sexta-feira, 26 de maio de 2017

Jaime Cimenti

Sexo, futebol, política, religião e redes sociais 

Definitivamente, essas coisas de sexo, futebol, política, religião e outros bichos andam complicadas nas redes sociais. Estou até pensando em consultar a Célia Ribeiro, a Danuza Leão e a Gloria Kalil para saber como me comportar melhor na web. Não está fácil. Tenho 2.745 amigos no Facebook, mas não gostaria de ficar perdendo-os ou arrumando mais confusões do que as que já tenho e que não são poucas.Cheguei a pensar em dar um tempo fora das redes, tirar um período sabático ou, então, ficar só visualizando e lendo os conteúdos, sem me manifestar. Complicado. 

O que vou fazer é diminuir as horas com as redes, seja no iPhone, seja na tela do computador. Já nem sei mais quantas horas fico navegando. Nem pretendo contar, mas que é melhor diminuir, é.Esse negócio de informação, opinião, curtidas e comentários nas redes me lembrou o que aconteceu um tempo atrás no Boteco do Manuel, no Centro do Rio de Janeiro. Pois uns caras começaram a discutir e brigar por questões de política e o Manuel falou: aqui não se pode discutir política. Passaram uns minutos, flamenguistas e torcedores do Fluminense iniciaram um fla-flu verbal brabo. 

O Manuel interviu: aqui não se pode discutir futebol. Bom, aí o papo enveredou por questões de religião, terrorismo etc, e a coisa já estava acalorada quando Manuel determinou: não se discute religião aqui dentro. Aí o Zé Carlos, que já tinha tomado várias, olhou para o Manuel e disse: e de sexo, podemos falar? Sim, de sexo, sim, respondeu o Manuel. Aí o Zé Carlos lascou: então, Manuel, vá se f...Mas voltando à comunicação dita "fria", especialmente em grupos, é melhor ir com calma nesses temas polêmicos. Mais tranquilo ficar postando fotos de netos, filhos, familiares, gato, cachorrinho, vovó e vovô. Uns publicam fotos até de quartos de hospital. 

Só falta postarem fotos de cirurgias em andamento. Pessoas adoram fotos e não se ligam muito em textos, especialmente os "tijolões". Esses dias postei uma foto com minha mãe, no Parcão, no Dia das Mães - uns quatrocentos e cinquenta acharam uma gracinha, outros 50 e poucos fizeram doces comentários. Mãe é mãe.Fotos de bebês, crianças e adolescentes, bem como de animaizinhos, são um sucesso. As redes parecem até aquelas colunas sociais de pequenas cidades do interior, com fotos emocionantes e quase nada de texto para chatear. Pois é, principalmente num Estado gre-nal como o nosso, é complicado ficar comentando sobre política e futebol, em especial. 

Mas bem que a criatividade antes e depois dos jogos é até divertida nas redes. Está lá nas redes, tricolores experientes falando para os colorados: enquanto tu estás indo, já fui e voltei duas vezes.... Achei um pouco malvada essa mensagem: a casa do Collor caiu, a casa da Dilma caiu, a casa do Lula caiu, a casa do Temer caiu. Só a do Grêmio não caiu porque ele não tem... Achei a mensagem de gosto duvidoso e não fiquei espalhando, pois respeito os queridos coirmãos. 

O tricolor deve seguir forte, imortal, para que sigam as festas coloradas nos gre-nais... 

a propósito... 

Brincadeiras à parte, o certo é que todos precisam fazer um esforço para não desrespeitar os outros nas redes. Evidente que, se a pessoa espera um pouco para reagir a um comentário ou mensagem, melhor. Mas parece que todo mundo anda hipercinético, sanguíneo, respondendo na hora e aí as amizades acabam. 

Respeito é bom, todo mundo gosta, faz bem para a saúde e fortalece, muito, as amizades. Publicar fotos, informações ou fofocas de outros, sem autorização, melhor não. Enfim, delicadeza, educação, civilidade e velhas palavras como obrigado, desculpe e com licença cabem muito bem nas redes, onde a privacidade foi para o espaço. "Caiu na rede, é peixe", a gente dizia - agora diz: ajoelhou na rede, rezou! - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/05/colunas/livros/564131-comunismo-e-muitas-guerras.html)

Jaime Cimenti

Comunismo e muitas guerras 

A maldição de Stalin (Record, 558 páginas, tradução de Joubert de Oliveira Brizida) é um trabalho de fôlego sobre acontecimentos mundiais marcantes envolvendo o projeto de expansão comunista na Segunda Guerra Mundial e seus ecos para além da Guerra Fria. Robert Gellately, o autor, é professor de História da Cátedra Earl Ray Beck na Universidade Estadual da Flórida. Ele escreveu livros aclamados como Apoiando Hitler: consentimento e coerção na Alemanha Nazista e Lenin, Stalin e Hitler: a era da catástrofe social - ambos traduzidos para mais de vinte idiomas. 

Foram publicados no Brasil pela Editora Record. Jörg Baberowski, historiador alemão de renome internacional e professor de História da Europa Oriental na Humboldt University, escreveu que era plenamente possível que Stalin tenha sido ou se tornado um psicopata, que gostava de matar e achava que a violência era um fim em si mesma, sem importar ideologias ou motivos para isso. Gellately não chega a tanto. Entende que a ideologia marxista-leninista interpretada por Stalin orientava os homens dos altos escalões, além de inspirar outros muitos milhões. As interpretações de Stalin afetaram profundamente as políticas econômica, social, cultural e exterior do país, e a vida de cada cidadão foi transformada. 

Mais do que mero terror, as políticas de Stalin dominaram a União Soviética e a Europa Oriental por décadas em países como a China. Depois da morte de Stalin, durante quarenta anos a União Soviética seguiu suas diretrizes. Líderes soviéticos e elites governantes continuavam a articular suas posições em grande parte na linha stalinista, até a edificação do outrora poderoso Império Vermelho ruir por completo. 

Com base em numerosos documentos originais russos e outras fontes do Leste Europeu, liderados após o fim da União Soviética, além de muitos outros documentos alemães, americanos e ingleses, o historiador best-seller Robert Gellately delineou as origens dessa influência desde o seu período de incubação, durante os primeiros dias da Segunda Guerra, até a morte de Stalin, em 1955 e examina profundamente muitos aspectos do ditador, que queria espalhar o comunismo pelo mundo. O trabalho de Gellately é importante, na medida em que, mesmo em nosso mundo do século XXI, ditadores de vários matizes seguem infernizando a vida de milhões de pessoas, em várias partes do planeta. 

O culto à personalidade, o uso da violência e as ideias de dominação de Stalin estão bem narradas e estudadas por Gellately. 

lançamentos 

Autoestima (Edição do autor, 252 páginas), do psiquiatra e neurocientista Diogo Lara, é um romance que narra como a protagonista recuperou sua autoestima, usando técnicas e não remédios. Mostra como o excesso de sensibilidade emocional à críticas, rejeição e necessidade de agradar a todos estão ligados à autoestima. Xadalu - Movimento urbano (Joner Produções, 140 páginas), organizado por Adauany Zimovski, Carla Joner e Dione Martins, tem textos de Dione, Adauany, Vitor Mesquita, Francisco Dalcol, André Venzon e Patrícia Ferreira sobre o artista Xadalu. Arte urbana, Toniolo e temáticas indígenas em fotos em cores e em preto e branco. Diálogos (Editora Metamorfose,130 páginas), organizado e editado pelo escritor e ministrante de oficinas literárias Marcelo Spalding, apresenta 24 contos em forma de diálogos, de autoria dos oficineiros da Metamorfose Cursos. 

