terça-feira, 6 de junho de 2017



06 de junho de 2017 | N° 18864
LUÍS AUGUSTO FISCHER

ISSO É HORA?

Os poetas, esses desgraçados, não desistem. E talvez nem saibam como é bom que insistam, que não larguem esse ofício primitivo de por e repor as palavras umas ao lado de outras, em combinações novas. A política gastando as palavras desse modo abominável, Trump com a pós-verdade, Temer com os pronomes oblíquos em posição de sentido, Sartori calando quando devia dizer – e os poetas mandando bala, a inofensiva mas essencial bala da invenção.

Estamos falando de um balde, quatro novos livros de poesia lançados agora mesmo, pela editora Artes & Ecos. Tem o Lucas Krüger, em Homenagem à Nuvem, que faz esta cena aqui, intitulada “Avó a bergamotear”: “Minha avó terminou de almoçar / Deu comida aos cachorros / Foi colher o fruto da tarde / Pra depois devanear / Está solita na cadeira azul / Sentindo a nuvem passar / Seu pensamento me encontrou / Num desejo de abraçar”.

Em lugar dessa linda cena amorosa de vó e neto, entra uma confissão de amor entranhado, na poesia de Cristian Verardi, com o livro O Diabo Belisca Meus Calcanhares, como neste “Alien”, breve e dolorido: “Tua ausência / é um estranho animal / que me devora por dentro”. Rápido e cruel.

Entram em cena dois veteranos, na mesma leva de novos livros. Celso Gutfreind oferece Tesouro Secundário, um conjunto cheio de lógica interna, um livro para ser lido meio que como narrativa, estruturado em capítulos a remontar uma história de formação. Isolo um poema, aliás a segunda parte de um, o Poema para Narrar, que descreve e ensina: “Eles respiram / por aparelhos. / Nós, por histórias. / Elas inspiram / nossos cuidados, / o que se espera / dessa procura. / Não tem remédio, / contar é a cura”.

E o calejado Ricardo Silvestrin lança Prêt-à-Porter – Haicais para as Quatro Estações. Num percurso cheio de insights e revelações, como convém aos haicais, a gente vai passeando pelo ano todo. Em homenagem à chuva atual, misturada com um frio que não se firmou direito ainda, ouça este aqui: “o clima não se decide / lá vou eu / o homem cabide”.




06 de junho de 2017 | N° 18864
DAVID COIMBRA

Se nada der certo

Ontem, abri a janela e vi uma bola de futebol numa poça d’água. Uma bola abandonada no canto de um pequeno parque que fica em frente a minha casa. Era de manhã cedo, tinha de levar meu filho ao colégio, chovia miúdo e aquela bola solitária dava um ar suavemente triste ao dia.

Como é que esses americanos me largam uma bola assim?

Isso é comum por aqui. Os guris vão embora para casa e deixam, no lugar em que jogaram, bolas de futebol, de basquete, de tênis. O professor Juninho, quando veio me visitar, tempos atrás, foi testemunha do que digo. Passamos por um campinho e lá havia quatro ou cinco bolas sozinhas. Paramos. Ficamos trocando passes um pouco. Não posso ver uma bola sem que me assalte o desejo quase lúbrico de chutá-la.

Essa, da poça d’água, até ia lá, bater de chapa nela, mas não fui. Não era o caminho da escola e, se fizesse o desvio, meu filho corria o risco de se atrasar. Planejei chutá-la quando voltasse. Só que, na volta, recebi algumas ligações, me distraí, entrei em casa e, ao dar por mim, já estava na hora do Timeline, na Gaúcha. Ouvi o Potter me chamar:

– Hello, Boston!

Enquanto falava ao microfone, pensei: depois do programa, tenho de ir lá chutar aquela bola.

Conto isso para revelar que meu primeiro plano profissional era ser camisa 10 da Seleção, marcar mil gols e ganhar três Copas. Como percebi que não conseguiria ser camisa 10 da Seleção e que, apesar da minha craqueza, talvez não fosse nem convocado, decidi pela segunda atividade que mais me empolgava, que era viver de escrever.

É o que faço, e com amor, mas, se essa também não desse certo, tinha alternativa: viveria de ler. Ou quase: teria um sebo, com revistas e livros antigos, e passaria o tempo todo lendo e vendendo o que li. Mas não sei se funcionaria. Em primeiro lugar, porque precisaria de dinheiro para comprar as revistas e livros usados. Em segundo, porque sou péssimo comerciante. Não sei vender nada. E tem mais: hesitaria em vender um livro do qual gostasse muito. Ia querer ficar com as raridades para mim.

Então, se isso não desse certo, qual seria a saída?

A gente sempre tem que pensar em saídas.

Logo, não vejo malícia no tema de uma espécie de festinha à fantasia dos alunos de uma escola de Novo Hamburgo, dias atrás. “Se nada der certo”, era a provocação, e os alunos tinham de ir à aula caracterizados como o personagem que escolheram. Tudo muito inocente, portanto, mas rendeu polêmica nas “redes”. Os internautas, que a tudo julgam, condenaram os alunos que foram vestidos, por exemplo, de entregadores de jornal e motoboys. “Todas as profissões merecem respeito”, ensinaram os internautas, que tudo ensinam.

Talvez os internautas sejam assim tão rabugentos porque nem tudo deu certo para eles. Tenho certeza de que muitos são como eu: queriam ser camisa 10 da Seleção, marcar mil gols e ganhar três Copas. Eles não são nada disso.

Já eu fiquei muitíssimo feliz com minha segunda opção. Mesmo assim, amante do futebol que sou, esperei terminar o Timeline e saí correndo de casa. Atravessei a rua. Fui até o parquinho. Lá estava a bola, e não havia ninguém por perto. A poça já estava seca, a chuva cessara e a água fora absorvida pela terra. Aproximei-me. Fiquei olhando para ela. Fiz como fazia o Flávio Minuano ao cobrar falta: recuei um passo e meio. Mirei na goleira imaginária. Tomei ar. E bati nela com o lado de dentro do pé direito, com aquele ossinho que fica ao lado do dedão. Ela saiu em curva, por cima do terceiro homem da barreira, se houvesse barreira, e entrou no ângulo, se houvesse ângulo. Gol! Ergui os braços:

– É camisa dez! – disse para mim mesmo, com a voz do Pedro Ernesto Denardin.

– Ele é demaiiiiiisssss...


sábado, 3 de junho de 2017


03 de junho de 2017 | N° 18862 
LYA LUFT

Não “temos de”

Vivemos sob o império do “ter de”. Portanto, vivemos num mundo de bastante mentira. Democracia? Meia mentira. Pois a desigualdade é enorme, não temos os mesmos direitos, temos quase uma ditadura da ilusão dos que ainda acreditam. Liberdade de escolha profissional? Temos de ter um trabalho bom, que dê prazer, que pague dignamente (a maioria quer salário de chefe no primeiro dia), que permita grandes realizações e muitos sonhos concretizados? “Teríamos”. No máximo, temos de conseguir algo decente, que nos permita uma vida mais ou menos digna.

Temos de ter uma vida sexual de novela? Não temos nem podemos. Primeiro, a maior parte é fantasia, pois a vida cotidiana requer, com o tempo, muito mais carinho e cuidados do que paixão selvagem. Além disso, somos uma geração altamente medicada, e atenção: muitos remédios botam a libido de castigo.

Temos de ter diploma superior, depois mestrado, possivelmente doutorado e no Exterior? Não temos de... Pois muitas vezes um bom técnico ganha mais, e trabalha com mais gosto, do que um doutor com méritos e louvações. Temos de nos casar? Nem sempre: parece que o casamento à moda antiga, embora digam que está retornando, cumpre seu papel uma vez, depois com bastante facilidade vivemos juntos, às vezes até bem felizes, sem mais do que um contrato de união estável se temos juízo. E a questão de gênero está muito mais humanizada.

