segunda-feira, 27 de outubro de 2014

VINICIUS MOTA

Contenha-se, presidente

SÃO PAULO - O Brasil desta década, em vários aspectos, é quase outra nação se for comparado ao do início dos anos 2000. Cada US$ 100 do PIB de 2002 se tornaram US$ 190.

Para cada R$ 100 que o governo federal gastava na época, desembolsa R$ 200 agora. Para cada 100 pessoas empregadas, hoje há 130.

Se fosse um país, o mercado de trabalho brasileiro, de quase 100 milhões de indivíduos, seria maior que qualquer nação da Europa. O crédito explodiu, o consumo foi catapultado, a atividade empresarial foi catalisada e o empreendedorismo floresceu. Multiplicou-se o acesso à informação.

Estão matriculados na faculdade 180 brasileiros para cada 100 há dez anos. O ensino básico atinge picos de universalização, e melhora o desempenho no principal teste mundial de conhecimento, apesar de os alunos ainda mostrarem domínio sofrível dos principais conteúdos.

Foram às urnas neste pleito 120 eleitores para cada 100 que compareceram ao escrutínio de 2002, expansão de 20 milhões de almas.

O Brasil mudou de escala. Deu um salto quântico para outra realidade, embora esteja ainda muito distante do portal do desenvolvimento, humano e econômico.

Deve ser difícil para o PT e a presidente reeleita, Dilma Rousseff, reconhecer que a maior parte do crédito pelo notável avanço é da sociedade, e não do governo. A riqueza que levou a esse salto surgiu da labuta diária de homens e mulheres, e as determinantes de sua partilha foram cimentadas na constituição da democracia ao longo de 30 anos.

Que a vitória apertadíssima deste domingo e as condições agrestes de governo que se apresentam sirvam de alerta para a necessidade de contenção no exercício da Presidência. O presidente da República no Brasil pode muito, mas não pode tudo. A presidente Dilma, dado o contexto econômico e político em que se reelegeu, poderá menos.


vinimota@uol.com.br

27 de outubro de 2014 | N° 17965
ARTIGO - PAULO BROSSARD*

O PRESENTEQUE EU QUERIA

A democracia é uma conquista de todos os dias, sujeita a possíveis deslizes e, por isso, deve ser dia a dia cuidada com a devida atenção. Não seria sequer de imaginar-se que, nos dias de hoje, seriam mundialmente reconhecidos como induvidosos os amazônicos escândalos do mensalão e do petrolão, e parece que eles podem expelir outros de porte semelhante.

A mim parece que os níveis corruptores chegaram ao máximo. Mas há outros que, parecendo menos graves, são assim recebidos; quando sua perniciosidade é intensa. Como é sabido, nos períodos eleitorais a lei assegura aos partidos o acesso aos meios de comunicação, o que foi e continua sendo de excepcional utilidade, uma vez que eles são gratuitos.

Pois agora verifica-se a ocorrência de fenômeno, lamentável, sob o ponto de vista ético, histórico e social dos partidos que, por esta ou aquela razão, com o tempo a eles garantido, baixaram o nível do debate político. Por vezes, lembram marqueteiros os ocupantes de tempo destinado aos debates políticos. A agressão desmedida, pregando até a secessão regional e de classes, tornou o ambiente eleitoral quase irrespirável.

Gostaria de celebrar o processo eleitoral, que muito evoluiu, mas não seria honesto se calasse diante da explícita felonia praticada contra o Estado de direito. A ameaça à liberdade de imprensa e a existência de um decreto que visa a instituir organismos para subtrair os poderes dos representantes legitimamente eleitos estão diante dos nossos olhos, disfarçados sob o inocente nome de participação direta, que pode ser tudo, menos democracia.

Nas minhas nove décadas de caminhada, nunca perdi a fé e a esperança, e com os olhos nelas é que desejo aos vencedores das eleições que tenham bom sucesso e restaurem a paz e a harmonia entre os brasileiros, sempre necessárias, fortalecendo a democracia.

*Jurista, ministro aposentado do STF


>i>PAULO BROSSARD

27 de outubro de 2014 | N° 17965
CÍNTIA MOSCOVICH

AS MÍDIAS E O RESSENTIMENTO

Estive viajando e não votei nem assisti aos debates no primeiro turno das eleições. Pela internet, no entanto, pude acompanhar a verdadeira guerra entre eleitores adversários nas “mídias sociais”. Mesmo que nada mais me espante, me assustei com o grau de agressividade e de estupidez que vi.

Ao mesmo tempo, em algum aeroporto, comprei o novo livro de Luiz Felipe Pondé, A Era do Ressentimento: uma Agenda para o Contemporâneo, autor de quem já havia lido o divertido (ainda que desesperançado) Guia Politicamente Incorreto da Filosofia.

Pondé é daqueles sujeitos a quem as pessoas amam ou odeiam, do tipo Reinaldo Azevedo ou Olavo de Carvalho, assim como eram, vá lá, Diogo Mainardi ou Paulo Francis. Reunindo ensaios e aforismas, A Era do Ressentimento pode ser lido até o fim num voo Porto Alegre-São Paulo. Com uma pegada bem conservadora, mas sem nenhum problema em atirar pedras em todos os telhados, Pondé é severo com os contemporâneos: mesmo vivendo na época de maior riqueza que o mundo já conheceu, diz ele, somos uns ressentidos.

Não temos noção de limites, achamos que sabemos tudo, queremos espetáculos para celebrar nossa felicidade e, principalmente, não sabemos escutar nenhuma crítica sem achar que é uma questão de ofensa pessoal. Com sinceridade, acho que Pondé (e Nietzsche, que é uma constante em seus textos) tem razão.

