quarta-feira, 3 de julho de 2019



03 DE JULHO DE 2019
ALMANAQUE GAÚCHO

Em defesa dos servidores da Justiça

Há 75 anos, em 1º de julho de 1944, no Clube Comercial de Santa Maria, nascia a Associação dos Servidores da Justiça do Rio Grande do Sul (ASJ). Em uma assembleia geral, que contou com a presença de 65 integrantes, foi criada a entidade, que hoje soma mais de 9,5 mil membros, entre sócios efetivos e sócios adidos.

Pioneira na representação classista dos servidores do Poder Judiciário, a associação teve como primeiro presidente João Carvalho Macedo. Inicialmente, ganhou o nome de Associação dos Serventuários da Justiça. Na década de 1960, a associação fundou sua sede administrativa no Centro Histórico de Porto Alegre, onde, até hoje, exerce suas atividades.

Ao longo de sua história, a ASJ teve 14 presidentes. O atual foi eleito em 1986. São 33 anos de história construídos sob a presidência de Paulo Sebastião Gonçalves Olympio. Entre os momentos mais marcantes dessa trajetória, estão a criação do Sindicato dos Servidores da Justiça do RS (Sindijus), em 1988, e a primeira greve geral dos servidores da Justiça, que mobilizou cerca de 4,5 mil pessoas, entre os dias 11 de abril e 30 de maio de 1987.

Em defesa da categoria, a ASJ integrou outra luta importante: a consagração da autonomia administrativa e financeira do Poder Judiciário na Constituição Brasileira de 1988 e na Constituição Estadual de 1989.

O pioneirismo sempre foi a marca da ASJ, seja na fundação da representação classista dos servidores da Justiça, nas lutas em prol da categoria ou no relacionamento com outras instituições e com os três Poderes constituídos.

CÁPSULA DO TEMPO

Ao celebrar seu centenário no último domingo, a comunidade da Paróquia São Pedro, no bairro Floresta, na Capital, deixou marcado um novo encontro para quando completar 150 anos.

Nos festejos do dia 30 de junho de 2069, será aberta a cápsula do tempo que foi depositada em uma das paredes da igreja por dom Jaime Spengler, arcebispo metropolitano, e pelo pároco, padre Luciano Massulo. Na cápsula, foram guardadas fotos dos grupos, movimentos e pastorais da paróquia, além de exemplares de jornais que circulam em Porto Alegre.

CORREÇÃO

Quem digitalizou o documentário da Escola de Aviação da Varig foi Claudio Scherer, e não Paulo Scherer como foi publicado no Almanaque Gaúcho na superedição do fim de semana passado.

Há 30 anos...

Segunda-feira, 3 de julho de 1989

O salário mínimo de julho pode ficar em 150 cruzados novos, devido ao reajuste pela inflação de junho, que deve fechar em 24,83%, de acordo com o IBGE. Essa é a primeira correção pelo IPC mensal, da nova lei salarial aprovada mês passado pelo Congresso.

Há 40 anos....

Terça-feira, 3 de julho de 1979

O Ministério de Minas e Energia deve adotar uma política de racionamento e propor um corte de 10% na oferta de óleo combustível e 5% na de diesel. Empresários do ramo de transportes preveem transtornos em centros urbanos.

Há 50 anos...

Quinta-feira, 3 de julho de 1969

O ministro de Minas e Energia, Dias Leite, declarou que o Brasil caminha para a autossuficiência em petróleo. No entanto, a atual política sobre o produto descarta o monopólio da produção, solução que o governo acredita que terá aceitação da opinião pública.

RICARDO CHAVES

03 DE JULHO DE 2019
EDUCAÇÃO

Incerteza, falta de informação e estresse

Os relatos dos docentes são dramáticos, como o que abre esta reportagem. Uma professora precisou da ajuda dos seus pais para pagar o aluguel e a prestação do carro, e uma amiga emprestou o cartão de crédito para que conseguisse abastecer o veículo.

Outra garante as compras do supermercado dando aulas particulares, e há quem não esteja nem conseguindo alimentar os filhos pequenos, pedindo socorro a parentes. "Estou muito triste e chorosa, pois parece que tiraram meu brilho. Sei que vai passar. Notícias do nosso salário? Ando tão triste e tão ressabiada que não me animo a perguntar", desabafou uma colega a Margot, que é uma referência aos demais por estar ligada ao sindicato. "Show de horrores. Podem depositar na sexta ainda? Que humilhação. Chorei muito", falou outra. "Misericórdia. Cheguei ao limite", enfureceu-se um terceiro.

Os professores não são identificados por temerem represálias. Margot resume os sentimentos predominantes entre eles:

- É um misto de indignação e tristeza, parece que está todo mundo no limite e se sentindo desrespeitado. Fico sendo bombardeada (com perguntas) sobre o salário diariamente, pois a escola diz que sempre pode acontecer. Desde a semana passada, não há mais notícia ou respostas a mensagens ou telefonemas. Estou cansada, muitos estão adoecidos. É difícil manter qualidade num clima desses.

PARA MUITOS, É O ÚNICO EMPREGO

A professora ressalta que a equipe "faz das tripas coração" e que muitos professores "só têm esse emprego":

- O grande problema é essa informação que nunca é verdadeira, nada transparente, é truncada. Essa sensação de que não tem problema nenhum e, ao mesmo tempo, o problema é enorme.

Há descrições de outras dificuldades que estariam afetando a preparação de aulas e até as refeições dos estudantes. Docentes afirmam terem utilizado as próprias impressoras, em casa, para imprimir cópias das provas a serem distribuídas às turmas. Marilice Trentini de Oliveira, diretora pedagógica, disse que as informações não procedem (leia mais ao lado). Uma professora indigna-se:

- Onde está indo o dinheiro? Tenho pena e vergonha alheia daqueles pais que confiam na escola.

Mas há vozes dissidentes dentro do prédio centenário do bairro Rio Branco. Um professor reclama dos colegas que estão "falando mal":

- É um marco da Capital que não pode ser abandonado assim. O colégio está doente. E o que a gente faz? Em vez de ajudar, desiste? É mais fácil bater do que tentar ajudar. Se não está feliz, larga o barco.

03 DE JULHO DE 2019
CAMPO ABERTO

RECURSOS DO FUNDO DO VINHO PARADOS

Meninas dos olhos do modelo de fundos para fomento de setores produtivos do Estado, o Fundovitis enfrenta um impasse. Os cerca de R$ 12 milhões que estão disponíveis na conta não podem ser acessados no momento pelo Ibravin.

O motivo é que, até agora, ainda não foi assinado o convênio anual com a Secretaria da Agricultura, gestora do fundo, com o instituto, entidade privada e executora de ações para desenvolvimento do segmento vitivinícola do Rio Grande do Sul. Com isso, despesas básicas não estão conseguindo ser mantidas, como apurou a coordenadora da Gaúcha Serra Babiana Mugnol. Salários dos cerca de 20 funcionários, incluindo oito pessoas que trabalham no Laboratório de Referência Enológica (Laren), estão atrasados há mais de 30 dias.

