, alguns voltados para o público jovem, nos quais reafirma a possibilidade do ser humano de fazer escolhas. Seus escritos sobre educação, uma tema que o apaixona, são igualmente influentes.

Originário do País Basco, Savater também é uma referência política. Fundou o movimento Basta Ya! para combater as práticas violentas do grupo separatista ETA, o que lhe valeu ameaças de morte, mas também o Prêmio Sakharavo de Direitos Humanos, concedido pelo Parlamento Europeu.

VALTER HUGO MÃE 3/8

Em 2011, o escritor português Valter Hugo Mãe compareceu à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) na condição de um quase desconhecido em meio a vários autores ilustres. Dias depois, saía consagrado como estrela maior do evento. Ele foi adotado pelo público graças a uma conferência comovida e comovente, que incluía uma declaração de amor ao Brasil. Arrancou lágrimas do público, viu seus livros esgotarem-se em questão de horas, foi pedido em casamento e recebeu da revista Veja a qualificação de “fofo da literatura”.

O desempenho na Flip ajudou Mãe a transformar-se no escritor luso mais popular entre os brasileiros desde José Saramago. Mas não teria servido de nada se romances como O Filho de Mil Homens e A Desumanização não tivessem fascinado o leitor com suas narrativas marcadas pela sensibilidade e pela abordagem de temas como o amor, a perda e a família.

SUZANA HERCULANO-HOUZEL 28/9

Doutora pela Universidade Paris VI (França) e pós-doutora no Instituto Max-Planck de Pesquisa do Cérebro (Alemanha), a neurocientista carioca Suzana Herculano-Houzel lidera uma equipe internacional que pesquisa as regras de construção do sistema nervoso central em humanos e outras espécies. Ela tem se dedicado também à divulgação científica, por meio da TV (apresentou o quadro Neurológica, no Fantástico), da internet, de veículos da imprensa ou de livros como O Cérebro Nosso de Cada Dia – Descobertas da Neurociência sobre a Vida Cotidiana.

JANETTE SADIK-KHAN 23/11

Com formação em Direito e Ciência Política, a californiana Janette Sadik-Khan ganhou notoriedade na condição de secretária municipal de transportes de Nova York, cargo que ocupou entre 2007 e 2013. Enfrentando críticas ferozes e concepções arraigadas, lançou um programa que hoje é visto como tábua de salvação para melhorar a circulação e tornar as cidades mais humanas e seguras.


Janette ficou conhecido principalmente como defensora das bicicletas, por ter implantado 550 quilômetros de ciclovias em ruas e avenidas nova-iorquinas. Também foi responsável por reservar 50 quilômetros de faixas exclusivas para ônibus, por alargar calçadas, por estreitar ruas e por fechar para o automóvel regiões de tráfego pesado, transformando-as em áreas de pedestres – incluindo a paradigmática Times Square. O caos previsto por seus críticos não se confirmou. O trânsito continuou a fluir, e o faturamento do comércio se multiplicou.

26 de março de 2015 | N° 18113
CARLOS GERBASE

QUADRILHAS DE AUTORIDADES

Numa das melhores cenas do documentário Tiros em Columbine, Michael Moore entrevista Dick Herlan, produtor do reality show Cops (“Policiais”). Esse programa mostra, basicamente, perseguições a criminosos negros e hispânicos, que são capturados, jogados no chão, algemados e conduzidos (muitas vezes sem camisa) para a prisão.

Moore, que está investigando as raízes da violência nos Estados Unidos, sugere a Herlan que faça um programa chamado Corporate Cops (“Policiais de Corporações”), que mostraria a polícia atuando contra as quadrilhas que organizam esquemas fraudulentos para desviar recursos públicos e lesar os cidadãos norte-americanos em milhões de dólares. Moore afirma que a audiência seria grande, e Herlan responde:

– Concordo com você e, se conseguir achar uma organização policial que julgasse quadrilhas de criminosos apropriadamente, que as perseguisse de forma apropriada... Quero dizer, o que faria com alguém que roubou uma bolsa com US$ 85, e o que faria com alguém que roubou US$ 85 milhões dos pobres? Essa eu queria filmar. Mas, quando a polícia pega o cara que roubou US$ 85 milhões, ele é tratado como se fosse uma autoridade, sendo ou não sendo.