À luz de um certo impacto pela leitura, vendo o que vi nas tais “mídias sociais”, brigas que envolviam até a mãe, pensei que o narcisismo e o individualismo, teclas nas quais batem e rebatem todos os autores do mundo, estão tirando das gerações mais novas, e das nem tanto, a noção do ridículo – xingar por causa de partido político é tão burro quanto brigar por causa de futebol.


A agressão, a atitude impositiva, a violência, tudo isto vem de nosso despreparo para conviver com o outro e até para a democracia. Não sei o que as urnas terão revelado, mas, seja o que for, espero que tenhamos aprendido com nossos próprios ressentimentos e que tenhamos eleito os melhores.

27 de outubro de 2014 | N° 17965
PAULO SANT’ANA

O bólido Sartori

Comprovado definitivamente: os gaúchos não admitem reeleição para o Piratini.

Perderam tentativas de reeleições Antônio Britto, Olívio Dutra, Germano Rigotto, Yeda Crusius e agora Tarso Genro.

É explicável: um Estado que está quebrado, afundado em dívidas, não oferece condições a seus governadores de reelegerem-se, nem sei por que insistem.

Nunca, nenhum deles se reelegeu.

Afora isso e por isso, a esmagadora vitória de Sartori foi espetacular porque ele saiu de 3% no início das pesquisas para os 61,2% de ontem. Sartori se arremessou nas pesquisas e nas urnas como uma pirâmide em demanda do infinito, nunca se viu em eleição alguma uma ascensão tão entusiasmante.

Nada derrubava sua candidatura, nem a brincadeira sobre o piso da Tumelero.

Já expliquei de certa forma nas linhas acima a impressionante rejeição a Tarso Genro. Foi menos uma rejeição do que essa compulsão que de repente toma conta das massas que moveu Sartori.

Sartori terá maioria na Assembleia, o que não quer dizer muito, porque PDT e PSB deixaram de apoiar Tarso na Assembleia e nem por isso ele teve dificuldades para governar.

Foi o fenômeno eleitoral chamado Sartori que tirou Ana Amélia do segundo turno.

Mas ela estava lá ao lado de Sartori, ontem, recebendo as galas constrangidas da vitória.

Se não deu para eleger-se, pelo menos à última hora embarcou na canoa da vitória. Não havia outra saída.

Os institutos de pesquisa previam ontem, antes da apuração, vitória de Dilma Rousseff, embora com vantagem maior sobre Aécio do que a verificada. Gozado, no plano federal admitem os brasileiros as reeleições. Foi assim com Fernando Henrique, com Lula e é agora com Dilma.

Talvez seja melhor para o Brasil que tenha sido reeleita Dilma, ela se ampara em muitos projetos que pretende implantar. Se cumprir metade do que prometeu nesta campanha recém finda, já é o bastante para o Brasil.


Metade.

27 de outubro de 2014 | N° 17965
J.A. PINHEIRO MACHADO

O amor, a ambição e a riqueza

Dizia Somerset Maugham, pela voz de um dos seus personagens, num texto escrito há um século: “Cheguei a uma idade em que o amor, a ambição e a riqueza se tornam insignificantes diante de um bife realmente bem grelhado”. Ao chegar mais uma vez a Lisboa, neste magnífico outono português, com a temperatura tépida e o céu azul do azul lavado pela chuva, descobri que a referência do grande escritor talvez possa ser ampliada.

Constatei que o amor, a ambição e a riqueza se tornariam ainda mais insignificantes diante da beleza absurda deste outono que reforça a eternidade da cidade. Nesse cenário, surgiu a alternativa: em vez do bife, por que não uma garoupa bem grelhada?

A descoberta pertence ao Almirante Vasco Marques, depois de aportarmos com a resignação de peregrinos num dos templos da boa mesa que aqui se escondem em vielas milenares. Não hesitamos em escolher um tinto da Bairrada, dos raros vinhos do mundo que não renunciaram ao caráter, e não tentam parecer californianos.

Aceitamos as empadinhas apimentadas, os bolinhos de bacalhau e os carapaus pequeninos e bem fritinhos: as preliminares da renúncia preconizada por Maugham. A seguir, chegaram, como uma anunciação, as postas da garoupa, fumegantes, espalhando seu aroma delicado pela sala, com as listras escuras, cicatrizes da grelha incandescente...

Lisboa, às vezes, faz duvidar que, para o bem ou para mal, chegamos ao século 21: não há muita diferença, por exemplo, do Rossio deste outono luminoso, comparando a praça espetacular com um cartão-postal do final do século 19. Retire as nuvens de chuva e os fiacres do velho cartão-postal, esqueça os fraques, cartolas e saias rodadas, e terá a mesma paisagem da semana passada, com o sol inexcedível deste outubro.

Também as garoupas grelhadas não foram corrompidas pelo tempo. Ainda existem tão honradas e tão saborosas como eram em 1872. Ou em 1972, da primeira vez que pisei na cidade. Tão saborosas continuam, em caprichosas e generosas postas, que o Almirante Vasco não se conteve: “Esta garoupa é superior a uma lagosta!”.


O “bife bem grelhado” de Somerset Maugham lhe pareceu um preço baixo. Solenemente, então, o Almirante se decidiu por uma contraproposta: “Uma garoupa bem grelhada – esta sim! – pode tornar insignificantes o amor, a ambição e a riqueza”. Como poucos acreditam nos desígnios da alma, não faltará a suspeita de embriaguez: do vinho da Bairrada ou do céu azul de Lisboa?

sábado, 25 de outubro de 2014


26 de outubro de 2014 | N° 17964
MARTHA MEDEIROS

A nova juventude

O que não falta é frase satirizando a primeira etapa da vida. Exemplo: A juventude é um defeito facilmente superável com a idade. Outro: A juventude é uma coisa maravilhosa, pena desperdiçá-la em jovens. Quem ultrapassou essa fase dourada hoje olha para ela com certo desprezo. Não de todo equivocado: a maturidade, de fato, se não é nosso período mais fértil, certamente é o mais sabido. Algum benefício tinha que trazer essa tal passagem do tempo.

