sábado, 26 de setembro de 2015



26 de setembro de 2015 | N° 18306 
DAVID COIMBRA

Meus 100 anos

Um velhinho, lá no Japão, tem 105 anos de idade e corre os cem metros rasos. Ele começou a correr não faz muito, aos 90. Mesmo assim, diz que um dos segredos da vida longa é a prática diária de exercícios. Os outros são comer pouco e mastigar bastante os alimentos.

Isso de comer pouco eu já sabia. E não graças aos japoneses; graças aos inimigos históricos deles, os chineses, que dizem: “Jamais te arrependerás de comer pouco”.

Levo essa frase sempre comigo e a repito a todo momento, embora jamais a tenha aplicado.

O velhinho japonês diz ainda que temos de mastigar bastante. Também já sabia disso. A minha madrinha Sônia insistia que temos de mastigar cada bocada 42 vezes. Um dia ela me levou para almoçar em um restaurante vegetariano que pregava algo parecido. A gente punha uma colherada de grão-de-bico na boca e ouvia um cara falar mansamente pelo sistema de som:

– Mastigue... Mastigue... Você deve facilitar o trabalho do estômago... O bolo alimentar tem de ser dissolvido completamente pelos ácidos estomacais... Você, de camisa azul e óculos... Você está comendo muito rápido... Mastigue... Mastigue... Você, perto da janela, de blusa verde: não é assim que se faz. Calma... Mastigue...

Nunca mais voltei àquele restaurante. Tinha medo de ser censurado pelo cara do sistema de som. Além disso, chamar comida de bolo alimentar me tira o apetite.

De qualquer forma, não consigo mastigar 42 vezes. Simplesmente não consigo. Nem quando a costela está meio emborrachada. Acho que não correrei os cem metros rasos aos 105 anos.

Deveria ser mais fácil passar dos cem. Segundo o Gênesis, era. Matusalém, o avô de Noé, viveu 969 anos. E Noé, o homem que não apenas salvou a humanidade, mas também plantou a primeira vinha, viveu 950 anos. O que aconteceu para que a expectativa de vida diminuísse? O Gênesis explica:

“Quando os homens começaram a multiplicar-se na Terra e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram bonitas, e escolheram para si aquelas que lhes agradaram. Então, disse o Senhor: ‘Por causa da perversidade do homem, meu espírito não contenderá com ele para sempre, ele só viverá 120 anos’”.

Não haverá de ser linear a interpretação desse texto, mas, veja: sempre as mulheres... Em todo caso, o que resta é que podemos viver 120 anos, e a Bíblia não fala em ter de praticar exercício, comer pouco e mastigar muito. Logo, mesmo sem adotar esses hábitos nipônicos, posso chegar lá. Estou cogitando com seriedade essa possibilidade. Já planejo minha festa de cem anos. Vou encomendar alguns barris de chope cremoso, muitos quilos de picanha e convidar todos os meus amigos. 

Mas todos! Estaremos num grande salão cheio de painéis, como numa exposição de fotos, e, na verdade, é isso mesmo que será: uma exposição de fotos dos afetos da minha vida: minha família, meus parceiros de infância, da faculdade, das redações em que trabalhei, os antigos vizinhos, os companheiros de mesa de bar, a turma do futebol, os que serão centenários, como eu, e os que já não estiverem mais debaixo do sol. 

Então, passaremos, munidos de nossos copos de chope e nossos nacos de picanha, passaremos diante de cada quadro e contaremos histórias do personagem retratado ou do momento em que a foto foi tirada. Ficaremos assim durante toda a noite, e quem sabe invadiremos o dia seguinte e outros mais. Vamos beber, comer, contar histórias e rir, sobretudo rir, porque a regra é que poderemos falar de tudo, até das partes ruins, mas sem jamais brigar, sem jamais ofender, sem jamais perder o riso. Afinal, já teremos bastante experiência para saber aproveitar só o lado bom de cada um de nós.




26 de setembro de 2015 | N° 18306 
CLÁUDIA LAITANO

Topetudos

Nos programas de humor, nos talk shows do horário nobre, na festa de entrega do Emmy, lá estão ele e seu topete. Nos dias que correm, nos Estados Unidos, onde houver um microfone e uma audiência, Donald Trump estará presente – se não em pessoa, na forma de piada. Os roteiristas nem precisam se esforçar muito. O próprio candidato republicano tem se encarregado de distribuir generosamente o material de que as piadas são feitas: visual excêntrico, frases de efeito sem noção, sincericídio, tudo isso sustentado por uma visão de mundo anacrônica e excludente. 

Na semana que passou, a reação liberal ao constrangimento representado pelo avanço de um tipo como Donald Trump dentro do Partido Republicano parece ter chegado a sua manifestação mais extrema (e explícita): no episódio da última quarta-feira da série de humor negro South Park, uma versão animada do candidato aparece sendo morta e estuprada.

No Brasil, não temos nada parecido com South Park – nem humor político em qualidade e variedade suficientes para dar conta do material cômico produzido por Brasília todos os dias. Não nos faltam personagens caricatos como Donald Trump, é verdade, mas nossas reservas de sátira e bom humor parecem escassas quando nos defrontamos com personagens como Eduardo Cunha, por exemplo. 

Com seu sotaque carioca arrastado e seu visual anódino de vendedor de enciclopédias, o presidente da Câmara é um desafio para comediantes. Ao contrário de Trump, sempre mantém a gomalina e a compostura diante das câmeras – e mesmo jornalistas experientes têm dificuldade para escapar do seu repertório aparentemente inesgotável de tecnicalidades.

Ainda assim, de alguma forma, os dois políticos representam a mesma força centrípeta que parece sugar todos os assuntos para um vórtice comum de atraso e intolerância. A diferença é que os Estados Unidos ainda têm chance de catapultar Trump de volta para sua irrelevância bilionária, enquanto o Brasil já está a bordo de um avião sequestrado pelo fundamentalismo religioso liderado por Eduardo Cunha. 

Apenas nesta semana, os deputados da bancada evangélica colocaram em pauta na Câmara um projeto que dificulta ainda mais o tratamento médico de mulheres vítimas de estupro (PL 5.069/2013, de autoria do próprio Eduardo Cunha) e aprovaram em comissão um anacrônico Estatuto da Família (PL 6.583/2013) que não reconhece a existência de casais do mesmo sexo.

Trata-se de puro pensamento mágico imaginar que pelo simples desejo da bancada evangélica casais gays deixarão de existir – mas não é exatamente o pensamento mágico que está empurrando o país para fora das fronteiras de um Estado laico?

Donald Trump é uma piada de mau gosto que, na dúvida, os americanos de bom senso decidiram levar a sério. No Brasil, várias piadas de mau gosto da mesma categoria distraíram a plateia nos últimos anos. Enquanto isso, a verdadeira ameaça ganhava forças nos bastidores, disfarçada de vendedor de enciclopédia, mas não menos topetuda.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015



MARCO A. BIRNFELD
Bagunça

Impressionante o conteúdo de uma frase do jornal britânico Financial Times, na sexta-feira passada: “Brazil’s economy is a mess”.
Traduzindo: “A economia do Brasil está uma bagunça”.
A visão do “professor”

No PT paulista reconhecido, por seus próprios colegas de partido, como “professor de Deus”, o ministro Aloizio Mercadante, titular da Casa Civil do Planalto, é um dos defensores da volta da CPMF.

Fiel à ladainha de Dilma, ele diz que a “contribuição provisória” é necessária. E avalia que há muitos adversários à ideia porque “a CPMF atinge o caixa-2 das empresas”.

Lula para si próprio

O jurista Hélio Bicudo, 93 de idade, que ajudou a construir o PT é o signatário do principal pedido de impeachment contra Dilma Rousseff (PT). Hoje ele admite estar decepcionado com o partido e nega ser simpático a qualquer outra sigla. Ele diz que “o PT adotou posturas questionáveis para se manter no poder”.

