sábado, 25 de abril de 2015


26 de abril de 2015 | N° 18144
MOISÉS MENDES

O jornalismo e a emoção

A professora Beatriz Dornelles, da PUC, tem uma missão que passo a acompanhar como parte interessada. A alegretense e uma equipe de bolsistas do Grupo de Pesquisa História da Imprensa Gaúcha tentam encontrar um exemplar da primeira edição da Gazeta de Alegrete.

A turma está digitalizando todo o acervo do jornal mais antigo ainda em circulação no Estado – e o terceiro mais antigo do Brasil –, em projeto do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social e do Delfos, o Espaço de Documentação e Memória Cultural.

A Gazeta circula desde 1º de outubro de 1882. A PUC reuniu quase todas as edições em papel. Mas a primeira talvez não exista. Pode ter sido consumida por um incêndio ou, quem sabe, estar extraviada num acervo ainda em desordem.

A edição inaugural é uma aula para o jornalismo que se faz hoje, em qualquer plataforma. O primeiro número já declara guerra ao escravismo. Qual terá sido o tom desse editorial (os textos da época eram quase todos editorializados, opinativos), a quem se dirigia, que argumentos usava?

A Gazeta nasceu por iniciativa de um dos fronteiriços que poderiam continuar no conforto dos aliados resignados dos escravocratas. Luís de Freitas Vale criou o jornal para lutar pela abolição. Era fazendeiro, líder do Partido Conservador e “sócio número 1” do Clube dos Emancipacionistas.

A Gazeta surge dois anos antes de A Federação, o jornal também abolicionista de Júlio de Castilhos, e seis anos antes da Lei Áurea. O atrevimento pode estar na origem de quase tudo que Alegrete produz em nome do que genericamente se chama de “as letras”.

É o primeiro jornal a levar ao campo os milagres de Gutenberg. Trata da política e da economia e se transforma no espaço que acolhe os poetas. Está vivo até hoje como memória do engajamento a uma grande causa.

Trabalhei na Gazeta, fui porteiro, clicherista (fazia os clichês em zinco que reproduziam fotos na impressão), fui repórter e editor-chefe. Fui artesão dos porões do jornalismo. Convivi com os fantasmas dos Prunes, de Wamosy e dos tipógrafos que viravam poetas de tanto catar letra por letra para os poemas dos outros.

A Gazeta do Barão do Ibirocai ajudou a desconstruir a imagem que manteve o Rio Grande por muito tempo no autoengano de que aqui a escravidão teria sido cordial.

Recebi a informação sobre a digitalização do acervo na semana em que a Globo exibiu depoimentos de jornalistas sobre os seus 50 anos. Na terça-feira, Ernesto Paglia, um dos grandes repórteres da TV, disse ter coberto o comício das Diretas, em 1984 em São Paulo, contendo-se para que a emoção e a torcida pela democracia não comprometessem a objetividade do jornalismo.

Sabemos o que Paglia quis dizer. Mas não há conflito algum entre jornalismo, emoção e engajamento a causas essenciais, como a restauração da democracia.

Há momentos em que tudo o que o jornalista não pode fazer é encolher-se no distanciamento de aparentes neutralidades, como nas situações em que golpistas usam as ruas e a internet para pedir a volta da ditadura.


Essa é a hora em que um jornal tem a missão de ser incisivo na defesa da liberdade. É disso que o jornalismo anda precisando, de engajamentos que inundem a objetividade de sentimentos e inspirem-se na Gazeta criada para ser abolicionista.

26 de abril de 2015 | N° 18144
L. F. VERISSIMO

Depois

O encontro com a turma no bar depois do expediente era sagrado para o Tadeu. Podia-se até dizer que Tadeu vivia para aqueles encontros de todos os dias. Nada lhe dava mais prazer do que estar com os amigos, tomando chope atrás de chope, falando de futebol e de mulheres e compartilhando experiências. Tudo que acontecia com o Tadeu, no emprego ou na sua vida pessoal, ele compartilhava com o grupo. Não era de surpreender, portanto, que um dia ele chegasse no bar e anunciasse:

– Gente, vocês não sabem o que me aconteceu.

– O quê? – Morri.

Os outros riram. Tadeu obviamente queria dizer que morrera em sentido figurado. Mas não, ele morrera mesmo.

– Eu vinha caminhando pela rua, vindo pra cá, e, de repente, pum. Caí morto.

Todos na mesa se entreolharam. Não sabiam o que dizer. Então um arriscou:

– E... Sua família já sabe?

– Ainda não. Achei que antes de qualquer outra coisa deveria vir aqui, contar pra vocês. Pra não ficarem sabendo pelos jornais.

– E foi o quê? – perguntou outro. – Coração?

– Sabe que eu não sei? Eu mesmo vou ter que esperar a notícia no jornal para saber. Só sei que foi fulminante. Eu vinha caminhando pra cá, já pensando naquele primeiro gole de chope gelado do dia, que é a melhor sensação da vida, e de repente...

– Pum. – Pum. Sem mais nem menos.

– Você não quer um chope?

– Acho melhor não. Pode não me fazer bem, neste estado.

– Mas você, agora, aqui, é o quê? Um fantasma?

– Não, sou eu mesmo, o Tadeu. Só póstumo.

Estavam todos consternados. Por mais que apreciassem o gesto de Tadeu, vindo compartilhar sua morte com o grupo, a situação era embaraçosa. Tadeu continuava no grupo mas não era mais do grupo. Tadeu estava, literalmente, em outra. O próprio Tadeu sentiu o constrangimento dos demais e anunciou:

– Bem, vou voltar pro lugar onde morri. Vão ter que providenciar o traslado do corpo, o anúncio fúnebre, o enterro, a missa e todas as formalidades para se morrer oficialmente. Olha, gente, foi um privilégio fazer parte deste grupo. E quero ver todo mundo no velório!


Quando o Tadeu saiu, o grupo começou a discutir o que acontecera. O pior da morte, decretou alguém, era não poder contá-la depois. É o acontecimento mais importante e decisivo de nossas vidas – e não podemos comentá-lo com os amigos! Uma injustiça. O Tadeu, concordaram todos, dera um bom exemplo. E combinaram que todos voltariam depois da morte para comparar suas experiências na mesa do bar.

