sábado, 26 de setembro de 2020


26 DE SETEMBRO DE 2020
FRANCISCO MARSHALL

CUPIDEZ

 Será que nesta palavra o Cupido tem vez? Tem sim, o filhote de Vênus que faz corpos e mentes se moverem possuídos pelo desejo; seu nome é irmão da palavra latina cupido, desejo ou inveja, e de cupiditas, em forma mais violenta, ambição ou cobiça. Nossa palavra cupidez carrega estes significados e também algo da cultura herdada da Roma antiga, cujas elites, desde o final da República, foram profundamente influenciadas pelo epicurismo e pelo estoicismo. Vista por estas filosofias éticas de origem grega, a cupidez afasta-se do amor e aparece como o cacoete que submete aos homens escravos das ambições.

Para a filosofia de Epicuro (341-270 a.C.) e para os estoicos, a felicidade era alcançada pelo controle das paixões que perturbam a serenidade do espírito. Contra os sofrimentos provocados pelos desejos e pelos acidentes da vida, celebravam o ideal de ataraxia - a impassibilidade, distanciamento e controle dos impulsos pela prudência e pela temperança. Em Roma, a principal voz desta ética foi Tito Lucrécio Caro (c. 99-55 a.C.), poeta e filósofo contemporâneo de Cícero (106-43 a.C.) e Júlio César (99-44 a.C.), autor do poema filosófico De rerum natura (Sobre a natureza das coisas), em que expõe o atomismo como ciência capaz de dissipar os temores das superstições e, assim, abrir caminho para a felicidade. Lucrécio via com cautela as ambições políticas, e alude à "cega cupidez de honras" (honorem caeca cupido, 3, 59), frase que reverbera Cícero, que fala da "cupidez, cega senhora da alma" (caeca dominatrix animi cupiditas, Inv., 1, 2). Estavam atentos, ambos, para um dos grandes males que degradam a história, a desmedida ambição de homens de escassa moralidade.

Há nisso um paradoxo, pois o desejo e a ambição são também necessários e causa de prazeres, de nossa perpetuação como espécie e do desenvolvimento que nos levou a compor sinfonias e ir à Lua; trata-se, porém, de compreender sua razão e medida, antes que se tornem pulsões deseducadas, sem parâmetros. É assim que a ambição aparece na ideologia do empreendedorismo, como virtude soberana, do mesmo modo que a cupidez anima os insensatos em sua cega busca de riquezas e honras. Quem paga por isso é o mundo e a sociedade e, no tempo e formas devidas, os próprios cúpidos sujeitos.

É para saciar a cega ambição de bens e honras que homens sem qualidades lutam pelo poder, na academia ou na política, por todos os meios, da demagogia à corrupção, tramoias e golpes. Com esta penúria moral, nada têm a oferecer, especialmente quando abrem mão da legitimidade e do saber cooperativo propiciados pela democracia; é apenas nesta que um Eros eficiente pode agregar e realizar ambições pelo bem comum. A cegueira revela-se ainda na dificuldade desses sujeitos em compreender sua improdutiva estupidez, e suporem que logo será esquecida a gravidade trágica dos atos em que sucumbem um homem e valores nobres da sociedade.

Conquanto vendado e disparando setas errantes, o Cupido tem certamente dons mais doces a nos oferecer, o prêmio para quem sabe reconhecer quais são os gratos desejos que podem nos unir.

FRANCISCO MARSHALL

26 DE SETEMBRO DE 2020
COM A PALAVRA

PRECISAMOS CRIAR REGRAS BÁSICAS DE TRÂNSITO NAS REDES SOCIAIS

DEBORA SPAR, ESCRITORA, 57 ANOS

Professora de Administração da Harvard Business School, é uma das maiores especialistas norte-americanas em questões de gênero, feminismo e do impacto da tecnologia nos relacionamentos sociais. Foi CEO do Lincoln Center for the Performing Arts, em Nova York, de 2017 a 2018.

Frequentadora assídua dos populares talk shows da TV norte-americana e das páginas mais respeitadas do jornal The New York Times, a escritora Debora Spar equilibra a linguagem acessível a um público sedento por conselhos sobre como criar filhos conectados 24 horas às telas dos smartphones com o debate profundo com seus pares, acadêmicos de Harvard, preocupados com o impacto da tecnologia na sociedade e na evolução do ser humano. Seus livros O Negócio dos Bebês - Como o Dinheiro, a Ciência e a Política Comandam o Comércio da Concepção e Wonder Woman - Sex, Power, and the Quest for Perfection são best-sellers. 

No primeiro, ela pesquisou o surgimento de um grande mercado da fertilidade in vitro. No segundo, debruçou-se sobre as exigências impostas às mulheres no século 21, na vida pessoal e profissional. No mais recente, Work, Mate, Marry, Love - How Machines Shape Out Human Destinity, a escritora enfoca questões de gênero e tecnologia, e a interação entre as mudanças tecnológicas e estruturas sociais. Crítica das redes sociais, Debora comenta, nesta entrevista, como a pandemia nos forçou a uma reflexão necessária e urgente sobre nossas relações com as plataformas digitais.

Em episódios históricos como a Primavera Árabe, as redes sociais desempenharam um papel importante e passaram a ser vistas como canais que possibilitaram a libertação de regimes ditatoriais no Oriente Médio. No entanto, escândalos como Cambridge Analytica e, mais recentemente, a disseminação de discursos de ódio e notícias falsas nas redes sociais mostraram o quão nocivas essas mesmas mídias podem ser. Descobrimos o outro lado da rede social?

Absolutamente. E a tragédia é que não previmos isso, nem fizemos nada para impedi-lo. Já em meados da década de 1990, muitas pessoas, eu entre elas, alertavam que uma internet sem regras quase certamente geraria o caos. Em particular, não ter nenhuma orientação para coisas cruciais como privacidade e direitos de propriedade significava que empresas iniciantes seriam capazes de acumular uma enorme quantidade de poder e de controlar a comunicação entre indivíduos em todo o mundo. Estamos vendo isso agora e, infelizmente, será muito difícil colocar esse gênio em particular de volta na garrafa.

Nas redes sociais falta clareza sobre o que é notícia, o que é opinião ou notícia falsa?

Sim. Como as redes sociais são tratadas nos Estados Unidos e em outros lugares como plataformas em vez de veículos de comunicação, elas não têm responsabilidade legal de filtrar ou selecionar o material que é postado. Portanto, há uma total falta de clareza, e de fato uma falta de clareza explícita, sobre o que constitui notícia versus opinião. As formas mais antigas de mídia, como os jornais, precisam diferenciar o que é notícia e o que é opinião. Mas como essas distinções não se aplicam ao ciberespaço, empresas como o Facebook não têm obrigação legal (na maioria dos países) de censurar até mesmo os exemplos mais flagrantes de notícias falsas.

Diante da falta de responsabilidade por parte do Facebook, Google e outras grandes empresas de tecnologia sobre o conteúdo que publicam, Estados Unidos e Europa têm buscado regulamentar a operação das plataformas. Este é o caminho?

