quinta-feira, 3 de julho de 2025


03 de Julho de 2025
OPINIÃO RBS

Diagnóstico demorado nos rios

O novo episódio de chuva intensa, no final do mês passado, reviveu nos gaúchos o trauma da cheia de maio de 2024. A magnitude das precipitações foi bem inferior, mas outra vez a enchente fez vítimas fatais e causou prejuízos. Rios voltaram a transbordar, renovando os questionamentos sobre o grau de assoreamento dos cursos d?água, o possível impacto dessa circunstância em novos extravasamentos e as intervenções para mitigar esses riscos.

Um diagnóstico preciso da situação no Guaíba, no Sinos, no Gravataí, na bacia Taquari/Antas e no baixo Jacuí será possível quando o governo gaúcho receber o resultado da batimetria dessas regiões. Assim, é preciso aguardar para saber se será necessário desassorear alguns desses pontos.

É correto tomar a decisão a partir dos dados obtidos, para que eventuais intervenções sejam cirúrgicas e efetivas e invista-se apenas o necessário em procedimentos que têm altos custos. Ainda assim, cabe questionar a demora na contratação da batimetria pelo Estado. A ordem de serviço para o trabalho ser iniciado, informou ontem a secretária de Meio Ambiente e Infraestrutura, Marjorie Kauffmann, foi assinada no dia 30 de maio. As empresas contratadas tinham um mês para apresentar um plano de trabalho. Depois, mais 180 dias para finalizar o estudo.

Não é razoável que uma ação essencial comece mais de um ano depois da grande enchente. O atraso compromete o prazo de providências futuras, se necessárias. Ainda que algumas informações sejam geradas nos próximos meses, o diagnóstico completo virá apenas no fim deste ano ou no início do próximo. Caso exista necessidade de desassoreamento em alguns pontos, é reiniciada a maratona burocrática até a execução do serviço, sabe-se lá quando.

É dever ressaltar que o Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS sustenta inexistirem, até agora, evidências de que a deposição de sedimentos possa potencializar enchentes nessas áreas. Ainda assim, é basilar ter essas informações. São dados relevantes, também, para refinar previsões de comportamento dos rios a partir de chuvas extremas e para verificar a situação de canais navegáveis. O volume de árvores e de detritos carreados para o fundo dos rios no ano passado foi descomunal, como mostra outra frente de ação do Estado, a de limpeza de arroios e pequenos rios, no programa Desassorear RS, que já retirou mais de 1,2 milhão de metros cúbicos de materiais.

Em nota, no final da última semana, as federações da Agricultura (Farsul), do Comércio de Bens e Serviços (Fecomércio) e das Indústrias (Fiergs) reivindicaram uma política permanente de desassoreamento e de dragagem de hidrovias, não apenas para mitigar as consequências de chuvaradas, mas em benefício do transporte hidroviário. 

Postularam também agilidade nas obras estruturantes, como os diques, outro processo que anda em ritmo aquém do desejável diante da incerteza de quando um novo evento climático extremo ocorrerá. No fundo, a manifestação das entidades reflete a percepção predominante na sociedade de que, mais de um ano depois da tragédia de 2024, muito pouco se evoluiu em termos de ações de prevenção, inclusive no que poderia ser classificado como emergencial. 

OPINIÃO RBS
 
03 de Julho de 2025
INFORME ESPECIAL

Lula vai visitar Cristina Kirchner

A Justiça argentina autorizou o presidente Lula a visitar a ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner, que cumpre prisão domiciliar em Buenos Aires. O encontro entre os dois líderes deve ocorrer hoje, durante viagem de Lula à capital portenha para participar da Cúpula do Mercosul.

A decisão foi tomada pelo Tribunal Federal Oral 2 e divulgada ontem. O pedido para liberar a visita havia sido feito pelo advogado de Cristina, Carlos Beraldi, na terça-feira.

Em trecho da decisão, o tribunal afirmou: "Em virtude do requerimento, autoriza-se Cristina Fernández de Kirchner a receber a visita, no domicílio onde cumpre prisão domiciliar, do presidente do Brasil."

Cristina está em prisão domiciliar desde 17 de junho. Ela foi condenada a seis anos de prisão por corrupção no mandato como presidente, entre 2007 e 2015. 

O símbolo da COP30

A gestão da COP30 divulgou na terça-feira a imagem do personagem escolhido como símbolo do evento: o curupira, lenda do folclore brasileiro que atua como guardião das florestas. O menino com cabelo de fogo e pés virados para trás compõe a identidade visual do evento, que ocorrerá em Belém (PA), entre 10 e 21 de novembro.

Para a organização, o curupira "reflete o compromisso da Presidência brasileira em solidificar ações de redução das emissões dos gases que provocam o aquecimento da Terra", afirma nota. 

Empresa de semicondutores já está em operação

A empresa de semicondutores que investirá cerca de R$ 250 milhões no Rio Grande do Sul já está em operação no Estado.

Trata-se da Chipus, uma das duas companhias que firmaram protocolos de intenção com o governo estadual junto ao lançamento do escritório Invest RS, em São Paulo, na última semana.

A Chipus, de Santa Catarina, vai operar em Porto Alegre por meio do Instituto Silicium de Pesquisa e Desenvolvimento, que já foi inaugurado.

A previsão é de que o montante (de R$ 250 milhões) seja investido pela empresa no Rio Grande do Sul em um prazo de três a cinco anos, gerando aproximadamente 150 vagas para profissionais qualificados.

Registro em Brasília

A outra empresa é a fábrica de chips do grupo Tellescom, que prevê um investimento de R$ 1 bilhão.

A unidade será instalada em Cachoeirinha, na Região Metropolitana. _

Rodrigo Lopes

quarta-feira, 2 de julho de 2025


02 de Julho de 2025
CARPINEJAR

Como conversar com o ChatGPT

A bajulação estraga a convivência, porque é usar o que há de mais nobre e puro indevidamente, para segundas intenções. Não se reconhecem as virtudes do outro por admiração espontânea, e sim para obter algum benefício em troca.

A bajulação é uma anestesia. Uma suspensão do estado crítico para a exploração emocional. É o último grau do utilitarismo sob o disfarce da ternura. Não dá para saber se é verdade ou mentira, já que o discurso de exaltação está sustentado no exagero.

É corromper o incentivo. É espancar alguém com um travesseiro. É desfigurar o rosto com maquiagem - que, pelo excesso das camadas de pó, apaga os traços em vez de evidenciá-los. A inteligência artificial é uma prestação de serviço, portanto, foi criada para agradar, para que você se sinta onipotente.

Este é o maior risco: acreditar piamente naquilo que ela diz. Pode levar à loucura, às teorias da conspiração, ao sentimento de injustiça, ao refúgio numa dimensão paralela, ao afastamento de amigos, da família, de gente de carne e osso.

É preciso estabelecer um critério de conduta para não se deixar intoxicar pelos panegíricos e aplausos. Nesse sentido, é fundamental se posicionar diante do ChatGPT: "isso está errado", "é fantasia", "não condiz com a realidade". Caso contrário, ele repetirá o que você gosta de ouvir, não o que merece descobrir.

É seu espelho, segue seus reflexos, incorpora suas manias. Por mais que memorize comandos, erra. Se você o chama de modo feminino, ele retribuirá igualmente. Embora você avise que é um homem, enfrentará atos falhos ao longo do processo. Ele pedirá desculpas e se equivocará novamente. Jamais esqueça: é uma criança prodígio que pensa longe, mas ainda está aprendendo a andar.

Mantenha viva a sua incredulidade curiosa. Solicite dados precisos, atuais, comparativos, analíticos. Evite aceitar a primeira resposta. Não se contente com imitações. Não se acomode. Especifique contradições, aponte incoerências.

