quarta-feira, 30 de julho de 2025

Ibovespa interrompe série negativa com alta de 0,45%, aos 132,7 mil pontos

Na semana, ainda cede 0,60% e, no mês, recua 4,41% - no ano, sobe 10,34%

Na semana, ainda cede 0,60% e, no mês, recua 4,41% - no ano, sobe 10,34%

Em dia de agenda de indicadores discreta, o Ibovespa, embora com giro ainda enfraquecido, conseguiu quebrar uma sequência negativa de três sessões que o colocou nesta segunda, 28, no menor nível de fechamento desde 22 de abril. Contudo, a perda de força em parte das blue chips à exceção de Petrobras (ON +1,63%, PN +1,31%) limitou os ganhos do índice em direção ao fechamento.

Nesta terça, 29, o Ibovespa oscilou dos 132.129,79 - na mínima correspondente à abertura - até os 133.345,71, no pico da sessão, após ter testado o nível dos 131 mil pontos no dia anterior. Ao fim, marcava hoje 132.725,68 pontos, em alta de 0,45%, com giro a R$ 16,4 bilhões. Na semana, ainda cede 0,60% e, no mês, recua 4,41% - no ano, sobe 10,34%.

Para Felipe Papini, sócio da One Investimentos, o Ibovespa teve um dia de ajuste técnico após uma sequência perdedora, aproveitando alguma acomodação na curva do DI nesta véspera de deliberação sobre juros, tanto nos Estados Unidos como no Brasil. "Apesar do sinal dado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de que o governo brasileiro permanece disposto a negociar, a volatilidade com relação às tarifas anunciadas no dia 9 pelo governo Trump para o Brasil tende a continuar dando o tom aos negócios nos próximos dias, à medida que se aproxima a data-limite de 1º de agosto", aponta Papini, referindo-se ao prazo final para que seja efetivada a alíquota de 50% prometida pela Casa Branca para compras do Brasil.

Na ponta ganhadora do Ibovespa neta terça-feira, destaque para um dos papéis mais afetados pelas sobretaxas dos EUA, Embraer, pela exposição da fabricante de aviões ao mercado americano. Hoje, as ações da empresa subiram 3,76%, à frente de Direcional (+3,10%), Brava (+2,74%) e Vivara (+2,72%). Com o petróleo em alta de mais de 3% em Londres e Nova York, Petrobras foi o destaque do dia entre as ações de primeira linha. Vale ON, por outro lado, cedeu 0,62%.

Do lado negativo do índice, Magazine Luiza (-2,79%), Pão de Açúcar (-1,99%), Raízen (-1,39%) e Auren (-1,07%). Entre os maiores bancos, o dia era de recuperação bem distribuída, mas o sinal no fechamento foi misto, com variações entre -0,19% (Bradesco PN) e +0,58% (Itaú PN), o que contribuiu para a perda de ímpeto do Ibovespa no encerramento da sessão.

Em entrevista nesta tarde à Globonews, a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, disse que o pacote de medidas do governo brasileiro para fazer frente à tarifa de 50% sobre as exportações aos EUA representa uma "reação", e não uma "retaliação". A Broadcast mostrou ontem que a avaliação interna, no Palácio do Planalto, é de cautela sobre qualquer ação contra a medida dos Estados Unidos e os efeitos econômicos de uma guerra comercial entre os dois países. Sem citar o Brasil, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse ontem que as tarifas com a maior parte dos países ficarão no intervalo de 15% a 20%.

Por sua vez, em outra entrevista, à CNN Brasil, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que todo o mundo está "pisando em ovos" para saber o que o governo dos Estados Unidos quer, e que não foi o Brasil que criou um problema com os EUA que tenha levado ao anúncio das tarifas de 50%.

 Imersão pré-COP 30: RS recebe delegação para apresentar boas práticas de cooperativas

Comitiva percorreu diferentes cidades para conhecer exemplos concretos de sustentabilidade e inclusão

Comitiva percorreu diferentes cidades para conhecer exemplos concretos de sustentabilidade e inclusão

Eduardo Benini/Divulgação/JC

O Rio Grande do Sul foi um dos destinos escolhidos pelo Sistema OCB para receber a terceira edição da imersão em cooperativismo pré-COP 30. Ao longo da última semana, representantes de ministérios, organismos internacionais e entidades empresariais percorreram diferentes cidades do Estado para conhecer exemplos concretos de sustentabilidade e inclusão promovidos por cooperativas de diferentes ramos de atuação. A organização contou com o apoio do Sistema Ocergs.

O objetivo da iniciativa foi fortalecer o papel do cooperativismo no enfrentamento dos desafios climáticos globais, ampliar a visibilidade do movimento e garantir um espaço para o setor na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025. A COP 30 será realizada em novembro, em Belém (PA).

LEIA MAIS: Cooperativas alicerçam retomada econômica do Rio Grande do Sul

“O que hoje chamamos de agenda ESG não é novidade para as cooperativas. Pelo contrário, está no DNA do cooperativismo. A imersão tem por objetivo proporcionar essa vivência a atores-chave, para que possam reconhecer o papel desse movimento na construção de um futuro mais próspero e sustentável para as comunidades”, justifica a gerente de Desenvolvimento de Cooperativas do Sistema OCB, Debora Ingrisano.

As visitas ocorreram na segunda (21) e na terça-feira (22). A programação começou pelo ramo agropecuário e de crédito, com apresentação do trabalho desempenhado pelas cooperativas Coasa e Cresol, em Água Santa, na Região Norte. Depois, o grupo teve a oportunidade de conhecer a vinícola Aurora, em Bento Gonçalves, na Serra gaúcha.

Também na Serra, a delegação foi apresentada às boas práticas da Sicredi Pioneira, primeira cooperativa de crédito da América Latina. Em Nova Petrópolis, o grupo passou ainda pelo memorial ao padre Theodor Amstad, patrono do cooperativismo no Brasil, instalado junto ao prédio da Caixa Rural - primeira sede da Sicredi Pioneira. A imersão no Rio Grande do Sul se encerrou em Porto Alegre, com a experiência da cooperativa de trabalho Cotravipa.

Para o gerente de Relações Institucionais do Sistema Ocergs, Tarcísio Minetto, o contato direto com as cooperativas é essencial para a compreensão do papel do setor na construção de um futuro sustentável. “Vimos trabalhos incríveis com jovens, mulheres e comunidades inteiras, além do cuidado com o solo, que é o maior patrimônio que temos. Isso demonstra o potencial do cooperativismo como impulsionador do desenvolvimento territorial sustentável”, destacou.

As informações foram divulgadas pelas assessoria de imprensa da Ocergs. 

Equilíbrio entre desenvolvimento econômico e sustentável

A solidez do negócio e o crescimento do faturamento das cooperativas gaúchas foi um dos destaques assinalados pelos integrantes da comitiva. Em 2024, esse número chegou a R$ 93 bi no Estado, com sobras de R$ 5 bi. Chefe da Assessoria Especial de Economia Solidária da Secretaria-Geral da Presidência, Tatiana de Souza Santos reconheceu no cooperativismo do Rio Grande do Sul um diferencial em termos de organização, gestão e governança.

“Não conseguimos ver esse impacto econômico tão rápido como vimos nas cooperativas que a OCB está nos mostrando. O processo de autonomia na governança, no investimento em educação, na valorização da identidade cultural de cada região… É incrível como isso confere um sentimento de pertencimento e, consequentemente, gera desenvolvimento econômico. Ou seja: é possível olhar para economia, questão social, sustentabilidade, tudo andando junto”, avaliou Tatiana.