Estamos assistindo aqui no Brasil a uma espécie de Corporate Cops nos jornais e na TV. E, embora seja bem saudável saber que grandes empresários e funcionários públicos de alto escalão – que aparentemente roubaram muito dinheiro dos pobres – estão passando um tempo na cadeia, eles continuam sendo tratados como autoridades. A situação fica ainda mais absurda em relação aos que aderiram à delação premiada, pois o acordo permite que o alcaguete de terno e gravata tenha uma série de vantagens, inclusive a de posar como “colaborador da justiça”.


Quem deveria ser tratado com mais rigor? Um sujeito que, desempregado, miserável e semianalfabeto, surrupiou R$ 85 de uma bolsa num ônibus lotado, ou um servidor público, com curso universitário completo e salário generoso, que roubou R$ 85 milhões? Os dois foram imorais e transgrediram a lei, mas quem deveria ser atirado ao chão com mais violência, ter as algemas mais apertadas e ficar em celas mais lotadas? Dick Herlan continua sem boas cenas para o reality que todos nós gostaríamos de ver.

26 de março de 2015 | N° 18113
DAVID COIMBRA

Se essa rua fosse minha

Descobri um novo prazer. Você não vai acreditar: ir ao supermercado. Por Deus, adoro ir ao supermercado.

Já sei, você dirá: “Está em idade provecta”.

Talvez esteja, mas não foi o peso dos anos que me fez descobrir esse contentamento. Vou explicar o que foi. Deu-se assim:

Outro dia, voltava do Trader Joe’s com duas sacolas de compras nas mãos. Na verdade, não era dia; era noite – umas 22h, com temperatura amena, para surpresa e gáudio de homens e bichos.

Esse Trader Joe’s é um supermercado meio natureba, não vende nem refrigerante, que faz mal. A região em que moro é ecologicamente correta, as sacolas de plástico são proibidas. Então, eu carregava duas resistentes sacolas de papel reciclado cheias de mantimentos, entre os quais um bolo de banana que gosto de comer enquanto vejo House of Cards.

Aí tocou o celular.

Era o meu irmão, que ligava da outra ponta do continente. Como as sacolas me atrapalhavam, pousei-as no chão, refestelei-me sobre um banco plantado na calçada e comecei a falar ao telefone. Aos 10 minutos de charla é que dei por mim. Descobri, naquele momento, o prazer a que me refiro. Disse para ele:

– Cara, tu não imaginas a sensação boa que é poder fazer apenas isto que estou fazendo agora: numa noite tranquila, no caminho entre o supermercado e a casa, sentar-me em um banco na calçada para conversar sem pressa.

Pois aqui tenho feito essas coisas incríveis: vou a pé buscar o meu filho na escola, caminhamos despreocupados pela rua e, às vezes, decidimos tomar um sorvete de baunilha na J.P. Licks, que fica a uma quadra de distância. Sentamos nas poltronas de couro, ouvindo a velha e boa música nacional de caras como Billy Joel ou Bob Seger.

Depois, saímos devagar, conversando sobre questões prementes, como se a capacidade que o Homem-Aranha tem de escalar paredes vem da aranha radioativa ou de algum poder de sucção da roupa que ele costurou. Volta e meia entramos na livraria que fica mais adiante e damos uma olhada nos livros. Comprei alguns mapas para ele lá, meu filho é um apreciador de mapas. À noite, se não faz muito frio, eu, ele e a Marcinha zanzamos pelas ruas próximas, admirando os grandes sobrados de madeira e os esquilos que correm pelos galhos das árvores. Ou então... que delícia, vou ao supermercado.

Caminhar pela cidade, nada mais do que isso, na hora em que quiser, sem medo, sem olhar para os lados, sem ter de tomar cuidado com o que quer que seja: que grande, que inaudito, que inesperado prazer. Mas isso você só pode fazer num lugar em que o Estado o respeita, onde o Estado é responsável pela segurança do cidadão, onde jamais o Estado cogitará cortar um terço das despesas de áreas vitais para as pessoas, como saúde, educação e segurança pública.


Caminhar na rua, sentir que a rua é minha. Um Estado que não proporciona ao menos esse prazer gratuito ao cidadão, francamente, é um Estado para se ter vergonha.