No entanto, em vez de fazer coro com a soberba habitual dos maduros, vale dar uma espiada mais generosa para a garotada. Afora os neorretardados que proliferam nas redes esbanjando pobreza de espírito, a geração atual tem uma postura mais humanizada em relação a questões importantes da vida. Vale a pena escutá-los.

O tema da homossexualidade, ainda debatido à exaustão na mídia, já saiu de pauta entre os adolescentes. Nada mais natural do que meninos e meninas namorarem parceiros do mesmo sexo. Ser favorável ou desfavorável à causa gay? Concordo com eles: chega a ser constrangedor a gente se declarar a favor ou contra o que não nos diz respeito. É muita arrogância.

Quanto à busca por uma profissão, mudanças visíveis também. O dinheiro continua sendo uma preocupação, mas já não ocupa o topo das paradas. O que se deseja é fazer diferença para a sociedade, trabalhar no que se gosta, personalizar sua atuação, deixar marcada uma ideia, uma consciência, um caminho diferente, um novo olhar. Nem que para isso se invente uma profissão que nunca existiu, que se formalizem atividades que antes não eram consideradas. Estudar segue fundamental, mas a sequência colégio-vestibular-faculdade vem ganhando bifurcações. Se a felicidade não estiver na vida sólida e estável que os pais sonharam, paciência. Os sonhos dos velhos terão que se adaptar a uma realidade menos regrada.

Sim, ainda existem os adolescentes convencionais, que sonham com casamentos convencionais e empregos convencionais e que querem enriquecer, consumir e ser “alguém”. A diferença é que esse “alguém” padrão, que se amparava em hierarquias para estabelecer juízos de valor, não representa o jovem moderno que quer construir uma sociedade mais horizontalizada. A noção de riqueza está mudando de foco: ir para o trabalho de bicicleta pode dar mais status a um profissional do que conquistar uma vaga no estacionamento reservado aos patrões.

Outro dia falava sobre tatuagens com duas garotas e me peguei aplicando o velho discurso a respeito do cuidado que elas deveriam ter antes de tomar decisões definitivas. Foi quando me dei conta de que até o definitivo mudou de configuração. Elas não veneram o “pra sempre” – o que acho ótimo, mas então por que fazer uma tatuagem? Simplesmente para homenagear uma etapa da vida. Não haverá arrependimento se o assunto não for levado com tanto drama. Tatuagem deixou de ser uma condecoração vitalícia. Nada mais é vitalício.


Basta que seja sustentável.

26 de outubro de 2014 | N° 17964
ANTONIO PRATA

A oposição fluorescente

Não vou votar no Aécio, hoje, mas enquanto estiver acompanhando a apuração, no início da noite, um lado meu torcerá secretamente para que ele ganhe. Esse meu lado (que não revelarei a ninguém, caro leitor, só a você, confiante na sua discrição) teme menos os próximos quatro anos sob um governo do PSDB do que os efeitos anabolizantes e lisérgicos que outro quadriênio petista pode causar à direita mais raivosa deste Brasil varonil.

Quando digo direita raivosa não estou me referindo a quem é a favor da independência do Banco Central, de um Estado menor e um superávit maior. Estou falando dos Bolsonaros e Felicianos, da turma que prega “direitos humanos para humanos direitos”, que deseja “afogar esses nordestinos” e diz, em rede nacional, que “órgão excretor não é órgão reprodutor”. (Aliás, quando ouvi aquele homúnculo cometer essa afirmação, com a segurança que só a profunda ignorância traz, me perguntei: será que ele faz xixi pelo sovaco? Ou ejacula pelo bigode? Mas não divaguemos, voltemos ao assunto).

A chegada do PT à presidência, 12 anos atrás, teve um pernicioso efeito colateral: por ser um partido historicamente ligado às minorias, permitiu à direita mais tacanha camuflar seu preconceito contra negros, mulheres, gays, índios e pobres sob uma papagaiada libertária, de crítica ao poder.

A partir de 2003, o cara vinha com uma piadinha jurássica do tipo “o melhor movimento feminino sempre foi o movimentos dos quadris” e queria aparecer na foto com um sorrisinho transgressor, tipo, “si hay gobierno, soy contra!”. Fazia um número de stand-up racista e alegava estar combatendo a censura do Estado e a opressão do politicamente correto. Falava “as zelite” e “meus deretcho” fingindo zombar do Lula, quando estava é babando a ancestral demofobia.

Tal reação conservadora me parece desproporcional aos avanços dos últimos anos. Afinal, apesar de alguma melhora, continuamos profundamente desiguais. Os negros seguem pior do que os brancos, as mulheres ainda ganham menos do que os homens, gays não podem se casar e, vira e mexe, são acariciados por heterossexuais com socos, pontapés e lâmpadas fluorescentes.

A direita raivosa, contudo, cada vez mais ensandecida, acredita que vivemos numa mistura de Venezuela com Sodoma. Pior: os inegáveis casos de corrupção e outras patacoadas do PT fazem com que o discurso retrógrado chegue àqueles que não comungam de seus preconceitos, mas se indignam, com razão, com os erros do governo. Se na passeata de apoio ao Aécio, na última quarta, em São Paulo, que a revista Economist chamou de “Revolução do Cashmere”, a multidão gritava “Viva a PM!”, o que gritará em 2018, caso a Dilma ganhe?

Com o PSDB no poder, porém, os paranoicos delirantes não teriam como ver, em cada esquina, a ameaça de uma revolução cubana comandada por travestis-negras-maconheiras-aborteiras. Abaixariam seus dedinhos exaltados e, cofiando os anacrônicos bigodes, teriam de assumir que seu ódio não é nada além do velho racismo, machismo, homofobia e demofobia do nosso Brasil varonil.