Temos de ter filho: por favor, só tenham filhos os que de verdade querem filhos, crianças, adolescentes, jovens, adultos, e mesmo adultos barbados, para amar, cuidar, estimular, prover e ajudar a crescer, e depois deixar voar sem abandonar nem se lamentar. Mais mulheres começam a não querer ter filho – e não devem. 

Maternidade não pode mais ser obrigação do tempo em que, sem pílula, as mulheres muitas vezes pariam a cada dois anos, regularmente, e aos cinquenta, velhas e exaustas, tinham doze filhos. Bonito, sim. Sempre desejei muitos irmãos e um bando de filhos (consegui ter três), mas ter um que seja requer uma disposição emocional, afetiva, que não é sempre inata. Então, protejam-se as mulheres e os filhos não nascidos de uma relação que poderia ser mais complicada do que a maternidade já pode ser.

Temos de ser chiques, e, como sempre escrevo, estar em todas as festas, restaurantes, resorts, teatros, exposições, conhecer os vinhos, curtir a vida? Não temos, pois isso exige tempo, dinheiro, gosto e disposição. Teríamos de ler bons livros, sim, observar o mundo, aprender com ele, ser boa gente também.

Temos, sobretudo, de ser deixados em paz. Temos de ser amorosos, leais no amor e na amizade, honrados na vida e no trabalho, e, por mais simples que ele seja, sentir orgulho dele. Basta imaginar o que seriam a rua, a cidade, o mundo, sem garis, por exemplo. Sem técnicos em eletricidade, sem encanadores (também os chamam bombeiros), sem os próprios bombeiros, policiais, agricultores, motoristas, caminhoneiros, domésticas, enfermeiras e o resto. Empresários incluídos, pois, sem eles, cadê trabalho?

Então, quem sabe a gente se protege um pouco dessa pressão do “temos de” e procura fazer da melhor forma possível o que é possível. Antes de tudo, um lembrete: cada um do seu jeito, neste mundo complicado e vida-dura, temos de tentar ser felizes. Isso não é inato: se tenta, se conquista, quando dá. Boa sorte!



03 de junho de 2017 | N° 18862 
MARTHA MEDEIROS

A duração dos erros


Grande parte das pessoas já foi entrevistada ou deu um simples depoimento em frente a uma câmera. Pode ter sido um comentário rápido durante uma enquete ou uma participação num vídeo. Se você nunca, nunquinha, foi filmado ou gravado, entendo, mas já deve ter falado em público alguma vez, feito um discurso ou participado de uma peça de teatro na escola. Haverá quem nunca tenha segurado um microfone diante de uma plateia de olhos atentos? Em algum momento da vida isso aconteceu, e, se você ficou um pouco constrangido, envergonhado (sem rodeios: em pânico), vai entender a situação.

É quando a gente está construindo um raciocínio na frente dos outros e a palavra que necessitamos não vem. Isso acontece durante nossas conversas cotidianas e ninguém repara, mas, se há uma câmera ou um grupo à sua frente, a impressão que dá é de que aqueles três segundos de vacilo estão durando 10 minutos, 20 horas, uma vida inteira. Você pensa: ferrou, que mico, como é que foi dar um branco justo agora que todos estão prestando atenção em mim?

Isso já me aconteceu algumas dezenas de vezes, e sempre fico com a sensação de que a minha hesitação durou uma eternidade e meia. Quando, mais tarde, tenho a oportunidade de rever a cena que foi ao ar, percebo que durou um par de segundos e que minha reputação saiu ilesa. Ninguém notou. Foi mais uma desimportância que eu promovi a gafe do século.

Usei esse exemplo de falar em público porque me dei conta de que nossos erros – ou aquilo que consideramos um erro – ganham uma dimensão desproporcional se comparados com nossos acertos. Por quanto tempo lembramos daquilo que fizemos bem? A lembrança se esvai assim que cessam os tapinhas nas costas. No entanto, nossos erros seguem nos infernizando por um prazo indefinido. Há quem leve semanas e até meses conjecturando sobre aquilo que foi uma bobeada, apenas uma bobeada. Não mereceria tanta relevância de nossa parte, mas vá explicar isso para o crítico feroz que nos habita.

Trazemos dentro um ombudsman particular, e ele não é nada gentil. Tudo o que depõe contra nós é amplificado. O maior exemplo disso é que rapidamente esquecemos os elogios que nos fazem, mas as ofensas são levadas para a cama e doem como uma perfuração no fígado. O mesmo acontece com todos os escorregões, mal-entendidos, indelicadezas, lapsos e demais percalços de conduta que levam nossa assinatura. Nossos erros custam a sair de cena. Já nossos acertos... que acertos?

Agora veja minha situação: não faço a menor ideia de como encerrar esta coluna. Cheguei ao final do texto sem uma solução para tirar da cartola. Bem feito pra mim. Frustrei você e irei me torturar até sábado que vem.


03 de junho de 2017 | N° 18862 
L.F. VERISSIMO

Síbaris

“Sibarita. (Do gr. Sybarites, pelo lat. sybarita). Adj. 2 g. 1. De, ou pertencente ou relativo à antiga cidade grega de Síbaris (Itália). 2. Diz-se de pessoa dada à indolência ou à vida de prazeres, por alusão aos antigos habitantes de Síbaris, famosos por sua riqueza e voluptuosidade.” (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira)

Se você imaginar a Itália como uma grande e bem torneada perna feminina, então o Golfo de Taranto fica naquela parte de baixo, a mais sensível a lambidas, do pé da Itália. Síbaris era ali onde a Costa de Taranto faz uma curva suave, e nas noites de verão o vento traz o perfume dos jasmineiros de Alexandria. 

Os muros de Síbaris eram cobertos de heras afrodisíacas. Os Guardiões do Portal – uma casta cuja principal função era apalpar quem entrava na cidade, não para descobrir qualquer coisa escondida mas pelo prazer de apalpar – faziam um teste com quem quisesse a cidadania sibarita, envolvendo questões de matemática e das artes, da indústria e do comércio. Quem passasse no teste era mandado embora. Quem não passasse entrava. Quem subornasse os Guardiões entrava por aclamação.

A alfândega de Síbaris era rigorosa: só deixava passar supérfluos. As coisas úteis era apreendidas e mandadas para a cidade vizinha de Crotona, onde todos trabalhavam e eram conscienciosos e corretos. Mas Síbaris era mais rica do que Crotona porque era lá que os crotonenses gastavam seu dinheiro nos fins de semana. Por lei, todos os crotonenses tinham que estar fora de Síbaris ao amanhecer de segunda-feira, senão seriam presos. A lei raramente era cumprida porque a polícia de Síbaris nunca acordava antes do meio-dia.

Cada sibarita podia ter sete concubinas, e sua mulher, um escravo etíope, mas às vezes trocavam. As orgias duravam vários dias e só terminavam quando os sibaritas começavam a cantar suas próprias mulheres, sinal de que já não enxergavam mais nada. A monogamia e a abstinência sexual eram consideradas perversões imperdoáveis e punidas com chicotadas, nos raros dias do ano em que o chicoteador oficial não faltava ao serviço. 

No caso de o infrator ser sadomasoquista, sua punição era ficar olhando enquanto o chicoteador oficial chicoteava outro. Sexo grupal era qualquer ato envolvendo mais de 50 pessoas. A Justiça, em Síbaris, era dividida. Havia juízes togados para os casos de direito e juízes nus para os casos de paixão. O bestialismo era tolerado, salvo exceções como o sexo com abelhas.

