
06 de Novembro de 2026
Crise política traz de volta o fantasma do velho Paraguai
Por décadas, o Paraguai era conhecido pela corrupção, o narcotráfico, a pirataria e sucessivos golpes de Estado que traziam instabilidade ao país e ao Mercosul.
Como enviado de ZH, cobri a última grande ruptura política na nação vizinha, o impeachment do então presidente Fernando Lugo, em 2012, à época em que o Paraguai havia embarcado na chamada onda bolivariana. Esse passado havia ficado para trás. Nos últimos anos, o país vinha construindo uma imagem de estabilidade e segurança jurídica para atrair investimentos estrangeiros, especialmente brasileiros. Passou a ser visto como um destino atraente para empresas por uma combinação de fatores: impostos relativamente baixos, energia barata, incentivos à industrialização, estabilidade macroeconômica e custos de produção competitivos.
Em 2024, o Paraguai conquistou o grau de investimento da Moody?s, reconhecimento de sua capacidade de honrar compromissos financeiros. No ano seguinte, a Standard & Poor?s também concedeu grau de investimento ao país. O investimento estrangeiro direto atingiu US$ 1,18 bilhão, um recorde.
O escândalo do Ueno Bank coloca em xeque essa credibilidade. O colapso de uma instituição que administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos levanta dúvidas sobre a capacidade dos órgãos reguladores de identificar e prevenir riscos.
A renúncia do presidente Santiago Peña aprofunda a crise, uma vez que, para investidores, a previsibilidade institucional é tão importante quanto a política tributária.
E empresas que pretendem instalar fábricas, transferir operações ou manter recursos no Paraguai podem passar a examinar com mais rigor a segurança do sistema financeiro e a independência das instituições. No caso das empresas brasileiras, a instabilidade pode aumentar a cautela, sobretudo entre investidores que ainda estão avaliando projetos.
O Paraguai continua oferecendo vantagens estruturais, a proximidade do mercado brasileiro e condições tributárias favoráveis. O impacto de longo prazo dependerá de como o país conduzirá a crise bancária, protegerá os depositantes, investigará as irregularidades e garantirá a estabilidade institucional. O Paraguai mudou muito desde 2012, mas a crise mostra que algumas fragilidades persistem. E faz ressurgir um fantasma que parecia enterrado: o do velho Paraguai, marcado pela corrupção, pela instabilidade política e pela desconfiança dos vizinhos. _
Papamóvel "made in Brasil"
O papamóvel que o papa Leão XIV utilizará em sua viagem pelo Peru, entre 11 e 17 de novembro, é do Brasil. Trata-se de uma Chevrolet S10 que foi adaptada especialmente para transportar o Pontífice. O modelo foi produzida em São José dos Campos e customizada em Mogi das Cruzes.
O veículo especial reúne detalhes de diversas versões da Chevrolet, como a Z71, além de equipamentos encontrados apenas na High Country (versão topo de linha da caminhonete). O veículo, no entanto, passou por intensas modificações na estrutura e na carroceria para atender às exigências da Santa Sé.
Um detalhe importante: este papamóvel não é blindado. _
Entrevista
Dom Jaime Spengler
Cardeal, arcebispo metropolitano de Porto Alegre e presidente da CNBB
"O Papa conhece a realidade do RS"
Em entrevista ao Conversas Cruzadas de terça-feira, o cardeal dom Jaime Spengler, arcebispo metropolitano de Porto Alegre, antecipou os principais pontos da visita do papa Leão XIV à América do Sul. Hoje, o Pontífice desembarca no Uruguai, depois, seguirá para a Argentina e, na sequência, irá ao Peru.
O que representa a visita do papa Leão XIV à região?
São três contextos muito diversos. O Uruguai, marcado pelo secularismo, mas também por uma grave crise demográfica. Está se tornando um país de idosos. Além disso, a Igreja tem uma presença significativa no seio da sociedade, mas não tão impactante quanto no contexto argentino e peruano. Já a visita à Argentina é uma espécie de fazer memória e também uma dívida que o sucessor de Pedro tinha para com o país. O papa Francisco nunca pode retornar à Argentina. Existia uma perspectiva de ele vir na região missioneira. Havíamos conversado sobre essa possibilidade. E o Peru foi onde o Papa atual passou grande parte da vida, primeiro como missionário, depois como bispo de Chiclayo. Será uma visita marcada por esse lado mais humano afetivo.
O ponto alto será o Peru?
Certamente, pela agenda que ali está sendo construída. Chiclayo será o cume da visita, mas também teremos um encontro com o Celam, o Conselho Episcopal Latino-Americano, que representa as 22 conferências episcopais do continente. Ali imagino uma relevância geopolítica e eclesial particular.
Leão foi submetido a uma cirurgia para retirada de um câncer no pulmão direito. Isso impacta a viagem?
A notícia nos pegou de surpresa. Quando imaginamos a figura do Papa, pensamos em um ser quase angelical. Mas não podemos esquecer que ele é uma pessoa sujeita à fragilidade humana como qualquer um de nós. Imagine um homem de 71 anos, que tirou um nódulo do pulmão, apesar de sua resistência física considerada boa, encarar uma viagem de 12 horas de avião. Montevidéu está no nível do mar, mas Chiclayo e Cusco estão a 2 ou 3 mil metros de altura. Certamente, no aspecto físico, isto traz consequências. Preocupa, mas foi decidido por manter a viagem, creio que tem o respaldo também da equipe médica.
Qual a explicação para o Brasil ter ficado de fora?
Não havia, de nossa parte, perspectivas de uma vinda dele ao Brasil nesse momento. Existe o convite que apresentamos para que venha em setembro do próximo ano, quando, em Goiânia, teremos um evento da Igreja Católica do Brasil. Nós o convidamos para o encerramento. Junto com o convite foi feita a proposta de uma agenda um pouco mais alargada. Propusemos cidades ou as capitais por onde o Papa ainda não tenha estado.
O Uruguai é um país onde o aborto e a eutanásia são legais. Uma mensagem mais dura do Papa pode gerar atrito?
Eu não diria isso. Conhecemos muito bem a posição da Igreja em relação a temáticas que envolvem a vida e a existência humana. Nesse sentido, não precisamos esperar novidades ou coisa de impacto. Aquilo que é o núcleo da fé cristã católica e que faz parte da tradição, para nós, é patrimônio comum, e disso não se abre mão. A forma de apresentar isso, talvez, na sociedade de hoje, a linguagem usada, pode talvez trazer surpresa. Mas o núcleo da mensagem é o mesmo de sempre.
O senhor já conversou com o Papa sobre o RS?
Quando ele era ainda o prefeito do Dicastério para os Bispos, tivemos vários encontros. Na sequência da tragédia (enchente de 2024), por meio da Comissão para a América Latina, foi enviado um valor. Ele estava muito por dentro e conhece a nossa realidade.
O presidente Javier Milei, da Argentina, pode utilizar a viagem como autopromoção?
A Igreja evita. A Santa Sé é muito prudente nesse aspecto. A Argentina hoje está vivendo uma crise econômica e social muito séria. Existe o risco, sim, sabemos como os políticos sempre encontram um meio para usar a imagem.
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