Sem alternância de poder não é só a situação que corre o risco de perder o pé da realidade: a oposição também precisa, de tempos em tempos, cair do seu troninho.

26 de outubro de 2014 | N° 17964
CÓDIGO DAVID | David Coimbra

O PAÍS MAIS FEMININO DO MUNDO

Dois conhecidos casos, de desconhecidas mulheres do Velho Oeste.

Ambas viviam do lado de lá do Mississippi, “o Pai das Águas”, nas sombras do século 19. Suas casas toscas haviam sido levantadas do chão em meio a vastas extensões de terra desabitada por onde pastava o bisão e cavalgavam índios hostis. Uma delas, depois de ficar mais de ano sem ver outra mulher, soube que uma família acabara de se estabelecer a poucos quilômetros de distância. Animada com a notícia, vestiu a roupa domingueira, tomou os dois filhos pela mão e foi saudar os novos vizinhos.

Depois de horas de caminhada, encontrou, enfim, a outra mulher. Ao avistá-la, não se conteve: jogou-se, aos prantos, em seus braços. Não muito mais tarde, voltou para o isolamento do seu sítio, levando o espírito renovado tão-somente por ter conversado por alguns minutos com outro ser humano do sexo feminino.

A segunda mulher morava em sua casa de paredes de barro, das quais brotavam percevejos aos milhares, entre as quais voejavam enxames negros de moscas. Elas e os filhos viviam dias sempre iguais, monótonos e duros, trabalhando de sol a sol, praticamente sem distração ou descanso. Essa mulher, certa manhã, viu seu filho pequeno sofrer um acesso de choro. A criança atirou-se ao solo duro, esperneando e gritando:

– Mamãe, mamãe, nós temos que viver sempre aqui? Em silêncio, ela balançou a cabeça, respondendo que, sim, teriam de viver ali. Ao que o menino, ainda mais desesperado, gemeu:

– E teremos que morrer aqui também?

Essas estoicas mulheres do Velho Oeste americano eram respeitadas como poucas naquela época, incluindo aí as da Europa. Caubóis, mineiros e colonos, homens em geral sem maiores luzes, as chamavam de lady e as tratavam com algo próximo da veneração. Há quem diga que tal se deve à escassez de mulheres na região, tanto que muitas chegavam do leste aos grupos, como carga, para se casarem com pretendentes ansiosos, que as esperavam torcendo os chapéus nas mãos. Mas não era só isso. Os homens reconheciam o trabalho, o companheirismo e o valor das mulheres, e prestavam atenção às suas opiniões. Em alguns estados do Oeste, as mulheres tiveram direito de escolher seus representantes uma década antes de a Nova Zelândia se consagrar como o primeiro país do mundo a permitir o voto feminino, em 1893. E cinco anos antes disso, em 1887, uma cidade do Kansas, Argonia, elegeu uma mulher como prefeita.

No leste desenvolvido e puritano não era muito diferente. Se você passear por uma linda alameda central de Boston, na Back Bay, verá monumentos em homenagem a duas mulheres pioneiras: Abigail Adams e Phillis Wheatley.

Abigail Adams, espécie de feminista precursora, foi mulher de John e mãe de Quincy Adams, dois dos primeiros presidentes dos Estados Unidos. Pai e filho ouviam seus conselhos, e os seguiam. Quando o marido tomou posse, ela advertiu: “Lembre-se das senhoras, e seja mais generoso com elas do que os que o antecederam”. Ele obedeceu.

Abigail usava a ala leste da Casa Branca como varal. Dizem que seu fantasma ainda ronda por lá à noite, flutuando com os braços estendidos, como se carregasse um cesto de roupas.

Phillis Wheatley, inspiradora da outra estátua que você encontrará nas alamedas de Back Bay, foi trazida como escrava do Senegal e vendida a um comerciante de Boston, Mr Wheatley, no século 18. Como a escravidão não era popular na Nova Inglaterra, ela logo foi incorporada à família, ganhou liberdade e pôs-se a estudar inglês. Phillis transformou-se em poeta e encantou os EUA e a Europa com seus versos. Não encontrei nenhum vertido para o português. Então, ousei perpetrar eu mesmo a tradução de um, para mostrar a vocês. Ei-lo:

Foi a misericórdia me trouxe da minha terra pagã E ensinou minha alma ignorante a compreender Que há um Deus, que há um Salvador também.

Eu, que não procurava redenção, que nem sabia que redenção existia.

Alguns veem a nossa raça negra com olhos de desdém, “Sua cor é uma morte diabólica”, dizem.

Lembrem-se, os cristãos, negros, negros como Caim, Pode-se ser purificado, e juntar-se ao trem angelical.

O reconhecimento a essas mulheres construtoras dos EUA fizeram deste o país mais feminino do mundo. Um dia, uma brasileira que vive aqui há muitos anos me disse:

– Neste país, em primeiro lugar estão as crianças, em segundo as mulheres e em terceiro os velhos.

Foi um inteligente resumo dos valores americanos. Os mais fracos são protegidos pela lei, e crianças, mulheres e velhos são mais fracos fisicamente. Sinto a diferença de tratamento quando estou com meu filho na rua. Um pai com o filho pela mão tem prioridade, porque crianças têm prioridade.

Os velhos se deslocam pelas ruas de Boston em cadeirinhas motorizadas, vão a toda parte sozinhos. E, para que eles possam ir de lá para cá, o município cuida para que as calçadas sejam adequadas, feitas de placas de concreto, sempre com rampas nas esquinas.

Já as mulheres, no verão você vê mulheres usando roupas minúsculas que causariam furor nas ruas das cidades brasileiras, vê mulheres tomando sol de biquíni nas praças, vê mulheres andando sozinhas por ruas desertas e escuras. Ninguém as incomoda. Ninguém sequer demora o olhar sobre elas.