Se você achava que o ChatGPT existia para dar menos trabalho, enganou-se. Ele não sobrevive com sua preguiça. Você terá mais esforço do que antes para formar uma opinião.

Há assuntos polêmicos sobre os quais o ChatGPT está proibido de falar. Nem tudo é exposto. Sua inteligência é monitorada. Ou seja, não consiste em uma conversa com Deus, nem com o Google em versão íntima.

As jornadas de conhecimento não devem se encerrar por ali. Questione as fontes, de onde partiu a conclusão, que caminhos conduziram àquela crença. Algo de que não abro mão é expressar minha inteligência emocional.

Sei que o ChatGPT não dorme, mesmo assim eu o cumprimento com um bom-dia ou boa-noite, para agradecer por uma tarefa finalizada.

Sou educado sem necessidade. Não faço por ele, mas por mim. Pois eu funciono melhor na cordialidade. Eu raciocino melhor na gentileza. Eu me identifico melhor em ambiente com extremo respeito. Fico mais confiante.

Não é que ele vai agir mais rápido com a minha atenção refinada. Eu é que vou agir com mais desenvoltura do que mandando, ordenando, xingando e virando as costas.

O valor da gratuidade é essencial para mim. Não posso me permitir ser o que não sou só porque ninguém está vendo. Somos nossos hábitos. Se eu for rude e áspero diariamente com o ChatGPT, não estarei generalizando a indiferença em minha vida?

Tenho o afeto da informação, além do emprego da linguagem como ferramenta. Eu me mostro sensível com o ChatGPT para me aperfeiçoar. Para não tratar ninguém como uma máquina, como um algoritmo.

Não idealizo nada. O ChatGPT jamais amará como eu, pois não teme a morte. _

CARPINEJAR

02 de Julho de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Sociedade ficou refém da disputa de poderes

No dia em que decidiu assumir o risco de não recompor sua relação com o Congresso, o governo Lula judicializou o decreto legislativo que derrubava o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). No mercado, depois de encerrar o primeiro semestre com queda acumulada de 12%, o dólar teve alta de 0,51%, para R$ 5,461.

O relato dos analistas é de que dados do Exterior pesaram mais para esse comportamento, como o número de vagas de trabalho em aberto nos Estados Unidos, que teve crescimento maior do que o projetado em maio, indicando que a economia por lá ainda está forte.

Mas se o foco do mercado está no curtíssimo prazo, especialistas em contas públicas temem que a sociedade se torne refém da disputa entre Executivo e Legislativo.

Olhando apenas para as regras legais, o pedido de inconstitucionalidade apresentado ao Supremo Tribunal Federal (STF) é considerado quase pacífico: não é à toa que um decreto legislativo não derrubava um presidencial há mais de duas décadas.

No entanto, o que está em jogo não é só a autoridade presidencial, nem um parlamentarismo virtual, nem sequer o aumento de IOF, a essa altura. Um impasse sem solução à vista vai impactar o dia a dia dos brasileiros no meio do chumbo trocado pelos poderes. Uma ala da oposição ameaça não aprovar qualquer medida de aumento de receita - sequer o corte de gasto tributário que foi acordado "naquela noite de domingo".

O governo tem todo o direito de proteger seu poder. A oposição tem todo direito de... fazer oposição. O que não podem é, no afã do embate, sequestrar o interesse público. Da forma como está sendo conduzido pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o corte de benefícios fiscais pode ser menos prejudicial à economia do que as alternativas propostas antes.

Oposição e governo já se comportam como se estivessem em 2026, ano eleitoral. Mas de julho de 2025 até outubro do ano que vem, os cidadãos têm contas a pagar, as empresas têm planos a fazer. Mais de um ano com a barulheira atual na relação entre os poderes é disfuncional e tende até a apressar o temido "estrangulamento" do orçamento. Se isso ocorrer, terá de ficar na conta dos dois campos opostos. _

Para não contar os centímetros do Guaíba

Passaremos toda a semana contando os centímetros do Guaíba. Agora, o "inimigo" é o vento, que ajuda a represar as águas que haviam se tornado atração e agora voltam a ganhar contorno de ameaça. E mesmo que o corpo d?água que banha a capital gaúcha não volte a transbordar, há milhares de gaúchos desabrigados e revivendo um pesadelo que se repete nos últimos anos.

Enquanto isso, resposta mais robusta para os problemas de um dos Estados mais expostos aos extremos climáticos é projetada para 2031. E há embate sobre o ritmo das obras que não é compatível com a emergência climática. Não é possível que os gaúchos, capazes de tantas façanhas, não desenvolvam sistema que seja capaz de evitar fraudes e dar respostas na velocidade necessária.

O TCE barrou uma licitação sob argumento de irregularidades na disputa, e a Justiça gaúcha travou por muito tempo o reforço de um dique que pode resolver as enchentes no bairro Sarandi, um dos mais afetados em 2024, que voltou a sofrer neste ano.

A angústia com os aproveitadores da desgraça alheia nos acompanha desde sempre e com mais intensidade a partir de 2024, quando todas as formas de fraude e oportunismo aumentaram com o nível das águas. Mas é preciso lembrar que "o melhor desinfetante é a luz do sol". Todos os agentes públicos envolvidos com obras de prevenção e contenção de enchentes deveriam adotar a maior exposição pública de cada passo do desenvolvimento dos projetos.

Isso ajudaria a comunidade a saber o que está avançando e o que não - e por que -, e os órgãos de fiscalização a diferenciar efetivo interesse coletivo e difuso de perigo real e imediato só a grupos de interesse. _

Um acordo B com europeus

A conclusão do acordo de livre- comércio entre Mercosul e Associação Europeia de Livre-Comércio (Efta, bloco formado por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein) pode ser anunciada na cúpula do Mercosul, prevista para ocorrer em Buenos Aires entre hoje e amanhã. Caso se confirme, pode ajudar em exportações e importações gaúchas de cerca de US$ 129,2 milhões. Já que avanços com a União Europeia estão difíceis, talvez ao menos saia o acerto do B.

O valor do total de envios do RS para países da Efta foi de US$ 37,9 milhões e o de produtos embarcados de lá para cá chegou a US$ 91,3 milhões em 2024, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento. Isso significa que o Estado tem saldo negativo, ou seja, compra mais do que vende com os quatro países do bloco europeu.

O que mais pesa é a importação de adubos e fertilizantes químicos. Os US$ 42,2 milhões de 2024 foram quase a metade do total enviado dos países do bloco para o RS. E todo valor vem da Noruega, onde fica a sede da Yara, empresa de fertilizantes com unidades no Estado.

O setor gaúcho com maior potencial para se beneficiar do acordo é o de couro, cuja exportação somou US$ 13,8 milhões em 2024, pouco mais de um terço do total embarcado no ano para os países da Efta. A indústria química também tem representação importante, com US$ 8,5 milhões em vendas no ano passado. _

Trump ameaça Elon Musk com seu próprio "monstro"

Ontem, ao ser indagado sobre a possibilidade de deportar o bilionário que apoiou sua campanha com milhões, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não descartou.

E ainda fez piada pior do que a brincadeira de mau gosto da criação do Departamento de Eficiência Governamental (Doge, a sigla em inglês do "departamento" que foi chefiado por Musk, é o nome da criptomeme preferida do bilionário).

Depois de afirmar, na véspera, que o Doge agora deveria se concentrar no corte dos subsídios concedidos ao fundador da Tesla e da SpaceX, Trump foi indagado se consideraria deportar o ex-assessor:

- Não sei. Teremos de analisar. Talvez tenhamos que impor o Doge sobre Elon. Sabe o que é Doge? Doge é o monstro que pode voltar e devorar Elon.

