quinta-feira, 9 de julho de 2026

09 de Julho de 2026
ROGER LERINA

O plebiscito de todos os dias

Uma cidade não é representada somente por desenvolvimento urbanístico, obras viárias grandiosas, shoppings imponentes, edifícios que desafiam o Plano Diretor e muitas, muitas farmácias. A alma de uma comunidade está escrita também e sobretudo em suas muitas histórias, preservadas na memória e no relato das pessoas que convivem naquele lugar.

Nesta quinta-feira, chega gratuitamente ao YouTube o documentário Sereno Canto - Contos dos Cantos da Cidade, nova etapa de um projeto idealizado pelo músico e psicólogo Thiago Ramil. Criada em 2012 em parceria com o também psicólogo Raul Jung, a iniciativa começou com atividades em casas de acolhimento, a fim de contribuir com o sono de crianças atendidas nesses locais, virou podcast, contação de histórias e canções, deu origem em 2023 a um álbum visual e em 2024 ao belo livro Sereno Canto Histórias e Canções. Neste atual desdobramento, o acalanto artístico quer envolver não apenas os pequenos, mas Porto Alegre inteira.

O excelente filme idealizado por Thiago e dirigido por Lucas Moraes recolhe os depoimentos de um grupo de personagens cuja trajetória conecta-se com a capital gaúcha: Iracema Gãh Té, indígena Kaingang; Mestre Paraquedas, figura histórica do samba e do Carnaval locais; Nina Fola, artista, socióloga e ativista cultural negra; Loua Pacôm Oulaï, imigrante marfinense, artista e contador de histórias; e Eva Schul, bailarina e coreógrafa que é referência nacional em dança contemporânea. 

Cinco perspectivas singulares da memória urbana, um punhado de narrativas que mostram as múltiplas formas como Porto Alegre é vivida e contada. Esse mergulho no nosso patrimônio imaterial por meio de vozes que costumam ficar à margem dos discursos oficiais é ilustrado por preciosas imagens de arquivo mostrando as mudanças na paisagem da cidade ao longo do tempo.

O historiador e filósofo Ernest Renan (1823 - 1892) celebrizou o conceito de nação como fruto de um pacto diário. Segundo o pensador francês, o desejo de viver junto e a valorização da herança recebida estreita os laços das sociedades - uma liga, porém, que precisa ser constantemente renovada: "A existência de uma nação é um plebiscito de todos os dias". Esse princípio universal pode ser adaptado para o quintal aqui de casa: nosso lugar no mundo não é apenas um porto físico, mas um "cais de encontros", como define Thiago Ramil, cujas histórias devem ser sempre contadas - mesmo na voz baixa de um acalanto. 

ROGER LERINA

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