sábado, 27 de junho de 2020



27 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Você prefere ser Caetano Veloso ou Gilberto Gil?

Gilberto Gil completou 78 anos de idade nessa sexta-feira, e o Chico Buarque lhe fez uma linda homenagem em forma de vídeo. Ele, Chico, reuniu um grande grupo de artistas e todos cantaram Andar com Fé, música que o Gil compôs nos anos 1980. "Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá".

Participaram, entre tantos, o próprio Chico, as filhas do Gil, Caetano Veloso, Zeca Pagodinho e até o americano Stevie Wonder, que mandou um "Happy birthday to you" em uma belíssima voz feita de metal e mel.

Contei sobre o vídeo no Timeline, da Gaúcha, e o nosso mago da técnica, o Augusto Silveira, botou para rodar Drão. Nem ouvi mais o que o Potter e a Kelly falavam, o som do Gil me mesmerizou, me fez flutuar.

Essa Drão é uma obra-prima da música brasileira. Não só por sua beleza, mas por seu significado. Gil a compôs para sua ex-mulher Sandra quando eles estavam se separando. Drão era o apelido dela, porque Maria Bethânia a chamava de "Sandrão".

Gil fez um poema delicado para falar de um momento duro. Gil besuntou com doçura a amargura da separação. Comparou o amor dos dois com uma semente, que tem de ser enterrada para nascer e tornar-se uma planta robusta e fecunda:

"Drão, o amor da gente é como um grão. Uma semente de ilusão. Tem que morrer pra germinar".

Só por esse poema já mereceria todas as homenagens, o Gilberto Gil, mas ele produziu muito mais. Além disso, trata-se de uma pessoa afável, amorosa, obviamente boa. Seu maior amigo, Caetano Veloso, é mais agressivo, às vezes o Caetano se irrita e morde. Eu, se pudesse, queria ser como o Gil, mas sei que sou mais como o Caetano.

Aliás, tenho visto os vídeos do Caetano no Instagram. São engraçados. Quem grava é a mulher dele, Paula Lavigne, que nunca aparece, só faz perguntas ou narra o que está acontecendo. Ela é ótima nisso, porque é meio irônica, não leva a coisa muito a sério, ela provoca o Caetano e, vez em quando, caçoa dele. Caetano em geral está sentado em um sofá amarelo, não raro de pijama e chinelos. A Paula atira-lhe umas gozações, como se fosse uma rede de pescar, e ele se deixa capturar, responde com uma inocência e uma solicitude admiráveis. Outro dia ela contou que, nesse tempo de confinamento, o Caetano se distrai comendo paçoquinha. Ele adora paçoquinha. Aí o Caetano está lá, comendo paçoca no seu sofá amarelo e ela vem com o celular, brincando:

"Olha o Seu Paçoca..."

O Caetano parece incomodado no começo, mas não se abala, continua comendo a sua paçoca e respondendo às perguntas da Paula.

São as coisas boas da pandemia, isso de as pessoas que a gente aprecia a distância exporem um pouco de suas intimidades. Passei a gostar mais do Caetano depois de assistir aos vídeos da Paula. Ao vê-lo assim, terno e pacífico, no recôndito do lar, ele me pareceu ser menos o Caetano que eu supunha conhecer e mais o Gil que existe na minha imaginação. Gilberto Gil, esse homem amável, capaz de assumir de público seus erros, como fez em seu doce Drão:

"Os pecados são todos meus, Deus sabe a minha confissão", ele admitiu na música, e acrescentou: "Não há o que perdoar, por isso mesmo é que há de haver mais compaixão".

Mas o melhor é o fechamento da poesia, que dá o sentido ao que quer dizer o Gil: que os amores verdadeiros não morrem, eles se transformam:

"Quem poderá fazer

Aquele amor morrer

Se o amor é como um grão

Morre, nasce trigo

Vive, morre pão".

Bonito. Bem que eu queria ser mais Gil.

DAVID COIMBRA

27 DE JUNHO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

NOVOS OÁSIS

Uma semana atrás, festejamos os 50 anos do tricampeonato mundial de futebol em 1970, no México, e, ao mesmo tempo, passaram-se 16 anos da morte de Leonel Brizola, em 2004. O notório é sempre atual e, assim, as duas datas seguem vigentes.

O Mundial de 1970 deu ao Brasil a posse definitiva da Taça Jules Rimet, em ouro maciço, mas cujo valor intrínseco ia além e era o "tri". Eu estava lá, no estádio Azteca, e assisti à conquista, da qual hoje só resta nostalgia. Até o futebol (mesmo com exceções) imita o caos político.

A taça de ouro já não existe. "Desapareceu" da sede da CBF, no Rio, num roubo simbólico do próprio Brasil. Tudo em surdina, mas com a conivência de muitos. A taça foi derretida num alto-forno e sumiu até a bela ourivesaria.

Antes, no México, ao festejar o jogo, um jornalista italiano me advertiu: "Cuidado. Mussolini usou a vitória na Copa de 1939 e tornou-se mais feroz". A profecia se fez verdade aqui e, com a euforia, o general-ditador Emílio Medici aprofundou o terror.

Naquele 1970, fazia seis anos que Brizola se exilara. Saiu do país após o golpe militar de 1964, quando sua casa em Porto Alegre foi invadida e saqueada pelos golpistas. Até a roupa pessoal foi rasgada com tesoura, sob pretexto de que "podia esconder dólares".

Em 1959, Brizola começa no RS um governo inovador. Dota o Rio Grande de eletricidade, estradas e comunicação telefônica, constrói escolas, faz do magistério uma profissão digna e cria a pesquisa agrícola, como no trigo. Inicia a reforma agrária, além de ações de infraestrutura que, depois, passam ao setor privado. A cana do litoral vira usina de açúcar.

Em 1961, na renúncia do presidente Jânio Quadros, ele se agiganta: derrota o golpe de Estado dos três ministros militares, que impedia a posse do vice-presidente João Goulart. Os adeptos da ditadura jamais o perdoariam.

Ao voltar do exílio, é o único a falar da defesa do meio ambiente, das "perdas monetárias" geradas pelas multinacionais e de criticar a submissão da mulher na sociedade.

No deserto político atual, falar de Brizola leva a um oásis.

Mas surgem, também, novos oásis. Os presidentes dos dois maiores bancos privados do país, Cândido Bracher, do Itaú, e Octávio De Lazari, do Bradesco, alertaram sobre as terríveis consequências da degradação ambiental no Brasil.

Em reunião do setor bancário em São Paulo, Bracher advertiu que "as consequências ambientais são mais lentas do que as da covid-19, mas duram mais e são difíceis de reverter". Lembrou que 29 grandes investidores de oito países europeus ameaçam retirar-se do Brasil se o governo não mudar a política que destrói a Amazônia.