Acredito que a regulamentação é a única resposta. Deixadas à própria sorte, as empresas privadas nunca estarão em posição de se autorregulamentar de forma a atender melhor os interesses da sociedade. As formas precisas de regulamentação podem e irão variar entre os países, mas mesmo diretrizes básicas ajudarão a fornecer formas mais claras e, em última análise, mais seguras de se fazer negócios. Pense em uma analogia com os automóveis: uma vez que eles se tornaram predominantes, os governos precisaram intervir para estabelecer "regras de trânsito", questões como limites de velocidade e sinais de pare, que permitiram a todos dirigir com mais segurança.

Na política, observamos o uso de robôs para campanhas de difamação. Como tornar esse ambiente menos tóxico sem abrir mão da tecnologia?

Mais uma vez, é aqui que precisamos desenvolver "regras básicas". Por exemplo, não precisamos banir as redes sociais nem mesmo proibir anúncios políticos nas redes sociais. Poderíamos apenas ter regras que exigissem que os anunciantes políticos fossem identificados como tal. Se um anúncio está sendo colocado por um bot estrangeiro, ele deve informar isso.

Alexa, Siri... Essas assistentes de voz muitas vezes são criticadas por perpetuar visões sexistas, machistas, racistas. Qual é o papel das plataformas diante dessas manifestações sociais?

Pessoalmente, não acredito que Alexa ou Siri sejam projetados para perpetuar o sexismo, o racismo ou qualquer outra coisa. São inovações tecnológicas destinadas a aumentar os lucros das empresas que as empregam, e isso pode ter consequências indesejáveis, infelizes. Assim que começarmos a ter uma noção maior de quais podem ser essas consequências (por exemplo, treinar nossos ouvidos para associar as vozes das mulheres com ajuda ou inteligência com certos sotaques), podemos e devemos projetar conscientemente essas tecnologias para serem mais neutras em termos de valor.

A senhora costuma afirmar que as as mudanças tecnológicas não estão restritas apenas às salas de reuniões e nas empresas. Elas também impulsionam nossos relacionamentos pessoais. Em algum momento, nos esquecemos disso? Acabamos olhando excessivamente para o impacto da tecnologia nos negócios e agora estamos pagando o preço por isso?

Em geral, acho que esquecemos as maneiras complexas pelas quais a mudança tecnológica afeta nossos relacionamentos pessoais e estruturas familiares. É por isso que escrevi este livro (Work, Mate, Marry, Love - How Machines Shape Our Human Destinity), para examinar esses links. Mas eu não concordaria necessariamente que estamos pagando o preço. Acho que é mais, que precisamos olhar para esses links, focar neles e, em seguida, decidir como queremos agir sobre as escolhas pessoais que agora enfrentamos como resultado da mudança tecnológica.

A senhora costuma escrever que as diferentes tecnologias (arado, carro, avião) causaram mudanças comportamentais. Mas agora parece que todos os nossos relacionamentos são alterados por máquinas, o que é um pouco assustador. Ao entrarmos em uma era de inteligência artificial e robôs, como nossos sentimentos e desejos mais profundos irão evoluir?

Bem, ainda não sabemos totalmente. Mas minha previsão é de que nossos sentimentos mais profundos permanecerão em grande parte inalterados: como espécie, parecemos programados para ansiar pelo amor e pela conexão. O que vai mudar é como esses desejos se manifestam. Acredito que formaremos ligações emocionais com seres robóticos. De certa forma, já temos: pense em como todos nós já dependemos de nossos smartphones, por exemplo. Pense em como já nos comunicamos com nossos entes queridos por meio de canais mediados por computador, como o Zoom. Pense, de forma mais mundana, em quantos de nós temos profundas conexões emocionais com nossos animais de estimação. Não estou dizendo que substituiremos nossos amores humanos por amores mecânicos. Mas iremos interagir cada vez mais emocionalmente com as máquinas inteligentes que criamos juntos.

no livro Work, Mate, Marry, Love - How Machines Shape Our Human Destinity, a senhora afirma que, no passado, os modos de produção predominantes produziram um mundo dominado por famílias heterossexuais, em sua maioria monogâmicas, com dois pais. "No futuro, porém, é quase certo que esses padrões serão remodelados, criando normas inteiramente novas para o sexo e o romance, e para a construção de famílias e a criação dos filhos. Evitando a euforia tecnológica e o alarmismo". A senhora oferece visão ousada e inclusiva de como nossas vidas podem ser mudadas para melhor. Parece otimista com relação à tecnologia.

Estranhamente, sim. Acho que a história da tecnologia nos oferece duas lições abrangentes: primeiro, que não podemos reverter a história. Uma vez que criamos nossas máquinas, nós as usamos. Em segundo lugar, depois de um período inicial de euforia, caos e medo e depois de aprendermos a colocar as proteções apropriadas no lugar, aprenderemos a conviver com as máquinas que criamos. Acredito que a tecnologia continuará permitindo que as pessoas se apaixonem e formem famílias de maneiras novas e sem precedentes. Para ser claro, precisamos ter certeza de que essas tecnologias são usadas com segurança, que, por exemplo, protegemos a saúde das mulheres submetidas à fertilização in vitro ou garantimos os direitos daquelas que servem de mães de aluguel para outras pessoas. Precisamos, como eu disse antes, estabelecer regras básicas de trânsito e nos concentrarmos em garantir que as novas tecnologias não aprofundem as desigualdades que já assolam nossas sociedades. Mas, presumindo que façamos isso, me sinto otimista sobre a capacidade de nossa espécie de viver de forma mais justa e inclusiva no futuro.

a senhora disse que a invenção do arado levou ao início da monogamia e do casamento. No século 20, máquinas de lavar, automóveis e anticoncepcionais ajudaram na emancipação das mulheres do "culto da domesticidade". Como a senhora avalia o feminismo hoje, 50 anos depois do início do movimento?

É uma questão complicada. A boa notícia é que as mulheres avançaram muito desde o advento do feminismo. Temos muito mais mulheres em posições de poder e várias gerações de mulheres que conseguiram combinar uma vida gratificante no trabalho com uma vida gratificante em casa. A má notícia, porém, é que as mulheres ainda estão muito sub-representadas nessas posições de poder e ainda lutam para conciliar as demandas conflitantes do local de trabalho e do lar. Elas ainda precisam lidar com o abuso e o assédio sexual e têm mais probabilidade do que os homens de viverem na pobreza.

A senhora geralmente pensa sobre o que acontecerá com o amor, o sexo e o romance à medida que nossos relacionamentos migram do mundo real para o virtual. O que acontecerá com nossas noções mais básicas de humanidade à medida em que enredarmos nossas vidas e emoções com as máquinas que criamos. Conversei recentemente com o historiador norte-americano Timothy Snyder e ele disse que a internet nos fez esquecer nossas habilidades humanas. A pandemia mostrou como somos vulneráveis como seres humanos?

A pandemia definitivamente nos lembrou de nossa fragilidade humana, bem como de nossa necessidade de permanecer conectado com aqueles que amamos. Ao mesmo tempo, porém, também nos lembrou de como já nos tornamos dependentes de nossos computadores e de nossas conexões com a internet. E para o bem e para o mal, nos obrigou a nos tornarmos radicalmente mais dependentes dessas tecnologias.

Frequentemente, ficamos preocupados com as desvantagens da tecnologia, como crianças passando muito tempo nas telas, fazendo com que os pais se sintam culpados. Como equilibrar a necessidade de algum controle, mas sem afastar os filhos da conexão com a tecnologia?