O secretário de Agricultura, Covatti Filho, foi para a Serra na noite de ontem, onde se reuniria com o presidente do Ibravin, Oscar Ló, para tentar buscar solução para o problema criado com a não assinatura do convênio entre as duas partes. Ele explica, contudo, que o contrato não pode ser firmado porque auditoria do Tribunal de Contas do Estado apontou suspeita de irregularidades na prestação de contas feita no período de 2012 a 2016. Diz não poder dar detalhes porque o processo corre em segredo.

Também afirma que ainda está sob análise da pasta a avaliação dos relatórios apresentados referentes a 2017 e 2018.

- Só podemos assinar novo termo de fomento depois de aprovadas as contas anteriores. Como gestor, estou sem ter como fazer a renovação. Por isso, vamos buscar alternativas - observa Covatti Filho.

Ló diz ter conhecimento extraoficial sobre os apontamentos em relação às contas do período de 2012 a 2016, mas que o Ibravin ainda não foi notificado sobre essa questão.

A composição do fundo é formada por uma taxa recolhida das vinícolas sobre o quilo de uva. Os valores são depositados em conta e acessados mediante convênio firmado, a partir de um plano de trabalho elaborado para o ano em questão.

GISELE LOEBLEIN

03 DE JULHO DE 2019
EM DIA

STARTUPS, FINTECHS E UNICÓRNIOS

As três palavras do título incorporaram-se ao universo moderno.As startups são empresas que se destacam das tradicionais por seu grau de inovação, utilizando de forma intensiva a tecnologia, estruturas extremamente leves e modelos de negócios criativos e diferenciados, todos eles lastreados em uma visão estratégica de futuro que se combinam e geram modelos disruptivos em seu mercado. Muitas vezes, criam mercados a partir de produtos ou serviços inovadores. Quando obtém sucesso, apresentam crescimentos exponenciais e agregam valor, principalmente quando têm escalabilidade, surfando em ganhos de escala.

Entre as startups, as chamadas fintechs são empresas voltadas a todo o tipo de serviço ou produto bancário. Passam por meios de pagamento, crédito, cobrança, investimentos e quaisquer serviços ou retaguardas financeiras e buscam escalas e também crescimentos exponenciais. São intensivas em tecnologia, têm estruturas leves e são inovadoras em seus produtos e serviços. Aliam a visão estratégica de mercados às oportunidades oferecidas pela tecnologia, buscam dominá-la e, a partir de ideias criativas, desenvolvem-se com visões sobre demandas futuras do setor.

Característica de uma maioria das startups é o baixo investimento inicial. Seu grande capital são suas ideias inovadoras, ou seja, são intensivas em capital intelectual. Por outro lado, nem toda a startup tem sucesso. O insucesso de parte delas é explicado pelo trajeto entre a boa ideia e sua aplicabilidade. Probabilisticamente, é possível que inúmeras pessoas em diversos lugares do mundo estejam trabalhando em algo semelhante a uma ideia que você teve agora. Ganha quem chegar primeiro, pois a maioria das ideias não é patenteável. A falta de uma visão financeira e empresarial também pesa na jornada. Há uma fronteira entre o idealismo e o pragmatismo a ser vencida.

Convencionou-se chamar de unicórnios aquelas startups que atingiram um faturamento na ordem de US$ 1 bilhão. Embora não haja dados exatos, estimativas indicam que, no mundo, possa haver cerca de até 200 empresas unicórnios. No Brasil, são duas, fintechs, o Nubank e a Stone, banco digital e meios de pagamento. 

Dados do setor indicam que temos em torno de 12,8 mil startups e cerca de 550 fintechs. Entre as fintechs, mais de 40% estão ligados a meios de pagamento, crédito e investimentos, em que a revolução está apenas começando. Em um setor de escala, uma olhada para a China é uma boa ideia para se entender o modelo disruptivo lá implantado, tracionado por muita inovação e uma compreensão estratégica de futuro invejável, a partir do presente.

RICARDO HINGEL


03 DE JULHO DE 2019
NÍLSON SOUZA

O algoritmo da morte

A humanidade é que é a verdadeira crônica de uma morte anunciada, expressão que deu título ao inspirado romance de Gabriel García Márquez. Todos nós, do ponto de vista biológico, vamos passar dessa para pior - e o pior do pior é que temos consciência disso. A grande questão que nos aflige é saber quando. Outro dia, perguntaram pro Verissimo como ele lida com esse tema indigesto e sua resposta foi um misto de conformismo com bom humor:

- A gente sempre tem uma esperancinha de que será poupado!

Pois a esperança - a última que morre, no dito popular - está prestes a perder o seu poder de iludir os condenados. Cientistas e empresas de tecnologia de várias partes do mundo estão treinando algoritmos médicos para realizarem previsões sobre óbitos, a partir da tabulação de informações de saúde e hábitos das pessoas. Se as pesquisas forem bem-sucedidas, em breve poderemos conhecer com antecedência o dia e a hora do barco de Caronte, assim como já é possível saber se o ônibus está se aproximando da parada e o horário exato em que chegará.

Esse GPS do último suspiro está mais próximo de nós do que se poderia imaginar. O Laboratório de Big Data e Análise Preditiva em Saúde, da Universidade de São Paulo, anuncia para os próximos dias a publicação de uma pesquisa com um algoritmo que prevê a morte de pessoas com 70% de precisão. A inteligência artificial do Labdaps foi alimentada com dados de saúde, bem-estar e envelhecimento de 2.808 idosos residentes em São Paulo, durante quase duas décadas.

O propósito principal dessa busca do algoritmo da morte, segundo os cientistas, é oferecer aos médicos informações mais precisas para que possam tomar decisões que melhorem as condições dos pacientes e prolonguem seu tempo de vida. A ferramenta também poderá ser utilizada por hospitais para determinar prioridades de internações e intervenções clínicas.

Mas também pode - e isso os cientistas igualmente admitem - ser utilizada com objetivos menos nobres, tais como negar acesso a tratamento para pacientes de risco elevado ou determinar o preço de planos de saúde e apólices de seguro. Mais uma vez a questão da privacidade se torna crucial para o bom ou o mau uso de um avanço tecnológico.

Confesso que já ando incomodado com algoritmos que tentam me sugestionar o tempo todo a comprar produtos e consumir coisas que pouco me interessam, apenas por ter feito alguma consulta inadvertida ao todo-poderoso Google. Agora me surge mais essa, uma predição científica do nosso inevitável fim, com pouca ou nenhuma margem de erro.

Sinceramente, não quero saber. Me incluam fora dessa!

Porém, como sei que a tecnologia é um caminho sem volta, torço para que os jovens programadores também investiguem o algoritmo da esperança, que se alimenta de sonhos mirabolantes, crença no futuro e, apesar dos pesares, fé irrestrita na humanidade.

NÍLSON SOUZA

terça-feira, 2 de julho de 2019



02 DE JULHO DE 2019
CARPINEJAR

Reencontro da turma

Eu temo turmas de escola que procuram se reunir décadas depois. Sempre imprevisíveis o conteúdo das reminiscências e o nível das indiscrições.