E liga o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à crise que tem seu pique em 2015: “Ele só está em vantagem para si próprio e para sua família”.

Auxílio-moradia faz escola

Solidificado o pagamento imoral para magistrados, promotores e conselheiros de tribunais de contas, o auxílio-moradia se expande.

Em tempos de ajuste, a Câmara Federal dá “boas novas” aos deputados: um implemento de R$ 1.747,00 na verba indenizatória para aumentar o auxílio-moradia. Com isso, os 120 parlamentares que não ocupam imóveis funcionais poderão receber até R$ 6 mil por mês por indenização com aluguel. Antes, o valor era de R$ 4.253,00.

Marinha tim tim...

Deve ser por engano que a Marinha do Brasil, por meio de uma de suas unidades do Rio de Janeiro, desembolsará cerca de R$ 8 milhões em taças de cristal, peças de porcelana, acessórios de mesa de aço inox e outras futilidades, todas ornadas com o brasão da Armada.

Se não for por engano, a Marinha será anfitriã de festas chiques que raramente acontecem.

Diferença de preços na mesma rede

Vender um produto, via internet, com valor menor que o anunciado na loja física não configura prática abusiva. Assim entendeu a 3ª Turma Recursal dos Juizados Cíveis de Brasília, ao manter sentença que negou dano moral a uma consumidora que comprou máquina de lavar em loja comercial e depois viu o mesmo produto, só que mais barato, no site da mesma empresa.

Segundo o julgado, “os preços para venda on-line costumam ser inferiores aos praticados em loja, além de serem acrescidos de despesas com frete no momento do fechamento do contrato, de sorte que não desponta total desproporcionalidade nos valores praticados (alguns, inclusive promocionais) a ponto de legitimar o pedido da consumidora”. (Proc. nº 20140910281790).

Interior do Paraná. Certo “advogado” (ou seria “adevogado”, assim mesmo com “e” para deturpar a palavra?) foi contratado por um cidadão para ingressar com uma ação possessória contra um fazendeiro.

Feita a petição inicial, distribuiu a ação.

Antes que o réu fosse citado, o “advogado” desacertou-se completamente com seu cliente (autor), por causa dos honorários contratuais. Por isso, saiu em busca do fazendeiro réu, oferecendo-lhe fazer a defesa que seria assinada por um colega de escritório.

O fazendeiro – “ingênuo”(?)... – aceitou.

Negócio fechado, o “advogado” recebeu a procuração, embolsou os honorários, e, no prazo, a contestação foi protocolada. Em seis longas laudas, uma densa preliminar: inépcia da inicial. Isso mesmo, inépcia da inicial!

O juiz, ao ler o palavrório, ficou indignado, pois conhecia bem a índole do “advogado”. E distribuiu cópias da inicial e da contestação aos demais corretos advogados da comarca.

O magistrado já aposentou-se, mas conta os fatos. As partes fizeram acordo. Quanto ao “advogado”, sabe-se que — por “falta de mercado” – fechou seu escritório e realiza, agora, atividades comerciais.

Mas conserva o apelido que ganhou quando constatada a falcatrua ética e legal.

Na comarca, é conhecido como o “doutor Óleo de Peroba”.

MARCO A. BIRNFELD

Pegando devagar e leve

Desde 1988 – e já se vão 27 anos – cerca de 500 deputados federais e senadores foram investigados ou processados no Supremo Tribunal Federal (STF). As condenações foram de apenas 16. Atualmente, 172 parlamentares estão na mira do Supremo. Muitos deles esperando a chegada da benfazeja prescrição.

Prescreveram as ações penais contra Cássio Taniguchi (DEM-PR), Abelardo Camarinha (PSB-SP), Jairo Ataide (DEM-MG), Marco Tebaldi (PSDB-SC) e Marçal Filho (PMDB-MS). Detalhe: Camarinha, ex-deputado federal, conseguiu eleger-se deputado estadual. Estão em prisão domiciliar: Asdrubal Bentes (PMDB-PA), João Paulo Cunha (OS-SP), Valdemar Costa Neto (PR-SP) e Pedro Henrique (PP-MT).

José Genoino (PT-SP) teve a pena extinta por um indulto de Natal; Zé Gerardo (PBDB-CE) cumpriu a condenação; e José Fuscaldi Cesílio Tático (PTB-GO) pagou multa. Foram condenados, mas recorreram e aguardam novo veredicto: Ivo Cassol (PP-RO) e Chico das Verduras (PRP-RR).
Está definitivamente condenado: Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), mas a pena foi convertida em prestação de serviços. O único que está preso: Natan Donadon (PMDB-RO).

Paradoxos

A presidente Dilma Rousseff (PT) decretou o aumento zero para o funcionalismo. Semanas antes foi aos Estados Unidos e gastou quase US$ 100 mil, dinheiro público (não o dela) só com o aluguel de carros e, naturalmente, uma limusine.
É toda uma cultura de governo que tem que mudar! Além da incompetência e da corrupção, os governantes brasileiros se comportam como nababos.
Quem pode, pode...

Uma agência especializada em viagens turísticas culturais não está nem aí para a crise que assola o Brasil e os brasileiros. Está oferecendo – com saída de Guarulhos (SP) – pacotes, num Boeing 757, com 50 lugares na primeira classe, para visita a 10 patrimônios da Humanidade, em 25 dias: Ilha da Páscoa, Myanmar, Tanzânia, Cidade do Cabo.

Preço: US$ 108 mil por pessoa. Hospedagens só em hotéis cinco estrelas, claro.

Aproveitem, antes que acabe

Efeitos do aquecimento global ameaçam a charmosa Veneza, na Itália. A cidade, famosa por suas ruas constantemente inundadas, está sendo a maior vítima do aumento do nível do mar.

O Greenpeace vaticina que o sacrifício da indústria turística local terminará ajudando a empurrar para baixo a economia italiana.

Imposto em cascata

Perfeito o artigo de Fernando Gabeira, na edição dominical de O Globo, resumindo que a volta da CPMF é um processo kafkiano contra a sociedade.

Escreve o ex-deputado que, quando perguntam a ele se a CPMF vai passar, responde que, pela lógica, não. “Mas não devemos apenas confiar na lógica. A CPMF é apenas um imposto. É toda uma visão de mundo que está em jogo. Instale-se um governo confiável, eficaz e austero, aí então podemos conversar. O estrago foi muito grande. Se temos de pagar alguma coisa, é razoável que não seja pago exatamente aos responsáveis pelo prejuízo.”

O kafkiano é darmo-nos conta de que a tentativa de retornar o tributo é um acinte contra uma sociedade que não cometeu nenhum crime. Apenas escolheu mal numa eleição que, no fundo, era um tecido de mentiras.


25 de setembro de 2015 | N° 18305 
DAVID COIMBRA

O carrinho vermelho

Meu plano era ver o outono chegar. Sabia de antemão que ele faria sua entrada no Hemisfério Norte às 4h20min da madrugada de quarta, no mesmo momento em que a primavera derramaria seu charme pelo Brasil. Queria testemunhar o acontecimento. Sempre quis experimentar o exato segundo da mudança de estação.

Assim, pouco antes das 4h20min, iria para a calçada e ficaria esperando, atento, com o nariz farejando o ar, feito um perdigueiro. Imagino um pé de vento de cheiro diferente quebrando a esquina ou, muitíssimo mais apropriado, uma folha amarela despegando-se do galho da árvore e flutuando devagar até o chão, imagino que algum sinal desses seria enviado e eu, inflando o peito, suspiraria:

– Aí está o outono... Mas, maldição!, não consegui acordar.

As trocas de estação por aqui são bem mais marcantes, preciso dizer. Boston se torna pelo menos três cidades completamente diferentes a cada ano, uma branca, outra laranja e a terceira azul e amarela. E, curioso, a transformação se dá em grande velocidade, quase que de um dia para outro. Por isso, na primeira manhã do outono, saí de casa tentando identificar as novidades. Aí, atravessando uma praça, deparei com esse carrinho vermelho.