26 de março de 2015 | N° 18113
L. F. VERISSIMO

Rock Hudson e o compadrio

Sou de uma geração que nunca se recuperou da revelação de que o Rock Hudson era gay. Entende? Nada contra ser gay, declarado ou disfarçado. Cada um use seu corpo e siga suas preferências sexuais como quiser, ninguém tem nada com isso. Mas é que o Rock Hudson representava, na sua época, um ideal de masculinidade inquestionável. Até o seu nome inventado – Rock – transmitia uma ideia de macheza esculpida em pedra, para sempre.

E de repente descobrimos que até as coisas mais evidentes podem não ser o que parecem. Se o Rock Hudson era gay, todas as nossas certezas estavam ameaçadas. (Abro parênteses para sugerir que eu talvez seja uma das últimas pessoas do mundo que sabem quem foi o Rock Hudson.

Ator americano. Trabalhou em alguns filmes com a atriz e cantora Doris Day, de quem o Groucho Marx disse, certa vez, que a conhecera antes de ela ser virgem, outra desilusão.) Enfim, dizia eu quando me interrompi tão rudemente, nunca mais acreditamos inquestionavelmente em mais nada.

Com uma exceção. Entre as poucas certezas que sobreviveram ao choque de saber que o Rock não era tão rock assim, estava a da inviolabilidade das contas numeradas na Suíça. Podia-se especular sobre quem tinha ou não tinha conta numerada num banco suíço, mas jamais esperar que se descobrisse quem. Agora ruiu mais esse mito. Os nomes estão saindo nos jornais.

Temos o direito de nos sentirmos um pouco como aquele irmão Karamazov do romance do Dostoiévski que, no meio de uma bebedeira, proclama: “Se Deus não existe, tudo é permitido!”. Anos mais tarde, o Nelson Rodrigues se apropriou da frase e escreveu: “Se Vinicius de Moraes existe, tudo é permitido!”. Podemos propor uma terceira versão: se não se pode mais confiar nem na discrição fiduciária dos suíços, nada é sagrado!

No Brasil, há mitos ruindo por todos os lados, incluindo alguns que o PT criou sobre si mesmo. O mito neoliberal da competição como tônico de um mercado livre e autorregulável só sobrevive porque seus pregadores desdenham do óbvio.


O que estamos vendo nessa meleca toda, empreiteiras formando cartéis para participar de licitações combinadas e comprando favores e contratos de corruptos com propinas milionárias, senão uma espécie de apoteose feérica do capitalismo de compadres em ação? O compadrio odeia a competição. Talvez, na próxima passeata, uma das faixas possa aludir a isso.

quarta-feira, 25 de março de 2015


25 de março de 2015 | N° 18112
MARTHA MEDEIROS

Sete vidas

Estreou recentemente a nova novela das 18h, Sete Vidas, que conta a história de um homem que, quando jovem, doava sêmen para se sustentar, e depois, adulto, descobre que tem sete filhos que não conhece.

Não estou assistindo, mas confio muito no taco da autora, a ótima Licia Manzo. Comecei a coluna usando esse gancho a fim de promover outro tipo de doação que também pode gerar seis, sete, várias outras vidas: a doação de órgãos. Faço questão de apoiar a campanha lançada pela Santa Casa.

Quando alguém morre, é uma vida a menos. É assim que analisamos a morte: como uma perda. Porém, a gente se esquece de que essa vida a menos pode gerar muitas vidas a mais. Basta que se doem o coração, as córneas, o pâncreas, o fígado, os rins e o que mais puder ser aproveitado.

Quem de nós não gostaria de ter serenidade e tolerância diante da morte? Pois é, porém nenhuma religião conseguiu até hoje confortar plenamente os parentes e amigos que enfrentam o desaparecimento súbito de uma pessoa querida. A ausência definitiva de alguém próximo é de uma brutalidade que encarcera a todos num luto sofrido. O tempo não cura, apenas ajuda a administrar a saudade.

Mas há paliativos. No momento em que é preciso superar uma dor extrema, a doação de órgãos pode tornar-se mais eficiente do que as missas encomendadas. É o verdadeiro ato de fé que manterá viva aquela pessoa entre nós.

Pense: o coração de alguém que morreu por causa de um aneurisma pode continuar batendo no peito de um estudante de Medicina, as córneas de quem viajou por lugares paradisíacos pode servir para um fotógrafo. É uma ressurreição possível, que sai das páginas da Bíblia para virar realidade entre nós.