Lazari, do Bradesco, alertou que "muito se fala em aquecimento global e sustentabilidade, mas se faz pouco". O inesperado é um oásis florido.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES


27 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

PAZ NA EDUCAÇÃO

As primeiras entrevistas do novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli da Silva, permitem ter a esperança de que o obscurantismo e o conflito permanente que marcaram o primeiro ano e meio da pasta no governo Jair Bolsonaro ficaram para trás. Ao contrário principalmente de seu antecessor, Abraham Weintraub, que gastava mais horas e energia em temas ideológicos e discussões em redes sociais, Decotelli sinaliza que irá buscar a pacificação nas relações do MEC com os demais atores do ensino e fará uma gestão norteada por aspectos técnicos. Mesmo que ainda se conheça pouco sobre as ideias do novo ministro, é preciso reconhecer que as impressões iniciais são positivas.

Os últimos 18 meses foram para a educação brasileira um tempo perdido. As deficiências do ensino no país não começaram em janeiro de 2019, mas foram agravadas pela perda de foco, que deveria estar voltado a uma reflexão que levasse a uma profunda transformação em uma área em que o Brasil tem sérias deficiências, que comprometem o seu futuro. Não se espera que Decotelli tire da cartola soluções para reverter imediatamente um quadro que é resultado de décadas de desleixo. Mas a disposição ao diálogo que o novo ministro tem reiterado indica que está compromissado em construir de forma colaborativa saídas que, alguns anos à frente, melhorem o desempenho dos alunos de escolas e universidades do país.

A educação, como disse Decotelli em entrevista à Rádio Gaúcha, transforma sonhos em realidade. O poder do conhecimento é capaz de tanto proporcionar uma existência digna para os indivíduos, pela melhor compreensão do mundo e aquisição de habilidades que levem a uma vida profissional mais promissora, quanto de alterar o destino de uma nação. Não há país desenvolvido no mapa do mundo que não tenha priorizado a educação como uma base para o progresso. A rápida evolução tecnológica exige cada vez mais trabalhadores preparados para não apenas acompanhar, mas para serem protagonistas dessa transmutação constante. A demográfica, por outro lado, impõe uma mão de obra cada vez mais produtiva. Outro aspecto em que o Brasil vai mal.

Embora não se reivindiquem de Decotelli respostas para todas as carências da educação brasileira, muitas com soluções apenas de longo prazo, há problemas prementes que precisam ser atacados. Os desafios, que já seriam enormes em tempos normais, ganham um peso ainda maior com a pandemia que levou à paralisação de aulas presenciais, afetando principalmente jovens e crianças carentes, mas também traz sérias dúvidas sobre o ano letivo. Um dos mais urgentes é um cronograma para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o que prometeu para os próximos dias. 

Terá ainda que trabalhar pela aprovação do novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos profissionais da Educação (Fundeb) e pela implementação da Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio. Ex-presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, Decotelli conhece a área. Com a ajuda do currículo e da formação sólidos, da disposição ao diálogo e com superação, poderá suplantar as dificuldades que agora se apresentam para minimizar os impactos da pandemia e começar a recuperar o terreno perdido para dar a largada em um processo contínuo e consistente de melhoria da qualidade do ensino brasileiro.



27 DE JUNHO DE 2020
DESAFIOS DO MEC

Novo ministro da Educação quer visitar universidades

O novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli da Silva, falou na sexta-feira, em entrevista ao programa Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, sobre os seus desafios à frente da pasta. O principal deles, afirmou, é "transformar a educação brasileira em um mecanismo de diálogo".

- A educação transforma sonhos em realidade. Todos que estudam têm expectativa de uma vida melhor - declarou.

Decotelli foi anunciado na quinta-feira pelo presidente Jair Bolsonaro. Ele sucederá a Abraham Weintraub, que, depois de 14 meses como titular da pasta, teve a saída anunciada no último dia 18.

- Ele (Bolsonaro) pediu para arregaçar as mangas e priorizar gestão e diálogo - disse Decotelli.

Questionado sobre como será sua relação com os reitores das universidades federais, foco de tensão durante a gestão de Weintraub, o novo ministro reforçou a necessidade de conversa.

- Diálogo, gestão, integração e visita. Eu quero visitar as universidades e conversar, ponderar, criar (...). Conte comigo para dialogar, buscar o contraditório. Sou do ambiente de pesquisa, educação e ambiente acadêmico. Sala de aula é minha forma de ser, é minha forma de convicção pessoal. Irei às universidades, elas virão até mim. Vamos buscar resultados quantificáveis - afirmou.

Decotelli também foi perguntado sobre o papel da chamada "ala ideológica" do governo sobre a gestão do Ministério da Educação (MEC). O novo ministro, contudo, reforçou seu perfil técnico:

- Sou da ala técnica, acadêmica. Não tenho preparo para fazer idiossincrasias ideológicas. Sou gestor. Enquanto estiver na estrutura operacional, esse é o meu projeto. Não tenho condições de fazer além disso.

Enem

Ele prometeu apresentar até a próxima terça-feira um cronograma para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A expectativa é de que sejam anunciadas as novas datas das provas, que foram adiadas de 30 a 60 dias:

- A prioridade absoluta é estabelecer um cronograma a ser divulgado intensamente.

Inicialmente, o Enem estava previsto para 1º e 8 de novembro. Devido à pandemia, o MEC prorrogou o exame. O governo lançou consulta pública aos estudantes que vão fazer as provas, mas nenhum anúncio sobre as novas datas foi feito. A enquete segue aberta até a próxima terça-feira.

- Na segunda ou terça-feira, já terei estudado e já terei tomado pé. Sábado e domingo ficarei estudando. Então, poderei responder de maneira objetiva e com cronograma definido - disse.

Outra prioridade do ministro é o novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), que expira em 31 de dezembro deste ano. O fundo foi criado em 2006 e serve para garantir investimentos na Educação Básica brasileira, incluindo creches, pré-escolas, Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA).

- Tenho uma reunião agora (manhã de sexta-feira) sobre o novo Fundeb. Estaremos reunidos com a equipe de Fundeb, temos reunião em seguida sobre as questões envolvendo o Enem. Estou indo pela primeira vez trabalhar integralmente e tomar pé (da situação) - relatou Decotelli.

O ministro não disse se o governo vai apresentar uma proposta própria para o Fundeb. Atualmente, há propostas de parlamentares sobre o tema tramitando no Congresso. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), já anunciou que deve pautar para as próximas semanas uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que torna o Fundeb permanente. O Senado também discute proposições.

27 DE JUNHO DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

Rebeldes sem causa


Quando seu bisavô lutou contra escravocratas e os radicais da Ku Klux Klan, quando seu avô lutou contra nazistas e comunistas, e quando seu pai conseguiu prosperar por esforço próprio, deve ser muito duro constatar que sua grande "causa" é colocar um homem dentro de um banheiro feminino!

O mundo é um lugar hostil, o default é a miséria e o tribalismo, o desafio é superar tal condição. A escravidão foi a regra durante séculos, e graças aos valores ocidentais chegou ao fim - mas não em todos os lugares. Ideologias totalitárias como o nazismo e o comunismo derramaram rios de sangue no século 20, e jovens foram enviados para lutar em outro continente para preservar a liberdade. Que coragem! Que sacrifício!

