sexta-feira, 28 de junho de 2019


28 DE JUNHO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

QUANDO MORREM POLICIAIS

Em poucas ocasiões a sociedade gaúcha experimenta momentos mais trágicos do que quando servidores que colocam suas vidas em risco para proteger a população são mortos em plena ação. É dever, portanto, de todo o Rio Grande do Sul, prestar solidariedade e apoio às famílias dos PMs Rodrigo da Silva Seixas, 32 anos, e Marcelo de Fraga Feijó, 30 anos, aos colegas e à corporação da Brigada Militar, uma das instituições justificadamente mais respeitadas e reconhecidas do Estado. Os dois tombaram após tiroteio com criminosos na zona leste de Porto Alegre, na noite de quarta-feira. Quando um policial morre, não só suas famílias e a polícia são enlutadas: é como se toda a sociedade sofresse com o crime cometido contra exatamente quem tem por missão assegurar a tranquilidade e o cumprimento da lei.

Em todo o mundo, o risco é adjacente à atividade policial, mas no Brasil se vive uma situação-limite. No ano passado, mais de 300 policiais foram mortos no cumprimento do dever, o que coloca o Brasil em mais um triste recorde internacional. Nas ruas de grandes e pequenas cidades, trava-se uma guerra civil a conta-gotas, na qual as forças públicas são especialmente vulneráveis não só por estarem na linha de frente do combate ao crime, mas por seus componentes serem executados quando identificados por sua atividade. No Rio Grande do Sul, onde a polícia desfruta historicamente de um alto nível de credibilidade, a morte de um policial é um golpe em cada cidadão gaúcho que anda ao lado da lei, além de motivo para reflexão profunda sobre como a criminalidade deve ser contida e combatida.

Um dos aspectos fundamentais para se reverter essa situação é o desmantelamento das facções criminosas, uma perversa combinação de crime e empresa destinada a enfrentar as forças da lei e o poder do Estado. Ações como afastar os líderes de suas bases no Rio Grande do Sul foram um passo importante e deveriam ser mantidas pelo Judiciário, mas é preciso muito mais, a começar pela efetiva separação dos criminosos por grau de periculosidade. O Estado - e aqui entenda-se todos os poderes - deveria se unir e buscar uma solução definitiva para os presídios. Prender, julgar e manter presos os criminosos perigosos é o primeiro passo para se atacar a sensação de que o crime pode compensar seus riscos.

Muito se tem avançado nos últimos anos para devolver o Estado a um patamar aceitável de segurança - e os números da queda da criminalidade são um alento para quem tem a responsabilidade de conduzir as políticas públicas. Mas é preciso ir muito além. É incompreensível, por exemplo, que até agora não esteja em pleno vigor a nova Lei da Segurança, capaz de oferecer um rápido e eficaz reequipamento das polícias, e que não haja um arrojado plano de revitalização e construção de presídios, com apoio de todos os poderes, das prefeituras e da sociedade. A morte dos dois policiais, além de ser motivo de solidariedade e de luto, serve de alerta para o Rio Grande do Sul. A criminalidade não pode e nunca irá vencer os gaúchos.

OPINIÃO DA RBS

28 DE JUNHO DE 2019
INDICADORES

Inovação além da primeira impressão

Semana passada, GaúchaZH produziu um especial sobre inovação em Porto Alegre e no Vale do Sinos. Trabalho louvável do repórter Erik Farina e equipe. Muitas vezes, aquilo que pode salvar nosso futuro está debaixo dos nossos narizes, mas não enxergamos. Todo esforço para reconhecer aquilo que emerge perto de casa merece aplausos.

Em 2010, fundei, com outros jovens profissionais, a Semente Negócios, empresa pioneira em trazer conceitos como lean startup e customer development para o Brasil. Depois, levamos essas ferramentas para mercados pouco habituados à mentalidade de startup, como o interior do Pará e o setor de educação. Hoje, tenho entre minhas atividades profissionais uma posição na Startup Heatmap, uma organização internacional pioneira em mapear ecossistemas de startups. Mapear inovação é, portanto, minha paixão e, também, minha profissão.

Uma das coisas que aprendi é que a relação entre inovação e território é bem diferente daquilo que vemos a olho nu. Não é porque tem uma incubadora, aceleradora ou coworking em um determinado local que haverá inovação acontecendo ali. Infelizmente - e esse é um problema mundial - muitas dessas organizações de apoio não materializam comunidades reais de empreendedores. Frequentemente, são apenas infraestruturas pouco utilizadas ou que sediam organizações que pouco fazem de transformador.

Uma das melhores maneiras de antecipar o surgimento de inovações é mensurar conexões e interações nessas comunidades de rebeldes. Na Europa, nossa pesquisa descobriu que mais de 60% das startups têm laços fundamentais fora do país- sede: investidores, grandes clientes, equipe, entidade jurídica. Isso nos levou a desafiar algumas políticas nacionais e regionais que buscam reter empreendedores e startups no território. Hoje, temos cinco governos, além de fundações privadas e fundos de investimento, que abraçam um olhar mais quantitativo sobre esses acontecimentos.

Outro fator importante é o temporal. Quanto tempo leva, em média, para uma startup porto- alegrense conseguir sentar com um investidor- anjo? Qual o intervalo entre a entrada em uma aceleradora e o recebimento de uma próxima rodada de investimento? Quanto tempo até a primeira receita recorrente? São métricas como essas que precisamos observar se quisermos entender o fenômeno da inovação para além da primeira impressão.

IGOR OLIVEIRA

quinta-feira, 27 de junho de 2019


27 DE JUNHO DE 2019
DAVID COIMBRA

O lado obscuro de Porto Alegre


Era muito desagradável quando uma facção precisava matar alguém dentro do Presídio Central de Porto Alegre. Não que os presos tivessem pruridos de cometer assassinatos. Nada disso. Afinal, eles são profissionais. O problema era a parte da desova. Para isso, após o "passamento", eles primeiro esquartejavam o corpo e depois o desossavam. Em seguida, a carne era queimada. As sobras eles enterravam no pátio ou escondiam em nichos cavados nas paredes das celas. Já a cabeça, maior e mais incômoda, não raro alguém atirava por cima do muro da cadeia, como se fosse uma bola de futebol.

Esse processo causava dissabores. Em primeiro lugar, porque demandava um trabalho estafante e sujava o ambiente. Em segundo, porque empesteava o prédio com o cheiro da putrefação. Em terceiro, porque chamava a atenção da polícia, quando algum pedaço do corpo era descoberto.

Um dia, porém, alguém teve uma ideia genial. Esse preso anônimo e brilhante criou uma revolucionária forma de matar. Fez-se assim: de madrugada, quando todos dormiam, um grupo cercou a vítima e a enrolou em diversos cobertores. O coitado ficou manietado feito uma linguiça. O passo seguinte foi obrigá-lo a ingerir uma superdosagem de alguma droga. No momento em que ele entrou em surto, um saco plástico foi amarrado em sua cabeça, impedindo-lhe a respiração. O homem urrou de desespero, mas nem se debater ele conseguia, devido aos cobertores. Em pouco tempo, estava morto.

Desta maneira foi inventado o coquetel da morte chamado, no Central, de "Gatorade". É bastante engenhoso, por ser limpo, fácil, rápido e, o melhor de tudo, não despertar a curiosidade das autoridades, já que o falecimento se deu por uma inocente overdose e o corpo não apresenta marcas de violência.