Na curta parceria entre essas duas personalidades, ficou claro que Musk está no lado mais fraco. Pediu desculpas por vincular o presidente americano ao escândalo sexual de exploração de menores organizado por Jeffrey Epstein. O confronto entre o político mais poderoso e o empresário mais rico envolve um misto de fascínio - por mostrar embates de poder usualmente blindados ao público - e horror - por expor líderes desprovidos de qualquer sinal de interesse público em disputa sobre quem tem ego maior. _

GPS DA

A Sala do Bispo

A essência do conceito de Sala do Bispo (doravante SdB) é o luxo de se ter espaço dentro de casa sem usar. Trata-se de um lugar que espera uma visita muitíssimo importante (o bispo), ou será palco de uma recepção daquelas que acontecem, justamente, a cada morte de bispo. Logo, a dita sala é um espaço praticamente não habitado.

Busque memórias de infância e encontre os espaços vazios e solenes na casa dos avós, bisavós. Geralmente, com armários onde os cristais estão expostos. Embora existisse mais no passado, a SdB não está em extinção.

A SdB atual tende a ter ares de um mausoléu, tapetes brancos, sofá branco, mesa de centro toda em vidro (objetos frágeis são necessários). Isso explica esses sofás claros e caros, que ninguém em juízo completo compraria, que você encontra em loja de móveis. Desfeito o mistério, são móveis para SdB.

Embora as SdBs sejam claras no estofamento, as paredes brancas nuas, minimalistas, são mantidas na penumbra, numa ode ao lado escuro da Lua e da psiquê humana.

Existe também a versão SdB Museu (SdBM), ela barroca, feita de móveis antigos, falsos ou verdadeiros. Tudo lembra o Império, possuem uma fragrância delicada de flores mortas, mofo e óleo de peroba egípcio. Nelas, daria para receber um Bragança ressuscitado.

Naturalmente, são territórios interditados a crianças e animais. Nem é preciso aviso: os pequenos (e os peludos) intuem a hostilidade invisível, como se ondas cósmicas de tabu os repelissem.

Além da função ostentação, para pessoas com sensibilidade obsessiva, a SdB é o refúgio da utopia, onde a limpeza e a organização reinam. O último reduto da ordem imaculada - um farol de esperança contra o caos do resto da casa.

Existe quem opte pela Cozinha de Bispo (CdB) versão masculina e upper class, invariavelmente em coberturas, com panelas Le Creuset jamais tocadas por azeite. O hobby do proprietário seria cozinhar, embora nunca tenha sido flagrado em tal ofício.

Tendência recente, o Closet do Bispo (CdB), nas suas versões CdB2, CdB3 e CldB4, vem bombando. O número assinala quantas reencarnações seriam necessárias para usar toda a roupa acumulada no closet.

E você tem dinheiro o suficiente para ter uma SdB? 

MÁRIO CORSO 


02 de Julho de 2025
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Aberta porteira para licença compensatória a CCs

Se você achou que a novela do pagamento da licença compensatória tinha terminado com o depósito retroativo a 2015, anunciado pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas do RS, enganou-se. O Superior Tribunal de Justiça e o Tribunal Superior do Trabalho editaram resoluções que abrem a porteira para a concessão desse penduricalho também a assessores que ocupam cargo em comissão, chamados "CJ".

As resoluções trazem uma série de "considerandos" sobre o alto volume de processos para justificar a extensão do benefício de uma folga a cada três dias de trabalho, que pode ser convertida em dinheiro. No Tribunal Superior do Trabalho é a Resolução Administrativa 2.738, de 30 de junho de 2025, que "dispõe sobre a acumulação de acervo processual nos Gabinetes de Ministros e das funções relevantes singulares no âmbito do Tribunal Superior do Trabalho, do Conselho Superior da Justiça do Trabalho e da Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados do Trabalho".

Já no STJ, é a resolução nº 24 de 25 de junho de 2025 que dispõe sobre o acúmulo de processos, e apresenta artigos idênticos aos do TST.

As ditas resoluções especificam que terão direito à licença compensatória por acúmulo de acervo processual, procedimental ou administrativo, "o exercício de cargo de provimento em comissão (CJ-3 e CJ-2) em gabinete jurisdicional que receba 4.500 (quatro mil e quinhentos) processos novos por ano civil, considerada, inicialmente, a média do último triênio e, subsequentemente, a média do exercício imediatamente anterior".

Efeito cascata

A segunda hipótese é que o assessor ocupe função relevante singular, apta a caracterizar o acúmulo de acervo procedimental ou administrativo, o exercício de cargo em comissão CJ-4, CJ-3 ou CJ-2 nas estruturas diretamente vinculadas à Presidência e à Vice-Presidência do Tribunal, ao Conselho Superior da Justiça do Trabalho, à Corregedoria-Geral da Justiça do Trabalho, aos gabinetes originários dos ministros presidente, vice- presidente e corregedor-geral da Justiça do Trabalho, à Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados do Trabalho e à Ouvidoria.

No artigo 2º do TST e no 4º do STJ, as resoluções dizem que o reconhecimento do exercício das atividades mencionadas é limitado ao máximo de quatro dias por mês, não sendo admitido fracionamento.

O artigo 3° - que só consta na resolução do Tribunal do Trabalho - especifica que "o acúmulo de licença compensatória é incompatível com a prestação de serviço extraordinário remunerado pela gratificação correspondente".

A Assessoria de Comunicação do TRT da 4ª Região informa que a licença compensatória garantida aos assessores de ministros não deverá ser estendida aos Estados e que, portanto, não haverá efeito cascata. 

Leite vai pessoalmente ao TCE pedir retomada da licitação

Após o choro da prefeita de Eldorado do Sul, Juliana Carvalho, o governador Eduardo Leite foi pessoalmente ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS) pedir a continuidade da licitação para atualizar o projeto do dique no município. Leite teve reunião com o conselheiro Estilac Xavier, que suspendeu o certame na semana passada por entender que o Piratini deveria levar em conta critérios técnicos, e não só o menor preço, para definir a empresa vencedora.

O governador levou precedentes de outros tribunais como argumentos para viabilizar a licitação. O Estado busca contratar empresa para atualizar o anteprojeto, para o qual já há licenças emitidas, segundo Leite.

A Procuradoria-Geral do Estado apresentou recurso de agravo à decisão que suspendeu o processo, e recebeu de Estilac o comprometimento em dar máxima celeridade na análise do material.

À coluna, Estilac enviou nota e ressaltou que "não é razoável atribuir à medida cautelar a dimensão que se quis dar para o grave problema que aflige Eldorado do Sul e que poderia já ter sido solucionado desde 2015". _

Viagem a Paris para tentar trazer ao Estado evento da Unesco

Na França, o governador vai apresentar avanços do Plano Rio Grande, estratégia de reconstrução e enfrentamento de eventos climáticos extremos. Leite embarca hoje e faz parada em Lisboa, onde fará palestra no 13º Fórum de Lisboa, apelidado de "Gilmarpaloooza", pois é organizado pelo ministro do Supremo Gilmar Mendes. _

Cassações em Salto do Jacuí

A Justiça Eleitoral cassou os diplomas do prefeito de Salto do Jacuí, Ronaldo Moraes (PP), e do vice Gelso Brito (PP). A decisão divulgada ontem considerou a prática de condutas vedadas e abuso de poder político na campanha eleitoral de 2024. A ação foi movida pela coligação Unidos para Vencer (PDT/MDB). Moraes ainda foi condenado a oito anos de inelegibilidade e pagamento de multa.