Responsável pela Rede Brasil do Pacto Global da ONU, Guilherme Xavier adiantou que a organização tem interesse em levar cases do sistema cooperativo para apresentação na COP 30. “A forma como as cooperativas se organizam, o propósito que elas têm, a missão que elas têm é 100% alinhada com essa visão de um mundo mais sustentável, seja no âmbito do meio ambiente, da governança, dos direitos humanos ou do trabalho. E isso ficou ainda mais claro para mim a partir dessa imersão”, afirmou Guilherme.

Representando o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (Undesa) em Nova York (EUA), Rosemary Anne Lane se disse fascinada com o exemplo de desenvolvimento da Coasa, que surgiu há 30 anos com 150 associados, e hoje ultrapassa 9 mil cooperados e faturamento de R$ 1,3 milhão.

“O que mais chamou atenção foi o aspecto da integração social, a inclusão social que as cooperativas proporcionam às pessoas. A cooperativa tem como foco a produção familiar e foi muito interessante ver os benefícios que surgem quando todos se unem”, comentou.

A atuação das cooperativas em parceria com as unidades locais da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), no sentido de levar soluções sustentáveis e rentáveis para o campo, foi exaltada pelo pesquisador Otávio Balsadi, da unidade central da Embrapa em Brasília.

“Essa imersão é importante não somente para a etapa pré-COP, mas também para o pós-COP — como legado. Tanto na Coasa quanto na Aurora, foi muito importante ver a Embrapa em parceria efetiva com as entidades que fazem com que as soluções cheguem ao produtor. É meio impensável que as unidades locais não trabalhem com o cooperativismo gaúcho diante da representatividade que nós vimos”, avaliou Otávio.

Atualmente, o Estado tem 372 cooperativas vinculadas ao Sistema Ocergs e 4,2 milhões de associados, o que corresponde a mais de um terço da população do Rio Grande do Sul.

O pesquisador citou ainda dois temas trabalhados pelas cooperativas, com apoio de recursos do Fundo Social do Sescoop/RS, e que integram a agenda prioritária da Embrapa: o protagonismo das mulheres rurais e a sucessão na agricultura familiar. Somente em 2025, o Fundo Social destinou R$ 3 milhões para 17 projetos sociais de cooperativas.

A Imersão pré-COP 30 no RS seguiu até 25 de julho e teve como objetivo fortalecer parcerias e ampliar o reconhecimento internacional das cooperativas brasileiras como agentes de transformação sustentável. 

terça-feira, 29 de julho de 2025


29 de Julho de 2025
CARPINEJAR

Aceito permuta

Circula pelas redes sociais minha frase atribuída ao poeta Mario Quintana: "Nunca teremos tempo para nos despedir direito, então capriche nos encontros imperfeitos". Eu a escrevi em 2018, e ela está no meu livro Família é Tudo.

Não sei se Quintana, como excelente tradutor e aforista, continua lendo no céu. Pois minhas aspas foram feitas 24 anos após sua morte. Seria um roubo do além. Um plágio divino.

Talvez devêssemos inventar um neologismo: necroscriptor - junção de "necro" (do grego nekrós, que significa "morto" ou "cadáver") e scriptor (do latim, "escritor"). Aquele que escreve mesmo depois de ter falecido. Nem Machado de Assis confabularia essas peripécias de um "defunto autor".

Confesso que me sinto honrado com a confusão, envaidecido pelo fato de algo da minha lavra ser digno da obra do nosso maior poeta. Minha vontade inicial era nem corrigir: permitir a transferência de autoria como uma medalha, um prêmio literário.

Mas, seguindo o humor pitoresco do bardo gaúcho - que publicava tiradas filosóficas diariamente no jornal, em sua coluna Caderno H -, proponho uma troca, um insólito balcão lírico.

Eu dou minha frase e o Quintana me dá uma sua. Que tal bater figurinhas na escola?

Já cobiço algumas opções da genialidade de Quintana, que colocaria com destaque em minha prosa.

"Amar é mudar a alma de casa." Definiu brilhantemente o frete emocional de quem começa um relacionamento. "A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe." Não poderia ter caracterizado melhor a dúvida como acesso ao mundo interior.

"A imaginação é a memória que enlouqueceu." Quem já fantasiou sobre a própria memória sabe que ela não tem freios. Somos capazes de recordar o que nem aconteceu, e jurar que aconteceu com os dois pés juntos.

"O verdadeiro analfabeto é aquele que sabe ler, mas não lê." Uma ode ao prazer da leitura, contra o desperdício do conhecimento. "Sonhar é acordar-se para dentro." Um incentivo para se escutar mais, e não ser refém de aspirações emprestadas.

Ou aquela estrofe nostálgica de A Rua dos Cataventos: "Da vez primeira em que me assassinaram, perdi um jeito de sorrir que eu tinha. Depois, a cada vez que me mataram, foram levando qualquer coisa minha".

Talvez sejam os versos mais tristes sobre o envelhecimento e a perda das ilusões, ombreando de igual para igual com Aniversário, de Fernando Pessoa: "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, e a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer".

Ou o mais comovente epitáfio da gratidão paterna, o poema As Mãos de Meu Pai:

"As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis? pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre cólera dos justos? Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se chama simplesmente vida".

Fico num dilema sobre qual escolher, tamanhas as prodigalidades do seu raciocínio mágico. Tenho certeza de que ele, apegado ao seu dom, jamais fará a permuta.

Até porque Mario Quintana nunca passará em vão pela nossa lembrança. É nosso eterno passarinho. CARPINEJAR


29 de Julho de 2025
NÍLSON SOUZA

Tungstênio

Sei que não se deve brincar com a sanha tarifária do senhor Trump, que vem provocando pânico em todo o mundo e pode provocar também desemprego nos países sobretaxados - entre os quais essa nossa pátria, amada, idolatrada, traída e, historicamente, subtraída. Ninguém ignora que os colonizadores europeus já levaram a maior parte do nosso ouro. Agora, segundo notícias provenientes do império do Tio Sam, os atuais exploradores querem levar o nosso lítio, o nosso nióbio, o nosso tântalo, o nosso disprósio, o nosso neodímio, o nosso praseodímio, o nosso gálio e - horror dos horrores - o nosso tungstênio.

Quando li sobre o interesse norte-americano nos nossos minerais, me arrependi imensamente de ter faltado às aulas de química no ginásio. E tive que fazer um reconhecimento póstumo a meu sogro agricultor, que juntava todas as pedras coloridas que encontrava na sua lavoura em São Domingos do Sul, na esperança de que um dia se revelassem preciosas. Talvez fossem mesmo, vá saber! Se temos reservas desses minérios de nomes estranhos a ponto de despertar a cobiça estrangeira, é bom que comecemos a prestar mais atenção nas pedrinhas do nosso caminho.

De minha parte, me confesso um analfabeto em mineralogia. Não sei sequer diferenciar um cascalho comum daquela turmalina Paraíba da novela O Rancho Fundo, que parecia mais valiosa do que o próprio ouro. Então, não me perguntem para que serve o gálio, o titânio ou qualquer dessas outras paroxítonas sofisticadas.

Mas já li alguma coisa sobre o tungstênio, utilizado tanto na fabricação de lâmpadas quanto naqueles projéteis perfurantes que os Estados Unidos lançaram sobre as usinas nucleares uranianas. Pelo que sei, o Brasil tem apenas 1% das reservas mundiais desse elemento químico. É pouco, mas é nosso. Que ninguém ponha a mão no nosso tungstênio!

Proponho, inclusive, que o governo crie uma tarifa proibitiva sobre o tungstênio brasileiro. Ou que alguém provoque o ministro Alexandre de Moraes a baixar uma proibição no sentido de que nenhum estrangeiro possa sequer se aproximar das nossas reservas de tungstênio, nem mesmo para selfies ou vídeos para as redes sociais. Precisamos dele para iluminar o país. 