Aí, o sujeito de 20 anos, bancado pelo pai, estudante de uma universidade que custa os olhos da cara, descobre que é a melhor alma que já vagou pela Terra porque marcha ao lado do Black Lives Matter, grupo marxista, derrubando estátuas de Washington ou Colombo. A elite branca culpada cospe em policiais negros em nome do combate ao racismo. Seria até cômico, não fosse tão trágico.

A culpa é dos pais, que não souberam impor limites, e dos professores e da mídia, que estimularam uma narrativa invertida que faz o aluno se sentir vítima de um legado terrível e opressor do "homem branco malvado". Em vez de ser grato por viver na era mais próspera e livre da História, essa turma busca "lugar seguro" contra "microagressão", sentindo-se ofendida por tudo e demandando reparações e privilégios.

"A cultura em muitos campi universitários tornou-se mais ideologicamente uniforme, comprometendo a capacidade dos scholars de buscar a verdade e dos alunos de aprenderem com uma ampla gama de pensadores", constatam Greg Lukianoff e Jonathan Haidt em The Coddling of the American Mind. Os autores apontam a excessiva fragilidade das novas gerações, moldadas nas universidades e nas redes sociais, que criaram uma "cultura de denúncia" que serve para constranger publicamente quem não reza da mesma cartilha politicamente correta.

Em vez de aprender com a História, querem apagá-la. São mimados e ingratos em busca de um pretexto para destruir. Rebeldes, mas sem causa.

RODRIGO CONSTANTINO

27 DE JUNHO DE 2020
INFORME ESPECIAL

A Igreja e a pandemia

Se existe no Rio Grande do Sul uma instituição disciplinada e colaborativa em tempos de pandemia, é a Igreja Católica. Aos 2 mil anos de idade, está transformando limitações em oportunidades de evolução aqui no Estado.

A Arquidiocese de Porto Alegre, liderada por Dom Jaime Spengler, suspendeu a realização de missas públicas em 16 de março - a primeira capital brasileira a tomar essa atitude. Decretou o fechamento das igrejas em 20 de março e seguiu as orientações de distanciamento para o retorno, um mês depois. Novamente fechou as igrejas em 20 de junho, obedecendo à classificação de bandeira vermelha do modelo do governo do Estado. Sem reclamar. Ao contrário: sempre afirmou que a preservação da vida é a sua prioridade, apesar dos eventuais prejuízos materiais.

O Mensageiro da Caridade, por exemplo, enfrenta uma crise sem precedentes. A solução: mobilizar a comunidade, o que vem acontecendo.

Adoções no RS

Boa parte das 850 crianças e adolescentes acolhidos em abrigos e casas-lar de Porto Alegre está com sua situação jurídica indefinida e paralisada devido à pandemia, já que os processos são físicos e não há tramitação desde que a covid-19 limitou o trabalho da Justiça.

Na busca por encontrar uma solução, a promotora Cinara Vianna Dutra Braga enviou ofício ao Tribunal de Justiça pedindo a implementação imediata do processo eletrônico na 2ª Vara da Infância e Juventude da Capital.

Sem a papelada em dia, as crianças e adolescentes não podem ter seus nomes incluídos no cadastro de adoção. O desembargador Antonio Vinicius Amaro da Silveira, presidente do Conselho de Comunicação do TJ, explica que a digitalização dos processos está sendo agilizada com recursos humanos próprios e terá o reforço de uma empresa escolhida por licitação, mas que ainda espera o final das etapas legais de contratação para iniciar o trabalho. O desembargador afirma também que a área da infância e da juventude está na lista das prioridades.

sexta-feira, 26 de junho de 2020



26 DE JUNHO DE 2020

DAVID COIMBRA

O voto de Lya

A escritora Lya Luft, dias atrás, revelou ter votado em Bolsonaro e admitiu que está arrependida. Pronto. A nova patrulha ideológica caiu sobre ela como a nuvem de gafanhotos que assola a Fronteira Oeste. Uns foram condescendentes, outros debocharam, muitos a insultaram.

Não votei em Bolsonaro. Ao contrário, cheguei a escrever uma coluna cujo título era exatamente: "Não vote em Bolsonaro". Mas já me arrependi de outros votos, em outros candidatos. É assim mesmo. A palavra "voto" vem do latim. Significa promessa, desejo. Nem sempre se cumpre.

Mas Lya Luft foi criticada como se a obrigação dela fosse votar no candidato dos críticos. No caso, críticos vinculados à esquerda. O raciocínio é o de sempre: "Nós somos moralmente superiores. Quem não está conosco, não nos apoia ou não nos aplaude é menor. Se for uma pessoa com algum conhecimento, está a serviço de interesses escusos. Se for ignorante, está sendo manipulado por quem está a serviço de interesses escusos".

Em resumo, se você não aplaude a esquerda você é ou canalha ou burro.

Fico pensando como é que essas pessoas, os ativistas, os militantes, os intelectuais de esquerda ainda não perceberam que foi exatamente essa forma de pensar que atirou grande parte da sociedade para a direita. Entenda: não foi apenas a corrupção. A corrupção deu a justificativa para o rompimento de quem não suportava mais a arrogância, a presunção, a intolerância dos que acham que podem julgar os outros.

Lya Luft foi julgada e, obviamente, condenada por ter votado em Bolsonaro. Se isso acontece com Lya Luft, por que não com os demais? Ou seja: temos 58 milhões de brasileiros que são canalhas ou burros. Não ocorre, a quem pensa assim, que grande parte desses 58 milhões já votaram antes, e pode ser que tenham votado nos candidatos da esquerda.

Por que eles mudaram?

Por que um homem como Bolsonaro, sem grande currículo e sem grandes qualidades, mobilizou a população brasileira? Por que ele venceu?

Para me ajudar, vou tomar emprestado um trecho de um artigo que meu colega e amigo Marcelo Rech publicou em Zero Hora no remoto 2015, quando Bolsonaro não passava de uma miragem:

"Vendo-se desamparado, o cidadão que não dorme enquanto a filha não chega é seduzido pelas respostas mágicas, ao mesmo tempo em que vibra intimamente quando a polícia passa fogo nos bandidos.

O cardápio que engorda a direita no Brasil, porém, se estende além da insegurança. Em vastas porções da população, há uma saturação com o manto de permissividade que agasalha desde a desfaçatez com o dinheiro público nos altos escalões até os protestos que se arvoram no direito de bloquear a entrada de uma metrópole.

A sensação de bagunça e descontrole só faz crescer o bolo extremista. O desejo de ordem e da força sobre todas as coisas é fermentado a cada vez que se cassa o direito de ir e vir, a cada greve de funcionários já bem pagos que se valem de usuários humildes como forma de pressão, a cada bandido recém solto que mata um inocente ou a cada vez que os direitos dos criminosos ganham mais atenção do que os direitos das vítimas."

Junte essa situação a uma casta intelectual que aponta o dedo para o pagador de impostos e acusa: "A culpa disso é sua, você que é integrante da elite branca perversa, que não gosta de pobres e negros, que é fascista e racista".

Misture tudo. O que sai do cadinho, depois do amálgama?

Jair Bolsonaro. Não foi Lya Luft quem elegeu Bolsonaro. Foram os críticos da Lya Luft.