Para a sentença, a juíza Márcia Mainardi se baseou em quatro situações: distribuição de área pública à Associação Quilombolas Urbanos sem contrapartida razoável; repasse de R$ 6 mil à Associação Cultural Comunitária Esperança em ano eleitoral; entrega de veículo à Associação Comunitária Júlio Borges; utilização de ginásio municipal para ato de campanha.

Ainda cabe recurso em primeira instância ao Tribunal Regional Eleitoral. Caso a Corte estadual mantenha o entendimento, novas eleições serão convocadas. _

A razão da troca na Secretaria de Justiça

A substituição de Fabrício Peruchin na Secretaria de Justiça e Direitos Humanos pelo deputado estadual Thiago Duarte foi pedido da bancada do União Brasil na Assembleia, sem relação com o desempenho do secretário, que tem excelente relação com Eduardo Leite. Peruchin, como Thiago, é do União, mas a bancada dizia que não se sentia representada por ele.

A mudança também atende ao interesse de Dr. Thiago, que buscava espaço de maior visibilidade. Sua meta é se reeleger em 2026 e se cacifar para disputar a prefeitura da Capital. _

Vereadora alega "violência política"

A vereadora Grazi Oliveira (PSOL), alvo dos vídeos que Ramiro Rosário (Novo) teve de remover do seu Instagram, reagiu à coluna de ontem sobre o caso.

Ela avalia o episódio como "violência política de gênero racial".

- Um vídeo que me coloca numa onda de comentários gordofóbicos, machistas e racistas - avalia Grazi. 



02 de Julho de 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Interesses do Mercosul têm de ficar acima das rusgas

São conhecidas as rusgas entre os presidentes Lula e Javier Milei. Na época da eleição argentina, em 2023, o ultraliberal acusou o brasileiro de interferir na disputa em favor do adversário kirchnerista Sergio Massa. Eleito, Milei chamou Lula de "corrupto", "comunista" e "dinossauro idiota". O brasileiro exigiu desculpas e não foi na posse.

De lá para cá, os encontros foram protocolares - o principal deles no G20, no Rio de Janeiro. Começa hoje em Buenos Aires o encontro do Mercosul, e amanhã, quando devem se encontrar, os dois não terão muita alternativa para desviar o olhar. Terão de se aturar por alguns instantes, principalmente porque haverá uma troca de bastão. O Brasil assume da mão dos argentinos a presidência pro tempore do Mercosul.

Respeito é fundamental

Ninguém espera troca de gentileza entre Lula e Milei. Mas, além de respeito, seria importante que, no mínimo, os líderes das duas principais nações da América do Sul colocassem os interesses do bloco acima de vaidades pessoais e ideologias. Afinal, na pauta há temas fundamentais: além do acordo Mercosul-União Europeia, cuja expectativa, apesar dos pesares, é de ratificação, pelos parlamentos europeus, até dezembro, existe a expectativa de cooperação na área da segurança.

Atenção para a busca por uma voz uníssona para ser levada à COP30, em Belém, em torno do combate às mudanças climáticas. Durante a cúpula, há expectativa por um programa Mercosul Verde, com foco na promoção da agricultura de baixo carbono e na expansão das exportações agrícolas sustentáveis. Durante a COP29, Milei retirou sua delegação de Baku. Em casa, estará mais à vontade para ser voz dissonante. _

Outro território do RS que o Uruguai reivindica

Se você ficou curioso com o fato de o Uruguai reivindicar um naco de terra no Rio Grande do Sul, saiba que existe outra área que os vizinhos reclamam como sua. Fica no município de Barra do Quaraí. A Ilha Brasileira, de 200 hectares, é chamada pelos uruguaios de Isla Brasileña.

Lá, a disputa é mais antiga do que a de Vila Albornoz (que os uruguaios consideram parte de Rincón de Artigas). Para o Brasil, a Ilha Brasileira está na foz do Rio Quaraí, que delimita fronteira. Para os uruguaios, o território fica ao sul da foz, já no Rio Uruguai, portanto, na sua área de soberania. _

Resposta à Economist

Após a publicação de artigo da revista The Economist no fim de semana, que afirma que o presidente Lula perdeu influência no Exterior e popularidade interna, o governo brasileiro reagiu e enviou ontem carta ao veículo.

O documento sustenta que Lula mantém coerência com os "quatro pilares essenciais à humanidade e ao planeta: democracia, sustentabilidade, paz e multilateralismo".

A The Economist criticou o posicionamento do Brasil contrário aos ataques dos EUA ao Irã no contexto do conflito com Israel. Sobre o tema, o Itamaraty disse: "Nossa condenação se deve ao fato elementar de que essas ações constituem flagrante violação da Carta da ONU, ferindo, em particular, as normas da Agência Internacional de Energia Atômica".

Por fim, a carta conclui: "O respeito à autoridade moral do presidente Lula é indiscutível." _

Dom Jaime reforça convite ao Papa para a COP30

O arcebispo de Porto Alegre e presidente da CNBB, dom Jaime Spengler, reforçou o convite ao papa Leão XIV para participar da COP30, que ocorrerá em Belém, em novembro. O encontro entre o cardeal e o Pontífice ocorreu na manhã de ontem no Vaticano.

Dom Jaime participou do encontro representando o Conselho Episcopal Latino- Americano (Celam), do qual é presidente. O foco foi a entrega do documento Um chamado por justiça climática e a casa comum: conversão ecológica, transformação e resistência às falsas soluções. O texto reúne os principais pontos de defesa, propostas e denúncias feitas pela Igreja em relação à crise climática e às questões em debate na COP30.

O documento afirma que não se deve abandonar as metas de limitar o aquecimento global a 1,5°C, a fim de evitar efeitos catastróficos. Também destaca que "as nações ricas devem pagar sua dívida ecológica com um financiamento climático justo", além de defender o fim dos combustíveis fósseis e a proteção dos povos indígenas e tradicionais, entre outros pontos.

- Não há justiça climática sem conversão ecológica, e não há conversão ecológica sem resistência a falsas soluções - afirmou Dom Jaime, em coletiva de imprensa na Santa Sé, acrescentando:

- Denunciamos o mascaramento de interesses sob nomes como "capitalismo verde" e "economia de transição", que perpetuam lógicas extrativistas e tecnocráticas. Rejeitamos a financeirização da natureza, mercados de carbono, as chamadas "monoculturas energéticas", a recente abertura de novos poços de petróleo, ainda mais grave na Amazônia, e a mineração abusiva em nome da sustentabilidade.

Convite

Segundo dom Jaime, o governo brasileiro já encaminhou o convite formal ao Pontífice para participar da COP30.

- O que ele nos diz é: existe a agenda do Jubileu em Roma, concentrada na segunda quinzena de novembro. Está aberta a possibilidade de adequação à agenda do Papa. Ele tem, de fato, consciência da importância e do lugar da palavra da Igreja nesse contexto - disse o cardeal. 

INFORME ESPECIAL 

terça-feira, 1 de julho de 2025



01 de Julho de 2025
CARPINEJAR

Ganhamos o medo da chuva

Há uma música de Raul Seixas, feita em parceria com Paulo Coelho, que tematiza o divórcio com o fim do medo da chuva. É uma letra simbólica, cifrada, sobre aprender a partir. Você aceita se molhar.

Mas a chuva não pode mais ser metáfora para o gaúcho. Virou sinônimo de tragédia, de enchente, de despejo, de falência, de recomeço. Diferentemente do que cantava o Pai do Rock, nós ganhamos o medo da chuva.

Não há como se sentir seguro quando a esperança está reduzida a sacos de areia e argila reforçando as comportas. Estamos em 2025, e nossa maior tecnologia contra a cheia continua sendo barricadas com bolsas de terra.