29 de Julho de 2025
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Aos poucos, Leite vai se afastando do bolsonarismo

No último dia de trabalho antes da semana de férias que vai tirar no Rio Grande do Norte, o governador Eduardo Leite (PSD) usou palavras mais duras para definir o papel de Eduardo Bolsonaro no tarifaço imposto pelos EUA.

No Rio de Janeiro para um debate com o prefeito Eduardo Paes (PSD), Leite classificou como "imperdoável" a atitude de Eduardo Bolsonaro, que dos EUA conspira contra o Brasil ao tentar convencer autoridades a retaliarem o Brasil para tentar livrar o pai no processo a que responde por tentativa de golpe.

O governador gaúcho também se manifestou com firmeza contra a anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem declarou voto em 2018, quando disputou o segundo turno contra Fernando Haddad. À época, Leite justificou que sempre que o PT estivesse de um lado, ele estaria do outro. Em 2022, Leite foi apoiado pelos petistas no segundo turno, mas se manteve neutro na eleição presidencial, embora tivesse criticado Bolsonaro pela atuação na pandemia.

Na conversa organizada pelo jornal O Globo, Leite e Paes concordaram que não cabe ao Congresso aprovar anistia a Bolsonaro, nem ao futuro presidente conceder-lhe indulto.

Isso não é pouca coisa porque os outros presidenciáveis do lado oposto ao de Lula - Tarcísio de Freitas (Republicanos), Ratinho Júnior (PSD), Ronaldo Caiado (União Brasil) e Romeu Zema (Novo) - prometeram indulto a Bolsonaro.

Antipolarização

Leite endureceu o discurso porque está claro que quer conquistar os corações e mentes de quem está cansado de Lula e de Bolsonaro. Pesquisas mostram que a maioria dos eleitores não é lulista nem bolsonarista - e é nesse nicho que Leite pretende entrar. Isso também explica os discursos em que divide a responsabilidade pelo tarifaço entre os Bolsonaro e Lula, acusando o presidente brasileiro de fazer bravatas em vez de dar o primeiro passo e procurar Trump para negociar. _

Reunião frustra industriais

Os líderes da indústria que participaram no Palácio do Planalto do lançamento de um plano de estímulo às exportações para micro e pequenas empresas saíram frustrados por não terem conseguido falar com o presidente Lula. Sentado na segunda fila, o presidente da Fiergs, Cláudio Bier, esperava poder entregar em mãos a carta dos industriais gaúchos com pedidos a Lula, mas precisou entregá-la a um assessor, porque mal terminou a solenidade o presidente saiu da sala sem falar sobre tarifaço.

Bier conseguiu entregar em mãos a carta endereçada ao vice-presidente Geraldo Alckmin, que ficou no salão para conversar com os empresários. Alckmin foi gentil, mas não adiantou que medidas o governo planeja adotar para socorrer as indústrias.

- Esta é a terceira vez que venho a Brasília desde que o tarifaço foi anunciado. A situação é extremamente preocupante. Exportamos produtos de alto valor agregado, que não podem simplesmente ser mandados para outros destinos - disse. _

Gisele Bündchen destina R$ 9 milhões para escolas da Capital

Conhecida mundialmente, a modelo gaúcha Gisele Bündchen destinou R$ 9 milhões para o Instituto Cultural Floresta, por meio do Fundo Luz Alliance em parceria com a BrazilFoundation, para obras em três escolas de Porto Alegre.

As obras custarão R$ 12,5 milhões - a diferença será captada pelo Floresta. A iniciativa integra projeto da prefeitura de Porto Alegre para ampliação de vagas ao longo dos próximos anos. Os três colégios foram severamente atingidos pela enchente do ano passado.

Desde o início da tragédia, o Fundo Luz Alliance e a BrazilFoundation se uniram para mobilizar recursos junto a doadores individuais, grandes empresas e marcas globais para levar apoio às vítimas. _

POLÍTICA E PODER

Dois pesos, duas medidas

Tudo indica que a imposição de tarifas pela ditadura de Nicolás Maduro a produtos brasileiros, na faixa de até 77%, não foi uma retaliação pontual do governo venezuelano ao fato de o Brasil não ter reconhecido a vitória do soberano do Palácio de Miraflores. Tratou-se, mesmo, de uma barbeiragem aduaneira. O Itamaraty pediu explicações à embaixada brasileira em Caracas e concluiu-se que foi um erro de sistema.

Já havia gente, por aqui, colocando no mesmo balaio a ameaça de tarifaço de Donald Trump e a suposta ação venezuelana. Mesmo que fosse verdade a manobra de Maduro, não havia nada em comum.

Em 2024, o comércio entre o Brasil e a Venezuela atingiu US$ 1,6 bilhão, sendo US$ 1,2 bilhão em exportações brasileiras, o que representa apenas 0,4% do total exportado pelo país. Entre os principais produtos comercializados estão açúcares e melaços, produtos comestíveis, e milho.

No mesmo ano, as exportações brasileiras para os Estados Unidos totalizaram US$ 40,3 bilhões. O país de Trump é o segundo principal destino dos produtos brasileiros - atrás apenas da China.

Ou seja, no caso venezuelano, não haveria impacto estrutural significativo na balança comercial, envolveria produtos pontuais e teria menor alcance e impacto geoeconômico. O "tarifazo" de Maduro, caso se confirmasse, atingiria principalmente o setor produtivo de Roraima. O de Trump, mais vivo do que nunca, é um abalo sísmico na economia nacional. São dois pesos, duas medidas. _

Ato em Porto Alegre

A União Estadual dos Estudantes (UEE) do RS, filiada à União Nacional dos Estudantes (UNE), está programando para a próxima sexta-feira um ato contra o tarifaço do presidente americano, Donald Trump, e em defesa da soberania nacional. O encontro ocorrerá às 18h, na Esquina Democrática, no centro de Porto Alegre.

O movimento procura reunir Diretórios Centrais dos Estudantes (DCEs) das universidades da Capital, bem como centros acadêmicos, centrais sindicais, sindicatos e partidos políticos do campo progressista.

Conforme a organização do evento, a ideia é que o ato supere diferentes ideologias políticas e busque conscientizar a população sobre o debate que atinge diretamente a população. _

Argentinos liberados do visto?

Enquanto Donald Trump endurece as políticas migratórias dentro dos Estados Unidos, o presidente da Argentina, Javier Milei, reuniu-se ontem com a secretária do Departamento de Segurança americana, Kristi Noem, para dar início a um processo para que argentinos entrem nos Estados Unidos sem a necessidade de visto.

Em comunicado da presidência argentina divulgado nas redes sociais, o país teria iniciado o processo de incorporação do Visa Waiver Program - o chamado VWP -, que permitiria "que milhões de argentinos possam viajar aos Estados Unidos por turismo ou negócios sem necessidade de visto, posicionando a Argentina em um seleto grupo de países com este privilégio".

O encontro entre Milei e Kristi ocorreu na Casa Rosada, onde ambos dialogaram sobre os avanços das cooperações bilaterais, segurança externa e a "luta contra o terrorismo".

A solicitação constitui o primeiro passo para o processo. A nota da presidência ainda afirma que "o início deste processo é uma clara mostra do excelente vínculo entre o presidente Javier Milei e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump". _

A coluna foi atrás do número de gaúchos monitorados por tornozeleira eletrônica. São 11.915 em todo o Estado. Destes, 11.464 equipamentos são acompanhados pela Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo. Já outros 451 são monitorados pela Secretaria da Segurança Pública.