A comparação de quem era com quem desejava ser com quem se tornou será inevitável. Nem todos tiveram sucesso ou alcançaram reconhecimento. Haverá tipos desajustados, mal-amados, ranzinzas, ingratos, adoecidos, solitários. Os que não se casaram poderão se sentir encalhados. Os que abdicaram de filhos poderão se enxergar diminuídos na régua da prosperidade. Os que estão sem emprego poderão se esconder, desprovidos de assunto.

Dói só de virar o ano do calendário, nem dá para pensar em realizar a retrospectiva da adolescência.

Até que o passado bateu em minha porta. Ou, melhor, tocou no meu telefone.

Meus colegas de Ensino Médio do Colégio Aplicação decidiram comemorar os trinta anos de nossa formatura. Criou-se um grupo no WhatsApp. A princípio, tentei ser carinhoso e participar da primeira rodada de conversa. Mas foram cento e vinte mensagens em poucos minutos que precisaria tirar o dia para ler e entender o encadeamento dos diálogos.

Inventei de atalhar o material e espiar as fotografias que o povo alucinado mandava de nosso tempo.

Eu guardava a impressão de que tinha sido amado, idolatrado, querido. De que tinha sido um jovem enturmado, atuante, influente e com respeito geral. Devo ter contado essa versão otimista aos filhos.

Por pura curiosidade, fui me pesquisar nas dezenas de imagens. Queria conferir como realmente me vestia e agia, reconstituir a minha aparência tão diferente de como me encontro atualmente (usava cabelos compridos, por exemplo). Talvez salvar alguma cara e boca, para postar nas redes sociais.

Rolei o dedo, exaustivamente, e localizei apenas uma fotografia. Umazinha. Uma aparição quase relíquia.

De protagonista da memória virei coadjuvante em algumas horas e acordei de manhãzinha fazendo figuração.

Percebi que não era convidado para coisa nenhuma. Sofri um bullying retroativo. Um bullying atrasado trinta anos.

Havia viagens para o Rio de Janeiro, excursões por Santa Catarina, passeios pela serra gaúcha.

Nada de me localizar em qualquer uma das cenas antológicas partilhadas. Não estava ali rindo, cantando, gritando, pulando. Como se fosse de uma sala de aula diferente da deles.

Nem sabia que transcorria uma convivência paralela. Jurava que me chamavam para tudo. Os integrantes comentavam festas e bebedeiras incríveis, façanhas e romances loucos de que jamais obtive conhecimento. Não havia o que opinar. Eu me testemunhei penetra daquela correnteza de emoções nostálgicas. Um nerd deslocado e riscado da panelinha.

Num período em que não existia internet, ficava mais fácil guardar segredo. Bastava mudar de conversa no recreio quando eu me aproximava. Pena mesmo que aceitei entrar no grupo e me despedi da veterana ilusão.

CARPINEJAR


02 DE JULHO DE 2019

DAVID COIMBRA

A moça que vende doces para estudar

A Larissa Migotto está vendendo docinhos na Volta do Gasômetro porque precisa, com urgência, juntar US$ 5 mil. Fiquei comovido com sua história, porque os motivos da Larissa são nobilíssimos: tendo estudado apenas em escolas públicas de Porto Alegre, ela foi aprovada para fazer mestrado em SEIS universidades americanas. Trata-se de uma façanha. Só a alcança quem muito se esforça e muito se concentra.

Serão dois anos nos Estados Unidos, com bolsa de estudos integral e até um pequeno salário para as despesas pessoais. Só que o seguro-saúde é por conta dela. Donde, a necessidade dos US$ 5 mil. Donde, a venda dos docinhos.

Imagino que os porto-alegrenses, solidários que são, inteirados da história de Larissa, correrão para o Gasômetro a fim de comprar docinhos com a avidez de chocólatras com síndrome de abstinência. O problema é que estamos falando de US$ 5 mil. O equivalente a R$ 20 mil. Cada unidade custa R$ 1. Ou seja: ela tem de vender 20 mil doces. Se acrescentarmos neste cálculo o preço dos ingredientes, é possível que Larissa tenha de vender? sei lá, 30 mil docinhos.

É improvável que venda tanto. Se conseguir, se transformará na maior doceira da história do Rio Grande do Sul, e aí seria melhor abrir uma confeitaria do que cursar Relações Internacionais, que é o mestrado para o qual ela foi aprovada.

Fico imaginando que algum empresário inteligente e generoso poderia fazer um contrato antecipado com a Larissa: ela ganha os US$ 5 mil e, terminado o mestrado, volta para trabalhar na empresa dele por algum tempo. Algo assim. Mas o ideal seria o Estado patrociná-la. Porque é óbvio que Larissa será uma excelente profissional. Ela está com apenas 22 anos de idade. Depois do curso, terá uma vida inteira para produzir. O lugar em que estiver radicada ganhará com seu trabalho.

Essa é a lógica dos americanos. Não é por acaso que eles financiam estrangeiros para estudar nos Estados Unidos. Eles importam cérebros. Eles querem os competentes por perto.

Quando cheguei a Boston, tive contato com quatro médicos de altíssimo nível no Hospital Dana-Farber: um libanês, um alemão, um italiano e um brasileiro. Americanos, só os enfermeiros. Por que isso? Porque, para eles, não importa de onde vem o profissional. Importa se o profissional é bom.

O bom profissional, além de prestar serviços de excelência, cria, inova, abre espaço para outros profissionais. Ele areja a economia da sociedade da qual faz parte.

Gasto em escolas públicas, como as que frequentou a Larissa, não é gasto: é investimento.

Incentivar futuros profissionais, como os americanos estão fazendo com Larissa, é incentivar o desenvolvimento da própria sociedade.

O Estado do Rio Grande do Sul devia patrocinar Larissa. Devia patrocinar outros talentos promissores. Enquanto isso não é feito, vá ao Gasômetro. O docinho custa só R$ 1.

DAVID COIMBRA

02 DE JULHO DE 2019
ARTIGO

A HORA DO AMANHÃ


Dizemos desde a campanha eleitoral: o Rio Grande do Sul precisa de um projeto de privatização organizado, coerente, capaz de produzir resultados que se projetem no tempo e impactem a vida de todos. Não se trata de vender empresas e ativos apenas para reduzir o peso da máquina pública. Com persistência, defendemos uma privatização planejada, que sinalize novas perspectivas e leve à retomada da nossa energia para investir.

Estamos às vésperas da votação das autorizações para a privatização da CEEE, da Companhia Riograndense de Mineração (CRM) e da Sulgás. No passado, o Estado cumpriu o seu papel ao criar essas companhias, mas a história nos cobra o ingresso em uma nova era. Elas perderam a capacidade de expansão e de atender às demandas dos cidadãos, tornando-se um obstáculo ao progresso e à geração de riqueza.

O que os deputados irão votar, com responsabilidade e autonomia, é uma porta que queremos abrir para o futuro. Se o governo anterior cumpriu um papel importante na condução do tema, ao iniciar a discussão sobre a necessidade de venda das empresas diante do agravamento do quadro fiscal, ao nosso caberá concretizar as operações fundamentais para o reencontro do equilíbrio financeiro.