Ninguém quer morrer, ninguém quer perder ninguém, ninguém quer nem mesmo tocar neste assunto, ainda mais estando tão atazanado com o trabalho e outros compromissos cotidianos. Temos tanta coisa a realizar, que necessitamos urgentemente da garantia de que viveremos por no mínimo cem anos. Mas, caso o destino resolva ser mais rápido no gatilho, é muito importante que tenhamos verbalizado para nossos familiares que somos favoráveis à ideia de sobreviver através do corpo de outra pessoa.


Anunciemos em alto e bom som: sou doador de órgãos. Deixemos a declaração por escrito, se preciso for. Não é um tema mórbido. Estamos falando de esperança, de renovação, de generosidade. De uma multiplicação milagrosa de fato: uma pessoa valendo por duas, três, sete.

25 de março de 2015 | N° 18112
EDITORIAL ZH

A POLÍTICA DA INSEGURANÇA

O custo é sempre alto e poderia ter sido evitado, mas a esta altura não há alternativa mais eficaz para reordenar a economia brasileira do que o ajuste fiscal.

A manutenção da nota de crédito do Brasil pela agência de classificação de risco Standard & Poors, que continua sendo grau de investimento, chega em boa hora para a presidente Dilma Rousseff. E deveria ser usada como trunfo na tentativa de atenuar as pressões de quem se esforça em ampliar a política de insegurança, responsável em grande parte pela deterioração da economia.

É o caso de forças políticas, particularmente militantes do PT, que insistem numa redução nos cortes de benefícios trabalhistas, sob a alegação de que a presidente não pode se distanciar das promessas de campanha. A prática, de fato, distanciou-se do discurso eleitoral, mas a verdade é que não haverá conserto para a economia sem ajuste fiscal. A determinação do Planalto nesse sentido foi decisiva para que o país mantivesse o selo de bom pagador.

É certo que agências de classificação de risco também erram. Ainda assim, os investidores continuam se basean- do nesse tipo de avaliação para definir onde irão aplicar seu dinheiro. E o que fez a Standard & Poors manter o grau de investimento do país foi justamente a confiança de que o ajuste fiscal passará no Congresso. Mais: a agência interpreta o que os brasileiros percebem como corrupção desenfreada como um indicativo claro da força das instituições brasileiras. Afinal, estão lutando bravamente contra esse que é hoje um preocupante fator de desestabilização política no país.

Os resultados da mais recente pesquisa de opinião do instituto MDA, encomendada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), reforçam as razões para preocupação. A avaliação positiva do governo caiu de 41,01% às vésperas das eleições do ano passado para apenas 10,8%. A principal razão para insatisfações é que a maioria dos entrevistados já alega sentir os efeitos da desaceleração econômica e da inflação. O custo é sempre alto e poderia ter sido evitado, mas a esta altura não há alternativa mais eficaz para reordenar a economia brasileira do que o ajuste fiscal.


Se ceder às pressões contrárias às mudanças para corrigir erros de um passado recente, a presidente da República irá ampliar ainda mais a insegurança em relação ao futuro imediato. Além disso, estará desautorizando o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que vem se empenhando em convencer o Congresso a aprovar medidas amargas mas necessárias para livrar o país de uma crise gerada pela ineficiência e por interesses políticos.

25 de março de 2015 | N° 18112
FÁBIO PRIKLADNICKI

O GRE-NAL E A INDIFERENÇA

Depois de uma infância dedicada a álbuns de figurinha de jogadores e uma juventude com presença marcada no estádio, acho que estou largando o futebol. Não tenho certeza, pode ser temporário. Não tem nada a ver com a fase do meu time: admito que não sei muito bem em que fase ele está.

Mas certo dia acordei de sonhos intranquilos metamorfoseado em uma criatura indiferente à dupla Gre-Nal. Não me entenda mal: levamos muito tempo para elevar o futebol a um assunto merecedor de consideração intelectual; longe de mim defender o contrário. Mas receio que a vida de torcedor, para mim, esteja definhando. Torçamos pelo contrário.