Em primeiro lugar, para as pessoas que cuidam de crianças durante essa pandemia, a culpa não é uma coisa boa. Ser pai é difícil em qualquer circunstância. É extremamente difícil agora. Portanto, os pais precisam abolir o fardo adicional da culpa. Em segundo lugar, as telas em si não são más. E os pais terão um controle limitado sobre o que seus filhos assistem e fazem online. O mais importante é ajudar as crianças a se envolverem com conteúdo que as ajudará a aprender e ter sucesso. Usar o Zoom para se comunicar com a família e amigos é quase sempre uma coisa boa. Assim como descobrir novos hobbies ou aprender novas habilidades. Em tempos de pandemia, prefiro muito mais que um filho se conecte a outras pessoas online do que se isole. É apenas uma luta, e presumivelmente sempre será uma luta, para manter as crianças longe do conteúdo ou de pessoas que poderiam prejudicá-las.

RODRIGO LOPES


26 DE SETEMBRO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

SETEMBRO AMARELO 

Transtornos psiquiátricos serão as sequelas mais prevalentes da pandemia. Embora o vírus possa provocar complicações tardias pulmonares, cardíacas, vasculares, renais, musculares e cerebrais, entre outras, o impacto na saúde mental será mais devastador, justamente por afetar uma área já problemática antes da pandemia.

Anos atrás, a Organização Mundial da Saúde (OMS) previu que depressão se tornaria a principal causa de absenteísmo nas empresas, a partir da década de 2020. Os trabalhadores faltariam mais por crises depressivas do que por dores na coluna, gripes e resfriados. No mercado financeiro de São Paulo, a previsão se confirmou antes de 2020. Nos acessos ao nosso portal de saúde, os termos mais pesquisados no canal do YouTube são "depressão", "ansiedade" e "síndrome do pânico".

Dada a grande variedade de temas médicos ali reunidos, é surpreendente a preferência por esses três. Além dos acessos, os conteúdos de saúde mental estão sempre no topo da lista de maior engajamento, curtições, comentários e tempo de leitura. Apresentado pelo jornalista Luiz Fujita, o Entrementes, nosso podcast sobre saúde mental, tem em média 6 mil downloads por episódio. Curiosamente, mais da metade do público tem entre 23 e 34 anos.

Neste mês, acontece o Setembro Amarelo, campanha de prevenção ao suicídio organizada pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria, com o objetivo de chamar a atenção para esse grave e ignorado problema de saúde pública. Suicídios estão longe de ser provocados apenas por dilemas existenciais e filosóficos insolúveis, como ainda há quem pense. A OMS estima que eles sejam responsáveis por 800 mil mortes anuais, no mundo, 80% das quais em países de média e baixa renda. Levantamento ainda incompleto calcula que no ano passado foram mais de 13 mil em nosso país. Um relatório da OMS que analisou os dados internacionais no período de 2000 a 2012, mostrou que a prevalência mundial, caiu em média 26%, enquanto no Brasil aumentou 10,4%.

Embora seja mais frequente entre os mais velhos, aparece como a segunda causa de óbito na população feminina de 15 a 29 anos, e a terceira na masculina. Em cada 10 casos, seis acontecem com jovens negros. Cada suicídio provoca repercussões mentais negativas (culpa, raiva, depressão etc.) em seis pessoas, em média. Da mesma forma, se estiverem corretos os levantamentos que apontam 15 a 20 tentativas prévias para cada suicídio levado a cabo, chegaríamos à conclusão de que esses episódios foram vividos mais de 200 mil vezes, pelos que se suicidaram e por seus familiares.

Estudo realizado pela Unifesp atribuiu a prevalência elevada entre os jovens a três causas principais: popularização da internet (bullying cibernético e compartilhamento de comportamentos disfuncionais, como a anorexia nervosa), mudanças sociais e falta de políticas públicas para abordagem de problemas psiquiátricos. Um estudo avaliou relação entre o número de horas gastas na internet e a frequência de autoflagelação (cortes nos braços e outras) em adolescentes. Meninas e meninos que passavam mais de nove horas diárias na internet tinham duas vezes mais risco de se cortar do que aqueles que ficavam duas horas ou menos.

A Associação Brasileira de Psiquiatria calcula que 20% a 30% das pessoas apresentarão um transtorno psiquiátrico, no decorrer da vida. Como cerca de 90% dos suicídios estão relacionados a distúrbios mentais - principalmente depressão, bipolaridade e esquizofrenia -, nada leva a crer que a prevalência entre nós diminuirá, caso as condições sociais se mantenham as mesmas e não superarmos as dificuldades do SUS para dar atenção a esse contingente.

Infelizmente, essa é uma das fragilidades do nosso sistema único. Apesar de termos criado uma rede de centros de atendimento multidisciplinar (CAPS) para casos de transtornos mentais graves, eles não existem em todas as cidades e não têm estrutura para oferecer psicoterapia e atenção psiquiátrica para pacientes com depressão, transtorno bipolar, ansiedade generalizada e outros distúrbios nas fases iniciais da evolução, quando os resultados do tratamento são melhores.

Distanciamento social, insegurança financeira, desemprego, medo de adoecer e luto causarão transtornos mentais que permanecerão entre nós por muito tempo.

DRAUZIO VARELLA

26 DE SETEMBRO DE 2020
MONJA COEN

QUANDO UM LÍDER VIRA CHEFE 

Havia um líder. E havia os liderados. Era bom haver um líder. Todos podiam ficar tranquilos, afinal, o líder tomaria decisões e ações. 

Anos se passaram. O líder, cada vez mais chefe do que líder, foi ganhando terreno. Decidia tudo. Já não solicitava opiniões. Apenas comunicava suas ações. Os antigos liderados, que agora eram calados pelos gritos do antigo líder, se encolhiam.

As reuniões eram simbólicas. Qualquer um que ousasse ter pensamento, gesto, atitude contrária às decisões do chefe era deixados de lado ou expulso, afastado. Havia medo, por um lado. Havia os que o seguiam e adoravam.

O chefe se tornou emocionalmente descontrolado. Gritava, chorava e saia das reuniões batendo os tamancos se alguém ousasse ter qualquer opinião.

Até o dia em que falhou publicamente. Houve erros e falhas anteriores, mas tudo encoberto por seus pares. Afinal, era um homem bom, trabalhador, honesto e tudo fazia para deixar uma herança sagrada ao futuro.

Falhou, mas não reconheceu. O conselho dos anciãos resolveu dar um basta. Havia tanto desconforto. Tantas pessoas silenciadas querendo se manifestar. Tanto medo, por nada.

Seria necessário enfrentar a fera. Que, afinal, era um querido de todos. Carismático, amado, trabalhador incansável. Haveria de entender a conversa amigável.

Nada feito.

Atrás das portas e janelas, ouviu um deles comentando, enquanto esperavam sua chegada, que seria melhor ajuda-lo a aprender o autocontrole. Quais seriam as medidas adequadas?

Iriam conversar. Quem sabe voltasse a ser um líder, por todos amado? Furioso só de pensar que não concordavam com ele, entrou na sala e gritou: - Vou-me embora. Não houve encontro. Foi grande a confusão. Bem, se assim ele decidiu, foi acatado.

Mas não era bem essa a expectativa do ex-líder, ex-chefe. Talvez esperasse que de novo se rendessem e continuassem a se submeter às suas ações, decisões. Era mais fácil. Sem preocupações. Ele, apenas ele, se preocuparia com tudo. Aos outros caberia apenas concordar.