RUTH DE AQUINO
24/04/2015 19h57

Balanço, mas não caio

O panorama em torno do fosso moral e financeiro da Petrobras não é alentador

O balanço da Petrobras, a “joia” das estatais brasileiras, é uma confissão pública da abissal incompetência da presidente Dilma Rousseff. Bastaram dois anos, 2013 e 2014, para que 23 anos de lucros e distribuição de dividendos da Petrobras fossem abortados pela mãe do PAE (Programa de Aceleração do Endividamento). O lucro de R$ 23,6 bilhões virou prejuízo de R$ 21,6 bilhões. Os desvios das propinas foram de R$ 6,2 bilhões.

A desvalorização de ativos da Petrobras chegou a R$ 44,6 bilhões. Perdão pelo enfileiramento de bilhões que nenhum de nós consegue sequer visualizar. Mas a divulgação do balanço foi tão elogiada como início de um novo ciclo de transparência e profissionalização da Petrobras que os números precisam ser trombeteados.

Dilma Vana Rousseff não concluiu os cursos de mestrado e doutorado em ciências econômicas na Unicamp, apesar de constarem em seu currículo (ela já admitiu o erro). Mas sua vida foi pautada por números. Seu primeiro cargo executivo foi como secretária municipal da Fazenda em Porto Alegre, em 1985, há 30 anos. Ao deixar a Secretaria, em 1988, tentou convencer seu substituto a não assumir o cargo: “Não assume não, que isso pode manchar tua biografia. Eu não consigo controlar esses loucos e estou saindo antes que manche a minha”.

Dilma começou a escalar o setor de Minas e Energia. Foi dona da Pasta no ministério de Lula. E presidiu o Conselho de Administração da Petrobras até 2010, quando se elegeu presidente. Seu fiador era Lula. Ela foi a escolhida com base nos seguintes quesitos: era especialista em energia, eficiente como “gerentona” (gerente durona), mulher e mãe. Sua escolha não contou com o apoio do Partido. Dilma foi imposta por Lula. Era considerada um poste. E um poste sem luz própria, sem flexibilidade, sem gosto pela conversa e sem dom de oratória. Por tudo isso, Dilma é hoje presa fácil dos políticos profissionais, que fazem dela gato e sapato.

O balanço da Petrobras revela o imenso desastre de uma presidente perdida em seu primeiro mandato e, mais ainda, no segundo. Percebam que não dá para aceitar sem ressalvas o balanço divulgado. Quem diz que a propina foi de “apenas” R$ 6,2 bilhões? Ah, os delatores, que confessaram uma percentagem tal sobre os contratos. Quem diz que o prejuízo foi de “apenas” R$ 21,6 bilhões em 2014? Ah sim, o balanço foi auditado.

O balanço não foi aprovado por unanimidade. Dois dos cinco conselheiros fiscais não assinaram o documento. Eles representam acionistas minoritários e trabalhadores. Só para refrescar a memória, a ex-presidente da Petrobras, Graça Foster, caiu porque havia calculado a perda total da Petrobras em R$ 88,6 bilhões, o dobro do que foi admitido agora, de R$ 44,6 bilhões. Graça – ou “Graciosa”, o apelido dado pela chefe – era, segundo o staff do Palácio da Alvorada, a única assessora que podia dormir na residência oficial de Dilma quando ia a Brasília. Caiu em desgraça por querer divulgar números mais catastróficos que os revelados agora. Por que, então, eu ou você devemos crer no balanço?

Devemos crer porque queremos que o Brasil passe a dar certo. O brasileiro não quer perder o otimismo, quer ver uma luz no fim do túnel. Mesmo que a reconstrução leve anos. Essa é uma boa razão. Mas não é alentador o panorama em torno do fosso moral e financeiro da Petrobras. O novo presidente, Aldemir Bendine, pede desculpas e se diz envergonhado pelo que encontrou na estatal. Desmandos, corrupção, roubalheira, péssimas decisões de investimento, interferência política. Só que Bendine acabou de entrar. Ele não tem nada a ver com isso. E Dilma? E Lula? Nada, nada mesmo?

Precisamos crer na boa intenção de Dilma. Ela não quer ficar na História como a pior presidente do Brasil. Suas ações são, no entanto, claudicantes. Típicas de alguém que não sabe mais o que fazer. Dilma insiste em manter 38 ministérios. Isso não tem desculpa, não tem perdão. Ela está paralisada. Com receio de retaliação do Congresso, Dilma triplicou o Fundo Partidário para R$ 868 milhões neste ano, a pedido do senador Romero Jucá, do PMDB. As raposas esfomeadas do Congresso querem compensar a perda de doações empresariais.

O presidente do Senado, Renan Calheiros, tirou proveito para alfinetar sua ex-amiga Dilma. Criticou-a por esbanjar em momento de ajuste. Ela tentou se defender. Disse ter cedido a um apelo do Legislativo. Tá ruço, Dilma. Não é mais “ou dá ou desce”. É “dá e desce”. Por tudo isso, pela carestia da vida e pelas mentiras desmascaradas, as panelas fazem estardalhaço nas janelas. Não é só pela Petrobras.



25 de abril de 2015 | N° 18143
NÍLSON SOUZA

PEDRINHAS

Dia desses, o governador do Estado andou tropeçando na palavra “escrúpulo”, utilizada no plural, aparentemente com boa intenção, mas com péssima repercussão. Sartorês, apressaram-se em explicar os assessores convocados a traduzir para o politicamente correto o discurso desconexo do chefe. Ao dizer que o banco estatal deveria atuar sem escrúpulos ou comprometimentos ideológicos, ele não estaria estimulando o vale-tudo, mas, sim, a ousadia, a competitividade e o lucro lícito.

Escrúpulo é uma palavrinha interessante. Vem do latim “scrupulus” e significa peso da consciência, angústia, algo que perturba quem não agiu corretamente. É o diminutivo de “scrupus”, uma pedra pequena e pontiaguda. Daí vem a sabedoria popular: escrúpulo é uma pedrinha no sapato. Incomoda, mas nos lembra que devemos perseguir a ética, a integridade e a honestidade na caminhada pelo planeta.