Nessa transformação, testemunho um fenômeno cuja existência, admito, ainda não havia levado em consideração. Sempre que digo a outro gaúcho que não tenho mais acompanhado a dupla Gre-Nal, presencio uma reação que é um misto de decepção e desprezo. Há algo que, obviamente, une gremistas e colorados: mesmo em posições opostas, eles poderiam passar a tarde inteira juntos, em uma mesa de bar, tentando convencer o outro de que seu time é melhor.

Mas o que conversar com uma pessoa insensível ao tópico? Descobri que a maior ofensa ao gaúcho não é questionar sua masculinidade, como sugere o estereótipo: é ser indiferente à dupla Gre-Nal. Viver no Rio Grande do Sul e não estar em um dos dois lados é como sentar em uma mesa de pôquer e se recusar a jogar.

Conheço algumas pessoas que nunca se interessaram por futebol e são sempre instadas a escolher um lado. Seus interlocutores tentam a todo custo extrair a informação: “Mas você era gremista ou colorado quando criança?”, “Mas o seu pai torcia para qual time?”. E assim por diante. Como estar à parte de um assunto pelo qual alguns chegam, literalmente, a se esbofetear?


Você pode até desprezar índios, quilombolas e gays e, surpreendentemente, ser um deputado muito votado. Mas ser indiferente ao Gre-Nal, ah, aí já é uma ofensa indefensável. Nós, que não fazemos parte dos 99% de torcedores, somos uma categoria invisível, à espera de um sociólogo generoso para ouvir nossas queixas.

25 de março de 2015 | N° 18112
DAVID COIMBRA

Medo na madrugada

Era uma noite amena, de ar fino, de céu de azul profundo, e eu me sentia inquieto dentro do meu apartamento. Tinha trabalho a fazer, mas algo na rua me chamava. A vida estava acontecendo em algum lugar longe de mim. Corria nas minhas veias e pulsava-me no peito uma ânsia de sair de casa, simplesmente sair de casa. Disse, então, um palavrão para mim mesmo, peguei a carteira e saí.

Às vezes, a gente tem de seguir os instintos, sussurrei, estufando o peito e sorvendo o ar fresco da noite.

Sorri e pensei: nesta noite, a sorte é que vai me guiar. A sorte!

A sorte... Se soubesse o que a noite me reservava, teria ficado feliz na solidão do meu apartamento.

Mas não sabia, e fui em frente. Para o desconhecido.

Morava perto de uma região de bares. A luz amarela de um deles chamou-me a atenção, como se eu fosse um inseto atraído pela lâmpada acesa. E, de certa forma, era isso mesmo que era.

Nunca antes havia entrado naquele bar. Entrei e, já a caminho do balcão, a vi. Jamais a esquecerei. Era morenajambo, longilínea e sinuosa. Nossos olhares se cruzaram enquanto eu pedia um chope. O garçom fez aterrissar o copo na minha frente. Senti o primeiro gole rolar gelado garganta abaixo. Então, um sujeito alto e forte, que estava apoiado no balcão, girou o corpo, olhou-me nos olhos e o que disse a seguir me fez estremecer.

Infelizmente, vou ter que encerrar a história por aqui. Não havia mais espaço, e precisei fazer um corte no texto. Não me critique: na edição, tomei por base o modelo administrativo atual do Estado do Rio Grande do Sul: quando é preciso cortar, corta-se. Pronto.

Já sei. Alguém vai dizer que eu poderia ter abreviado algumas descrições para dar o final da história, porque o final é fundamental para o leitor e blá-blá-blá, assim como alguém vai dizer que em saúde, segurança e educação não se corta, porque são fundamentais para o cidadão, e que a economia no orçamento do Estado poderia ter sido mais radical em outras áreas menos importantes, sim, sim, já sei que haverá quem diga isso a mim e ao governador Sartori.

Mas dirão isso porque não sabem como é difícil cortar um texto pelo meio, sem que perca o sentido, ou como é difícil eliminar despesas em setores que, se não são vitais, causam grande desgaste político ao serem reduzidos ou eliminados.


Muito mais fácil e rápido fazer como eu e Sartori fazemos: remova dois parágrafos e um terço da verba da segurança pública. Se pessoas vão ser sequestradas debaixo de semáforos ou se o leitor ficará furioso porque o texto não tem final, por favor!, que falta de compreensão. Isso é intriga da oposição. Maldita oposição.