Turistas para o inverno gaúcho

Depois de focar no mercado nacional, o governo do RS busca turistas de países do Mercosul e da Colômbia para o inverno. A ideia é mostrar o Estado como local acolhedor, seguro e resiliente.

Com investimento de R$ 40 milhões, a Secretaria de Turismo do RS (Setur) terá como parte da campanha o envio de comitiva para o Meeting Brasil Mercosul, entre os dias 4 e 13 de agosto em cinco países: Paraguai, Uruguai, Chile, Argentina e Colômbia.

O governo tem se preocupado em mostrar o RS como Estado que está conseguindo se reerguer após a enchente de 2024. Mais do que a Serra, local já conhecido nacional e internacionalmente, a Setur pretende valorizar atrativos de outras regiões, durante o inverno - como os Vales, a Capital, o Litoral e a Fronteira.

Neste ano, a Setur oferecerá mesas de atendimento nas rodadas de negócios para as operadoras Brocker e Giordani Turismo - selecionadas com base em critérios técnicos do Sebrae RS - que irão comercializar novos roteiros e produtos turísticos diretamente com operadores locais. A comitiva terá agendas com embaixadas dos países visitados, em articulação com o Comitê Visit Brasil. Uma das iniciativas prevê convites para jornalistas desses países para conhecer o Estado e produzir reportagens. _

Estado adia evento internacional

O governo do RS decidiu adiar a realização do seminário internacional Águas em Transformação: Diálogos Globais para Resiliência e Cooperação, iniciativa do Programa Hidrológico Intergovernamental da Unesco, que seria em setembro, na Capital.

O evento precederia a COP30, em Belém, e teria presença de mais de mil pessoas, representantes de 35 países e de 300 prefeituras brasileiras.

O seminário no RS havia sido uma das conquistas da viagem do governador Eduardo Leite a Paris, a convite da Unesco, no início de julho. À coluna, o governo informou que o evento foi adiado por conflito de datas com outras iniciativas nacionais e internacionais pré-COP30. _

Campanha reforça resiliência do RS

Nesta semana, deve começar a aparecer nos materiais de divulgação do governo do Estado a nova frase conceito do Plano Rio Grande, o Programa de Reconstrução, Adaptação e Resiliência Climática do RS, que propõe medidas para atenuar impactos da enchente de 2024.

A fase 1 teve como slogan "O plano é um só, tornar o RS ainda mais forte".

Agora, na fase 2, o conceito será "A grande obra é proteger você".

A ideia é reforçar a imagem do Estado como um ambiente seguro - não apenas para as pessoas, mas também para turistas e investimentos.

Os spots publicitários e outdoors ainda estão sendo preparados. _

INFORME ESPECIAL 

segunda-feira, 28 de julho de 2025


28 de Julho de 2025
CARPINEJAR

Checklist do constrangimento universal

Quem nunca enfrentou uma gafe que virou piada? Quem nunca cometeu um deslize no meio da etiqueta? Quem nunca se tornou o centro das atenções sem querer? Quem nunca esteve no lugar certo na condição de pessoa errada?

Não tem como sempre manter as aparências. O vexame é inevitável, e não é raro.

Preparei uma antologia do constrangimento que todo mundo teme (ou já viveu em segredo).

Espero sinceramente que você não gabarite. É aquela prova em que a melhor nota é de quem entrega a folha em branco.

Caso acerte tudo, você não pratica a Lei de Murphy - foi você que a inventou. Seu sobrenome é Azar.

( ) Fazer uma festa de aniversário e ninguém comparecer.

( ) Quebrar braço ou perna, e permanecer engessado por alguns meses, suportando banho de gato.

( ) Rodar de ano por uma única matéria.

( ) Ser pego de penetra num evento e expulso diante do olhar atônito da multidão.

( ) Levar um fora na véspera do Dia dos Namorados.

( ) Ser traído. Perdoar e ser traído de novo.

( ) Esquecer o discurso numa apresentação.

( ) Ter bloqueio num exame.

( ) Ser apanhado colando ou dando cola.

( ) Descobrir fofoca espalhada por quem você considerava amigo.

( ) Perder o último ônibus da noite.

( ) Ser acusado injustamente.

( ) Tropeçar na frente de todo mundo.

( ) Adquirir ingresso falso para o show tão aguardado.

( ) Passar recibo de burrice repetindo uma desinformação.

( ) Usar aparelho durante anos e não corrigir os dentes.

( ) Bater o carro que recém saiu da concessionária, ainda sem seguro.

( ) Cortar curto demais o cabelo ou exagerar com a pinça na sobrancelha.

( ) Errar o português na tatuagem.

( ) Falhar na hora H.

( ) Beijar alguém com mau hálito.

( ) Rir num enterro.

( ) Felicitar a gestação de quem não está grávida.

( ) Ter dor de barriga no meio da rua.

( ) Acenar achando que é com você - e não é.

( ) Não conseguir lembrar o nome de quem já foi muito próximo.

( ) Chamar o atual parceiro pelo nome do ex.

( ) Ficar preso no elevador de madrugada.

( ) Fechar a porta de casa com a chave dentro.

( ) Embarcar no carro de um estranho pensando que é o Uber.

( ) Trocar sal por açúcar na comida.

( ) Trocar açúcar por sal no café.

( ) Tentar desentupir a privada e alagar o banheiro.

( ) Abrir mensagem íntima na presença da família por engano.

( ) Mandar áudio falando mal para a pessoa citada.

( ) Escrever textão e receber um emoji de retorno.

( ) Confessar "eu te amo" e ouvir "obrigado" de resposta.

( ) Comprar um produto no impulso e ver que entrou em promoção no dia seguinte.

( ) Comprar roupa sem experimentar, e acabar apertada demais.

( ) Adormecer antes de conferir se o carregador está conectado na tomada - e se atrasar pela falta do despertador.

( ) Confundir o passaporte com a carteira de trabalho - e só perceber no aeroporto.

( ) Comemorar gol impedido.

( ) Comemorar título com gol anulado. _

CARPINEJAR

28 de Julho de 2025
CLAUDIA LAITANO

Superatual

Se você, como eu, só assiste filmes de super-herói em situações extremas (insistência de filho ou sobrinho, insônia no avião, ausência de opções no bunker em que você foi parar depois de sobreviver a uma hecatombe nuclear), talvez não tenha dado muita bola para a estreia nos cinemas de um novo Superman. Eu provavelmente não teria assistido se não tivesse sido atingida em cheio pela estratégia de marketing mais eficiente que eu conheço: a indignação da extrema direita norte-americana.

Antes mesmo da estreia, o filme foi tachado de "woke", termo que se presta para quase tudo - do combate ao racismo ao uso de pronomes, da defesa do meio ambiente aos banheiros unissex - e portanto mais confunde do que esclarece qualquer discussão. Mas se desafiar as certezas da extrema direita pode ser considerado um sintoma de "wokismo" galopante, o Superman de James Gunn não tem mesmo muito como se defender.

Uma das provocações mais escancaradas é relembrar o espectador norte-americano, em meio a uma das campanhas mais agressivas contra a imigração que o país já assistiu, que o próprio Super-homem veio de outro planeta. Ou seja: é um imigrante. A outra é colocar o super-herói como antagonista do governo da Boravia, país fictício que invade o território vizinho, Jahranpur, com o apoio de um aliado superpoderoso - os Estados Unidos.

A coleção de momentos "qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência" não para por aí. Há uma prisão secreta, instalada em uma espécie de universo virtual paralelo, que lembra os locais pouco convencionais para onde centenas de deportados vêm sendo enviados pelo governo Trump. Há também referências à arrogância das big techs e às campanhas de difamação disseminadas com a ajuda de "bots" (que ganham, no filme, a forma de macaquinhos).