Não é a primeira vez que um homem público tropeça nessa palavra. Os mais antigos, como este escriba, certamente lembram de um ex-ministro que perdeu o cargo por bravatear, diante de um microfone ligado, que não tinha escrúpulos: “O que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde” – complementou, num surto de franqueza suicida.

Outro ex-ministro, mais antigo ainda, também usou a palavrinha incômoda num triste momento da vida do país, na reunião de promulgação do fatídico Ato Institucional número 5: “Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência”. Disse e apoiou a aberração.

Quem eram esses ministros? Já vou nomeá-los, antes que os leitores também me mandem às favas, pensando que estou protegendo inescrupulosos confessos. O ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, antes da derrapagem verbal sobre mostrar e esconder, deu valiosa contribuição ao país na implementação do Plano Real. O ex-ministro do Trabalho e Previdência Social e outras pastas Jarbas Passarinho também tem uma biografia de contribuições relevantes para a nação, manchada pela chancela explícita à ditadura.


Que a História os julgue. Pedras no sapato, quem não as tem?

25 de abril de 2015 | N° 18143
DAVID COIMBRA

O cachorro Vírgula – final

Eva encheu o bolo de carne moída de veneno. Em seguida, parou, pensou por alguns segundos e examinou o bolo mais uma vez. Era tão grande que tinha de pegar com as duas mãos. Abriu-o de novo. Colocou mais veneno. E mais um pouco ainda, antes de fechá-lo em definitivo. Sorriu. Aquilo mataria um cavalo de circo. O vira-lata não tinha chance nenhuma. Não, ela não ia perder para o cachorro! Saiu para o pátio. Gritou:

– Vem cá, desgraçado! Tenho uma coisinha bem temperada pra te dar! Vem cá, pro teu último almoço, desgraçado!

Naquele exato instante, Cris dizia a penúltima palavra que Eric queria ouvir:

– Monstro! Você é um monstro! Como é que vai trocar sua mulher por um cachorro?

– Não é uma troca, Cris... É...

– Claro que é uma troca! Você não é um menino, Eric! É um homem! Olha aqui, eu vou te ajudar: vou pegar esse cachorro e levar para o meu sítio. Fica a uma hora daqui. Você pode ir lá todos os finais de semana, para matar a saudade do cachorro.

Eric sentiu a garganta se fechar.

– Mas eu não quero ficar longe do Vírgula...

– Por favor, Eric! Estou tentando salvar o teu casamento. Pega o telefone. Liga pra ela agora e diz que o problema está resolvido.

Eric fechou os olhos. Respirou fundo. Tirou o celular do bolso.

Quando o celular de Eva chamou, ela tinha acabado de atirar a bola de carne envenenada para Vírgula. O grande pastor alemão olhou a comida e entortou a cabeça para o lado, do jeito que os cachorros fazem quando estão em dúvida. Então, caminhou em direção à carne. Eva deu-lhe as costas e correu para dentro de casa, a fim de atender ao telefone, que havia deixado na cozinha.

– Eva... – disse Eric, do outro lado da linha.

– Oi...

– Eu... Eu quero que fique tudo bem... Eu... – pensou em Vírgula. Estava traindo Vírgula! Era um miserável, um pulha, mas Cris devia ter razão. Ele tinha de ser um homem. Um adulto. Disse, enfim, antes de desligar: – As coisas vão se ajeitar...

– Eu sei que vão – respondeu Eva, num tom de voz confiante.

Cris, que ouvia a conversa, pôs a mão em seu ombro, depois que ele desligou.

– Por que você não vai almoçar em casa, pra falar com ela antes de ela ir para o jornal? Seja homem. Seja adulto!

Eric balançou a cabeça afirmativamente.

– Vou fazer isso. Vou falar com ela.

No caminho para casa, Eric sentia vontade de chorar, pensando em Vírgula. Será que era normal gostar tanto assim de um cachorro? Será que ele nunca ia crescer? Alguma coisa devia estar errada com ele, porque, na verdade, o que o angustiava era o cachorro, e não a mulher.

Ao abrir o portão de casa, Eric em nenhum momento imaginou a reconciliação com Eva, só pensava que Vírgula viria correndo e feliz em sua direção. Mas Vírgula não veio. Eric estranhou. Caminhou até o pátio, confuso. Nada do cachorro. O que será que havia acontecido?

– Vírgula! – Chamou Eric. – Vírgula!

Dentro de casa, Eva ouviu a voz de Eric e sorriu. Como será que ele reagiria ao encontrar o corpo do cachorro maldito? Ela mesma não sabia onde o bicho havia se metido. A última vez que o vira, ele estava se preparando para comer o bolo de carne. Devia ter ido morrer debaixo da casa ou no fundo do quintal, sabe-se lá.

– Vírgula! Vírgula! – chamava Eric, agora com angústia. E, de repente, ele parou de chamar. Eva esperou. Nada. Silêncio.

Esperou.


Então, saiu para o pátio, a fim de ver o que estava acontecendo. Abriu a porta. Ganhou a rua. E viu os três no meio do pátio: o cachorro, o homem e o menino, Vírgula, Eric e Tiaguinho, perfilados. O cachorro, sentado, com a língua para fora, olhava-a com inocência. O menino, com as mãos na cintura, olhava-a com raiva. O homem, com o bolo de carne envenenada nas mãos, olhava-a com desprezo. Naquele momento, Eva compreendeu tudo. Soube que, por causa do menino, havia perdido o homem para o cachorro.

25 de abril de 2015 | N° 18143
EDITORIAL

O RECADODO MINISTRO

Num cenário de austeridade, e diante de um impasse financeiro como o do Executivo gaúcho, o poder público precisa, antes de mais nada, se adequar ao tamanho de suas receitas.

A foto registrando o encontro entre o governador José Ivo Sartori e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, com um cartaz da Lei de Responsabilidade Fiscal ao fundo, no qual se lê “Agora o Brasil só gasta o que arrecada”, é ilustrativa da situação registrada hoje nas finanças públicas das três instâncias da federação. O governador gaúcho cumpriu o seu papel ao tentar uma última cartada, antes de recorrer a uma medida drástica como o atraso no pagamento da dívida com a União.