Conheço a praça e conheço o carrinho. Já o tinha visto, inclusive à noite, debaixo de alguma árvore. O carrinho está sempre por ali. Pertence à praça. Faz parte da paisagem. Mas, desta vez, parei para admirá-lo.

Uma noite, quando meu filho tinha uns três anos, cheguei em casa depois do trabalho e o vi andando num carrinho parecido, em círculos, no pátio. Fiquei algum tempo observando, enternecido. Poucas coisas são mais puras do que um menino pedalando um carrinho no pátio de casa. Ali não há maldade, não há segunda intenção, não há nem reflexão. Um menino e seu carrinho. Só.

O carrinho vermelho da praça, esse especificamente, que parei para ver e fotografei com meu celular, esse carrinho vermelho, com a moça atrás embalando um nenê em um berço, com a grande árvore entre eles, com as rosas ao fundo, essa cena produziu em mim o mesmo enternecimento. A mãe embalando o seu nenê, o frondoso carvalho que se abre para o céu e o carrinho vermelho esperando pelo menino, eles reunidos na primeira manhã do novo outono. 

As maldades do mundo, as ganâncias dos homens, os desencontros da vida perderam sua relevância por alguns segundos, diante do carrinho vermelho. Pode ser banalidade minha, pode ser divagação de meia-estação, decerto que é, mas queria dividir esse pequeno pedaço de paz com você.


25 de setembro de 2015 | N° 18305 
MARCOS PIANGERS

Crianças extraordinárias


Em toda apresentação musical das minhas filhas, eu me lembro daquela piada: o sujeito está vendo aquela criança no palco, tocando violino desafinadamente. Do seu lado, na plateia, está um senhor chorando emocionado. Meio sem jeito, o sujeito pergunta: “Vejo que está chorando desde o início da apresentação. O senhor é pai dessa criança que está tocando violino?”. E o senhor responde: “Não! Sou músico!”.

Posso falar, já que tenho mais de 10 anos de experiência em apresentações escolares. Em suma, são dezenas de crianças andando de um lado para o outro, enquanto a professora tenta puxar uma dancinha – e acaba dançando sozinha. É, na verdade, uma apresentação da professora, em seu esforço hercúleo de fazer as crianças dançarem, enquanto seu filho de dois anos come meleca do próprio nariz.

Depois melhora. Minha filha mais velha fez uma apresentação musical anos atrás. Tudo corria conforme o planejado: as crianças todas desafinadas, o som apitando uma microfonia irritante, uma pobre professora tentando organizar as coisas na frente do palco. Até que uma pequena-prodígio entrou no palco. Disseram que toca piano desde os três anos, o pai é PhD em alguma coisa e a mãe é regente da orquestra tal.

Tocou um Franz Liszt que no final era todo mundo fungando e limpando as lágrimas com a manga. Chorei de deslumbramento com a beleza da música, e de pena da minha pequena, que desafina sempre que tenta tocar Asa Branca. Mas feliz por existirem crianças geniais. E feliz por saber que todas as crianças, na verdade, são extraordinárias.

Pude ver, então, a graciosidade com que uma criança canta uma letra de música errado. Como erram a coreografia de forma graciosa. Como tentam imitar os passos da professora em cada apresentação. Como estão milimetricamente desarrumadas. Como se apresentam de forma desastrada porque estão sempre olhando pros pais na plateia. Cheias de amor nos olhos.

Tivemos a sorte de ter filhos incrivelmente inteligentes, talentosos, eloquentes, carinhosos. A sorte de ter filhos brilhantes, crianças absolutamente fora do comum. Crianças extraordinárias. Exatamente como qualquer outra criança com a mesma idade delas.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015



24 de setembro de 2015 | N° 18304
ARTIGO -MARCELO RECH*

PORRES DE IRRESPONSABILIDADE


Um dos mais experientes observadores do Congresso, o ministro Eliseu Padilha diz que, nestes tempos em que lideranças não sabem com quem contar em seus partidos, “nem vaca reconhece bezerro”. Aliás, nem os eleitores, porque os parlamentos se transformaram em oceanos de irresponsabilidade assolados por vagalhões de contradições demagógicas. 

O bem comum foi para o brejo e deu lugar à disputa insana pelo poder. Desgastar os governos, mesmo às custas do suicídio coletivo de Estados e da União, passou a ser a palavra de ordem que move grande parte dos votos nos plenários.

Seja aumento de impostos ou contenção de despesas, linhas ideológicas que votam contra em Brasília votam a favor no Rio Grande do Sul, e vice-versa, porque identificam na presidente ou no governador um adversário a ser destruído, desmoralizado, arrasado sem piedade, mesmo que o desejo de sangue político leve a economia e o povo de roldão. Coerência zero. Com saudáveis exceções, os parlamentares desfilam para as arquibancadas neste Carnaval do populismo, distantes da maioria silenciosa que alimenta o rancor em casa e volta e meia o destampa em grandes manifestações.

Em democracias maduras, o parlamento fiscaliza e obstrui os gastos públicos. Cada proposta de despesa é esquadrinhada em comissões e espremida até ser derrubada ou finalmente seguir em frente. Os eleitores desses países valorizam quem defende seus impostos com ardor e rejeitam vendedores da ilusão de que dinheiro público jorra de uma fonte mágica. Em suma, em ambientes de responsabilidade fiscal, o Executivo tenta executar novos programas e gastar mais, enquanto os parlamentares se esforçam em travar desperdícios.

Por aqui, nem uma coisa, nem outra. Só agora, depois de exaurir as burras estatais em farras de reajustes, benesses e juros de dívidas contraí- das para pagar os reajustes, as benesses e mais dívidas, os governos federal e estaduais estão começando a acordar para a realidade do aqui se faz, aqui se paga. O porre de hoje é a ressaca de amanhã, mas os parlamentos ainda vivem embriagados pela noção de que perderão eleitorado se disserem não aos excessos. 

O resultado é que a classe política toda, com levianos e responsáveis misturados, acaba como alvo do rancor generalizado. Mas é preciso abrir o olho antes que seja tarde: os que aplaudem agora o extermínio de governos pela via da bancarrota não se levantarão depois para defender os parlamentos irresponsáveis.

*Jornalista do Grupo RBS marcelo.rech@gruporbs.com.br

24 de setembro de 2015 | N° 18304 
CARLOS GERBASE

POGRÉSSIO, POGRÉSSIO


No dia 23 de agosto de 2009, a população de Porto Alegre foi chamada para dar sua opinião sobre um projeto que propunha a construção de prédios comerciais e residenciais na área do antigo Estaleiro Só. O debate foi muito parecido com o que estamos tendo agora sobre o Cais Mauá: os que defendiam o projeto (e o SIM no plebiscito) falavam em revitalização, modernização e progresso. 

Os que pregavam o NÃO contra-atacavam com a desfiguração da orla, a substituição do público pelo privado e a poluição gerada por mais gente trabalhando e morando num local que deveria ser preservado para o lazer e para o contato com a natureza.

Eu, além de votar NÃO, produzi, ao lado de Luciana Tomasi e de muitos outros simpatizantes da causa ambientalista, um vídeo com nossa opinião sobre o projeto, agregando muitos apoios importantes, como os de Luis Fernando Verissimo, Cíntia Moscovich, Zoravia Bettiol e Moacyr Scliar. Espero ter contribuído, pelo menos um pouquinho, com a vitória do NÃO, que impediu (pelo menos até agora) que seis prédios imensos formassem uma barreira entre a população e o Guaíba.

Agora é o momento de perguntar: aquela luta foi uma boa luta? A inexistência desses prédios é chorada pela cidade? O terreno, que continua do jeito que estava há seis anos, é um monumento ao obscurantismo e ao discurso imobilista dos ecochatos? Cada um que pense como quiser. 