Essa é uma das tantas histórias contadas em Presídio Central, romance de estreia do gaúcho Gabriel Michels. É um livro pequeno, 150 páginas. Gabriel, que é publicitário, ouvia relatos de gente que havia sido presa no Central e decidiu, com eles, compor uma narrativa que mistura ficção com realidade. Funcionou. O texto de Gabriel tem fluidez e boa velocidade. Mas o mais interessante é a ambientação da história: Porto Alegre é, na prática, o principal personagem de Presídio Central. Não a Porto Alegre das festas coruscantes, das belas mulheres e dos bares animados, e sim a Porto Alegre sombria, a Porto Alegre do crime e do medo, onde se troca uma vida por uma pedra de crack.

A leitura de Presídio Central já vale para se conhecer um pouco desse lado obscuro da capital de todos os gaúchos. Vale mais ainda porque é bem escrito. Procure o livro. Leia-o. Você vai gostar. Mas talvez se assuste com certos esgares da antiga Cidade Sorriso.

DAVID COIMBRA

27 DE JUNHO DE 2019
INDICADORES

Moda que incomoda


A economia é sujeita a modismos, e a palavra da moda é histerese. Adaptada da Física, ela é usada para designar consequências sem volta ou de difícil retorno causadas por uma crise muito longa. Lembra que a história importa e certas mudanças não retroagem. Como uma mola ou elástico que, se ficarem muito tempo espichados, não voltam à forma inicial. O exemplo mais citado em economia é o desemprego: depois de anos afastados do mercado de trabalho, os trabalhadores ficam defasados. 

Novos processos, máquinas, técnicas e produtos são introduzidos, de modo que o retorno exigirá grande esforço de adaptação, ou mesmo os impedirá de exercer as antigas funções - algumas das quais podem até ter desaparecido. No limite, serão excluídos do mercado de trabalho, principalmente os mais velhos, os menos escolarizados e os com maior dificuldade de adaptação.

Mas as consequências também atingem os jovens, pois, se estes não conseguem ingressar no mercado, também perdem o investimento em anos de estudo e deixam de praticar seus conhecimentos no período da vida em que as pessoas são mais criativas e inovadoras. Duas dolorosas consequências, dentre outras. Uma é a psicológica: o desalento, a falta de estímulo para estudar, já que não há perspectiva de "pôr em prática" o que aprenderam. 

E, sem o estudo, as possibilidades minguam ainda mais. A outra é a alternativa individual, especialmente para os mais qualificados: ir para o Exterior. Estudos mostram que a maioria não retorna, de modo que a fuga de cérebros causa um prejuízo permanente ao país. O baixo investimento em educação, ciência e tecnologia, com orçamentos cortados na crise, trazem danos muito mais duradouros do que se imagina, além do desperdício de recursos.

A histerese também atinge empresários. Com a capacidade ociosa inerente às crises, são desestimulados a novos investimentos. Muitos deixam de acompanhar as tendências do mercado e cuidam mais da sobrevivência do que do futuro. A velocidade para ficar defasado no meio empresarial é ainda maior do que entre trabalhadores, pois a concorrência e a inovação são as molas-mestras do jogo. Depois de mais uma "década perdida", com taxas abaixo dos tristes anos 1980, o Brasil não tem tempo de esperar mais. Essa deveria ser a prioridade.

Pedro Dutra Fonseca escreve às quintas-feiras, a cada 15 dias.

PEDRO DUTRA FONSECA


27 DE JUNHO DE 2019
+ ECONOMIA

A RAINHA DA INGLATERRA

Depois de reclamar que o Congresso queria transformá-lo em rainha da Inglaterra, no caso do projeto de lei que disciplina a atividade das agências reguladoras, o presidente Jair Bolsonaro vetou vários artigos das novas regras. É difícil de entender o motivo da derrubada da maioria dos tópicos: lista tríplice feita por comissão de seleção para que o chefe do Poder Executivo escolha os dirigentes, comparecimento anual obrigatório de diretores ao Senado, quarentena de 12 meses para a nomeação de diretores que tenham participação em empresas com atividades supervisionadas pela agência para a qual foram indicados. Alguém vê problema nesses pontos?

Todos parecem convergir para o objetivo do projeto de lei: dar transparência às atividades das agências e restringir a "porta giratória" (entrada e saída de executivos que ora estão regulados, ora são reguladores). E também reduzir o espaço para o cabide de empregos em que algumas dessas estruturas foram transformadas nos governos petistas. O projeto nasceu na gestão interina de Michel Temer exatamente com essa missão.

Nem a peculiar lógica do presidente parece ter sido aplicada no caso. Além de acelerar a desejada "despetização" do governo federal, o projeto era considerado essencial para que o plano de concessões e privatização do Planalto fosse bem sucedido. Portanto, do máximo interesse dos ministros Paulo Guedes, da Economia, e Tarcísio Freitas, da Infraestrutura.

Claudio Frischtak, da consultoria Inter.B, costuma dizer que a aprovação do projeto, nos moldes em que havia sido proposto, era fundamental para o fluxo de investimento em infraestrutura de que o país precisa. Reduziria o risco regulatório, considerado por estrangeiros muito elevado no Brasil.

- Queremos integridade das agências, precisamos que não sejam politizadas, que não sejam usadas como moeda de barganha. São necessárias para regular investimentos privados e públicos, brasileiros e estrangeiros - disse Frischtak à coluna no ano passado.

Agora, tanto pela forma (a menção à soberana britânica) quanto pelo conteúdo (não tem justificativa técnica), o Congresso acena com a derrubada dos vetos. Mais combustível na usina de crises da República.

Como é raridade, a coluna avisa com antecedência para quem pode se programar: a Hyper Island, escola sueca que oferece soluções e treinamentos focados em transformação de negócios, fará seu quarto curso em Porto Alegre.

É a Business Transformation Master Class, de 17 a 19 de setembro. Vai discutir as principais necessidades dos consumidores diante do avanço da tecnologia.

MARTA SFREDO

27 DE JUNHO DE 2019
JUDICIÁRIO

Laus assume hoje a presidência do TRF4

UM DOS RESPONSÁVEIS pela condenação de Lula em segunda instância toma posse no Tribunal Regional Federal na Capital.

Limiar entre a liberdade e a prisão nos processos da Lava-Jato, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) tem novo presidente a partir de hoje. Aos 56 anos, o desembargador Victor Luiz dos Santos Laus assume o comando da Corte de segunda instância da Justiça Federal para os três Estados do sul do país.

A posse de Laus está marcada para 15h e marca uma inusitada sucessão no TRF4. O magistrado trocará de posto com o atual presidente Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, à frente do tribunal nos últimos dois anos. Lenz, por sua vez, passará a despachar na 8ª Turma, especializada em matéria criminal e responsável pelos casos da Lava-Jato.

No colegiado, Laus foi um dos magistrados que atuou no julgamento de maior repercussão até agora na história do tribunal, a apelação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso do triplex do Guarujá. Na ocasião, ele foi um dos três integrantes da turma que votaram pela manutenção da condenação proferida em primeira instância e aumento da pena de nove anos e seis e meses imposta pelo então juiz Sergio Moro para 12 anos e um mês de prisão.

Último a votar, Laus também consolidou o placar de três a zero contra o petista, impedindo a apresentação de embargos infringentes, recurso que poderia adiar a expedição de um mandado de prisão. Pouco mais de dois meses após a sessão, Lula foi detido.

