Crise no campo esfria vendas de máquinas na Expodireto

Claudio MedagliaRepórterA desaceleração nas vendas de máquinas agrícolas observada na Expodireto Cotrijal 2026 ocorre em meio a um cenário mais adverso para o setor no País. A própria indústria já registra retração no faturamento e projeta um ano mais difícil para o mercado.
Durante reunião realizada na feira, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) apresentou aos associados um balanço do desempenho recente do setor. Segundo o presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da entidade, Pedro Estevão Bastos, o faturamento caiu 7% nos últimos seis meses em comparação com o mesmo período do ano anterior. Em janeiro de 2026, a retração foi ainda mais acentuada, de 15,6%.
De acordo com a entidade, fatores como inadimplência elevada, maior rigor na concessão de crédito, juros altos e queda nos preços das commodities ajudam a explicar o enfraquecimento da demanda por equipamentos. A Abimaq também citou o ambiente de maior incerteza no cenário internacional, incluindo tensões geopolíticas como o conflito envolvendo Irã, apontado como uma variável adicional de risco para a economia global e para os mercados.
Nesse ambiente de margens mais apertadas e maior imprevisibilidade, a indústria observa mudança nas prioridades de investimento dentro das propriedades rurais. “Agricultores tendem a priorizar compra de insumos; os investimentos em renovação de frota ficam em segundo plano”, destacou a Abimaq no balanço apresentado durante a feira.
A entidade projeta que o faturamento do setor em 2026 deve cair cerca de 8% em relação a 2025, com viés de baixa.
O ambiente observado nos estandes da Expodireto Cotrijal reflete esse cenário de cautela. Participantes do setor relatam ritmo mais lento nas negociações durante a edição deste ano.
Uma fonte ligada ao setor avaliou que o desempenho da feira reproduz o momento vivido pela indústria e pelos produtores.
“É isso mesmo, retrato desse cenário fraco que o setor vive e foi evidenciado na feira”, disse.
O comportamento dos visitantes nas concessionárias e revendas mostra a cautela nas decisões de investimento. Estandes parados, vendedores conversando entre si e poucos movimentos efetivos de negócios.
Outro indicativo do momento difícil é a ausência de um balanço oficial de negócios da feira. A organização da Expodireto orientou participantes — incluindo expositores e agentes do sistema financeiro — de que não divulgará números consolidados de vendas nesta edição. A decisão repete a postura adotada no ano passado e reduz um dos indicadores tradicionalmente usados para medir o desempenho comercial do evento.
No Rio Grande do Sul, a situação financeira do produtor ainda é pressionada pela atual safra de grãos. A estiagem e as altas temperaturas já provocaram perdas estimadas em pelo menos 11% na produção estadual, enquanto a colheita ainda segue em andamento em várias regiões.
Nesse contexto, o comportamento mais cauteloso observado na feira reflete a necessidade de priorizar despesas diretamente ligadas à condução da lavoura antes de assumir novos investimentos em máquinas.
O presidente da Expodireto Cotrijal, Nei Manica, reconheceu que o volume de negócios ficou abaixo do idesejado, mas avaliou que o resultado era esperado diante da conjuntura enfrentada pelos produtores.
“As comercializações não foram aquelas que todo mundo gostaria que fossem”, afirmou. Segundo ele, o ambiente econômico marcado por descapitalização no campo, falta de recursos e juros elevados ajuda a explicar a cautela nas decisões de investimento.
Manica avalia que parte das negociações pode ocorrer após a feira, caso avancem medidas de enfrentamento ao endividamento rural em discussão em Brasília. “Primeiro tem que curar a doença do produtor, que é o endividamento. Depois vem o recurso para investimento”, disse.
Na avaliação do dirigente, a feira cumpriu o papel de reunir produtores, empresas e instituições em torno de tecnologia, inovação e debates sobre o futuro do setor. Ele também destacou o interesse crescente por alternativas para reduzir os impactos climáticos nas lavouras, como projetos de irrigação.
Segundo Manica, propostas discutidas recentemente pelo governo do Rio Grande do Sul incluem a criação de um programa estruturado de irrigação, que poderia financiar não apenas equipamentos, mas também infraestrutura como energia, barragens e canais de transposição de água.
“Se realmente forem viabilizados esses recursos, o Estado poderá fazer um grande programa de irrigação”, afirmou.
Mercado de máquinas
- Faturamento do setor: queda de 7% nos últimos seis meses
- Janeiro de 2026: retração de 15,6%
- Projeção para 2026: queda de 8% ante 2025
- Prioridade nas propriedades: insumos antes da renovação de frota
- Ambiente na feira: ritmo mais lento nas negociações
Fonte: Abimaq

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