O ministro age como se espera de quem foi guindado ao posto para desfazer o caos das finanças federais. Entre esses dois extremos, o país terá que encontrar logo uma saída capaz de contemplar o clamor de Estados e municípios endividados, de um lado, e o rigor fiscal de outro, sem dar margem a riscos adicionais, como o de uma inadimplência generalizada.

Simultaneamente à confirmação do atraso nos desembolsos pelo Estado, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, do PT, anunciou a decisão de ir à Justiça para obrigar o governo Dilma Rousseff a cumprir a lei que altera a correção das dívidas de Estados e municípios. É o mesmo caminho defendido pelo governo gaúcho e que já levou também o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), a recorrer ao Judiciário. A pressão serve de alerta para o governo federal, que não tem como ignorar a situação de penúria de muitas unidades da federação, mas também para a importância de o país não se desviar do rumo da austeridade.

Ao optar pelo adiamento da parcela da dívida com a União, mantendo o calendário de pagamento dos servidores, o governo gaúcho apenas posterga o enfrentamento do problema, além de agravá- lo. Débito em atraso significa mais juros e menos credibilidade, além de provocar acúmulo de vencimentos em maio, sem que haja a perspectiva de verbas adicionais para cobrir o déficit.


Quem gasta mais do que ganha acaba endividado e sem condições de cumprir os seus compromissos. Entre os principais prejudicados, estão os servidores, que ficam sem perspectiva de novos reajustes, podem perder aumentos já assegurados e estão sempre na iminência de atraso nos salários. Mas perdem sobretudo os contribuintes, com a deterioração dos serviços e a ameaça de mais impostos. Por isso, num cenário de austeridade, e diante de um impasse financeiro como o do Executivo gaúcho, o poder público precisa, antes de mais nada, adequar-se ao tamanho de suas receitas.

25 de abril de 2015 | N° 18143
CLÁUDIA LAITANO

Espelhos falsos

Serras elétricas e máscaras sinistras vêm perdendo espaço, na trama dos filmes de terror, para vídeos caseiros e outras modalidades de assombração mediadas pela tecnologia. Na próxima semana, estreia nos EUA um filme que parece levar ao limite o gênero do terror virtual.

A ação de Unfriended se passa exclusivamente na tela do computador do protagonista, enquanto a trama, no estilo “eu sei o que vocês fizeram no verão passado”, envolve um crime urdido na parcela online da vida dos personagens: uma menina se mata depois que um vídeo comprometedor é postado na rede e, como assombração digital, volta para punir os responsáveis por sua desgraça.

Nos filmes de terror clássicos, em geral não nos identificamos com o psicopata sanguinário que se esconde embaixo da cama. Já um filme de terror que pretenda refletir as assombrações da vida virtual deveria levar em conta que, nesse novo ambiente de relacionamento social, vítimas e algozes não apenas convivem, mas às vezes trocam de posição.

Brincadeira e crueldade, indignação e linchamento moral podem estar a apenas um clique de distância. Um dia você é o paladino da justiça, usando a rede social para denunciar a burrice, o preconceito, a violência. No outro, pode ser a vítima de um comentário mal-interpretado ou ter algum deslize ou intimidade revelado publicamente, colocando em risco a sua reputação. Uma hora você é a faca, na outra o guisadinho.

A piada sem graça do professor de Direito da PUCRS, comparando a violação de leis à de mulheres, que gerou indignação e desagravos nesta semana, é mais um exemplo de caso que ganhou uma dimensão desproporcional quando migrou do mundo real para o virtual. Professores que mantêm no repertório piadas sexistas ou referências levianas à violência sexual estão sendo não apenas toscos, mas anacrônicos – na minha opinião.


Mas episódios desse tipo podem muito bem ser discutidos no mundo real, na própria sala de aula, de preferência, ou na reitoria da universidade, em último caso. Migrando, sem escalas, todos os litígios para o tribunal online – ali onde a emoção, e não a razão, desempenha o papel de polícia, juiz e algoz –, estamos contribuindo para a crescente sensação de que a vida cotidiana virou, se não um filme de terror, no mínimo um cenário de reality show, com espelhos falsos espalhados por todos os lados.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

DES MOTS QUI RELEVENT

Une pensée d'amour ou une pensée de peur?


Mozart - Piano Concerto No.21 Andante (Elvira Madigan).mpg
Jaime Cimenti

Abril, as utopias, o choro

Poetas com suas antenas sensíveis têm razão: abril é o mais cruel dos meses, disse T.S. Eliot. Este abril terminando nos levou Eduardo Galeano, a voz doce, livre, solta, dos que não tem voz ou que não podem falar; e Günter Grass, a consciência crítica, a voz criativa e incômoda da Alemanha, que mesclou vida, arte, política e criatividade como ninguém.

Passam as comparações, algumas circunstâncias, episódios, normal. Ficam as histórias, o talento literário, os julgamentos do tempo e dos leitores, as utopias e as estrelas, É o que segue interessando mais. Faz tempo que é assim. Faz milênios que deitamos, dormimos as horas necessárias, sonhamos, acordamos e buscamos o novo nas manhãs.

Escrevo nesse vinte e um de abril. No Face, os amigos postam churrascos, risotos, saladas, corpos sarados, cachorros, gatos, galetos, sorrisos, doces, salgadinhos, cervejas, vinhos, café colonial, netos, sobrinhos, noivos, filhos, namoradas, pais, avós, irmãos, casas, piadas, viagens, soldadinhos de chumbo, crônicas, livros, poemas, utopias e distopias, notícias boas e ruins. Me alertam que leite condensado, chocolate e nutela são drogas que podem ser a porta de entrada para mais pesadas...

Sei, sei... Calma, devagar, menos... Bom, no Face, tem mais sorrisos que depressão, mais vida que morte, melhor. Facedependentes... Facemaníacos... No Face, juntos e solitários. Nem a frieza eletrônica do meio esfria a latinidade e contém as emoções e lágrimas. Graças a Deus. Beleza. Me adicionem. Estou carente. Só tenho 1565 amigos.

Nesse 21 de Tiradentes, herói enlouquecido de Liberdade, peço a Deus que essa luz dicróica pousando ilumine minhas poucas e precárias ideias e as ideias certamente em maior número e mais claras de meus compatriotas, para que a gente se dê conta de que somos todos atores neste espetáculo. O palco é de todos, o País é de todos. Sonho o País como uma grande orquestra. Pena que o Tom Jobim não está aí para ser o Maestro. Num momento difícil, precisamos conversar, nos entender, promover mudanças políticas, financeiras, fiscais etc.