BISNETO DE FUNDADOR DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SC

Egresso do Ministério Público Federal (MPF), Laus fez fama de garantista no tribunal. Ou seja, de defender os direitos dos réus e de só emitir juízo condenatório após ter certeza da culpa provada nos autos. Em alguns julgamentos da Lava-Jato, foi responsável pelo voto divergente que resultou em absolvições. Discreto, não costuma atender pedidos de entrevistas, tampouco circular por eventos políticos.

Natural de Joaçaba, Santa Catarina, Laus é filho de advogado e bisneto do desembargador Domingos Pacheco d?Ávila, um dos fundadores do Tribunal de Justiça catarinense. Formado em Direito, atuou como promotor de Justiça, migrou para o MPF em 1992 e, 10 anos depois, foi nomeado para o TRF4 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Membro do conselho de administração do tribunal entre 2011 e 2013, coordenou os juizados especiais federais e o Sistema de Conciliação e a Escola da Magistratura.

FÁBIO SCHAFFNER

27 DE JUNHO DE 2019
L.F. VERISSIMO

The Queen

O presidente se queixou de que estão querendo transformá-lo numa rainha da Inglaterra. Nunca entendi bem esse uso da rainha inglesa - ou qualquer rainha - como exemplo de poder ornamental, que reina mas não manda. Todos os privilégios da coroa (no caso a Elizabeth) seriam provas da sua inutilidade. Ela mora de graça num castelo e, para veranear, pode escolher entre vários outros castelos. Mesmo que alguns gastos com os castelos sejam da sua responsabilidade (imagine os IPTUs!), a rainha vive cercada de segurança e conforto às custas dos seus súditos. 

Nada a agrada mais do que uma noite à beira do fogo, conversando com Philip e fazendo cafuné no cachorro, ou conversando com o cachorro e fazendo cafuné no Philip. Sua única obrigação é participar das cerimônias oficiais do reino, quando ela tem a oportunidade de usar um dos seus magníficos chapéus, que há anos resistem ao escárnio republicano e, segundo alguns, são os verdadeiros símbolos do império. É uma vida invejável. Mas virou exemplo de poder sem potência.

A queixa do Bolsonaro é que querem que ele seja rei só para espetáculo, um rei inglês simbolizando nada, ou só simbolizando. O verdadeiro poder, no sistema inglês, está no parlamento. Mas os ingleses deram um jeito de ter um parlamento poderoso e atuante e ao mesmo tempo, ao seu lado, uma paródia de parlamento, a Câmara dos Lordes. 

Os lordes, que só se reúnem para trocar dicas de charutos e conhaques, são os verdadeiros ingleses. Mas o que o Bolsonaro não se dá conta é de que ele se elegeu com um poder que nenhuma rainha tem, ou teve nos últimos anos. O capitão Bolsonaro pode demitir generais. Pode mudar generais de lugar, inventar cargos e ministérios para brincar de troca-troca de generais. Não sei do que estão reclamando. Deve ser divertido.

A diferença entre uma rainha da Inglaterra elizabetana e uma rainha da Inglaterra atual é que uma podia encomendar execuções de rebeldes e descontentes e a outra tem que lidar com o Maia.

L.F. VERISSIMO

quarta-feira, 26 de junho de 2019



26 DE JUNHO DE 2019
DAVID COIMBRA

A notícia mais importante do dia

Abriu uma loja de discos aqui perto, bem no centrinho, na Harvard Street. É uma notícia alvissareira, muito mais importante do que qualquer outra a respeito desses Bolsonaros ou Lulas ou Trumps. Porque é uma loja de discos NOVA, entendeu? Vende só discos, CDs, livros sobre música e aparelhos de som antigos. Há raridades. Vi um três-em-um de 1969 pelo qual eles estão pedindo US$ 500. Achei caro. Comprei uma biografia do Bob Dylan. Queria dar de presente para o Peninha, mas é claro que ele já tem. Então, dei para o Jim, o meu vizinho que consegue ser mais fã do Dylan do que o Peninha.

Sei bem que o disco se tornou objeto cult. Sei bem que sebos e feirinhas vendem discos em todo o Ocidente. Mas, repito, essa é uma loja NOVA, instalada em um ponto nobre da cidade. Para você ter uma ideia do que representa: na mesma quadra, há uma casa de chá japonesa. Sabe qual é o aluguel que eles pagam? US$ 55 mil por mês. Ou: R$ 220 mil! Claro que a lojinha é bem menor, mas ali o aluguel não sai por menos de US$ 12 mil. E eles sobrevivem vendendo discos, produto que deveria interessar apenas a colecionadores e nostálgicos.

Eu mesmo sou um nostálgico do disco. Lembro-me do primeiro que tive, uma coletânea chamada Dynamite, lançada em 1974. Minha faixa preferida era Stuck in the Middle with You, de uma banda escocesa, Stealers Wheel. Eu ouvia essa música e ouvia e ouvia, mas ela nunca tocava no rádio. Eis que, nos anos 1990, fui assistir a Cães de Aluguel, do Tarantino, e a cena mais forte do filme é embalada por este som. É terrível: o bandido captura um policial e o amarra a uma cadeira. Em seguida, bota para rodar Stuck in the Middle with You, abre uma navalha e começa a dançar. Ele dança, rodopia e dá uma navalhada no rosto do policial. E dança e rodopia e dá outra navalhada. E assim vai, até desfigurá-lo. A violência da cena causa náuseas, mas, ao mesmo tempo, fiquei encantado porque Tarantino recuperava aquela música do fim da minha infância.

Quando fui morar sozinho, antes de comprar geladeira, antes de comprar fogão, antes de comprar até mesa, comprei um toca-discos. O prazer que sentia indo a uma loja de discos era o que sinto ainda hoje ao entrar em uma livraria. Ficava ali, manuseando os álbuns e comentando com o atendente o que surgira de bom nas últimas semanas. Numa dessas, precisamente em 1986, aconteceu o seguinte: eu morava em Criciúma e ia sempre a uma loja de discos do centro. O dono da loja me conhecia e me fazia indicações. Um dia, cheguei lá e ele veio em minha direção com um disco na mão:

- Tu tens que levar isso! Tens que ouvir isso!

Era True Stories, do Talking Heads, um dos discos que mais ouvi na vida, todas as faixas compostas pelo meu xará David Byrne e todas ótimas.

Mas um dia chegou a internet e o disco acabou e, com ele, acabaram as lojas de discos. Agora, as pessoas baixam músicas na solidão de suas casas, direto para a impessoalidade de seus celulares. E eu, ultrapassado, alquebrado, me via caminhando para a decrepitude, porque sentia falta de algo já extinto, como uma loja de discos. "Que fazer?", suspirava, conformado, "o que passou não volta mais?".

Pois voltou. Hoje mesmo, lojas de discos devem estar pipocando pelas cidades americanas e, em breve, pipocarão pelas brasileiras também. Ou seja: as coisas boas podem voltar. Quem sabe aquele bom humor característico do brasileiro de um passado nem tão distante surja novamente, de algum lugar. Então, os brasileiros vão rir das contingências da vida, fazendo tudo ficar mais alegre, mais leve, tornando os dias, mesmo os mais duros dos dias, mais fáceis de se viver.

DAVID COIMBRA

26 DE JUNHO DE 2019
ARTIGO

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E FUTURO

O processo de evolução da assistente é conhecido como aprendizado de máquina (machine learning), uma das bases do que chamamos de inteligência artificial (IA). A cada nova interação, a base de conhecimento é incrementada, fazendo com que ela passe a tomar decisões cada vez mais sofisticadas. É difícil prever o quão longe ou próximo estamos do lançamento de uma assistente virtual desse nível, mas aplicações que utilizam a IA estão evoluindo rapidamente e já fazem parte do nosso dia a dia.

