sábado, 24 de novembro de 2018



24 DE NOVEMBRO DE 2018
CARPINEJAR

Prontuário de meu pai

Meu pai, 79 anos, estava com pressão alta e o levei para a emergência do hospital. Ele foi conduzido para a enfermaria e fiquei com o seu celular e a sua carteira. Na doença, não existe posses. Era o seu responsável pela primeira vez na vida. Precisava preencher o prontuário médico. A atendente me alcançou a folha alertando que se tratava de perguntas simples. Peguei a caneta e mordi a tampa, em vez de deslizar a tinta na página.

- Biotipo sanguíneo?

Eu não sabia. - Alergia a medicação? Eu não sabia.

- Já teve sarampo, caxumba, catapora?

Eu não sabia. - Realizou alguma cirurgia?

Eu não sabia. - Vem usando medicação?

Eu não sabia. Vi que eu não conhecia o meu pai. Ele que me conhecia de cor e teria facilidade em preencher qualquer ficha a meu respeito.

Mesmo possuindo quatro décadas e meia de oportunidades, o pai surgia como um desconhecido íntimo. Um anônimo. Eu não me esforcei em descobrir quem me cuidava durante todo esse tempo. Nossa relação foi uma via de mão única.

Terminei reprovado no teste de filho. Deixei o teste em branco, para o meu constrangimento. A atendente tentou disfarçar o desconforto: "Depois perguntamos para ele".

O prontuário médico tornou-se o meu obituário filial. Eu me dei conta de que nunca me preocupei em desvendar quem habitava a função "pai", em determinar as suas escolhas, em revelar a pessoa atrás da roupagem familiar.

Meu pai veio com uma encomenda pronta quando nasci, e jamais desfiz o embrulho para buscar o que havia dentro. Não desfrutava de condições de responder nada por ele, pois o reconhecia como eterno provedor, uma fortaleza inexpugnável, onde me socorria em caso de necessidade. Só eu pedia ajuda, não ajudava. Só eu cobrava afeto, não devolvia. Só eu esperava recompensas, não observava também a sua carência e sua fragilidade.

Não questionei o que ele viveu antes de mim. Não sabia se ele teve cachorro, qual o nome, se ele sofreu com a perda do mascote, se sofria castigo na infância, qual o seu melhor amigo, se dançava nas festas da escola ou permanecia encostado na parede, se nadava, se andava de bicicleta, qual a carreira que sonhou, qual o seu pior trauma, qual a sua maior felicidade, se içou pandorga, se pescou, se participou de acampamento, com o que brincava, se jogava futebol, qual a sua posição, se terminava como goleiro por não fazer gol, se dividia o quarto com os irmãos, com qual idade começou a ler e a escrever.

Eu simplesmente me conformei em ser o seu filho, jamais fui seu amigo.

CARPINEJAR


24 DE NOVEMBRO DE 2018
ENTREVISTA

"Marcas precisam e devem se posicionar"

A vice-presidente de Marcas, Comunicação e Conteúdo da Avon, Danielle Ribas, conta como a empresa tornou a diversidade uma de suas missões

Aos 45 anos, a brasileira Danielle Bibas está à frente da estratégia digital e das campanhas globais da Avon, uma das gigantes de cosméticos do mundo. E seu trabalho vem repercutindo por aí: a marca se destaca quando o assunto é abordar diversidade e representatividade em seus produtos. Com forte atuação nas redes sociais, a Avon está entre as pioneiras no Brasil a colocar trans e drag queens para estrelar campanhas. Mulheres negras, gordas, tatuadas, com cabelos curtos e dos mais diferentes tipos e estilos são regra em vídeos e fotos, e não exceção. 

No ano passado, o documentário Repense o Elogio, dirigido por Estela Renner e produzido em parceria com a marca, gerou debate na internet a ideia era refletir sobre a diferença no tratamento de meninos e meninas. A seguir, confira um papo com Danielle sobre a responsabilidade social das marcas, a necessidade de um discurso inclusivo para atingir diferentes públicos e como isso ajuda a construir uma sociedade mais igualitária e tolerante. A vice-presidente global de Marcas, Comunicação e Conteúdo (CCO) da Avon participa da quarta edição do AHEAD!, programa de debates do Grupo RBS, dirigido ao mercado publicitário, que será realizado no dia 27 de novembro.

A importância da diversidade e da representatividade está no centro do debate na última década. Como você avalia o impacto desses discursos nas marcas? Foi necessária uma mudança de perspectiva para criar campanhas que não reforçassem padrões estéticos?

Para nós, é importante que pessoas diversas ocupem espaço na publicidade, em grandes companhias e tenham visibilidade. As grandes corporações têm, sim, um papel muito importante na mudança da sociedade. Refletir a diversidade na comunicação externa é dar voz e representatividade, é ser consciente e responsável. E por parte do público, ver-se representado é se sentir respeitado. Por outro lado, praticar internamente o que se comunica é essencial, e nós fazemos isso.

Existe uma identificação maior com o discurso da marca? É essencial se "posicionar"?

É importante que a marca tenha um discurso condizente com o que prega, com a sua história. Não se trata só do modo como você comunica um produto. É preciso dar sentido para a beleza, pois é um ato social. Vivemos um momento-chave em que a transparência parou de ser um diferencial para as marcas e passou a ser pré-requisito para sua sobrevivência. Nesse contexto, a ação precisa ser maior do que o discurso. Mais do que um posicionamento, filme de TV ou ativações, o envolvimento do consumidor com a marca vem de ações concretas e verdadeiras que fazem sentido pras duas partes. A Avon tem sido exemplo em campanhas que saem do lugar-comum e atingem mulheres de todos os tipos, além de abrir espaço para as minorias. A marca se posiciona na luta contra a homofobia, o machismo e o racismo.

A Avon está entre as pioneiras no Brasil a colocar mulheres trans e drag queens para estrelar campanhas. Como foi a receptividade do público?

Com a evolução da conversa entre marca e pessoas nas redes sociais, as empresas estão cada vez mais expostas e propensas a ser alvo de críticas, elogios e comentários. Entendemos que as marcas precisam e devem se posicionar mesmo enfrentando riscos como o de ser alvo de resistência e críticas, não dá para agradar a todo mundo. Ao mesmo tempo, notamos que as pessoas têm investido cada vez mais em experiências em vez de focar apenas no produto, elas querem se conectar com propósitos e causas da marca, e levamos isso em conta cada vez que desenvolvemos uma nova iniciativa. Nós acreditamos em uma abordagem publicitária mais inclusiva e menos estereotipada e que, contemplar a diversidade na comunicação não é mais um diferencial e, sim, uma premissa básica para qualquer empresa em qualquer segmento.

O documentário Repense o Elogio teve grande repercussão ao tratar de como as construções de gênero se dão desde a infância e são reforçadas pelos adultos. Como o documentário ajuda a trazer a provocar a discussão sobre esse tema e a construir uma sociedade mais igualitária?

Como ponto de partida (do documentário), foi conduzida uma pesquisa online para checar quais adjetivos eram os mais lembrados na hora de elogiar cada um dos sexos. Quase 80% das palavras utilizadas pelos adultos para elogiar meninas estão relacionadas à aparência, como "linda", "bonita", "princesa". Já para os meninos, 70% referem-se a habilidades, como "esperto", "inteligente", "corajoso". A iniciativa recebeu muitos elogios e levou um prêmio na categoria Branded Content do Effie Awards Brasil neste ano. Mas também fomos alvo de muitas críticas de pessoas que consideraram a campanha contaminada do que determinada parte da sociedade considera "ideologia de gênero". Nós respeitamos todas as opiniões e entendemos que nem sempre vamos acertar, mas consideramos importante arriscar para levantar debates importantes para construir uma sociedade mais igualitária.