Acho que, nesta hora complicadíssima para todos nós, seria interessante, mesmo virtualmente, dar um pulo na Sala das Lágrimas, ao lado da Capela Sistina, no Vaticano. Naquele pequeno espaço, sozinho, o Papa recém-eleito chora de emoção pela escolha, pela tensão e pelo peso da responsabilidade. Depois, escolhe uma entre as três vestimentas, feitas pela histórica alfaitaria Gammarelli. Depois das meias, usa um dos sete pares de sapato, algum adorno e aí reza, dá as bênçãos, vai adiante.

Lágrimas, uma das coisas mais humanas, se não a mais. Palavras de água e sal que nem se sabe bem quais são, mas que se precisa deixar rolar, mesmo no silêncio e na solidão, para não se tornar louco de pedra ou coisa assim. Choro pelos que choram e pelos que já não choram. Pelos que têm os olhos já tornados secos pelas moendas do tempo ou pelas dores que já levaram todas as lágrimas.

a propósito...

Em 1970, o Rei Pelé, pouco antes da histórica final da Copa do Mundo, que nos deu o Tri, em Guadalajara, revelou que teve uma forte crise de choro, no ônibus, indo para o estádio. Ele estava no ápice, conseguiu relaxar. Tocamos os quatro a um na Itália e levamos o caneco, numa das partidas mais bonitas de copas. Em entrevista na ZH de 19.04.2015, Paulo César Tinga, grande pessoa e jogador, agora aposentado, completamente sozinho no Japão, em 1999, disse que aprendeu muito com o choro.


Pois é, o choro é livre. Título, aliás, do lindo e primeiro LP do nosso genial flautista Plauto Cruz, que aparece na capa dele com uma grande, belíssima lágrima.
Jaime Cimenti

Temporalidades brasileiras recentes

História do tempo presente (FGV Editora, 316 páginas), com organização das professoras Lucilia de Almeida Neves Delgado e Marieta de Moraes Ferreira, apresenta textos das organizadoras e de outros especialistas sobre questões que envolvem o conhecimento crítico, a memória, a nova história e o tempo presente de nosso País.

A obra tem apresentação do professor Rodrigo Patto Sá Motta, do Departamento de História da UFMG, que escreveu: "nesta coletânea, o leitor vai encontrar uma boa amostra das pesquisas e reflexões que os historiadores brasileiros dedicados a temporalidades recentes vêm desenvolvendo". A obra tem amplitude nacional, já que reúne autores de várias partes do País, em sua maioria pesquisadores experimentados e respeitados na área, ao lado de jovens muito promissores. Os capítulos abordam amplo leque temático e teórico, com destaque para política, memória, movimentos sociais e imprensa, e estão unidos - além da aproximação pelo aspecto da temporalidade - pela qualidade dos textos e das respectivas pesquisas. Uma proveitosa leitura, certamente.

A primeira parte da obra trata do lugar do historiador, fala do presente dos historiadores, se é possível fazer tábula rasa do passado e levanta questões e problemas de pesquisa histórica. A segunda parte do volume fala de presente, política e memória, tratando de interseções, Jango, cinema, resistência estudantil, ditadura, anos 1970, instituições sindicais brasileiras e uso de novas tecnologias para construção de sua memória; Comissão Nacional da Verdade, tempo das Diretas Já!, Brizola, funerais de presidentes e outros temas.

A terceira e última parte do volume trata de mídia, memória e história, imprensa e espaço público, mídia brasileira no século XXI, desafios na pesquisa histórica e grande imprensa como fonte e objeto de estudo.

O livro resultou dos textos apresentados em Simpósio da Associação Nacional de História (Anpuh), o que demonstra a qualidade dos eventos da entidade dos historiadores brasileiros, bem como atesta a importância de se enfocar os acontecimentos recentes da História do Brasil.

Deve ser ressaltada a filiação temática do livro. A chamada história do tempo presente ocupa lugar cada vez mais destacado na historiografia atual, colocando os historiadores num papel de contribuição social de alto relevo. Já se foi o tempo da visão tradicionalista que argumentava que o passado recente não poderia ser objeto da história.

Hoje, nota-se que o estudo da história recente é um dos setores mais dinâmicos para os historiadores, apesar das dificuldades inerentes. De mais a mais, como se sabe, é um dos campos de historiografia mais propensos ao diálogo interdisciplinar.


Enfim, a obra quer ser útil para uma fértil discussão sobre o campo, os sujeitos, as fontes, os limites e as perspectivas de construção de um saber crítico sobre memória, nova história política e história do tempo presente.

24 de abril de 2015 | N° 18142
MOISÉS MENDES

Vibrações

Uma padaria-confeitaria-café de sucesso na zona sul de Porto Alegre derruba algumas teorias do feng shui. Sabe-se que o feng shui é uma sabedoria milenar chinesa que explicaria a harmonia, as vibrações e as energias de um lugar, seja um ambiente natural, uma sala ou uma casa.

A padaria fica no térreo de um edifício com mais três andares. Os outros andares são sustentados pelo esqueleto das ruínas de um prédio inacabado. Algo deu muito errado ali, há muito tempo. Quem olha pra cima vê concreto encascurrado e ferros retorcidos.

Mas tudo deu muito certo no térreo avarandado bonito e acolhedor. É como se o térreo, sempre cheio de gente, e o que fica acima dele não tivessem nenhum parentesco. Só há pouco tempo fui me dar conta disso.

Já morei num prédio em que a porta ficava bem na junção de ruas que formavam um “T”. Isso é ruim, segundo o feng shui. O trânsito escorre pela perna do “T” e acaba represado na rua que interrompe esse fluxo. A energia negativa ficava acumulada no fim da rua, na travessa do “T”, bem onde eu morava.

Se fosse fazer um balanço de dois anos de residência, acho que daria empate entre coisas boas e ruins. Mas a sensação de que estava no lugar errado me incomodava.