DAVID COIMBRA

26 DE JUNHO DE 2020
ARTIGOS - Médica, psiquiatra e psicanalista idetezbizzi@gmail.com

FÔLEGO CURTO

Não existe uma tonalidade para "ser humano", mas várias. Na versão mais prosaica, somos primatas, truculentos na busca por sobrevivência e perpetuação da espécie. Na versão mais evoluída, raciocinamos, sublimamos os instintos animais e formamos vínculos afetivos. A distância oceânica que separa o Homo sapiens selvagem do civilizado pode ser grosseiramente resumida em uma palavra: consideração.

Respeito às circunstâncias externas, registro de memória, capacidade de observação crítica nos são atributos únicos, no reino animal, mas nem por isso constituem habilidade corriqueira. Sob o vértice do desenvolvimento mental, a psicanálise reconhece inúmeros entraves ao amadurecimento saudável. Segundo Melanie Klein, por exemplo, o bebê, em seu estado natural de fragilidade, é particularmente inapto a lidar com percepções da realidade externa e interna incômodas. Em sua fantasia, porém, a "realidade psíquica" pode ser moldada à revelia dos fatos, constituindo o que a psicanalista austríaca-inglesa chamou de "defesa maníaca". Empregando "controle, desprezo e triunfo", ao desconsiderar árduas percepções, o lactente é transportado, do sentimento de pequenez original frente às circunstâncias, à fantasia de grandiosidade, da percepção de impotência à sensação de onipotência.

Presente nos primórdios da vida, esse mecanismo é estruturante e datado. Alçado ao funcionamento de grandes comunidades, porém, a recusa e distorção ilusória dos fatos reais, como o atual descontrole da pandemia de covid-19 em solo brasileiro, constitui mórbido descaso à vida e à ética humana. Uma nação que não se pauta por evidências científicas, no século 21, e que alimenta a negação maníaca de seus cidadãos é assombrosa e distópica. 

Um governo que, mais do que isso, tenta manipular evidências, é um governo perverso. Entre o mar e a rocha, a população brasileira fica à deriva, buscando a bússola do bom senso empírico e intuitivo. A quem é dado escutar e enxergar, não escapa a percepção de que inúmeros cidadãos se evadem ao uso de máscaras em público, indiferentes à consideração ao próximo. Acéfalos e à deriva, encontramo-nos, nessa jornada de combate ao vírus, empregando "meias medidas" e colhendo grandes perdas, exatamente no momento em que aqueles que têm se disposto ao distanciamento necessário, tolerando prejuízos físicos, emocionais e financeiros sérios, começam a perder fôlego.

26 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

A incompreensão do Supremo

São lamentáveis os resultados de dois julgamentos finalizados na quarta-feira pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que tendem a agravar a situação das finanças públicas dos entes federados e perpetuar desigualdades, reforçando a impressão da existência de duas classes de trabalhadores no Brasil. Em uma das decisões, por 6 a 5 - com o voto decisivo do decano Celso de Mello -, o STF determinou que os Executivos não podem limitar repasses a outros poderes em caso de frustração de receitas previstas nos orçamentos. Na outra, com o placar de 7 a 4, impediu que Estados e municípios endividados possam reduzir salários do funcionalismo público em situações excepcionais, exatamente como a que o mundo e o país vivem agora.

A posição do Supremo mostra uma preocupante falta de dimensão histórica e de compreensão da emergência em curso. A chegada da pandemia do novo coronavírus, como é notório, afetou de maneira drástica a economia. O freio brusco na atividade vem reduzindo de forma brutal a arrecadação de impostos, recolhidos junto a empresas e cidadãos. É impossível que os ministros que votaram pela tese vencedora desconheçam esta realidade, para a qual, infelizmente, fecharam os olhos. Como a fonte dos recursos é única, a impossibilidade de remanejar verbas já escassas por certo se converterá em serviços de saúde, educação e segurança ainda mais precários para a população.

No caso do corte temporário de salários, é preciso lembrar que, na iniciativa privada, cerca de 11 milhões de brasileiros sem os mesmos privilégios do funcionalismo tiveram sua jornada e vencimentos reduzidos em até 70%, uma saída que permitiu a manutenção de postos de trabalho e evitou números ainda mais dramáticos de desemprego no Brasil. Com a decisão, o STF mais uma vez se rende ao corporativismo, em oposição aos interesses da maior parte da sociedade, e contribui para aumentar a desigualdade, como se existissem dois Brasis - sendo que um é imune a qualquer crise, mesmo em um ano em que o país caminha para ter uma queda do PIB de proporções históricas.

Em meio à desconexão com a realidade mostrada pelo STF ao manter salvaguardas, partiu do governo federal uma iniciativa que, no sentido contrário, merece aplauso por demonstrar responsabilidade e preocupação com a sustentabilidade das contas públicas. O Ministério da Economia publicou uma instrução normativa em que determina um rígido estudo de impacto de longo prazo para a realização de concursos para a contratação de servidores. A medida vai ao encontro da necessidade de se evitar a criação de certames para preencher vagas levando em conta apenas cenários mais imediatos. É preciso passar a observar mais os custos ao longo das décadas, inclusive previdenciários, considerar os ganhos de produtividade com os avanços tecnológicos e evitar contratações para funções já extintas no setor privado.

OPINIÃO DA RBS

26 DE JUNHO DE 2020
POLÍTICA +

Um presente para o novo ministro da Educação

No dia em que o presidente Jair Bolsonaro nomeou o professor Carlos Alberto Decotelli da Silva para o Ministério da Educação, o Instituto Rui Barbosa apresentou um estudo que será enviado como contribuição ao sucessor de Abraham Weintraub. O estudo Educação que Faz a Diferença (leia reportagem na página 9) identificou as melhores práticas em 118 redes de ensino, a partir de pesquisa de campo iniciada ainda em 2019, sob coordenação do conselheiro Cezar Miola, do Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul.

A pesquisa constatou que as redes que fazem a diferença na educação no Brasil usam basicamente a mesma receita: utilização de sistemas de gestão e de acompanhamento dos estudantes, suporte continuado das Secretarias de Educação, com visitas frequentes às escolas, monitoramento contínuo da aprendizagem dos alunos, investimento na gestão escolar, com estímulo ao protagonismo das escolas, oferta constante e diversificada de formação continuada de professores e cultura de observação das aulas, com retorno construtivo.

Para que tenha consequência, o estudo será encaminhado a todos os tribunais de contas. A ideia é que os auditores usem a metodologia para avaliar rotineiramente o desempenho das redes de educação.

Apaixonado pelo tema, Miola espera que o novo ministro use sua capacidade de gestão para qualificar a educação brasileira.

Miola conheceu o professor Decotelli como gestor do Fundo Nacional de Educação (FNDE) e o convidou para um simpósio em julho de 2019, em Porto Alegre. Decotelli impressionou a plateia pelo conhecimento da área e pela capacidade de comunicação, qualidades que contrastam com o obscurantismo de Weintraub, um ministro para ser esquecido.