Crianças, mulheres e velhos. Ao colocá-los em primeiro lugar, um país se transforma em uma Nação.

26 de outubro de 2014 | N° 17964
FABRÍCIO CARPINEJAR

Confirma

Votar não é somente eleger governador e presidente.

É a possibilidade de rever o bairro da infância e reencontrar antigos amigos.

Como a maior parte dos eleitores vota sempre no mesmo lugar, e costuma ser a zona do primeiro voto, tem a opção de visitar a família e rever colegas que nem o Facebook é capaz de localizar.

Muitos não transferem o título eleitoral, apesar da constante mudança de endereço. Apreciam preservar este domingo para exercer a nostalgia e a evocação dos laços.

A eleição torna-se uma repescagem da nossa memória. Um retorno sentimental às origens. Um passeio emocional para nosso ponto de partida.

Há quem viaje para sua terra natal com esse pretexto para conviver com os primos e tios. Há quem atravesse a cidade para caminhar nas ruas de suas malandragens infantis. Há quem entre de novo no colégio onde estudou, com aquela sensação estranha de invadir um santuário.

Rodoviárias e aeroportos estarão abarrotados de filhos pródigos com seus travesseiros e sua esperança por uma segunda chance.

Além de escolher nossos governantes, a eleição é o momento em que refletimos sobre o que nos tornamos e o que ainda queremos ser. Tem um contexto de reflexão e remissão, de julgamento de si e perdão ao outro.

Votar é virar a página de nossa biografia, retomar leituras interrompidas, soprar o pó das lombadas, tirar o marcador dos parágrafos incompreendidos.

Enquanto pensamos em quem receberá o peso verde de nossos dedos, decidimos o que podemos fazer com os nossos ressentimentos e brigas.

É definir – junto do país e do Estado – o destino de nossa paz individual.

Talvez seja a hora de aceitar a desculpa da mãe e matar a saudade do chimarrão na varanda de sua casa. Talvez seja a hora de prolongar o mandato por mais quatro anos de um amigo que a gente deixou de ver. Talvez seja a hora de levar o filho para conhecer onde passamos a adolescência.

Votar é reunir nossas forças para enfrentar o passado e as rusgas de antigamente. É aperfeiçoar os planos de governo de nossa vida, reorganizar nossas alianças, rever o que não deu certo na gestão passada de nossos hábitos.

É renovar os votos de casamento, de parceria, de paternidade e maternidade.

Eu já desfiz desentendimentos com irmãos no dia da votação. Por acaso. Não marquei nada – o próprio destino agenda reconciliações.

Quando fui votar, aproveitando que a urna familiar continua sendo na Escola Tubino Sampaio, no bairro Petrópolis, um abraço inesperado, uma risada espontânea e uma lembrança tocante já foram suficientes para desarmar o ódio e reiniciar a cumplicidade.

O amor precisa de tão pouco para retornar a ser o que era. Nada supera o olho no olho, o rosto diante do rosto, a singeleza do corpo atento e carente pedindo proximidade.


Votar é também voltar. Voltar para o lugar inicial de nossa felicidade e se abastecer de afeto até a próxima eleição.

26 de outubro de 2014 | N° 17964
EDITORIAL Zh

UM DESAFIO DO TAMANHO DO BRASIL: CRESCER SEM EXCLUIR

O país está diante daquilo que o ex-ministro Delfim Netto chama de “desagradável verdade” – a certeza de que primeiro é preciso produzir riqueza para depois distribuí-la.

O vencedor da eleição presidencial deste domingo tem uma missão inadiável: promover ajustes econômicos que permitam ao país retomar o caminho do crescimento para evitar um mergulho ainda mais profundo na recessão iminente. E terá que combater o mal da estagnação sem impor retrocesso social, para que as conquistas obtidas desde que a inflação foi controlada não se percam com o tratamento.

Com continuidade ou alternância, a correção de rumo é inadiável, pois o atual governo já esgotou vários recursos para enfrentar a crise. A própria presidente Dilma Rousseff admite a necessidade de uma nova política econômica, tanto que antecipou o anúncio de substituição do ministro da Fazenda.

Apesar dos temores do mercado, manifestados a cada nova pesquisa eleitoral, é praticamente certo que as mudanças virão. Também é inevitável que o próximo governo, seja o da continuidade ou o da alternância, confirme expectativas inequívocas da população, tanto em relação ao combate à corrupção quanto na melhora da qualidade dos serviços públicos e na manutenção dos programas sociais e do pleno emprego.

Não há solução mágica, mas as dificuldades podem ser vencidas com trabalho, seriedade e transparência. O país está diante daquilo que o ex- ministro Delfim Netto chama de “desagradável verdade” – a conclusão de que primeiro é preciso produzir a riqueza para depois distribuí-la.

E, para que o Brasil volte a produzir nos patamares necessários, o governante eleito certamente terá que aplicar remédios amargos, que até podem causar desgaste político. Mas é justamente um presidente recém eleito o que tem mais legitimidade para tomar tais medidas.

Também consideramos urgente e inadiável o desaparelhamento político das empresas estatais, o combate implacável à corrupção, investimentos consistentes em infraestrutura, enfrentamento das reformas inconclusas e foco prioritário no setor produtivo.

Sem essa troca de marcha na política econômica, dificilmente o país superará a estagnação. Pelas recentes manifestações dos dois candidatos, ambos estão conscientes disso. Espera-se, portanto, que o vencedor encare a desagradável verdade apontada pelo ex- ministro e trabalhe com firmeza e sensatez pela recuperação da economia e do país.

EDITORIAL PUBLICADO ANTECIPADAMENTE NO SITE DE ZERO HORA, NA QUINTA-FEIRA, COM LINKS PARA FACEBOOK E TWITTER. COMENTÁRIOS SELECIONADOS ATÉ AS 18H DE SEXTA. A QUESTÃO: VOCÊ CONCORDA QUE O PAÍS PRECISA PRIMEIRO PRODUZIR PARA DEPOIS DISTRIBUIR A RIQUEZA?