Gay Talese, um dos maiores jornalistas de todos os tempos, escreveu nos anos 70 sobre o prédio 206 da Rua 63 East, em Nova York, em que 12 restaurantes quebraram – e na volta tudo prosperava. Você deve conhecer pelo menos um lugar assim.

Falo disso porque penso sempre na área em que foi construído o Palácio do Planalto. Não sei se a disposição geográfica do poder em Brasília seria aprovada por um especialista em feng shui.

Agora mesmo, há quem pretenda derrubar o governo por causa das chamadas pedaladas fiscais. Dilma seria o primeiro presidente a sofrer impeachment, em toda a história da humanidade, por causa das manobras contábeis das tais pedaladas.

Olhei o mapa de Brasília, o eixo monumental e o “T”, cuja perna termina na Praça dos Três Poderes, com o Planalto de um lado e o Supremo do outro. A perna desse “T” é o Congresso, que se movimenta com as energias pesadas do Eduardo Cunha e do Renan Calheiros direcionadas para o Planalto.


Eu sairia dali, iria governar do Alvorada e, já que tanto pedem, deixaria o Planalto aos cuidados do Temer. Mas aí tem o “T” do Temer.

24 de abril de 2015 | N° 18142
MARCOS PIANGERS

Meu filho nasceu ontem

Eu me lembro bem que quando estávamos em 2015 já existia aquela conversa de que as crianças estavam nascendo cada vez mais inteligentes, que já sabiam mexer em telefones com dois anos de idade. Mas isso aqui é ridículo.

Meu filho nasceu ontem por volta do meio-dia e foi aquele nervosismo, aquela expectativa para a chegada da criança. O obstetra já havia me dito pra ficar atento, que hoje em dia as crianças nascem muito inteligentes. Ele disse que na semana anterior tinha feito um parto de uma criança que já nasceu falando francês. Ao invés de gritar “buááá buáááá”, saiu da barriga falando “Une serviette, s’il vous plait”. Eu duvidei, evidentemente. Por mais que hoje em dia seja normal conversar com a barriga, tocar música clássica e ensinar gramática, todos sabemos que as crianças só aprendem a falar “por favor” no terceiro dia de vida.

Mas aqui estou eu apavorado com o que me aconteceu. Como dizia, meu filho nasceu ontem por volta do meio-dia, e nasceu pedindo “um bife bem passado e um chope gelado sem colarinho”. Não falou “por favor”, como eu já previa. Sei que as crianças estão muito desenvolvidas hoje em dia, mas pedir um bife nessa idade pode dar indigestão. Enfim, mastigou a carne com a gengiva (a dentição só fica pronta amanhã) enquanto assistia a National Geographic. Adora programas com tubarões.

No meio da tarde, veio a enfermeira pesá-lo, já estava com cinco quilos e meio, acho que foi a musculação. E, quando ele olhou bem no olho da enfermeira e disse que nunca tinha visto uma mulher de uniforme tão bonita, eu fiquei envergonhado. “Não fale assim, filho. Respeite a moça”, ao que ele respondeu que estava respeitando, que era verdade, “até porque é a primeira mulher de uniforme que eu vi na minha vida”, e deu uma gargalhada enquanto arrancava o celular da minha mão.


Não preciso nem dizer que já foi apagando todas as fotos que fiz do parto. “Nessa fiquei gordo, essa saiu tremida, nessa tem muito sangue.” E já criou um Instagram pra sua primeira selfie. E já tem mais seguidores do que eu. Antes de anoitecer, ele já tinha feito um canal no YouTube, onde tem postado vídeos falando sobre como é nojento o líquido amniótico e sobre o desconforto de ter passado por uma cesariana. Está aqui há menos de 24 horas e já tem muita opinião sobre tudo. Essas crianças de hoje em dia estão mesmo muito desenvolvidas.

24 de abril de 2015 | N° 18142
CAPA

Com o coração no palco

AMERICANACHRISTINA PERRI canta seus sucessos românticos amanhã, no Araújo Vianna

Dona do hit A Thousand Years, parte da trilha sonora dos filmes Amanhecer (2011-12), da saga Crepúsculo, a cantora e compositora Christina Perri faz em Porto Alegre o terceiro e último show de sua primeira turnê no Brasil. Depois de Rio de Janeiro (na quarta-feira) e São Paulo (hoje), a americana apresenta amanhã, às 21h, no Auditório Araújo Vianna, o repertório de músicas românticas dos discos Lovestrong (2011) e Head or Heart (2014).

A trajetória de Christina, 28 anos, começou no YouTube, onde ela conquistou fãs com versões acústicas de músicas de outros artistas, por volta de 2008. Mas foi ao aparecer no reality show americano So You Think You Can Dance, em 2010, que a cantora teve seu primeiro sucesso, Jar of Hearts, e assinou contrato com uma gravadora.

No Brasil, Christina ficou mais conhecida em 2013, quando Sam Alves, vencedor da segunda edição do The Voice Brasil, cantou A Thousand Years na fase de batalhas do programa da TV Globo. Depois disso, a canção entrou nas paradas brasileiras. Sam Alves, aliás, fará uma participação no show de amanhã na Capital. Juntos, eles interpretarão Be My Forever, música que a americana gravou em parceria com o britânico Ed Sheeran.

Depois de finalizar sua passagem pelo Brasil em Porto Alegre, Christina só voltará aos palcos no segundo semestre. Ela sairá em turnês conjuntas por Estados Unidos e Canadá com a cantora Colbie Caillat, em julho e agosto, e com o próprio Ed Sheeran, em setembro.

SHOW DE CHRISTINA PERRI

Participação especial: Sam Alves.
Amanhã, às 21h. Duração: 1h30min. Classificação: 12 anos.
Auditório Araújo Vianna (Avenida Osvaldo Aranha, 685).
Ingressos: no 1º lote, R$ 160 (plateia alta lateral), R$ 190 (plateia alta central), R$ 210 (plateia baixa lateral), R$ 250 (plateia baixa central), R$ 320 (plateia gold). No 2º lote, R$ 210 (plateia alta central), R$ 240 (plateia baixa lateral) e R$ 280 (plateia baixa central).

Descontos: 35% para clientes Oi; 10% para titulares do Clube do Assinante); e 5% de desconto para titulares dos cartões Zaffari Card e Bourbon Card. Descontos obrigatórios por lei serão concedidos nos pontos de venda físicos.