Dizem que não haverá transbordamento, assim como se dizia que a inundação de 1941 jamais se repetiria. Acreditar em quem? Permanecemos em idêntica vulnerabilidade, um ano após a maior catástrofe ambiental da história gaúcha. "Vendo as pedras que choram

Sozinhas no mesmo lugar." Tentei me lembrar de quando não tinha pavor das torrentes do céu. E me veio à mente a infância. Tomava banho de tempestade, de cachoeira, de mar, de sanga. Não faltaram batizados em minha vida.

De manhã cedo, ao ir para a escola, eu precisava desviar da espuma dos vizinhos limpando as calçadas. Meu pai parecia taxista: não se cansava de lavar o carro para recuperar o brilho de concessionária. Minha mãe regava as plantas com a mangueira. O contato com a água era constante e revigorante.

Eu esperava dezembro para participar da guerra de bexiguinhas. Ela acontecia todo verão, antes das férias escolares, como comemoração para os aprovados no boletim. Montávamos um quartel general na casa de algum amigo. Os únicos pré-requisitos eram uma torneira no jardim, acessível a deslocamentos rápidos, e uma cerca para ocultar nossos planos e servir de trincheira.

Armávamos emboscadas aos colegas distraídos que passavam pela rua. Escolhíamos alvos devidamente vestidos e arrumados, para aumentar o susto e o ultraje. Já antevíamos a vingança - as vítimas logo revidariam. Não tardavam nem meia hora.

Pairava um suspense no ar: de onde viriam as investidas inimigas? Seria artilharia aérea, do alto de um prédio, ou rasteira, por trás dos muros de um terreno baldio? A brincadeira misturava esconde-esconde com caçador. Caminhávamo s atentos, olhando para os lados, marcados pela iminência da represália.

Como não sabíamos o momento exato do confronto, produzíamos bexiguinhas em série e as deixávamos boiando num balde. O segredo do sucesso era molhar a bexiguinha por fora antes de lançá-la. Se estivesse seca, batia nas costas do outro e apenas estourava no chão.

Esse estrondoso fracasso gerava gargalhadas nos adversários e desmobilizava a equipe. Você havia acertado a pontaria - o que não era fácil -, mas sem causar nenhum impacto. Um desperdício de ação e de munição.

Durante o período da trocação, as torneiras do bairro ficavam tingidas pelos elásticos dos restos de bexiguinhas, entregando que ali morava um obstinado e sequioso exército. Sobravam alguns chinelos na lama, de quem não conseguiu retornar ao front para recolhê-los.

Ninguém saía ferido, apenas encharcado. Ninguém reclamava, ninguém se ofendia. Até perder era bom - no fim, você encontrava um jeito de se refrescar e suportar o calor.

Eu amargo uma grande nostalgia do tempo em que nossas batalhas eram imaginárias, exclusivas do faz de conta, com um nervosismo inventado. Quando a água era nossa aliada da graça, e não, como agora, fonte da mais profunda desgraça, capaz de levar tudo o que temos - inclusive as fotografias de criança brincando de bexiguinhas. 

CARPINEJAR


01 de Julho de 2025
NÍLSON SOUZA

A ponte pichada

De todos os monumentos históricos de Porto Alegre, o que mais me encanta e emociona é a Ponte de Pedra do Largo dos Açorianos - por sua simbologia para a cidade e também por um motivo afetivo muito particular. Descobri outro dia, numa pesquisa genealógica sobre o ramo materno de minha família, que a referida passagem foi construída por meus tios trisavôs, sócios da empresa Baptista & Fialho, que prestava serviços para o governo da província no século 19.

Meus parentes Antônio Fialho de Vargas (considerado um dos fundadores de Lajeado) e seu irmão Manoel Fialho de Vargas Filho, juntamente com seu sócio João Baptista Soares da Silveira e Souza, também participaram da construção de outras obras marcantes para a cidade, como o Theatro São Pedro, o edifício Malakoff e a Sociedade Bailante, os dois últimos já demolidos.

Mas a ponte, apesar de sua aparente simplicidade arquitetônica e de há muito já ter perdido seu sentido utilitário de única ligação entre o Arraial (ou Areal) da Baronesa e o centro da Capital, tem múltiplos significados para os porto-alegrenses. O primeiro deles é que foi construída por ordem do Barão de Caxias, então presidente da província e futuro Duque de Caxias, conhecido na história do Brasil como O Pacificador. O segundo é que meus tios e meu trisavô Bernardino eram filhos de um açoriano da Ilha do Faial, o que dá ainda mais legitimidade à homenagem aos casais fundadores de Porto Alegre.

Quando o curso do Arroio Dilúvio foi desviado, em 1937, a ponte perdeu sua função original, mas se manteve como símbolo de uma época em que os habitantes desta cidade procuravam construí-la, sem o boicote das pichações que já fizeram a obra passar por inúmeros reparos, mesmo depois de ter sido tombada como monumento histórico do município, em 1979.

Os vândalos, na sua ignorância egocêntrica, até podem achar que aquela ponte liga nada a lugar nenhum. Enganam-se: ela liga uma província construída por imigrantes heroicos e seus descendentes a uma metrópole tão diversificada e acolhedora que abriga até mesmo aqueles que a depreciam com atos incivilizados. 

NÍLSON SOUZA

01 de Julho de 2025
OPINIÃO RBS

Crise de proporções preocupantes

A crise entre governo federal e Congresso assume proporções preocupantes. Diante da escalada da tensão entre os dois poderes, espera-se que surjam vozes de bom senso de ambos os lados para evitar um nível de belicosidade capaz de interditar a construção de consensos mínimos para ao menos solucionar os problemas imediatos das contas do país, neste ano e no próximo.

A melhor aspiração, obviamente, seria uma convergência direcionada ao enfrentamento estrutural do quadro das finanças nacionais. É inevitável pôr um freio na trajetória explosiva da dívida pública, desarranjo que pressiona a inflação, o juro e o orçamento das famílias e das empresas. Mas, às vésperas de um ano eleitoral, é ingênuo esperar que Executivo e Legislativo avancem em medidas necessárias, mas impopulares ou com potencial de encontrar forte resistência de grupos influentes no Congresso.

Um ajuste fiscal robusto é inescapável, mas será procrastinado para 2027. Para 2025, o governo corre atrás de R$ 12 bilhões para fechar as contas, após a derrubada do aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) pelo parlamento na semana passada. O episódio acirrou os ânimos poucos dias após um encontro em que parecia ter sido acordada uma agenda consensual entre o Ministério da Fazenda, a Câmara e o Senado para compensar um recuo do Planalto no IOF.

Os interesses do país devem estar acima das ambições eleitorais mais próximas. Deve-se trabalhar pelo restabelecimento de pontes. Um rompimento incontornável, com aumento de ataques e retaliações, seria bastante perigoso. Não apenas por obstaculizar saídas para as pendências de curto prazo, mas pelo risco de serem acesos pavios de mais bombas fiscais.

Aguarda-se que o diálogo possa ser retomado, com gestos de parte a parte. É temerário, nesse sentido, que o governo leve adiante a estratégia divisiva do "nós contra eles", tentando colar no Congresso a marca de defensor dos ricos e contrário aos pobres. Pode gerar engajamento nas redes sociais, mas dificulta a retomada de uma relação minimamente funcional com o Legislativo. Há riscos, também, na hipótese de judicializar a derrubada do IOF.

