terça-feira, 7 de julho de 2026

07 de Julho de 2026
NÍLSON SOUZA

Por um fio de cabelo

Sou defensor do uso da tecnologia no futebol, mesmo quando um gol é invalidado por impedimento definido pela unha do pé ou por um fio de cabelo, como já aconteceu na atual Copa do Mundo. Claro que compreendo a frustração e a indignação dos jogadores e dos torcedores das equipes sancionadas por detalhes invisíveis ao olhar humano - mas, enquanto não mudarem o regulamento, essa é a regra do jogo. 

E todos os participantes concordaram previamente com ela. Não há como ignorá-la apenas porque o gol foi bonito, porque a jogada foi espetacular ou por desconsiderar o esforço heroico de uma equipe mais fraca.

Regra é regra - o resto é jeitinho, como se viu recentemente no VAR dos penduricalhos nacionais. E jeitinho é sinônimo de desonestidade. Assim como o verbo "flexibilizar" é apenas um eufemismo para o famigerado jeitinho que, infelizmente, costuma ser associado ao adjetivo "brasileiro".

O principal argumento dos críticos da tecnologia no futebol é o da perda da essência humana e, consequentemente, da emoção. Está virando ciência exata, reclamam os saudosistas do erro de arbitragem.

Até aceito que a revisão tecnológica da decisão de campo, na maioria das vezes, lança água fria na comemoração instantânea do torcedor. Mas continuo achando que a justiça deve prevalecer sobre a paixão.

Cabe lembrar, na defesa da minha tese, que a tecnologia também se tornou decisiva em outros esportes. No vôlei, só se percebe o toque da bola no dedinho do bloqueador com a ajuda do vídeo. No tênis, só a câmera lenta ou a animação em 3D comprovam se a bolinha tocou ou não na linha demarcatória. São reconhecimentos inequívocos da superioridade tecnológica sobre os nossos sentidos - ainda que a tecnologia, até por ser uma criação humana, também esteja sujeita a falhas.

Torço para que a Copa do Mundo seja decidida por gols bonitos e inquestionáveis, que sequer precisem de revisão. Mas se o gol do título depender daquele bizarro eletrocardiograma da trajetória da bola, farei o maior esforço para aceitar o resultado - mesmo que sinta vontade de amaldiçoar a tecnologia, como é próprio de nossa natureza humana. 

NÍLSON SOUZA

Nenhum comentário:

Postar um comentário