Na minha opinião, aquele terreno “abandonado” é uma vitória da cidade, que disse NÃO a um progresso que só se instalaria trazendo problemas muito maiores que seus supostos benefícios. A humanidade continua acreditando que construir coisas novas e supostamente úteis – como shoppings, escritórios e estacionamentos - é o único caminho a seguir.

Contudo, a ciência – e não obscurantismo – já provou que esse caminho não leva à salvação, e sim ao desastre. A cidade de Porto Alegre não precisa de um progresso que a descaracteriza arquitetonicamente e promove o desequilíbrio ecológico. Se isso é ser “contra o progresso”, muito bem, sou mesmo contra o progresso. Ou, como diriam os Demônios da Garoa: “Pogréssio, pogréssio. Eu sempre iscuitei falar, que o pogréssio vem do trabaio. Então amanhã cedo vou trabalhar. Se Deus quiser, mas Deus não quer!”.


24 de setembro de 2015 | N° 18304+ ECONOMIA | 
Marta Sfredo

DÓLAR SEM ÂNCORA


Só há uma certeza entre os estudiosos e operadores do mercado cambial: sem fatos novos, a tendência da moeda americana é só subir. E, dependendo das novidades, subir ainda mais. O mercado cambial está especulativo, e a cotação não tem âncora em acontecimentos reais ou expectativas prováveis. A incerteza é o combustível da decolagem, que tem sido diariamente reabastecido, ora por trapalhadas do governo ora por desatinos do Congresso.

Como ficou evidente ontem, quando ofereceu contratos novos que representam garantias contra a desvalorização futura do real e foi ignorado, o Banco Central tem pouco a fazer. Esse é o diagnóstico até de quem admite intervenções em momentos cruciais, como Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco, disse ao jornal Valor. O economista ainda comparou à “contabilidade criativa” a ideia de vender reservas internacionais do BC para reduzir a dívida bruta do país.

E enquanto o dólar testa novos patamares, começa a surgir um novo comportamento no mercado. Gustavo Candiota, da Câmbio Ideal, relata um fenômeno novo na empresa, que faz transações em moeda estrangeira desde para viajantes até para quem, no passado, comprava imóveis nos Estados Unidos.

Embora o mercado esteja comprador no atacado, no varejo está começando a aparecer, confirme o relato de Candiota, um número maior de pessoas vendendo dólares entesourados em casa há muito tempo.

– Não é um grande volume, mas o número de vendedores com esse perfil aumentou – relata.

Em certos casos, as cédulas são das décadas de 1980 e 1990, só aceitas nos Estados Unidos. A empresa compra, com deságio, mas a operação ainda é considerada vantajosa para quem vende. Candiota vê no rompimento dos R$ 4 um “divisor de águas” que vai demorar a retornar. Se retornar.

ESPANTAR O MEDO

Depois da prostração que dominou líderes empresariais com o aumento de ICMS na Assembleia Legislativa, agora a intenção é tocar em frente. Presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Porto Alegre, Gustavo Schifino (na foto, com a mão no queixo) ficou quase 12 horas nas galerias, chegou a vislumbrar a rejeição do projeto do governo, mas acabou frustrado.

– Fizemos o possível, sabíamos que ia ser apertado, mas a tese que prevaleceu não foi ‘o que o governo merece’, mas ‘o que o governo precisa’. Agora é chacoalhar a poeira e trabalhar – disse Schifino ontem, após “digerir” a decisão do Legislativo.

Líderes empresariais do Estado começam a traçar planos para o futuro imediato. O mais desenvolvido é uma campanha para articular um “pensamento mais positivo em relação ao atual momento” e amenizar o que enxergam como a exacerbação do medo entre a população, especialmente de Porto Alegre, ainda fruto de sucessivos episódios de violência e da disseminação de rumores em redes sociais. A ideia é tocar o projeto ainda em setembro.

O RECURSO DO PIRATINI PARA QUESTIONAR AS CONDIÇÕES DA DÍVIDA COM A UNIÃO SURPREENDERAM ESPECIALISTAS EM CONTRATOS NO ESTADO. UM DELES CONSIDEROU FRACOS OS ARGUMENTOS, PONDERANDO QUE NÃO SÃO JURÍDICOS OU ECONÔMICOS, MAS POLÍTICOS.

TEM NOVA unidade da Multisom em Porto Alegre, no Boulevard Assis Brasil. Vai se juntar à rede de mais de uma centena de lojas especializadas em eletrônicos, telefonia, informática e instrumentos musicais.

TRANSFORMADOR DE VOLTAGEM

Pode complicar de novo a situação da CEEE Distribuidora. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) põe em discussão hoje a reabertura da audiência pública sobre os critérios de extinção das concessões que já expiraram ou expiram neste ano. A CEEE-D opera desde 8 de julho em modo “acordo de cavalheiros”, sem contrato de concessão. A agência informou ontem o valor devolvido pelas concessionárias aos clientes como compensação por interrupções de energia acima do tolerável. No Estado, a AES Sul pagou R$ 6,8 milhões, a CEEE, R$ 5,7 milhões e a RGE, R$ 4,6 milhões.

PREÇO ANTICRISE

Começa a se difundir a noção de que, se com os preços atuais, as lojas estão vazias, promoções representam uma boa tentativa de voltar a enchê-las. O Iguatemi de Porto Alegre fez uma pesquisa que comprovou o que a observação indica: o consumo está focado em entretenimento. Para tentar equilibrar o jogo, criou um novo atrativo: a Liquida Casa, de hoje a 27 de setembro, com descontos em eletrodomésticos, cama, mesa, banho, decoração e linha branca.

PARA CONSTRUIR

Nem todos os indicadores pioram sem parar. O Termômetro do Varejo, índice mensal do Sindilojas Porto Alegre, detectou em agosto pequena alta de 0,4% nas vendas de material de construção, comparadas ao mesmo período do ano anterior. O segmento vem se mantendo ao longo do ano: de janeiro a agosto, há aumento de 0,2%.

Um dos mais afetados é o segmento de vestuário e calçados, que teve no mês passado nova queda de 1,5% em relação a agosto de 2014.


24 de setembro de 2015 | N° 18304 
L. F. VERISSIMO

Os mil anos


No ano de 585 antes de Cristo, Tales, da cidade de Mileto, uma colônia grega na atual Turquia, predisse que haveria um eclipse do sol – e acertou. Duzentos anos depois, Aristóteles diria que naquele momento nasciam a ciência e a filosofia gregas. Tales chegara a sua previsão não por poderes mágicos, mas pela observação do movimento dos astros, e o que ela revelava era que havia uma ordem até então insuspeitada no cosmo. Os egípcios já haviam feito um calendário baseado nas fases da Lua mais de 2 mil anos antes de Tales. A novidade da descoberta grega era a de dar o nome de ciência à curiosidade desenfreada e a especulações sobre a origem e o futuro do mundo na ordem cósmica recém revelada. 

Contemporâneos de Tales, como Anaximander e Anaximandes, tinham, cada um, sua teoria a respeito. A teoria do próprio Tales era de que a origem de tudo era uma única substância, a água. Não estava muito longe do que se sabe hoje, que a vida na Terra começou nos oceanos. De um jeito ou de outro, o eclipse previsto inaugurou uma nova maneira de pensar, baseada na observação e na lógica. E influenciou o debate sobre a convivência humana. Afinal, se a organização do universo era previsível, a organização da “polis” também poderia ser, se conduzida racionalmente.

A próxima observação astronômica consequente grega de que se tem notícia é a do filósofo ateniense Proclus no anno Domini 475 – quase mil anos depois de Tales de Mileto. Não sei o que Proclus descobriu ou deduziu dos seus astros. O importante não é Proclus, são os mil anos. O que aconteceu com o que Tales parecia estar inaugurando? Aconteceu que o irracional derrotou o racional. 