O LEITOR CONCORDA

Concordo, discordando: certamente algumas fatias do bolo devem continuar sendo oferecidas àqueles que mais necessitam. Exemplos do que estou falando são o Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e outros programas de inclusão social. Todavia, esses programas apenas resgatam o mínimo para sobrevivência animal e reprodução de mão de obra barata.

Um país necessita de infraestrutura, transporte público decente, segurança, saúde, educação de qualidade, licitações honestas, impostos justos, arrecadação eficiente. O país precisa investir em tecnologia, atrair investimentos, reter talentos e acima de tudo mostrar para o mundo que somos um país sério. Criar políticas afirmativas para o resto do mundo compreender que a nossa democracia não é a caricatura de um populismo emergente, e sim um país que atingiu a maioridade e que quer ser tratado como tal.

CARLOS RENATO DOS SANTOS COSTA SANTA CRUZ DO SUL (RS)

O LEITOR DISCORDA

Discordo. É preciso que todos tenham igual oportunidade de adquirir os bens produzidos, já que essa teoria do derrame econômico só gera mais concentração de renda. O aumento da produção tem que acontecer ao mesmo tempo em que as desigualdades diminuem.

DANIEL SILVA SANTA MARIA (RS)

DIÁLOGOS DO FACEBOOK

LUIS SOUSA

Discordo dessa concepção velha, ou seja, o editor deve

ser filho de rico, o qual já tem tudo sem ter feito esforço.

RODRIGO MORANDI OSÓRIO

Não mesmo! Tentaram fazer isso nas décadas de 60, 70 e o resultado foi o aumento da desigualdade social.

LUIZA IZAURA NIENOW

Só a Petrobras consegue distribuir riquezas sem produzir.

RAFAEL TATSCH

Só os esquerdosos acham isso errado.

PAULO BORGES DA SILVA


É, mas o Brasil já tem riqueza, porém é distribuída entre os que fazem parte da corja. Imagine se trabalho político fosse voluntário.
RUTH DE AQUINO
17/10/2014 20h08


A coisa pública e a coisa privada

Comparar o debate eleitoral a programas de auditório é uma ofensa à TV popular

Não vale a pena ver de novo. Estou na contagem regressiva para o voto na urna. Se pudesse, não assistiria mais a debates porque, até agora, o futuro do Brasil não entrou em pauta. Comparar os últimos confrontos entre Dilma Rousseff e Aécio Neves a programas de auditório ou a reality shows é uma ofensa à televisão popular. Para quem curte linchamentos e golpes abaixo da cintura, talvez os debates dos “presidenciáveis” sejam uma boa diversão.

Uma causa do baixo nível da campanha é o medo que candidatos têm de ser entrevistados ao vivo na televisão. Campanhas em outros países também são apelativas, mas há muito mais entrevistas de candidatos na TV. São longas entrevistas, sem anúncios eleitorais, feitas por jornalistas e âncoras preparados para desafiar cada afirmação falsa ou exagerada e, assim, orientar melhor o eleitor.

Essa aposta na superficialidade, na imagem, na militância virtual e no bate-boca explica que Dilma não tenha apresentado, nem no primeiro turno nem até uma semana antes da decisão no segundo turno, um plano de governo. Não me lembro, nos países civilizados, de candidato nenhum à Presidência sem um plano de governo por escrito.

Mas não se pode exigir tanto do Brasil, não é? Um país que, após 12 anos governado por uma coligação entre o PT e oligarcas da direita, tem 13 milhões de analfabetos adultos e 35 milhões de analfabetos funcionais. Lula extinguiu a Secretaria de Erradicação do Analfabetismo. Criou o Ministério da Pesca. Os 39 ministérios e secretarias precisariam de um corte radical.

Treze milhões de brasileiros não sabem desenhar um “o” nem com a ajuda de um copo. Não sabem ler o que está escrito na bandeira do Brasil, Ordem e Progresso. Trinta e cinco milhões de brasileiros sabem, mas não entendem o significado. Mesmo diante do desastre da educação, nenhum dos candidatos explicou até agora como o Brasil erradicará o analfabetismo. Em quantos anos – 20, 30 ou 40 – o Brasil se equiparará à Coreia e será um campeão na educação?

Nenhum dos dois explicou em quantos anos os pobres não precisarão mais de Bolsa Família para não morrer de fome – como se pudéssemos nos conformar em transformar famílias de miseráveis em dependentes, enquanto a propina bilionária alimenta tantos corruptos parasitas. Em quantos anos o governo federal deixará de mentir, ao chamar de “classe média” quem ganha entre R$ 291 e R$ 1.019 por mês? Deveria ser proibido chamar de classe média baixa quem ganha menos de dois salários mínimos por mês.

Como eleitora, cito uma série de incômodos que os últimos debates me provocaram. O primeiro é a falta de propostas concretas, perdidas na troca de ofensas pessoais. O segundo é a obsessão dos dois candidatos por Minas Gerais. Que eu saiba, o Estado não é modelo de gestão nem de indigestão. Basta de discutir Minas, porque nem os mineiros aguentam mais. Comecei a enjoar de pão de queijo.

Quero saber se faltará água; se a inflação continuará a subir; se o crescimento (?) ficará abaixo de 1% ao ano; se pacientes, de bebês a idosos, continuarão a morrer em fila de cirurgia, diante dos hospitais; se as obras continuarão a ser superfaturadas; se algum dia saberemos para onde vão nossos impostos; se o Estado deixará de praticar a violência oficial contra a mulher – sem creches em tempo integral, sem igualdade em salários e oportunidades. Muitas, condenadas à gravidez precoce ou à prostituição, especialmente no Norte e no Nordeste.