Obra onde até a apresentação é em diálogos, prima pela singularidade. - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/05/colunas/livros/564131-comunismo-e-muitas-guerras.html)


26/05/2017  02h10   
ricardo araújo pereira 

Fui ao mercado comprar silêncio

Quando se suspeitou que o presidente do Brasil teria tentado comprar o silêncio de outra pessoa fiquei fascinado com a ideia. Que coisa linda: comprar silêncio. 

A corrupção costuma ser bastante prosaica, mas há qualquer coisa indesmentivelmente poética em comprar silêncio. Se for verdade, parece que Michel Temer é a voz que fala num poema de Manoel de Barros. Foi aí que me indignei. Detesto injustiça. 

Quando Manoel de Barros começa um poema dizendo "Difícil fotografar o silêncio. / Entretanto tentei", toda a gente acha bonito. Mas quando se supõe que Temer pretende comprar silêncio, o caso sai nas primeiras páginas como se fosse escandaloso. No entanto, trata-se da mesma operação poética. 

Ambos desejam apropriar-se da quietude, captar o impossível. Ambos tentam dominar o absoluto com um recurso mundano, e em ambos convive uma aspiração divina com uma inabilidade humana. 

Pois um ganha o prêmio Jabuti e outro arrisca perder a presidência. 

Por sorte de Manoel de Barros e azar de Temer, os críticos literários desconhecem a lei e os juízes do Supremo não sabem nada de literatura. 

Como pai de duas crianças, não posso evitar uma empatia enorme pela hipotética intenção de Michel Temer. Quantas vezes, quando estou a tentar ler um livro ou assistir a um filme, não me apeteceu comprar silêncio? Conheço bem esse desespero. 

E como cidadão que precisa de trabalhar para viver, confesso inveja de Eduardo Cunha: enquanto sou pago para falar, ele recebe para estar calado. Que o meu talento para guardar silêncio nunca tenha sido descoberto é das grandes tragédias da minha vida. Com o incentivo adequado, eu também encantaria o mundo com o meu mutismo. 

Uma das ironias do caso é o fato de Temer ter sido alegadamente gravado a pedir silêncio. A confirmar-se, é mais uma prova de que o ruído desarranja a nossa vida. Verbalizar a compra de silêncio é uma infeliz fraqueza, uma contradição fatal –e uma lição para todos: antes de adquirir o silêncio do outro, tratemos de garantir o nosso. A outra ironia é que Eduardo Cunha ainda receba pelo silêncio. 

Todo o mundo simpatiza mais com Cunha quando ele está calado. Pagar-lhe para se calar não seria corrupção: seria mecenato.



26/05/2017  02h00  
vinicius torres freire 
   
Eleição 2017: mais nomes que programas
  
POLÍTICA POLITIQUEIRA é discussão de quem vai mandar e quem vai levar o quê. Mas governo não se faz assim, apenas. 

Nestes dias de transição transada no caos, ainda sabe-se mais das discussões do arranjo do governo pós-Temer do que dos meios de evitar bagunça econômica que tende a complicar o mandato do presidente de 2019. 

Nesta quinta (25), os tucanos maiores discutiram em São Paulo nomes para a chapa das indiretas e conversavam com donos do dinheiro. O tucanato paulista não quer que o presidente indireto dispute as diretas de 2018. Até agora, conversa-se quase nada a respeito de como evitar o esboroamento da economia. 

Saiu-se, por exemplo, com a ideia de lançar o senador Tasso Jereissati para presidente, com o homem dos Três Poderes, Nelson Jobim, como vice ou, mais provável, ministro da Justiça. 

Jobim foi ministro do STF, deputado e ministro de Lula e FHC. Conversa bem com a elite econômica, com dissidências do PMDB e com o PT. 

Muita gente no Congresso, graúda e miúda, vê Jobim como um possível negociador de um acordão que separe os políticos entre podres e recuperáveis, o grande articulador de um arranjo qualquer de anistia, como aquele que alivia a pena para "mero" caixa dois. Não quer dizer que ele seja assim. Mas parte do eleitorado das indiretas o vê dessa maneira. 

Sabe-se algo sobre como vai ficar a administração da economia? Henrique Meirelles poderia ficar no cargo, em vez do por ora rumor Armínio Fraga, dizem. Mas o buraco é mais em baixo; os tucanos sabem disso. 

Há duas questões essenciais nessa transição transada bananeira. 

Primeiro, como fica a reforma previdenciária e a contenção geral de deficit e dívida. 

Segundo, o presidenciável das indiretas terá de discutir algum jeitinho para aliviar o futuro penal do núcleo do governo Temer e um jeitão de atenuar as penas dos pendurados na Lava Jato. É quase um quinto do Congresso, fora os que ainda vão rodar; é esse o eleitorado que vai escolher o próximo presidente. 

Sem reforma da Previdência, as contas de cobrir o deficit e rolar a dívida do governo vão ficar mais caras. Não arrebenta necessariamente uma recuperação econômica miúda no ano que vem, por exemplo. Mas, sem reforma agora, se coloca na sala da campanha de 2018 ou do governo de 2019 uma manada de rinocerontes. 

Primeiro, o país iria para a campanha em crise social feia, com baixo crescimento, depois de quatro anos de recuo do PIB per capita. Segundo, o governo estará em uma pindaíba letal. Será preciso aprovar um pacotão de impostos E reforma previdenciária. Será preciso amargar a pílula. 

Caso proponha reformas na campanha eleitoral, o candidato a presidente terá chances reduzidas de vencer. 

Caso aceite reformas, mas escamoteie o assunto, haverá estelionato eleitoral em 2019, como em 2015, com os efeitos conhecidos, mais ou menos piores. 

Caso se eleja um candidato contrário a mudanças, vamos pelo menos para uma longa estagnação econômica. 

Quede o programa para a eleição 2017? 

Ah, convém não esquecer: é preciso que Temer caia. As articulações para cassar a chapa Dilma-Temer 2014 no TSE mal começaram. Depois, é preciso que o Supremo seja convencido, digamos, a derrubar os recursos de Temer. 


26/05/2017  02h00  
claudia costin 

Aprender com os erros nos permitirá reconstruir o país
  
As incertezas que vivemos no Brasil não nos permitem olhar com complacência para os erros cometidos pelos dois lados em que se divide este nosso polarizado país. Esses erros comprometem não apenas a credibilidade de nossas jovens instituições como os recursos disponíveis para a educação das futuras gerações. 

Parte importante dos erros advém de heranças históricas e de um modelo de campanhas eleitorais extremamente caras e com mecanismos de financiamento bastante obscuros. Certamente, os responsáveis por erros devem ser responsabilizados, mas temos que diminuir os incentivos para que tais descalabros aconteçam, olhar com coragem para o que agora é iluminado e corrigir. 

Houve oportunidades de aperfeiçoar o sistema político e os legisladores continuamente postergaram as chances de aperfeiçoar a democracia, muitas vezes por interesses escusos. Há uma omissão perversa de parlamentares que apenderam a navegar no mar escuro das nossas regras políticas e não pretendem construir outros aprendizados. 

Ora, erros são oportunidades únicas. Um bom professor sabe que, quando um aluno erra, em vez de imediatamente corrigi-lo, vale a pena gastar um pouco de tempo trazendo à luz o seu raciocínio equivocado e refletir com os estudantes sobre como aperfeiçoar a abordagem. Para ensinar a pensar matematicamente ou até para incentivar alunos a inovar e ter abertura para novas experiências, por exemplo, nada como debater diferentes hipóteses que os alunos apresentam e ensiná-los a entender os pressupostos que estão por trás delas. 

Na construção de um país, guardadas as proporções, isso igualmente faz sentido. Grandes homens e mulheres erram e devem responder pelo mal causado, mas o país pode aprender com os erros cometidos. Alguns dos autores desses mesmos erros foram grandes justamente porque perceberam o equívoco, souberam mudar políticas e práticas e isso fez toda a diferença. 