A pandemia chegou. Tudo mudou. Quem estava longe ficou perto, virtual. Quem estava perto ficou longe, virtual. Sem chefe, tiveram que pensar, conversar, decidir.

Democracia participativa significa o poder do povo, não da chefia. Participar não é só votar, embora o voto seja importante até demais. Participar é dar palpite, sempre que quiser, é ouvir e ser ouvido, ter liberdade para falar e se manifestar. Ser acolhido, compreendido, incluído, decidir junto.

Quando um líder vira chefe, só quer mandar. Deixa de ouvir e perde a capacidade de liderar.

Quem ficou muito calado pouco a pouco reaprende a falar. Gagueja, treme, mas começa a murmurar.

Se o povo se empodera, não há chefe que seja fera. Ou se transforma em líder, capaz de unir, ouvir, acolher, acatar, reger uma orquestra harmoniosa, com música de fazer chover onde há incêndios, capaz de encontrar curas para doenças, equidade e respeito às diferenças, menos mortes, menos crimes, mais amor e menos dor; ou desiste e procura se autorregenerar.

Como restaurar a tessitura social quando rompida? Como ajuntar os rejuntes das esquinas da trama sagrada da vida?

Mãos em prece

MONJA COEN

26 DE SETEMBRO DE 2020
J.J. CAMARGO

O MURO DO FIM DA VIDA 

Em pelo menos 90% das vezes, variando conforme a especialidade, o convívio médico/paciente envolve expectativa de retorno à vida normal, e o melhor médico, qualificado como um técnico de excelência, é o parceiro adequado para ajudá-lo nas opções de tratamento e na seleção das escolhas diante das encruzilhadas. Ou seja, nesta condição, o enfoque é convenientemente otimista.

A proximidade do fim inutiliza este discurso, e o paciente, que sempre sabe quando está morrendo, repudia as promessas mentirosas. E muitas abordagens de doentes terminais morrem antes da morte, na primeira frase vazia. Por consequência, na hora de maior carência afetiva, o paciente se percebe emocionalmente abandonado, e médico que não teve a sensibilidade de perceber a diferença se sente desconfortável. Reconhecido como inútil, se afasta.

Esse momento mágico da relação médico/paciente precisa ser construído e respeitado, com a percepção de que, tendo chegado ao muro do fim da vida, não tem mais encruzilhadas, e com este paciente só se pode falar do muro para trás. Como o tempo encurtou, só interessam as ofertas que qualifiquem a despedida. E neste transe, nada é mais importante do que o perdão, porque quase todas as pendências emocionais do fim da vida estão atreladas a ofensas bobas, picuinhas ridículas, amores omitidos e afetos negligenciados. Priorizar o controle do sofrimento físico e se oferecer para intermediar o resgate das relações amorosas dispersadas pelo caminho colocam o médico, emocionalmente bem resolvido para este desafio, num nível superior desta maravilhosa profissão.

Em todas as relações, estamos sempre perseguindo interlocutores capazes de ouvir o que precisamos dizer e retribuir com palavras que movam com reciprocidade os nossos sentimentos, muito especialmente quando estamos solitários e assustados.

Um dia desses, resolvi chamar a atenção dos estudantes para a importância dos cuidados paliativos, considerando que mais de um milhão dos brasileiros que morrerão neste ano terão uma morte anunciada e precisarão de quem os proteja da solidão. A reação dos jovens foi de horror com a ideia de cuidar de pessoas que não têm salvação. Recomendei que lessem urgentemente A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, que elabora com genialidade o desterro do sofrimento solitário e a descoberta gratificante de Guérassin, um campesino escalado para cuidar do patrão quando ele já não tinha condições mínimas de autonomia, e que se revelou o parceiro mais confiável, capaz de ser sincero em assuntos que os médicos e a família só faziam mentir. Tolstoi descreveu como ninguém a extrema solidão de quem, estando às portas da morte, tem de suportar as promessas falsas de quem não entende que o fim da vida é o território da verdade definitiva porque derradeira.

O Evandro, um amigo de longa data, tinha sido submetido a um transplante de fígado e desenvolveu um câncer de pulmão, claramente inoperável na primeira avaliação. Fui visitá-lo no hospital e o encontrei rodeado de familiares que contavam histórias divertidas do veraneio passado. A alegria do grupo pelo aparente o fim da pandemia, e o entusiasmo pelas próximas férias, contrastava de tal maneira com a situação dele, que das duas, uma: ou não percebiam o quanto ele estava doente, ou a ausência do Evandro não faria falta nas futuras noitadas no Conrad. Quando ficamos a sós, ele perguntou: "Eu estou morrendo, não estou?". E então retribui: "Se você quer falar sobre isso, estou aqui para te ajudar!". Pela firmeza com que segurou minha mão, senti o significado pleno de se oferecer disponível em qualquer dia futuro. Até que não houvesse mais nenhum.

J.J. CAMARGO

26 DE SETEMBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

A decepção de "O Dilema das Redes"

Instado por dezenas de recomendações entusiasmadas ("Tu tens que ver! Tu tens que ver!"), assisti a O Dilema das Redes.

Fiquei decepcionado com o tom conspiratório do filme. E com sua aparente ingenuidade: alguém não sabia que as redes sociais se esforçam para conquistar o maior pedaço da atenção de seus usuários? Alguém não sabia que elas vivem disso?

O que as redes sociais fazem com bom sucesso sempre foi o sonho de todos os empresários, de todos os comerciantes, de todos os políticos, de todos os pregadores: elas ganharam a fidelidade do seu público. Que empresário não gostaria de ver o seu produto transformado numa espécie de febre de consumo interplanetário? Que líder não gostaria de guiar manadas de povo como se fossem rebanho?

No meio do filme, há uma cena teatralizada: uma mãe chega à conclusão de que o uso dos celulares está prejudicando a convivência da família e toma uma medida drástica. Durante as refeições, ela tranca os celulares de todos em um pote de vidro que tem uma tampa controlada por cronômetro: a tampa só se abre depois que é transcorrido determinado tempo. Já no começo do jantar, uma das filhas se impacienta com a restrição, apanha um martelo e quebra o vidro do pote para retomar o celular. Com ele nas mãos, marcha para o quarto, em silêncio.

É evidente que o filme pretende demonstrar, com isso, o nível de dependência da menina. Na verdade, mostrou o nível de educação que seus pais lhe dão. Meu filho estava assistindo ao filme comigo e, ao ver a cena, virou-se para mim, riu e perguntou:

"O que tu farias, se eu fizesse isso, hein, papai?".

Sorri de volta e nem precisei responder. Era uma pergunta retórica. Ele sabe o que eu faria.Aí é que está: o fato de as pessoas se viciarem nas redes sociais demonstra menos a força das redes sociais e mais a fraqueza das pessoas. O homem gosta de ser manipulado, gosta de ser mandado, gosta de ter um guia. Isso lhe dá uma agradável sensação de pertencimento. Ele é membro de uma comunidade, ele tem em quem se apoiar.

Pensar por si mesmo, tirar suas próprias conclusões, analisar os fatos de forma isenta, sem dogmas e sem crenças, é algo muito, muito solitário.