Aliás

O Banrisul foi tema da dissertação de mestrado profissional em Administração do novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, concluído em 2008 na Fundação Getulio Vargas. O título foi "Banrisul: do PROES ao IPO com Governança Corporativa".

ROSANE DE OLIVEIRA

26 DE JUNHO DE 2020
EDUARDO BUENO

Liberdade, liberdade

Domingo passado, dormia eu sossegadamente em meu château, metido em pijamas de cetim, sob lençóis de algodão egípcio, quando, por volta das nove horas da manhã (equivalente às seis da matina, em se tratando do domingão), fui despertado de meu sono da beleza por gritos amplificados de "Liberdade, liberdade". Não achei que fosse o dia, nem o horário, mais apropriado para emitir tal clamor. Mas como a luta pela liberdade, liberdade sempre me foi cara, não me irritei - a princípio. Levantei-me, calcei as pantufas e, antes mesmo de aplicar meus cremes faciais ou sorver o suco de cranberry, abri a porta e a janela para ver o sol em raios fúlgidos brilhar no céu da pátria naquele instante.

Não precisei de nem dois minutos para perceber que tipo de liberdade estava sendo alardeada pelo carro de som e ecoada por um punhado de gatos pingados aglomerados de verde e amarelo no meu amado Parcão. A liberdade para usar cloroquina, a liberdade para negar a ciência, a liberdade para sair de casa quando ainda é hora de ficar, a liberdade para não usar máscara, a não ser à luz de tochas. Liberdade para Queiroz. Liberdade para Sara Winter. Liberdade para Weintraub. Liberdade para milicianos. A liberdade "de expressão" para pedir o fechamento do Congresso, a destituição do STF, a censura à imprensa. A liberdade para manipular ou esconder dados da covid-19, conspurcar a Lei de Acesso à Informação, publicar fake news no Diário Oficial. Liberdade para não ter ministro da Saúde, nem ministro da Educação, nem Ministério da Cultura. Liberdade para ensinar nas escolas que não houve golpe em 1964 e que a escravidão não foi tão ruim. Liberdade para atacar a liberdade.

Na minha opinião - que, aliás, sou pago para dar (ao contrário de quem a dá de graça nas "redes") -, a manifestação não foi só ruidosa e imprópria: foi desprezível. E tanto mais pois que levada a cabo no solo sagrado do velho "matto Mostardeiro", onde se erguia o glorioso Fortim da Baixada, em área que pertenceu a Laura Mostardeiro. Dona Laura, imortalizada na rua onde moro, era filha e neta de baianas. Casada com Hermetério Mostardeiro, dava festas mistas, até então inéditas na cidade, nas quais negros conviveram pela primeira vez com a elite branca em Porto Alegre. 

Acho que ela sentiria o mesmo asco que eu desses que agora profanam a palavra "liberdade". Ainda mais se fosse despertada de seu sono da beleza no domingo, após um dos saraus que agitavam seu casarão, erguido na esquina com a Castro Alves, do lado da dita Colônia Africana, mirando o futuro Parcão lá do alto, sem saber que algum dia tentariam jogá-lo tão baixo, quase arrastando junto o libertário Goethe.

EDUARDO BUENO



26 DE JUNHO DE 2020

INFORME ESPECIAL

O caso Weintraub expõe absurdos éticos do Banco Mundial

Em uma empresa privada, o passado de um candidato a colaborador importa. E muito. O setor de recursos humanos pesquisa currículos em busca de consistências técnicas e éticas. Mas não no Banco Mundial, o maior do planeta quando o assunto é fomento econômico.

O próprio presidente do comitê de ética da instituição, Guenther Schoenleitner, declarou que as avaliações do órgão que comanda são "prospectivas", ou seja, só valem a partir do momento em que um novo diretor ou funcionário for contratado. Se fosse um banco privado, suas ações despencariam na bolsa e cabeças rolariam. Mas o Banco Mundial é uma daquelas estatais pesadas e cheias de influências políticas. A diferença é que pertence a vários países, e não a um só.

Pelo que disse Schoenleitner, genocidas, ditadores, torturadores e bandidos em geral são bem-vindos, desde que tenham bons padrinhos e se acalmem depois da nomeação. Essa norma é tão absurda que atrapalha Abraham Weintraub, alvo de questionamento de servidores do banco, que não querem o ex-ministro brasileiro como colega. 

Mais lógico - e ético - seria dizer que não há condenação contra ele e que, por isso, o candidato a diretor ainda é, tecnicamente, inocente. O cargo a ser ocupado pelo apadrinhado de Jair Bolsonaro exige, de acordo com especialistas, habilidades técnicas e diplomáticas. O primeiro desafio de Weintraub nesse segundo quesito, a julgar pelas primeiras reações internas à sua indicação, será encontrar companhia para o cafezinho.

Sete free shops de cidades gaúchas são notificados

O Ministério da Justiça e Segurança Pública notificou sete free shops instalados em cidades gaúchas localizadas na fronteira com o Uruguai e com a Argentina pela suposta comercialização de bebidas alcoólicas sem as certificações exigidas.

No documento, enviado pelo Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC), ligado à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), as empresas são questionadas sobre a procedência dos produtos vendidos. É solicitada ainda a apresentação do certificado de inspeção de importação, expedido pelo Ministério da Agricultura.

A diretora do DPDC, Juliana Domingues, explica que a preocupação é com a saúde e segurança do consumidor. A atenção com a questão da saúde, diz a diretora, fica ainda maior devido à crise sanitária global causada pela pandemia do novo coronavírus.

Ela lembra que bebidas alcoólicas comercializadas nestes estabelecimentos precisam ter "informações corretas, claras, adequadas, para não induzir o consumidor a erro ou engano". As lojas francas terão ainda de prestar outros esclarecimentos sobre a regularidade dos produtos. O Conselho Nacional de Combate à Pirataria (CNCP) foi informado da ação. Tanto para acompanhar os procedimentos do Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor quanto para tomar medidas que considerar cabíveis.

Os free shops notificados ficam nas cidades de Jaguarão, Uruguaiana, Barra do Quaraí e Porto Mauá.

TULIO MILMAN

quinta-feira, 25 de junho de 2020



25 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

A peste e a praga: chegamos ao fim

Primeiro foi a peste. Agora veio a praga. Coronavírus e nuvem de gafanhotos. É o Apocalipse de João que se confirma. "Ide, despejai sobre a Terra as sete taças do furor de Deus!", ordenou a voz poderosa que saiu do Santuário, e sete anjos surgiram do Céu com sete taças, derramando as pragas do senhor sobre os corpos dos homens e a face da Terra.

E os homens adoeceram e o mar apodreceu e as águas dos rios se transformaram em sangue e o sol queimou a pele dos vivos e o Eufrates secou, permitindo a invasão dos reis do Oriente, e, por fim, o sétimo anjo despejou sua taça no ar e uma voz forte saiu do templo do trono e anunciou:

"Está feito!" Ou seja: o Campeonato Gaúcho não voltará a ser disputado e os bares seguirão vazios por toda a Eternidade, o que é muito tempo para esperar para beber chopes cremosos.