Mas, infelizmente, essa prática é rara entre nós. Erros são escondidos debaixo do tapete ou associados a críticas consideradas descabidas no grande flá-flu que se tornou nossa política, retirando de nós, assim, a oportunidade de aprender com eles. 

A vantagem do cenário atual é que o tempo escancarou os principais erros cometidos por parlamentares, governantes e grandes empresários. Há uma oportunidade única de aprendermos de forma profunda com eles e de corrigir uma realidade que poderá destruir não apenas o presente mas o futuro do país. 

Não podemos desperdiçar essa chance, temos que punir quem errou e construir regras mais adequadas para uma democracia mais sólida, transparente e madura. O Brasil merece!


26/05/2017  02h00   
hélio schwartsman 

Eu prendo e arrebento



SÃO PAULO - Exceto pelo marketing pessoal —aquela vontade incontida de dizer "eu acabei com a cracolândia"—, não dá para encontrar um único ângulo sob o qual as ações do prefeito João Doria (PSDB) em relação aos usuários de crack no centro de São Paulo façam sentido. 

Do ponto de vista do direito, parece absurda a ideia de buscar uma autorização judicial prévia que autorize policiais ou servidores municipais a recolher à força qualquer pessoa que julguem ser um dependente de drogas e submetê-la a avaliação médica para eventual internação compulsória. Uma medida dessa natureza atropela não só a lei como os mais elementares direitos e garantias individuais, além de evocar alguns dos piores momentos da humanidade no que diz respeito à utilização abusiva do poder do Estado. 

Em termos médicos as atitudes da prefeitura não são menos inquietantes. Os consensos psiquiátricos são unânimes em estabelecer que o tratamento para abuso de drogas deve ser primordialmente ambulatorial. Internações devem ser reservadas a casos excepcionais e com a anuência do paciente. É só no curso de um surto psicótico ou diante de perigo iminente para si ou terceiros que o doente pode, após criteriosa avaliação médica, ser contido à força, e ainda assim apenas enquanto durar o estado de desconexão com a realidade. 

Os métodos utilizados por Doria também são questionáveis. Há indícios de que ele já planejava a ação espalhafatosa ao mesmo tempo em que ainda assegurava a parceiros no Projeto Redenção como Ministério Público, Defensoria e conselhos profissionais que não haveria um "Dia D" —o que não deixa de dizer algo sobre a confiabilidade do prefeito. 

Mesmo se considerarmos a investida dorista apenas do ponto de vista do marketing, houve erros de execução que limitam sua eficácia. Afinal, não pega bem ordenar a demolição de casas com gente dentro, mesmo que sejam só usuários de crack.

quinta-feira, 25 de maio de 2017


24/05/2017  16h13  
DE SÃO PAULO 

BNDES e Caixa perderam R$ 3,4 bi com queda de ações da JBS, diz estudo

A queda de 42,9% das ações da JBS no ano representou perda de R$ 3,45 bilhões para o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e para a Caixa Econômica Federal, de acordo com estudo da empresa de serviços financeiros Economatica publicado nesta quarta-feira (24). 

A Economatica usou no levantamento formulários de referência da empresa. 

O estudo mostra a evolução da participação de BNDES e Caixa na JBS desde 2007. A fatia combinada de ambos na empresa de Joesley Batista aumentou de 12,95% em 2007 para 26,24% neste ano. 

A Economatica aponta ainda que o BNDES tinha, em 2016, participação direta em 28 empresas, totalizando R$ 53,7 bilhões. Na última terça-feira (23), esse valor recuou para R$ 48,5 bilhões. 

A maior perda do BNDES foi com a JBS, com queda de R$ 2,8 bilhões. A segunda maior perda do banco, de R$ 2,5 bilhões, é com a Petrobras. Em terceiro vem a Eletrobras, com perda de R$ 1,5 bilhão. A soma da participação do BNDES nas três empresas é de R$ 6,93 bilhões, ou 19,4% do capital. 

Já a Caixa Econômica Federal tem participação em cinco empresas listadas em Bolsa. A maior queda de investimentos do banco público em valor de mercado também foi na JBS, com queda de R$ 647,4 milhões. A segunda maior queda é com Petrobras, com perda de R$ 614,6 milhões. 

No ano, BNDES e Caixa têm perda conjunta de R$ 8,27 bilhões até 23 de maio com JBS, Petrobras e Eletrobras.


24/05/2017  02h00  
marcelo coelho 

Sem vozes divergentes, Globo embarca em precipitações no caso Temer

Por essa os adversários de Michel Temer não contavam. Veio da Rede Globo o noticiário que torna praticamente inviáveis as reformas liberais de seu governo.

Surgem algumas tentativas de explicação. No mesmo dia da denúncia, alguém no Facebook postava que o propósito da Globo era tirar Temer para... fortalecer Aécio Neves!

Como o senador tucano resistiu menos ainda às notícias, há quem elabore uma nova teoria. Sabendo que Michel Temer não tem popularidade para fazer mudanças na Previdência, a poderosa emissora resolveu sacá-lo do Planalto para eleger a ministra Cármen Lúcia, do STF.

Faz-se qualquer raciocínio, como se vê, para evitar uma admissão bastante simples: a Globo trouxe alegrias à esquerda, e promoveu para Lula e Dilma uma vingança com que eles jamais poderiam ter sonhado.

Não acho que seja por fanatismo toda essa má vontade com a Globo. Seria, sobretudo, um hábito mental.

Desde a campanha pelas Diretas-Já, em 1984, a Globo deu sinais de se recusar a perceber a realidade. Houve o caso Proconsult, em que a divulgação de resultados eleitorais incompletos ocultava a iminente vitória de Leonel Brizola no governo do Rio, em 1984.

Veio a invenção de Fernando Collor e a escolha seletiva dos trechos de seu último debate com Lula.

Falar mal da Globo se tornou, desse modo, uma reação automática diante de qualquer notícia que prejudicasse a esquerda e o PT; havia razões para isso, naquele tempo.

Desde o mensalão, os simpatizantes de Lula ajustaram um pouco sua tática. São raras as afirmações de que o escândalo foi totalmente inventado. Prefere-se dizer, por exemplo, que "nunca houve mensalão" porque as doações a deputados não eram mensais...

Ou, mais frequentemente, diz-se que todos os partidos cometem irregularidades, e que a "mídia" escolhe apenas as do PT para denunciar.

E agora? Em intensidade e concentração no tempo, os ataques a Temer e Aécio foram piores do que qualquer coisa já feita pela Globo.

Não me convencem as teorias conspiratórias. Talvez o fenômeno a identificar seja menos diabólico, mas ainda assim preocupa.

O noticiário sobre corrupção se alimenta diretamente do Ministério Público e da Polícia Federal. É difícil para os repórteres investigativos entrar em competição com um grande contingente de investigadores. Ademais, não contam com a ajuda da delação premiada.

Sobrevém então a lógica do "furo jornalístico". Se um órgão de imprensa ou emissora de TV consegue acesso exclusivo a uma informação, terá muita pressa em divulgá-la antes da concorrência.

Não digo que jornalistas de grandes veículos aceitem qualquer informação sem checagem. A excitação diante da notícia sensacional pode entretanto diminuir sua cautela.

No caso da carne contaminada, vimos isso acontecer. A Polícia Federal fez tamanho escarcéu com sua operação a respeito de propinas de frigoríficos que, por um dia ao menos, o noticiário nacional deu a entender que estaríamos intoxicados na primeira fatia de churrasco.

Por 24 horas, igualmente, a Rede Globo noticiou a conversa entre Temer e Joesley Batista, ressaltando que o "tem que continuar" era uma autorização para comprar o silêncio de Eduardo Cunha.