NATHÁLIA CARAPEÇOS

24 DE NOVEMBRO DE 2018
COM A PALAVRA

COM A PALAVRA


Santiago Uribe Rocha é porta-voz de uma das experiências mais bem-sucedidas da América Latina recente. Natural de Medellín, na Colômbia, ele participou da transformação que elevou de patamar a segunda cidade mais populosa de seu país - com mais de 2 milhões de habitantes. Em duas décadas, deixou de ser a mais violenta do mundo, tornando-se referência em inovação. Após passar quase uma década entre a África do Sul, onde trabalhou com Nelson Mandela, e a Colômbia, desde 2014 ele chefia o Escritório de Resiliência de Medellín, uma iniciativa da Fundação Rockefeller que conta com o apoio da ONU para investir em uma rede de cidades selecionadas - Porto Alegre entre elas - traçando estratégias

para enfrentar adversidades. Neste sábado, o antropólogo estará em Porto Alegre para palestrar no Festival da Transformação - FT18, promovido pela ADVB/RS (informações em ft.poa.br).

COMO SE DEU A MUDANÇA RADICAL DE MEDELLÍN?

Quando éramos a cidade mais violenta do mundo, com índices de homicídios de quase 391 para cada 100 mil habitantes, quase todos jovens em sua idade mais produtiva, nomeamos uma ministra conselheira para assuntos de paz. Sabíamos que o governo nacional não tinha recursos nem capacidade humana para resolver os problemas, e que não se podia mais pensar a cidade sem os cidadãos como parte do planejamento estratégico. Como ponto de partida, implantamos uma dinâmica de fóruns para discutir o futuro de Medellín. Fomos de bairro em bairro perguntando sobre qual era a cidade que nós, medellinenses, queríamos. Foram cerca de quatro anos, o que resultou em um documento com um planejamento para ser executado entre 1995 e 2015. O maior aprendizado, naquele momento, foi que o problema em si não era a violência, mas que era ela parte de um problema maior, que era a desigualdade, e que o que teríamos de resolver eram as diferentes manifestações de desigualdade como um problema estrutural: a carência de espaços públicos, de educação, de saúde, de centros comunitários.

COMO FORAM FEITOS OS INVESTIMENTOS?

Acredito que o documento elaborado na época foi uma espécie de coluna vertebral que ajudou a cidade a manter um planejamento de longo prazo. Quando Medellín entendeu que tinha de ter um enfoque diferente, não em força, mas em inclusão social, tivemos de priorizar onde investir. No começo dos anos 2000, começamos a usar os indicadores da ONU para identificar as regiões com mais necessidades, com os índices mais baixos de desenvolvimento humano. Em 2003, começamos a executar uma política pública, os chamados Planos Urbanos Integrais, que direcionavam os investimentos para essas regiões. Fizemos intervenções onde as pessoas nunca tinham tido acesso a serviços. Levamos bibliotecas públicas, centros culturais, colégios, parques e corredores estratégicos de renovação comercial a esses lugares.

COMO O GOVERNO SE APROXIMOU DAS COMUNIDADES?

Quando nomeamos a ministra conselheira para a paz, em 1991, o nome de uma mulher era estratégico. Acredito que as mulheres estão mais capacitadas em termos de resolução de conflitos do que nós, os homens. Outra coisa foi que nomeamos Maria Ema Gonzalez, uma comunicadora social. Ela percebeu que nossa maior necessidade era comunicativa: ouvir de maneira estratégica pessoas que nunca tinham sido ouvidas no processo de planejamento. Acredito que desenvolvemos uma das estratégias sociais de escuta sistemática mais importantes que já houve no país. Ouvir o outro foi inovador e sui generis para Medellín. Vocês levaram isso a níveis até mais avançados, com o Orçamento Participativo (OP).

A DESIGUALDADE SOCIAL É UM PROBLEMA COMUM A CIDADES BRASILEIRAS. QUAL É O PAPEL DO ESTADO NA PROMOÇÃO DE UMA SOCIEDADE MAIS IGUALITÁRIA?

É ser uma plataforma que permita, a partir transformações econômica, social e educativa, a inclusão social. Mas o problema de desigualdade e da segregação é da sociedade como um todo. Não adianta que os entes públicos foquem esforços enormes para tratar da desigualdade se nós, como sociedade, não atacarmos isso. Sempre me perguntam qual vai ser, no futuro, o indicativo de que Medellín atingiu a integração econômica e social - porque hoje somos uma cidade dividida em duas, uma no sul, que está bem, e uma no norte, com menos privilégios e serviços. Digo que quando uma menina do sul disser que vai na casa do namorado que mora na Comuna 13 (bairro com histórico de violência) e ninguém se assustar, termos o indicador de inclusão social. Teremos rompido barreiras. É preciso uma transformação cultural. O poder público tem de ser plataforma para isso.

MEDELLÍN DIRECIONOU RECURSOS PÚBLICOS PARA COMUNIDADES CARENTES, MELHORANDO INFRAESTRUTURA, TRANSPORTE E ACESSO À EDUCAÇÃO NESSAS REGIÕES. EM TEMPOS DE CRISE ECONÔMICA, COMO É POSSÍVEL FAZER ESSES INVESTIMENTOS?

Uma das primeiras coisas que temos de entender é que, quando Medellín começou a transformação, não era uma cidade rica. Estava em uma crise profunda, econômica inclusive. O que deu origem à grande transformação foi construir, com diálogo social, uma plataforma de planejamento para o futuro da cidade. Os momentos de crise são os mais apropriados para construir esse diálogo e, a partir dele, tomar as decisões para desenvolver a transformação. Não é porque se tem crise que se deve perder a esperança. Se deixamos passar a crise, deixamos passar uma grande oportunidade.

O PRINCIPAL PROBLEMA DE MEDELLÍN, 20 ANOS ATRÁS, ERA O ALTO ÍNDICE DE HOMICÍDIOS...

Essa era uma das manifestações do problema. Temos uma sociedade muito parecida com a de vocês (brasileiros), com herança colonial, arraigada em uma hierarquia social de classe, com uma segregação socioeconômica e espacial. Temos de empenhar as sociedades latino-americanas em busca da redução da desigualdade. Entre as 50 cidades mais violentas do mundo, 42 estão na América Latina. Infelizmente, Porto Alegre faz parte dessa lista (ocupa a 39ª posição). Todas têm indicadores sociais opressores. A violência não é outra coisa se não uma manifestação desse problema maior.

QUAL É O PRINCIPAL DESAFIO DE MEDELLÍN ATUALMENTE?

Reduzir a desigualdade social. É importantíssimo dar continuidade às políticas públicas. Porque, com as mudanças nas administrações, sempre há risco que parem. Em todo o mundo é assim. Infelizmente estamos tendo líderes políticos que querem o poder pelo poder, e o serviço público requer uma vocação de entrega pela cidadania. Precisamos de líderes que entendam que devem chegar ao poder para serem servidores públicos.

COMO A CIDADE TRATA AS QUESTÕES DE SEGURANÇA?

Hoje temos um enfoque diferente da linha que se vinha levando durante vários anos. É mais tradicional, com o uso da força. Sou um dos partidários de que o tema da segurança seja tratado com enfoque de prevenção. Abrir diálogo, dar oportunidade de inclusão. O uso da força deveria ter um papel cada vez menos preponderante. A segurança por meio da força legitima a violência. Pessoalmente, acredito que a prevenção é o caminho mais adequado. Mas, entre os políticos de hoje, há quem acredite que se tenha de voltar aos meios tradicionais. Os indicadores mostram que dá menos resultado e toma muito tempo.

NO ANO PASSADO, OCORREU UMA INTERVENÇÃO MILITAR NO RIO DE JANEIRO, COM O OBJETIVO DE REDUZIR A CRIMINALIDADE. O QUE SE VIU FOI UM AUMENTO NOS INDICADORES DE LETALIDADE VIOLENTA, COM MAIS DE 500 MORTES, E UM RECORDE NO NÚMERO DE HOMICÍDIOS POR INTERVENÇÃO POLICIAL. É POSSÍVEL ACABAR COM A VIOLÊNCIA COM UMA ABORDAGEM VIOLENTA?