O dinheiro da venda também irá cumprir um destino anunciado desde o início da nossa gestão: será usado para quitar dívidas provocadas por despesas não honradas no passado. Nenhum centavo será aplicado em gastos de custeio, aqueles do dia a dia da administração. Estamos sendo transparentes e faremos o que determina a legislação, inclusive as regras de adesão ao regime de recuperação fiscal (RRF). Não há margem para malabarismos, manobras e discursos vazios.

As dívidas são uma bola de ferro que limita a nossa mobilidade. Precisamos, sim, vender patrimônio para recuperar a capacidade de investir naquilo que realmente impacta a vida dos gaúchos: mais e melhores serviços de saúde, educação, estradas e segurança. Com a adesão ao RRF e o pagamento das dívidas, o Estado resolve o passado, e essas ações, somadas a outras medidas de reestruturação que serão encaminhadas nos próximos meses, nos colocam em um ciclo promissor para o futuro.

Governador do Rio Grande do Sul - EDUARDO LEITE

02 DE JULHO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

QUESTÃO DE RESPONSABILIDADE



Chegou a hora de mostrar responsabilidade. A Assembleia Legislativa deve votar hoje os projetos de lei que autorizam as privatizações do grupo CEEE, da Companhia Riograndense de Mineração (CRM) e da Sulgás. Dar o aval para o Piratini começar a encaminhar a venda das três companhias é benéfico para o Estado sob vários pontos de vista. Para o governo gaúcho e suas exauridas finanças, significa a entrada de recursos novos. 

Ao mesmo tempo, a alienação das estatais é condição essencial para o Rio Grande do Sul conseguir aderir ao regime de recuperação fiscal da União, que vai postergar o pagamento da dívida com Brasília e ainda possibilitar a obtenção de novos créditos para que o Executivo estadual tenha capacidade de fazer investimentos em áreas prioritárias. É um fôlego essencial para reorganizar as contas de um Estado que, de forma consecutiva, desde fevereiro de 2016, não paga os salários do funcionalismo em dia e conta moedas para gastos básicos em saúde, educação, segurança e projetos de infraestrutura.

Sob gestão privada, as empresas passarão a ser mais eficientes e a atender melhor seus clientes. Para o governo, significa ainda um ponto final nos custos e passivos que geram, especialmente no caso da CEEE, onde ainda há risco do prejuízo maior, que seria a perda da concessão. Caçula do trio, a Sulgás é lucrativa, mas carece de um poder maior de investimento para melhor suprir as necessidades da economia gaúcha. O fornecimento de gás, hoje, praticamente se limita à Região Metropolitana e à Serra, mas a demanda é bem mais ampla. Nem a companhia, nem o Estado, sócio majoritário, têm hoje recursos para esta empreitada. Minoritária, a Petrobras também quer sair do negócio.

São estatais que tiveram importante papel no Rio Grande do Sul. Na construção de usinas, na missão de levar energia a todos os cantos do território, no impulso à exploração do carvão mineral, grande riqueza do subsolo gaúcho, e na tarefa de desbravar a distribuição de gás natural. Mas chegou a hora de passar o bastão.

É preciso lembrar ainda o compromisso do Piratini, a ser fiscalizado, de não utilizar os recursos da venda das empresas para despesas correntes, a não ser dívidas de custeio. Afinal, o imenso passivo do Estado é a grande fonte da asfixia financeira. O governador Eduardo Leite também reiterou ontem que não cogita a hipótese de privatizar o Banrisul e que se esforça para mostrar ao governo federal que não é indispensável vender o banco.

O quadro é grave e o momento é decisivo. Nesta encruzilhada, espera-se que o parlamento gaúcho não se deixe levar pela pressão de interesses corporativos minoritários, mas barulhentos e organizados. E vote mirando a perspectiva de um Estado que possa, no futuro, servir de forma digna à maioria dos gaúchos, especialmente àqueles que mais necessitam do poder público.

OPINIÃO DA RBS

02 DE JULHO DE 2019
EM DIA

A GESTÃO NA EDUCAÇÃO


Hoje em dia, temos de ser eternos alunos, porque vivemos muito mais, e as coisas mudam a toda hora. É questão de sobrevivência. Só há uma saída: dispor-se a aprender! Em outra época, fui professor, por 12 anos, no secundário (Colégio São João) e no Ensino Superior (UFRGS). Procuro ser eterno aluno e cliente da educação. Conheço processos educacionais de vários lugares do mundo, excelentes para o aumento do conhecimento e que proporcionam vida melhor, com mais qualidade e cultura. Infelizmente, a educação no Brasil, em todos os níveis, é  ruim. Isto é um fato. Existem exceções notáveis, mas insuficientes para se dizer que temos algum exemplo de ponta no mundo.

O processo de educar, fora da família, é um processo de execução de um serviço complementar. Escolas são organizações como quaisquer outras, diferenciadas apenas pelo seu tipo de atividade. No Brasil, a responsabilidade do governo é enorme nestes processos, e o Ministério da Educação e Cultura (MEC) está à frente disto. Existem críticas no momento que sugerem que quem não foi educador não deveria ter lugar na administração do MEC, ou em secretarias de Estado, ou em universidades, ou em escolas. 

Há um grande erro neste paradigma. Mais certo seria que quem não entende de gestão nunca deveria dirigir uma organização e, principalmente, uma incumbida no complexo processo de educar crianças ou pessoas. Obviamente, o conhecimento pedagógico e de conteúdo é um fundamento, mas deve ser considerado como recurso fundamental a ser administrado, composto com outros como os ativos fixos, os orçamentos e a satisfação da sociedade.

A avaliação de qualquer organização está vinculada à qualidade do serviço prestado ou ao produto entregue ao cliente. Os principais fatores desta qualidade são o custo (no Brasil, elegemos, por constituição, oferecer o ensino gratuito, portanto, este é ponto de excelência teórica) e a funcionalidade do processo, ou seja, ao fim do mesmo deve ocorrer o real aprendizado. Pelos resultados de hoje, a gestão da educação foi e é medíocre. Condenar o MEC por estar se armando de gestores, além de educadores, é premeditar crítica a uma ação das mais necessárias: gerir bem as organizações de educação para obter melhores resultados.

CEO do Grupo Parit S/A @Ric_Felizzola - RICARDO FELIZZOLA

segunda-feira, 1 de julho de 2019



01 DE JULHO DE 2019

DAVID COIMBRA


"Toy Story 4" e Rudyard Kipling


Rudyard Kipling foi um inglês que escreveu coisas muito bonitas, entre elas Se, um poema que talvez seja o mais emocionante da história da literatura. Cada verso era um conselho de vida para seu filho de 12 anos de idade. Mas o menino talvez não tenha podido aproveitar a sabedoria do pai - seis anos depois, ele morreu na Primeira Guerra Mundial.

Kipling começa a poesia assim:

"Se és capaz de manter a tua calma quando

Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;

De crer em ti quando estão todos duvidando,

E para esses no entanto achar uma desculpa;

Se és capaz de esperar sem te desesperares,

Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,

Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,

E não parecer bom demais, nem pretensioso?".

Assim se segue, lindo, lindo, até o final impactante. Procure no Google, que o Google tudo tem.

Hoje, Kipling é mais conhecido por ter sido o autor de O Livro da Selva, que conta a história de Mogli, o menino-lobo. Mas ele fez muito mais, tendo, inclusive, recebido o Prêmio Nobel de Literatura.