"Livre pensar é só pensar", brincava Millôr Fernandes, fazendo um jogo de palavras com a figura do livre-pensador. Exatamente: o livre-pensador pensa, os outros seguem os instintos de rebanho do animal humano. Mas, precisamente por ser livre, o livre-pensador é só. O pressuposto da liberdade é a solidão. Quanto maior liberdade o homem tem, mais sozinho ele está. Por isso, as pessoas se deixam conduzir. Por isso, elas querem ser cativas. Por isso, elas querem seguir um líder, uma ideologia, um partido, uma fé, uma causa. Por isso elas se deixam viciar e hipnotizar.

Fora das redes sociais, há livre pensar. Há liberdade. Mas também há solidão.

DAVID COIMBRA


26 DE SETEMBRO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

O MENDAZ

O mendaz não tem limites pois é alguém incomum. Às vezes, é tão inventivo que chega a cativar, pois vê coisas e situações que não existem, como se feiticeiro fosse.

Na pobreza atual do nosso idioma, talvez não se saiba que "mendaz" é soma de mentiroso e megalômano que inventa realidades e ignora o verdadeiro. Existem mentirosos a granel, cuja mentira até diverte.

Mas há ambientes em que a mentira agride. Um presidente da República, por exemplo, não pode ser mendaz ao falar ao mundo na Assembleia Geral da ONU nem inventar situações para tentar "justificar" o injustificável, como fez Jair Bolsonaro, dias atrás.

A mendacidade atingiu o absurdo. O presidente disse que a imprensa politizou a tragédia do novo coronavírus e, numa tolice infantil, defendeu perante o mundo usar cloroquina contra a pandemia. Culpou "os caboclos e os índios" pelos incêndios que devastam a Amazônia e o Pantanal, e foi adiante no absurdo. Seu governo - disse ele - é vítima de uma "campanha de perseguição" que busca desprestigiar a imagem do Brasil com inverdades sobre as queimadas.

Ao fantasioso, só importa a "imagem". A realidade não conta. Se o presidente dissesse a verdade, confessaria o desastre que seu governo propicia ao meio ambiente. Mas isto é algo fora do estilo (ou manias) de quem fantasia um mundo fora do mundo. A ONU busca o entendimento e, assim, exige a verdade em busca da paz. Do contrário, seria fazer dela uma reunião de inimigos, pois só se engana ao inimigo em guerra.

Quando não nega a realidade, o mendaz se faz de esquecido. Nosso presidente diz, sempre, que no Brasil não houve ditadura e que a ditadura implantada em 1964 não perseguiu nem torturou ninguém.

Agora, porém, em São Paulo, a Volkswagen concordou em indenizar mais de uma centena de trabalhadores da empresa perseguidos, presos ou torturados durante a ditadura. No total, a VW pagará ao Ministério Público Federal e Estadual R$ 36,3 milhões, dos quais R$ 2 milhões serão destinados a investigar outras empresas (entre elas a Folha de S.Paulo) que apoiaram a repressão, e outros R$ 2,5 milhões para identificar as ossadas de presos políticos mortos na tortura e sepultados em valas comuns no cemitério paulista de Perus, como "indigentes".

Outros R$ 16,8 milhões indenizarão os trabalhadores demitidos e presos como "subversivos".

A decisão é histórica. Na cúpula da matriz alemã da Volkswagen, o diretor jurídico Hiltrud Werner lembrou que pela primeira vez a empresa "reconhece violações de direitos fora do nazismo, num capítulo negativo da história do Brasil".

Já não há espaço para a fantasia.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES


26 DE SETEMBRO DE 2020
ARTIGOS

SUICÍDIO E ESPIRITUALIDADE

Para uma aproximação séria e competente às questões acerca da conduta contemporânea autodestrutiva, concentradas no fenômeno do suicídio, faz-se necessário um amplo enfoque interdisciplinar, sem o qual toda análise ou discurso sobre o problema se revelará deficitário e ingênuo. Nessa abordagem ampla, há um lugar de destaque para a fé e a espiritualidade. A espiritualidade é um eficaz recurso no processo de ressignificação de uma vida que perdeu o sentido e tende ao risco suicida.

O ser humano é um ser aberto ao infinito; deseja sempre ir além, sente radical necessidade de transcender este mundo que passa. Esse "senso espiritual" pode ser um dos principais motivos que possibilitam à pessoa superar situações determinantes de crise, sofrimento, angústia, depressão e desespero.

Para prevenir, é preciso "cuidar". No caso específico do comportamento suicida, é necessário cuidar da dor, isto é, recompor uma visão integral da pessoa, que a prepare para enfrentar e administrar situações inevitáveis de sofrimento.

A espiritualidade não pode negar a dor, a perda e a frustração. Mas pode ajudar a revisar os conceitos impostos pela sociedade sobre essas condições, que são inerentes à vida humana. Para isso, é necessário libertar-se do mito da atual sociedade, quando apregoa que só vale a pena viver se há garantias de ter, poder e aparecer. Nega-se toda dor e espera-se o máximo de um prazer duradouro. As provações da vida, contudo, possibilitam a purificação de ilusões sobre a existência. Elas podem mostrar o que realmente tem valor na vida; de forma extremamente eficaz, elas ajudam a discernir o que é secundário e o que é essencial.

Somente a esperança no futuro pode devolver o sentido perdido, talvez, num presente de extremo sofrimento. A fé abre as portas do tempo presente ao futuro, à vida que há de vir. Na vida, tudo passa, até mesmo a dor e o desespero. Também a presunção e a frustração têm vida curta. Enquanto se tem vida, há esperança!

LEOMAR BRUSTOLIN

26 DE SETEMBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

EQUILÍBRIO E FOCO NO ELEITOR

 A exemplo do que faz a cada ano eleitoral, o Grupo RBS torna públicas suas orientações e normas editoriais, visando apresentar de forma transparente para eleitores, candidatos e partidos os conceitos que norteiam a cobertura de veículos e profissionais. A intenção do conjunto de ações não é o engessamento de opiniões ou de abordagens - ao contrário, a RBS defende e pratica a pluralidade. O objetivo do ideário é explicar ao público uma série de conceitos específicos para as eleições, que se somam às normas já consubstanciadas no Guia de Ética e Autorregulação Jornalística a que os profissionais da RBS aderem quando se juntam à empresa.

Como em todas as eleições, o Grupo RBS reafirma que não tem candidatos ou preferências partidárias. Mais do que apresentar uma mera disputa entre nomes e siglas, o foco principal da cobertura eleitoral é, com independência, equilíbrio e apartidarismo, colaborar para que o eleitor faça suas escolhas da melhor forma possível, fortalecendo a cidadania, a democracia e o desenvolvimento das comunidades.

Alinhado ao propósito da RBS de fazer jornalismo e entretenimento que conectem os gaúchos e contribuam para uma vida melhor, a cobertura dá prioridade ao chamado jornalismo de soluções. Por meio dessa abordagem, levantam-se problemas e desafios, mas também apresentam-se possíveis caminhos para equacioná-los e as possibilidades reais de serem colocados em prática, além de se discutirem os resultados esperados. Outro eixo de cobertura são a apresentação de biografias de candidatos e as comparações de propostas e programas pela perspectiva do eleitor. Desta forma, os veículos da RBS buscam atender à expectativa do público ao procurar saber de candidatos não apenas o que pretendem fazer, se eleitos, mas sobretudo como planejam transformar seus planos em realidade. Confrontar promessas com sua exequibilidade é parte da tarefa jornalística responsável que move os veículos da RBS.