Os mil anos entre Tales e Proclus incluíram uma recaída grega na superstição e no misticismo e num embrutecimento da vida civil, muitas vezes oculto pela exaltação feita por outros filósofos das supostas virtudes democráticas de uma sociedade escravocrata em que as mulheres não tinham vez. Incluíram o começo do cristianismo e o crescimento do seu poder sobre vidas e mentes. E incluíram o começo da longa noite medieval, da qual o mundo só acordou, meio zonzo, com a publicação, em 1543, do De Revolutionibus, do Copérnico – outros mil anos depois de Proclus.

Às vezes, dá para pensar que chegamos perto do racional exemplificado por Tales e seus contemporâneos – afinal, conseguimos evitar a guerra nuclear, uma cura para o câncer é iminente e todo dia aparece um sabor novo de picolé – mas às vezes parece que estamos escorregando para mais mil anos de obscurantismo e estupidez. Né não?

quarta-feira, 23 de setembro de 2015



23 de setembro de 2015 | N° 18303 
MARTHA MEDEIROS

Amor bandido

Não encontro vocabulário que alcance a dimensão do que sinto. Tenho lido os jornais e também comentários diversos no Face, de todas as correntes. Nunca soube de tanto e nunca tive tantas dúvidas, o que me conforta: dúvida é esperança. Mas esperança de quê?

O único talento dos nossos políticos é o de transferir o poder entre si e o de se lixar para o bem público, que deveria ser o objetivo único. Nossos representantes, eleitos por nós, são tão miseráveis, que preenchem o próprio vazio com cargos. Até uma manchete divulgando que o cara está preso pode satisfazê-lo – antes isso do que o anonimato. Prisão domiciliar está sendo comemorada como uma Mega Sena. Indecentes, quase todos. Dou desconto para um Pedro Simon e outro.

Penso muito na Dilma, no ser humano por trás da presidente, em como deve ser o momento em que ela vai pra cama à noite. Imagino que pense antes de dormir: maldita hora em que venci a eleição, poderia estar hoje em posição privilegiada, apontando o dedo em vez de tê-los apontados pra mim. E Aécio, da mesma forma, antes de dormir deve agradecer a sorte de ter perdido. Logo eles trocarão de lugar e assumirão o discurso um do outro, e a pantomima seguirá. Não foi sempre assim?

Depois de Dilma, virá outro inconsequente. Alternância de partido muda quase nada. O que mudaria alguma coisa seria uma mentalidade incorruptível, estímulo à criatividade e total desapego ao poder. Mujica ainda foi o que de mais novo surgiu por aí, ao mostrar que nem todo governante se envaidece com a própria influência. 

O Brasil bem que tentou, deu seu voto de confiança a Lula anos atrás, e algumas coisas foram melhoradas, mas ela estava no caminho, a casca de banana em que tantos derrapam: a ganância. E lá se foi a ética pro espaço, permitindo a continuidade da velha troca de favores que não se interessa por projetos que beneficiem o povo a médio e longo prazos. Mantêm-se os projetos de interesse imediato, sem visão de futuro, que só sustentam o ego de alguns. O ego, sempre ele.

Infelizmente, ame-o ou deixe-o continua sendo o slogan perfeito pra nós, ainda que representativo de uma época nefasta. Como escolher? Nasci neste país que nunca atendeu a meus ideais, e não consigo deixá-lo e também não consigo amá-lo. Amar o Brasil é amor bandido, é ficar ao lado de quem provoca muita dor e só satisfaz minimamente. Seu lado bom (arte, natureza e o que mais mesmo?) alimenta o comodismo.

Então fico, ainda que a sensação seja a de estar num bote inflável, à deriva, sem saber para onde estou indo: que brasileiro, a esta altura, não possui alma de refugiado? Na beira da praia, em vez do corpo imóvel de um menino, vemos meninos fazendo arrastões: é diferente? É, mas nem tanto. Não existe situação vantajosa em meio a desgovernos.


23 de setembro de 2015 | N° 18303 
FÁBIO PRIKLADNICKI

OS TRÊS TENORES

Entre as minhas lembranças musicais de juventude, uma das mais marcantes é o CD do primeiro encontro dos Três Tenores na prateleira de discos dos meus pais. Muito celebrado na época, era daqueles álbuns que todo mundo comprava, assim como ocorreu, algum tempo antes, com uma coleção de LPs de música clássica da Abril cujos encartes apresentavam os compositores ao público em geral – lá em casa, tinha de Chopin, Beethoven e Tchaikovsky. Não subestimo a importância desses modismos. Foi através deles que comecei a escutar música de concerto e imagino que isso tenha ocorrido com muita gente.

O segredo é entregar um produto de qualidade, e isto os Três Tenores tinham de sobra. Deu tão certo que eles se reuniram novamente nas Copas de 1994, 1998 e 2002. Para quem quiser relembrar, o selo Decca está lançando um estojo comemorativo de 25 anos do show de 1990, que teve regência de Zubin Mehta, incluindo CD e DVD.

Foi um grande amigo, respeitável tenor, que me apresentou Nessun Dorma, presente no estojo em duas versões: uma com Pavarotti e outra dele acompanhado por Carreras e Plácido Domingo. Desde então, não consigo mais ouvir essa ária sem aguardar ansiosamente o momento do dó de peito, uma nota particularmente alta que não é para o bico de qualquer cantor.

Depois de uma sequência de grandes clássicos, o disco termina com pot-pourris de canções populares de diferentes países. Não há dúvida: os Três Tenores são pop. Foi com certa nostalgia que ouvi novamente a gravação, depois de muito tempo. Fico aqui admirando essas figuras cativando um público que talvez não ouvisse música clássica se não fosse por eles. 

Pavarotti virou inclusive título de um funk carioca. Claro que temos, hoje, artistas como David Garrett e 2Cellos, que atuam na seara do crossover, mas tenho dúvida de que levem seus fãs a ouvir música de concerto. Com suas auras estelares, Carreras, Domingo e Pavarotti têm uma mágica meio inexplicável.


23 de setembro de 2015 | N° 18303 
DAVID COIMBRA

Os sabotadores do Brasil

A ideia de que as maiorias têm poder é falsa, mesmo numa democracia.

As minorias mandam.

Minorias articuladas, naturalmente.


As maiorias querem viver em paz, não se mobilizam, salvo casos extremos, como na Revolução Francesa. Mesmo assim, a maioria dos cidadãos franceses se cansou do Terror que se seguiu à Revolução. Tanto que, poucos anos depois, um novo monarca arrancava a coroa das mãos do papa e coroava-se a si próprio na Notre-Dame de Paris.

Para se manter no poder e oprimir as maiorias, os grandes tiranos da História sempre se valeram de minorias organizadas e, em geral, violentas. Quando não fanatizadas.

A Revolução Russa foi desencadeada por um descontentamento geral parecido com o da Revolução Francesa, mas, como na Revolução Francesa, logo deixou a população exausta e desejosa da volta à suavidade da rotina dos dias. Os russos e demais povos agregados, assim, submeteram-se tristemente a um dos maiores carniceiros da História, o ditador de aço, Stálin. Processo semelhante ocorreu na China, no meio do século 20. Controlando alguns milhares, Mao matou milhões. Quando lhe perguntaram se lamentava o morticínio, respondeu que a China tinha uma população tão grande, que suportaria o sacrifício.

O poder das minorias sólidas é imenso. Hoje, 50 pessoas param Porto Alegre. Hoje, 300 deputados param o Brasil. 

A oposição é parte indispensável de uma democracia saudável. Mas não o tipo de oposição que se faz no país.

No Rio Grande do Sul, desde a semana passada havia uma minoria ansiando pelo confronto com a polícia, trabalhando pela promoção de cenas iguais às ocorridas no Paraná no começo do ano, quando a PM bateu nos professores. Queriam que gente saísse da Assembleia sangrando e gritando contra a truculência do governo repressor. Essa é a prática das oposições no Rio Grande do Sul, uma oposição que não se importa se o que está sendo feito é bem ou malfeito, porque para ela só importa que não seja feito.