Porém, houve quem o criticasse, e quem o critica ainda. É que uma parte da produção de Kipling, se for analisada debaixo de conceitos modernos, parecerá repugnantemente racista. Ele era um defensor do império britânico como uma espécie de instrumento civilizador da Humanidade. Quando o império começou a mostrar sinais de decadência, que acabaria em decrepitude ao fim da Segunda Guerra Mundial, Kipling escreveu uma poesia instando para que os Estados Unidos assumissem a tarefa civilizatória:

"Toma o fardo do homem branco

Envia os melhores que criaste

Vai, condena teus filhos a, no exílio,

Atender às necessidades de teus cativos

A servir, com pesado arreio,

Um inquieto povo, e selvagem

Teus recém-conquistados povos escuros

Metade demônio, metade criança

Assume o fardo do homem branco

E colhe a recompensa de sempre:

A censura dos que melhoras

O ódio dos que proteges".

O fardo do homem branco! Mesmo sendo um homem sensível e inteligente, Kipling acreditava nesse conceito que, hoje, seria classificado como asqueroso.

Nem todos os homens de gênio conseguem ultrapassar as fronteiras de seu tempo. Ou, se ultrapassam algumas, em outras se detêm com gosto. Kipling era apaixonado pela crença de que o império britânico era uma ferramenta iluminista, como alguns intelectuais de hoje são apaixonados pela crença de que populistas (de esquerda ou de direita) são capazes de resolver os problemas de uma nação.

Mas numa ideia ele estava certo: os Estados Unidos tomaram o lugar da Inglaterra. Mas não como imperialismo nominal, por meio de conquistas territoriais, e sim pelo poder do comércio e da cultura.

O cinema faz pelos Estados Unidos o que a metralhadora Maxim fez pela Inglaterra. Era aonde queria chegar desde o início. Porque assisti, neste fim de semana, a Toy Story 4. Já vi os outros três filmes da série e gostei de todos. Do quarto também. E não assisti casualmente, porque meu filho queria ir. Nada disso. A Marcinha disse:

- Eu vou com o Bernardo ao cinema se tu preferir fazer outra coisa.

- Imagina! - respondi. - Capaz que vou perder Toy Story!

Fomos os três. E foi ótimo. Saí do cinema mais leve do que quando entrei, me perguntando: "Como é que eles conseguem?". Um filme desses, como tudo o que a Disney faz, trabalha só com a imaginação, e de mais não precisa. Nós é que estamos precisando de mais fantasia, nesse mundo árido das opiniões definitivas.

Há boas bobagens na vida, há piadas que são apenas piadas. Pode rir sem culpa. A realidade continuará lá e o sonho só vai tornar mais ágil o pensamento. Como disse Kipling a seu filho:

"Se és capaz de pensar - sem que a só isso te atires,

De sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.

Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires

Tratar da mesma forma a esses dois impostores?

(...)

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes

E, entre reis, não perder a naturalidade,

E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,

Se a todos podes ser de alguma utilidade,

E se és capaz de dar, segundo por segundo,

Ao minuto fatal todo o valor e brilho,

Tua é a terra com tudo o que existe no mundo

E o que mais - tu serás um homem, meu filho!".

DAVID COIMBRA


Cinco anos depois, sete vexames internacionais piores do que o 7x1

De tráfico de drogas a pitos de líderes mundiais, sete fatos da semana que constrangeram os brasileiros diante do mundo

01/07/2019 - 06h00min - Atualizada em 01/07/2019 - 06h00min
Claudia Laitano

Marten van Dijl / Greenpeace
"Quando agimos de forma inconsequente com relação à Amazônia estamos falando de estragos que podem ser irreversíveis e ter efeitos globais"

Ouvi, mas não vi, o Brasil ser goleado pela Alemanha naquele 8 de julho de 2014. Estava em casa, me ocupando de qualquer coisa que acontecia longe de uma televisão ligada, quando o ensurdecedor silêncio da torcida entrou pela janela. Não era o impacto de uma derrota comum, logo vi, mas o torpor diante de uma humilhação de proporções mitológicas.

Narrativas míticas sobrevivem porque dão forma a nossos medos mais profundos. Nesse sentido, o 7x1 renovou e ampliou a mitologia do "complexo de vira-latas" – expressão criada por Nelson Rodrigues depois da derrota de 1950 no Maracanã. Uma coisa é se sentir meio cusco na vida (quem nunca), outra é ver seu focinho desenxabido estampado em todos os jornais do mundo.


Não há sensação mais aderente às nossas fantasias de inferioridade do que a ideia de sermos publicamente flagrados em nossa incompetência ou pretensão. Minha estratégia para enfrentar situações potencialmente humilhantes sempre foi a de tentar me convencer de que ninguém está tão interessado no meu fracasso quanto eu mesma. Um erro, um deslize, uma fraqueza de caráter, falhas capazes de me cobrir de vergonha e constrangimento, em geral têm bem menos importância para os outros. Foi como elaborei o 7x1: amanhã, ninguém lembra mais. Além do mais, é só futebol, e ao menos no futebol nada é definitivo – nem as glórias, nem os vexames.

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Scorsese misturou verdades e mentiras no momento errado

Scorsese misturou verdades e mentiras no momento errado. Os 50 anos de uma revolução que ainda não terminou 

Na semana passada, voltamos a ser o cusco do mundo, e não por motivos esportivos. O Brasil de verdade, aquele que também ganha uma chance de redenção a cada quatro anos, amargou sete vexames de repercussão internacional, um para cada gol feito pela Alemanha. 

1) Na Espanha, um militar que viajava no avião da FAB que acompanhava o presidente Bolsonaro foi preso com 39 quilos de cocaína. 

2) Nos EUA, novas orientações da diplomacia brasileira, alinhadas aos países mais retrógrados do mundo, causaram constrangimento na ONU entre os civilizados. 

3) Na Alemanha, o Brasil levou um pito da chanceler Angela Merkel. 

4) No Japão, Emmanuel Macron disse que a França não vai assinar nenhum acordo comercial conosco caso o presidente Bolsonaro saia do acordo climático de Paris. 

5) Na Holanda, um dos pontos turísticos mais importantes de Amsterdã virou um gigantesco apelo pela proteção da Amazônia. 

6) Em Brasília, uma comissão especial da Câmara derrubou restrições à aprovação e uso de agrotóxicos, incluindo os mais perigosos, banidos na maior parte dos países. 

7) Ainda no Japão, o ministro Augusto Heleno (do Gabinete de Segurança Institucional) mandou os países que criticam a nova (falta de) política ambiental do Brasil "procurarem sua turma".

Na origem desse emaranhado de vexames, misturam-se ideologia, incompetência, desinformação, má-fé. Cada um desses atributos deve causar danos de maior ou menor impacto em diferentes setores do país nos próximos anos, mas quando agimos de forma inconsequente com relação à Amazônia estamos falando de estragos que podem ser irreversíveis e ter efeitos globais. Nesse caso, não se trata mais de uma competição entre países para ver quem é o melhor. Somos todos do mesmo time, e a bola está conosco. Para sermos vira-latas, ou não.