Especialmente em razão dos grandes impactos produzidos pela pandemia de covid-19, a cobertura se concentra em apresentar perspectivas para o futuro e em discutir temas da chamada vida real, ou seja, questões prementes e concretas como saúde, educação, segurança, economia, emprego e renda, relegando ao plano secundário ataques, ameaças, ofensas e acusações entre candidatos, que em nada contribuem para o esclarecimento do eleitor.

Com essa linha em mente, os veículos adotam também os seguintes conceitos e normas durante o período eleitoral:

- As redes sociais fazem parte do processo eleitoral e devem ser compreendidas como um espaço público de debate, sobretudo em uma campanha como a deste ano, quando há uma série de restrições para atividades políticas de forma presencial. As redes são também importantes ferramentas de trabalho para o jornalismo, por ampliar o alcance da mensagem jornalística, pela identificação de tendências e pelas janelas de interação com o público.

- Apesar dessas características positivas, parte considerável dos conteú- dos das redes pode ser classificada como ativismo a serviço de causas e interesses partidários, obrigando a cautelas adicionais no seu tratamento. As redes e grupos de mensagens são territórios propícios à disseminação de desinformações e agressões que não raro distorcem o processo democrático de escolha pelo voto. Cabe ao jornalismo promover a devida apuração sobre conteúdos que circulam em redes. Para isso, os veículos do Grupo RBS recorrem a fontes, estatísticas e informações de alta confiabilidade, e promovem repetidas verificações, para que delas eventualmente se extraiam matérias jornalísticas de interesse coletivo e público.

- Em um cenário eleitoral permeado pela difusão proposital de desinformações e de extratos de falas retiradas de contexto, cabe ao jornalismo profissional, com técnica, independência e equilíbrio, unir esforços para estabelecer a verdade dos fatos e colaborar para que a informação correta prevaleça no processo de escolha pelo eleitor.

- A fim de ressaltar sua isenção, a RBS não promove pesquisas eleitorais próprias e divulga apenas aquelas devidamente registradas na Justiça Eleitoral e realizadas por institutos com reconhecida tradição e credibilidade. As pesquisas são parte natural do ecossistema eleitoral por retratarem um momento da campanha, mas a RBS as considera um elemento acessório da cobertura, uma vez que o foco é nos programas e biografias de candidatos, com a respectiva verificação das soluções propostas. Da mesma forma, a RBS não divulga enquetes e sondagens nem pesquisas com conotação eleitoral contratadas por partidos, candidatos ou governos, por virem à tona com objetivos políticos predefinidos.

- A cobertura dos veículos da RBS se guia pelo interesse jornalístico, conforme a evolução das candidaturas e o desenrolar da campanha. As candidaturas de baixa representatividade, respeitada naturalmente a legislação eleitoral específica, têm, portanto, cobertura de acordo com sua dimensão.

- A RBS considera incompatível a atividade de profissional da comunicação com a política partidária. Assim, devem se afastar de suas atividades os profissionais que porventura aceitem convites para disputar um cargo político ou que participem da propaganda eleitoral.

Com estes conceitos e sua cobertura, a RBS espera, mais uma vez, poder contribuir para que as eleições representem não só um momento marcante e positivo da democracia mas que, ao fim do processo, a sociedade possa também identificar e superar seus desafios.


26 DE SETEMBRO DE 2020
ACERTO DE CONTAS

Nova fábrica, novo e-commerce 

Aos 60 anos, o Grupo Herval deu início à construção de uma nova fábrica em Dois Irmãos, no Vale do Sinos. A ideia é usar a estrutura já na metade de 2021. Ela ficará junto à sede atual, que seguirá em operação. Com cerca de 7 mil funcionários, a empresa contratou 417 pessoas de maio até agora.

- Se todo mundo voltar agora do home office, não tem cadeira para todos - brinca o presidente do grupo, Agnelo Seger, contando que também será ampliado o espaço destinado ao administrativo.

O grupo trabalha com 20 marcas em 14 empresas que incluem indústria, comércio e serviços, como consórcios, seguros e construção. Entre elas, estão taQi e iPlace. O aporte financeiro é de R$ 75 milhões, destinado à operação industrial do grupo e de olho em boas perspectivas para a exportação. Segundo Seger, aumentou a demanda pelos mais diversos produtos, mas a Herval também enfrenta falta de matéria-prima e teve que suspender as vendas da indústria ainda em agosto.

- Há carência no mundo inteiro. Falamos com fornecedores na Alemanha, Espanha, México. Houve um represamento de consumo. O ajuste ocorrerá ao longo de 2021 - diz o executivo.

E para quando a engrenagem da oferta e demanda se ajeitar, Seger projeta o lançamento de uma nova plataforma de e-commerce, que foi um diferencial na pandemia para manter a venda do braço de varejo do grupo. Ele avalia que parte do consumo continuará online.

Paranaenses na hotelaria gaúcha 

A Slaviero Hotéis passará a administrar, a partir de 1º de outubro, dois empreendimentos em Bento Gonçalves, na serra gaúcha. Um deles é o Slim Bento Gonçalves, que tem cem apartamentos e fica no km 219 da BR-470, na entrada do Vale dos Vinhedos. Voltado para turistas de negócios e lazer, terá diária média de R$ 180. O outro será uma pousada dentro de um vinhedo que passará a se chamar Fornasier by Slaviero Hotéis. A hospedagem fica próxima do Caminhos de Pedra e do Parque da Ovelha.

Serão os primeiros empreendimentos que a rede opera no Rio Grande do Sul. Com 39 anos de mercado, a Slaviero inaugurou o seu primeiro hotel em 1981, em Curitiba, no Paraná. Hoje, tem 30 unidades em operação e oito novas aberturas previstas.

GIANE GUERRA

26 DE SETEMBRO DE 2020
CARTA DA EDITORA

Força-tarefa da Redação 

Jornalistas costumam atuar em áreas especializadas (que chamamos de editorias). Um repórter esportivo tem mais propriedade para falar de futebol porque lida diariamente com o assunto, cria fontes que o subsidiam na construção de uma reportagem, acompanha partidas e competições com olhar de repórter e não de torcedor. Temos profissionais especializados em segurança pública, política, economia, cultura, comportamento, tecnologia. É dessa forma que conseguimos trazer conteúdos diferenciados e dar informações com exclusividade. Mas há momentos em que essas fronteiras internas de uma redação são derrubadas porque um grande fato ou evento jornalístico se sobrepõe aos demais, exigindo a montagem de uma força-tarefa.

Foi o que fizemos neste ano, com a chegada do coronavírus, que levou o país ao fechamento de escolas e comércio, a alterar a rotina de hospitais, a cancelar jogos e shows, a bloquear parques, a obrigar as pessoas a se manterem distantes do convívio social. Por mais de quatro meses tudo girou em torno das questões sanitárias e dos impactos econômicos. Montamos um time capaz de atuar em todas as frentes desta pandemia. Jornalistas costumam ser versáteis porque sabem que a qualquer momento serão requisitados para algo diferente, inesperado. Uma redação vive sempre de prontidão.

Apesar do ano atípico, teremos eleições para prefeitos e vereadores. Tradicionalmente a Redação Integrada de ZH, GZH, Rádio Gaúcha e Diário Gaúcho monta forças-tarefa robustas para acompanhar o desenrolar da campanha. Para 2020, preparamos uma série de produtos e conteúdos especiais que o assinante pode conferir nas páginas 8 a 10.

