sexta-feira, 6 de novembro de 2026


06 de Novembro de 2026
OPINIÃO RBS

Trajetória do juro depende de Lula

O repique dos índices de preços, a alta das expectativas de inflação, o fortalecimento do dólar e a incerteza sobre a responsabilidade fiscal no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva levaram o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) a optar na quarta-feira por parar o ciclo de redução a conta-gotas da Selic. Assim, após cinco cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual, a taxa estaciona no nível elevado de 13,75% ao ano. O patamar restritivo seguirá a fazer estragos na saúde financeira das empresas e das famílias e a desaquecer ainda mais a economia real.

O Copom optou pela prudência, pela própria credibilidade e por não transparecer leniência ante o recrudescimento dos riscos. Não indicou o que deve fazer na próxima reunião do colegiado, no fim de dezembro. Isso traz a vantagem de não deixar a porta fechada para nenhuma possibilidade. Ao fim, a trajetória do juro - se permanecerá nesse nível nos próximos meses, se vai subir ou cair - depende quase que exclusivamente do presidente Lula, e não do BC. 

A autoridade monetária apenas reage ao cenário. É verdade que a decisão de quarta-feira do Copom também cita fatores globais, como a continuidade do conflito no Oriente Médio, que pressiona a cotação do petróleo, e a incerteza sobre o juro nos EUA. Mas, em relação a questões externas, o Brasil não tem o que fazer. É preciso agir sobre as condicionantes internas, sobre as quais o governo pode influenciar.

O alívio ou o aperto no custo do dinheiro está condicionado às decisões corretas ou temerárias que o presidente tomará. Espera-se que Lula se renda aos fatos e à necessidade de um ajuste fiscal crível, deixe de menosprezar a trajetória explosiva da dívida pública e não se aventure em teorias heterodoxas para baixar o juro a fórceps. Falta também explicar como pretende cumprir todas as promessas que fez para se reeleger diante de um orçamento cada vez mais restrito.

Está previsto para domingo um pronunciamento de Lula para tentar acalmar o mercado financeiro e sinalizar comprometimento com um ajuste nas contas públicas. Mas só palavras e promessas genéricas estão longe de ser o suficiente. 

O presidente não tem mais o benefício da dúvida no tema da responsabilidade fiscal. Precisará, logo, anunciar um ministro da Fazenda que transmita credibilidade e tenha respaldo para adotar as medidas necessárias, ainda que duras. De nada adiantará indicar bons nomes para a equipe econômica se o próprio presidente vier a desautorizá-los. Será em vão aperfeiçoar as regras do arcabouço fiscal se continuar a driblá-las.

Pressionado para apresentar um plano verossímil que indique contenção de gastos, Lula iniciou ontem um período de conversas com economistas para tratar da conjuntura econômica e decidir o rumo da política fiscal. 

Começou por nomes ligados ao governo e de viés desenvolvimentista. Seria conveniente que ouvisse especialistas com visões mais ortodoxas. Se optar por escutar apenas o que é música para seus ouvidos, corre o risco de produzir um quadro de perda maior da confiança dos agentes econômicos, materializado em inflação e juros altos e atividade econômica declinante. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário