terça-feira, 7 de julho de 2026

Racionalidade no lugar da política

Representantes brasileiros de empresas, de entidades da indústria e do agronegócio e economistas estão em Washington para as audiências públicas que se iniciaram ontem e terminam hoje sobre os novos tarifaços que o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) quer impor ao país. As audiências referem-se ao processo baseado na Seção 301 da legislação comercial norte-americana, que pode taxar uma série de produtos nacionais em 25%, e a outra investigação sobre mercadorias que seriam produzidas com trabalho forçado, com uma oneração de 12,5%.

A diplomacia brasileira já apresentou a defesa do país, demonstrando os equívocos na argumentação do USTR, mas as negociações entre os governos chegaram a um impasse. As diferenças políticas entre Brasília e Washington têm preponderado sobre as ponderações técnicas. Como a decisão final caberá ao próprio presidente Donald Trump, em posição que deve ser conhecida até o dia 15, ainda é preciso insistir no diálogo. Passa a ser mais importante que o setor privado amplie os esforços para, ao menos, postergar o início do tarifaço, diminuir as taxas previstas ou ampliar a lista de exceções.

As manifestações nas audiências públicas, embora relevantes, têm tempo exíguo, o que dificulta a fundamentação. Será preciso intensificar os contatos com as companhias e entidades setoriais norte-americanas que também serão prejudicadas pelas importações mais caras, tanto de produtos finais quanto de insumos industriais. Algumas associações dos EUA se aliaram ao pleito do Brasil nas audiências, demonstrando a falta de sentido econômico na barreira tarifária que a Casa Branca quer erguer - sem esquecer que o Brasil é deficitário nas trocas comerciais com os norte-americanos desde 2009.

Apesar de Trump ter fixação por taxas, é sensível a pressões empresariais locais, ainda mais se for demonstrado o risco inflacionário na antessala da eleição para o Congresso norte-americano. Deve-se redobrar o empenho nos próximos dias, portanto, para convencer Washington de que as sobretaxas afetam cadeias produtivas e os consumidores norte-americanos. Um estudo do banco central de Nova York publicado em fevereiro demonstrou que a população e os importadores arcaram com quase 90% das tarifas impostas em 2025. Não se deve perder de vista ainda o histórico de Trump e de seu governo de fazer anúncios bombásticos e, em um segundo momento, recuar em alguma medida.

Conforme a Confederação Nacional da Indústria (CNI), caso as tarifas de 25% e de 12,5% comecem a vigorar, mais de 4 mil produtos seriam onerados. São negócios que equivalem a US$ 14,9 bilhões. O Estado é uma das unidades da federação mais afetadas. De acordo com a Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), cerca de 75% dos bens gaúchos vendidos para os EUA ficariam mais caros.

A piora na relação entre os dois países aparece nas estatísticas. A corrente de comércio, que atingiu um recorde de US$ 41,7 bilhões para um primeiro semestre em 2025, recuou agora para US$ 36,7 bilhões. As exportações dos EUA para o Brasil também retrocederam de janeiro a junho, o que comprova o quanto o tensionamento político é nocivo para ambos. É preciso fazer a racionalidade prevalecer. 


 

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