Criado pelos judeus Jerry Siegel e Joe Shuster em 1938, Superman já nasceu com um subtexto político, antinazista. (Em uma história publicada nos anos 1940, Como Superman Terminaria a Guerra, nosso herói segura Hitler pelo colarinho e manda essa: "Eu adoraria enfiar um soco puramente não ariano no seu queixo".) Em 2025, não é muito difícil concluir de que lado um super-herói que defende a verdade e a justiça deveria estar.

Infelizmente, nem o Super-homem parece capaz de nos livrar da kryptonita que anda enfraquecendo democracias mundo afora. Ao garantir aos vilões Lex Luthor (mezzo Elon Musk, mezzo Donald Trump) e Vasil Ghurkos (mezzo Putin, mezzo Netanyahu) o final que eles merecem, o filme de James Gunn nos oferece pelo menos o alívio catártico. 

CLAUDIA LAITANO


28 de Julho de 2025
OPINIÃO DA RBS

Riqueza mineral brasileira é trunfo

Em meio à tensão com os EUA, emergiu nos últimos dias a informação de um possível interesse norte-americano no acesso às reservas brasileiras dos chamados minerais críticos e estratégicos (MCEs). Incluem elementos como cobre, níquel, cobalto, nióbio, lítio e terras raras. São recursos que passaram a ser centrais na geopolítica por suas aplicações ligadas à transição energética e à indústria de alta tecnologia. O Brasil é um dos países com maiores volumes desses minerais em seu subsolo. Nas terras raras, está atrás apenas da China, que domina esse setor. Trata-se, portanto, de ativos que põem o país em uma condição privilegiada na inserção em cadeias econômicas que ganharão cada vez mais peso no futuro.

Mas se sabe que o Brasil tira pouco proveito dessas riquezas. Ainda antes de o tema ser inserido como um possível ponto de negociação para o país evitar a entrada em vigor de tarifas de importação de 50% que Donald Trump quer impor ao Brasil a partir de sexta-feira, já se discutiam as bases para esse cenário mudar. É esperado que antes da COP30, em novembro, em Belém (PA), o Brasil tenha encaminhada a Política Nacional de Minerais Críticos. O governo federal trabalha em um texto e há outro já apresentado no Congresso. Seria batizada de Minerais para a Energia Limpa (MEL).

Com a possível cobiça dos EUA, o tema ganhou força. Espera-se que Executivo, Congresso e setor privado, envolvidos nas discussões, costurem um consenso que permita ao Brasil explorar melhor as suas reservas. Mas não apenas exportando matéria-prima. O ideal é avançar com um regramento que dê condições para o processamento e a agregação de valor internos. Não há óbice em firmar parcerias com outras nações, em especial as mais adiantadas tecnologicamente nessa área. A mineração no país, aliás, tem ampla participação de estrangeiros. Um dos pontos do tratado comercial entre União Europeia e Mercosul abrange os minerais críticos. Inexiste razão, portanto, para furor nacionalista. Basta saber negociar termos que contemplem o desenvolvimento do Brasil.

Não se sabe ao certo o quanto o tema influenciaria em uma solução para o tarifaço. Mas é notório ser uma área que os EUA enxergam como nevrálgica na corrida tecnológica. A exportação de terras raras faz parte do acordo que Trump tenta costurar com a China. Washington também exigiu acesso às reservas da Ucrânia desses elementos, empregados em motores de carros elétricos, chips, equipamentos médicos, turbinas eólicas, satélites e mísseis.

O Rio Grande do Sul não está alheio a essa pauta, ainda que qualquer desdobramento prático possa estar décadas à frente. O Brasil pleiteia junto à ONU o reconhecimento do controle sobre uma ilha submersa no Oceano Atlântico, que está a 1,2 mil quilômetros da costa gaúcha e é rica em terras raras. A reivindicação está desde fevereiro sob análise da Comissão de Limites da Plataforma Continental (CLPC) da ONU.

Os EUA e outros países, por óbvio, não apreciam a possibilidade de depender demais da China. Torna-se lógico o interesse em diversificar o fornecimento de terras raras e outros minerais críticos. Cumpre ao Brasil saber tirar vantagem da riqueza de que dispõe. 


28 de Julho de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Respostas capitais

Rafael Prikladnicki - Doutor em Computação, com mais de 20 anos de atuação em tecnologia, inovação e educação, ex-diretor do Tecnopuc e presidente da Invest RS

"Desafio é reconhecer dificuldades e mostrar que agora temos uma visão diferente"

Além de entrevista publicada neste espaço em 7 de julho, o artigo em que a economista Zeina Latif afirma que o RS "está ficando para trás" rendeu conversa com Rafael Prikladnicki. O presidente da Invest RS afirma que os problemas do Estado têm de ser reconhecidos para buscar solução, mas também é preciso ter uma atuação com perspectiva de futuro.

O problema mais conhecido do RS é o fiscal. Como restringe o papel da agência de estimular investimentos?

O artigo traz uma contribuição. Os reflexos do ajuste fiscal que o Estado tem feito não são percebidos no curto prazo, são um processo. E temos duas opções: ficar parado ou colocar o pé no acelerador e fazer um trabalho intenso de promoção do Estado, buscar formas de atrair investimentos. O desafio é reconhecer dificuldades e, ao mesmo tempo, mostrar que trouxemos uma visão diferente. No momento em que os investidores começam a sentir isso, os investimentos vão começar a vir, e vamos mudar aos poucos essa realidade.

E como a agência opera com o limite orçamentário?

A primeira sinalização é a capacidade de o Estado entender que investir em uma agência de desenvolvimento é importante. A Invest é privada, mas tem contrato de gestão com o Estado por meio da Secretaria do Desenvolvimento Econômico. E temos muitos incentivos que, muitas vezes, não são conhecidos. Entregamos há pouco um guia a investidores, mapeando o que já existe. Precisamos ser inteligentes ao escolher os setores que vamos abordar e tentar trazer o maior recurso possível dentro dessa limitação.

Existem recursos privados na agência ou só públicos?

Atualmente, só públicos, mas o estatuto prevê a possibilidade de captar de outras fontes, públicas e privadas. Podemos ter contratos adicionais com outras estruturas de governo, secretarias ou empresas estatais. A Invest São Paulo é a nossa referência.

Há encaminhamento para o que a economista vê como excesso de judicialização?

Estamos buscando, não só a Invest RS, mas a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, com seu Conselho Estadual de Desburocratização e Empreendedorismo. É um dos fatores que temos de enfrentar com diálogo, eventuais reformas, ou seja, precisamos entender o que traz de entraves ou de insegurança para o investidor e melhorar.

É algo que vocês ouvem de investidores potenciais?

Até agora, nunca foi pauta. Mas temos de levantar números, entender com as empresas e o Estado qual é o desafio. O conselho é um fórum adequado porque tem representantes de diversas áreas, da Junta Comercial a empreendedores, para debater de forma transparente, assim como outros desafios do Estado foram trabalhados com reformas.

Na entrevista, a economista diz que as reformas do RS foram importantes, é um alento?

Sim, até por isso a procuramos para estabelecer esse canal de diálogo. Zeina tem um alerta importante, não só para o RS, mas para outros Estados com desafios similares. Por isso, a própria criação da Invest RS é um sinal positivo, porque se o Estado não tivesse recuperado a capacidade de pensar no futuro, não existiria agência de desenvolvimento. Aceitamos o debate, também para apresentar uma visão de futuro. O Estado tem desafios, mas também é um exemplo de solução. É nisso que a Invest RS acredita: somos parte da solução para levar o Estado a outro patamar. Comparando com aquele RS que atrasava salários, houve avanços. E não no curto, mas no médio prazo, o melhor momento para investir no RS é agora, antes do crescimento significativo.