01 DE JULHO DE 2019
ARTIGOS

INSEGURANÇA JURÍDICA

É duro não saber o que fazer ante prejuízos, injustiças e desmandos. Não poder confiar nas instituições e sentir-se abandonado ante uma demanda, tudo isso é jogo muito duro de ser jogado. Quando a legalidade está confusa  e contraditória, invade-nos o sentimento de insegurança jurídica, que pode nos deixar atemorizados ante a realidade do cotidiano.

Pois é o que nosso país está experimentando por esses dias. Promulgada a emenda constitucional de número 100, percebe- se o cenário de incertezas em que vivemos. Os parlamentares estabeleceram o orçamento impositivo, pela centésima emenda à Constituição, assegurando que as mudanças oferecidas à legislação orçamentária serão fielmente cumpridas, o que resguarda o interesse de deputados e senadores ante suas comunidades, destinatárias dos recursos providenciados por seus representantes no Congresso. Uma centena de emendas é muita coisa. É outra Constituição dentro da própria, a original, promulgada há 30 anos.

E o que dizer da facilidade com que age o Executivo, valendo-se de medidas provisórias e decretos? No caso das armas, que tem um estatuto em vigor, já houve publicação de decretos presidenciais inserindo e depois revogando dispositivos que alteram e contrariam a lei. A saída é encaminhar projetos de leis ao parlamento. Respeitado o devido processo legislativo, que venha uma nova lei, votada e concluída na Câmara e no Senado. Há que ser respeitada a hierarquia das leis. Assim, um decreto não pode contrariar uma lei ordinária.

Todos temos direito à segurança jurídica, garantida pelo ordenamento jurídico e pelas instituições. Impraticável é viver em um ambiente de hostilidade, o que acaba ocorrendo justamente pelos tropeços que o confuso arsenal normativo nos impõe. E, se ainda fosse pouco, também assusta o casuísmo nos tribunais. Vive-se um tempo de alteração frequente da jurisprudência, o que exige atualizações repetidas vezes, bem como se presta o momento à indispensável uniformização das decisões judiciais. Só então sentiremos a segurança que buscamos.

CLÁUDIO BRITO

01 DE JULHO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

O PÓS-ACORDO COM A UNIÃO EUROPEIA

A assinatura do tratado de livre-comércio deve servir de oportunidade para o Brasil acelerar as reformas estruturais que tornem o país mais competitivo

Mesmo que um longo caminho ainda precise ser percorrido para a sua implementação, deve ser enaltecido como um marco histórico o acordo de livre-comércio assinado entre Mercosul e União Europeia. Afinal, foram 20 delongados anos, com avanços e recuos, até o pacto ser firmado e, enfim, acenar com todas as vantagens econômicas próprias da liberalização das trocas entre os dois blocos, que somam 25% do PIB global e 750 milhões de habitantes.

Não será por um passe de mágica que todos os benefícios anunciados começarão a se materializar. Além da aprovação pelos respectivos conselhos, é necessário o aval do parlamento de cada nação, palco das pressões de setores que se sentirão prejudicados. Esse intervalo, portanto, deve servir de oportunidade para o Brasil acelerar as reformas estruturais que tornem o país mais competitivo. 

A grande vantagem do acordo, em tese, é o acesso facilitado ao exigente mercado Europeu, com a eliminação ou diminuição de tarifas. Mas, castigada por anos de crise, um sistema de impostos irracional e uma infraestrutura caótica, a indústria nacional, especialmente, carece de competitividade para aproveitar essas oportunidades de forma plena. Ao mesmo tempo, a porta também estará mais aberta para itens europeus em países vizinhos - para onde o Brasil consegue exportar - e no próprio mercado doméstico.

O acordo com a União Europeia, portanto, impõe a responsabilidade de dar celeridade à reforma tributária. A revisão do sistema de impostos, rumo a uma necessária simplificação, é tarefa para logo e é algo que, pelo andar da carruagem, será mais uma tarefa capitaneada pelo Congresso, após vencida a batalha pela Previdência. Ao mesmo tempo, cabe ao Planalto imprimir novo ritmo ao programa de privatizações e concessões, principalmente em infraestrutura.

Mesmo que de forma gradual e cautelosa, é hora de o Brasil partir para uma abertura comercial mais ampla. É um passo essencial para a modernizar o país. Não quer dizer que setores sensíveis sejam abandonados à própria sorte. É preciso observar peculiaridades de segmentos onde a assimetria tributária é grande, como nos vinhos. A atividade, um dos símbolos do Estado, sofre com a alta carga tributária. O produto europeu, por sua vez, é competitivo e, pelo acordo, chegará mais barato ao consumidor brasileiro.

O bom termo a que chegaram o Mercosul e a União Europeia também simboliza uma brisa de esperança em uma época de ventos protecionistas e unilateralistas. Significa ainda uma escudo para os estilhaços da guerra comercial entre Estados Unidos e China. O compromisso arrancado pela União Europeia de que o Brasil permanecerá nos acordos relacionados ao ambiente é bom para o país e para o mundo. E, por fim, é um tratado que rompe com o isolamento do Mercosul. Novos acordos serão bem-vindos.


01 DE JULHO DE 2019
EM  DIA

INOVAÇÃO NA EDUCAÇÃO

Vivenciamos, recentemente, duas notícias positivas e motivadoras. Uma de Brasília, onde há 19 anos nasceu o estudante mais jovem do mundo a entrar num mestrado em Direito, em Harvard, nos Estados Unidos, instituição conhecida pelo seu rigoroso processo seletivo. A conquista se deu,também,porque o estudante se destacou no ano passado pela sua sustentação oral em um processo no Supremo Tribunal Federal.

Outro exemplo é fruto da criatividade e do esforço individual de um professor de matemática da Escola Municipal de Ensino Fundamental Dom Diogo de Souza, de Viamão, que pensou diferente. Ele inovou ao incentivar a inclusão do jogo de xadrez como disciplina regular, o que comprova que inovação não está, necessariamente, ligada à tecnologia, mas a atitudes simples. Com o maior interesse e concentração ocasionados pelo xadrez, as notas melhoraram, a evasão escolar caiu para 5% e cresceu o Índice de Desenvolvimento Escolar Básico (Ideb).

Dois casos e duas enormes inspirações que servem para tentar reverter o cenário da educação brasileira, crucial para o desenvolvimento de qualquer país, que pode mudar a partir de iniciativas não necessariamente públicas. Dados do IBGE mostram que o Brasil retrocedeu em seu Plano Nacional de Educação, que previa erradicar o analfabetismo até 2015. Quatro anos depois, permanece com a triste marca de 11 milhões de analfabetos.

Não basta discutir o corte de orçamento na educação. Por imposição do mercado, é preciso inovar e romper com os modelos tradicionais de ensino para alcançar um diferencial competitivo. As startups mostram este desafio de reaprender constantemente. Já não se aprende somente em cursos. Houve inversão de critérios de seleção e o modelo 70/20/10 insere-se nas organizações, em que 70% do aprendizado vem de experiências próprias, 20% do aprendizado com os outros e apenas 10% origina-se de cursos tradicionais.