O rei de Síbaris vivia imerso numa banheira com óleos aromáticos. Foi lá que, certo dia, mastigando um pardal caramelado, recebeu um emissário de Crotona, que propôs a fusão das duas cidades. O rei mandou chamar seu primeiro ministro, que foi encontrado na cama com duas concubinas e um cabrito, não para pedir seu conselho mas para rirem juntos da proposta do emissário. Crotona declarou guerra a Síbaris. Como o exército sibarita estava de férias remuneradas, Síbaris foi invadida e destruída por Crotona em 510 a .C.

Não sobrou vestígio da cidade. Só recentemente, em 1965, uma expedição arqueológica conseguiu determinar a sua localização exata, ali onde a Costa de Taranto faz uma curva suave, e nas noites de verão o vento traz o perfume dos jasmineiros de Alexandria. Parece que descobriram cântaros para vinho, algumas estranhas estatuetas com formato lúbrico e uma garra de ouro na ponta de uma longa haste que, segundo os pesquisadores, só podia ter sido usada para coçar o pé.

Até hoje ninguém localizou as ruínas da cidade de Crotona.



03 de junho de 2017 | N° 18862 
CARPINEJAR

Tom Cruise

O Google é a nossa geriatria. O começo da velhice. O asilo das lembranças.

Pelo número de palavras da busca, você já identifica se envelheceu. Quem realiza expedições com uma palavra apenas ainda é jovem e de memória saudável e ativa. Quem faz buscas com uma frase está caducando. Quem tenta encontrar algo com um parágrafo não lembra de mais nada.

Os caracteres entregam o tamanho do nosso esquecimento. Quanto mais, pior.

Estou experimentando uma debilitação irrecuperável no meu banco de dados. Antes digitava no Google o que me recordava imprecisamente, quando não vinha o estabelecimento de imediato. Agora tenho que escrever: “restaurante italiano em Canela, perto do Mundo a Vapor”. Logo mais estou descrevendo um retrato falado. Chegará o clímax em que colocarei vagamente “em uma praça, de uma rua central, na esquina de um avenida nomeada de um político gaúcho famoso, onde havia uma ferragem”.

O que era simples confirmação virou pesquisa científica. Cada vez mais perco tempo no site de buscas. Há 10 abas do Google abertas em meu celular, rastreando as informações mais aleatórias. Minha memória vai perdendo a potência dos olhos e apalpando as letras. “Como é aquele ator de olhos verdes do último filme de Kubrick, que foi casado com aquela loira e os dois acreditavam em seita de alienígenas?”

Converso longamente com o Google, não mais digito. A cartografia das coisas me escapa. Saber que ele existe me torna preguiçoso e não me mantém atento ao que vivi. Ele me facilitou e me destreinou a lembrar. Assim como a calculadora prejudicou os meus cálculos naturais. Quero ser rápido e não me permito caminhar na dúvida. A ansiedade traz o blecaute.

Repito o medo adolescente da sala de aula. Como se experimentasse uma série de provas surpresas ao longo do dia, sem ter estudado, sem noção exata das questões.

O Alzheimer toca em meu interfone. O que é mesmo Alzheimer? É possível em pessoas jovens? Só um minutinho...



03 de junho de 2017 | N° 18862 
PIANGERS

Deixe ele entrar


Começo me desculpando em, repetindo mais uma vez a história da humanidade, estar aqui um homem dizendo o que uma mulher deveria fazer. Acho que vale a pena, imaginando os benefícios que meu pedido pode produzir para as próprias mulheres. Entendo, porém, se alguma de vocês ficar magoada. Eu também estou cansado de ver homens dizendo o que mulheres deveriam fazer, como deveriam se comportar e de que forma deveriam viver. Tento não ser este homem com as minhas filhas. Como eu disse, entendo se você quiser me ignorar.

Mas lá vai meu pedido: deixe seu marido entrar na criação do filho de vocês. Sei que você foi treinada para ser uma mãe imbatível, que cuida de tudo relacionado à criança, que sabe todos os números de telefones de todos os pediatras, babás, mães de coleguinhas, farmácia mais próxima, professoras e colônias de férias. Sei que é uma realização pessoal cuidar de tudo, roupas limpas, mochila arrumada, lanche feito. Sei também que não fazer tudo é um misto de medo e culpa. Mas, vamos lá, deixa ele entrar.

É importante ter homens fazendo todas essas coisas. Não é só uma questão de aliviar seu trabalho, é um ensinamento pro seu filho: homens podem cuidar de crianças quando forem pais. É uma forma de moldar a criança pelo exemplo. No futuro, homens participativos serão o padrão. As cobranças sociais em cima da mulher não serão tão pesadas. Teremos trocador de fralda no banheiro masculino, licença-paternidade de meses, bonecas que falam “Papai, tô com fome!”. Precisamos de homens mais sensíveis, mais participativos. Todo mundo sai ganhando.

O que de pior pode acontecer? Uma roupa que não combina no seu filho? Almoçarem salsicha com miojo de vez em quando? Roupas coloridas e brancas lavadas ao mesmo tempo na máquina? Seu marido ter que faltar ao trabalho pra ficar com o filho que tem febre? Vamos lá, é importante que o homem passe por alguns momentos difíceis. Ele vai, assim, criar conexões de afeto e valorização da paternidade. Vai descobrir a realização de ser pai. Vai, quem sabe, respeitar você um pouquinho mais ao ver o quanto é difícil criar uma criança.

Se tudo der certo, vocês vão ser mais felizes. Você vai ter mais tempo pra você mesma, pro trabalho, pra sair com as amigas. A criança vai ter mais a presença do pai. E ele mesmo, vamos torcer, vai descobrir o encanto que é ver uma criança crescendo. Se der tudo errado, ok, vocês voltam pra como era antes, a pressão toda em cima de você. Mas, de repente, vale a pena tentar, certo? É um homem que está falando aqui, mas acredite: tudo o que sei aprendi com uma mulher.



03 de junho de 2017 | N° 18862 
PALAVRA DE MÉDICO


Os protagonistas deixam heranças: Encontros para celebrar os 80 anos de nascimento de scliar deixam isso evidente

Moacyr Scliar deixou uma herança característica das pessoas extraordinárias: seus amigos nunca se cansam de falar dele. Isto se tornou evidente nos muitos encontros programados para celebrar os 80 anos de seu nascimento. Nunca convivemos muito, mas nos cruzamos várias vezes nas esquinas da vida corrida que levávamos.

Na primeira vez, encontrei-o na UTI do Pavilhão Pereira Filho. Ele tinha sofrido um grave acidente de carro, quebrado várias costelas, e estava gemendo de dor. Naquela noite, ao voltar tarde de uma festa, resolvi dar uma passada no hospital para ver como ele estava, e o encontrei dormindo. Um tempo depois, enquanto aos pés da cama, eu o observava, preocupado com a sua respiração pesada, ele despertou, olhou-me, sorriu e voltou a dormir. Dias depois, escreveu uma linda crônica contando o quanto era confortador para um paciente assustado na UTI acordar no meio da madrugada e encontrar dois olhos grandes a vigiar-lhe o sono.

Nos anos que se seguiram, professores da mesma escola de medicina, organizamos algumas jornadas de literatura com a intenção de mostrar aos estudantes que todo exercício intelectual que servisse para aumentar-lhes a sensibilidade seria de enorme valia. Estávamos alinhados com a tendência crescente das melhores escolas médicas do mundo de introduzir nos currículos da graduação os temas que discutam humanidades, num explícito pedido de socorro da medicina à literatura, com a clara intenção de resgatar os ingredientes básicos de uma relação afetiva que precisa ser retomada nos seus fundamentos essenciais.