Ninguém tinha ouvido a gravação. Foi, a meu ver, uma irresponsabilidade. Seguiu-se, sem avaliação própria, a interpretação dada pelas autoridades, como se não houvesse qualquer dúvida possível.

Tudo seria melhor se a Globo tivesse outro estilo, e outros padrões, na apresentação de seu noticiário –e nisso as tradicionais críticas da esquerda à emissora fazem sentido.

Assisti à GloboNews naquele dia. Como todos sabem, a emissora conta com um excelente grupo de jornalistas e comentaristas, muitos deles antigos colegas aqui da Folha.

O problema é que não havia uma visão divergente. Seis profissionais muito competentes "passam a bola", como eles dizem, uns aos outros, mas o jogo se assemelha a uma cobrança de pênaltis sem goleiro.

A regra se repete em muitos programas de debates, em que os convidados para falar sobre a crise política se dividem (não exagero demais) em tucanos de esquerda, tucanos de centro e tucanos de direita. Raro o programa (penso em Mario Sergio Conti) em que simpatizantes do "outro lado" são chamados a se manifestar.

O resultado, por mais que a Globo não seja nem de longe parecida com o que era há 30 anos, é indesejável. Talvez se ache que muita divergência confunde o espectador; quer comunicar-se com clareza, sem relativizar as coisas. Mas também quem comunica se trumbica.


25/05/2017  02h00 
vinicius torres freire 

   
Temer, dinheiro e o gato que caça ratos
  
NEM AS TAXAS de juros parecem apoiar Michel Temer. 

Os preços do mercado financeiro tomaram um tombo no dia seguinte ao escândalo de todas as fitas do presidente, mas deram uma levantadinha e até se equilibram. O povo das finanças acredita que há chance razoável de que tudo pode mudar para continuar na mesma. 

Vão tarde os dedos agitados das mãos de Temer, ficam os anéis das "reformas", essa é a esperança. Não há risco de luto pelo presidente. Nem mesmo as associações empresariais mais políticas, em todos os sentidos da palavra, defenderam Temer em manifestos públicos. 

Importa preservar o plano econômico, não importa o gato, desde que cace ratos e não provoque novos escândalos tumultuários. 

Isto é, na hipótese ainda verde-dólar e rósea da média do "mercado", Temer pode cair nos dias em torno do 6 de junho em que o TSE pode cassar a chama Dilma-Temer 2014. Em seguida, assumiria quase a mesma coalizão política, parlamentar e econômica que tocava o plano de estabilização e de reformas. 

Esses são os traços estilizados do broto de otimismo de gente que negocia dinheiro. Mais importante que palavras, é o que indica a recuperação modesta do preço dos ativos financeiros. É, claro, uma aposta, mas também o desejo de qualquer empresário que se entreviste por aí. 

Há revolta grande e muda contra os efeitos dos rolos de Temer, a possibilidade de recaída na recessão, o que não significa apreço pelo presidente, ao menos na prática, no que diz respeito aos aspectos materiais da situação. Mesmo que se lamente a bananização institucional do país. 

Quase ninguém ficaria incomodado caso o presidente ficasse na cadeira e tudo continuasse como dantes, "reformas" sendo tocadas, o que se reconhece improvável. 

Há sempre receio de que a confusão possa descer às ruas, tomar rumos imprevistos, por exemplo. O quebra-quebra em Brasília não bastou para afetar os preços na praça do mercado, porém. Não há ninguém risonho e franco na praça, convém ressaltar. Mas as várias desordens do país, institucionais ou badernas de rua, não bastaram para o pessoal se desfazer da sua tese de investimento da hora, digamos. 

A Bolsa está no nível mais alto desde o rolo dos grampos de Temer, apesar de ainda em baixa de mais de 6%. Uma taxa de juros de relevante no mercado futuro deu um salto de 1,3 ponto percentual, para 10,09% (taxa para um ano), na quinta (18), uma enormidade algo surtada. Recuou para um tico abaixo de 9,5% nesta quarta (24). 

Ainda ruim, decerto. É um repique de juros que desfaz quase dois meses de trabalho baixista do Banco Central. Mas sinal de que não se vê degringolada adiante, apesar da percepção agora maior de risco de que as coisas vão para o vinagre. 

Se o cenário rosa vai se confirmar, são outros quinhentos dólares. É preciso negociar com cuidado a transição (ou não) de Temer e anistias para seu grupo, mas também a reorganização improvável do bloco reformista. 

Depois das conversas em Brasília, de domingo até ontem, políticos começam a "visitar as bases". Vão conversar mais com o restante da cúpula do país, Justiça, donos de empresa, organizações da sociedade civil ou equivalentes. 

O acordão pacificador mal começou.


25/05/2017  02h00  
bernardo mello franco  
  
Brasília em chamas 

BRASÍLIA - A crise que emparedou o governo atingiu um novo patamar nesta quarta. O primeiro grande protesto pela saída de Michel Temer se transformou em batalha campal na Esplanada. Com Brasília em chamas, o presidente fez uma aposta arriscada e pôs o Exército na rua. A medida acirrou os ânimos no Congresso, onde voltou a haver tumulto e gritaria por renúncia ou impeachment. 

O confronto entre manifestantes e a PM se estendeu por quase quatro horas. Militantes depredaram prédios públicos, e policiais atiraram com armas letais, em flagrante de uso desproporcional da força. 

A tensão transbordou para o Congresso, onde a ordem do Planalto era manter "clima de normalidade". Sob pressão, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, suspendeu as votações e pediu reforço na segurança externa. Essa foi a senha para a tentativa de contra-ataque do governo. 

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, discursou contra a "baderna" e disse ter convocado o Exército a pedido de Maia. O plenário voltou a ferver, e o deputado desmentiu o ministro: só havia solicitado a presença da Força Nacional de Segurança. 

O apelo aos militares criou novas arestas para Temer. Além de irritar seu principal aliado no Congresso, a medida motivou protestos da oposição, do governador de Brasília e de um ministro do STF, que criticou a ideia em plena sessão de julgamento. 

Até senadores que votaram a favor do impeachment de Dilma Rousseff engrossaram o coro. "O presidente Temer está cometendo uma insensatez", lamentou Cristovam Buarque. Para outros políticos, o Exército na Esplanada evocou memórias da ditadura, como a repressão ao povo durante a votação das Diretas, em 1984. 

Ao recorrer aos militares, Temer pode recuperar algum apoio entre setores de ultradireita que sonham com uma saída autoritária. Ao mesmo tempo, ele demonstra sua fragilidade. "Não serão as Forças Armadas que vão sustentar este governo", debochou o ex-aliado Renan Calheiros.



25/05/2017  02h00
editorial 

Acordo açodado

A mais fulminante sequência de denúncias de que se tem notícia, no extenso rol de revelações da Lava Jato, trouxe consigo um efeito colateral preocupante e, em boa medida, imprevisto pelos tantos que se entusiasmaram com o andamento das investigações. 

Os termos em que se deu o acordo de delação premiada com os donos da JBS, conhecidos nos últimos dias, direcionaram ao Ministério Público parte das indignações que suscitam as atitudes dos suspeitos de corrupção. 

Com efeito, é de estranhar que tenha resultado tão vantajosa, para os irmãos Joesley e Wesley Batista, sua disposição de colaborar com as autoridades. 

Parece alto, sem dúvida, o valor do que ofertaram em troca —e este é o argumento básico da Procuradoria-Geral da República em defesa do acerto. São acusações envolvendo mais de 1.800 candidatos a cargos eletivos e, sobretudo, o registro de uma conversa, entre embaraçosa e comprometedora, com o presidente da República. 

Houve, ainda, cobrança de multa —que, embora de dimensões bilionárias, não chega a representar prejuízo severo para os envolvidos. 

Tudo considerado, sobressai a sensação de que os delatores desfrutaram, afinal, de uma injustificável benevolência graças às informações que transmitiram, ainda por serem confirmadas. 