Estou seguro que não. Vivi na África do Sul quando Mandela era presidente, trabalhei com ele. Temos encontrado evidências claras, a partir de estudos, de que violência repete violência. Não há sociedades violentas de famílias pacíficas. Acho que não temos nos perguntado: será que nossas famílias são violentas em essência, e que replicamos no público sociedades violentas? Até que não comecemos a construir famílias e ambientes pacíficos e protetores, dificilmente vamos ter sociedades pacíficas. A violência não ajuda a transformar uma sociedade, e muito menos uma família. E o que acontece em casa é o que replicamos no espaço público, que é a cidade.

NO BRASIL, A FALTA DE POLICIAMENTO É UMA DAS PRINCIPAIS CRÍTICAS DA POPULAÇÃO. QUAL É O PAPEL DA POLÍCIA EM UMA CULTURA DE PAZ?

A polícia devia ser uma força civil comprometida com outro tipo de necessidade, mais educativa, de formação, acompanhamento e prevenção. Deveria encontrar um jeito diferente de exercer a autoridade, mais pelo respeito e pelo reconhecimento dos cidadãos do que pela força. Cada vez mais deveríamos tender a desarmar as forças de segurança e torná-las forças mais civis, de controle e acompanhamento da sociedade e dos cidadãos. Mas isso vai levar um tempo. De fato, as orientações políticas, agora, vão ao contrário disso, com Jair Bolsonaro no Brasil, Donald Trump nos EUA e outros. Acredito que o que fazem é gerar mais violência, de formas mais agressivas. Temos de nos perguntar quais são as raízes estruturais da violência. Por que os cidadãos, nossos irmãos, pessoas da nossa cidade, acabam exercendo a violência por qualquer motivo que seja? Eles não vieram em uma nave espacial, em um óvni, de outro planeta, e são violentos porque vêm destinados a isso. São as próprias sociedades que criam a violência. E enquanto não nos fizermos essa pergunta, não só não vamos resolver, como vamos querer eliminá-los, inclusive através do extermínio. Mas não vamos eliminar a causa estrutural, e assim sempre vão emergir novas formas de violência.

POR QUE A RESPOSTA VIOLENTA À VIOLÊNCIA TEM TANTO APELO JUNTO ÀS PESSOAS?

O que é atrativo é o poder, não a violência. E a violência, especialmente através das armas, é um mecanismo de acesso ao poder. O poder sobre o outro, para controlar a vida do outro, o espaço do outro, os lugares do outro. Armas são um meio para ter poder. E o poder exercido pela violência é a pior droga da humanidade. É a droga mais perigosa, inclusive quando se chega a ela pelas vias democráticas.

QUAIS SÃO OS RISCOS DA BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA?

Tornar a violência natural é perigoso porque lhe dá um lugar na cultura. E uma vez que se assume isso como normal é difícil fazer mudanças culturais. Leva décadas. A única maneira de mudar é com educação e formação cultural e cidadã, e leva gerações para fazer transformações.

BRASIL E COLÔMBIA ESTÃO ENTRE OS PAÍSES QUE MAIS MATAM MULHERES. COMO A COLÔMBIA TEM ENFRENTADO A VIOLÊNCIA DE GÊNERO?

Só recentemente começamos a entender a delicadeza desse problema, e estamos começando a desenhar políticas públicas para evitar o feminicídio. Sociedades machistas como as nossas são onde a violência contra a mulher é mais fácil de ser vista, porque os lugares onde a autoridade se exerce pela força são onde a mulher é mais propensa a ser a ser vítima. Tem a ver com o imaginário de masculinidade que temos. Masculinidades que acreditam que têm direitos e privilégios sobre a mulher e que, com todo o respeito, parecem do tempo das cavernas. Sociedades como as nossas têm de fazer exercícios de educação profundos para construir novas masculinidades que entendam que os homens são iguais às mulheres. Não em termos de identidade, mas em termos de direitos fundamentais e oportunidades.

A CORRUPÇÃO É UM PROBLEMA ESTRUTURAL NA POLÍTICA BRASILEIRA. COMO COMBATÊ-LA?

Como combater a corrupção? (Risos.) Para responder isso, tem de fazer um doutorado... Não só no Brasil, na Colômbia também, e acredito que em todo o mundo. Há um grande mestre, Antannas Mockus (matemático, filósofo e educador, prefeito de Bogotá por dois mandatos) que nos ensinou que o público é sagrado. Acho que problema da corrupção tem a ver com termos privilegiado os interesses privados sobre os coletivos. Aí é muito fácil ter corrupção, porque seu objetivo fundamental é o lucro individual e pessoal em cima do interesse coletivo. As cidades e nações têm de retornar ao seu princípio fundamental, que é entender que somos coletivos. O que ocorre é que nas últimas décadas nossa formação tem sido sempre direcionada a primar o individual sobre o coletivo, e claro que aí emerge a corrupção, inclusive naturalizada, e torna-se cotidiana.

PARECE QUE AS MUDANÇAS NECESSÁRIAS SÃO DIFÍCEIS DE SE FAZER.

As coisas mais importantes da vida são difíceis. Mas precisamos combater a corrupção antes que ela termine tendo um impacto ainda mais negativo sobre as culturas das sociedades.

O BRASIL VIVE UM MOMENTO DE POLARIZAÇÃO POLÍTICA. COMO SUPERAR AS DIFERENÇAS PARA CONSTRUIR UMA NAÇÃO QUE CRESÇA E ENFRENTE AS ADVERSIDADES SEM VIOLÊNCIA?

O primeiro problema não é a polarização política, mas a polarização social. Não nos demos conta que geramos sociedades extremamente segregadas. A mesma coisa acontece na Colômbia: todos acreditam que a polarização política é um problema, e é parte de uma problema maior, que é que temos gerado sociedades divididas. E o que vamos obter disso são políticas extremas, que não vão ao encontro da criação de confiança, mas de divisões e de luta para exercer o poder. É um tema delicado e complexo, que nos toma muita energia para entender, porque é muito fácil responder à polarização com o ódio. Mas é só a partir de maneiras mais afetivas de se aproximar do outro, de aceitá-lo como ele é, que vamos construir pontes que reivindiquem a integração. Temos que construir sociedades integradas. Se criamos sociedades para sentir que uns são melhores do que outros e têm mais privilégios do que outros, se nossas famílias seguem replicando que há alguns que têm mais direitos que outros, teremos sociedades divididas que jamais deixarão de ser um fracasso.

BRUNA VARGAS

24 DE NOVEMBRO DE 2018
DRAUZIO VARELLA

CIRURGIA BARIÁTRICA NO CONTROLE DO DIABETES


As técnicas progrediram das simples reduções das dimensões do estômago para as reduções associadas a "desvios" do trânsito intestinal e das secreções biliares e pancreáticas necessárias para a digestão dos alimentos. Esses procedimentos, que causavam tantas complicações até a década de 1990, hoje são realizados com índices de mortalidade comparáveis aos das grandes cirurgias abdominais.

As cirurgias bariátricas são indicadas para a redução do peso corpóreo nos casos de obesidade refratária às mudanças do estilo de vida e aos medicamentos. Para evitar indicações abusivas, as associações médicas brasileiras e internacionais estabeleceram critérios rígidos baseados no Índice de Massa Corpórea (IMC). O IMC é calculado dividindo-se o peso corpóreo (em quilogramas) pela altura (em metros) elevada ao quadrado.

O consenso inicial era considerar a possibilidade de operar apenas os pacientes com IMC igual ou maior do que 40 kg/m2. Em seguida, essa indicação foi estendida para aqueles com IMC de pelo menos 35 kg/m2, que apresentassem problemas médicos como diabetes, doença coronariana, hipertensão grave, apneia do sono, limitações ortopédicas etc.

Nos últimos 20 anos, diversos ensaios clínicos demonstraram que esse tipo de intervenção não apenas provocava perdas de peso significantes e duradouras, mas tinha grande impacto no controle da glicemia nos pacientes com diabetes do tipo 2 (o mais comum), muitos dos quais ficavam livres dos remédios que haviam tomado durante anos.