O projeto de Sartori é bom ou ruim? Não sei. Não o analisei em profundidade para dizer. Mas posso dizer que os que foram para a Assembleia armados ou dispostos a “quebrar para entrar”, como gritavam ontem, foram, exatamente, para criar um “fato político” que expusesse o governo, o atrapalhasse e, de preferência, o paralisasse. A derrubada do projeto tornou-se quase irrelevante. Queriam desgastar o governo.

Assim em Brasília. O que os deputados federais, inclusive alguns da base governista, estão fazendo? Estão inviabilizando o país. Estão sabotando o Brasil. Chegaram a aprovar um aumento de 57% nos salários do Judiciário, um acréscimo de despesas de mais de R$ 100 bilhões em três anos, para anular a economia proposta por Levy. Que tipo de oposição é essa?

Todos os projetos de Dilma serão rejeitados. Todos. Porque são ruins? Não. Porque, para os opositores, é importante que Dilma não tenha outra saída que não a renúncia. Empresas estão falindo, trabalhadores estão sendo demitidos, os brasileiros estão sofrendo, mas isso não interessa para eles. Interessa é que Dilma se veja diante do impasse de ter de renunciar para que o país volte a funcionar. E é o que acabará acontecendo. Tudo pelo poder. Algumas minorias podres. É o que basta para apodrecer todo um país.



23 de setembro de 2015 | N° 18303 
FÁBIO PRIKLADNICKI

OS TRÊS TENORES

Entre as minhas lembranças musicais de juventude, uma das mais marcantes é o CD do primeiro encontro dos Três Tenores na prateleira de discos dos meus pais. Muito celebrado na época, era daqueles álbuns que todo mundo comprava, assim como ocorreu, algum tempo antes, com uma coleção de LPs de música clássica da Abril cujos encartes apresentavam os compositores ao público em geral – lá em casa, tinha de Chopin, Beethoven e Tchaikovsky. Não subestimo a importância desses modismos. Foi através deles que comecei a escutar música de concerto e imagino que isso tenha ocorrido com muita gente.

O segredo é entregar um produto de qualidade, e isto os Três Tenores tinham de sobra. Deu tão certo que eles se reuniram novamente nas Copas de 1994, 1998 e 2002. Para quem quiser relembrar, o selo Decca está lançando um estojo comemorativo de 25 anos do show de 1990, que teve regência de Zubin Mehta, incluindo CD e DVD.

Foi um grande amigo, respeitável tenor, que me apresentou Nessun Dorma, presente no estojo em duas versões: uma com Pavarotti e outra dele acompanhado por Carreras e Plácido Domingo. Desde então, não consigo mais ouvir essa ária sem aguardar ansiosamente o momento do dó de peito, uma nota particularmente alta que não é para o bico de qualquer cantor.

Depois de uma sequência de grandes clássicos, o disco termina com pot-pourris de canções populares de diferentes países. Não há dúvida: os Três Tenores são pop. Foi com certa nostalgia que ouvi novamente a gravação, depois de muito tempo. Fico aqui admirando essas figuras cativando um público que talvez não ouvisse música clássica se não fosse por eles. 

Pavarotti virou inclusive título de um funk carioca. Claro que temos, hoje, artistas como David Garrett e 2Cellos, que atuam na seara do crossover, mas tenho dúvida de que levem seus fãs a ouvir música de concerto. Com suas auras estelares, Carreras, Domingo e Pavarotti têm uma mágica meio inexplicável.



23 de setembro de 2015 | N° 18303 
MOISÉS MENDES

Náufragos


Conheci a casa-biblioteca-museu do historiador Péricles Azambuja em Santa Vitória do Palmar. Era um labirinto de livros, pastas e arquivos. Em 2003, ele me recebeu para falar da Antártica, sua paixão. Descobri que o melhor assunto eram os naufrágios. Azambuja sabia quase tudo dos navios afundados por perto do farol do Albardão.

Ganhei um livro dele, História das Terras e Mares do Chuí, e anotações com nomes de náufragos de todas as épocas, de toda parte da Europa. Me contou que muitos sobreviventes ficaram no Rio Grande do Sul, até porque poucos conseguiam voltar a Portugal, Espanha, Grécia, França. Perguntei se era possível encontrar descendentes deles no sul do Estado. Ele me disse: tente.

Com a lista de sobrenomes, passei a telefonar para moradores da região ao redor de Rio Grande. Os consultados não sabiam se o sobrenome era de um náufrago, ou se desculpavam como se dissessem: me deixa fora desta.

Não queriam aparecer no jornal como descendentes de marinheiros miseráveis extraviados, que ficaram aqui sem nada. Desisti da empreitada, e Azambuja morreu há dois anos.

Penso nos náufragos do Albardão e nos náufragos do Mediterrâneo e do Mar Egeu. Claro que são situações diferentes. Aqueles vinham atrás de ouro, prata e especiarias. Os náufragos de hoje fogem da morte. A Europa os rejeita não só por temer que tomem empregos escassos e usem serviços públicos. Eles podem aumentar a mistura que lhes amea- ça uma pretensa pureza de etnias e castas, além da propriedade, dos territórios e dos destinos.

Refugiados-náufragos são a pior categoria de migrante, segundo os racistas que contaminam a Europa. É o que também boa parte dos brasileiros pensa dos estrangeiros que continuam chegando aqui.

Nós, brancos, pardos ou mamelucos, somos todos descendentes de migrantes ou de navegantes extraviados, sempre consolados pela romantização das nossas origens. Nossos ancestrais, na visão mais lírica que nos protege, seriam gente sem defeitos.

Não somos descendentes dos sobreviventes do Albardão, mas nos constrange admitir que a maioria dos nossos velhos eram, pelos ainda vigentes enquadramentos econômico, social e moral, cidadãos de terceira classe. Eram homens e mulheres expulsos de onde viviam por serem os menos aptos.

Um caingangue pode nos olhar e dizer: vocês todos são descendentes de náufragos.

terça-feira, 22 de setembro de 2015




22 de setembro de 2015 | N° 18302 
CARPINEJAR

Como uma nota de três reais


Elogio, quando sempre, vira bajulação. Ternura, quando excedida, vira cinismo. Concordância, quando constante, vira sarcasmo. Aceitação, quando submissa, é indiferença.

Amizade é medida (já o amor é perder a medida). Percebo quem é falso pela ânsia de agradar a qualquer custo. É um torturador pelo afago. Alegria se transforma em histeria; a espontaneidade, em afetação.

Não é um contato natural, mas uma negociação: a impressão é de que o outro, que não para de me reverenciar, está vendendo algo que não sei, algo que não estou vendo. É muita simpatia para nada. É muita camaradagem gratuita. É esnobar com uma nota de R$ 3.

Mantenho um pé atrás com quem é abusivamente açucarado. Evito quem é dado ao léu, antes mesmo de estabelecer intimidade. Gritinhos no “oi” apressam o meu adeus. Diminutivos esgotam a minha paciência. Quem se aproxima querido demais falará mal de mim pelas costas. A traição está insinuada na atração artificial.

Não tenho dúvida. Acúmulo de gentileza é véspera de maldade, de oportunismo, próprio daquele que pretende enganar. Desconfio de quem chega com mimimi, só exaltando as minhas virtudes, concordando com os meus comentários. É característica de personalidade maquiavélica, porque me faz relaxar, confessar as dificuldades e abrir a guarda para tirar vantagem.

Não levo a sério quem carrega nos adjetivos, superfatura nas exclamações, endeusa nos cumprimentos. Amigo que se gosta vive se provocando. O que adula é um inimigo disfarçado.

Hipocrisia vem do exagero do perfume. O tipo busca dissimular a carência de banho com borrifadas, procura abafar a maldade e a inveja com o comportamento contrário. Temo mais a chuva de confetes do que os relâmpagos e dilúvios.

A afetação me põe ressabiado. Não aturo a fala dublada – a impressão é de que falta a opção do áudio original. Parece que a voz vem de um ventríloquo. Parece uma tia chata interpretando as vontades de um bebê.