Foi-lhes autorizado permanecer no comando da empresa —o que, pelo raciocínio vigente em outras decisões da Lava Jato, poderia significar vista grossa à eventual continuidade de seus atos delitivos. 

A Joesley assegurou-se o direito de permanecer nos EUA, sem sofrer embaraços por tudo o que confessadamente urdiu contra a sociedade brasileira. 

O mecanismo da delação premiada deve, naturalmente, corresponder ao nome —admitindo sensível redução das penas previstas. O prêmio, todavia, não pode chegar à quase impunidade. 

Importa investigar, ademais, os indícios de que o grupo JBS teria alcançado lucros especulativos graças ao impacto das delações. Seria somar a provocação à sem-cerimônia, o cinismo ao insulto. 

Colhe-se, de todo o episódio, uma impressão de açodamento, em contraste com os meses consumidos na tomada dos depoimentos de dirigentes da Odebrecht. 

Em seguida, por iniciativa do Supremo Tribunal Federal, vem a público o conteúdo de milhares de conversas particulares, sem real pertinência para as investigações. 

Foi o que se fez, em flagrante violação ao princípio constitucional do sigilo da fonte, com os telefonemas entre o jornalista Reinaldo Azevedo e uma das acusadas. 

Conseguiu-se assim ampliar o sentimento —já presente em outras ocasiões— de que as autoridades cedem às tentações do arbítrio, da onipotência e da precipitação. 

quarta-feira, 24 de maio de 2017


24 de maio de 2017 | N° 18853 
MARTHA MEDEIROS

  • Ilustre é o livro

    Estava aqui pensando no que me faz gostar tanto dos filmes argentinos. Acho que tem a ver com a sobriedade estética e a ausência de artifícios sedutores: esta “secura” casa bem com o humor nonsense. Tudo parece tão real que o atrevimento de levar algumas bizarrices adiante não parece alegórico, e sim perfeitamente aceitável e divertido. Inevitável lembrar o hilário Relatos Selvagens, mas hoje falo de O Cidadão Ilustre, com o excelente ator Oscar Martínez entrando numa roubada atrás da outra e saindo por cima: foi premiadíssimo pelo papel.

    O Cidadão Ilustre conta a história de um escritor argentino que ganhou o Nobel de Literatura e que vive há 40 anos na Europa fugindo dos holofotes da fama, dos convites acadêmicos e dos assédios da mídia, mas que, contrariando sua tendência reclusa, aceita passar quatro dias na sua pequena e provinciana cidade natal, que fica no fim do mundo ou quase isso.

    Era de se esperar uma turnê emotiva, mas basta aterrissar no aeroporto de Buenos Aires para que o nobre intelectual seja obrigado a enfrentar tudo aquilo do qual vinha fugindo, a começar pela paparicação exagerada, e viver alguns reencontros perturbadores com amigos da juventude, ex-namorada, desafetos e fãs sem noção – um elenco de tipos e situações que, se virassem texto, resultaria num best-seller e tanto.

    Se é que não resultou.

    Como saber se tudo aquilo aconteceu mesmo, sendo o personagem um escritor e, como tal, um cara meio delirante? Serão culpados ou inocentes esses seres que misturam realidade e ficção a fim de gerarem as obras que seus leitores devoram? Escritores são manipuladores? O filme é rico e bem mais abrangente do que isso, mas a questão está ali: o vampirismo literário (sobre o qual escrevi recentemente) e suas consequências.

    Não existe escritor que já não tenha sido questionado sobre o que há de biográfico e o que há de invenção naquilo que escreve. Alguns tentam explicar (“a vida é a matéria-prima da qual dispomos, então claro que o autor se abastece da própria experiência, ainda que a reinvente etc., etc.”), mas a resposta perfeita para a questão é: importa? A história foi entregue: vibrante, inquietante, convidando a embarcar na alma dos personagens, em suas loucuras, em seus medos, numa trama inventiva e atraente por si só. Agora olhe para aquele sujeito blasé que aparece na foto que está na orelha do livro, geralmente em pose clássica, com a mão apoiando o rosto. Importa se a ruiva bipolar que aparece na página 78 foi uma amante que ele não tira da cabeça?

    Vale o que está escrito. Ilustre é o livro. O resto é fuxico.
24 de maio de 2017 | N° 18853 
PEDRO GONZAGA

  • AS COISAS DO GOVERNO

    Uma das imagens que guardo de meu avô materno, desta perspectiva à meia-altura das memórias da infância, é a dele sentado junto à porta da casa da praia, em sua poltrona de vime, guarnecida por duas almofadas amarelas. Por mais que eu acordasse cedo, ele já estava ali mateando, hábito que trazia de longe, meu bisavô fora uma espécie de terra-tenente ao norte do estado. Eu ficava em silêncio, estendido num sofá feito de colchões, o que permitia a meu avô que mergulhasse ainda mais naquele mundo desconhecido a quem não sabe então o que é ter passado. 

    Sempre que percebia que eu o olhava há algum tempo, costumava dizer, é, Pedruca, são as coisas do governo. Eu achava aquilo engraçado. Nunca soube, ao menos não naquele antigamente, quais eram as tais coisas do governo. O sentido figurado, quando passamos a reconhecê-lo? Agora mesmo me pergunto, diante do que temos de aguentar, se tal expressão não seria uma forma de fatalismo à brasileira, o destino uma conjuração armada contra nós por quem deveria nos proteger.

    Depois da casa acordar, meu avô se erguia para fazer a barba. Ele adorava um barbeador elétrico da Philips, enxergava tantas virtudes no apetrecho que era como se fosse uma espécie de símbolo da transição tecnológica, um divisor de águas entre dois Brasis, o rural e o urbano. Passada minha adolescência, ele me presenteou com um igual, que pouco usei porque me irritava a pele, mas que guardei durante anos, crente de que um dia meu rosto ganharia aquele aspecto áspero das gentes da fronteira. Um dia o aparelho estragou, meu avô não estava mais aqui, o que o salvou da frustração de saber que o neto precisa de bálsamos importados para se afeitar.

    Revigorado, ele voltava à poltrona, trazendo alguns números da revista Ícaro, uma publicação bilíngue que usava para aprender inglês. Passava horas catando palavras no dicionário. Não sei se desconfiava dos tradutores, cacoete do promotor que nunca fora capaz de aposentar. Não sei se tomamos os traços de quem amamos, pois aí estaria uma explicação para muito coisa, mas as frases, por certo que sim.

    Hoje, antes de pôr na página a primeira palavra, os olhos perdidos para além da janela repassando tantos ontens, voltei quando meus lábios me disseram, são as coisas do governo.

24 de maio de 2017 | N° 18853 
DAVID COIMBRA

  • A casa na Dona Margarida

    Ontem me deu uma saudade da casa da minha avó. Ficava no número 355 da Rua Dona Margarida, em frente a um cinamomo antigo. Hoje essa pequena rua do bairro Navegantes está acinzentada pela dureza das indústrias e pelo rio de carros que corre o dia inteiro entre suas margens, mas, na época da minha avó, os vizinhos se cumprimentavam ao sair para o trabalho no começo da manhã e, no começo da noite, fincavam suas cadeiras na calçada.

    Todas as casas eram de madeira. Na frente da casa da minha avó, havia o açougue do seu Milton, gremista fundamentalista que, quando o Grêmio perdia, permanecia dois dias inteiros trancado no quarto, sem falar com ninguém. Mais adiante, na diagonal, estava plantado um sobrado misterioso, habitado por pessoas vindas de algum país do leste da Europa, todas elas louras e silenciosas. Às vezes, à noite, ouviam-se gritos de mulher escorrendo das janelas de algum quarto no segundo andar. Essa mulher que gritava jamais era vista. Os vizinhos contavam histórias aterrorizantes sobre o que podia estar acontecendo com ela lá dentro, e eu e meus irmãos várias vezes fizemos planos de entrar clandestinamente no casarão e descobrir o que se passava.