Em resumo, o que quero dizer é que minha avó estava certa: ela sempre dizia que o fim do mundo se aproximava. Pois bem. Os indícios apontam que o Dia do Juízo chegou. Ou está chegando. Poluição dos rios, aquecimento global, coronavírus e, para arrematar, esse ataque dos gafanhotos. São as Sete Pragas do Apocalipse.

Você sabia que uma nuvem de poeira maior do que os territórios dos Estados Unidos e do Canadá JUNTOS levantou-se do Saara e se aproxima da América do Sul, perigosamente?

Mais um indício! Mais um terrível indício. Haveremos de prestar contas.

Então, se for verdade, se o mundo for mesmo acabar, não temos tempo a perder. Precisamos fazer as coisas que nos faltam. Eu, aqui, tenho muitas pendências. Não poderei conhecer as Ilhas Maldivas, está difícil viajar hoje em dia - poucos voos, hotéis fechados... Não poderei comer todos os 1.500 tipos de salsichas alemãs que existem.

Ler todos os clássicos que ainda não li, talvez? É um bom projeto, mas será que terei tempo? Ulisses, de Joyce, me aguarda, mas também me desanima. Tempos atrás, li uma centena de páginas de Ulisses e parei. Não gostei. Desisti. Mas, como o livro é tão incensado, resolvi que leria mais tarde. É agora ou nunca, portanto. Mas será que devo? Virginia Woolf não gostou de Ulisses. Achou-o "intragável". Mas eu também não gosto muito de Virginia Woolf. Pensando bem, não lerei nenhum dos dois. Danem-se!

Não vou desperdiçar meus dias com autores pretensiosos ou com quem não é autor, mas é pretensioso. Não quero saber de Bolsonaro e Lula, não me importa se os comunistas ou os fascistas pretendem tomar de golpe o governo do Brasil. Vou me dedicar aos meus afetos. Ah, se pudéssemos beber chopes cremosos... Quem sabe até darei mais atenção às amenidades da poesia. Seria algo inofensivo e bom, algo pacífico, algo sereno, como ensinou Torquato Neto:

"eu sou como eu sou

pronome

pessoal intransferível

do homem que iniciei

na medida do impossível

eu sou como eu sou¶

agora

sem grandes segredos dantes

sem novos secretos dentes

nesta hora

eu sou como eu sou

presente

desferrolhado indecente

feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou

vidente

e vivo tranquilamente

todas as horas do fim."

DAVID COIMBRA


25 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

Alerta verde

Mais uma vez vem do Exterior o alerta para os prejuízos que o país pode ter em razão da política míope do governo Jair Bolsonaro em relação ao ambiente e, especialmente, à Amazônia. A advertência não é de nenhuma ONG ligada à ecologia, mas de 29 investidores globais que administram US$ 3,7 trilhões em ativos no mundo. O aviso é de que, caso o Planalto não apresente uma mudança de postura sobre os temas do desmatamento e dos povos indígenas, poderão bater em retirada do Brasil, temerosos de danos também às suas reputações. 

Seria um desastre para uma nação que, desde meados da década, atravessa uma crise econômica crônica e precisa de aportes de recursos estrangeiros para investimentos produtivos. Na carta aberta que divulgou, o grupo ressalta que gostaria de manter suas posições no Brasil, mas o desmantelamento de políticas ambientais traz uma série de incertezas que faz com que seus membros cogitem se afastar do país.

Nada arranha mais a imagem brasileira do que a péssima conduta do governo Bolsonaro nesta seara, com risco às exportações do agronegócio e, agora, um possível boicote também no direcionamento de investimentos. Muito mais do que fragilidades estruturais de qualquer país, danos ambientais são muito mais difíceis e custosos de serem revertidos no longo prazo. Goste ou não o presidente, a questão indígena e a Amazônia são dois temas que moldam a percepção sobre o Brasil mundo afora. Sempre que esses dois assuntos são mal administrados, desabam antipatias sobre o país.

Ambiente há muito deixou de ser um tema apenas de ecologistas. É uma matéria relacionada à própria sustentabilidade do capitalismo. Paira acima de partidos ou paixões políticas. É ciência pura que, se contrariada, trará prejuízos imensuráveis à saúde, ao futuro do Brasil, à economia presente, como se constata com o alerta dos investidores.

Apesar do esforço do vice-presidente Hamilton Mourão e da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, em melhorar a abordagem do Brasil em relação à Amazônia, parecem prevalecer as visões obscurantistas do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, do chanceler Ernesto Araújo e, principalmente, de Bolsonaro. O presidente comete um grave equívoco ao atribuir os reiterados puxões de orelha e as possíveis represálias externas à desinformação. Pelo contrário. São informações científicas que atestam o crescimento do desflorestamento e das queimadas, uma depredação que parece ter o endosso do Planalto pelo afrouxamento da fiscalização. O resultado, não poderia ser diferente, apenas conspurca a reputação do Brasil no Exterior.

A Amazônia está a milhares de quilômetros do Rio Grande do Sul, mas os gaúchos têm a perder com a postura temerária do governo federal. Um dos líderes do agronegócio nacional, o Estado conta com produtores rurais sérios e comprometidos com o ambiente, mas mesmo assim passa a estar sujeito a boicotes internacionais. A gigantesca floresta úmida tem ainda influência direta no regime de chuvas inclusive na Região Sul. E, como quarto maior PIB do Brasil, o Rio Grande do Sul também pode acabar perdendo oportunidades em várias áreas caso os investidores globais virem mesmo as costas para o país.

OPINIÃO DA RBS


25 DE JUNHO DE 2020
+ ECONOMIA

A perda da Ford e o Mercado Livre

A desistência do Mercado Livre de abrir um centro de distribuição em Gravataí está sendo comparada em alguns círculos empresariais à perda da Ford, no final dos anos 1990. Na época, o governo Olívio Dutra endureceu a negociação, e a Bahia escancarou as portas à montadora, causando grandes perdas ao Estado.

Embora todas as perdas sejam lamentáveis, os dois casos não são comparáveis. A General Motors acumula aportes ao redor de R$ 2,5 bilhões e tem 5 mil funcionários no complexo. O Mercado Livre nunca mencionou o investimento fixo, por se tratar basicamente de um espaço físico. Além disso, o efeito multiplicador de uma montadora na economia é muito superior ao de um centro de distribuição.

A coluna perguntou ao secretário da Fazenda, Marco Aurélio Cardoso, se algum pedido da empresa foi rejeitado:

- A nosso juízo, não. Diante da insistência para saber se há base nas especulações sobre barreiras burocráticas que a Fazenda teria exigido, Cardoso observou que não poderia avançar em temas que envolveriam sigilo empresarial:

- Não posso detalhar, salvo se a empresa se manifestar sobre aspectos específicos que pode ter levado em conta para sua decisão. Caso contrário, poderíamos expor aspectos concorrenciais e violar o sigilo de uma empresa com ações em bolsa. Tivemos diálogo muito construtivo, tanto que eles vão ampliar outros negócios.

Conforme o secretário, a Fazenda considera de "enorme importância" todos os projetos de investimento no Estado.