Outro incômodo é a deselegância. Já seria uma boa iniciativa que os dois candidatos se tratassem de “senhor” e “senhora”, em vez de “você”. As caras e bocas de Dilma e Aécio também são bregas. Um pouco mais de cerimônia e sobriedade ajudaria a tornar o confronto mais agradável.

Se Dilma quer provocar e perguntar se Aécio dirigia o carro bêbado, por que não tem a hombridade de falar claramente? Tem vergonha de agir como Collor? Se Aécio bebeu uma gota ou uma garrafa antes de dirigir, por que não diz claramente que não soprou no bafômetro por causa disso e pede desculpas por esse lapso, em vez de falar na carteira vencida? Tem vergonha?

Ver Dilma se colocar como paladina da ética e dizer que seu papel, como presidente, é “investigar e punir”, como se as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público não ocorressem à revelia dela e do PT; como se, a cada escândalo revelado, Dilma não culpasse a imprensa; como se assessores, ministros e diretores de estatais, condenados por envolvimento em maracutaias, não fossem elogiados por Lula e por ela, aplaudidos e fotografados com punhos erguidos. Ouvir de Dilma que o governo do PT “não mexe com a coisa pública em benefício de quem quer que seja”, no meio desse escândalo abissal da Petrobras... aí, sério, é hora de trocar de canal.



25 de outubro de 2014 | N° 17963
ARTIGOS ZH

MUDANÇAS URGENTES

Em junho de 2013, a população brasileira, de forma espontânea, expressou, claramente e de forma pacífica, que não aceita mais a continuidade da visão de ser o país um gigante que dorme eternamente. Por isso, foi para as ruas exigir mudanças da classe política.

O voto consciente é, deveras, a melhor opção para uma mudança sociopolítica significativa. Grande parte da população brasileira é extremamente mal informada a respeito de política e vota nos candidatos nos quais acredita piamente. Desta forma, por vezes são eleitos inúmeros corruptos, conservadores e pessoas incapazes de realizar suas ambiciosas promessas.

Renomados sábios, como Maquiavel e Rousseau, não defendiam a democracia. Aquele argumentava que, para uma nação se manter estável, seu líder deve utilizar o pragmatismo para sustentar seu poder, fazendo uso inclusive da violência se for preciso. Rousseau defendia a tese de que deveria ser utilizada a razão, e não o voto da maioria, para as decisões políticas.

É melhor e mais adequado, no entanto, seguir outro caminho, pois é justo preservar o pensamento e as escolhas da maioria. Essa foi a origem da democracia, quando ela nasceu: na ágora, a praça das cidades gregas, o povo se reunia e decidia os rumos da sociedade, conforme a vontade dos votos que predominavam. Mais de 2.500 anos depois, essa lição ainda perdura.

Devemos, portanto, valorizar o que conquistamos após uma luta árdua: a democracia. Não estamos praticando esta invenção grega de forma plena, pois os candidatos eleitos, com frequência, são muito fracos. É preciso, além do voto consciente em pessoas sérias, honestas e justas, a reclamação das promessas após a posse no cargo. Vamos construir, juntos, um Brasil melhor.


Estudante do 3º ano do Ensino Médio - RAFAEL DIEHL FABRÍCIO

25 de outubro de 2014 | N° 17963
NÍLSON SOUZA

DEVAGAR

Na era da ansiedade e da Ritalina, é muito bem-vindo esse movimento que incentiva a desaceleração da rotina dos pais para que os filhos não se sintam pressionados a participar de múltiplas atividades. Fomos ludibriados pela tecnologia, que nos prometeu tempo livre e nos tornou dependentes de suas artimanhas. A telinha dos computadores e dos smartphones tem um poder hipnótico muitas vezes superior ao da televisão, que já foi considerada uma perversa babá eletrônica.

Agora, com a possibilidade de interagir, não há criança (nem adulto) que resista à magia digital. Para compensar o imobilismo e a fixação por joguinhos, muitos pais tratam de sobrecarregar as crianças com cursos, esportes que elas não pediram para praticar e outras tarefas que as ocupem enquanto eles se envolvem com seus afazeres. Brincar, sem qualquer finalidade educativa, raramente entra na programação.

Mas faz falta. O excesso de tarefas, conjugado com as inevitáveis atrações da tecnologia, gera crianças ansiosas, com dificuldade para se comunicar e até mesmo para se relacionar com as outras. Por isso, os seguidores do movimento denominado “pais sem pressa” defendem a tal desaceleração deles e dos filhos, para que possam desfrutar alguns momentos juntos. Reservam, assim, um espaço do dia para simplesmente brincar, não fazer nada ou praticar uma atividade prazerosa.

Não sei se a leitura de livros tradicionais está na agenda do movimento, mas tenho certeza de que essa é uma atividade bem mais saudável do que entregar um tablet à criança para que ela se distraia. Quando os pais leem para os filhos, ambos exercitam não apenas a comunicação, mas também a imaginação e as emoções. Também é importante observar que alguns estudos recentes com crianças que sabem ler indicam que a percepção do conteúdo é maior nos livros tradicionais, pois nos tablets geram mais distração.

São motivos mais do que suficientes para que os pais, acelerados ou não, reservem um tempinho para passar na Feira do Livro que começa na próxima semana, em Porto Alegre. E levem as crianças.



25 de outubro de 2014 | N° 17963
MOISÉS MENDES

Vá a pé

Caminhe até a seção eleitoral amanhã. Se tiver de ir de carro, de bicicleta ou de ônibus, desça longe e ande até a urna. Você que não anda mais a pé, que raramente percorre mais do que uma quadra por dia, caminhe 200 ou 300 metros, espiche o que der o seu protagonismo no melhor momento de uma democracia.

Vá devagar, chute folhas secas, aprecie o movimento, simule palpites sobre quem vota em quem, só de olhar quem passa. Distensione, porque neste ano a coisa foi feia.