Lembro-me de uma noite em que espalhamos pela mesa central no saguão os livros considerados imprescindíveis, comprados em sebos da cidade. Assim, ao chegar, os estudantes depararam com exemplares de A Montanha Mágica, A Morte de Ivan Illich, A Doença como Metáfora, A Cidadela, Sinto Muito, e O Alienista. Enquanto eles folheavam os livros, com aquele ar indecifrável que tem todo o estudante, perguntei ao Scliar: “Você acha que isto vai ajudar?”, e ele respondeu com um sorriso debochado: “Bom, Camargo, nós fizemos a nossa parte. Agora é só esperar que Thomas Mann, Tolstoi, Susan Sontag, Cronin, Lobo Antunes e o Machado façam a deles”.

Nosso último encontro foi no Santos Dumont, no Rio, em novembro de 2010. Ele aguardava um voo para Salvador e eu voltava para casa. Ao ver-me, interrompeu de imediato a conversa com um desconhecido, puxou-me pelo braço e disse: “Obrigado por me salvar. Este chato estava já na décima piada de judeu, e eu desesperado que ele contasse ao menos uma que eu não conhecesse!”. Ocorreu-me, então, o quanto seria divertido se ele proferisse uma conferência na Academia Nacional de Medicina sobre o humor judaico, um dos seus temas preferidos. Ele ficou entusiasmado com o convite e nos despedimos.

Só nos esquecemos de combinar que ele não morresse antes do fim daquele verão.




03 de junho de 2017 | N° 18862 
DAVID COIMBRA

Sorte na vida

A8,3 mil quilômetros de distância, através da mágica do Skype, percebi que produzi certa inquietude em um dos alunos do Colégio Dom Bosco. Ele e seus colegas me entrevistavam a respeito do meu romance, Canibais, mas o assunto derivara para outros temas, e esse menino parecia realmente intrigado com algo. Ele já havia feito duas ou três perguntas, e pediu para fazer outra. Começou a falar com hesitação:

– Existe um ditado na minha família... É uma frase que meu pai e meu avô dizem... – ele olhou para o teto, pensativo, e enfim repetiu a frase: – “É melhor um burro esforçado do que um inteligente vagabundo”. Eu... Eu sou meio vagabundo... O que você acha disso?

Tive de rir. Mas depois, refletindo a respeito, concordei que se trata de questão pertinente. Muita gente acredita mais em seu presuntivo talento do que em seu esforço. Um problema.

Tenho a impressão de que o futebol é um pouco responsável por essa crença. Aquela velha história de Pelé versus Garrincha, Pelé sendo o certinho e Garrincha sendo o irreverente. Pelé, admirado; Garrincha, amado. Garrincha, a alegria do povo, que jogava para se divertir, e Pelé, o rei, que jogava para vencer. Garrincha, o talento inato, o dom recebido da natureza pródiga, e Pelé o talento cultivado, o treino e o estudo.

O brasileiro admira a criatividade pura, a tirada instantânea, o improviso. O brasileiro cultiva a convicção de que resolverá tudo com inspiração e graça.

É um mito. É ilusão vã. Nem o talento de nascença se consagra sem esforço.

Tome alguns dos maiores gênios da humanidade. Tome um Mozart. Quando Mozart tinha quatro anos de idade, a irmã dele começou a receber aulas de piano. Ele a ouvia tocar e acabou aprendendo sozinho. Só de ouvido!

É o que se chama de ouvido absoluto. E tão absoluto era o ouvido de Mozart, que, um dia, seu pai o obrigou a ouvir um trompetista. Aquele instrumento brutal foi uma experiência tão grotesca para a sensibilidade do pequeno, que ele desmaiou. O único caso, talvez, de desmaio por ultraje auricular.

Tome também Champollion, o homem que desvendou os hieróglifos egípcios. Quase tudo o que conhecemos acerca do Antigo Egito se deve a ele. Pois, ao chegar à adolescência, Champollion era proficiente em praticamente todas as línguas europeias, além de chinês, árabe, hebreu, aramaico, sânscrito e persa. Tinha o hábito de falar copta sozinho, já que ninguém poderia entender o que ele dizia – ninguém sabia falar copta. Muitas dessas línguas, Champollion aprendeu por conta própria. Outro ouvido absoluto.

Champollion e Mozart eram inegavelmente gênios. Nasceram com capacidades específicas muito superiores às de quaisquer outros seres humanos. Mas, para desenvolver essas faculdades, eles se empenharam como quaisquer outros seres humanos não fariam. Ambos morreram jovens, Mozart aos 35 anos, Champollion aos 41, e ambos trabalharam com intensidade febril quase que até o último suspiro.

Quem seriam os Mozarts e os Champollions de hoje? Respeitadas as proporções, Bill Gates, Steve Jobs, Zuckerberg. Todos eles estudiosos, trabalhadores, concentrados, obcecados.

Esforçados.

Não disse na hora da entrevista, mas o que deveria ter dito para o aluno do Dom Bosco era isto:

Seu pai e seu avô estão certos. Olhe para os lados. Está vendo o gordinho de óculos? Está vendo aquele branquicela fracote? Está vendo os nerds e os CDFs? Preste atenção neles. Se eles usarem a fraqueza de hoje para se tornarem fortes amanhã, eles é que dirão aos outros como fazer. Os vagabundos? Esses estarão no sofá, vendo o antigo colega certinho pela TV, tentando entender como é que aquele cara tão insignificante teve tanta sorte na vida.


03 de junho de 2017 | N° 18862 
MÁRIO CORSO - interino

DAENA

Não é Diana, é Daena mesmo, tira a mão daí, revisor. Diana é minha mulher, anseio encontrá-la. Quanto a Daena, não quero conhecê-la tão cedo. Não é falta de curiosidade, mas só posso vê-la em uma condição específica: no último minuto do meu derradeiro dia no planeta. Aliás, não só para mim, isso é o destino de todos. Cada um de nós possui e, ao mesmo tempo gesta, a Daena que o espera.

Já explico, essa entidade foi descrita nos antigos cânticos do zoroastrismo, antiga religião monoteísta que influenciou todas as outras. É uma mulher belíssima que, acompanhada de seus cães, nos conduzirá à nova morada no além. Antes que penses que Daena é a rainha das fadas que vem te buscar, saiba que existem condições: a que te foi dada é linda, mas só se manterá bela caso tua vida tenha sido uma obra de justiça e ponderação; se foi uma vida de trapaças, mentiras e violência, a tua será uma bruxa disforme, mais feia que a mulher do medonho.

Recebemos nossa Daena ao nascer e dela nada podemos esconder. Ela é como um duplo, uma testemunha muda porém atenta, que vai sendo modelada pelos nosso atos. Não intervém na nossa vida, guarda-se toda para a terminal e apoteótica aparição. Podemos enfeá-la, torná-la bonita outra vez, mas sempre restarão as cicatrizes do que fizermos a ela. Daena é a história plástica da nossa vida moral. E é assim que seria explicado por que as mortes são ora suaves, ora agitadas, depende de como teria sido o encontro com ela.

Como vemos, associar beleza à virtude é prática de longa data. Neste caso, no mínimo dois milênios e meio, mas aqui um detalhe: só haverá beleza se houver virtude. Aqui a beleza não é grátis, só a sabedoria a garante.

Ignoro se Oscar Wilde conhecia essa história persa quando escreveu O Retrato de Dorian Gray. A julgar pela sua erudição, eu diria que sim, e essa obra seria uma versão laica desse estranho anjo, tão íntimo e tão distante de cada um.