- Lamentamos profundamente a desistência, estou muito triste com isso. Só não é possível que esse caso vire símbolo do que não é. Por orientação do governador, desde o primeiro dia abrimos as portas da Fazenda para ouvir os empreendedores e melhorar. Não foi por falta de diálogo, nem por estar fechado em um mundo fiscalista.

E ainda fez questão de deixar o caminho aberto:

- Se o formato que o Estado ofereceu, a juízo da empresa, ainda não é o suficiente, não esgotamos as possibilidades e não fechamos nenhuma porta.

Como possível queda do PIB do Brasil em 2020 já havia aparecido antes de o FMI projetar 9,1%. Foi em relatório do banco suíço UBS, que condicionava o número à duração da pandemia até meados de 2021. Ou caso a crise política se aprofunde a ponto de provocar efeitos negativos sobre a confiança do investidor

MARTA SFREDO


25 DE JUNHO DE 2020
INFRAESTRUTURA

Senado aprova marco do saneamento

O Senado aprovou o projeto do novo marco regulatório do saneamento básico. A medida estimula a participação da iniciativa privada no setor. O projeto de lei recebeu 65 votos favoráveis e 13 contrários na apreciação ocorrida ontem à noite.

Depois de apelo do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP), os líderes partidários anunciaram a retirada dos destaques, o que possibilitou que o projeto fosse votado sem que houvesse mudanças. Já aprovado na Câmara, o projeto seguirá para sanção do presidente Jair Bolsonaro.

A proposta estabelece metas de saneamento a serem cumpridas em até 12 anos. O custo estimado da universalização dos serviços, segundo o relator Tasso Jereissati (PSDB-CE), é de R$ 700 bilhões no período.

O novo marco do saneamento básico tem criado expectativas para a economia, sobretudo em momento à esperada retomada pós-pandemia do coronavírus. O ministro Luiz Ramos (Secretaria de Governo) afirmou ontem que a nova lei poderá gerar até 1 milhão de empregos em 5 anos.

Economia

A nova legislação, em razão das carências do setor, é vista como ponto de estímulo do crescimento. Dados mais recentes do Instituto Trata Brasil estimam que ao menos 100 milhões de brasileiros não têm acesso à coleta e tratamento de esgoto. Isso ajuda na proliferação de doenças, argumento que fortaleceu a votação do projeto na pandemia.

O contexto atual deu força à proposta entre senadores. O projeto estava parado na Casa desde o fim do ano passado. Após pedidos da equipe econômica e do ministro Paulo Guedes (Economia), o presidente do Senado delegou para Jereissati a missão de construir o relatório.

Jereissati levou menos de uma semana para sacramentar no parecer o mesmo texto que havia saído da Câmara. Entre os pontos a serem firmados em contratos está a cobertura de 99% do fornecimento de água potável e de 90% para coleta e tratamento de esgoto à população. O projeto prevê que empresas privadas possam prestar o serviço. Vencedoras de licitação terão de se comprometer com metas para os próximos 10 anos.

Composto por 23 artigos, o projeto do novo marco regulatório do saneamento deve ser sancionado sem demora pelo presidente. A ideia dos aliados de Bolsonaro é que as medidas possam vigorar já em 2021 para ajudar na retomada da economia, além de ampliar o acesso a água e esgoto no país.

O líder do PT, Rogério Carvalho (SE), chegou a pedir a retirada do projeto de pauta, por, segundo ele, não ter relação com a pandemia. O pedido foi negado por Alcolumbre, que resolveu colocar sua decisão em apreciação no plenário. Com isso, o projeto foi mantido em votação, por 61 votos contra 12.


25 DE JUNHO DE 2020
L.F. VERISSIMO

Mundos



Mansfield Park foi o terceiro livro da romancista inglesa Jane Austen. Publicado em 1814, foi considerado por alguns sua obra mais madura e por outros a mais chata. Para o crítico Edward Said, foi a mais típica. Said a escolheu como exemplo para a tese, incluída no seu livro Culture and Imperialism, que detonava a ideia da neutralidade moral das metrópoles diante dos horrores cometidos nas suas colônias. Para Said, não havia distância entre o claro mundo de Jane Austen e o mundo sombrio dos seus domínios, dos escravos tratados como bichos, dos nativos escravizados e das guerras sujas entre impérios.

Pensei em Jane Austen ao ler que no Museu de História Natural de Nova York iriam tirar uma estátua de Theodore Roosevelt, que está lá há anos. Não confundir o "Teddy" Roosevelt com o Franklin Roosevelt: os dois eram quase que opostos. Theodore, 26º presidente dos Estados Unidos, era um homem de ação, um caçador beirando o folclórico, e chegou a personificar a política agressiva do seu país com relação a nós aqui embaixo. Franklin foi o homem do "New Deal", o programa de recuperação econômica que tirou o país da Grande Depressão com forte intervenção do Estado em planos sociais, e que salvou o capitalismo americano dele mesmo.

Theodore Roosevelt não foi exatamente um herói nem da direita nem da esquerda ou um símbolo de qualquer outra espécie. Na estátua de bronze, de tamanho natural, Theodore vem a cavalo, imponente, seguido por duas figuras a pé, um índio e um negro. Para entender o banimento do monumento é preciso vê-lo como o Edward Said viu Mansfield Park, não com outros olhos, mas com olhos de outro mundo. Os americanos estão revendo a sua história para mudá-la. Estátuas de líderes na guerra perdida da secessão e bandeiras usadas na mesma derrota não podem mais ser ostentadas desafiadoramente, como eram. Hoje o índio e o negro que seguem atrás do Theodore significam outra coisa, outros tempos. Outros mundos. "Teddy" só teve o azar de entrar no meio da transformação.

L.F. VERISSIMO

25 DE JUNHO DE 2020
INFORME ESPECIAL

Karla Müller lança campanha para reitora da UFRGS


A diretora da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), Karla Maria Müller, está concorrendo à reitoria da UFRGS, para a gestão de 2020 a 2024. A Chapa 3: Comunidade em Movimento lançou ontem a campanha oficial e tem como candidata à vice-reitora Claudia Wasserman, professora do Departamento de História e diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

O foco da gestão da dupla será a valorização da autonomia da universidade e o fomento de políticas de assistência estudantil e de projetos voltados à sustentabilidade e à diversidade. Por causa da pandemia, todas as atividades da agenda das candidatas serão cumpridas por videoconferência.

A consulta pública à comunidade acadêmica, etapa do processo eleitoral da universidade, está marcada para o dia 13 de julho.

A melhor notícia para quem quer derrubar Bolsonaro

O Brasil é soberano, mas sua economia e, consequentemente, a sua política, dependem também de elementos externos. A eleição americana será decisiva para o nosso futuro. Vem de lá uma notícia que preocupa Jair Bolsonaro e anima seus inimigos.

O candidato democrata, Joe Biden, abriu 14 pontos de vantagem sobre Donald Trump nas pesquisas, de acordo com o NY Times. É verdade que esse jornal não é exatamente aliado do presidente e está em uma região tradicionalmente mais liberal. Mesmo assim, a tendência de queda de popularidade de Trump vem sendo detectada em múltiplas frentes. A eleição é em novembro e seu resultado pode acelerar ou frear os movimentos para derrubar o governo - daqui.