Pontos de venda: sem taxas, apenas na bilheteria do Teatro do Bourbon Country (Túlio de Rose, 80; das 14h às 22h) e no local, a partir das 14h de amanhã. Com cobrança de taxas, no site ingressorapido.com.br, pelo telefone 4003-1212 (das 9h às 21h), na Agência Brocker Turismo de Gramado (Av. das Hortênsias, 1.845; das 9h às 18h30min), na Rua Coberta do Campus II da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo (hoje, das 13h às 21h, e amanhã, das 9h às 14h), e no Bourbon Shopping Novo Hamburgo (Av. Nações Unidas, 2.001 – 2º Piso; das 13h às 21h).

quinta-feira, 23 de abril de 2015


23 de abril de 2015 | N° 18141POLÍTICA + |
ROSANE DE OLIVEIRA

COMEÇAR DE NOVO, O DESAFIO DA PETROBRAS

Sim, os números são horríveis: a Petrobras teve um prejuízo deR$ 21,6 bilhões em 2014 e as perdas com a corrupção ficaram emR$ 6,2 bilhões. São os números do balanço auditado, sem ressalvas, depois de todo o descrédito enfrentado pela empresa nos últimos meses. A transparência exigida pelo mercado revela um rombo profundo, mas inferior às especulações. É com esses números que os investidores vão trabalhar a partir de hoje. O presidente Aldemir Bendine e o ministro Joaquim Levy esperam que seja o ponto de partida do renascimento.

Assaltada por uma quadrilha que reuniu empreiteiros corruptos, funcionários gananciosos e políticos inescrupulosos, a Petrobras tem todas as possibilidades de se reerguer a partir de novos parâmetros de governança. Apesar de todas as perdas, a estatal é sólida, está entre as maiores empresas de petróleo do mundo e tem um corpo técnico dos mais qualificados.

Vigiada com lupa depois da Operação Lava-Jato, a nova Petrobras terá de fechar todas as portas que permitiram a ação combinada do cartel das empreiteiras com os corruptos indicados pelos partidos aliados. Será preciso, também, blindar a empresa para que não seja mais usada para atender aos interesses políticos do governo de plantão.

O prejuízo bilionário da Petrobras não é apenas decorrência da corrupção e da exposição de suas vísceras na investigação da Lava-Jato. É, também, consequência de uma política demagógica de manter os preços dos combustíveis artificialmente baixos em nome de interesses eleitorais.

A presidente Dilma Rousseff está pagando a conta pelos erros e omissões de sua gestão, mas tem o mérito de ter começado a mudar, antes da Lava-Jato, a diretoria montada no governo do ex-presidente Lula. Dilma podia não saber em detalhes o que se passava nas entranhas da Petrobras, mas é sintomático que tenha demitido o presidente Sérgio Gabrielli no início de 2012.

Foi ela, também, quem exonerou Paulo Roberto Costa e Renato Duque (em 2012), ainda que na ata conste que um dos diretores corruptos renunciou ao cargo. Pedro Barusco, o corrupto que confessou receber propina desde 1997 e concordou em devolver US$ 100 milhões, saiu da empresa em 2010.

AVIÃO DE CARREIRA
Para demonstrar austeridade, o governador José Ivo Sartori nem cogita fretar um jatinho para ir a Brasília. Como das outras vezes, ele e os secretários Giovani Feltes e Cleber Benvegnú viajam em avião de carreira.

A audiência com Levy está marcada para as 11h. Se atrasar, o governador corre o risco de perder o voo de volta, que sai de Brasília às 14h40min, faz uma escala em Congonhas (São Paulo) e só chega a Porto Alegre às 19h18min.

BAILE DEPOIS DO PROTESTO
Para celebrar os 70 anos de fundação, o Cpers montou uma programação que combina protesto e festa.

O sindicato orientou os professores a paralisarem as atividades nas escolas amanhã.

Às 10h, haverá protesto em frente ao Palácio Piratini, cobrando o atendimento de reivindicações como o pagamento do piso salarial do magistério.

Às 20h30min, no Clube Farrapos, começa o jantar-baile dos 70 anos.

SUSPENSEATÉ AMANHÃ
Ao sair da audiência com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o governador José Ivo Sartori dará entrevista sobre os resultados do encontro, mas não dirá se os salários de abril serão pagos em dia ou parcelados.

Antes de bater o martelo, Sartori e Feltes se reunirão com os secretários Márcio Biolchi e Carlos Búrigo para analisar todos os cenários traçados pelos técnicos da Fazenda já com base na resposta de Levy e na arrecadação do ICMS da indústria. O que o governo vai fazer na noite de hoje é escolher se atrasa os salários ou os fornecedores.

O valor líquido da folha de pagamento dos servidores ativos e inativos é de R$ 935 milhões.

ELEVADOR SEM ASCENSORISTA
Na volta do feriadão, os funcionários da Assembleia encontraram os elevadores sem ascensoristas e cartazes informando que a situação se prolongará “por tempo indeterminado”.

A explicação oficial é de que o contrato com a empresa terceirizada venceu, a Assembleia fez nova licitação e a perdedora embargou o certame na Justiça.

FASE DE PLANTIO

Para quem se angustia com o ritmo lento do governador José Ivo Sartori, vai aqui uma explicação do próprio, dada ontem na reunião-almoço da Câmara da Indústria e Comércio, em Caxias do Sul: o governo está trabalhando em silêncio, sem espetáculo, plantando a semente da mudança.

– O plantio é silencioso. Festa só se faz na colheita – disse.

Aos empresários, Sartori disse que está estabelecendo um novo modelo de gestão, que vai da fixação de metas ao acompanhamento de resultados.

– Temos que diminuir o processo burocrático e melhorar a capacidade de atendimento – constatou.



23 de abril de 2015 | N° 18141
DAVID COIMBRA

O cachorro Vírgula

Quando Eva anunciou, entre dentes, “ou o cachorro, ou eu!”, Eric não teve dúvidas: ficaria com o cachorro.