Sei o que muitas leitoras devem estar pensando: não poderia ser, por acaso, um Daeno para mim? Infelizmente não é assim que funciona. Creio que, como viemos de uma mulher, e a mãe terra que nos acolhe, as figuras que lembram a morte costumam ficar no espectro do feminino, pois são as mulheres que guardam o mistério da fertilidade, portanto da vida e do seu fim.

Sempre acreditei que nosso medo da morte guarda mais mistérios que o mero horror ao desconhecido ou a angústia de deixar de existir. Daena vem associada a isso, mas vai além, encarna o pavor do encontro com nosso extrato moral, ao vermos quem realmente somos e o que fizemos com a vida que ganhamos. Na psicanálise, nos acostumamos à dor de mergulhar em nossas humanas misérias. A contragosto, entendemos por que enxergar a si mesmo, sem filtro ou maquiagem, pode muito bem ser equiparado à morte.

sexta-feira, 2 de junho de 2017


Jaime Cimenti - JCRS

Plano Real, o filme e a real 

Infelizmente, nosso Brasil quase não tem grandes fatos históricos para comemorar e nossa história é carente de pais da pátria, heróis ou personagens que permaneçam no imaginário popular e sirvam de bons exemplos e inspirações. Não cito aqui nomes para não cometer injustiças e por que não é o momento. No campo dos esportes, das artes, da cultura, e até na ciência, temos algumas celebridades que nacional e internacionalmente nos orgulham. 

Aqui, de novo, não cito nomes, porque provavelmente esqueceria de alguns. Está em cartaz o filme Real - o plano por trás da História, baseado no livro 3000 dias no bunker, do jornalista Guilherme Fiuza, dirigido por Rodrigo Bittencourt e com coprodução da Maristela Filmes. O thriller político narra como uma seleta equipe econômica, liderada por Fernando Henrique Cardoso na década de 1990, se fechou em um "bunker" para reformar o Estado, vencer a hiperinflação e criar a nova moeda. 

Há vários livros sobre o Plano Real, o principal e considerado definitivo é o da jornalista Miriam Leitão (Saga Brasileira - A longa luta de um povo por sua moeda, da Editora Record). O filme é protagonizado por Gustavo Franco, a "espinha dorsal" da equipe, interpretado por Emílio Orciollo Neto, o mais jovem do grupo, que tinha Pedro Malan, Edmar Bacha, Pérsio Arida, André Lara Resende, Clóvis Carvalho e Winston Fritsch. Benvindo Siqueira interpreta Itamar Franco e Norival Rizzo, Fernando Henrique Cardoso. A narrativa comporta várias leituras. 

A favor, contra ou mais ou menos, o que a valoriza. O mais importante, a meu ver, é que a obra conta sobre, talvez, o fato mais importante da história brasileira. Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso mereciam mais espaço e protagonismo no filme e, especialmente Itamar, um presidente que podia ser provinciano, de temperamento agitado, mas que ficou na história da República sem marcas de corrupção. Na livraria do aeroporto de Brasília há livros sobre os últimos presidentes, com críticas e acusações. Sobre Itamar Franco não pairam suspeitas de irregularidades e ele ficou com seu nome gravado na história por ter determinado a elaboração do Plano Real. Não é pouco. 

O filme sobre o plano deveria ter enfatizado o papel da sociedade brasileira, do povo brasileiro, que teve papel importantíssimo antes, durante e depois das reformas que até hoje deixaram boas marcas. A existência de nossas moedas de cinco, dez, vinte e cinco, cinquenta centavos e um real mostra valorização de nossa moeda que, hoje, como se sabe, passa por problemas, diante de crises econômica, ética e política. 

Os mais velhos se lembram de uma taxa de inflação que chegou aos terríveis e galopantes 46,58% em junho de 1994, época em que havia muito mais mês do que salário e que as maquininhas de remarcar dos supermercados infernizavam a vida dos sofridos brasileiros. 

a propósito... 

O filme sobre o Plano Real, no momento complicadíssimo que vivemos no Brasil, serve, além de ilustração, de esperança e inspiração para nós. Mostra como, mesmo com as inevitáveis falhas humanas e complicações da economia e da política, um presidente obstinado, um ministro da fazenda experiente e uma equipe econômica graduada podem ajudar o País, contando, é claro, com a indispensável e importante participação popular. 

É claro que o filme não é isento de críticas, obra humana que é. O bom é saber como o plano foi elaborado e que funcionou, com a participação popular. Que venham outros fatos históricos como este.    - Jornal do Comércio 

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/05/colunas/livros/565238-suspense-psicologico-e-sedutor.html)

Jaime Cimenti - JCRS

Suspense psicológico e sedutor 

Em águas sombrias (Editora Record, 362 páginas, tradução de Claudia Costa Guimarães) é o novo romance de alto suspense psicológico de Paula Hawkins, nascida no Zimbábue em 1972. Em 2015, a Record lançou no Brasil seu aclamado romance A garota do trem, fenômeno global com 20 milhões de exemplares vendidos e que foi filmado com sucesso em 2016. Emily Blunt, Rebecca Ferguson e Haley Bennett estrelaram a película.

O livro Em águas sombrias teve seus direitos de adaptação cinematográfica adquiridos pela DreamWorks Pictures e consolida a autora na área dos thrillers psicológicos, de muita aceitação pelos leitores e espectadores das telonas. A narrativa se inicia, com sua verdade escorregadia, em 2015, e de cara vai envolvendo o leitor com a história da mãe solteira que aparece morta no rio que atravessa a cidade. Pouco tempo depois, uma adolescente vulnerável tem o mesmo destino.

Não são as primeiras mulheres perdidas para estas águas escuras, e suas mortes causam uma perturbação no rio e em sua história, dragando dele segredos há muito submersos. A autora alterna no texto a primeira e a terceira pessoas, dependendo do relato das personagens. Bem e mal, verdade e mentira e outros aspectos mostram como Paula lida com a complexidade dos humanos. Ao leitor, não é dado um norte e os quadros narrativos são instáveis, turvos.

"É preciso ter cuidado com as superfícies muito calmas, pois nunca se sabe o que pode haver embaixo delas", está dito na apresentação do livro. É bem por aí. Nos dias que antecederam sua morte, Nel ligou para a irmã, mas Jules, como sempre, não atendeu seu telefonema. Jules foi obrigada a voltar ao único lugar do qual achou que havia escapado para sempre. Jules está com medo, com um medo visceral. Medo do passado há muito enterrado na Casa do Moinho, da certeza que Nel jamais teria se jogado para a morte. Nel teve sempre uma relação frágil com a irmã e Jules a evitava.

Acima de tudo, Nel está com medo do rio e especialmente do trecho que todos chamam de "O Poço dos Afogamentos". Este romance tem a mesma escrita frenética e a mesma caracterização precisa dos instintos humanos que a narrativa de A garota no trem. Com um ritmo eletrizante, capítulos curtos e narrativa sedutora, Paula Hawkins vai superando as expectativas sobre histórias que contamos de nosso passado e sobre o poder que elas têm de destruir nosso presente.

Ao final, os leitores vão gostar desta história que mostra pessoas tentando se reconciliar com traumas e acontecimentos do passado e buscando redenção.

 lançamentos 

Empreendedorismo feminino - Mulheres de alto impacto (Editora Gregory, 210 páginas), coordenado por Regina Gregório, traz relatos de mulheres que construíram negócios, atingiram objetivos e partilham lições. Apresentações de Débora dos Santos e Luiza Helena Trajano - CEO do Magazine Luiza. Todas as emoções deste mundo (Artes e Ofícios, 224 páginas), da turismóloga, administradora e internacionalista Antonella Guimarães Satyro, traz belas crônicas sobre viagens e experiências.