    Seguindo na direção de onde um dia existira o campo do Renner, tinha uma tabacaria chamada Ao Carancho. Eu era fascinado por esse nome. O que seria um carancho? Disseram-me que é um passarinho, mas não tem lógica. De qualquer maneira, o Carancho vendia de tudo: bolinha de gude leitosa, aça e olho de gato, figurinhas de álbuns de jogadores, gibis, maria-mole, bala quebra-queixo e uns chocolates da Neugebauer muito bons, o Beijo de Moça e o Beijo Africano.

    Isso me leva a refletir: seria o Beijo Africano um nome politicamente incorreto?

    Talvez a Neugebauer enfrentasse dificuldades hoje em dia.

    A Neugebauer era um dos orgulhos do bairro, assim como a Renner, que já citei. Minha avó foi costureira da Renner, nos tempos de solteira. Orgulhava-se de ter sido considerada a melhor da fábrica, a número 1, a Pelé do corte & costura. Quando casou-se, pediu demissão, para infinita tristeza da família Renner. Nunca mais ninguém cerziu como ela.

    Minha mãe torcia para o time da empresa, o Renner, campeão de 1954. Conheci dois jogadores daquela equipe: o goleiro Valdir de Moraes e o meia-esquerda Ênio Andrade. Uma vez, quando estava numa cobertura da Seleção Brasileira, o Ronaldinho Gaúcho me perguntou:

    – Quem é que tu achas que bate melhor na bola por aqui?

    Olhei em volta. Romário? Ronaldo? Rivaldo? Roberto Carlos? O próprio Ronaldinho?

    – Não – ele respondeu. – É o Valdir de Moraes.

    Aí fui observar o Valdir de Moraes dando treino. Impressionante. O homem não errava um passe, um lançamento, um chute. “Vai no travessão!”, avisava. E ia no travessão.

    Falei com ele e ele me contou que, nos tempos do Renner, consumia tardes inteiras repetindo chutes com o Ênio Andrade e que, assim, se tornaram especialistas.

    – Só que o Ênio era muito melhor – reconheceu.

    Lembrei de uma história ocorrida com o Ênio quando ele treinava o Grêmio, no começo dos anos 1980. Leão, que era o goleiro do time e da Seleção, brincou:

    – Chuta o pênalti aí, velho. Se você acertar, pago uma cerveja.

    – Nada disso – rebateu o Ênio. – Vou chutar 10 pênaltis. Se você pegar um, pago um engradado.

    Ênio acertou os 10.

    Meu avô dizia que ele nunca havia errado um pênalti. Que era melhor do que Zico.

    Bem, Zico errou um pênalti.

    Mas ainda não cheguei à casa da minha avó. Chegarei amanhã.

terça-feira, 23 de maio de 2017



23 de maio de 2017 | N° 18852 
CARPINEJAR

Igualdade, liberdade e fraternidade

Meus padrinhos eram os meus avós paternos. Mas, como já eram avós, esqueceram de que eram os meus padrinhos.

Tinha inveja da madrinha do meu irmão Rodrigo: Nayr Tesser. Sempre atenta, sempre com visitas inesperadas, cantando Edith Piaf. Sempre alegre. Sempre com papagaios nos ombros, seus originais animais de estimação.

Eu recebia meias e chocolate Bis, Rodrigo ganhava Ferrorama e Autorama. A concorrência desleal não permitia dúvidas. A tristeza não decorria da comparação, mas da intensidade de seu amor. Tampouco me ressentia da diferença econômica dos mimos, e sim da algazarra das visitas.

Nayr representava uma mulher moderna já nos anos 70: independente, falando de sexualidade abertamente, não devendo a ninguém, carismática e fortalecendo a identidade a partir da generosidade, não do egoísmo e do alheamento. Dava até pena interrompê-la. Calava os mais céticos. Professora de linguística, politizada, comprava brigas pelas minorias e defendia a pureza firme da ética em contraste com a imperfeição das leis.

Ou eu babava, ou suspirava por ela.

Além de ser melhor amiga da mãe, cuidava da gente indiscriminadamente. Veraneávamos em seu chalé em Imbé. Ela nos salvou várias vezes do calorão sem trégua de Porto Alegre. Fornecia gibis que não havia como comprar. Ampliou o nosso repertório alimentar com iogurte caseiro e açúcar mascavo.

Figura avançada, libertária, libertadora, inquieta, que me enchia de orgulho por não compreender inteiramente. Despertava mistérios por qualquer lugar que passava. Enfrentava oposição e resistência porque nunca foi submissa neste mundinho machista.

Com lenço no pescoço e olhar claro de ametista, abria caminhos na fogueira das vaidades. Chamávamos de Joana D’Arc da família.

Não esqueço de um dos seus gestos mais emblemáticos. Quando defendeu a tese do doutorado na UFRGS, pediu licença para a banca e retirou de sua malinha um porta-retratos.

Ali, respeitosamente, como se fosse seu criado-mudo, colocou a foto de pé na mesa. Vinha a ser a imagem de seu marido falecido, Henry. Para que ele pudesse assistir a sua argumentação de onde estivesse.

– Quero prestar homenagem ao único homem que teve coragem de se casar comigo.

Que sirva de exemplo infinitamente. Depois de duas décadas daquela banca, os homens não aprenderam e ainda têm medo de mulheres bem resolvidas.



23 de maio de 2017 | N° 18852 
LUÍS AUGUSTO FISCHER

EXTRATIVISMO


Já há algum tempo meu cérebro, à revelia da minha vontade, andava rondando um tema que agora se esclareceu, por obra de Reinaldo José Lopes, na Folha de S. Paulo de domingo passado. Mas antes de esclarecer, relato o desconforto obscuro.

Não se tratava da corrupção em si mesma – esse festival assustador e acachapante de denúncias e revelações (nem sempre são a mesma coisa), que nos deixam simplesmente sem ação, salvo o ir para a rua e reclamar, enquanto esperamos que nas altas esferas as coisas andem pelo melhor caminho, ai, a nossa ingenuidade.

O que esperar deste Congresso? O que esperar do juiz Moro, que passou três anos investigando pedalinho e apartamento em praia de classe média, mas impediu que as embaraçosas (e certeiras) perguntas de Eduardo Cunha fossem levadas a Temer? O que esperar dos controles institucionais da República, que te pegam quando tu esqueces de declarar uma renda eventual que nem fez cócegas na economia da família, mas deixam passar bilhões à toa?

Só isso já é suficiente para a gente perder o sono e a ilusão, para nem falar da crença no futuro. Mas por baixo e por cima dessa mixórdia há outra camada, que eu não conseguia nomear. Mas agora sim, pelo texto do Lopes: no atual espetáculo exposto à nossa patetice, as empresas corruptoras são variações do velho extrativismo.

Carne de boi é praticamente isso: embora tenha mediações agrícolas e industriais, ela dependeu, no caso da JBS, da destruição da floresta e de outros ecossistemas para criar os animais. A Petrobras, nem se fala: é extrativismo de raiz, a girar a roda da destruição do planeta na queima de combustíveis fósseis. A terceira ponta está nas megaempreiteiras, com fraudes proporcionais ao faraonismo das obras, tantas vezes ecocidas.

A modernidade, em que o Brasil faz parte importante no jogo mundial, nos reservou esse medonho papel. Tem como sair dele?


23 de maio de 2017 | N° 18852 
DAVID COIMBRA

O que Temer, Lula e Zago têm em comum

Ainda neste ano, durante partida do Gauchão, jogadores do Inter e do Caxias disputavam ferozmente a bola ao lado da bandeirinha de escanteio, observados de perto pelo técnico colorado, Antônio Carlos Zago, que estava à margem do campo. No desfecho do lance, um jogador do Caxias atirou o braço para trás e sua mão roçou no ombro de Zago. 