A pessoa se comunica miando, ganindo, arrastando as vogais. Força empatia, ri sem nenhuma piada, é solene sem necessidade. Gente falsa é o mesmo que conversar com alguém fingindo o orgasmo em todo momento. Não tem como acreditar que algum dia será para valer.

Autenticidade implica alternância e até um certo mau-humor. Prefiro o ferrão ao mel.



22 de setembro de 2015 | N° 18302
GERMANO RIGOTTO

VISÕES DO RIO GRANDE


Com o propósito de contribuir para o debate sobre a retomada do desenvolvimento do Estado, ZH solicitou a lideranças empresariais, sindicais e políticas artigos analíticos e propositivos a partir da seguinte questão: O Rio Grande tem saída? Como? A série, iniciada em junho com opiniões de representantes de entidades empresariais, teve continuidade em julho com sindicalistas e lideranças classistas e em agosto com parlamentares. Em setembro, é a vez de governantes.

CONFIANÇA NO RIO GRANDE

O Rio Grande do Sul, desde o seu povoamento, demonstra vocação para o protagonismo. Somos um povo miscigenado, com fortes marcas culturais e uma impressionante capacidade empreendedora. Temos pendor para o desbravamento. O jeito peculiar do gaúcho conformou um ambiente diferenciado em educação, desenvolvimento e qualidade de vida. Nosso Estado, por muito tempo, destacou-se em todos os índices socioeconômicos.

Nas últimas décadas, entretanto, houve um gradativo deslocamento do eixo de crescimento do país. Com o esgotamento da nossa fronteira agrícola, o fluxo produtivo migrou para o Centro- Oeste, Norte e Nordeste. Nossa localização geográfica passou a ser mais custo e menos interface comercial. Assim como outros Estados mais antigos, acumulamos uma estrutura pública onerosa e pesada. A previdência, a arrecadação e a própria mobilidade estatal não alcançaram velocidade compatível com a modernidade. O custeio subiu desproporcionalmente.

Até o final da década de 1990, os governos contavam com artifícios como rendimento inflacionário, endividamento e venda de patrimônio. Tais condições desapareceram nas gestões seguintes. Em 1996, entrou em vigor a Lei Kandir. O que era para ser um estímulo às exportações se transformou numa penalização aos Estados com essa vocação. A compensação de perdas, acordada em 50%, hoje não passa de 17%. Em 1998, houve a renegociação da dívida com a União. 

Embora benéficas naquele momento, as condições contratuais foram se alterando sem uma respectiva atualização. O indexador de correção é, atualmente, maior do que o usual na iniciativa privada. E o percentual de comprometimento da receita com esse débito é exorbitante. A Lei de Responsabilidade Fiscal, de 2000, freou manobras adotadas até então.

Portanto, muitos dos problemas locais têm origem na crise federativa, tanto que diversos Estados enfrentam semelhante deterioração fiscal. Mas é verdade que nossa situação é mais emergencial. Falta de liquidez, isto é, dinheiro no caixa. Por isso que o governador José Ivo Sartori está correto ao propor um corajoso ajuste fiscal. Nada se consegue sem equilíbrio financeiro. Esse dever de casa é fundamental para se evitar o colapso dos serviços públicos, especialmente nas áreas mais essenciais. Mas é um processo que levará tempo. Não é um desafio apenas deste governo, mas do próprio Estado, que inclui todos os setores da sociedade.

Durante o nosso governo, a propósito, agimos com rigor no controle de cada centavo gasto pelo Executivo. Reduzimos secretarias, cargos de confiança, diárias, carros, telefones e supérfluos. Criamos a Nota Fiscal Eletrônica, a Certificação Digital, o Pregão Eletrônico e diversas iniciativas que deram maior transparência, controle e eficiência à operação da máquina pública. 

Também cuidamos da receita, mobilizando a economia tradicional e atraindo diversas empresas de inovação. Tivemos responsabilidade fiscal, mesmo enfrentando fortes estiagens, baixo preço das commodities agrícolas e o câmbio desvalorizado. Pagamos R$ 8 bilhões de contas passadas, não fizemos novas dívidas e investimos em áreas prioritárias.

Mas o equilíbrio financeiro é apenas o ponto de partida. O RS deve reforçar suas vocações produtivas tradicionais e apostar em novas matrizes, como a da tecnologia de informação. Esse pode ser nosso grande diferencial estratégico. Há muitas condições para fazer do Estado uma espécie de Vale do Silício da América Latina. Já somos um centro tecnológico importante do país. 

Temos polos que integram universidade, comunidade e governo. A localização geográfica tem menos impacto no mercado digital. E há grande demanda para produtos dessa natureza. Também precisamos avançar na opção pelas parcerias público-privadas e concessões, modelos capazes de angariar investimentos em infraestrutura.

A história já mostrou que não se pode, jamais, duvidar da capacidade de superação do povo gaúcho. Tenho convicção de que, arrumando a casa, fazendo a luta federativa, fortalecendo a economia tradicional, agregando mais valor à produção primária, investindo em novas matrizes e somando parcerias, vamos construir mais capítulos de um Estado vitorioso. Vejo o futuro do Rio Grande do Sul com confiança, firmada na união e na paz. É hora de estarmos juntos.


22 de setembro de 2015 | N° 18302 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

VOLTO SEMANA QUE VEM


Em algum tempo de nossa vida, chega o momento de viver a perda. O avô, um parente, um vizinho distante, ou alguém da nossa idade mesmo – pessoas morrem. E nem precisa muito freudismo para saber que é preciso fazer o luto das mortes para poder continuar vivendo com dignidade e, na boa hipótese, alguma alegria.

Fazer o luto: deixar aquela morte ocupar como uma cheia nosso coração e nossa vida, e então começar a emergir, percebendo, a preço tão mais alto quanto maior for nossa proximidade com o falecido, que nós não morremos junto com ele, e que vale a pena manter sua memória forte enquanto recompomos nossa sobrevida. (Quando perdi meu irmão, sete anos mais novo que eu, formulei para mim mesmo a frase que me acompanha até aqui e pelo jeito vai comigo para sempre: a vida é sempre o que sobrou.)

Assim é com os indivíduos, e mais ou menos assim acontece com agrupamentos humanos, as famílias ou as culturas. Precisamos deixar a perda acontecer plenamente, sem escondê-la nem escapar dela, porque a hora da verdade se imporá.

Essas reflexões aparentadas com a banalidade me ocorrem para sugerir ao prezado leitor a leitura de um luto, escrito em uma linguagem de grande qualidade e gentileza existencial, sempre ao lado da verdade necessária: o livro de memórias Volto Semana que Vem, de Maria Regina Pilla (Cosac Naify).

Livro pequeno, uma joia recente que se deve conhecer aos goles, na mesma levada discreta com que foi escrito. São retalhos da vida em Porto Alegre antes de 1970, com infância num idílico Partenon e juventude no fervilhante curso de Jornalismo na UFRGS, mais a militância política que conduz à prisão na Argentina e exílio na França. Vinte e dois anos depois da saída, a volta à terra natal, e outros 20 para gerar esse belo, sensível, essencial livro.


22 de setembro de 2015 | N° 18302 
DAVID COIMBRA

O Brasil sempre foi liberal


É verdade que você não pode comparar a gestão do Estado com a gestão de uma empresa. Uma empresa não tem de produzir bem-estar (a não ser que seja uma fábrica de cerveja!).

O Estado, sim.

Esta, aliás, é a principal função do Estado: dar aos cidadãos condições para que vivam em segurança, com justiça e com igualdade de oportunidades, para que possam alcançar o bem-estar social.

A gestão do Estado talvez deva ser comparada à de uma família. A função da família é parecida. Por isso, não se podem cobrar lucros do Estado ou da família. Até com pequenos prejuízos é possível que ambos sejam bem-sucedidos.