A autora conhece 60 países e acha que viajar é abrir uma porta transcendental de possibilidades para a vida. As leis do acaso - Como a probabilidade pode nos ajudar a compreender a incerteza (Zahar, 304 páginas), do professor e escritor de ciência britânico Robert Matthews, ajuda a entender o acaso e saber quando uma série de eventos é significativa e não mera coincidência. - Jornal do Comércio

(http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/05/colunas/livros/565238-suspense-psicologico-e-sedutor.html)

02 de junho de 2017 | N° 18861
MUNDO

Especialistas não veem impacto significativo em ato


Apesar da grande repercussão, a polêmica decisão de Donald Trump de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris não deverá ter impacto significativo no movimento planetário de combate ao aquecimento global.

Especialistas ouvidos por ZH foram unânimes em afirmar que Washington está perdendo cada vez mais seu protagonismo no tema, e que a saída do tratado não irá fazer com que as grandes corporações deixem de investir em energias alternativas – já que hoje são mais motivadas por questões econômicas do que políticas. Além disso, avaliam que o anúncio, além de ser uma mera formalidade, não tirará o foco de outros países que seguem buscando alternativas para reduzir a emissão de gases poluentes no planeta.

De acordo com a presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, Suzana Kahn, como o Acordo de Paris não prevê nenhuma penalidade caso as metas de determinado país não sejam cumpridas – apenas geraria constrangimento internacional frente às demais nações –, elas já não seriam uma preocupação para Trump mesmo se o país permanecesse no tratado.

A especialista afirma que a retirada dos EUA das negociações pode até ser positiva, pois este é o momento em que os demais países irão se reunir para definir os instrumentos e parâmetros de medição da emissão de gases em nível mundial, o que começará a ser feito em 2020. Nesse quesito, os EUA, sob o atual governo, poderiam atrapalhar o cumprimento das metas.

– Os Estados Unidos não estão contribuindo para a redução da emissão de gases desde o início do governo Trump, o que é tão ruim, ou até pior, do que essa decisão de sair do acordo. O retrocesso começou na eleição.

PARA ESTUDIOSOS, OUTRAS NAÇÕES OCUPARÃO VÁCUO


Isso não significa que a postura do país não influencie o combate ao aquecimento global a longo prazo. Segundo maior emissor de gases depois da China, os EUA respondem por 18% do carbono lançado na atmosfera. São cerca de 6,5 milhões de toneladas por ano. A falta de preocupação com o tema tornará ainda mais difícil alcançar o objetivo final do acordo firmado dois anos antes: de reduzir, até 2030, o carbono na atmosfera de 69 bilhões de toneladas para 56 bilhões, e de negociar metas futuras para manter, até 2100, o aquecimento global no nível tolerável, inferior a 2ºC.

Caso não sejam cumpridas as metas, as consequências poderão ser, de acordo com cientistas, catastróficas e irreversíveis – entre elas, derretimento de geleiras, maior intensidade de tempestades, enchentes, secas e furacões.

O receio de que a saída do país do acordo leve outras nações a rever a participação não preocupa o físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo e uma das principais autoridades em mudanças climáticas do país:

– Pelo seu posicionamento, Trump está se isolando na questão ambiental. China e países europeus já anunciaram que vão aumentar suas metas para atingir o objetivo global.

É o que afirma também o astrofísico Luiz Gylvan Meira Filho, ex-vice- presidente do Painel Intergovernamental para a Mudança de Clima (IPCC) e pesquisador da USP.

– Ninguém vai se importar muito com essa saída dos Estados Unidos. Acho que não irá induzir outros a sair, e inclusive haverá uma tendência dos demais países de preencher esse vácuo.

Gylvan argumenta, ainda, que muitos Estados americanos têm fortalecido, de forma independente, medidas de combate à emissão de gases poluentes, mesmo contrariando Trump:

– As grandes corporações americanas, por razões econômicas, estão investindo em energias alternativas, assim como Estados norte-americanos estão aprovando leis que restringem e combatem a emissão de gases. Sendo assim, a decisão do governo não deve influenciar esses movimentos.

Para Artaxo, a decisão de investir em energias alternativas e, consequentemente, reduzir a emissão de gases é, atualmente, muito mais econômica do que política – o que enfraquece o poder de Trump frente ao tema:

– O preço da energia eólica e solar está se aproximando muito do preço da energia gerada pelo carvão. Então, é um péssimo negócio investir em tecnologias ultrapassadas.

jaqueline.sordi@zerohora.com.br

02 de junho de 2017 | N° 18861 
DAVID COIMBRA

De mullet e óculos espelhados


Nesta semana, dei uma entrevista por Skype a alunos do Colégio Dom Bosco. Falei a respeito do meu romance Canibais, lido por eles.

Para mim, foi especial, porque passei boa parte dos meus fins de semana juvenis no pátio do Dom Bosco, nos píncaros verdes do IAPI.

Nós jogávamos futsal lá. Nosso time ficou invicto por um ano inteiro sob sua formação clássica: Diana no gol, este que vos escreve como fixo, Jorge Barnabé e Amilton Cavalo como alas, Plisnou como frente.

Uma vez, pegamos um time famoso no bairro. Eram uns caras mais velhos do que nós, maiores, mais fortes e, admito, melhores individualmente.

Mas individualmente. Nós estávamos acostumados a jogar juntos desde pirralhos. Mesmo assim, sentimos a pressão. Eles jogavam muito, ganhavam na velocidade ou no ombraço e, de repente, estavam diante do nariz do Diana, mandando uns paralelepípedos para o gol. E como chutavam forte, os desgranidos. Cada bola saía numa explosão do pé para a rede. Resultado: o primeiro tempo virou com 4 a 0 para eles.

Aí, enquanto tomávamos água para recompor a dignidade, combinamos: “Na bola, não tem como ganhar desses caras. Vamos apatifar o jogo”.

Foi o que fizemos. Um se jogava no chão e gritava, outro reclamava, todo mundo fazia falta, puxava pela camisa, empurrava, provocava, até que os grandões foram se desconcentrando. Aos poucos, começamos a buscar: 1 a 4, 2 a 4, 3 a 4 e, tchum!, 4 a 4. Aí eles, “opa!, o que que está acontecendo aqui?”. Tentaram se reequilibrar, mas era tarde. Quando você perde a concentração, não acha mais. No finzinho, o Barnabé meteu uma de revesgueio: 5 a 4, uma vitória para entrar na história do futebol da Zona Norte de todos os tempos.

Depois daquela façanha, os grandões passavam os sábados nos desafiando para a revanche. Nós respondíamos:

– Quem sabe, semana que vem... Óbvio que não demos chance de desforra a eles. Jogou, está jogado. Ganhamos. Vocês perderam. Tchau, freguesia.

Ou seja: o Dom Bosco me é muito caro.

Mas não apenas por isso. Havia lá, não sei se há ainda, uma pista de patinação. Claro que nunca patinei nem jamais patinarei, não por preconceito esportivo, e sim por falta de destreza. Quem patinava eram as gurias do IAPI. Então, antes do jogo, nós ficávamos à beira da pista, admirando as meninas vestidas com aquelas sainhas mínimas, e tentando nos dar bem. Só tentando, não conseguindo. O único que teve sucesso foi o Plisnou, que namorou com uma moreninha bem bonitinha, a Edna. O Plisnou usava um mullet na nuca e uns óculos espelhados em cima do nariz que encantavam as garotas dos albores dos anos 80.