Apesar dos resultados contundentes, os médicos demoraram pelo menos duas décadas para aceitar que uma intervenção cirúrgica fosse capaz de curar diabetes. A relutância em aceitar o óbvio tem uma explicação simples: todos nós aprendemos na faculdade que diabetes é incurável.

Em 2012, foram publicados dois estudos muito bem conduzidos, nos quais ficou demonstrado que a cirurgia bariátrica é mais eficaz no controle do diabetes do que as medidas convencionais de dieta, atividade física e medicamentos. Esses resultados despertaram a curiosidade dos especialistas: se é assim, a cirurgia não deveria ser indicada mais cedo no curso da enfermidade?

Um grupo sueco acaba de publicar no The New England Journal of Medicine um estudo prospectivo iniciado em 1987, em que 1.658 pacientes obesos submetidos à cirurgia bariátrica (diversas técnicas) foram comparados com um grupo de 1.771 obesos tratados com dieta, atividade física e medicamentos.

Os participantes tinham entre 37 e 60 anos de idade. Os homens apresentavam IMC acima de 34 kg/m2, e as mulheres, acima de 38 kg/m2. No início do acompanhamento, nenhum deles tinha diabetes. Cerca de dois terços dos participantes não entraram na análise final por não terem completado os 15 anos de evolução.

Entre os que foram seguidos por esse número de anos, 502 desenvolveram diabetes: 392 no grupo controle e 110 no grupo submetido à cirurgia. A diferença em favor da cirurgia foi altamente significante: redução de incidência igual a 78%. O valor do IMC inicial não fez diferença nos resultados finais; o tipo de técnica operatória também não.

Diabetes é uma doença que progride lentamente, na qual a sensibilidade à insulina e a capacidade de produzi-la diminuem com o tempo. O estudo sueco sugere que cirurgias bariátricas podem impedir que as anormalidades do metabolismo da glicose progridam para a instalação do diabetes.

Apesar dos resultados intrigantes, é impraticável pretender prevenir diabetes por meio de cirurgia entre os milhões de obesos do mundo inteiro. No Brasil, praticamente metade da população adulta está acima do peso saudável, número que cresce a cada censo. Há 12 milhões de brasileiros com diabetes.

DRAUZIO VARELLA


24 DE NOVEMBRO DE 2018
JJ CAMARGO

QUALQUER DESATENÇÃO

A gente sabe tão pouco do que se passa na cabeça das pessoas, mesmo daquelas - ou principalmente daquelas - que supomos conhecer. E talvez o mais desafiador do convívio esteja exatamente no imprevisto que tantas vezes resulta na sensação para lá de desconfortável de que não conhecemos a criatura de quem nos considerávamos íntimos.

Estas descobertas podem ser amargas e explosivas, deixando a sensação de terra arrasada depois de nos transformarem em terra.

Muitas vezes, os mais perspicazes anteveem a notícia ruim pela linguagem corporal, mas quase sempre a palavra é o instrumento indispensável para remover o pino da desgraça. Alguns dão a notícia aniquiladora sem nenhuma emoção, o que significa uma mistura de crueldade com experiência maligna. Em escala crescente, situam-se os sádicos que não conseguem evitar um esboço de riso, que tentam conter para cumprir as recomendações do manual de demissão, mas não conseguem dissimular aquele deslumbramento que o exercício da maldade confere ao sociopata. Outros, com um leve resíduo de humanidade, desviam o olhar, porque, circunstancialmente, imaginaram-se do lado de lá.

Dar notícia ruim é tão desconfortável que, nos EUA, existem empresas com profissionais treinados na arte de demitir, que circulam pelo país cumprindo a sua trágica missão.

Na escola, é comum que o adolescente desenvolva uma palidez de morte quando a professora, com um risinho enviesado, pergunta: "Quantas matérias você supõe que ainda será possível recuperar, meu querido?".

No trabalho, as frases emblemáticas como "Precisamos rever as metas" ou "A empresa está passando por um momento difícil" põem a vítima no cadafalso, talvez ainda com a corda frouxa, mas já no pescoço. Porque nem o mais confiante dos evangélicos se animaria em pensar: "Que bom que o chefe resolveu ouvir minha opinião sobre esta crise!".

Talvez a mais benigna das utilidades de discutir a relação, esta que é, de longe, a mais chata das convocações que a mulher pode fazer no casamento, tenha esta perspectiva: reduzir o impacto de uma conversa que muitas vezes começa amistosa até o outro descobrir que sua amada está usando um colete de explosivos. Numa discussão amorosa, os especialistas confirmam que o mais confiável prenúncio de cataclismo é a surpreendente ausência de lágrimas, que, no passado, tantas vezes escorreram pela cara, sem a preocupação de borrar a pintura, porque naquele momento só pretendiam funcionar como um desesperado pedido de socorro.

Na iminência de uma tragédia afetiva real, a falta de lágrimas, alertam os experts, significa: controle emocional completo, portanto, prepare-se para o pior. De qualquer maneira, independentemente do tipo de relação, pessoal ou profissional, todo comunicado que lhe pareça absolutamente surpreendente significa apenas que você, há muito tempo, está desatento com seus afetos. E no amor, como já alertou o Chico daquela época em que ele sabia escolher as companhias: "Qualquer desatenção, faça não! Pode ser a gota d?água!".

JJ CAMARGO

24 DE NOVEMBRO DE 2018
MÁRIO CORSO

Diploma de Sientista Social

Nós, do Instituto Pykaretha (do sânscrito, aquele que persegue o caminho da luz), temos diplomado sientistas (aqueles que sentem) sociais faz anos. Nosso lema é ir aonde a sabedoria espontânea se mostra, aonde nossa verdade se revela.

Começamos reconhecendo sientistas sociais de botequim, categoria mal- afamada. Preconceituosamente, tendemos a julgar as pessoas não pela profundidade de seus argumentos, mas de onde vem o discurso e se estão, ou não - dado que nos parece irrelevante -, sob influência alcoólica.

Neste momento da história, dada a contingência da Revolução Digital, temos diplomado sábios de Facebook, do Twitter, do Instagram e, principalmente, do WhatsApp. Especialmente pessoas que têm talento nato, aquelas que não precisam de outras fontes, fora sua excelsa sabedoria, para dar opinião sobre tudo e qualquer coisa. Pessoas que nasceram sabendo, que dispensam estudo, para as quais é desnecessário saber outras línguas, conhecer bibliografias especializadas. Pessoas que são capazes de nortear-se apenas por fragmentos da realidade, porque sabem deduzir o todo de pequenas partes. Esses sábios sensitivos conseguem narrar o que nos acomete e fornecer certezas sobre os caminhos do porvir.

Nascemos para você que, sem dominar a regra de três, desfila argumentos da mecânica quântica. Quem disse que para entender a física atual precisamos de matemática? Enfim, somos para você, que sem ter lido nada de coisa nenhuma, percebe os segredos do universo e revela sua sapiência, não contaminada por estudos e dados do mundo real. Você que tem a grandeza de dividir isso com todos os que se prestam a ouvir.

Conseguiremos seu diploma certificado e emoldurado em letras douradas, em troca da denúncia, óbvia, mas sempre é bom lembrar: que os jornais só contam mentiras e cientistas são todos ideológicos. De que você divulgue que todos os que tentam desautorizar suas convicções com elementos tão fortuitos e relativos como dados e estatísticas são criptomarxistas que tendem a confundir nossa mente pura e querem envenenar-nos com pesquisas e argumentos científicos, nos quais não temos nenhum motivo para crer.

Não se deixe enganar pela turma da Ursal. Eles querem que não percebamos a força do globalismo (inclusive, tentam confundir-nos falando em globalização). Esse tipo de pensamento, que nos afasta de Cristo, da Virgem Maria e das evidências da presença de ETs, coloca nossas famílias em riscos seriíssimos de dissolução moral, ao pregar a devassidão da ideologia de gênero.