A largada dessa mobilização será nesta segunda-feira, com o debate na Rádio Gaúcha entre os candidatos a prefeito de Porto Alegre. E de um jeito inovador: em formato drive-in. Tudo preparado ao longo de mais de dois meses. E, mais uma vez, derrubamos as fronteiras da Redação Integrada para unir esforços dos nossos melhores profissionais.

DIONE KUHN

26 DE SETEMBRO DE 2020
J.R. GUZZO

Judas de sábado de aleluia 

jrguzzo43@gmail.com

O Brasil não tem nenhum problema de verdade com a Amazônia, o Pantanal e o restante das regiões de vegetação nativa que cobrem uma extensão tão grande do território nacional. É o exato contrário. Os agricultores brasileiros podem dar lições ao resto do mundo em matéria de preservação do ambiente em que trabalham e produzem.

O Exército Brasileiro é um exemplo de competência, eficácia e empenho na defesa da floresta amazônica - sem ele, a região já teria virado há muito tempo um amontoado de enclaves tão sem lei como as favelas do Rio de Janeiro - entregues ao tráfico de drogas, à mineração clandestina, ao corte ilegal de madeira e outras desgraças. Todo cidadão que já saiu um dia do seu asfalto natal sabe que as leis brasileiras estão entre as mais rigorosas do mundo no controle das alterações que afetam a natureza.

O que o Brasil tem - mas, aí, tem que não acaba mais - é um problema na sua imagem internacional em matéria de ecologia. O nome deste problema é Jair Bolsonaro.

O problema não é que o presidente viva tocando fogo na Amazônia ou no Pantanal, caçando onça ou garimpando diamante - nunca fez nada disso, nem deixa fazer, mas é Bolsonaro, e sendo quem é, sempre servirá de judas de sábado de aleluia para a militância ambientalista do mundo inteiro. Pode passar o resto da vida plantando uma árvore por dia; não vai adiantar nada.

As ONGs, os partidos verdes, as universidades de país rico, a mídia internacional etc., etc., querem usar Bolsonaro como uma bandeira para as suas causas, ou para defesa dos seus interesses. Não vão mudar de ideia só por estarem dizendo uma mentira. Na verdade, acharam no presidente do Brasil uma figura ideal, que junta a sua fome com a sua vontade de comer.

Querem guerrear contra Bolsonaro porque ele é de direita - e aí clamam pelo santo nome das florestas para turbinar a sua ação política. Querem manter viva a pregação ecológica, com boas ou más intenções - e aí se servem da imagem direitista do presidente para construir uma espécie de Coringa pró-destruição do planeta. Sempre é uma mão na roda ter um satanás para promover o evangelho.

Não há milagre capaz de resolver esse tipo de situação. Mas sempre existe o recurso de combater a mentira com a divulgação sistemática da verdade. Basta, para isso, agir com inteligência, profissionalismo e perseverança - além de trabalho duro, é claro. Não vai convencer quem não quer ser convencido. Mas com certeza ajudará a mostrar a realidade para milhões de pessoas, em todo o mundo, que estão dispostas a ouvir a razão.

O problema é que não passa pela cabeça do governo brasileiro fazer nada remotamente parecido com esse esforço. A atitude oficial é sair para a briga de rua, xingar a mãe e gritar pátria amada Brasil. Resumo da ópera: vai continuar como está, com viés de piora.

J.R. GUZZO

quinta-feira, 24 de setembro de 2020



24 DE SETEMBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

Histórias de um carreteiro imortal 

O Noriega não esqueceu do carreteiro da Dona Tereza. O Noriega, você sabe quem é: Maurício Noriega, um dos maiores comentaristas de futebol do Brasil. Ele está sempre viajando pelo país em coberturas de jogos. Numa dessas, levei-o ao meu bar favorito nos anos 90, o Lilliput da Calçada da Fama, e, enquanto nos dirigíamos para lá, antecipei:

"Vais comer o melhor carreteiro da tua vida!"

Eu sabia do que estava falando. Dona Tereza, a cozinheira do Lilliput, não era uma cozinheira comum. Era como se a língua de fogo do Espírito Santo lhe tivesse lambido a testa, anunciando, com a voz de trovão do Arcanjo Miguel: "Receberás a luz de todas as bocas de fornos e fogões, de todas as panelas e caçarolas! Ide e cozinhai!"

E ela foi e cozinhou. Seus pratos faziam uivar os clientes do Lilliput. Guardo cá comigo o orgulho de ter batizado uma dessas iguarias, um lombinho de porco feito sob minha encomenda. O Atílio Romor, gerente do bar, mandou escrever no cardápio: "Lombinho à David Coimbra". Pode alguém almejar maior galardão? O problema é que os amigos invejosos mangavam: "Vamos comer o lombinho do David?"

Nós íamos ao Lilliput todas as noites. Todas. De segunda a segunda. Uma vez, fiz lá a festa de final de ano da Editoria de Esportes da Zero Hora. O chope estava liberado, cada conviva só teria de pagar pelo jantar, 17 reais por pessoa, mas os muquiranas da editoria até hoje reclamam do preço. Dezessete reais! Está certo que isso aconteceu em 1998, mas, puxa, era o carreteiro da Dona Tereza! E o chope cremoso e dourado servido em taças de cristal, luxo que só o Lilliput oferecia do Mampituba para baixo.

Bem.

Em meio à festa, nós realizamos o tradicional amigo-secreto da editoria. A amiga-secreta do Luiz Zini Pires era uma moça que chamávamos de "A Prodigalidade da Natureza". Por ser farta em tudo: boca voluptuosa, pernas rosadas e sólidas, como dois troncos de jequitibá. Isso fisicamente falando. Mas, para que não acusem a velha Editoria de Esportes de reificar as mulheres, acrescente-se que era também farta em espírito. Tinha uma inteligência áspera, um senso de humor fino e uma aragem blasé que deixava o interlocutor sempre na dúvida: "Será que ela está debochando?" Não raro, estava. Conhecia as fraquezas humanas, a Prodigalidade.

Pois o Zini, ao dar uma pista sobre quem era sua amiga, disse: "Ela é a mulher que mais recebe flores na Redação!" Ocorre que a Prodigalidade havia trazido o namorado para a festa, e o rapaz estranhou: "Mas eu nunca te mandei flores!"

Deu-se uma pequena crise conjugal, mas, no final, tudo acabou bem. A Prodigalidade só precisou de um par de argumentos para fazer o namorado se acalmar - como disse, ela conhecida as fraquezas humanas.

Era assim o Lilliput, que, tristemente, não existe mais. Os bares, como a juventude, são efêmeros. É um consolo termos histórias que nos permitem, de alguma maneira, vivê-los outra vez. O Noriega fez precisamente isso, dias atrás, quando o entrevistamos no Timeline, da Gaúcha, e ele falou do carreteiro da Dona Tereza. Passaram-se mais de 20 anos, e ele recordou do carreteiro, e, assim, recordei também. Foi como se provasse de novo o gosto da comida quente e sentisse de novo o primeiro gole de chope gelado descendo pela minha garganta. Pena que não existe mais o Lilliput e nem sei por onde anda a Dona Tereza. Pena. Mas ainda posso reunir os parceiros, como o Noriega, ainda podemos beber nossos chopes e rir juntos e brindar às noites amenas e à amizade, que são coisas realmente importantes da vida.