É a vida real se impondo. As estatísticas de criminalidade são alertas para que algo seja feito para mudar o destino de muitos por meio do poder da educação. E que sirvam de reflexão aos gestores sobre a política educacional para que o Brasil retome o caminho do desenvolvimento. Que as histórias reais de Viamão e de Brasília, além de tantas outras, sejam referências perseguidas com muita seriedade. Há talentos e gente capaz de inovar com ou sem tecnologia. Gente que faz e que ajuda a construir uma sociedade mais próspera e menos desigual.

Presidente das Empresas Randon - DANIEL R. RANDON


01 DE JULHO DE 2019
ECONOMIA

EQUILIBRAR CONTAS É DESAFIO NA PRIVATIZAÇÃO DA TRENSURB

GOVERNO deseja repassar empresa à iniciativa privada, mas analistas veem desafio para atrair interessados

O possível repasse das operações da Trensurb à iniciativa privada recebe elogios de analistas do setor de transportes, mas, ao mesmo tempo, desperta série de incertezas. Para avançar, o projeto depende da capacidade do governo federal de torná-lo sustentável financeiramente a investidores, sem provocar disparada nas tarifas cobradas dos usuários. Desde sua criação, na década de 1980, a estatal acumula prejuízos e nunca conseguiu, com receitas próprias, cobrir a totalidade de seus custos.

Diariamente, os trens da companhia transportam passageiros entre Porto Alegre e Novo Hamburgo ao longo de uma única linha de 43,8 quilômetros. O desejo do governo Jair Bolsonaro de repassar o serviço à iniciativa privada foi formalizado no dia 24, em publicação no Diário Oficial. O texto prevê que o edital seja conhecido no primeiro semestre de 2021 e que o leilão ocorra entre julho e dezembro.

Mesmo com a divulgação dos prazos, o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, sinalizou que o governo dará prioridade a privatizações em áreas como a de óleo e gás, deixando o projeto da Trensurb para trás na fila. A declaração foi dada à colunista de ZH Carolina Bahia:

- Está colocado entre as possibilidades, mas, até ser colocado na proposta de privatização, vai um mundo aí. Tem muito mais coisas na frente disso. Esse sistema é público no mundo. Pelos próximos anos, não há possibilidade de privatização.

Em 2018, a Trensurb amargou prejuízo bruto de R$ 103,9 milhões, 20,2% menor do que o apurado em 2017 (R$ 130,1 mi- lhões). No mesmo período, registrou alta de 64% nas subvenções do Tesouro Nacional, para R$ 286,4 milhões. Isso significa que a companhia dependeu mais das transferências federais para manter suas atividades.

- Vejo com bons olhos a intenção do governo de buscar uma solução para os problemas. Mas uma coisa é querer entregar um ativo ao mercado, e outra é o mercado realmente se interessar pela oferta. É preciso aguardar a modelagem do edital para ver se a proposta será atrativa ou não - observa Paulo Menzel, vice-presidente para a Região Sul da Associação Brasileira de Logística (Abralog).

Ao confirmar que nunca cobriu seus custos com receitas próprias, a Trensurb relata, em nota, que "não foi criada com o objetivo de dar lucro". Na visão da estatal, sua meta é "contribuir na mobilidade urbana da Região Metropolitana", com benefícios indiretos como a baixa na emissão de poluentes por veículos rodoviários.

Desde 2015, a companhia tem queda no número de passageiros. No ano passado, os trens da estatal transportaram 51,8 milhões de usuários, baixa de 6% em relação a 2017. Ou seja, 3,3 milhões de passageiros deixaram de utilizar o serviço no período.

Uma das razões apontadas para o movimento menor é a alta da tarifa. Depois de 10 anos sem reajuste, o preço do bilhete quase dobrou em janeiro de 2018, de R$ 1,70 para R$ 3,30. No último mês de março, houve novo avanço, para R$ 4,20.

Luis Henrique Chagas, presidente do Sindimetrô-RS, que representa os metroviários, diz ver com "tristeza e preocupação" o eventual repasse da operação à iniciativa privada. Para o sindicalista, a mudança, se confirmada, deverá resultar no aumento na tarifa e poderá colocar empregos em xeque. Hoje, a estatal tem 1,1 mil funcionários:

- Mais um pedaço do patrimônio público será entregue. O serviço não terá melhora com a iniciativa privadas.

ESTUDO DEVE INDICAR PROCESSO DE CONCESSÃO OU PRIVATIZAÇÃO

Antes de lançar o edital, o governo escolheu o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para auxiliar na criação de estudo de viabilidade técnica. O secretário de Coordenação de Obras Estratégicas e Fomento, José Carlos Medaglia, do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), evita estimar a data para o término da análise. Natural de Porto Alegre, Medaglia argumenta que o projeto tem a finalidade de melhorar a qualidade do serviço prestado à população, com "preços acessíveis".

- Não vejo motivo para a população ficar apreensiva com a tarifa. Em um programa como este, a boa regulação garantirá a condução segura do processo, sem exageros. Precisamos copiar modelos que deram certo e não insistir em teimosias que deram errado - pontua Medaglia.

O secretário acrescenta que o estudo definirá se o processo será somente de concessão do serviço da Trensurb a investidores, por tempo determinado, ou se envolverá a privatização total da empresa. A segunda opção poderia resultar na venda de ativos como os trens:

- Normalmente, estações são pontos de grande fluxo de pessoas. São locais vocacionados para ter comércio, serviços, shopping centers. Isso tem grande potencial de gerar receitas extraordinárias para os investidores - ressalta Medaglia.

LEONARDO VIECELI

sábado, 29 de junho de 2019



29 DE JUNHO DE 2019
LYA LUFT

Uma insensata rosa

Por que não começar citando Borges: "Por que brota de mim - quando o corpo repousa e a alma fica a sós - esta insensata rosa?".

Talvez seja uma boa resposta - ou proposição de novo enigma - para a pergunta tão comum sobre a inspiração. De onde ela vem? Como aparece, de que lugar obscuro emerge, ou cairá dos céus?

Nunca encontrei resposta certa, mas essa frase de Borges me parece adequada. Não sabemos a resposta, eu não sei, talvez não haja. O termo "inspiração" já desperta alguma suspeita de quem trabalha com arte, seja ela qual for: música, pintura, escultura, literatura, teatro, dança, não importa. Pois nem sempre estamos bem dispostos (alguém diria "inspirados"), mas em geral temos de prosseguir no trabalho. 

Há trabalhos que precisam ser feitos, mesmo tratando-se de arte, um pouco mais complexa do que engenharia, economia e outros - ou não -, ainda que não tenham nos dado duros prazos, ou prazo algum. Posso parar por algumas horas, dias, e - pelos muitos anos de experiência - sei que, se for bom para meu livro, a vontade, o encantamento, a palavra ou frase, o personagem, voltarão no lugar certo, na hora certa.

Mas não há garantias, é sempre um passeio à beira do abismo.

Gosto de emprestar, nesse assunto, o episódio descrito por Marguerite Yourcenar: ela escrevia um texto, absorta, sobre a morte de Zenon, para seu livro, quando chega o encanador para consertar algo na pia. Marguerite levanta, ele entra, conversam um pouco, ele faz seu trabalho, ela paga, ele senta a convite dela e conversam mais um pouco. Yourcenar e sua companheira moram num lugar remoto, nevava lá fora, e o trabalho do encanador era importante. Ela lhe oferece café e o pão que tinha assado naquela manhã.