Na Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), estamos fomentando iniciativas de pesquisa e desenvolvimento (P&D) em inteligência artificial. Um exemplo é o projeto TeleDIAC - Sistema de IA para Diagnóstico de Catarata, que vem sendo desenvolvido por uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Esta iniciativa, junto a outras cinco, foi selecionada para participar do Desafio em Inteligência Artificial lançado pela RNP em parceria com a Microsoft.

O projeto nasce dentro de outra iniciativa também inovadora: o programa Teleoftalmo, que permite realizar exames oftalmológicos em pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) via ferramenta própria de videocolaboração. Com interação em tempo real entre médicos e pacientes em centros totalmente remotos, o projeto aumenta a capilaridade do atendimento e auxilia no diagnóstico de catarata utilizando inteligência artificial. Além de agilizar processos de identificação da doença, a proposta reduz custos e o tempo dos atendimentos, dois gargalos do SUS.

Nos próximos anos, veremos a IA alterando o modo como executamos diversas de nossas atividades profissionais e pessoais. Nossa missão na RNP é incentivar novas ideias sobre plataformas de redes e possíveis novidades tecnológicas para ampliar o conhecimento de todos.

RAFAEL VALLE

26 DE JUNHO DE 2019
INDICADORES

Operação inverter o jogo

A desmontagem da corrupção endêmica brasileira se iniciou pela emblemática operação Lava-Jato. Nunca antes se viu uma ação extremamente coordenada do Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal que tenha atingido tantos corruptos de expressão nacional, de todos os partidos e empresas de renome. Muitos outros nomes, ainda em processo investigativo, virão à tona. 

Ficou evidente para a sociedade brasileira que existe uma corrupção estruturada em todos os níveis das relações público-privadas que procura se proteger, buscando inverter o jogo por meio de invasão criminosa nos aplicativos de comunicação de pessoas do Judiciário e do Ministério Público e tentando descredenciar o relevante trabalho que fizeram até agora. Querem transformar corruptos condenados em inocentes e injustiçados, começando pelo emblemático caso Lula.

A Lava-Jato expôs para a sociedade a gravidade do problema por meio de um processo de investigação, julgamento e punição que atingiu, praticamente, todos os partidos e níveis da esfera pública. A operação e a crise econômica criada por uma governança desqualificada, decorrente de uma política patrimonialista clientelista e de um capitalismo de compadrio, definiram as últimas eleições.

A sociedade quer acabar com esta situação e, para tanto, precisa continuar mobilizada, apoiando a continuidade das investigações. Os corruptos estão ameaçados, pois além dos casos de corrupção já evidenciados, muitos outros ainda estão por vir. Eles procurarão maneiras de se proteger, como evidencia o vazamento criminoso de informações, tentando provar a ilegalidade das suas condenações. Existem, em curso, processos que vão expor inúmeras figuras de expressão nacional.

As mensagens das relações de trabalho entre entes públicos mostram coragem e eficiência na profunda investigação que envolvia um amplo e complexo sistema mafioso e altas esferas de poder. A Operação Inverter o Jogo é reação de um esquema que tenta desqualificar o trabalho feito pelo Ministério Público, Polícia Federal e Justiça. 

É preocupante esta engenhosa ação orquestrada por uma rede mafiosa de corruptos ameaçados, seja dos já condenados, seja dos que ainda serão. Defender a Lava-Jato é promover um Brasil com valores éticos e morais que possam construir um futuro melhor para todos os brasileiros e, em especial, para os mais necessitados. Defendê-la é preservar valores, e não ideologias. É proteger pessoas honestas e trabalhadoras e condenar os corruptos. É defender um Brasil melhor.

WALTER LÍDIO NUNES


26 DE JUNHO DE 2019
NÍLSON SOUZA

Trégua pela Seleção

Outro dia, na sua estreia nesta Copa América, a Seleção Brasileira vestiu a réplica de um antigo uniforme branco para homenagear o time campeão sul-americano de 1919, título conquistado há exatamente um século. Foi decepcionante ver aquilo. No intervalo, frustrado também pela carência de gols e de bom futebol, tive ganas de passar uma mensagem urgente para Tite e para os jogadores:

- Voltem de amarelo, pelo amor de Deus!

Sei que não chegaria, era só para desopilar. Os brancos acabaram fazendo 3 a 0 na Bolívia, mas nem senti vontade de festejar. Aquele não parecia ser o nosso time. Quando vejo a Seleção assim descaracterizada, prefiro torcer discretamente para a Colômbia, que usa cores semelhantes às nossas e ainda tem o James Rodríguez, apesar das destoantes meias vermelhas. A camisa canarinho é a nossa segunda bandeira nacional. Deveria integrar a lista de símbolos oficiais da pátria. Ela tem o poder de mexer com as nossas paixões e de provocar palpitações de patriotismo até no mais empedernido dos corações.

Quando o adversário tem a primazia pelo uso da camisa amarela, o máximo aceitável é que seja substituída pela azul. Quanto ao verde e ao branco, palmeirenses e santistas que façam bom proveito. O Brasil do futebol é amarelo e ponto final.

Mas os brasileiros podem ser de todas as cores.

Nunca me conformei com a divisão cromática da política nacional que coloca o verde e amarelo como exclusividade de algum setor ou partido. Nos anos 70 de minha juventude, a resistência ao regime militar chegou a ensaiar um boicote à Seleção por temer que os governantes de plantão pegassem carona na popularidade do time tricampeão. Porém, quando a bola rolou, amigos e inimigos acabaram torcendo juntos pela amarelinha. Mais tarde, já com o país redemocratizado, a população vestiu-se de preto para apressar o impeachment do presidente que traiu o mandato e tentou se apropriar das cores nacionais. Nesses últimos anos agitados por manifestações de rua e embates furiosos nas redes sociais, o confronto de cores voltou com força.

Sem ingressar no terreno pantanoso das ideologias, penso que todos perdemos quando brasileiros se voltam contra brasileiros. Nossa bandeira, nossos símbolos e nossas cores são uma propriedade coletiva, representam o país, e não apenas determinados segmentos da sociedade. Temos o direito de ostentá-los com muito orgulho e muito amor, como diz o cântico das torcidas, mas também o dever de respeitá-los e de protegê-los do nacionalismo exacerbado, que nunca gera boas coisas.

Nesse contexto, a camisa canarinho - criada pelo escritor gaúcho Aldyr Schlee, falecido no ano passado - funciona como identidade visual do país e ainda detém o poder mágico de pacificar corações e mentes.

Nesta quinta, na Arena do Grêmio, certamente teremos uma nova trégua pela Seleção. Desde que, evidentemente, ela não apareça de branco para estragar a festa.

NÍLSON SOUZA

terça-feira, 25 de junho de 2019



25 DE JUNHO DE 2019
CARPINEJAR


Loja de colchões


Meus pais me levaram para comprar um colchão. O meu do beliche já estava fino, gasto e ondulado. Inventaram que me dariam um presente adiantado. Eu entendi como um péssimo negócio, quase como uma ofensa. Para uma criança, camisas e colchão não são presentes, presente é brinquedo.


Só fui entender o preço de uma boa superfície para dormir quando montei o meu primeiro apartamento, dez anos depois. Naquela época, eu jurava que custava barato.