Pela módica quantia de centenas de reais, dependendo do grau (mestre, doutor, pós-doutor, MBA ou PhD - veja o catálogo), enviamos por sedex seu diploma de Sientista Social Emérito em Rede Social e Assemelhados. Aproveite, chance única!

MÁRIO CORSO

24 DE NOVEMBRO DE 2018
OPINIÃO DA RBS

O DESAFIO DA EDUCAÇÃO

As prioridades na área de ensino não estão em questões polêmicas, que só contribuem para mascarar as falhas e as soluções, mas em deficiências preocupantes nos níveis de aprendizado

Confirmado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, o futuro ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, tem currículo intelectual alentado e boas chances de impulsionar uma área relacionada diretamente a outras das quais depende o futuro imediato do país. Entre elas, estão inovação, ética, retomada da economia e até mesmo prevenção da violência. Mas é preciso ir bem além da pauta educacional que ganhou ênfase durante a campanha e não se inclui, de fato, entre as questões emergenciais do ensino: a escola sem partido e o ensino do respeito à diversidade nas escolas. São temas relevantes, mas não prioritários.

A educação brasileira só avançará, aproximando-se dos padrões de qualidade necessários para o país crescer de forma sustentável, quando forem colocadas em prática alterações profundas na forma como é gerida hoje, privilegiando acima de tudo a formação do aluno. Filósofo e professor, mas sem maior experiência como gestor, o novo ministro será responsável por um dos maiores orçamentos do governo federal. 

Além de buscar maior eficiência no uso de verbas, precisará enfrentar também distorções crônicas, incompatíveis com uma realidade de penúria no setor público. Entre os mais desafiadores, estão as aposentadorias precoces, que vêm se mantendo ao longo dos últimos governos por falta de disposição dos gestores públicos de se confrontar com corporações.

Um dos responsáveis pelo nó na área educacional é o desequilíbrio financeiro que drena recursos preferencialmente para o Ensino Superior, deixando a Educação Básica em segundo plano. O futuro ministro precisará também valorizar os professores, não só financeiramente, mas com providências que contribuam para maior reconhecimento a essa atividade fundamental. 

É importante que o escolhido para gerir a pasta possa enfrentar saídas de imediato para o Ensino Médio, que se constitui hoje num dos principais gargalos do aprendizado. Desde já, o novo responsável pela área precisa pensar também em alternativas para o fato de menos de um terço das crianças de até três anos se encontrarem hoje em creches.

As prioridades na área de ensino não estão em questões polêmicas, que só contribuem para mascarar as falhas e as soluções, mas em deficiências preocupantes nos níveis de aprendizado. O país não pode se conformar com os níveis insuficientes de tantos alunos em leitura e matemática. Enquanto distorções como essa não forem atacadas, dificilmente a atividade econômica conseguirá registrar o crescimento necessário para gerar mais riqueza e oportunidades de emprego. 

OPINIÃO DA RBS

24 DE NOVEMBRO DE 2018
GERAL

Torneiras secas expõem crise em Gramado

CIDADE DA SERRA, que enfrenta problema crônico de abastecimento, sofreu colapso no sistema. Agora, calcula prejuízos

Destino de 6 milhões de visitantes ao ano, Gramado enfrenta crise de água há mais de década. Porém, nos últimos dias, o desabastecimento chegou ao limite: a cidade completou dois dias sem água nas torneiras, levando ao fechamento de restaurantes, à desistência de turistas, à revolta de moradores e a um decreto de calamidade pública pela prefeitura.

O colapso começou na madrugada de quarta-feira, quando a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) interrompeu o abastecimento para uma obra no sistema. Técnicos iriam interligar uma adutora para aumentar em 30% a vazão de água, mas um registro rompeu e secou a cidade.

- Foi um infortúnio incomum, mas que, às vezes, acontece - explica Eduardo Carvalho, diretor de operações da Corsan.

Devido ao desabastecimento, escolas suspenderam as aulas e postos de saúde precisaram providenciar galões para manter os atendimentos. No setor de turismo, hotéis tiveram de recorrer a caixas d?água e restaurantes decidiram interromper as atividades.

- A economia da cidade parou. Foi um verdadeiro caos - resume o vice-prefeito de Gramado, Evandro Moschem (MDB).

Para os gramadenses, o cenário acentuou-se porque a cidade está lotada para as atividades do Natal Luz - período que chega a atrair 1 milhão de pessoas. Movido pelo turismo, o restaurante especializado em fondue Chalezinho das Hortênsias calcula prejuízo de 400 jantares pelas duas noites de portas cerradas.

- Até viemos trabalhar, mas era impossível abrir - conta Carlos Ramos, garçom no estabelecimento.

Recepcionista de um hotel na área central, Guilherme Machado precisou, nos últimos dias, tomar banho no serviço. No empreendimento, uma caixa de água reserva salvou funcionários e hóspedes.

Os efeitos da "estiagem" espalharam-se às fábricas de chocolate da serra gaúcha. A Lugano, por exemplo, dispensou os funcionários na quinta e na sexta-feira.

- Gramado está pagando pelo seu crescimento. Tudo tem de ser acompanhado de infraestrutura - avalia um dos proprietários da Lugano, Francisco Terres da Luz.

PROMOTOR PREVÊ CRISE NOS PRÓXIMOS ANOS

A Corsan conseguiu restabelecer o serviço no fim da tarde de quinta-feira, quase 40 horas depois de sua interrupção. Porém, nem todos receberam a água de imediato (leia ao lado).

Hoje, Gramado desenvolve-se em ritmo chinês - a estrutura cresce 8% ao ano, segundo a prefeitura. Em atividade, são 180 hotéis e 170 restaurantes.

Firmado em 2004, o contrato com a Corsan tem duração de 25 anos. Insatisfeito com a carência de investimentos que acompanhem o ritmo acelerado de investimentos, o vice-prefeito defende a sua revisão e a implantação do Plano Municipal de Saneamento e Abastecimento aprovado pela Câmara de Vereadores em 2016.

Desde o ano passado, o contrato é alvo de ação civil pública. Responsável pelo processo, o promotor Max Guazzelli chegou a pedir a rescisão do acordo:

- O município nunca fiscalizou, e a Corsan nunca investiu. O resultado é esse. Com a quantidade de empreendimentos sendo licenciados, se nada for feito, viveremos verdadeira crise nos próximos quatro anos.

DÉBORA ELY

24 DE NOVEMBRO DE 2018
GERAL

Banho é cortado e lençóis não são trocados

Mesmo com o conserto da adutora e a retomada do bombeamento para os canos, parte dos moradores de Gramado, na serra gaúcha, seguiu sem água na sexta-feira. De acordo com a Corsan, eram casos isolados onde o fornecimento demora mais a chegar.

Entre os principais impactados, estão os moradores e comerciantes dos bairros Dutra, Floresta, Moura, Piratini e Várzea Grande. Nessas regiões, historicamente, a água termina antes e retorna depois.

Abaixo de sol a pino, as comunidades receberam a visita de caminhões-pipa. Ao longo do dia, os veículos repetiram a viagem entre Três Coroas, onde são abastecidos, e Gramado para distribuir 5 mil litros por imóvel - pelos cálculos de proprietários de hospedagens lotadas, quantidade insuficiente para sobreviver ao fim de semana.

QUEIXAS DE TURISTAS E AMEAÇA DE PROCESSO

Localizada no bairro Floresta, a Pousada Luar Serra assistiu à desistência de seis casais. Aos que resistiram, os donos tiveram de alertar que lençóis não seriam trocados e banhos seguiam impossibilitados.

- É constrangedor. Dá vontade de fechar as portas e ir embora - reclamou um dos proprietários, Pedro Tavares Júnior, enquanto um caminhão-pipa estacionava na calçada. - Olha o quanto estou pagando pelo vento - completou, ironizando a sua última conta da Corsan, no valor de R$ 660.

Uma de suas vizinhas, Elisabete Benetti, conta que precisou se desdobrar em esclarecimentos para os hóspedes cariocas e nordestinos. De alguns, ouviu queixas e, inclusive, ameaças de processo.