O problema é quando a suposta promoção do bem-estar se torna tão dispendiosa que afeta todo o funcionamento da organização gerenciada. Os provedores da família ou os governantes gastam tanto, que não lhes sobram recursos nem para o básico. A família passou as férias nas Ilhas Maldivas, gastando à grande com o dólar batendo nos R$ 4, e agora, na volta para casa, não há dinheiro nem para o supermercado.

Foi mais ou menos o que aconteceu com o Estado brasileiro. O governo gastou mais do que podia. Todo mundo sabe disso, todo mundo já sabia disso antes de 2015, isso foi algo discutido de sobejo e negado de sobejo pelo governo. Dilma é atrapalhada, tem seus defeitos, mas não é a única responsável por esta situação. Lula já vinha gastando prodigamente desde 2002. A cada ano, mais ministérios. A cada ano, mais funcionários. A cada ano, mais programas de bondades.

Então, fico pensando: que história é essa de “modelo neoliberal”? Quando é que o modelo econômico do Brasil não foi neoliberal? O modelo de Lula era igualzinho ao de Fernando Henrique, tanto que o famoso “Mercado” o elogiava por isso. Nunca os bancos ganharam tanto dinheiro. Nunca os empreiteiros ganharam tanto dinheiro. Nunca a indústria automobilística ganhou tanto dinheiro. Justamente a indústria automobilística, com a qual Lula negociava, quando sindicalista.

Brizola vivia dizendo que Lula e Fernando Henrique iriam “se acotovelar para implantar o modelo neoliberal”. E ele tinha razão. Se Brizola faria melhor, se outro modelo seria mais adequado, isso não sei. Mas sei que Lula e Fernando Henrique não foram muito diferentes, economicamente falando. O que aconteceu foi que Lula começou a gastar mais do que podia, e Dilma continuou gastando. Essa, a causa. Agora estamos vivendo as consequências.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015



21 de setembro de 2015 | N° 18301 
MARCELO CARNEIRO DA CUNHA

QUANDO OS PIORES AMAM


Gretchen e Jimmy são exemplares daqueles seres digamos humanos que não dão a mínima para os 10 mandamentos e para nenhum outro mandamento, ordem ou sugestão de boa conduta. Eles pisam sobre os mais fracos, mentem para levar vantagem, tiram moedas do cego da esquina e contam pras criancinhas que Papai Noel não existe. E, ainda assim, se amam. Esse foi o tema da primeira temporada de You’re the Worst, e a segunda acaba de estrear nos Estados Unidos.

Uma das vantagens de não se tentar parecer uma boa pessoa é a sinceridade que se pode praticar. Jimmy e Gretchen, essas péssimas almas, podem ser sinceros da forma que a maioria dos casais jamais poderia fazer. Eles acreditam um no outro, no sentido em que acreditam que o outro seja capaz das ações mais torpes, sem culpa. Assim, nada que o parceiro possa aprontar chega a ser uma surpresa ou desapontamento.

Jimmy e Gretchen são livres, no sentido em que não têm nada a perder ou a demonstrar que não a sua verdade, feiosa, mas verdadeira. Desse modo o amor deles pode realmente ser real, porque acontece entre duas pessoas que se entendem, se veem pelo que são, e não pelo que idealizam, e gostam do que veem, mesmo que isso produza arrepios em quem os assiste.

Eles são seres dessa época, desprovidos de muito calor, mas cheios de informação e referências. Eles sabem muito, Jimmy é escritor e culto, Gretchen é assessora de imagem de famosos, gente que consegue ser ainda pior do que ela. O que eles não sabem é o que fazer quando duas pessoas como eles dois acabam juntos. O que fazer com o outro quando se vivia muito feliz na companhia do próprio umbigo?

You’re the Worst é comédia das boas e não é tola, e você seria um sujeito inteligente se tentasse ver, quando e onde passar.

Fica a dica.


21 de setembro de 2015 | N° 18301 
DAVID COIMBRA

Lincoln, Zapata, César, Lênin e Pixuleco


Pixuleco sofreu grave atentado em Caxias do Sul, no fim de semana. Li essa notícia ontem. Você sabe quem é Pixuleco: é o boneco inflável gigante de Lula vestido de presidiário.

Um boneco de plástico esfaqueado furiosa e covardemente. É um fato que diz muito sobre nosso tempo e sobre como andam as coisas no Brasil.

Imagine que dois homens adultos, talvez até alfabetizados, saíram de casa armados com facas e com máscaras nos bolsos das calças. Ao chegarem ao centro da cidade, vestiram as máscaras, puxaram das facas e atacaram com ferocidade o boneco inflável, apunhalando-o como os senadores liderados por Brutus apunhalaram César aos pés da estátua de Pompeu, nos idos de março.

Segundo apurei, o boneco passa bem e sobreviverá. Mas, se consciência tivesse, certamente estaria preocupado. Há quem o ame, tanto que ele tem feito peregrinações pelo país, tornou-se personagem conhecido, virou notícia de jornal e sua reprodução aparece em eventos públicos, como o Rock in Rio. Mas também há quem o odeie de dentes rilhados. Não foi a primeira vez que o agrediram. Uma moça braba, integrante do famoso exército do Stédile, já o esfaqueou, d’outra feita.

Pixuleco está para o Brasil como Martin Luther King, Malcolm X, Lincoln e Kennedy estiveram para os Estados Unidos.

A vantagem dos admiradores de Pixuleco para os admiradores dos ídolos dos americanos é que, ainda que os soldados do exército de Stédile convocados por Lula, ainda que os guerrilheiros da CUT que ameaçam cavar trincheiras nas calçadas, ainda que os sequazes daquele deputado petista que disse que o impeachment será lavado com sangue, ainda que todos esses valentes se mobilizem para rasgar, queimar e fincar estacas no coração de Pixuleco, ele poderá ser construído de novo, igualzinho. Já vejo os defensores de Pixuleco bradando:

“Dos pedaços de um Pixuleco eliminado, mil outros nascerão!”

E Pixulecos se espalharão pelo Brasil do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte, conduzindo as massas a cantar, como cantavam os soldados que marchavam desde Marselha:

“Avante, filhos da Pátria! O dia da glória vos espera!”

E se o Brasil fosse rasgado por ferrovias, como agrada ao bom senso e desagrada à indústria automobilística, o Pixuleco seria nosso Lênin viajando rumo a alguma Estação Finlândia de Brasília e levando na bagagem a Revolução. Ou melhor ainda: poderíamos ter dois bonecos, o Pixuleco, do Lula, e a Pixuleca, da Dilma, um marchando do Norte e outro do Sul, como Pancho Villa e Emiliano Zapata fizeram no México, no começo do século 20. Atrás de Zapata e Villa, caminhavam os camponeses mexicanos, que eram como os sem-terra brasileiros, só que não profissionalizados, sem dinheiro do governo e sem apoio da Venezuela, eram apenas camponeses mesmo, homens que lidavam com arados e porcos, que se vestiam com pijamas brancos e marchavam debaixo de “sombreros”, entoando:

– Tierra! Tierra!

Sim. Seria melhor. Zapata é meu revolucionário preferido. Sempre cito um episódio ocorrido ao cabo dessa marcha, quando ele e Villa se encontraram na Cidade do México e tomaram o palácio do governo. Eles chegaram ao gabinete do presidente e decidiram posar para uma foto. Villa indicou para Zapata a cadeira de espaldar alto, a cadeira presidencial, e disse:

– Sente-se. Zapata, atrás de seu basto bigode, balançou a cabeça: – Sente-se você.

Pancho Villa se acomodou, e Zapata acomodou-se ao lado dele. A foto mostra os dois revolucionários lado a lado, com outros tantos ao redor. Villa está satisfeito, rindo, vitorioso, brejeiro, com um quepe militar na mão. Zapata não sorri. Tem o “sombrero” cobrindo o joelho e fita gravemente o fotógrafo com seus olhos de sanpaku. Parece antecipar o que ocorrerá mais tarde, quando desistirá da presidência e voltará para sua terra natal, Morelos, explicando sua decisão com uma única frase, sempre e sempre repetida:

“O poder corrompe”.