terça-feira, 7 de julho de 2026

07 de Julho de 2026
CARPINEJAR

Ressaca moral

Não me lembrava do quanto doía a queda de uma Copa. Como ocorre de quatro em quatro anos, havia esquecido. Por mais que eu não acreditasse no hexa - e o único hexa que completamos foi o consecutivo das eliminações-, por mais que estivesse vacinado pela idade, por mais que enxergasse as limitações de um plantel sem um centroavante de ofício, sem um armador incontestável, sem laterais, por mais que considerasse um fracasso anunciado, a esperança residia infantil e sorrateira no fundo de mim.

Apenas a percebi com o apito final da derrota para a Noruega, no domingo. Assistia ao jogo num bar, com amigos. Não me despedi. Fui extremamente mal-educado. Abandonei o local às pressas, com medo de chorar em público. Veio um sentimento de constrangimento atávico, selvagem, incontrolável.

Não consegui conversar com mais ninguém. Demorei a dormir, pensando em hipóteses: se Endrick tivesse começado, talvez demonstrasse mais confiança para fintar o goleiro; se Neymar tivesse entrado antes, não desperdiçaria o pênalti de Bruno Guimarães, mas o time seria mais lento; se Casemiro passasse para o lado na cara do gol, encontraria dois atacantes livres para finalizar. 

Por que não fizemos marcação alta, uma vez que os noruegueses não têm rotatividade para o contra-ataque? Não achava fundo nem forro para os questionamentos. Revisava cada lance com a lupa de uma realidade paralela. Não era possível interromper o fluxo.

Acordei com a ressaca moral, como se tivesse sofrido um acidente e não me recordasse de onde estava e do que havia acontecido. Senti falta de algo, de um sopro de vida, de uma motivação, da ternura de um otimismo inocente.

Busquei consolo e me coloquei no lugar dos tetracampeões italianos que sequer se classificaram para o Mundial, ou dos tetracampeões alemães que caíram fora nos 16 avos, só que imaginar que poderia ser pior não me confortou.

Nem me valeu o recurso de adiantar o relógio e raciocinar que 2030 é logo ali. Já estarei próximo dos sessenta, com meu filho caçula quase trintão. A espera é longa. É que fazia tempo que eu não torcia escandalosamente por meu país, vestindo a camisa amarela, procurando as cornetas e o manto no quartinho da bagunça, escrevendo "Brasil" na cabeça com o que sobrava de meus cabelos.

É muito diferente de vibrar com seu clube, suportando a tensão e se defendendo da flauta e da rivalidade. É quando todos são iguais pelo mesmo objetivo, conhecendo o esporte ou não, e não existe um melhor do que o outro. Minha mãe, que não se interessa por futebol, ralhava junto. Virou sua segunda missa. É um torneio que converte não praticantes, levando-os a adoecer de preocupação e berrar para a televisão. Minha esposa, meramente simpatizante, dava ordens aos atacantes: "Vai! Vai! Vai!".

Compreendi que não cresci para algumas coisas, como a Copa do Mundo. Há feridas ancestrais que sangram e não avisam. Não recrimino quem deixará de ver os mata-matas finais. É o equivalente a ser vizinho de uma festa animada, com som ligado no máximo. A inveja grita.

Acompanharei agora a última quinzena da competição, mas não com hipnose e comprometimento, não secando a França e a Argentina como anteriormente, não as julgando oponentes diretas para a taça. Será de sangue doce, ou, mais de acordo com o desencanto, amargo.

Eu ainda sou o menino de antigamente debaixo da feição barbada, padecendo desilusões coletivas com a gravidade de um infortúnio pessoal. Surgirão espinhas imprevisíveis.

Volto a ser aquele que decorava as bandeiras das nações participantes no álbum de figurinhas, que dizia o nome e a seleção de todos os atletas de cor, que memorizava as escalações, que aguardava a partida com uma alegria cheia de véspera, contando os minutos para explodir de pertencimento e sair um pouquinho da solidão do coração. 

CARPINEJAR

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