Já a proprietária da pousada Aardvark Inn adiantou-se. Uma semana antes, quando soube da obra programada pela Corsan, Grasiane Mossini comprou duas caixas d?água e conseguiu evitar o prejuízo de perder turistas. Para este final de semana, aos 80 hóspedes acomodados em seus 30 apartamentos, orientou o "uso racional":

- Esse colapso resume-se à falta de gestão. Sabiam que iria acontecer.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018



Democracia, identidade e política no Fronteiras 

Com chave de ouro, o cientista político e professor universitário Mark Lilla, da Universidade de Columbia, e o filósofo, colunista e professor Luiz Felipe Pondé participaram do encerramento da temporada de conferências 2018 do consagrado Fronteiras do Pensamento. Nesse momento em que estamos, foi oportuno e emblemático o encontro, para falar de democracia, ceticismo, pessimismo, identidades, papel da imprensa, atitudes dos jovens, redes sociais, solidão na atualidade e outros temas altamente relevantes e impactantes para nós, para o Brasil e para o mundo. 

Lilla falou de nosso tempo de ideologias, de como vivemos isolados e individualistas e do nosso alto grau de ressentimento e de como nos sentimos tão facilmente ofendidos. Lilla enfatiza como nos fixamos em políticas identitárias ao invés de nos preocuparmos mais com solidariedade, cidadania e outros valores capazes de enfrentar as diferenças. Para ele, os jovens pensam mais em questões pessoais de gênero, por exemplo, ao invés de se preocuparem com crises econômicas e política externa. 

Pondé falou da necessidade de mediar conflitos, da necessidade de sermos maduros em relação à democracia, o regime menos imperfeito. Falou de usarmos as redes sociais com mais proveito para algum entendimento entre grupos e pessoas tão divididos e para construir um convívio menos danoso, um convívio democrático e mais harmônico possível entre pessoas que pensam diferente. 

Pondé enfatizou que a imprensa precisa ser menos partisan, ou seja, menos partidária, sectária, obsessiva e que necessita ser cética, analisar, refletir e fazer comparações. Pondé falou que, além da necessidade de sermos mais maduros, devemos começar nossa educação a partir de nossas casas. 

Enfim, após análises de momentos e pensadores do presente e do passado, Lilla e Pondé nos convidam a refletir e agir em relação a um mundo e a habitantes preocupados demais com questões de grupo, de identidade e de egos excessivamente inflados, gigantes e hipersensíveis. Egos que não cabem nem no majestoso Beira-Rio, um dos estádios mais bonitos do mundo, ou o mais bonito, para muitos. 

Vamos ser democratas também quanto a futebol, até utilizando, em alguns casos, a famosa democracia corintiana. Para que a milenar democracia se reinvente e não acabe tão cedo, é preciso, realmente, pensar e agir em termos de cidadania, solidariedade, respeito ao outro e valores que possibilitem o melhor relacionamento no regime em que a "tirania da maioria" substituiu a antiga "tirania do rei". 

A imprensa tem um papel essencial nisso e deve vigiar e informar quanto às pessoas e aos acontecimentos. Deve exercer seu papel de "gatekeeper", de filtro e de partícipe indispensável da democracia, sem submeter-se a partidos, ideologias, sectarismos e pressões indevidas. 

As redes sociais têm uma importância nunca vista e imaginada, e isso é um convite para usá-las de modo menos violento, danoso e deletério. 

A propósito... 

Não podemos ser totalmente otimistas, oba-oba e achar que encontraremos o regime perfeito e acabado, que seremos felizes para sempre num mundo encantado. Não podemos ser céticos a ponto de não encontrarmos solução alguma. 

Precisamos exercer toda a democracia possível, com cidadania, solidariedade e não devemos esquecer que gostar mesmo dos outros ou de suas ideias é mais verdadeiro quando os outros e suas posições são diferentes das nossas. Infelizmente não podemos amar a todos, uns aos outros, como pretendeu Jesus, com ótimas intenções. 

O ser humano é complicado e a democracia idem. Mesmo sem sair abraçando, beijando e amando os vizinhos, devemos lembrar que estamos no mesmo barco e que devemos evitar as violências ao máximo. A vida e a liberdade agradecem. (Jaime Cimenti) - 

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2018/11/657681-crime-na-porto-alegre-da-belle-epoque.html)


Crime na Porto Alegre da Belle Époque 

O consagrado e premiado jornalista e escritor Carlos Rafael Guimaraens Filho, nascido em Porto Alegre em 1956, que usa o nome profissional Rafael Guimaraens, é autor de 15 obras, que se notabilizaram pela ênfase na construção da memória, especialmente quanto a épocas, locais e personagens de nossa Porto Alegre. A publicação 20 relatos insólitos de Porto Alegre, do autor, venceu na categoria especial do Prêmio Minuano de Literatura. Com grande trabalho de pesquisa e base em muitas leituras e entrevistas, Guimaraens já nos trouxe a Capital no tumultuado 1961; 

o Teatro de Arena; a enchente de 1941 e outras obras que nos permitem conhecer nosso passado para nos entendermos melhor e para que possamos projetar o futuro que almejamos. Fim da linha (Libretos, 268 páginas), romance com fundo histórico do autor, mostra sua nova e boa incursão na ficção, seara na qual já brilhou com o romance Tragédia da Rua da Praia, de 2005, que recebeu o prêmio O Sul. 

O romance tem por subtítulo O crime do bonde e mostra episódios ambientados nos bastidores políticos da República Velha, na vida boêmia e cultural do Rio de Janeiro do início do século XX, na Porto Alegre na belle époque e nas rudes disputas do interior gaúcho, nas quais uma tênue fronteira separa a degeneração e a dignidade. No fim de uma manhã ensolarada, no Centro de Porto Alegre, uma impressionante engrenagem de coincidências vai unir os destinos de três personagens. 

Guiados pela compulsão e aprisionados em um teatro de olhares e despistes, assédios e esquivas, ciúme e cobiça, eles irão enfrentar um trágico acerto de contas no fim da linha do bonde circular. Antes do desfecho fatal, o leitor saberá sobre os três protagonistas e seus passados. "Este livro expõe o grito mudo, feminino, impotente há séculos. Dallila, Eduardo e Carlos: um caminho traçado por décadas para um momento crucial. 

Assim como em um concerto, da overture uníssona ao grand finale, o resultado é uma hecatombe, que ressoa entre nós. Para sempre?", escreve Clô Barcellos, na apresentação. Como se vê, mais uma contribuição importante de Rafael Guimaraens para a literatura brasileira e, em especial, para nós, leitores do Sul, que conhecemos bem sobre os muitos embates de nossas trajetórias. 

Lançamentos 

O velho marinheiro - a história da vida do Almirante Tamandaré (L&PM, 360 páginas), do reconhecido escritor Alcy Cheuiche, apresenta a biografia de Joaquim Marques Lisboa (1807-1897), almirante protagonista dos acontecimentos mais importantes de quase um século de história brasileira. Dom Pedro II e Princesa Isabel estão na obra, patrocinada por FHE, Poupex, Sapura e Praticagem do Brasil. 

Jovens guerreiros e guerreiros de luz - Por que o sistema não respeita os adolescentes? (BesouroBox, 192 páginas), do médico e escritor Mauro Kwitko, precursor da Psicoterapia Reencarnacionista, trata com profundidade de juventude, obediência e rebeldia, numa sociedade onde os jovens devem conviver com os dilemas de aceitar o sistema e ao mesmo tempo apresentar modificações. 

Racismo à luz do Direito, Sociologia e Criminologia (Martins Livreiro Editor, 820 páginas), do professor-doutor, promotor público, jurista e escritor Vilson Farias, apresenta longas e profundas análises e reflexões sobre um tema vital para a sociedade brasileira. O livro é importante para o mundo jurídico e para a sociedade em geral, por sua densidade e amplitude. - 

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2018/11/657681-crime-na-porto-alegre-da-belle-epoque.html)

23 DE NOVEMBRO DE 2018
DAVID COIMBRA

O anfitrião traído

O Brasil é um dos países mais racistas do mundo? Não. Não é.