Por um instante, o treinador ficou indeciso sobre o que fazer, mas, em seguida, emitiu um urro, levou as mãos ao rosto e jogou-se dramaticamente no chão, pretextando ter recebido um soco no olho. A câmera mostrou a cena: o técnico, homem já sem cabelos, de quase 50 anos de idade, com os joelhos e a testa fincados no solo e as nádegas voltadas para o firmamento, espero que não na direção de Meca, gemendo de dor presuntiva.

Foi ridículo.

Simulações desse tipo, mais bem encenadas, evidentemente, são useiras e vezeiras no mundo do futebol. Nós brasileiros estamos acostumados com jogadores que não são sequer tocados pelo adversário e voam pelo ar até aterrissar com estrondo na grama, onde ficam estrebuchando e se contorcendo como se estivessem às vascas da morte. Basta o juiz mostrar o cartão amarelo para o adversário e eles se levantam e voltam serelepes para o jogo.

Os torcedores brasileiros adoram trapaças desse gênero, se beneficiam seu time. “É malandragem”, elogiam. Mas, se prejudicam o time, vem a crítica: “Falta de ética!”

Todos os torcedores sabem que é assim e aceitam que seja assim. Não há escrúpulos no uso do cinismo para se alcançar a vitória.

Digo sempre que o futebol é tão popular porque, em um único jogo, consegue resumir a vida. Pois também esse cinismo de que falo não se restringe ao futebol.

É preciso ser muito cínico para aceitar como natural a conversa havida entre Temer e Joesley Batista, exposta na gravação entregue ao Ministério Público. A história toda é burlesca, do início ao fim.

O início: Joesley chegou pouco antes da meia-noite à residência do presidente da República e entrou sem nem se identificar. Como é que alguém entra na residência oficial do presidente da República sem se identificar? Diga: alguém chega ao seu edifício e entra sem se identificar? Estão cuidando mal do presidente da República... Ou será que encontros desse gênero são normais?

Depois vem a natureza da conversa propriamente dita. Dois juízes e um procurador subornados? Ajuda financeira de um empresário a um deputado preso? O que é isso?

Ainda no âmbito do Primeiro Homem da República, dias atrás Lula contou uma história ocorrida quando ele era presidente.

Lula estava preocupado: havia suspeitas de que um importante diretor da Petrobras, Renato Duque, depositava dinheiro de propina numa conta no Exterior. Muito cioso da lisura de seus colaboradores, o presidente decidiu tomar uma atitude. Chamou Duque para uma conversa no hangar do aeroporto de Congonhas, em São Paulo.

O diretor chegou e o presidente da República perguntou: – É verdade que você está depositando dinheiro de propina numa conta no Exterior?

Duque respondeu: – Não.

E o presidente da República respirou aliviado:

– Ah... Então tá. E foi-se embora, tratar dos seus assuntos.

Estava encerrada a investigação. Durou tanto quanto o segundo de vacilação de Zago.

Agora, ciente de que o diretor mantinha, de fato, uma conta com dinheiro de propina no Exterior, Lula se consola:

– Ele não mentiu para mim; mentiu para ele mesmo.

Sério? Querem que acreditemos nisso? Chega a um ponto em que nem o brasileiro aguenta mais tanto cinismo.



22 de maio de 2017 | N° 18851 
DAVID COIMBRA

Cortei relações por causa do PT

Rompi relações com um amigo de infância por causa do PT. Quer dizer: não foi exatamente por causa do PT. Explico: esse meu amigo é petista daqueles fanáticos, compartilha matérias de sites financiados pelo partido e já escreveu que Dilma é heroína dos pobres (juro). Até aí, tudo bem, há muitos que são assim, é preciso ter tolerância, mas, dias atrás, numa conversa eletrônica, ele disse que critico os governos petistas para agradar à RBS. Ou seja: minha opinião é interesseira. Ou seja: sou desonesto.

Já ouvi e li essa bobagem antes, vinda de outras pessoas, e não me ofendi. Dias atrás, enviaram-me uma entrevista que o ex-senador Bisol deu para um site, e ele falou algo parecido. Não me importei, embora admire Bisol como homem de vasta cultura e bons sentimentos. Sei que o dogma torna obtusas as pessoas mais inteligentes. O sujeito é genial em quase todos os aspectos da vida, mas, quando o tema roça em sua crença ou em sua ideologia, ele cai de quatro e zurra.

O objeto específico da minha conversa com o ex-amigo era o caso da JBS. Vejamos: a JBS recebeu R$ 12 bilhões de empréstimos amigos do BNDES nos governos Lula e Dilma. O banco chegou a comprar parte da empresa para livrá-la da falência. Quando Lula assumiu, o grupo faturava R$ 4 bilhões e, 10 anos depois, faturava R$ 170 bilhões. 

O TCU já anunciou que as operações dos Batista com o BNDES trouxeram prejuízos enormes ao banco; num único ano, o de 2008, o prejuízo foi de R$ 614 milhões. Com recursos do contribuinte, a JBS comprou 65 frigoríficos nos Estados Unidos e seus proprietários se homiziaram em Nova York. Vão dar empregos e pagar impostos aos americanos graças ao dinheiro dos brasileiros. Ainda assim, meu ex-amigo acredita que só Temer, Aécio e outros políticos, que não do PT, se corromperam.

A lógica é: “Aécio é corrupto; logo, Lula é inocente”.

É o único caso da história da humanidade, em todos os tempos, em que um corruptor confesso obteve vantagens de um governo corrompendo a oposição.

Foi o que disse para meu ex-amigo, e ele, sem argumentos para rebater, veio com essa de que minha opinião é movida por interesse.

Cortei relações.

Se não posso ter lealdade de um amigo, não tenho amigo.

Não faço o mesmo. Nunca pessoalizo debates, sempre terço argumentos. Não acho que meu ex-amigo e Bisol sejam desonestos por pensarem o que pensam. Acho que são equivocados. No caso, devido à paixão. A paixão nos torna cegos e tolos.

Eu também muitas vezes erro, mas posso errar honestamente. Sei por que algumas pessoas acreditam que quem discorda delas é sempre mal-intencionado. Jesus já ensinou, 2 mil anos atrás: cada um julga os outros com sua própria medida.

Esse foi o pior legado deixado pelo finado PT. Não foi a corrupção. As relações entre o poder e o capital, no Brasil, sempre foram espúrias. O PT pode ter sido mais sistemático, mais orgânico, mas esse é um pormenor. O problema é que, nesse tempo todo de governos petistas, o Estado foi usado como agente fomentador de instituições que lutavam contra o próprio Estado. 

É algo sofisticado, merece mais reflexão, mas, por ora, lembro que o mesmo ocorreu com o peronismo na Argentina e o bolivarianismo na Venezuela. Para se perpetuar no poder, um governo usa os recursos do Estado distribuindo esmolas embaixo e fortunas em cima. A ideia é cooptar apoiadores, nunca a formação de uma nação independente.

Assim, a noção distorcida que o brasileiro historicamente tem do Estado ficou ainda mais distorcida. A cidadania transformou-se em birra. Exige-se muito, faz-se pouco. O Brasil virou o país do não. Tudo o que se tenta enfrenta oposição e desconfiança. O outro sempre tem segundas intenções, o outro sempre é suspeito.

Tristes trópicos. Voltando a citar Jesus: não é o que entra na boca do homem que faz o mal. O mal é o que sai da boca do homem.