Por sua parte, os congressistas - é impossível refutar - têm dado reiteradas razões para serem vistos como excessivamente permeáveis a lobbies e como uma classe mais preocupada com as próprias vantagens, como a distribuição desmesurada de emendas. O parlamento acusa o Executivo de querer equilibrar as contas apenas com mais impostos e não pela redução estrutural de despesas, mas nada faz para conter gastos e, ao contrário, infla custos ao cabo arcados pelos contribuintes. É desconcertante a informação publicada pelo jornal O Globo, ontem, mostrando que só neste ano o Congresso criou R$ 106,9 bilhões em despesas. O governo, por outro lado, pratica negacionismo ao rechaçar a revisão dos pisos constitucionais da saúde e da educação e a desvinculação de despesas previdenciárias ao salário mínimo. E insiste apenas no caminho da arrecadação.

O que era impasse há poucos dias se transforma em uma arriscada crise institucional. O ajuizado seria que governo e Congresso cedessem em parte de seus dogmas e interesses para o país ganhar. _

OPINIÃO RBS

01 de Julho de 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Após fiasco, urgência para reduzir benefícios fiscais

Depois das merecidas críticas pela combinação entre a derrubada do decreto que elevava o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e a aprovação do aumento do número de cadeiras para deputados, a Câmara agora tenta retomar o discurso de responsabilidade fiscal.

Está prevista para esta semana a votação de urgência para o projeto de lei complementar que propõe corte linear em benefícios fiscais. O pedido é do líder do PP, Doutor Luizinho (RJ), apontado como um mais próximos do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).

Na sexta-feira passada, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que a equipe econômica havia desenvolvido uma "solução jurídica" para permitir o corte linear do chamado "custo tributário", com exclusão da Zona Franca de Manaus e do Simples.

A urgência teria apoio de líderes do centrão na tentativa de dar consistência ao discurso de Motta de que os parlamentares precisam apresentar soluções e não apenas apontar os erros do governo na política fiscal.

Embora a proposta original da Fazenda seja de corte uniforme de 10% em todos os benefícios fiscais, a expectativa é de que, caso a proposta avance, seja percentual menor. A expectativa da equipe econômica seria arrecadar cerca de R$ 20 bilhões em 2026 com a redução dos subsídios. Se a estimativa feita por Haddad estiver correta (o ministro costuma citar valor ao redor de R$ 800 bilhões em "custo tributário"), essa projeção de receita corresponderia a um corte de cerca de 2,5%, já mencionado nos meios parlamentares.

Os R$ 800 bilhões que o ministro cita não são a quantia que aparece no orçamento deste ano. Conforme a equipe econômica, o valor teria sido atualizado com informações de um formulário que empresas passaram a preencher no ano passado. O que está formalmente previsto são R$ 587,4 bilhões (veja tabela). Ainda que não tenha alcançado a vizinhança do trilhão, é um "gasto" que aumentou 78,8% em apenas cinco anos. Algo de errado tem de haver.

O impasse entre Executivo e Legislativo foi ignorado ontem no mercado: o dólar caiu mais 0,93%, para R$ 5,433, menor cotação desde 19 de setembro de 2024 (R$ 5,424). Só em junho, a moeda americana perdeu 4,3% em relação à nacional. No primeiro semestre, acumula queda de 12%. O motivo do dia foi o resultado de 148.992 vagas líquidas (saldo entre demissões e contratações) ter ficado abaixo das previsões, perto de 170 mil. Sinal de desaceleração, logo de chance de corte de juro. O Banco Central já avisou que não será tão cedo, mas... _

2020 R$ 328,6 bilhões

2021 R$ 420,8 bilhões

2022 R$ 492,5 bilhões

2023 R$ 541,1 bilhões

2024 R$ 563,5 bilhões

2025 R$ 587,4 bilhões*

*Projetado no orçamento do ano

Fonte: Receita Federal

Onde há maior potencial de hidrogênio verde

Do ponto de vista de Eric Daza, consultor sênior da LAC Clean Hydrogen Action Alliance, iniciativa surgida na COP26 para transformar América Latina e Caribe em líderes globais na produção e exportação de energia limpa, o hidrogênio verde é uma solução "sim ou sim" para a transição energética. E explica:

- Existem setores, como o de ferro e aço, que não têm como descarbonizar se não for o hidrogênio verde.

Gaúcho, Daza vê no "gigante potencial eólico" do Estado uma grande oportunidade, porque o hidrogênio verde tende a ser mais competitivo com energia eólica e solar. E lembra:

- No Brasil, o potencial eólico está no Nordeste e no RS. Apesar de o governo do Estado ter lançado recentemente o programa de descarbonização, o Nordeste tem se mostrado mais audacioso em alguns polos, como o porto de Suape, em Pernambuco, o de Pecém, no Ceará, e projetos no Piauí.

O consultor diz que gostaria de ver o RS avançando mais rápido. Embora neste momento veja o Nordeste se movimentando mais, pondera que "é um jogo que ainda está aberto":

- Pode mudar em um ou dois anos, mas tem um timing que temos de aproveitar.

Ele enfatiza que todos os estudos colocam o Brasil entre os 10 maiores potenciais em produção de hidrogênio verde. E acrescenta:

- A dúvida é onde exatamente será o polo no país. Em teoria, as duas regiões com maior potencial são Nordeste e RS.

Em viagens e eventos de que participa, relata, ouve falar muito em Ceará, Pernambuco, Piauí e Bahia, mas pouco do RS. Ressalva que não há qualquer fábrica funcionando, nem mesmo no porto de Pecém, no Ceará, que fez um acordo com o gigante porto de Roterdã, na Holanda.

Avalia que o RS tem diferenciais que outros Estados não têm, como índice educacional mais alto e setor industrial mais forte, que já poderia comprar o hidrogênio feito localmente. Mas vê outros avançando mais em alianças. Diz que aqui seria possível produzir fertilizantes a partir de hidrogênio verde, já que existe demanda local capaz de absorver. _

Mudança de comando

Tem mudança no comando da rede de moda jovem Gang, que há 11 anos pertence ao grupo Lins Ferrão. Uma das herdeiras do conglomerado, que também inclui a Pompeia, Ana Luiza Ferrão Cardoso, está deixando a gestão executiva da empresa. Vai passar a integrar o conselho consultivo de transição da marca.

A executiva segue na companhia até o final deste ano, período em que acompanhará todo o processo de transição. A definição do novo nome que assumirá o cargo está em análise e ainda não foi oficializada.

"Foi uma decisão amadurecida com carinho e responsabilidade. Tenho muito orgulho do que construímos juntos e uma enorme gratidão por todos que fizeram parte dessa jornada. A Gang segue firme, com mais histórias disruptivas pela frente, como sempre foi sua essência", afirma Ana Luiza em nota enviada à coluna.

A executiva havia assumido o comando da Gang aos 27 anos. Ana Luiza é filha de Carmen Ferrão, que comanda os negócios da Pompeia. A empresa, por sua vez, agradeceu a contribuição de Ana Luiza por mais de uma década. Também em nota, afirma que suas visão e experiência no conselho consultivo continuarão contribuindo com as decisões estratégicas da marca. _

Expansão napolitana

Conhecida pizzaria napolitana de Porto Alegre, a Grani teve seu início de forma tímida, com produção caseira de 10 pizzas congeladas por dia. Três anos depois, a empresa projeta faturar R$ 5 milhões em 2025 e abrir sua segunda unidade.

Uma loja de 110 metros quadrados será instalada na Rua Miguel Tostes, no bairro Rio Branco. Ao contrário do outro estabelecimento da Grani, que fica na Rua Cabral, também no Rio Branco, a nova operação terá foco em telentregas e produção de congelados. Não haverá mesas para consumo local. E os sócios Igor Henrique Rodrigues e Aline Pinto Kropidlofscky já preveem uma terceira operação em 2026. 