E, quando o encanador se vai, diz ela, maravilhosamente: "A morte de Zenon continuava lá, à minha espera". A frase dela me parece gloriosa e verdadeira, e nos dispensa, a nós artistas, de dar com muita facilidade essa desculpa "não me veio inspiração". Acho fácil demais, preguiçosa demais, simples demais, essa explicação. Em geral, não ficamos aéreos aguardando que algo suba de nossas entranhas ou desça das nuvens, a não ser em alguns necessários e meio inexplicáveis momentos. Além disso, falo por mim, pois cada escritor, ou outro artista, tem seu jeito, suas maneiras, recursos, hábitos e chatices.

O que funciona é um encantamento com uma palavra, um rosto, um drama, um fato qualquer. E aquela criatura, humana ou não, começa a ter corpo, sofrimentos, felicidades: e a gente se apaixona, e inventa uma paisagem interior, talvez também externa - e escreve.

E trabalha: arte é trabalho, às vezes duro, exaustivo, que nos exalta ou abate, em que acreditamos ou desacreditamos, mas - operários que somos - continuamos a exercer. Queremos a frase melhor, a curva melhor, o som mais precioso, o gesto mais expressivo, ainda que nos pareça, muitas vezes, nosso absoluto fracasso e total ruína.

Além da dura lida, importa, sim, aquela insensata rosa que desabrocha quando menos esperamos: além dos ruídos, das tristezas, das euforias, e das cotidianas chateações. Inspiração, quem sabe, existe.

LYA LUFT

29 DE JUNHO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Jejum salva


Milhões de pessoas ainda sentem fome neste país, porém outros tantos milhões comem e ainda ficam acima do peso ideal. A fórmula para manter a boa forma não é segredo: alimentação balanceada + exercícios físicos. Mas, como se sabe, nada é tão simples, e mesmo quem não é gordo costuma penar para perder os famosos dois quilinhos extras - meu caso. Troquei o suco de laranja pelo suco de uva integral, tento evitar pão branco, procuro comer mais frutas e verduras, enfim, medidas paliativas que a gente adere quando o caso não é grave.

No momento, ando atraída pelo novo queridinho de quem ama dietas: o jejum intermitente, que consiste em passar 12, 14, 16 horas sem ingerir nada além de água. Não adote este jejum sem consultar antes um especialista. Estou trazendo o assunto porque sou das que acreditam que o corpo armazena nutrientes suficientes para manter nossa energia, mesmo sem a gente se alimentar por um longo período (volto a dizer, converse com um profissional) e também porque o tema serve de gancho para discutirmos outro jejum, e esse qualquer um pode começar agora mesmo. É o jejum existencial. Não para ficar magro, e sim para ficar leve.

As pessoas se empanturram de encrencas, sem levar em conta a inteligência emocional. Já ouviram falar vagamente a respeito, acham que todo mundo é beneficiado por ela, mas, na prática, continuam investindo no autoboicote, e dá-lhe vida pesada. Jejum é a solução. Jejum salva.

Passe 12, 14, 16 horas sem pensar que estão te perseguindo, sem fazer fofoca dos outros, sem criar confusão, sem levantar a voz, sem acreditar que é mais sabido que os demais, sem achar que o mundo lhe deve favores e reverências, sem chatear a humanidade. O que é um chato? Cada um tem uma definição. 

A minha: é aquele que acha que todos estão interessados no que, na verdade, só a ele interessa. Então, corte as minúcias, corte o egocentrismo, corte a soberba, corte a desconfiança, corte a brutalidade, corte a deselegância, corte a impaciência, corte a arrogância. O que sobra? Um cara querido, uma garota fácil de lidar, gente bem-humorada sem nariz empinado. O que sustenta essa gente? A autoestima. Ninguém precisa ser grosso para ser visto. Ninguém precisa ser exibido para ser amado.

Corte queixas, implicâncias e a tendência a rugir por besteiras. Não seja o terror das reuniões, o namorado estressado das festas, a sobrinha que faz longos discursos durante o churrasco, a vítima de sempre no grupo de WhatsApp, o magoado eterno. Evite colocações inoportunas e não procure cabelo em ovo. Que ovo? Jejum! Por 12, 14, 16 horas seguidas, não crie caso. Duas vezes por semana, procure não ser tão pessimista, alarmista, ranzinza. Deixe o celular carregando em casa e vá dar uma volta a pé no quarteirão para descarregar-se. Emagrecer é difícil, perder peso não é.

MARTHA MEDEIROS


29 DE JUNHO DE 2019
CARPINEJAR

O x da questão

O gaúcho é apaixonado por pão. O churrasco apenas tem sentido com pão de alho. Quem é de fora não vai entender. Sem a entrada, o sabor da picanha se esvai, a costela não tem a mesma realeza.

O pão de alho não é um acessório, mas um protagonista da churrasqueira, um familiar gastronômico tão importante quanto o salsichão. Não há como dispensá-lo da tertúlia dos espetos. Sua ausência provocará imediato boicote e sucessivas vaias.

Gaúcho molha o pão na sopa, molha o pão no café com leite, molha o pão na massa para limpar a porcelana, molha o pão na feijoada para pescar o baio.

O pão é um segundo garfo. Um talher de nossa ansiedade. Tanto que existe a tradição imperiosa do xis nos pampas. Em vez do hambúrguer, priorizamos esse banquete portátil.

É colocar tudo dentro do pão e prensar. É a principal refeição das madrugadas gaudérias quando os restaurantes estão fechados.

Quem já não saiu de uma festa ou de um jogo de futebol ou de um show e foi matar a fome num trailer de sua preferência? Se não fez isso ainda, não pode ser chamado de gaúcho.

O xis é um PF (prato feito) no pão. Um prato de caminhoneiro no pão. Um prato de estivador no pão. É o equivalente ao tropeiro mineiro, só que condicionado entre duas fatias.

Trata-se de uma variação escandalosa do portenho choripán. Uma dissidência carnavalesca e carregada de elementos da versão econômica de nossos co-irmãos.

O mais conhecido é o salada: carne, ovo, tomate, alface, maionese, milho. Mas pode homenagear todos os menus, de strogonoff com batata palha a lasanha com camadas de queijo e presunto.

Num mero sanduíche, repete-se as etapas de um rodízio de carne. Assim o vivente tem a oportunidade de comer um x-coração ou um x-lombo e sentir de volta o gostinho do fogo de chão no céu da boca.

A mordida requer malabarismo. Não se deve mastigar de qualquer jeito para não desmoronar a obra de arte. Os incautos correm o risco de perder o recheio na primeira dentada. Os joelhos necessitam de afastamento, os braços pedem a posição concentrada de mesa, e, de modo nenhum, recomenda-se virar os olhos para o lado. Apreciá-lo depende essencialmente de foco: não dá para conversar e comer ao mesmo tempo. O alimento é muito sensível ao deslizamento.

Quando alguém devora um xis, a sensação é que ele está rezando. Agradecendo a Deus por morar no Rio Grande do Sul.

CARPINEJAR