22 de maio de 2017 | N° 18851
ARTIGOS

CONDIÇÕES PARA UM RECOMEÇO


Os dias que se sucedem seriam outrora inimagináveis. É quase uma redundância falar que se vivem tempos de crise, nos quais parece que o amanhã não surge e, tal qual o personagem central do filme Feitiço do Tempo, vive-se o eterno hoje, em que, todos os dias, novos escândalos repetem-se indefinidamente; acordamos a cada manhã despertados pela fúria que consome a racionalidade e faz do nosso cotidiano um interminável “dia da marmota” (igual ao sensacional filme).

Nestes tempos tão angustiantes, parece ser uma tarefa quase ingênua o debate de ideias e a reflexão sobre os rumos que pretendemos perseguir nos dias que irão compor o que se denomina futuro. Se não conseguimos suplantar as amarras que nos impedem de romper com o presente, como é possível falar da construção de novos tempos?

Isso se torna especialmente dramático diante do caos que ora se instala. Por decorrência, precisamos recuperar a racionalidade coletiva. Com todos os riscos que significa, vale propor o seguinte: 

a) não esquecer nosso compromisso democrático- civilizatório, e isso significa manter respeito por aquilo que nos torna uma nação: Constituição; 

b) suspensão das reformas, pois agora, mais do que nunca, não há legitimidade para prosseguir com elas, mesmo que se entendam necessárias, até porque, diante do escancarado quadro de compra de votos no Congresso, elas poderão resultar justamente o contrário do que se diz pretender: déficit público; 

c) renúncia ou impeachment impõem-se inexoravelmente; 

d) cumpra-se a Constituição, com eleições indiretas no Congresso nos termos e prazos previstos, pois descumpri-la implicará consequências tão indesejáveis quanto aquelas que resultaram neste momento; 

e) aprovação de emenda para convocar eleições de membros de uma constituinte exclusiva (cerca de 200 cidadãos) com vistas a aprovar ampla reforma política, sendo que os candidatos não poderão estar ocupando cargo público eletivo e tornam-se inelegíveis, por um prazo de oito anos; 

f) deixar de lado o “ânimo de torcida” de futebol que tem nos conduzido até aqui.

Enfim, vivem-se graves momentos, os quais determinarão os dias que estão por vir e, não obstante essa transição seja mais lenta do que desejaríamos neste momento, haveremos de criar condições para um recomeço, a partir de 2018. Caso contrário, corremos o risco de um retrocesso autoritário, como se embarcássemos em uma máquina do tempo e viajássemos para 50 anos no passado.

*Professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da Unisinos


22 de maio de 2017 | N° 18851 
L.F. VERISSIMO

O ponto


Um dia, o Internacional anunciou a contratação de um grande goleiro. Um goleiro tão bom, que muita gente estranhou. Como um jogador extraordinário assim acabara no Inter e – pelo que se soube – por muito pouco dinheiro? Mais estranho ainda: o grande goleiro não pedira um grande salário. 

Aí alguém se lembrou de boatos que corriam sobre o jogador, que ele era um entregador de partidas, um incorrigível subornável. E concluíram que ele não se interessava pelo que ganharia no Inter, se interessava pelo que ganharia de adversários no gol do Inter, deixando passar bolas defensáveis. Se interessava pelo ponto.

São tantos os escândalos envolvendo políticos no Brasil, tanto dinheiro rolando e tantos favores sendo vendidos, que se pode pensar em mandatos e cargos públicos não como oportunidades de servir à população, mas como pontos. Quanto mais influente e destacado na hierarquia do poder, melhor localizado e lucrativo o ponto do político. E corretores de jogo do bicho, vendedores de drogas, mendigos e prostitutas sabem como é importante um bom ponto.

Pode-se até fantasiar que, um dia, deputados, senadores e governantes dispensarão seus salários e viverão exclusivamente de propinas, ou do que ganham nos seus pontos. O que, além de acabar com toda a retórica vazia sobre razões nobres para se eleger e servir à nação, trará um grande alívio para os cofres públicos. A Odebrecht e as outra grandes empresas corruptoras se encarregariam de pagar os políticos, para cada um de acordo com a localização do seu ponto.

Quanto ao tal goleiro do Inter – só para não deixar a história pela metade –, o clube chegou a montar um esquema para vigiá-lo dia e noite. Mas as suspeitas a seu respeito não se confirmaram. Pelo contrário, o Inter deve boa parte do seu sucesso na época às suas defesas. Ele era inocente. O que se pode dizer de cada vez menos políticos brasileiros.


20 de maio de 2017 | N° 18850 LYA LUFT
Lya Luft - lya.luft@zerohora.com.br

As coisas humanas

Quando me chamaram para voltar à ZH e pertencer de novo à família RBS, em começos de 2016, fiquei feliz, era um momento de certa orfandade, e me reintegrar aqui foi uma alegria. É uma alegria. Fui recebida feito filha da casa, meu ego desinflado melhorou e, mesmo que eu não vá à Redação habitualmente, de coração estou entre colegas, funcionários e amigos queridos. 

Um dos pedidos ao fazermos os acertos foi antes uma sugestão: não escrever sobre política como vinha fazendo nos últimos anos em uma revista. Na verdade, nunca fui uma entendida ou comentarista política. Aliás, o tema me assusta. Sempre afirmei, e escrevi, apenas como uma brasileira comum moradora deste planeta complicado que se chama Brasil. Agora a Zero Hora afirmava que escrever o que acho de “coisas humanas” era o que o leitor mais queria de mim.

Achei meio engraçado, meio comovente, me surpreendi um pouco – porque, afinal, política é coisa muito humana e muito nos atinge, aflige ou anima –, mas compreendi que se tratava dessas coisas humanas essenciais: afetos, amizades, colegas, família, otimismo, sofrimento, esperança, decepção, educação, convívio, segurança, moralidade, enfim. Tenho feito isso, e isso tem me feito muito bem. Não posso deixar (ou: posso, mas não quero) de comentar aqui brevemente que a nossa realidade política, que tanto corrói a economia e tanto nos afeta em nossa lida cotidiana, roubando esperanças e jogando aflição sobre todos, mexe extraordinariamente com cada pessoa.

Porém, é preciso reconhecer que, mais do que nunca – como eu disse outro dia a um grupo de funcionários aqui da casa, que me receberam com tanto afeto que me emocionei –, ao fim e ao cabo, no meio das maiores loucuras, confusões e medo, cada vez mais importam as pessoas: clientes, amigos, patrões, funcionários, família, colegas, até meros conhecidos. Se cada um tentar, com simplicidade, o seu melhor nesses lugares e ocasiões, se cada um fizer na vida e no trabalho o melhor que puder, é possível que este mundo, este Brasil, esta cidade melhorem um pouco. Que a gente se sinta mais confortável, mais amparado, mais otimista, mais importante.

Alguém certa vez me fez entender que todo mundo precisa saber-se importante: não em cargos, dinheiro, grandes façanhas, mas pelo menos no seu grupo, seja ele qual for. Eu sei, não é fácil conviver bem. Há pessoas naturalmente irritantes e desagradáveis. Traições acontecem. Afastamentos incompreensíveis também. Mas ser importante para uma pessoa que seja já vale muito. Ser benquisto entre seus colegas é muito. Ser bem-visto e respeitado por clientes, patrões, empregados, ser considerado uma pessoa confiável, um ser humano decente, é muitíssimo. E nos faz bem. E nos estimula.

Ninguém é inteiramente amado, totalmente compreendido, absolutamente respeitado: faz parte do aprendizado da vida. Mas ser uma pessoa decente é o essencial, porque, neste momento caótico e preocupante, muitas vezes desanimador, saber que existe alguém bom, honrado, atento, digno, é uma dádiva.

Apesar de todas as nossas dificuldades e imperfeições, as coisas humanas são o melhor de tudo – e isso nem um Everest de dinheiro, de grandeza, de importância ou de poder poderá substituir.