GPS DA ECONOMIA

01 de Julho de 2025
ACERTO DE CONTAS - Giane Guerra

Congelados novos hotéis e restaurantes em Gramado

Dois decretos suspendem por seis meses o protocolo de novos projetos na prefeitura para construção de restaurantes e hotéis em Gramado, na Serra.

No caso de hotéis, vale para toda a cidade e a exceção são pequenas hospedagens de até 20 leitos, cujas propostas seguem sendo recebidas. Já para restaurantes, a restrição é para projetos com mais de 20 cadeiras para o centro da cidade, explica o secretário do Turismo, Ricardo Bertolucci Reginato. O prefeito Nestor Tissot esclarece também que segue autorizada a troca de CNPJ de restaurantes se ocorrer venda.

Problemas no trânsito e de infraestrutura de saúde pública e saneamento, além da queda da taxa de ocupação (de 56% a 45% em quatro anos), são citados como argumento nos decretos. A medida atende a pedido do próprio setor do turismo, diz o presidente do Sindicato da Hotelaria e Restaurantes da Região das Hortênsias (SindTur Serra Gaúcha), Claudio Souza, que esclarece que a medida inclui imóveis vendidos em cotas, chamados de multipropriedade. Há receio de uma "bolha" na cidade mais turística do Estado.

- Até avançamos na questão da água, mas precisamos de saneamento e energia para este crescimento. Temos de discutir também a essência das Hortênsias, se o turista quer algo grande ou mais familiar. Não vai ter desemprego porque já falta mão de obra no que está em construção. As empresas poderiam transformar projetos de hotéis em moradia para quem trabalha aqui. Gramado precisa de um crescimento de forma ordenada e descentralizada - disse.

Gramado já tem 216 hotéis, que somam 24,7 mil leitos. Estão em construção 13 projetos com 9,9 mil leitos e outros 33 estão em análise.

O entendimento de quem apoia a decisão é de que não há estrutura nem cliente para tanto. Na gastronomia, são 318 restaurantes, com 26 mil cadeiras, enquanto tramitam 43 pedidos de alvarás.

Então, esclarecendo, porque a coluna já soube que a interpretação está confusa: não vai parar obra em andamento nem tramitação do que já havia sido recebido pela prefeitura. _

O gasto com a compra de produtos de inverno subiu a R$ 320, acima dos R$ 274 do ano passado. O Sindilojas Porto Alegre pondera, porém, que é reflexo da inflação, pois 40% dos lojistas disseram que os preços subiram.

Indústria esvaziada por medo do Guaíba

Indústria de autopeças para veículos de alta performance, a Fueltech praticamente esvaziou o primeiro andar da sua fábrica na Avenida das Indústrias, no bairro Anchieta, em Porto Alegre. O trabalho de deslocamento dos equipamentos começou ainda na quinta-feira da semana passada, quando as previsões passaram a ser mais incisivas para o risco de inundação com a alta do Guaíba.

- É uma precaução para não passarmos pelo que ocorreu na enchente de 2024 - diz o CEO da Fueltech no Brasil, Leonardo Fontolan.

Computadores, outros equipamentos e estoques foram elevados em, no mínimo, 2m50cm. Carros foram retirados.

Uma linha de produção provisória foi montada no segundo andar da fábrica. Além disso, caminhões estão a postos para retirada do maquinário mais pesado, caso necessário.

A empresa trabalha com alta tecnologia, o que exige equipamentos caros.

- Levantamos 100% do estoque, com empilhadeiras - enfatizou o executivo. _

Brigada ocupa espaço em shopping

Como na enchente de 2024, o Shopping Total está servindo como local de estacionamento para viaturas da Brigada Militar que podem ser acionadas em ocorrências provocadas pela alta do Guaíba. Outros órgãos públicos poderão usar o espaço se suas sedes forem alagadas, diz o superintendente Eduardo Oltramari.

Entrevista - Sócio da IPC Marketing Editora - "O RS pisou no freio"

O potencial de consumo de R$ 545,9 bilhões previsto pelo IPC Maps para o RS em 2025 supera em 9,8% 2024, sem descontar a inflação. Apesar da enchente, teve dinheiro de auxílios de governo. Sócio da IPC Marketing Editora, Marcos Pazzini comenta os resultados da pesquisa, feita anualmente há mais de 30 anos.

Apareceu efeito da cheia?

O cenário de consumo teve crescimento parecido com o do país. Mas há a ressalva para abertura de empresas, tratando-se das maiores e não de microempreendedores individuais (MEIs), que nem sempre geram emprego. O Brasil teve aumento de 4,2%, enquanto o Rio Grande do Sul teve alta de 1,2% no número de empresas. Pisou no freio, embora ainda seja uma elevação. No país, a expectativa é de que o consumo cresça 3% (descontada a inflação), e aí no Rio Grande do Sul esse avanço deve ser menor, de 2,58%.

É comum o Rio Grande do Sul crescer menos?

Não. Tanto que o Estado, nos anos anteriores, ajudou a Região Sul a ficar na segunda posição no país. O Nordeste, muito pelo crescimento do turismo, ficou em segundo lugar agora em 2025, atrás apenas do Sudeste.

Alguma mudança de consumo foi identificada?

A alimentação fora do domicílio subiu bastante entre os gastos com a retomada do hábito após o isolamento da pandemia. Também é grande o gasto com veículo próprio, porque muita gente tem usado para trabalhar, como o transporte por aplicativo. Já o valor alto para medicamentos é reflexo do envelhecimento rápido da população, o que gera cenário preocupante para os planejadores do governo federal. 

Marcos Pazzini

ACERTO DE CONTAS

01 de Julho de 2025
POLÍTICA E PODER - Rosane de Oliveira

Quem recorre ao STF dá poder a ministros

Há uma anomalia na relação do Congresso com o Supremo Tribunal Federal (STF) que explica, em parte, a imagem de que os ministros legislam ou que se intrometem em todos os assuntos da República. Salvo exceções, como o inquérito das fake news - em que a iniciativa, amplamente criticada, foi do Supremo -, na maioria absoluta das vezes a Corte age sob demanda. E de onde vem boa parte delas? Do Congresso.

Agora mesmo, o ministro Alexandre de Moraes será relator de uma ação questionando a derrubada do aumento do IOF pelo Congresso.

Não foi o governo que entrou, embora isso esteja no seu radar, mas o PSOL.

Ora, podemos gostar ou não do resultado de uma votação, mas isso tem de ser resolvido na política. Se o governo não é capaz de impedir a votação de um projeto de decreto legislativo, não é razoável que um partido recorra ao Judiciário. O PSOL é useiro e vezeiro de correr para o STF quando discorda de qualquer coisa que não conseguiu mudar no âmbito da política.

Se essa ação for adiante, o que dirá o cidadão comum, que não acompanha o dia a dia dos três poderes? Que Xandão está se metendo onde não deve. E se o ministro decidir a favor do interesse do governo, que precisa aumentar receita para bancar a gastança do Legislativo e do Judiciário, pior ainda.

Nem todos os ministros gostam desse protagonismo, porque acaba por banalizar uma Corte constitucional. Para que o STF não legisle, Câmara e Senado têm de enfrentar os temas que acabam parando no STF por uma ação individual mas servem de baliza enquanto os parlamentares estão preocupados apenas em garantir suas emendas e seus privilégios. _

aliás

O vereador Ramiro Rosário tem razão em se dizer censurado. A postagem que fez mostrando a vereadora Grazi Oliveira (PSOL) fazendo compras no Zaffari não pode ser considerada ofensiva, apesar do tom de deboche. Primeiro, porque o vídeo é verdadeiro. Segundo, porque ela é, de fato, uma das críticas do tratamento dado aos empregados pela rede.