DAVID COIMBRA

 
24 DE SETEMBRO DE 2020

OPINIÃO DA RBS

O BRASIL NA ONU 

O país que o presidente Jair Bolsonaro apresentou na abertura da assembleia geral das Nações Unidas é aquele em que os brasileiros gostariam de morar. Nele, a floresta amazônica só queima um tanto nas bordas, os incêndios no Pantanal são iguais aos da Califórnia, o chefe da nação tem "tolerância zero" com crimes ambientais, os investimentos estrangeiros aumentam significativamente graças ao progresso pulsante e o "tratamento precoce" contra o coronavírus evitou uma tragédia. O confronto com os fatos, no entanto, escancara que esse cenário róseo inexiste. Esse não é o Brasil real sob Bolsonaro.

Na prática, os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais apontam para um crescimento de 27% nas queimadas na Amazônia no acumulado do ano até terça-feira na comparação com igual período de 2019, o presidente e seu ministro do Meio Ambiente são no mínimo lenientes com grileiros, garimpeiros ilegais e desmatadores, o fogo no Pantanal não tem origem em causas naturais ou descuidos, o capital estrangeiro foge em massa do Brasil, com saídas recordes de US$ 15,2 bilhões líquidos nos oito primeiros meses do ano e o uso da cloroquina no tratamento da covid-19, sem eficácia comprovada por estudos científicos, só é defendido por Bolsonaro e seus seguidores.

Se estivesse apenas desfilando uma sucessão de delírios, inverdades e fatos distorcidos, seria possível atribuir ao presidente mais uma tentativa, nem tão rara em políticos, de somente tentar exagerar para melhorar a sua péssima imagem no Exterior, que acaba contaminando a percepção sobre o Brasil no mundo. Mas, não satisfeito, foi além e ainda terceirizou suas responsabilidades e omitiu os verdadeiros culpados pelo desastre brasileiro. Seguro como se fosse a mais cristalina e incontestável verdade, disse a líderes e à comunidade internacional que são índios e caboclos que originam as queimadas ao colocar "fogo nos roçados". O mundo e os brasileiros não fanatizados sabem que as apurações sobre as queimadas apontam para desmatadores profissionais e uma parcela de fazendeiros irresponsáveis.

Ao atribuir a parcela da imprensa uma situação de pânico pela doença, Bolsonaro cometeu um duplo equívoco: além de a imprensa ter colaborado para um clima ordeiro e pacífico em relação aos efeitos da pandemia, ele perdeu mais uma chance de deixar de minimizar publicamente o novo coronavírus. Aos olhos da imprensa internacional, que age com a mesma responsabilidade da brasileira, Bolsonaro é um negacionista e, portanto, inapto para lidar com a dimensão da pandemia.

Pelo lado que pode ser julgado como positivo, ao menos não repetiu o grau de vexame de sua estreia na ONU, no ano passado, quando rompeu o tradicional pragmatismo da diplomacia brasileira para atacar países e ONGs. O tom defensivo e mais moderado e os apelos à paz internacional mostraram que, nesse aspecto, Bolsonaro atendeu a apelos para conter parte da beligerância contumaz. Outro ponto a ser motivo de alívio é que a fala de Bolsonaro foi ignorada pela imprensa mundial, o que, no caso de um presidente que quebra a louça a cada vez que entra na sala, é um conforto para a já estraçalhada imagem do país no Exterior.

 



24 DE SETEMBRO DE 2020
VERISSIMO

Geração lêmingue 

Sabe lêmingue? É aquele bicho que migra em bandos na direção do mar atrás de um líder, qualquer líder, e, quando o líder se atira no mar, se atira junto e morre. Ninguém entende bem essa propensão do lêmingue ao suicídio coletivo, mas está no seu DNA, impossível discuti-la. O lêmingue é descrito como um pequeno roedor de cauda curta e cor amarelada, mas essa é sua descrição zoológica. Para nosso efeito, ele é um pessoa jovem que gosta de aglomeração e para a qual o suicídio coletivo é apenas mais um programa com a turma.

Me lembrei de um episódio contado pelo Mino Carta. Num cinema do Bixiga, em São Paulo, passa um documentário sobre a vida animal e seus horrores, inclusive cenas sangrentas de pobres gazelas sendo trituradas por bichos mais ferozes do que elas. É quando ouve-se uma voz com indisfarçável sotaque do Bixiga, de alguém que provavelmente entrou num cinema pela primeira vez na vida, e diz "Que mentalidade!". É o comentário que merece a estranha compulsão dos lêmingues. Que mentalidade!

2020 vai ser lembrado como o ano que se revelou a vocação para lêmingue de toda uma geração. Uma insuspeitada vontade de seguir o contemporâneo que passar por perto com claros sinais de que vai se matar e ir atrás dele com todo o bando para morrer também. O que mais impressiona nos bandos que enchem as praias a caminho do mar e as calçadas dos bares é sua alegria. Sem máscaras e sem distância um do outro.

Os lêmingues estão nas ruas. Se há mesmo uma crise internacional, uma pandemia viral que grassa no planeta sem controle à vista, o problema não é deles. Afinal, que crise internacional é essa em que o presidente de um dos países mais supostamente afetados por ela não acredita nas medidas recomendadas para detê-la? Bolsonaro & Filhos se comporta como se ele também fosse um lêmingue, jovem e sem compromisso com a realidade. Que mentalidade!

L.F. VERISSIMO

24 DE SETEMBRO DE 2020
VERISSIMO

Construindo a casa própria

Em meio a paredes parcialmente erguidas, uma única trabalhadora comanda o canteiro de obras da Rua dos Canários, no bairro Colina Verde, em Sapucaia do Sul.

Elen Cristina Gonçalves da Silva, 52 anos, perdeu o emprego de vigilante no início da pandemia, mas não desistiu de melhorar as condições do local em que vive, uma peça de apenas 12 metros quadrados com sofá, cama e televisão.

Sem dinheiro para contratar serventes, amarra os ferros das vigas, mistura a argamassa e coloca as pedras para a base da construção. No térreo, sala e cozinha; no andar superior, o quarto com banheiro.

- Vai ser a casa dos meus sonhos, feita com minhas próprias mãos, sozinha - diz.

Desempregada, a mulher passou a integrar a lista de gaúchos que recebem o auxílio emergencial do governo federal. Metade dos R$ 600 Elen usa para alimentação e gastos com deslocamento até os locais onde presta serviços informais. A outra parte vai para o projeto, em compra de material de construção.

O conhecimento da construção civil ela obteve há 30 anos, quando foi contratada por uma pequena empreiteira. À época, cursava o Ensino Fundamental, única escolarização alcançada. Com o tempo, passou a gostar do trabalho e assumiu o ofício como complemento de renda.

- Esses dias, peguei um contrapiso para fazer - afirma.

Uma campanha pela internet (gzh.rs/elen) busca arrecadar R$ 45 mil para ajudá-la a finalizar a casa. Podem ser feitas doações a partir de R$ 25. Até ontem à tarde, mais de R$ 9 mil haviam sido contabilizados. Contatos podem ser realizados pelos telefones (51) 99380-2198 e (51) 99828-3714 - este, WhatsApp.

TIAGO BOFF