Alguém pode dizer que não devo nem tenho como avaliar isso, já que sou branco, de ascendência europeia, não africana. Mas tenho e devo, sim. Tenho porque, se você é dotado de alguma imaginação e empatia, pode compreender como os outros se sentem. Devo porque tudo o que interessa à raça humana me interessa.

É evidente que, para a vítima da discriminação, o pior tipo de racismo é aquele que ela vivencia, seja onde for. Então, para o negro brasileiro, o pior racismo é o do Brasil. Para o americano, o dos Estados Unidos. Mas tento generalizar, não particularizar.

Não digo que no Brasil não exista racismo. Seria uma bobagem, racismo existe em todo lugar. Mas as relações no Brasil são mais fluidas. Sei que isso faz parte de um estereótipo, que é quase uma caricatura.

Só que é verdade.

Outro dia, estava em um restaurante brasileiro aqui da região, o Oliveira?s. Na mesa ao lado, espalhavam-se umas 12 pessoas, todas obviamente brasileiras. De repente, começa algo que é quase impossível de acontecer entre americanos: um dos homens daquela mesa começou a puxar conversa comigo. Era um tipo simpático, alegre, meio gordinho. Chamava-se Vinicius e era negro. Negro, não: mulato.

A propósito, devo fazer um necessário e breve interregno: há quem hoje critique essa palavra, mulato, para definir o mestiço de negro com branco, alegando que mulato vem de mula, animal híbrido de cavalo com jumenta. É uma crítica boba. Alguns historiadores contestam que mulato venha mesmo de mula, mas, ainda que venha, trata-se de erro e injustiça recuar à infância de uma palavra para avaliar o seu caráter.

Por exemplo: anfitrião parece uma palavra boa, não é? Claro que sim: você fala anfitrião e pensa em alguém que o recebe com hospitalidade em sua casa. Acontece que o anfitrião que deu origem à série era um general grego chamado? bem, Anfitrião. Ele havia se casado com Alcmena, uma mulher belíssima. Porém, antes da lua de mel, Anfitrião foi mandado para a guerra. Lá foi ele, matar outras pessoas, enquanto Alcmena ficou esperando pela consumação do amor.

Quem não esperou foi Zeus, o pai dos deuses, que fez lá um encantamento e ficou igualzinho a Anfitrião. Preparou-se para descer do Olimpo, mas, antes, chamou outros dois deuses e deu-lhes ordens: disse para Apolo não deixar o sol nascer por três dias e para Hermes se transformar em Sósia, o escravo de Alcmena. A ideia era deixar Hermes-Sósia vigiando, enquanto ele se repimpava com a formosa mortal por três noites. E foi o que aconteceu. Alcmena até desconfiou: o corpo e a voz eram de Anfitrião, mas havia algo estranho no comportamento dele. No entanto, como ela queria muito estrear nas lides do amor, entregou-se a ele sem restrições. E, durante todo aquele tempo, 72 horas completas, Zeus se regalou com a mais linda das humanas.

Depois que ele se foi, saciado e feliz, o verdadeiro Anfitrião chegou. Achava que Alcmena iria atirar-se em seus braços, mas a recepção dela foi tépida, como se o tivesse visto no dia anterior. Aí foi Anfitrião quem ficou desconfiado e, depois de algumas investigações, descobriu a verdade: havia sido corneado por um deus. Furioso, decidiu queimar Alcmena viva, mas Zeus mandou uma chuva caudalosa e apagou a fogueira. Foi o que bastou para Anfitrião compreender que estava se comportando como um imbecil, perdoar a mulher e, enfim, ter uma noite de loucuras e prazeres inenarráveis com ela. Do relacionamento de Alcmena com Zeus nasceu ninguém menos do que Hércules, meio humano, meio divino. Além disso, Sósia e Anfitrião se transformaram em substantivos.

Se você fosse malicioso, diria que anfitrião, na verdade, vem de corno manso e não aceitaria ser chamado dessa forma quando recebe alguém em sua casa. Conclusão: nada de ter preconceito contra a origem das palavras.

Encerrado o necessário e nem tão breve interregno, voltemos ao meu vizinho de mesa, o mulato Vinicius. Ele me disse algo interessante, entre caipirinhas geladas e porções generosas de feijão tropeiro. Disse que os americanos não o discriminam nem parecem ter preconceitos, mas que é impossível se misturar com eles. Isso me pareceu importante, esse termo, misturar-se. Direi o porquê. Mas amanhã.

DAVID COIMBRA

23 DE NOVEMBRO DE 2018
OPINIÃO DA RBS

UM PACTO PELA TRANSFORMAÇÃO

Cada vez mais, grandes centros urbanos, como a capital dos gaúchos, precisam aliar a suas vocações naturais ações inovadoras e sintonizadas com o momento

O Pacto Alegre, resultante da Aliança para Inovação, lançado nesta semana, é uma iniciativa relevante para todos os gaúchos que vivem ou têm na capital do Estado uma referência de estudo, trabalho ou prestação de serviços. A própria Aliança para Inovação, formada em abril de 2018, já significou um passo além, ao unir com o mesmo objetivo esforços coordenados de três grandes instituições de ensino - PUCRS, UFRGS e Unisinos -, além da prefeitura e de representantes dos setores público e privado. Porto Alegre reúne todas as condições para se transformar numa referência internacional em inovação, empreendedorismo, cultura e qualidade de vida. A soma de esforços com essa intenção pode contribuir para racionalizar e apressar o processo.

Na nova etapa, com a participação do especialista espanhol Josep Piqué, responsável pelo programa de revitalização de Barcelona, entre outras metrópoles, a iniciativa vai além. O objetivo, agora, é fazer com que Porto Alegre possa avançar de forma sistematizada. Serão 75 entidades que, até março do próximo ano, buscarão alternativas com projetos baseados na inovação, no empreendedorismo e na criação, com potencial para gerar emprego e renda. Acima de tudo, é importante que essas ações possam propiciar mais qualidade de vida para quem tem algum tipo de relação com a Capital.

Devido à proximidade, as cidades são o ente da federação com o qual os cidadãos têm mais contato direto. O acelerado processo de urbanização e de desindustrialização enfrentado por grandes centros urbanos, incluindo Porto Alegre, fez com que o poder público, de maneira geral, não conseguisse acompanhar no mesmo ritmo essas transformações. Daí a urgência na busca de esforços coordenados para facilitar alternativas. Entre elas, estão as baseadas em lançamento de startups e a facilidade de acesso a serviços públicos com ênfase na tecnologia, sempre buscando mais qualidade para os cidadãos.

Cada vez mais, grandes centros urbanos, como a capital dos gaúchos, precisam aliar a suas vocações naturais ações inovadoras e sintonizadas com o momento para propiciar uma vida melhor a todos. O acordo em favor de Porto Alegre é uma iniciativa que precisa contar com o apoio de toda a sociedade para facilitar os resultados. Os próximos meses, quando as propostas estarão em discussão, serão decisivos para reconfigurar Porto Alegre, adequando-a às novas exigências.

23 DE NOVEMBRO DE 2018
+ ECONOMIA

BANRISUL TENSIONA TRANSIÇÃO NO RS



Apesar do recado do governador José Ivo Sartori, de que é ele que manda até 31 de dezembro, o governador eleito Eduardo Leite insiste na revisão da medida que retira R$ 353,3 milhões em recursos do Banrisul. Ontem, aproveitou uma pergunta sobre o déficit para voltar ao tema:

- O governo não respondeu, simplesmente ignorou a manifestação que fizemos formalmente pedindo que fosse prorrogada essa operação para o próximo ano. Fica o apelo público ao governo para que reveja o encerramento dessa operação em benefício da sociedade gaúcha, porque não podemos queimar patrimônio para pagar despesas correntes e perder a oportunidade de utilizar esses recursos de forma melhor no futuro.

