08 de Setembro de 2026
NILSON SOUZA
O mapa corrigido
Adoro mapas. Devo ter sido infectado por algum bicho geográfico quando andava de pés descalços nos campinhos de futebol do bairro Sarandi, onde passei a infância. Não peguei doença de pele, mas fiquei com uma certa desorientação cognitiva. Se mudo o trajeto rotineiro, me perco. Sempre que me aventuro por território desconhecido, faço um desenho prévio do trajeto ou busco algum outro recurso gráfico. Bendito seja o gênio da lâmpada que inventou o GPS!
Mas meu gosto pela cartografia vai muito além do trânsito. Sou fascinado pelo mapa-múndi, em todas as suas dimensões. Às vezes fico olhando para o globinho do meu escritório e viajo de um polo a outro. Outro dia fiquei imaginando se seria possível ir a pé de Torres à Namíbia quando os continentes estavam unidos na Pangeia, 300 milhões de anos atrás.
Pois vem da África a mais recente alteração na representação plana da nossa Terra geoide. Por iniciativa da República do Togo, a Assembleia Geral da ONU aprovou na semana passada a substituição do tradicional mapa-múndi de Mercator por um desenho atualizado, que corrige distorções no tamanho e na proporção das massas de terra.
A iniciativa batizada de "Corrija o Mapa" foi aprovada por 164 países, com um único voto contrário, o dos Estados Unidos. Não podia ser diferente: Trump, como se sabe, tem o seu próprio mapa planetário, com seu umbigo em primeiro plano, Nova York como capital do império Maga e pequenas repúblicas bananeiras no restante.
Pois o Brasil ficou mais comprido no novo mapa-múndi. Fica-se com a impressão de que agora vai levar mais tempo para ir do Oiapoque ao Chuí, que nem é a maior distância no território nacional, pois tem um pontinho em Roraima ainda mais longe do Extremo Sul. Brincadeira, claro, a mudança gráfica não altera a realidade.
Mas mexe com a autoestima dos habitantes. No mapa antigo, a África era quase do mesmo tamanho da Groenlândia. Agora é 14 vezes maior. Na parte que nos toca, a América do Sul também espichou e o Brasil foi junto. Antes, era do tamanho do Alasca. Agora é cinco vezes maior.
Mas não se iludam, é apenas uma representação gráfica. Cuidado com o umbigo! _ A mudança gráfica não altera a realidade, mas mexe com a autoestima dos habitantes
Nenhum comentário:
Postar um comentário