Amava aquele cachorro. Em sua companhia, sentia-se da melhor maneira que um homem pode sentir-se: sentia-se de novo um menino. Vírgula, esse o nome do cachorro, por causa do formato do rabo, Vírgula era um pastor alemão grande, leal e carinhoso, exatamente o contrário de Eva, uma mulher miúda, às vezes áspera, sempre crítica.

Vírgula adorava seus amigos. Eva os odiava.

Vírgula era popular entre os vizinhos. O menino que morava na casa ao lado, Tiaguinho, brincava com ele e o levava para passear de manhã, quando Eric estava trabalhando. Eva nem cumprimentava os vizinhos, e Tiaguinho sentia medo dela.

Vírgula estava sempre pronto para o que Eric quisesse fazer, fosse ficar em casa, fosse dar uma volta na quadra, fosse ir para Paris, se um dia pudessem ir a Paris. Não interessava, Vírgula gostava de tudo. Eva não gostava de nada.

Verdade que ele não fazia sexo com Vírgula, mas o sexo com Eva também já não era mais essas coisas. Além disso, para Eric, a humanidade superestimava o sexo. A maior parte dos sacrifícios e desatinos das pessoas, neste mundo, acontece por causa do sexo, que, ao fim e ao cabo, não passa de um prazer fugaz. Um jantar simples e bem feito, digamos, uma massa à bolonhesa coberta de queijo parmesão, acompanhada de um tinto honesto, esse prato barato pode fornecer mais satisfação, durante mais tempo, do que uma sessão de sexo acrobático com a Megan Fox. A diferença é que o sexo com a Megan você conta para os amigos; a massa, não.

Sim, o sexo é valorizado em demasia. Eric podia ficar longo tempo sem sexo. Mas não conseguia ficar uma semana longe de Vírgula. Quando estava trabalhando, Eric às vezes pensava na volta para casa, no momento de chegar e ser recebido por Vírgula. O cachorro expressava alegria genuína ao reencontrá-lo. Pelo abanar frenético do rabo e por seus olhos molhados, Eric via que Vírgula sentira sua falta. Eva, não. Eva esperava-o sentada diante da TV e, antes que ele pudesse falar Cucamonga, ela já estava vomitando os problemas do seu dia agitado e fundamental para os rumos da humanidade.

Eva era jornalista. Durante a convivência com ela, Eric havia aprendido a desprezar jornalistas. Não os odiava: eles apenas o aborreciam. Estavam sempre julgando tudo e todos. Mas isso nem era o pior. O pior era quando manifestavam seu amor por pobres e oprimidos e escreviam textos supostamente poéticos sobre isso no Facebook. Eric sentia vontade de vomitar.

Eric não passava de um funcionário público, não tinha feito faculdade, não se podia dizer que ganhasse um bom salário, mas isso não significava que se sentisse oprimido, que achasse que os bem-nascidos eram melhores do que ele ou privilegiados em relação a ele, ou que ele era vítima. Não. Eric estava contente com o que tinha, sua pequena casa, seu emprego, seu carro usado e, sobretudo, seu cachorro.

Não sentia a mínima vontade de se manifestar contra ou a favor de nada, pouco se lixava para quem era o presidente, só votava porque era obrigado, não achava nem bom nem ruim que tivesse beijo gay na novela e ficava com sono quando ouvia os amigos jornalistas da sua mulher discursando em mesa de bar contra os preconceitos da sociedade hipócrita e conservadora. Um deles, um colunista, o irritava em especial, porque Eric tinha certeza de que era um gremista enrustido, e Eric era um colorado assumido.

Eric queria viver a sua vida sem ser incomodado. Por isso, considerou atraente a ideia de Eva ir embora e ficarem só ele e Vírgula em casa. A paz! Sim, isso poderia significar a paz. Olhou para Eva, pronto para responder:

– Vou ficar com o cachorro.


Achou que tudo se arranjaria a contento com aquela resposta. Mas estava enganado. As coisas ficaram bem ruins para ele. E piores para Vírgula. Saiba como ficaram... amanhã!

23 de abril de 2015 | N° 18141
CARLOS GERBASE

DAWKINS E DEUS

No final de maio, vem palestrar em nossa cidade um dos ateus mais famosos do mundo, o biólogo Richard Dawkins. Ele é autor de livros de divulgação científica de muito sucesso – e também muito polêmicos – como O Gene Egoísta, em que defende a ideia, às vezes muito mal interpretada, de que nossos corpos são máquinas a serviço da reprodução do DNA, e Deus, um delírio, um apanhado dos prejuízos que as religiões já causaram ao mundo.

Já li bastante Dawkins e asseguro que suas obras mais interessantes não são essas duas. Recomendo fortemente A Grande História da Evolução e A Escalada do Monte Improvável.

O primeiro, em vez de começar do começo e ir até o fim, ou seja, da geleia que deu origem à vida ao ser humano, vai do fim ao começo (do homem à geleia). E isso faz muita diferença. O segundo é uma coleção de ensaios que cruzam aspectos biológicos, estatísticos e filosóficos da evolução. Dawkins é um sujeito culto, com ideias originais e escreve bem. O que mais se pode pedir de um autor literário? Nada. O problema é que Dawkins também é um cientista, e o mundo exige que ele defenda suas ideias com objetividade e rigor.

O mais interessante na polêmica criada por O Gene Egoísta é a questão da metáfora. Um gene não pode ser exatamente “egoísta”. Mesmo que admitamos que ele codifica determinadas emoções, um gene não tem sentimentos. Por conta disso, o livro foi atacado, tanto por cientistas quanto por filósofos da ciência. E, por mais que Dawkins insista que se trata de um jogo de palavras com finalidade didática, seus leitores continuam interpretando o egoísmo ao pé da letra.

O problema de Dawkins é a falta de imaginação dos seus leitores, que talvez tenham lido Deus, um Delírio e se convencido de que todo pensamento que se afasta um pouco da razão, que tem algum viés mitológico ou fantasioso, é um pensamento de menor qualidade, ou até nocivo ao pensador.


O problema de Daw­kins é que ele, ao declarar inútil a ideia de Deus, está também atacando a capacidade de interpretar uma metáfora, que pede imaginação e pensamento menos racional. Enfim, o problema de Dawkins é que ele, como um Deus, criou a ideia metafórica de um “gene egoísta”, e seus fiéis não podem acreditar em Deus.