Eu não esqueço o susto que engoli ao pisar na loja. Só tinha mesmo colchões. Nem um enfeite sequer. Nem uma cama montada. Nem um lençol cheiroso e travesseiros fofos. Era colchão e colchão, um do lado do outro, perfilados, um exército nu, esvaziado de suas vestes noturnas. Havia no cenário uma pobreza estranha. Uma falta de propaganda.

O primeiro raciocínio que me veio foi: será que várias crianças fizeram xixi para não ter roupa de cama? As peças estariam secando? Iríamos adquirir colchão mijado?

Claro, os colchões apenas ficavam desarrumados em casa quando um dos filhos pequenos não controlava a bexiga de madrugada. Não partilhei as minhas rápidas impressões com os pais, estavam ocupados demais sentando, deitando, espreguiçando-se e conferindo valores nas etiquetas.

Até que apareceu um atendente. Quando ele chegou, eu me prostrei atrás das pernas da mãe de medo. Ele usava jaleco. Guarda-pó. Como se fosse um médico. Veio de branco para oferecer promoções. Por que um vendedor surgiria de avental? Não tinha consciência do hábito daquele comércio, para transmitir asseio e limpeza.

Estranhei. Passei a duvidar da versão de que compraríamos um colchão, devia ser um hospital para me internar. Eu me senti enganado: nunca iria comparecer a um doutor por livre e espontânea vontade, a família criou uma mentira para me atrair para dentro da cilada.

Mergulhei numa crise de choro sem precedentes, procurando antever o que algum irmão teria dito de mim antes do fingido passeio. Aquilo seria um castigo? Ou me encontrava doente sem saber?

As lágrimas são pensamentos desordenados, confusão líquida dos olhos. Arrastei os meus pais para longe da loja. Os soluços pararam apenas quando entrei no carro. Não sei o que eles deduziram da minha crise. Daí vem a minha fama de ser muito sensível.

- Cuidado com o que você diz, ele é sensível - foi o que escutei durante toda a infância. Corri para o quarto e abracei o meu colchão magrinho, como se fôssemos amigos imaginários inseparáveis.

CARPINEJAR


25 DE JUNHO DE 2019

DAVID COIMBRA

Eles não comem carboidratos

Eu agora como ovo no café da manhã. Culpa da Marcinha. Ela entrou nessa história de regular os carboidratos, inseriu ovos no breakfast e acabei me afeiçoando pela coisa.

Quem a incentivou a fazer esse regime foi o irmão dela, o Guilherme. O Guilherme se preocupa muito com a saúde, a alimentação e tal. Ele não come espaguete, ele ingere carboidratos. Ele não bebe água, ele se hidrata. No churrasco, mastigando uma picanha, o Guilherme comenta:

- O consumo de proteínas faz bem para reparar o tecido muscular.

Um primo dele, o Rick, é igual. Você tinha de assistir a uma conversa dos dois. Um dia, vi o Rick perguntando para o Guilherme:

- Como está o teu nível de ácido úrico?

E o Guilherme sabia!

Então, com fartura de dados, ele convenceu a Marcinha a reduzir drasticamente os carboidratos.

Quero informar que não aderi a tamanha loucura. Sou um amante da comida italiana, das massas, dos pães e até, por que não?, da lasanha. Mas um ovo na primeira hora do dia me apetece. Vi na internet um médico dizendo que o ovo tem tudo de que necessita a vida, tanto que, dele, sai um pinto. Achei um argumento irrefutável.

Ovo é alimento nobre. O príncipe Charles gosta de comer um depois das caçadas. No caso, cozido. Mas o príncipe é extremamente exigente quanto ao ponto de cozimento do ovo. Ele se irrita quando a gema ou a clara não estão perfeitas. Assim, para não errar, a cozinha do palácio prepara sete ovos, acomoda-os em tacinhas de prata, numera-os e os enfileira em frente a colherinhas especiais. O príncipe chega, vai no primeiro, quebra-lhe a casca e experimenta:

- Não. Esse não. Vai no segundo, repete o processo, e:

- Definitivamente, não. Mas, de repente, Charles se encontra com o ovo ideal, devora-o com sofreguidão e suspira:

- Com efeito? deveras? That is the egg!

Se eu trabalhasse na cozinha do palácio, saberia preparar o ovo impecável: ele tem de ferver por dois minutos e cinquenta segundos, não mais, não menos. Tente, e você provará o manjar de um príncipe.

Mas o ovo que agora como pela manhã não é cozido, é frito. E nem é um, são dois. Era o que queria contar para você. Não é para me gabar (ou talvez seja), mas alcancei uma acurácia na fritura do ovo que me enche de orgulho. Nada da clara (eu disse: NADA) fica líquido. Nada da gema (eu disse: NADA) fica sólido. E as bordas desprendem-se da frigideira douradas, nunca negras. O sal, eu o distribuo com equanimidade, sem excesso ou escassez. E, às vezes, quando acordo com o espírito mais requintado, salpico um pouco de pimenta-do-reino na branca clara.

Há duas formas de fazer esse ovo. A tradicional, com óleo ou manteiga, e uma a que me dedico nos finais de semana, por dispor de mais tempo. Essa, não é para me exibir (ou talvez seja), aprendi num café de Nova York. É assim: deito finas fatias de bacon na frigideira e as frito em fogo baixo. A parte branca do bacon, a gordura, exsudará com o calor. É nesse óleo que fritarei os ovos. Mas não todo.

Ah, não! Retiro a maior parte com uma colher e jogo fora sem pena. Esse processo é lento, mas os resultados compensam. O ovo ganha outro sabor e o bacon que resta, crocante e cheiroso, vai para a mesa. Depois, você pode acrescentar lâminas de queijo gouda ou, algo que só se faz fora do Brasil, tiras de abacate. Sim, sei que os brasileiros se escandalizam se o abacate não vem amassadinho e temperado com açúcar, eu mesmo repilo o abacate na salada, mas a combinação com ovo, creia, funciona.

Eis, pois, uma nova modalidade de desjejum para você, faminto leitor. Prepare o café preto e delicie-se. Você levantará da mesa alimentado, feliz e magro. Ah, nós magros também sabemos viver bem.

DAVID COIMBRA

25 DE JUNHO DE 2019
RBS BRASÍLIA

Água fria em Brasília

O Supremo Tribunal Federal jogou água fria na fervura política em Brasília ao deixar o julgamento do ex-presidente Lula para depois do recesso. Nenhum ministro do STF vai admitir interferência de fora da Praça dos Três Poderes, mas o vazamento das conversas entre o então juiz Sergio Moro e os procuradores da Lava-Jato funciona, sim, como um componente novo neste caso. À jornalista Silvana Pires, o ministro Gilmar Mendes confirmou que o habeas corpus não será julgado hoje porque o voto dele é longo, o assunto é o 12º da pauta e o recesso já bate às portas do Judiciário. A defesa pediu inversão de pauta, mas não levou. 

A ministra Cármen Lúcia deixou o julgamento para agosto. Para completar o clima de deixa disso, o ministro Moro (Justiça) viajou para os Estados Unidos, cancelando ida à audiência na Câmara, arena bem mais hostil do que o Senado. As atenções, agora, voltam-se para a Previdência e para a trivial dúvida desta época do ano: se haverá ou não quórum no Congresso nesta semana de São João.

LOGO ALI

O presidente Jair Bolsonaro deflagrou a disputa à Presidência de 2022. Questionado se o governador João Doria (SP) ficaria chateado com a possível transferência da Fórmula 1 para o Rio de Janeiro, falou:

- O que a imprensa diz é que ele será candidato a presidente em 2022, então ele tem que pensar no Brasil!