Por todas essas razões, me entusiasmei ao conversar com os alunos da escola sobre o meu livro. Eles foram muito atenciosos, muito disciplinados, muito inteligentes. E um deles fez uma pergunta que motivou esta crônica que ora escrevo. Mas o espaço acabou. Vou ter que contar qual foi a pergunta amanhã.

02 de junho de 2017 | N° 18861 
CLÁUDIA LAITANO

Napolitanos


Fui uma menina noveleira, como muitas da minha geração. Muito antes de aprender a gostar de livros, foram as novelas que me ensinaram o prazer de acompanhar histórias de faz de conta – a TV era a fogueira da minha tribo.

Lembro de assistir ao último capítulo das novelas com saudades antecipadas dos personagens que se despediam. Quando você é criança e passa meses rindo ou sofrendo com um personagem, aquele momento em que o herói some do seu mundo acompanhado pelo letreiro “o fim” acaba sendo um pouco melancólico. A geração que cresceu com videocassete, DVD, YouTube ou Netflix ganhou de bandeja a possibilidade de eterno retorno às memórias audiovisuais mais queridas. Não é pouca coisa. Muitas criaturas da ficção acabam sendo mais importantes para a nossa formação ética, afetiva ou intelectual do que boa parte das pessoas de carne e osso que cruzam o nosso caminho. Pronto, falei.

É raro que livros provoquem esse tipo de angústia da separação. Primeiro, porque, em princípio, sempre podemos voltar a eles – ainda que as releituras nunca nos encontrem exatamente nas mesmas condições da experiência original. Além disso, mesmo o leitor menos apressado não passará meses ou anos dedicado a um mesmo universo de personagens. A menos, é claro, que essa história se desdobre ao longo de muitos livros, como se tornou comum, nos últimos anos, especialmente com tramas voltadas ao público adolescente.

A série napolitana da escritora italiana Elena Ferrante é excepcional por muitos motivos e mais este: desde que o epílogo desta história em quatro partes desembarcou no Brasil, há duas semanas, seus leitores cativos vêm encarando com evidente melancolia o momento de se despedir daqueles personagens que acompanharam durante dois anos e 1.700 páginas (o primeiro livro da série, A Amiga Genial, foi lançado por aqui em 2015).

Combinando realismo social, profundidade psicológica e agilidade narrativa, Ferrante é um daqueles raros casos em que a alta literatura encontra o grande público. A leitura, em geral, é um hobby solitário e raramente podemos trocar impressões sobre um grande livro com vários amigos ao mesmo tempo. Se você ainda não leu, apresse-se: ainda dá tempo de entrar para a nossa tribo e aquecer-se no próximo inverno ao calor dessa poderosa fogueira napolitana.

quinta-feira, 1 de junho de 2017



01/06/2017 - 06h27min
ZH

Jovem com transtornos psiquiátricos provoca pânico em voo da Malaysia Airlines

Um cingalês tentou entrar na cabine dos pilotos de um avião da Malaysia Airlines afirmando que estava com uma bomba, poucas horas depois de ter saído de uma clínica psiquiátrica, anunciou nesta quinta-feira a polícia australiana.

O homem de 25 anos ameaçou explodir o avião, mas foi imobilizado por outros passageiros.

O voo MH128 decolou de Melbourne na quarta-feira às 23h11 (10h11 de Brasília) com destino a Kuala Lumpur, mas teve que retornar ao aeroporto.

"Ele saiu (na quarta-feira) de cuidados psiquiátricos e acreditamos que depois comprou uma passagem de avião, seguiu para o aeroporto e embarcou", declarou o chefe de polícia do estado australiano de Victoria, Graham Ashton.

Vários passageiros conseguiram imobilizar o jovem e amarrá-lo antes de um pouso de emergência no aeroporto de Melbourne. Agentes de uma unidade de elite da polícia subiram a bordo da aeronave.

O jovem morava em Dandenong, subúrbio próximo de Melbourne, e era aluno de uma Escola de Culinária. Ele afirmou que estava com uma bomba, mas na realidade era uma antena Bluetooth quase do tamanho de um telefone celular, informou Ashton, antes de afirmar que o homem sofria transtornos psiquiátricos.

O vice-ministro dos Transportes da Malásia, Abdul Aziz Kaprawi, já havia descartado a possibilidade de terrorismo. "Não foi um sequestro. Um passageiro perturbado tentou entrar na cabine do piloto", afirmou à AFP.

Para os passageiros o calvário durou uma hora e meia.

Andrew Leoncelli, ex-jogador de futebol australiano contou o que aconteceu à rádio 3AW.

"Um membro da tripulação disse: 'Sente-se senhor, senhor sente', e ele respondeu 'Não, não vou sentar, vou explodir o avião'". "O funcionário gritava 'Preciso de ajuda, preciso de ajuda'. Então eu tirei o cinto de segurança e me aproximei".

O ex-atleta de 42 anos afirmou que o jovem correu para a parte de trás do avião e dois homens o pararam e o amarraram.

O comissário Andy Langdon declarou que os passageiros viveram uma experiência "muito traumatizante", mas com um comportamento "heroico".

O passageiro Arif Chaudery disse que as "famílias e as crianças estavam muito assustadas, alguns gritavam". "Nos unimos, três ou quatro, para ajudar a controlar o homem", afirmou ao Channel Nine.

"Nós o colocamos no chão, a tripulação trouxe um cinto e amarramos os braços e pernas. Nós o deixamos com a boca virada para o chão", disse.

O incidente aconteceu poucos meses depois da suspensão das investigações internacionais lideradas por Austrália, Malásia e China para tentar encontrar os destroços do voo MH370 da Malaysia Airlines que desapareceu misteriosamente há três anos.

bur-grk/plh-jac/lab/erl/acc/fp

01/06/2017
Atualizada em 31/05/2017 - 21h00min

O que já se sabe sobre a morte de dois delegados da Polícia Federal após troca de tiros em Florianópolis

Ocorrência é investigada pela Delegacia de Homicídios da Capital

O que já se sabe sobre a morte de dois delegados da Polícia Federal após troca de tiros em Florianópolis Cristiano Estrela/Agencia RBS


Tiros ocorreram no corredor de uma das portas de acesso ao local
Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

A troca de tiros que terminou com a morte de dois delegados da Polícia Federal na madrugada desta quarta-feira, em Florianópolis, envolve três pessoas já identificadas e pelo menos outras duas ainda não localizadas. O confronto ocorreu numa casa noturna. Morreram na ocorrência os delegados Elias Escobar, 60 anos, e Adriano Antônio Soares, 47 anos. Elias morreu ainda no local e Adriano perdeu a vida após dar entrada no hospital. 

Nilton Cesar Souza Junior, 36 anos, vendedor de cachorro-quente apontado como o responsável por atirar contra os delegados, também foi baleado na confusão e está internado sob custódia no Hospital Florianópolis. A Delegacia de Homicídios ainda faz buscas a outros dois homens que teriam auxiliado Nilton nos crimes. 

Segundo a apuração inicial da polícia, Nilton e dois amigos teriam se desentendido com os delegados, o que causou a troca de tiros. O confronto ocorreu no corredor de acesso à casa noturna. Na parede do local onde houve os disparos, há várias marcas de tiros. O estabelecimento fica na região continental de Florianópolis, na rua Fúlvio Aduci, e é conhecido como Porta Azul. De acordo com o boletim de ocorrência dos fatos, o local também era utilizado para prostituição. 

A Polícia Federal informou que os dois delegados não estavam em serviço. Adriano atuava em Angra dos Reis e Elias em Niterói. A instituição diz que eles estavam em Florianópolis participando de uma capacitação interna. O delegado Adriano foi o responsável por abrir o inquérito que investiga a morte do ministro Teori Zavascki em um acidente aéreo. Mas, conforme nota oficial da Polícia Federal, ele já não estava mais à frente do caso. A instituição informou que o procedimento corre em Brasília, com outro profissional no comando.