E relembre que lhe disseram que esta eleição não teria a menor graça. Diziam que o Brasil dos protestos de rua de junho era, um ano depois, um país que sesteava na pasmaceira.

Mas caiu o avião. O país jogou-se no projeto sonhático de Marina de um jeito que, se a eleição fosse ali, na comoção, ela teria sido eleita no primeiro turno.

Mas aí Marina foi caindo e ninguém mais segurou Marina. E, caindo Marina, estabeleceu-se de novo o confronto PT-PSDB, como nos velhos tempos de MDB e Arena. E os dois se engalfinharam como democratas e republicanos irão se engalfinhar até o fim dos tempos.

E você no meio de pelo menos 20% de eleitores indecisos, titubeando de um lado para o outro. Ou você mesmo era um indeciso em meio a tanta gente com tantas certezas.

Você pensa nisso tudo e caminha em direção a sua seção, passa por um rosto conhecido – não de um amigo ou vizinho, mas de um eleitor que você só vê a cada dois anos – e se pergunta: como tem gente que não gosta de votar?

Tente entender por que alguns, por desencanto, rebeldia, ou só para ser do contra, tratam a eleição como algo que não decide nada, porque a tal democracia representativa estaria em crise. Mas vá em frente.

Esta eleição que parecia sem graça reabilitou o debate de direita e esquerda e do confronto entre a nova e a velha classe média. E foi por isso que você brigou com aquela tia que você adora.

Você, uma pessoa madura, desentendeu-se com a tia que o fez ler Enterrem meu Coração na Curva do Rio, que faz quindins só para você, mas que não vota em quem você vota, nem para governador nem para presidente.

Você brigou com a tia e por isso brigou com as primas e ainda se desentendeu com 1.375 amigos no Facebook. Esta eleição, que seria tão morna, o confrontou com perigosos e radicais inimigos políticos que estavam a sua volta, virtuais e reais, inclusive na firma. Tudo porque os radicais são sempre os outros, e o Brasil decidiu que PT e PSDB estariam de novo frente a frente.

Você caminha em direção à seção, passa por mais alguém que vê há uns 10 anos (mas só de cruzada) e pensa de novo: e dizer que tem gente que não gosta de democracia.

Você entrega o título ao mesário e vai distensionando. Na segunda-feira, fará as pazes com a tia e as primas. E chamará de volta os amigos virtuais, menos aquele que votou no Fidelix.


Uma eleição a cada dois anos – você quase diz para a urna – é melhor, muito melhor, do que uma Copa e seus legados trágicos. Numa eleição, você briga para sempre, mas só até segunda-feira, e já sabe que neste ano pode perder. Mas nunca levará sete a um.

25 de outubro de 2014 | N° 17963
CLÁUDIA LAITANO

Bem na foto

Mesmo com o Brasil virado em parque temático dos Irmãos Rocha (todos os tripulantes batendo na cabeça uns dos outros com um tacape de madeira), muita gente encontrou tempo para debates mais amenos nesses dias que antecederam as eleições.

Para o bem ou para o mal, o assunto mais comentado da semana não foram os terninhos da Dilma nem as gravatas do Aécio, mas as surpreendentes transformações no rosto da atriz Renée Zellweger. Por coincidência, a inesgotável fonte de notícias bizarras que nos abastece diariamente de espanto, curiosidade e horror nos brindou nesta semana com outra personagem que chamou a atenção pela aparência: a tailandesa Apasra Hongsakula, Miss Universo 1965, que, aos 67 anos, parece não ter envelhecido mais do que 10 minutos desde o dia do concurso. Renée assusta porque mudou muito, Apasra porque não mudou quase nada.

Houve um tempo em que apenas as “manequins”, os fotógrafos profissionais e talvez a Hebe Camargo tinham consciência de que a naturalidade de um retrato não tem nada de natural. Hoje até as meninas de oito anos sabem como se postar diante de uma câmera com estudada naturalidade – e a espontaneidade de modelos e fotógrafos tornou-se tão vintage quanto uma rolleyflex. Isso porque, para quem vive intensamente sua identidade virtual, estar “bem na foto” já não é uma questão apenas de autoestima, mas também de prestígio social. Retratos são carteira de identidade, currículo, cartão de visita. Uma vez na rede, circulam pelo mundo sem que tenhamos total controle sobre quem os recebe, a impressão que causam e até quando (e de que forma) serão usados.

Sendo assim, as celebridades perderam a exclusividade como objeto de escrutínio público. Hoje todos temos a oportunidade de sermos julgados no tribunal da imagem como Renée Zellweger foi nesta semana – seja pela beleza, que impõe critérios cada vez mais rígidos e inalcançáveis em qualquer idade, seja pela forma como lidamos com a passagem do tempo.

Podemos forjar um determinado estilo de vida postando imagens de momentos festivos quando nossa rotina é um tédio absoluto ou cenas românticas quando na maior parte do tempo queremos mesmo é esgoelar o ser amado. Mas é quase impossível disfarçar as marcas do tempo sem correr o risco de mudarmos demais (como Renée) ou de menos (como Apasra).

Continuamos envelhecendo do mesmo jeito que nossos avós: inexoravelmente. Mas nos últimos tempos temos registrado e acompanhado esse processo com boletins fotográficos diários, como se fôssemos estrelas de cinema em turnê pela vida. Famosos ou não, o que todos gostaríamos é que nosso rosto refletisse aquele tipo de serenidade que parece tornar mais suave o percurso entre o que já fomos e o que ainda seremos. Ou seja: que vivêssemos um presente abençoado pela rara sensação de que não estamos lamentando o que já passou, nem ansiosos com o que ainda virá.


Que o tempo nos transforme, sim, mas não tão rápido que pareça nos pegar de surpresa – nem tão lentamente que pareça photoshop.