O orçamento do Estado para 2026 prevê déficit de R$ 5,2 bilhões. O que esse dado significa para atrair investimentos?

Olhando de longe, porque a agência não se envolve com o orçamento, esse déficit existe, mas não é um descontrole irresponsável, é um processo responsável de ajuste. É uma transição que estamos fazendo aos poucos. Existem vários desafios pesados, não dá para fazer tudo de uma vez só. O Estado tem respirado ares de futuro.

Você mencionou que um investidor foi surpreendido por uma conversa que nunca havia tido, qual foi?

Foi um contato com um potencial investidor na área de tecnologia que, há dois, três anos atrás, em algumas interlocuções, mencionou que eram muito truncadas. Tinha de conversar com alguém de uma secretaria, depois conversar de outra, depois... E na conversa mais recente, de duas horas, falamos do Estado de forma ampla, de desenvolvimento a incentivo, passando por capital humano. Ele começou a fazendo uma crítica, dizendo que a experiência havia sido negativa há três anos e terminou a reunião dizendo que  estava saindo com uma imagem completamente diferente. _

GPS DA ECONOMIA


28 de Julho de 2025
POLÍTICA E PODER - Paulo Egídio

Como Tarcísio pode influenciar a eleição do RS

Com o xadrez eleitoral tomando forma, uma peça de fora do Rio Grande do Sul será determinante para a composição do tabuleiro gaúcho em 2026. Nome mais cotado para representar a direita na corrida presidencial, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), terá influência direta na formação de alianças e nos discursos dos futuros candidatos ao Palácio Piratini, sobretudo nos casos de Luciano Zucco (PL) e Gabriel Souza (MDB).

De largada, a candidatura de Tarcísio tende a dar impulso a Zucco, de quem é amigo há 30 anos e apoiador declarado. Além da transferência de prestígio por estar no mesmo palanque, Tarcísio pode ajudar o deputado federal se decidir migrar para o PL e confirmar a aliança com o centrão, que já se movimenta para emplacar seu vice. Entre os cotados, estão o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, e a senadora Tereza Cristina (PP-MS).

Nesse cenário, aliados de Zucco apostam em um alinhamento vertical, empurrando o PP para sua coligação e levando de bandeja o federado União Brasil. O movimento provocaria uma mudança nos planos de parte dos líderes do PP gaúcho, hoje mais próximos de Gabriel.

Peso da federação

Caso Tarcísio decida permanecer no Republicanos, entretanto, o cenário torna-se mais confortável para o vice-governador, sobretudo porque o partido negocia uma federação com o MDB.

Conforme um apoiador próximo, esse seria o "melhor dos mundos" para Gabriel, visto que garantiria o Republicanos na aliança governista, levaria o vice-governador para um apoio pragmático a Tarcísio e esfriaria a hipótese de replicar a polarização nacional no RS, fenômeno que quase retirou Eduardo Leite do segundo turno em 2022. Como efeito colateral, entretanto, há risco de afastar o PDT, aliado que tem ganhado cada vez mais espaço no Piratini.

No caso de Leite, a candidatura presidencial de Tarcísio sepultaria de vez sua pretensão de disputar o Palácio do Planalto, já que ficaria sem legenda - o presidente do seu PSD, Gilberto Kassab, tem compromisso com o apoio ao governador paulista na corrida presidencial. _

Termo sob sigilo

Está assinado o termo de cooperação do governo do Estado com a Red Bull e a Youp Produções para que um skatista desça pela fachada do Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF), prédio público de Porto Alegre que lembra uma rampa gigante. A súmula foi publicada no Diário Oficial.

A documentação, entretanto, está mantida em sigilo, em razão de uma cláusula de confidencialidade solicitada pela multinacional. De acordo com a Secretária de Planejamento, trata-se de um pedido da empresa para que a ação seja realizada com segurança. A pasta informa que, após a ação, toda a documentação será disponibilizada.

O evento não terá nenhum custo para o Estado e a Red Bull ainda doará duas rampas públicas de skate ao RS. _

Longe do inverno

Eduardo Leite escolheu Natal, no Rio Grande do Norte, para passar a semana de férias. Antes, fará escala hoje no Rio de Janeiro para participar de um painel sobre o futuro do país ao lado do prefeito Eduardo Paes. A atividade faz parte das celebrações dos 100 anos do jornal O Globo.

Leite reassume o Piratini no dia 4 de agosto. 

Prefeituras do PT levam maioria dos ônibus do PAC no Estado

O anúncio da entrega de mil novos ônibus para todo o país foi feito na quinta-feira por Lula e pelo ministro da Educação, Camilo Santana, em ato em Minas Gerais. Posteriormente, a lista de contemplados foi lançada no site do PAC.

No caso do Rio Grande do Sul, cada uma das 23 cidades receberá um ônibus. Destas, 17 são administradas pelo PT, duas pelo MDB, duas pelo PP, uma pelo PL e outra pelo PDT. O anúncio contempla quase todas as 20 prefeituras administradas pelo partido do presidente Lula no RS.

A coluna perguntou à Casa Civil, que gerencia o PAC, quais os critérios adotados na escolha dos municípios contemplados e quantas cidades gaúchas demonstraram interesse em receber os ônibus, mas não recebeu resposta até o fechamento desta edição.

De acordo com comunicado no site da Casa Civil, a seleção "priorizou atender áreas de vulnerabilidade social, para ampliação da oferta de vagas para crianças de zero a cinco anos, e garantir mais segurança e conforto no translado à escola, além de contribuir para a redução da evasão escolar dos estudantes". _

Disputa pela cadeira

Começa a contar hoje a licença do deputado Thiago Duarte (União Brasil) para assumir a Secretaria Estadual de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, mas há incerteza sobre quem ocupará a cadeira.

A Justiça Eleitoral ainda não decidiu se a Assembleia Legislativa deve chamar a primeira suplente, Barbara Penna, ou o segundo, Ruy Irigaray. O União Brasil entrou com ação alegando que Barbara não deve ser convocada pois cometeu infidelidade partidária ao migrar para o Podemos em 2024.

O advogado de Barbara, Lucas Lazari, entrega hoje a defesa ao Tribunal Regional Eleitoral. _

Dinheiro na concessão

O governo do Estado vai repassar recursos do Funrigs, o fundo da reconstrução, à concessionária Caminhos da Serra Gaúcha (CSG), administradora do bloco 3 de rodovias estaduais, que reúne estradas da Serra e do Vale do Caí.

O bloco foi concedido em 2023, mas o aporte de recursos será para compensar obras emergenciais feitas para recuperar as estradas dos danos causados pela enchente do ano passado. O valor ainda não está fechado.

Mandato renovado

O governador Eduardo Leite reconduziu ao cargo o procurador-geral do Ministério Público de Contas (MPC), Ângelo Gräbin Borghetti. Ele chefiará a instituição até 2027.

Natural de Não-Me-Toque, Borghetti está no cargo desde 2023, quando substituiu Geraldo da Camino no comando do órgão que atua junto ao Tribunal de Contas do Estado. _

mirante

Funcionário de carreira do Banrisul, Atilo da Luz Escobar foi indicado pelo governo Leite para a diretoria do Badesul. Escobar é filiado ao PDT.

Cautelar emitida pela conselheira substituta Heloísa Piccinini, do Tribunal de Contas do Estado, determinou suspensão das atividades do Conselho do Plano Diretor de Porto Alegre. O órgão é responsável por avaliar e aprovar grandes empreendimentos.