INFÂNCIA

O Conselho Nacional de Justiça, o governo federal e os tribunais de contas assinam hoje um pacto para priorizar ações para a primeira infância. O conselheiro Cezar Miola (TCE-RS) assina o documento em nome dos TCEs. Também hoje o Plano Nacional de Educação completa cinco anos com atrasos na conquista dos objetivos. A garantia de vagas em creches é uma das metas ainda distantes de serem alcançadas.

Colaborou Silvana Pires - CAROLINA BAHIA

25 DE JUNHO DE 2019
INDICADORES

Verão derretendo vendas

É junho e, ao menos na temperatura, estamos europeus. Se esse verão fora de hora serve para lotar as praças e parques, também ajuda a esvaziar as lojas.

O varejo brasileiro surfou bem na onda da nova classe média dos tempos do governo Lula e depois na economia baseada no incentivo ao consumo. Agora, com a economia e o clima bagunçados, as transformações tecnológicas, a pulverização das mídias e as novas jornadas do consumidor, o varejo precisa se reinventar. Endividadas, pessimistas e com novos hábitos de consumo, as pessoas enxugam seu orçamento e repensam as compras. Se os gastos precisam diminuir, elas vão menos ao ponto de venda. Com menos visitas, compram menos, e o comércio encolhe.

Por isso, o varejo é o setor que mais depende de comunicação. Se não chama o cliente, o movimento cai. No entanto, raras são as redes de varejo que têm preocupação e clareza sobre sua proposta de valor. Há um conflito constante entre valor e preço. E o segundo sempre vence. Certa vez, alguém disse que o varejo gasta mais para vender por menos. 

É a síndrome do trimestre: qualquer problema nas vendas e a construção de marca é interrompida. Como as metas sempre são altas, as vendas se tornam um problema permanente. E, de grão em grão, a marca nunca enche o papo. E o que é pior: os comerciais acabam ficando todos iguais e repetitivos, sem nenhuma diferenciação relevante.

Para se fazer comunicação diferenciada, é preciso fazer escolhas. São elas que posicionam a marca e constroem valor. Quando o que existe é apenas uma guerra de preço, se um ganha, o concorrente necessariamente perde, e a lucratividade é destruída para todo o setor.

Economicamente falando, não faz sentido ar-condicionado ser mais barato no verão do que no inverno. E muito menos a tática ser tratada como estratégia. Está na hora do varejo perceber que isso não fere apenas o bom senso, mas também o seu bolso.

FÁBIO BERNARDI

25 DE JUNHO DE 2019
ECONOMIA

Temor de impacto no segmento imobiliário

Em tese, na avaliação de especialistas ouvidos por ZH, não há motivos para preocupações em relação à sustentabilidade do FGTS caso o governo decida liberar novos saques - mesmo incluindo contas ativas, uma novidade em relação à última liberação, há dois anos. O que preocupa parte deles é o possível impacto sobre a construção civil.

Presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil no Estado, Aquiles Dal Molin Júnior confirma o temor no setor:

- Uma das poucas fontes de recursos para financiar a construção civil, principalmente de baixa renda, vem do FGTS, e isso gera emprego, impostos e qualidade de vida para as pessoas.

Hoje, o fundo tem estoque considerado alto, de R$ 525 bilhões, o que garante solidez ao sistema. Em 2017, foram retirados R$ 44 bilhões após autorização de Michel Temer. Agora, segundo fontes do governo, o valor dificilmente passará disso, o que significaria, no máximo, de 5% a 10% do saldo, sendo que novos depósitos seguem ocorrendo.

- Sinceramente, não me preocuparia. A ordem de magnitude é perfeitamente administrável - assegura o consultor econômico Raul Velloso. A avaliação é compartilhada pelo professor de Administração Pública Álvaro Guedes, da Unesp:

- Movimentações no FGTS ocorrem em prazo alongado, por isso ninguém corre o risco de perder o seu direito de uma hora para outra. Além disso, o rendimento do fundo é baixo, então é positivo para o trabalhador poder resgatar.

Na mesma linha, o economista Fernando Ferrari Filho, da UFRGS, argumenta que a nova liberação, se confirmada, será "pontual" e "monitorada".

- O que pode acontecer é alguns setores reclamarem. O FGTS financia investimentos em obras públicas e tem grande importância para a construção civil - lembra Ferrari.

Afetado pela crise, esse setor vem tentando se recuperar, e o FGTS responde por quase metade dos recursos destinados à compra de moradia via crédito imobiliário. O economista Fábio Pesavento, da ESPM-Porto Alegre, faz a ressalva de que "liberar os saques é bom, mas é necessário cuidado":

- Ao permitir resgates, o governo injeta recursos na economia. Ao mesmo tempo, em tese, tira dinheiro da construção civil, que emprega muita gente.



24 DE JUNHO DE 2019

DAVID COIMBRA

O choro de Caetano por "Democracia em Vertigem"

Assisti a Democracia em Vertigem, neste final de semana. Queria descobrir por que Caetano Veloso chorou ao ver o filme.

Descobri. Se você quiser assistir também, vá prevenido: são duas horas entediantes. A narradora fala com uma voz desmilinguida, quase aos gemidos, suponho que de maneira intencional: ela está lamentando pela tal queda vertiginosa da democracia brasileira.

Essa, aliás, é a tese: o Brasil emergiu de uma ditadura graças à luta de heróis como Lula e os pais da narradora e, agora, com a queda de Lula e do PT, volta às trevas.

Lula, na verdade, é mais do que herói para o filme: é uma espécie de santo. Ele é bondoso, ele ama o pobre e pelo pobre é amado, mas, coitadinho, teve de se submeter aos malvados do sistema para poder fazer algo de positivo, quando ascendeu ao poder. O tempo inteiro o tom é de bajulação a Lula. Kim Jong-un, se vir isso, vai pedir para fazerem algo igual, lá na Coreia do Norte.

Nenhum erro dos governos petistas é levado a sério. Os Correios foram quase destruídos, a corrupção corroeu empresas poderosas, como a Eletrobras e a Petrobras, o BNDES fez empréstimos espúrios a empresários amigos do partido e a ditaduras de esquerda, bilhões de dólares foram gastos em estádios que se tornaram inúteis depois da Copa do Mundo, falhas no controle sanitário permitiram o retorno de epidemias, os gastos com a Olimpíada do Rio foram escandalosos, a segurança pública e a educação básica pioraram como nunca, a máquina pública foi inchada com a contratação de mais de 235 mil funcionários, houve irregularidades na concessão de lotes para a reforma agrária e nos incentivos a pescadores? ufa! É muita coisa.

É preciso tempo e dedicação para fazer tanto assim. Mas, no filme, a decadência do país é atribuída, incrivelmente, às boas intenções do partido: tudo aconteceu, segundo a narradora, depois que a brava Dilma Rousseff decidiu enfrentar os banqueiros. Sério!

Confrontada com a Lava-Jato, a corrupção revelada, políticos de todos os partidos e grandes empresários presos, bilhões devolvidos ao erário, confrontada com essa realidade incontornável, o que a narradora faz? Ela a contorna. Explica que, para tirar os beatos do PT do poder, a elite branca sacrificou partes da própria elite branca. SÉRIO!!!

