Fraport vê retomada do aeroporto de Porto Alegre mais rápida que o esperado
Gabrieli SilvaRepórterApós meses de reconstrução da estrutura impactada pela enchente de 2024, o Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, voltou a operar em plena capacidade no ano passado, e já apresenta sinais de recuperação da demanda.
Segundo o gerente de Aviação Comercial da Fraport Brasil, Pedro Navega, o movimento de passageiros em 2025 praticamente igualou os níveis registrados antes da tragédia climática. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, o executivo avalia os desafios da retomada, o papel estratégico do terminal para a economia gaúcha e as perspectivas de expansão de rotas nacionais e internacionais.
Navega diz que a Fraport está constantemente buscando novas rotas, tanto nacionais quanto internacionais, salienta o rápido crescimento de rotas para outras capitais. E destaca o voo Porto Alegre-Recife, um dos mais longos no mercado doméstico, que opera diariamente e que tem perspectivas de expansão.
Jornal do Comércio - Como a Fraport avalia a recuperação do Aeroporto de Porto Alegre após a enchente de 2024?
Pedro Navega - A retomada foi muito positiva, até superior ao que esperávamos. Projetávamos um cenário mais moderado, mas a resposta da aviação foi imediata. O passageiro gaúcho tem um peso muito grande para as companhias aéreas e isso ficou claro durante o período em que o aeroporto esteve fechado. Conseguimos recuperar rapidamente o volume de passageiros e terminar o ano com perspectiva de crescimento das empresas.
JC - Quais foram os principais desafios operacionais nesse processo?
Navega - O maior desafio foi o período de transição entre maio e dezembro de 2024, quando operamos parcialmente na base aérea e com o terminal ainda incompleto. Após uma enchente dessa magnitude, sabíamos que haveria esse processo de reconstrução. Quando o aeroporto foi reaberto em 16 de dezembro, já estava com segurança plena e com capacidade para operar dentro da estrutura disponível.
JC - O movimento de passageiros em 2025 já pode ser considerado uma recuperação completa?
Navega - Sim. O volume de passageiros foi praticamente idêntico ao de 2023, então, podemos considerar que houve retomada. Mesmo em um cenário complicado para a aviação, com empresas passando por processos de recuperação financeira, conseguimos fechar o ano com resultados positivos.
JC - O aeroporto já está próximo do limite de capacidade?
Navega - Ainda estamos muito abaixo da capacidade total. Quando analisamos sistemas como raio-x, portões de embarque, esteiras de bagagem e check-in, vemos que existe bastante espaço para crescimento. Não chegamos nem perto de 50% da capacidade operacional do aeroporto.
JC - Há projetos de ampliação ou modernização previstos?
Navega - Esse é um processo contínuo. Sempre existem estudos para implantação de novos sistemas que aumentem eficiência e capacidade. Hoje não temos gargalos operacionais, mas analisamos constantemente melhorias tecnológicas e de infraestrutura para acompanhar o crescimento da demanda.
JC - Quais rotas tiveram maior crescimento recentemente?
Navega - Principalmente as rotas tronco, como São Paulo e Rio de Janeiro, que tiveram recuperação muito rápida. Mas também observamos crescimento em mercados que antes não eram tão fortes, como Curitiba (PR), Brasília (DF), Minas Gerais e alguns destinos do Nordeste.
JC - Alguma rota específica tem chamado atenção?
Navega - A ligação Porto Alegre–Recife é um exemplo interessante. É uma rota longa dentro do mercado doméstico e em alguns momentos chegou a ser interrompida no passado. Hoje voltou a operar diariamente e com expectativa de expansão.
JC - Quais fatores as companhias aéreas consideram para abrir novas rotas?
Navega - O primeiro é a demanda. Precisa existir volume de passageiros interessados em viajar. Mas também é necessário que o tíquete médio seja competitivo e gere receita para a empresa aérea. Além disso, a disponibilidade de aeronaves é fundamental. Se há aeronave disponível e demanda consistente, a rota pode acontecer.
JC - Existem negociações em andamento para novos destinos?
Navega - Sim, constantemente. Participamos de fóruns internacionais de desenvolvimento de rotas, como o Routes Americas, e conversamos com companhias aéreas que ainda não operam no Rio Grande do Sul. Já voltamos a discutir destinos mais longos, inclusive para Europa ou América do Norte.
JC - Qual é o impacto econômico do aeroporto para o Rio Grande do Sul?
Navega - O aeroporto é uma das principais portas de entrada para negócios e turismo. O Rio Grande do Sul tem um potencial turístico muito grande, com regiões como Serra Gaúcha, os Cânions e as Missões. Além disso, existe um turismo de negócios muito forte, com feiras e eventos.
JC - E para setores como indústria e agronegócio?
Navega - A conectividade aérea é fundamental. O agronegócio gera um fluxo constante de profissionais viajando para feiras e negócios em todo o País. Além disso, o Estado tem uma indústria relevante ligada a equipamentos agrícolas e um movimento importante de importação e exportação pelo terminal de cargas.
JC - Quais investimentos foram realizados recentemente no aeroporto?
Navega - Durante o período em que o aeroporto ficou sem operação plena, aproveitamos para realizar algumas melhorias. Redesenhamos o pátio de aeronaves, substituímos pontes de embarque por equipamentos mais modernos e ampliamos a capacidade para aeronaves maiores em algumas posições.
JC - Existe necessidade de ampliar a pista ou o terminal?
Navega - Hoje não. Tanto o terminal quanto a pista operam com bastante folga de capacidade. O objetivo é manter uma operação fluida, sem filas ou atrasos causados pela infraestrutura.
JC - Como Porto Alegre se posiciona em relação a outros aeroportos do País?
Navega - Temos um perfil muito forte de passageiro de negócios e eventos, que é bastante valorizado pelas companhias aéreas. Além disso, Porto Alegre possui um grande volume de passageiros emissores, ou seja, pessoas que partem da cidade para outros destinos.
JC - O aeroporto ainda recebe muitos passageiros de primeira viagem?
Navega - Sim. Nossas pesquisas mostram que muitas pessoas estão voando pela primeira vez. No Brasil, o número médio de viagens por habitante ainda é inferior a uma por ano. Em mercados maduros, como Europa e Estados Unidos, esse número passa de duas viagens por habitante, o que mostra o grande potencial de crescimento da aviação no País.


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