A decisão do TCE não afeta a revisão do Plano Diretor da Capital. No calendário do governo Melo, 28 de agosto é a data aprazada para enviar o projeto à Câmara de Vereadores.

POLÍTICA E PODER


28 DE JULHO DE 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Comida de paraquedas

Depois de uma semana em que as imagens da fome em Gaza horrorizaram o mundo, Israel anunciou uma "pausa tática na atividade militar", o que permitiu o deslocamento de caminhões com ajuda humanitária e o sobrevoo de aeronaves, despejando comida de paraquedas sobre o território. Israel nega ser responsável pela catástrofe humanitária e acusa o Hamas de sequestrar a comida que chega. Ainda que a "pausa tática" possa ser apenas uma resposta momentânea às críticas da comunidade internacional, na infeliz história dessa guerra iniciada em 7 de outubro pelos terroristas, é melhor do que nada.

Já faz muito tempo que todos os lados perderam a razão. O Hamas, além de roubar comida e remédios, faz a população palestina refém de sua causa. Israel permite que caminhões ingressem em Gaza, mas não o suficiente nem na velocidade necessária para aplacar o caos. Esses veículos transitam alguns quilômetros e são engolidos pela multidão esfomeada. Não há segurança nas rotas - "é o lobo homem do próprio lobo" em sua versão mais ancestral.

As Forças de Defesa de Israel (FDI), que precisam garantir que não há armas nos carregamentos, acabam atrasando ou negando movimentos regulares coordenados para a entrega. Sem falar que quase 70% das rodovias de Gaza estão danificadas.

As novas regras também tornam a distribuição um funil: o novo sistema, por meio da chamada Fundação Humanitária de Gaza (GHF) centraliza demais a distribuição. A ONU e outras agências não cooperam com o órgão, porque o consideram desumano e militarizado - centenas de palestinos foram mortos por tiros quando iam buscar comida, o que indica truculência.

A ajuda despejada de aviões - por Israel, Jordânia e Emirados Árabes Unidos - normalmente agrada fotógrafos de guerra e dão certo acalento à opinião pública internacional de que algo, finalmente, está sendo feito. São ações que rendem imagens impactantes, mas insuficientes. Isso não vai acabar com a fome em Gaza.

Lá embaixo, os paletes, quando caem, podem ferir - como já ocorreu nesses dias - ou matar. Se despencam sobre um escombro de residência, provocam mais danos. Crianças correm para muito longe de seus pontos de referência para pegar a carga. Quando a multidão alcança o lote, há confusão, brigas. Se caem em áreas minadas, o alento se transforma em armadilha. Lançar comida de paraquedas é considerado o último recurso - o que sugere a que nível pavoroso chegamos neste conflito.

Somente uma operação humanitária irrestrita e um cessar-fogo podem resolver a crise. O segundo é pré-requisito para o primeiro. Com passagens abertas, corredores seguros, é possível conectar Gaza à Jordânia. A porção norte do território fica a não mais de 30 minutos de carro de Ashdod, onde há um moderno porto, que poderia receber apoio internacional. Toneladas de comida, de forma organizada, poderiam chegar por ali. Não é difícil. Não é impossível. Basta querer. Mas as armas precisam ser caladas primeiro. _

Entrevista - Cláudia Costin - Especialista em educação

"Nós, professores, não queremos piedade, queremos respeito"

A especialista em educação e ex-diretora global de Educação do Banco Mundial Cláudia Costin estará hoje na Capital para a palestra "Desafios e oportunidades da educação: a importância do engajamento e compromisso de todos para o sucesso na aprendizagem", parte de um ciclo de eventos organizado pela Secretaria Municipal de Educação para professores, diretores e demais profissionais da rede municipal. Ela conversou com a coluna.

Quais os principais pontos que serão abordados?

Vou começar falando da Agenda 2030. O mundo pactuou que vamos garantir educação de qualidade para todos. Parece obviedade, é muito desafiador: no Brasil, somos um dos últimos países a universalizar o acesso ao ensino primário no continente americano. Demoramos muito a colocar todas as crianças na escola. A questão da qualidade ainda é um desafio enorme. É muito fácil dizer: "Nosso papel, enquanto sistema, é garantir que as aulas ocorram, aprender depende de cada aluno". Isso significa prejudicar os mais vulneráveis. 

O papel do sistema escolar, especialmente do público, é fazer com que todos aprendam e não dizer: "Eu ensino e, depois, a gente vê como acontece". No caso brasileiro, 68% do sucesso escolar de uma criança depende de quantos anos seus pais estudaram. Isso quer dizer que a escola tem um certo poder de atuação, mas não completo, porque, se a criança veio do meio mais vulnerável, seus pais provavelmente estudaram menos.

E a formação dos professores?

Infelizmente, pagamos mal os nossos professores. Pagamos, em média, um terço do que países com bons sistemas pagam. É muito ruim, porque queremos ter uma carreira de professor atrativa. Para complicar ainda mais, no Fundamental II e no Ensino Médio, o professor tem seus contratos fragmentados: dá 10 horas em um município, 16 horas em outro, e algumas aulas à noite para completar uma carga horária de 40 horas. 

Temos um problema de atratividade da carreira, que se agrava ainda mais quando a população olha para esse professor como alguém que merece pena, mas não respeito e admiração profissional. Toda vez que a opinião pública fala de professores, é para falar como eles sofrem. Nós, professores, não queremos piedade, queremos respeito e admiração profissional, mas, infelizmente, muitos de nós acabam vestindo a carapuça, não se sentindo com o direito de ter orgulho das nossas próprias práticas. Isso é um problema, e a formação reforça isso, porque sete em cada 10 professores é formado exclusivamente por EAD.

E o problema da evasão escolar?

Há uma correlação fortíssima entre reprovação e evasão escolar. O aluno, se começa a repetir, muitas vezes os pais que têm uma formação mais insuficiente, acham que ele não é "feito" para escola, talvez devesse trabalhar. A pandemia agravou isso, porque muito adolescente começou a trabalhar em atividades precarizadas, a colocar dinheiro em casa e a ser mais respeitado. Isso trouxe uma visão inadequada. No Ensino Médio, é mais grave, porque, se ele estiver com defasagem da idade/série, ou seja, mais velho do que a idade correta para a série dele, e repete mais uma vez, ele próprio vai chegar à conclusão de que estudar não é para ele.

Como traçar uma política pública que continue, mesmo com mudanças de governo a cada quatro anos?

Gosto muito da metáfora da construção da muralha da China. Ela foi erguida ao longo de centenas de anos. Se fosse política pública, chegava o próximo (governante) e destruiria o pedaço construído pelo anterior. Estariam sempre começando do zero. Naturalmente, não foi assim que foi construída, e a política educacional tem de ser vista dessa maneira (com continuidade). Pequenos ajustes precisam ser feitos, especialmente no caso de Porto Alegre, que acompanho há alguns anos. Chama muita atenção o fato de a cidade ter o mais alto salário entre as capitais. O processo de ensino não é focado em garantir aprendizagem para todos, ou, historicamente, não foi assim. Há algo para se ajustar nessa muralha da China, porque havia uma abordagem complicada, que não fazia avançar. 

Não quero, com isso, questionar os secretários anteriores, porque acompanhei os esforços de alguns para mudar a lógica. É importante que a gente estruture o processo de ensino pensando em como fazer com que todos os alunos aprendam. Algumas coisas têm de ser repensadas. É o diretor da escola que organiza essa orquestra de professores. Ele tem de ser o líder da aprendizagem. Algumas disciplinas demandam mais tempo para se aprender, mais carga horária. O importante não é a carga horária igual para todos os professores, é qual a carga horária é necessária para o ensino de cada conteúdo. Quais disciplinas são fundamentais para todas as outras? Por exemplo, não saber ler e escrever até o quarto ano significa que eu não vou conseguir aprender, com autonomia, História e Geografia. Se eu não aprendo Matemática, eu não vou aprender Ciências. 