Democracia em Vertigem se apresenta como um documentário, mas é uma peça de propaganda. Tudo bem, faz-se isso desde os anos 30, com O Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl. Não é incomum. Incomum é Caetano Veloso chorar, depois de ver o filme. A reação de Caetano, e de outras pessoas mais ou menos importantes da elite cultural e da esquerda brasileira, é a demonstração de algo terrível: é a prova de que eles não aprenderam nada com o que aconteceu nos últimos anos. Nada! Eles acreditam mesmo nessa narrativa, a ponto de se emocionarem com ela. Eles não compreenderam que foi essa atitude, EXATAMENTE ESSA, que empurrou um tipo como Jair Bolsonaro para a presidência da República.

É horrível saber disso, porque o Brasil precisa da atuação sensata das esquerdas e dessa elite cultural. São as esquerdas, com seu pensamento generoso, com a ideia de que os mais fracos têm de ser protegidos, com a consciência de que o Estado tem de servir também para corrigir injustiças, são as esquerdas as maiores incentivadoras das políticas de bem-estar social no mundo todo. Mas não esquerdas populistas, atrasadas e mistificadoras, como essas para as quais Democracia em Vertigem foi feito. Essas, elitistas e arrogantes, apenas dividem a sociedade e atiram a maioria da população para o outro lado, e elegem Bolsonaros e Trumps.

Caetano derramou lágrimas pela democracia brasileira. Seria até bonito isso, seria até bom. Se as lágrimas fossem derramadas pelos motivos certos.


DAVID COIMBRA




24 DE JUNHO DE 2019
CAPA

Entre as mulheres

COMPLETANDO SETE DÉCADAS este ano, O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, mantém atualidade

Entre maio e outubro de 1949, a filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) publicouO Segundo Sexo. Reconhecido como um marco do feminismo e com reflexões que se tornaram base do movimento, o livro dividido em dois volumes, Fatos e Mitos e A Experiência Vivida , foi basilar para as ideias da chamada segunda onda do feminismo, que floresceu no início dos anos 1960, na Europa e América do Norte (a primeira foram os movimentos a favor do voto feminino no fim do século 19 e início do 20).

À época com 41 anos, Simone deixou a linguagem rígida de suas obras iniciais e, deliberadamente, adotou uma dicção mais simples, para falar com leitoras distantes da academia sobre a experiência de ser mulher. Com rigorosas pesquisas em diferentes disciplinas, discutiu os mitos em torno da figura feminina e rebateu teorias sobre a feminilidade elaboradas por nomes importantes, de Aristóteles (384-322 a.C.) a Sigmund Freud (1856-1939), passando por Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895).

De acordo com a historiadora Mary del Priore, em texto publicado na edição comemorativa lançada pela editora Nova Fronteira em março deste ano, o livro vendeu na primeira semana de lançamento 22 mil exemplares, mas foi proibido no Vaticano e criticado de forma veemente por movimentos políticos à esquerda e à direita.

Simone de Beauvoir construiu uma trajetória independente e controversa para a época. Nunca se casou nem teve filhos. Comprou um apartamento onde morava sozinha. Manteve relações homoafetivas. Se dedicou à escrita e às aulas na universidade. Poderia ter escolhido ser a mulher de Sartre (1905-1980), filósofo com quem manteve duradouro relacionamento, mas optou por ser lembrada como a escritora feminista e filósofa existencialista.

A seguir, alguns dos motivos pelos quais seu livro não perdeu a atualidade sete décadas depois de seu lançamento: A atualidade da obra

Marco do pensamento feminista, o livro é até hoje relevante para as mulheres contemporâneas.

- Enquanto leio, há aquele riso de nervoso de realmente entender que ela está falando de mim, por mais que não esteja falando da nossa época - resume Marjuliê Martini, 36 anos, jornalista e doutoranda em Comunicação pela UFRGS, que pesquisou no mestrado o ciberfeminismo, a "quarta onda" do movimento.

De acordo com a pesquisadora, as formulações de Simone ainda valem para compreender velhas manobras patriarcais no atual período de alta tecnologia.

- O Segundo Sexo não se tornou um livro superado, as questões que ele traz ainda são complexas - enfatiza Marjuliê. E complementa:

- O livro tem essa importância de pensar que pode existir outra lógica além de homens dominantes e mulheres dominadas.

"Ela sabia seu lugar de fala"

Ativista, estudante de Filosofia e escritora, Atena Beauvoir, de 28 anos, conquistou há dois anos o direito ao seu nome social. Para simbolizar sua transição de gênero, adotou como prenome Atena, filha de Zeus na antiga mitologia grega, que já nasce adulta e armada, e Beauvoir, em homenagem a Simone. A razão para a escolha é a vinculação da filósofa francesa com a corrente do existencialismo.

- Quando as pessoas trans rompem os conceitos de gênero, fazem o evento mais existencialista. É exatamente isso que a Simone queria, que as mulheres mudassem suas geografias existenciais. Ela mirou na mulher cisgênera e atingiu a população trans - aponta Atena.

Produzir uma obra que guiasse o feminismo 70 anos depois de sua publicação pode não ter sido a ambição de Simone com O Segundo Sexo, por isso ela não se debruçou especificamente sobre questões históricas das mulheres negras e LGBT (na época, ainda acossadas por vários tabus). Para Atena, a escritora também não quis abordar temas dos quais não tinha propriedade.

- Ela sabia seu lugar de fala. É incrível. Ela diz isso. Ela tinha essa consciência racial - pondera Atena, lembrando que, em suas autobiografias, a filósofa indica contato com pessoas trans e pesquisadores negros de sua época.

Um café como escritório

Em março deste ano, as bailarinas Lauren Lautert, 50 anos, Luciana Dariano, 54, e Rossana Scorza, 53, estrearam a performance Beauvoir-se. As artistas resgataram pensamentos da filósofa e sua relação com os cafés de Paris para construir a coreografia apresentada no Café Camarim, em Porto Alegre.

- A Simone de Beauvoir trabalhou muito em café. Isso nos trouxe o universo dela, do café, da mesa, do escrever, das cartas e dos pensamentos contemporâneos - explica Rossana.

Simone escrevia em cafés muito por não ter uma vida estável. Durantes anos, ela e Sartre viveram em hotéis. Rossana lembra que, em uma passagem de A Força da Idade, Simone descreve que, sem opção de onde dormir, hospedou-se na casa de um taxista.

- Morei em Paris por 11 anos. A primeira coisa que fiz quando cheguei lá foi pegar as cartas dela para o Sartre. Fiquei bem mergulhada naquilo - esclarece Luciana, observando que, mesmo com o conteúdo de uma rotina simples, as cartas são uma leitura densa.



24 DE JUNHO DE 2019
COMPORTAMENTO

Um dia de cão em pré-estreia no cinema

PETS A VIDA SECRETA DOS BICHOS teve sessão especial em que donos puderam assistir ao filme acompanhados de animais.

Uma sessão especial realizada na manhã de sábado, em Porto Alegre, revelou algo surpreendente: cachorros são capazes de se portar melhor do que certos seres humanos dentro de uma sala de cinema. Entre 70 e cem cães de tamanhos, pelagens e raças variadas procederam como lordes, ao lado de seus donos, em uma sala lotada do GNC do Shopping Praia de Belas, para a pré-estreia da animação Pets - A Vida Secreta dos Bichos 2. Houve alguns latidos eventuais durante a hora e meia de exibição, é verdade, mas ninguém pôde reclamar de cachorrada batendo papo, falando ao celular ou mastigando pipoca ruidosamente.

A permissão para que os totós assistissem ao filme - ou pelo menos para que estivessem presentes durante a projeção - era inédita na Capital e exigiu uma preparação especial. Durante toda a noite, uma equipe trabalhou para forrar cada milímetro do piso, como forma de se precaver contra eventuais emergências fisiológicas. Além disso, foram preparados tapetes higiênicos para funcionar como banheiros, e funcionários ficaram a postos para limpar qualquer caca produzida inadvertidamente.