O banco estadual cancelou a venda de ações da Banrisul Cartões e confirmou a redução de capital, que equivale à retirada de R$ 353,5 milhões da instituição. Cerca de metade (R$ 176 milhões) vai para o Piratini, que tem 49,89% do capital total. A outra metade será paga a acionistas privados. No Twitter, o governador José Ivo Sartori reiterou que seguirá tomando "todas as atitudes que são de responsabilidade de um governador até o último dia do mandato".

Entenda a controvérsia

1. Governo do Estado e Banrisul desenharam a venda de ações da área relacionada ao Banricompras. Essa parte seria separada e teria cerca de metade das ações colocadas no mercado. O Piratini arrecadaria ao menos R$ 1 bilhão, para amenizar a crise fiscal.

2. Estava prevista uma redução de capital (encolhimento) do Banrisul. Era uma forma de permitir que o governo ficasse com a sua parte do dinheiro sem pagar tanto imposto. Em assembleia-geral extraordinária, foi fixado o valor de R$ 353,3 milhões. Caso houvesse a venda, a expectativa era captar ao menos R$ 2 bilhões.

3. A operação deveria ter ocorrido até agosto, mas, como a bolsa de valores atravessou fase ruim, as ações perderam valor. Vender nesse momento seria mau negócio. As gestões do banco e do Estado poderiam até ser acusadas de má gestão, por negociar abaixo do valor patrimonial.

4. A operação foi adiada e depois, cancelada, mas a redução de capital foi mantida. O governo do Estado, que precisa de dinheiro, argumenta que não haveria tempo hábil para convocar outra assembleia-geral extraordinária para prorrogar a medida.

NADA MUDOU NA SITUAÇÃO FISCAL DO BRASIL, MAS ONTEM CAIU A FICHA. INQUIETO COM SUCESSIVOS ADIAMENTOS DA VOTAÇÃO DA PERMISSÃO PARA LEILÕES DE ÁREAS DE PRÉ-SAL QUE HOJE SÃO DA PETROBRAS (CESSÃO ONEROSA), O MERCADO FINANCEIRO LEVOU O DÓLAR DE VOLTA A R$ 3,80. AINDA ESTÁ LONGE DO PICO DOS R$ 4,19, MAS COMEÇA A CHEGAR PERTO.

MARTA SFREDO

23 DE NOVEMBRO DE 2018
POLÍTICA +

COMO FOI A ESCOLHA DO SECRETÁRIO DA FAZENDA

Agora é oficial: o futuro secretário da Fazenda do Rio Grande do Sul chegará pelo Salgado Filho, como disse no dia 15 de novembro o governador eleito Eduardo Leite, sem indicar qual seria o aeroporto de origem.

O economista Marco Aurelio Santos Cardoso, 43 anos, vem do Rio de Janeiro, em voo de uma hora e meia de duração.

Funcionário de carreira do BNDES, o escolhido é o atual superintendente de Crédito. Trocará uma instituição que nada em dinheiro por uma secretaria com a marca da escassez. Por cinco anos, foi secretário da Fazenda de outro Eduardo, o Paes, na prefeitura do Rio, em um tempo de bonança pré-Olimpíada. Saiu em 2016 para assumir a área de crédito do BNDES a convite da então presidente Maria Silvia Bastos Marques.

Leite conheceu Marco Aurelio há mais de três anos, mas foi o economista Aod Cunha, secretário da Fazenda no governo de Yeda Crusius, quem agora fez a ponte entre os dois, depois de consultar especialistas em finanças públicas para encontrar o perfil adequado.

Pelo menos três nomes de peso ajudaram nessa definição: a secretária-executiva do Ministério da Fazenda, Ana Paula Vescovi, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga e o economista Fábio Giambiagi. O nome de Marco Aurelio teve o endosso de Giambiagi e do economista Sérgio Guimaraes, que já trabalhou como subsecretário de Joaquim Levy no governo do Rio e conhece o trabalho do futuro secretário.

O ex-prefeito Eduardo Paes é só elogios ao antigo colaborador.

- É um cara excepcional. Seriíssimo. Seria meu secretário da Fazenda se tivesse sido eleito - disse o ex-prefeito do Rio a uma pessoa da confiança de Aod.

O convite foi aceito há duas semanas, depois de uma série de conversas com o governador eleito por telefone, Skype, videochamada e WhatsApp. Além das conversas pessoais, pesou na decisão de aceitar o convite a entrevista que Eduardo Leite deu à jornalista Miriam Leitão, na Globo News, depois da eleição. Economistas do Rio e de São Paulo ficaram positivamente impressionados com a clareza do tucano. Nos grupos de WhatsApp, o comentário era de que quem conversava com Leite e com o governador eleito do Rio, Wilson Witzel, concluía que "a diferença é da água para o vinho".

ROSANE DE OLIVEIRA

23 DE NOVEMBRO DE 2018
EDUARDO BUENO

Paulatinamente

Meu amor é eloquente como o silêncio e murmura feito as fontes do Bizâncio. Meu amor sorri como as flores e se veste de três metros de meio-dia. Meu amor se despe, insinuante qual as ondas, e então pisca de soslaio, igual Gioconda. Meu amor desliza sem sobressaltos, de pés descalços, ao som e à luz do céu profundo, tão prenhe de ideias e ideais. Por isso, por vezes, meu amor perde o sono e o siso: solta chispas e faíscas, lança flamas e se inflama da mais pura violência - virulência poética, é claro. Meu amor não precisa dizer que é fiel: ela é transparente como água, transcendente feito o fogo. Meu amor é acetinada qual veludo e fragrante feito o lírio. Mas prefere violeta - nas roupas, ao crepúsculo, nas almofadas junto à lareira que crepita.

Meu amor é um cartão-postal numa gaveta antiga: traz notícias das veredas do sertão ou das alamedas carcomidas de Veneza. Meu amor passeia calada na calçada-passarela e desfila ruidosa na passeata contra hipócritas de gravata. Meu amor cita poetas obscuros de versos transluzentes. Meu amor escreve, desenha, verseja, corta, recorta e transmuta e transita entre palavras que vem e vão, tão raras e tão claras. Meu amor dá caras às vogais e conduz sem escolta um exército de consoantes para exercícios em escolas bipartidas. Meu amor aponta e aposta nos pontos sem nós e os trança entre nós já que os ata aos feitos e aos fatos. Meu amor é um artefato.

Meu amor prevê o futuro nas frestas do passado. Meu amor sussurra e balbucia, seduz e ressona e raciocina, sentada, silente, ciente, eterna e efêmera feito véu. Ela não liga para o sucesso - mas ele não para de ligar para ela. Ela não liga para o fracasso - mas ele não sabe como fazê-la bailar ao seu compasso. Meu amor ergue castelos de cartas e faz estátuas de palitos qual andaimes de bambu no centro de Hong Kong. Meu amor subiu ao topo do Empire State, na palma da mão do King Kong.

Meu amor traja lilás e flerta com guapuruvus e jacarandás quando, rumo ao trabalho, cruza pela praça. Ela se alimenta de livros, mas não é traça; sorve o vinho e ergue a taça. Ela traceja, trafega e graceja diante das desgraças. Ela não pisca nem boceja, só cintila. Ela não julga, não espera ou se exaspera; não reclama nem condena, mas se arrisca e segue à risca a trilha das pontes levadiças que se erguem quando passa. Meu amor tem dedos longos, braços esguios, cabelos finos e pescoço de cisne. Meu amor maneja a pena com as asas da imaginação. Meu amor é uma catedral de desejos, plácida ao luar na ardência do deserto. Meu amor se encaixa e se enrosca, mas não se enrola nem se engasga. Ela se traja de pétalas e se alça acima das nuvens de fuligem. Meu amor é centaura: galopa galante quando dispara certeira suas setas. Meu amor, meia nove, é hoje sete vezes sete e festeja singela seus 49.

Meu amor tem um anel de ouro trançado que reluz quando ela sorri. Fui eu quem dei. E fui eu que a apreendi.

EDUARDO BUENO