INFORME ESPECIAL

sábado, 26 de julho de 2025

            

Mais do que os cinco sentidos: um ensaio sobre a mulher e o indomável do feminino

Há coisas na vida que os cinco sentidos não dão conta. Eles são, sim, portas poderosas: enxergam, tocam, provam, escutam, cheiram. Mas tudo isso, por mais aguçado que seja, só alcança a pele do mundo. O que é profundo, o que é essência, exige outro tipo de acesso. E é nesse ponto que se encontra o mistério das mulheres.

Edson Marques, em um texto seu, no trecho que inspira esta reflexão, diz: “Não me bastam os cinco sentidos para perceber-lhes toda a beleza”. E é verdade. Porque não se trata apenas de ver um rosto bonito ou ouvir uma voz suave. A mulher é um território de complexidades. É história, é memória, é sonho, é força e vulnerabilidade ao mesmo tempo. Nenhuma retina, por mais sensível, alcança tudo isso.

Um olhar superficial pode se deter nas curvas e nos perfumes; um olhar profundo tenta entrar na alma. E para isso, não basta enxergar: é preciso pressentir. Não basta ouvir: é preciso escutar o que não foi dito. Não basta tocar: é preciso perceber o arrepio do silêncio.

A mulher é, antes de tudo, um universo. E quem tenta reduzi-la ao que vê, perde-se. Ela carrega dentro de si gerações de histórias, medos e coragem. Cada gesto tem uma origem antiga, cada palavra carrega uma força que foi aprendida ao longo de séculos. Há dores guardadas que os sentidos não captam. Há sonhos que só aparecem quando alguém olha sem querer dominar.

E aqui está um ponto essencial: não se ama uma mulher tentando explicá-la. Amar uma mulher é aceitar o mistério. É acolher o fato de que há nela algo que ninguém jamais vai decifrar. Esse “algo” é a sua liberdade de ser - livre até para mudar de rota a qualquer momento. Por isso, um homem que realmente ama não tenta corrigir, moldar ou aprisionar. Ele dança junto. Ele entra no sonho dela como quem entra numa música e se deixa levar.

Quando Edson Marques escreve “não lhes tiro a liberdade, não quero mudá-las jamais”, ele toca naquilo que talvez seja o maior respeito: permitir que a mulher seja um ser vivo em constante reinvenção. Nenhum gesto é mais bonito do que este: olhar para uma mulher e dizer, em silêncio, “eu te vejo como és, e é justamente assim que te quero”.

E há outra coisa importante: a mulher é um ser de profundidades, mas também de superfície. É olhar, é pele, é sorriso. Não é um enigma inalcançável; é um enigma disponível, mas que só se abre a quem sabe chegar com delicadeza. Por isso, amar não é só contemplação: é participação. É escutar suas histórias, beijar-lhe a boca e o riso, como diz o texto, entrar no mundo dela como quem entra em um jardim que não é seu, mas onde é convidado a caminhar.

Os cinco sentidos nos levam até a porta desse jardim. Mas depois dela, só entram outros dois sentidos que não têm nome: o sentido do respeito, e o sentido do assombro. O respeito, porque sem ele tudo vira apropriação. O assombro, porque sem ele tudo vira costume, e costume mata a beleza.

Há homens que envelhecem sem nunca perceber isso. Passam pela vida colecionando conquistas, mas nunca entram de fato em ninguém. Ficam na pele. E, ao final, descobrem tarde demais que a pele envelhece rápido, mas a alma não.

E há outros - e Edson Marques se inclui nesse segundo grupo - que entendem que amar uma mulher é um ato de admiração contínua. Que cada olhar dela, mesmo depois de anos, é um lugar novo. Que a beleza está no movimento, no sonho que ela sonha acordada, no fogo e na suavidade que coexistem.

Por isso, talvez não baste um sexto sentido. Talvez sejam necessários sete, oito, dez. Talvez a vida inteira seja pouco para compreender uma única mulher. Mas não tem problema. O belo está em continuar tentando.

No fim, é isso: amar uma mulher é um exercício de humildade. Deixar que ela seja um espelho que nos mostra o que ainda não sabemos ver. e, por um instante, sentir que se entra num espaço sagrado, não para tomar posse, mas para agradecer.



26/07/2025 - 13h00min
Martha Medeiros

É pela imperfeição que me enamoro

Andamos obcecados por qualidade técnica, filtros que eliminam defeitos, nenhum ruído escapando, nenhum fio solto, a artificialidade substituindo o que é verdadeiro. Também somos aquele ser indefinido por trás do espelho embaçado no banheiro.

Meus pais sempre me pareceram, aos olhos da criança que fui, perfeitos. A Família Real de Porto Alegre. Eu agradecia a Deus por ter nascido em um lar tão abençoado, onde tudo funcionava, e ai de quem duvidasse. Até que cresci e passei eu mesma a duvidar: ora, quem é perfeito? Eu não iria pagar o mico de passar o resto da vida inebriada pela própria ilusão. Passei a glorificar o imperfeito e segui amando todos eles.

Resultado: até hoje mantenho atração pelo que não é 100%. Peguei ranço da correção absoluta. O 100% é uma certificação estática, aprisionada, não há mais para onde ir. Ora, de que jeito conceber a vida sem movimento? Estou longe de desprezar genialidades, como uma foto de Sebastião Salgado, uma página de Guimarães, o canto do Caetano, a entrega cênica das Fernandas, mãe e filha. Aproximam-se do sagrado. Mas quando desço desse altar e caio no mundano, é pela imperfeição que me enamoro. Meu coração é off-Broadway.

Todo esse preâmbulo para dizer que exalto o que está fora de foco. O abandono da excelência a favor da essência. Andamos obcecados por qualidade técnica, filtros que eliminam defeitos, nenhum ruído escapando, nenhum fio solto, a artificialidade substituindo o que é verdadeiro. A essência, ao contrário, é inexata, transcende, se move, esparrama. A essência não se falsifica, transforma a própria falha em gozo. Sabe que o excelente, ou é um gênio, ou um impostor.

Adoro, especialmente, fotos desfocadas, com sua imperfeição poética, humana. São retratos em movimento: da gente dançando, correndo, gesticulando. Somos borrões capturados por olhares objetivos, mas não há quem possa nos reduzir a uma única dimensão. Temos várias versões sobrepostas, somos reais e fictícios, seres indeterminados fazendo o possível para se enquadrar, só que um pedaço de nós sempre invade o contorno limitador e escorre para fora. Queremos ser vistos com nitidez, eu sei, mas também somos aquele ser indefinido por trás do espelho embaçado no banheiro. Estarei dando razão ao ébrio que enxerga três de nós, embriagado?

Está parecendo que quem bebeu fui eu, mas o álcool fica para depois: é a arte a única culpada pelos meus lampejos. Este texto foi inspirado por uma visita recente que fiz ao museu L´Orangerie, em Paris. A mostra chama-se Dans Le Flou e expõe várias obras, de 1945 até aqui, que foram criadas propositalmente desfocadas. São várias pinturas, fotos e trechos de filmes, e os curadores ainda criaram paredes translúcidas, para que a gente enxergue apenas o espectro dos outros visitantes na sala ao lado. Para quem tiver a sorte de estar por lá, a exposição fica até 18 de agosto. Saindo do museu, aí sim, tome um vinho por mim e divague à vontade, também.