Após ser baleado na casa noturna, Adriano foi levado de táxi para o Hospital Florianópolis. Já Nilton foi levado para o mesmo hospital por um homem que seria funcionário dele. 

Não houve disparos de arma de fogo dentro do hospital. Policiais federais e civis afirmam que as imagens das câmeras do Hospital Florianópolis mostram o delegado Adriano sendo levado para dentro do hospital em uma cadeira de rodas.Tiros ocorreram do lado de fora da unidade e teriam como alvo o taxista que conduziu o delegado. No entanto, o taxista não foi atingido. Os tiros teriam partido do mesmo funcionário que levou Nilton para o hospital. 


01/06/2017 - 03h16min | 
Atualizada em 01/06/2017 - 03h16min
Carolina Bahia

O destino do diretor da PF

Torquato Jardim foge de uma resposta oficial sobre o destino do chefe da Polícia Federal porque sabe que assume sob pressão

O novo ministro da Justiça, Torquato Jardim, vai aproveitar a viagem ao Rio Grande do Sul, amanhã, para conversar com o diretor da Polícia Federal, Leandro Daiello. Questionado sobre o destino do gaúcho, ele não descarta a substituição, mas afirma que o delegado está sob observação. 

O ministro foge de uma resposta oficial sobre o destino do chefe da Polícia Federal porque sabe que assume sob pressão. Políticos investigados, inclusive integrantes do governo, querem que o Ministério da Justiça controle a PF. O primeiro a sofrer essa cobrança foi José Eduardo Cardozo, ainda no governo Dilma. Parlamentares petistas o criticavam publicamente por deixar a PF trabalhar. 

De lá para cá o clima só piorou. Daiello está no cargo desde 2011, já comentou com interlocutores que está no período de se aposentar, e não haveria nenhum problema na substituição, se não fosse a campanha dos poderosos contra a Lava-Jato. Em um país em que o presidente da República é investigado por suspeita de corrupção, mudança sem motivo significaria a clara intervenção nas ações. Escolhido por Michel Temer no auge da crise para assumir uma das mais importantes pastas da Esplanada, Torquato Jardim tem o desafio de provar que não chega para abafar a Lava-Jato.

FRONTEIRAS

Torquato Jardim desembarca em Porto Alegre, amanhã, para a posse do novo superintendente da PF no Estado, Ricardo Andrade Saadi. Ele vai fazer um discurso sobre a importância do controle de fronteiras e já começou a estudar o projeto do presídio federal no RS.

SEMPRE ELE

Quem chegou ao lado de Michel Temer para a cerimônia de posse do novo ministro da Justiça foi o ex-senador José Sarney (PMDB-AP). E o lugar de destaque não é à toa. Ele vem participando de todas as articulações a favor de Temer. Em paralelo, Sarney também integra as conversas sobre um nome para o caso de eleição indireta.

"Parece que o computador que opera a distribuição não gosta de mim.

Do ministro Marco Aurélio Mello, nas redes sociais, ao comentar que foi sorteado para ser o relator do caso de Aécio Neves no STF.


01/06/2017 - 03h00min
David Coimbra

Os perigos do vinho  

Conhecedores furiosos me atacaram sem pena.

As pessoas podem se tornar suscetíveis pelas razões mais inesperadas. Outro dia, escrevi a seguinte frase: "Agora estou pronto para um tinto suave e um livro denso". Queria dizer, ao me referir à suavidade do vinho, que ele era "leve", não "doce". Mas admito ter derrapado na escolha do adjetivo, porque, sim, urge reconhecer: o vinho definido como "suave" é o vinho adocicado, meio enjoativo.

Tudo bem, pensei, depois de publicado o texto. Trata-se de um pormenor.

Pormenor?

Nada! Recebi e-mails vermelhos de fúria de leitores. Mas como é que eu tomava vinho suave? Que estúpido eu era. Só uma besta podia beber vinho suave. Isso provava muita coisa ruim que já suspeitavam a meu respeito.

Fiquei a cismar. Não sabia que havia tanto ressentimento contra o vinho suave e seus possíveis adeptos. Até, vou dizer, faz tempo que não vejo um vinho suave. Certamente ainda existe, mas onde andará?

Quando era guri, vinhos suaves apareciam em grandes garrafões de cinco litros. Eram feitos com aquela uva Isabel, pretinha, boa de se comer, nem tanto para se beber. Mas eu e meus amigos bebíamos sem culpa, desculpa.


Houve, inclusive, um vinho doce muito famoso, o alemão Liebfraumilch, nome lindo, "o leite da mulher amada", só que branco. Vinha em uma garrafa com rótulo azul. Esse vinho virou moda no Brasil e, confesso, consumi-o bastante. Hoje me é repugnante. Não beberia o leite da mulher amada.

Num sábado de 1986, em Urussanga, terra produtora de vinhos no sul de Santa Catarina, eu e outros jornalistas visitamos uma vinícola de lá. Era de manhã cedo, quando começamos a provar os diferentes produtos da casa. À tardinha, eu parecia aquele casaco que foi tirado do cachorro. Mareado, fui para meu apartamento, me deitei fazendo oooooh... e, no meio da noite, saltei no colchão: por Baco! 

Eu tinha marcado encontro com uma inhugazinha! Mesmo sentindo a cabeça rodando, rodando mais que os casais, levantei-me e fui correndo ao ponto combinado. Naquele tempo sem celular, o resultado foi mais uma derrota sentimental. Pior: durante os três dias seguintes, mais do que passar mal, achei que ia morrer, que o excesso de álcool rompera algo dentro de mim. A pior ressaca da minha vida. Traumatizado, fiquei dois anos sem tomar vinho.

A verdade é que não entendo lhufas de vinhos. Até fiz um rápido cursinho, uma vez, mas não adiantou nada, só aprendi a rodar a taça para "liberar o aroma" e a sorvê-lo com a narina esquerda, por causa de alguma coisa que tem nesse lado do cérebro, que não lembro o que é.

O certo é que consigo identificar se um vinho é bom ou ruim até o limite dos cem dólares. A partir daí, tudo fica tão igual...

Certa feita, um grande amigo me deu um Romanée-Conti de aniversário. Esse vinho, não sei se você lembra, foi bebido pelo Lula para festejar a vitória na eleição de 2002. Custa entre 6 mil e 20 mil dólares a garrafa.

Pois lá estava eu de posse do meu Romanée-Conti. Como bebê-lo? Com que ritual? Em que oportunidade, se não venci nenhuma eleição? Com que acompanhamento? Essas questões me atarantaram por algum tempo, até que me irritei, convoquei a Marcinha e desfrutamos o vinho mais valioso de nossas vidas com um arroz com linguiça que fiz com minhas próprias mãos. Estava ótimo, obrigado, amigão, mas não posso afirmar com certeza que esse mais caro tenha sido o melhor.

Outra vez, na casa de outro amigo remediado, ele colocou uma garrafa de um tinto francês bem na minha frente e informou:

– Comprei num leilão da Sotheby's. Vinte mil dólares.

– Tira essa garrafa de perto de mim – pedi. – Se bato nela sem querer, e quebro, estou perdido.

Ele riu, abriu a garrafa e bebemos. Bom. Excelente. Mas, puxa, vinte mil dólares...

Quer dizer: sou um fracasso como entendedor de vinhos. Poderia, inclusive, beber um suave, se me dessem. Seria capaz disso. Antes. Agora, não. Depois de provar o sabor do ódio enólogo, vinho suave, nunca mais.