No final, raros cuscos saíram de seus lugares durante o filme, e os que o fizeram, acompanhados dos donos, foi para esticar as patas ou se hidratar nos recipientes com água espalhados pelo saguão.

A mestranda Marina Vescovini, 26 anos, foi das primeiras a desfilar pelo tapete vermelho estendido especialmente para a plateia canina junto à entrada do GNC. Ela estava acompanhada de Árya, uma husky que motivava alguma apreensão por parte da dona.

- Ela é muito agitada. Nunca para. E, se enxerga outros cachorros, quer brincar e cheirar. Vai ser uma aventura - previu Marina.

No final das contas, o comportamento da cadela foi exemplar durante a sessão de cinefilia cinófila, ainda que um ou outro bocejo pudessem indicar certo enfado.

Alguns dos cães até pareciam prestar atenção na animação, o que não foi possível confirmar para esta reportagem, nem mesmo pelos latidos, que emergiam de tempos em tempos sem relação aparente com o que se passava na tela. A maioria, porém, portava-se como Árya: mantinha o olhar perdido, exibindo uma fisionomia que o pecado da antropomorfização nos levaria a descrever como de indiferença.

Outros aproveitavam o afago no colo de seus donos ou cochilavam no aconchego gostoso da parte debaixo da poltrona (a regra era que cachorros não poderiam sentar nos assentos). Houve até o clássico namoro no escurinho, entre dois espécimes que estavam no mesmo degrau da escadaria lateral e que aproveitaram a distração de seus donos com o que se passava na tela para o bem conhecido ritual de farejamento de partes pudendas. Mas podemos garantir que o caso não descambou em cenas impróprias para menores de 18 anos.

EVENTO TEVE CELEBRIDADES DO INSTAGRAM PRESENTES

Como em qualquer pré-estreia que se preze, havia farta presença de celebridades, é óbvio. Trajando um elegante vestido de sua própria grife e ostentando um penteado elaborado que exigiu uma hora de hidratação e coiffure pela manhã, a modelo e instagramer Sophia fez uma entrada de gala no tapete vermelho, levada ao colo pela sua proprietária, a estudante Kimberly Castro, 20 anos. Fotogênica, a cadelinha shitsu de dois anos inspirou sua dona a abrir para ela uma conta na rede social. Lá, 17,7 mil seguidores veem Sophia vestindo as roupas da grife Sophia - peças desenhadas por Kimberly e pela mãe e costuradas pela avó. Com o sucesso, a shitsu virou "dog model" para diferentes marcas.

- Ela é calma e tranquila Quando vê algum cachorro na tela da TV, fica vidrada. Vai ser uma experiência muito legal - previu Kimberly antes do início da projeção.

Também estrelas do Instagram, John John e Duff (ambos da raça spitz alemão), bem como a york Lara, aceitaram emprestar prestígio ao evento cinematográfico. Eles formam o Trio Fofura (ou "sweet three", para fins de rede social), com 22 mil seguidores no Insta. "Filhos" da médica veterinária Priscila Blehm, 26 anos, também estavam superproduzidos para a ocasião. 

Tomaram banho, foram escovados, vestiram roupas impecáveis e colocaram lacinhos na cabeça. O "pai" não pode ir. Está se formando em veterinária e tinha um evento do curso - mas na semana que vem o trio vai vestir toguinhas especialmente confeccionadas para a ocasião e posará para fotos com a figura paterna, também devidamente togada. Antes de escolher um lugar na última fila da sala de cinema, Priscila vaticinou:

- Vai ser uma barulhada, mas é ótimo compartilhar esse momento com eles.

A parte do barulho não se confirmou. O trio manteve-se circunspecto até o fim da sessão. Raros foram os cães irrequietos, caso de quatro exemplares da raça husky levados ao cinema pelo empresário Jorge Nobre, de 23 anos.

- Só vocês estão incomodando! - ralhou ele, numa das vezes em que deixou a sala para passear com o quarteto no saguão.

A animação Pets - A Vida Secreta dos Bichos 2 estreia nesta quinta-feira, desta vez sem cachorros, mas liberado para um público muito mais agitado, barulhento e indócil: crianças.

ITAMAR MELO


24 DE JUNHO DE 2019
CLÁUDIA LAITANO

Nem tudo é verdade


Sharon Stone de namorico com Bob Dylan e convencida de que Just Like a Woman, composta alguns anos antes de os dois se conhecerem, havia sido escrita para ela. Um cineasta europeu contando como o cantor imitou seu jeito estiloso de segurar o cigarro. A influência da banda Kiss no visual que marcou a turnê Rolling Thunder Revue (1975-1976). Todas essas histórias estão no filme Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese, disponível na Netflix - mas nenhuma delas é verdadeira.

Assim como eu, muita gente deve ter assistido ao filme nos últimos dias sem perceber que, em meio a cenas e entrevistas verdadeiras, o cineasta Martin Scorsese havia inserido depoimentos falsos e atores interpretando personagens supostamente reais. Muitas obras de arte já borraram os limites entre verdade e invenção antes, mas nem todas provocam no espectador essa sensação desconfortável de que ele foi enganado sem uma boa justificativa que sustente o artifício.

Talvez a causa do meu desconforto com as falsas verdades de Rolling Thunder Revue não esteja tanto no fato de que não entendi a piada de Martin Scorsese e Bob Dylan, mas no timing inapropriado para esse tipo de jogo em que as regras não ficam claras para o espectador. Vivemos uma crise de confiança inédita. Nunca tanta gente desconfiou de tantas pessoas ao mesmo tempo - e isso é exaustivo e deprimente, para dizer o mínimo. Não se trata mais de conviver com políticos que não cumprem as promessas de campanha ou se fazem de paladinos da justiça apenas para ganhar a eleição. 

Estamos diante de homens públicos que vão para a frente das câmeras reproduzir teorias conspiratórias estapafúrdias, fabricadas nos porões mais gosmentos da internet, com cara de quem está revelando o terceiro segredo de Fátima. (E esse é apenas o começo do pesadelo. A tecnologia vai tornar cada vez mais fácil distorcer a realidade e todos nós precisaremos aprender com São Tomé a desconfiar de quem se apresenta como Jesus Cristo ou seu representante.)

"Quase todas as histórias quase certamente contêm algum tipo de mentira." A frase é dita bem no início de F for Fake (1973), pseudodocumentário de Orson Welles que se apresenta como um tratado sobre "artimanhas, fraudes e mentiras" (você encontra o filme, na íntegra e com legendas, no YouTube). Scorsese parece lançar uma piscadela para Welles ao começar seu falso documentário do mesmo jeito: com um truque de mágica. Como se tudo fosse uma grande brincadeira e estivéssemos todos, de alguma forma, atuando uns para os outros. A começar, claro, pelo camaleônico e elusivo Bob Dylan. Pra mim, desta vez Scorsese errou a mão. Em 2019, nada é mais subversivo e ousado do que dizer (e procurar) a verdade. The answer, my friend, is blowin? in the wind.

Hoje, às 18h30min, eu e o professor Flávio Loureiro Chaves estaremos na Sala Álvaro Moreyra (Erico Verissimo, 307) falando sobre Os Livros de Nossa Vida, projeto da Coordenação do Livro da Secretaria Municipal da Cultura, com mediação de Sergius Gonzaga. A entrada será franca - e a conversa também.

CLÁUDIA LAITANO