Mexer com alguém que tem um amigo forte é mais difícil. Mesmo que publicamente não interfira em assuntos internos do Brasil, é sabido que Trump e Bolsonaro nutrem simpatias mútuas e cooperam em várias áreas, entre elas a estratégia política e de comunicação do governo.

Se Trump não se reeleger, o tabuleiro planetário assistirá a uma mudança radical na sua lógica de movimentação. O Brasil é um peão, mas está perto do rei. Se Biden vencer, Bolsonaro perde força.

TULIO MILMAN

quarta-feira, 24 de junho de 2020



24 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Os monumentos que ficam e os que saem em Porto Alegre

Eu também não gosto do Andrew Jackson. Ontem, ativistas americanos tentaram derrubar uma estátua dele, em Washington. Entendo por quê: Andrew Jackson foi o presidente da Trilha de Lágrimas, que é como ficou conhecida a remoção dos índios de suas terras ancestrais a leste do Mississippi. Jackson era um típico homem do Oeste, duro, honesto, mas de poucas luzes intelectuais. Era chamado de "Old Hickory", Velha Nogueira, por sua rigidez de tronco de árvore. Foi talvez o mais encanzinado inimigo dos índios na história americana.

Mas, para o homem branco, sua administração foi boa. Tenho cá a ótima História dos Estados Unidos da América, de Morison e Commager, clássico lançado em três tomos em 1950. Os autores finalizam assim o capítulo sobre a presidência de Jackson:

"Poucos presidentes fizeram tanto quanto ?Old Hickory?, e somente Lincoln exerceu maior atrativo na imaginação popular. Andrew Jackson provou que o americano médio de caráter sólido e de senso comum podia conquistar, e estava apto a ocupar, o cargo eletivo mais poderoso do mundo. Mas todas as administrações democráticas que se seguiram à de Jackson, até chegarmos à de Wilson em 1913, foram menos democráticas que a dele".

Jackson foi um herói para o americano do seu tempo. Não é por acaso que sua efígie está impressa na nota de US$ 20. Então, alguns gostam de Jackson; outros o odeiam. Eu não odeio nem gosto. Desgosto. Mas não deporia a sua estátua. Talvez, para não ferir suscetibilidades, a mandasse para um museu.

Eis todo o problema dessa reavaliação dos monumentos históricos: quem tem o poder de decidir o que fazer com eles? Quem não gosta de Getúlio Vargas, por ele ter sido ditador, pode pulverizar a pedra em que está anexada a placa com sua carta-testamento, na Praça da Alfândega, em Porto Alegre?

Espero que não. O governo brasileiro nomeou como presidente da Fundação Palmares um homem que repudia Zumbi, que foi, bem, o líder do Quilombo dos Palmares, que dá o nome à fundação. Ele pode, esse presidente que odeia o que preside, pôr abaixo a estátua de Zumbi, em Salvador?

Espero que não. A quem daremos o poder de derrubar, remover ou manter monumentos?

Pensei muito a respeito, aqui, no recôndito do meu isolamento social, e cheguei a uma conclusão, que, modestamente, é brilhante:

Eu. Eu sou a favor de que todos os monumentos sejam submetidos a revisão histórica, desde que EU tenha o poder de decidir o que será feito com eles. Se outros quiserem ter esse poder, sou contra. Mas, como sou eu, sou a favor. Que bela solução, essa minha.

Até já adianto algumas decisões que tomarei: todas as esculturas que foram deixadas no Marinha do Brasil pelas bienais de Porto Alegre irão não para o fundo do Guaíba, onde assustariam os peixes, e sim para algum depósito remoto e hermeticamente fechado, no qual não possam ser vistas. Aquele monumento ao coronavírus, que se levanta da Rótula das Cuias, vai junto. E também a roda dentada com um carneiro no centro, que fica perto do Beira-Rio. Ainda não resolvi o que fazer das estátuas do Fernandão e do Renato. Estou pensando. O resto vou deixar como está. Hoje estou de bom humor. Hoje.

DAVID COIMBRA

24 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

MOMENTO CRÍTICO

A despeito de grandes sacrifícios a que o mundo todo se submete desde os primeiros meses do ano, o planeta vive seu momento mais crítico no enfrentamento da pandemia. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a contagem da Universidade Johns Hopkins, referência nas estatísticas sobre a covid-19, o mundo vem registrando em torno de 150 mil casos por dia. Os aprendizados desse enfrentamento encerram uma série de divergências, como seria de esperar para uma doença que se abateu sobre a comunidade internacional de forma inédita. 

Mas um dos consensos é de que todos os planos implementados até agora preveem avanços e recuos nas medidas restritivas, conforme o novo coronavírus recrudesce ou retrocede e, sobretudo, de acordo com a capacidade de atendimento médico. Onde essa regra não foi respeitada, seja por desconhecimento, seja por irresponsabilidade, pessoas morreram em casa ou nas portas de hospitais, como já se testemunhou em cidades como a chinesa Wuhan, a equatoriana Guayaquil e em Manaus.

O efeito sanfona do abre e fecha de atividades é uma nova realidade com a qual o mundo e os gestores públicos ainda estão se familiarizando. Até que surja uma vacina ou tratamento efetivo, mais do que medidas legais ou administrativas, é a responsabilidade coletiva que será capaz de dominar o vírus para ser possível retomar um nível praticável de normalidade.

Infelizmente, responsabilidade e disciplina não são traços da cultura geral brasileira. Do presidente da República, que insiste em dar maus exemplos de comportamento, aos bairros de pequenas e grandes cidades brasileiras, é ainda surpreendente o número de pessoas que desdenham da doença. O não uso de máscara e a insistência em ignorar o distanciamento social formam condições propícias para o vírus se espalhar. A maior parte dos shoppings, comércios, restaurantes e das indústrias adotou protocolos responsáveis e teoricamente eficazes, mas de nada valem se muitos continuarem teimando em menosprezar a utilização das máscaras e, fora do olhar público, promovam ou participem de festas e confraternizações.

O endurecimento das medidas de restrição a que se assiste em algumas partes do Brasil, as três capitais do Sul incluídas, é resultado de uma falsa percepção de que os moradores dessas cidades vinham passando virtualmente ao largo dos efeitos da pandemia. Esse erro de avaliação aparece a cada vez que se abdica de medidas protetivas e se relaxa na mudança de comportamento que cada indivíduo deve adotar para sair coletivamente de mais uma série de restrições e vencer-se o quanto antes a crise.

Ao longo dos últimos meses, foram reiterados os avisos de que a continuidade da flexibilização dependeria do engajamento de cada cidadão às práticas e comportamentos preconizados pelas autoridades sanitárias e gestores responsáveis. Os dados à disposição mostram que se impõe um passo para trás. Que ao menos este momento sirva de lição definitiva, para que as próximas concessões, quando vierem, não precisem ser outra vez seguidas de novos retrocessos drásticos.