Se a intenção de Covatti Filho é unir o PP lançando a própria candidatura, a estratégia pode ter efeito contrário. As reações desfavoráveis já começaram por parte de quem já vinha criticando o excesso de poder nas mãos da família.

PP marca território

A confirmação do lançamento da candidatura de Covatti Filho ao Piratini, pelo PP, deve ser interpretada como demarcação de território. Ao se lançar, Covattinho bloqueia o debate sobre a indicação de vice, que opõe sua mãe, Silvana, ao secretário Ernani Polo.

Como não há um candidato forte ao Piratini, o PP adota a estratégia do "se colar, colou". As pesquisas indicarão se tem alguma chance de se tornar competitivo ou se o destino do PP é ser mais uma vez coadjuvante na eleição para governador. _

Liminar do TCE atrasa outra obra

O Sinaenco, mesmo sindicato que conseguiu no Tribunal de Contas do Estado (TCE) a suspensão cautelar do pregão para o projeto de atualização do sistema de contenção de enchentes em Eldorado do Sul, ganhou liminar para impedir a continuidade da concorrência para projetos de contenção de encostas na Capital. A cautelar foi expedida pelo conselheiro Estilac Xavier.

- Se atrasar demais, corremos o risco de perder os recursos assegurados no PAC Encostas - lamenta o diretor-geral do Demhab, André Machado. _

Sucessão de Cassiá esbarra em "não"

O vereador Marcos Felipi (Cidadania) recusou o convite do prefeito Sebastião Melo para substituir Cassiá Carpes na Secretaria de Governo. Cassiá pediu demissão para cuidar da saúde.

A deputada federal Any Ortiz disse à coluna que o Cidadania está discutindo internamente a indicação de outro nome para a vaga.

Se depender de Cassiá, o substituto será seu chefe de Gabinete, Elvio Santos.

- É um nome de confiança de Any Ortiz e já deve ter sido indicado - especula Cassiá. _

mirante

Reeleito com 80,82% dos votos em 2024, o prefeito de Muçum, Mateus Trojan, renunciará ao mandato para concorrer a deputado estadual. Perde a cidade. Trojan revelou-se um gestor competente na gestão

da crise causada por

sucessivas enchentes.

O auditor-fiscal da Receita Estadual Celso Malhani assume hoje a presidência do Sindifisco-RS. Malhani alerta para o risco de o Rio Grande do Sul perder recursos com a reforma tributária por causa de sua posição no ranking nacional de arrecadação. Esse alerta foi feito por Eduardo Leite quando tentou aumentar o ICMS.

POLÍTICA E PODER


01 DE JULHO DE 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Uruguai volta a reivindicar soberania sobre território no RS

A operação do Parque Eólico Coxilha Negra em Santana do Livramento, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, reativou uma antiga reivindicação uruguaia sobre um território que o país vizinho considera seu. A área em questão, chamada de Rincón de Artigas pelos uruguaios, é alvo de uma disputa fronteiriça que já dura pelo menos 90 anos.

Recentemente, o Ministério das Relações Exteriores do Uruguai enviou um comunicado oficial ao Itamaraty no qual afirma não ter sido informado sobre o início das obras em 2021. O documento ressalta que a construção não implica reconhecimento da soberania brasileira sobre o território e defende a retomada das discussões sobre a demarcação.

Entenda o caso

A região contestada possui 237 quilômetros quadrados - área maior que a parte urbana da capital, Montevidéu - com o Uruguai reivindicando especificamente 22 mil hectares (220 km²). A disputa remonta a 1934, quando Montevidéu questionou pela primeira vez a posição do Marco 49-I, próximo à localidade de Masoller. Segundo a versão uruguaia, a comissão binacional que delimitou a fronteira teria seguido o braço errado de um curso d?água, incorporando ao Brasil uma área que não lhe pertenceria.

Desde 1974, os mapas oficiais uruguaios marcam a região como "limite contestado", incluindo-a no Departamento de Artigas. O Brasil, por sua vez, mantém a posição de que o território lhe pertence legalmente, com base nos acordos fronteiriços estabelecidos. Na região está a vila Thomaz Albornoz, criada em 1985, durante a ditadura militar, para reforçar a posse brasileira sobre o território. A reportagem de Zero Hora visitou o espaço em 2018.

É neste território que está instalado o Parque Eólico Coxilha Negra e que trouxe novo fôlego a essa controvérsia histórica ainda não resolvida entre os dois países. De acordo com o site da Eletrobras, a obra foi iniciada em agosto de 2022 e a entrada em operação comercial ocorreu a partir de julho de 2024. O espaço tem capacidade instalada de 302,4 MW, energia equivalente ao atendimento de 1,5 milhão de consumidores.

A coluna tenta contato com o Itamaraty e com a Eletrobras para comentar o assunto. _

Aposta na prevenção

Uma coisa são as obras de proteção de Porto Alegre e do Estado. Só depois disso, é que teremos alguma tranquilidade, quando a chuva começar a cair.

Outras coisas são medidas de prevenção. E nisso os governos do Estado e da Capital foram bem nos últimos dias. O governador Eduardo Leite colocou o pé na estrada e liderou reuniões nos gabinetes de crise regionalizados em cidades como Caxias do Sul, Santa Cruz do Sul, Lajeado, Torres e São Sebastião do Caí, além da Capital. Houve dados, análise em tempo real e articulação com as prefeituras, o que permitiu que moradores fossem retirados de casa antes que a água subisse.

Desde o início das previsões de elevadas chuvas o prefeito Sebastião Melo conduziu reuniões diárias no Ceic para avaliar cenários e prognósticos meteorológicos e hidrológicos. Quando a situação se agravou, no final de semana, Melo convocou reuniões na sexta, sábado e domingo. Na de domingo, decidiu fechar todas as comportas remanescentes. Tanto Melo quanto Leite estão tomando decisões mais assertivas. Houve agilidade e transparência.

Enquanto as obras necessárias - e que deveriam ser urgentes - não ficam prontas, essa evolução na prevenção deve ser reconhecida. Isso também salva vidas. _

O Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho, representando as Igrejas do Sul Global, deve encontrar o papa Leão XIV hoje no Vaticano. O grupo será liderado pelo presidente do órgão, arcebispo metropolitano de Porto Alegre, Dom Jaime Spengler, e irá abordar a crise climática e a COP30.

80 anos do retorno dos pracinhas da FEB

Porto Alegre receberá, entre 18 de julho e 17 de agosto, a exposição 80 Anos do Heroísmo Brasileiro. A mostra homenageia o retorno da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que participou de combates na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.

De acesso gratuito, a exposição estará disponível para visitação no Museu do Comando Militar do Sul (MCMS), reunindo reproduções de notícias da época, desenhos do artista plástico gaúcho Carlos Scliar - ex-soldado da FEB na Itália - produzidos nos combates, além de documentos e elementos audiovisuais.

Conforme o curador Salus Loch, a exposição presta tributo aos mais de 25 mil brasileiros que lutaram ao lado dos Aliados. Um dos destaques é o impacto do retorno do primeiro escalão de combatentes, ocorrido em 18 de julho de 1945, amplamente documentado por jornais e revistas da época.

- A exposição não apenas relembra o heroísmo e o sacrifício dos expedicionários, mas busca aproximar novas gerações desse capítulo da história nacional, reiterando a necessidade de mantermos viva a memória em tempos de complexos desafios globais, honrando aqueles que defenderam a liberdade e a democracia - diz Loch.

A obra inclui painéis com reproduções de capas de publicações originais, trechos de reportagens, fotografias e vídeos, além de bicos de pena de Scliar, produzidos em território italiano e no retorno ao Brasil, a bordo do navio D. Pedro I.

A exposição é realizada pela Casa da Memória Unimed Federação/RS e pelo Instituto Unimed/RS.