quinta-feira, 27 de junho de 2024


CAPINEJAR

Não briguem com Deus

Se eu morrer, não quero que minha esposa e meus filhos condenem Deus. Não quero que parem de rezar. Não quero nenhuma retaliação às crenças, nenhum boicote à esperança.Não quero que praguejem o destino como se minha partida fosse uma injustiça. Não quero que assumam o tom grave da amargura no cumprimento diário.

Não quero que vistam roupas escuras mais do que o necessário. Não quero que deixem de procurar os seus amigos ou de manter as suas rotinas. Não quero que me vejam como pretexto para desistir de qualquer coisa. Não quero ser fiador de abandonos, de renúncias, de adiamentos. Não quero que prendam as minhas roupas no armário, que trancafiem os meus sapatos nas gavetas - desejo que passem tudo adiante.

Que não tenham medo de doar os meus órgãos, dos olhos ao coração, que não limitem o meu espírito, que não me economizem, que não se mostrem avarentos com a ciência e a multiplicação da vida, que jamais confiem em superstições de que precisarei de meu corpo amorfo, de que sem ele não me conservarei inteiro e completo na ressurreição entre os mortos.

Que não disputem pela herança, que não tentem adivinhar o que eu diria se estivesse vivo. O que era importante - meus valores, meus princípios, meu caráter - já reparti na convivência.

Que as minhas canções, meus filmes e livros preferidos não sejam evitados. Que não reneguem os lugares que frequentávamos juntos: os restaurantes, os parques, os bares, os mapas de nossas caminhadas. Que não tenham pudor de voltar aos nossos pontos prediletos e fazer novas lembranças com outras pessoas.

Nenhuma falta é resolvida brevemente. Entendo que será um baque, talvez um espanto - o vazio não surge sem violência -, mas que o luto seja cumprido dentro do possível, devagar, sem pressa, sem a ânsia de esgotá-lo de qualquer jeito.

Que parcelem o pesar, como fizemos com os móveis sob medida da cozinha.

Que o choro venha nas datas festivas, que a íris fique mais luminosa para a humildade.

Contenta-me pensar em ser mais motivo de suspiro do que de lágrimas. O vento sempre me apeteceu mais do que a chuva.

Mas, por favor, que eu possa ser posto de lado de vez em quando. Que me esqueçam suavemente. Que eu dê trégua para a dor. Que a saudade receba o antídoto da gratidão. Que os feriados sigam sendo emendados com os finais de semana, propícios para realizar pequenas viagens, como eles tanto gostam e celebram.

Que larguem algumas flores mensais em minha lápide, menos por mim e mais para despertar o capricho da vizinhança.

Que não se sintam culpados por rir. O riso é incontrolável. Somos capazes de rir, de modo involuntário, do riso de alguém.

Que não percam a fé por minha causa. Que não amaldiçoem o brilho das estrelas extintas no céu.

A finitude já estava prevista no contrato da existência. Não fui enganado, ninguém foi enganado. Um dia iria acontecer. Não temos certeza do fim, o que torna tudo muito mais surpreendente.

A honestidade é irmã da imperfeição. A beleza tem um quê de silêncio. Não estarei visível, mas serei mais profundo.

CAPINEJAR

27 de Junho de 2024
EDITORIAL

Editorial- Resposta ao assalto na Serra

As prisões de suspeitos de ligação com o mega-assalto realizado na quarta-feira da semana passada, no aeroporto Hugo Cantergiani, em Caxias do Sul, indicam um bom progresso nas investigações, comandadas pela Polícia Federal (PF). Até o início da noite de ontem, eram cinco homens detidos. Firma-se ainda a convicção de que o Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior facção do país, tomou parte no planejamento da ação.

A ousadia e a gravidade do ataque, que também resultou na morte do segundo-sargento da Brigada Militar Fabiano Oliveira, 47 anos, pelos bandidos, elevam a importância de o caso ser totalmente elucidado, e os envolvidos, presos e condenados. O roubo e o assassinato não devem restar impunes. Espera-se também que os R$ 15 milhões levados sejam recuperados.

A vinculação com o PCC é feita por elementos como a ligação conhecida do criminoso morto no dia do assalto com a facção de origem paulista. Também pela prisão no interior de São Paulo de outro homem, considerado um dos líderes do grupo, em um veículo empregado na fuga. Esse contexto dá mais relevância ao caso, uma vez que a mesma organização é suspeita de outros assaltos de grandes proporções, inclusive em aeroportos, em que teriam amealhado mais de R$ 300 milhões.

Há bastante tempo o PCC não é mais um grupo que opera o tráfico de drogas ou de armas. Está cada vez mais sofisticado. A facção expande seus tentáculos de forma territorial e em novos negócios, muitos de fachada, que usa para lavar dinheiro. Assaltos como o realizado na Serra também são utilizados para financiar outras operações e até sustentar familiares de líderes presos. 

Em abril, veio a público que a organização controlava duas empresas de ônibus que fazem o transporte público na cidade de São Paulo. Há duas semanas, uma nova operação mostrou que o PCC também era proprietário de dezenas de pequenos hotéis na capital paulista. Sabe-se também que, em vários Estados, há inquéritos que investigam a investida de facções no ramo de apostas online.

O cerco à maior organização criminosa do país não pode ter trégua. O enfrentamento esperado pela sociedade deve contar com a integração entre forças policiais de diferentes Estados, em associação com órgãos federais. É essencial apostar na inteligência, antecipando-se aos passos de seus membros, e dar atenção à asfixia financeira do grupo, com bloqueio de contas e sequestro de bens, detenção e isolamento das lideranças. Outra tendência que requer extremo cuidado é a infiltração em instituições públicas.

O Rio Grande do Sul assiste, nos últimos anos, a uma queda consistente nos índices de criminalidade. Essa constatação está longe de significar que a guerra contra a delinquência foi vencida. O ataque aos dois carros-fortes em Caxias do Sul, o maior assalto já visto no Estado, demonstra o poderio e a capacidade de organização dessas megaquadrilhas. Cabe às polícias estaduais, à Polícia Federal e aos ministérios públicos uma resposta à altura do atrevimento e a continuidade dos esforços para sufocar as facções. _

A ousadia e a gravidade do ataque elevam a importância de o caso ser totalmente elucidado, e os envolvidos, presos e condenados

EDITORIAL

PRIMEIRA EDIÇÃO

PRIMEIRA EDIÇÃO

Primeira edição. Retomada é tema de painéis do Grupo RBS

Como parte do movimento "Pra cima, Rio Grande", que reúne ampla frente de ações institucionais e editoriais focadas na reconstrução do Rio Grande do Sul, o Grupo RBS promove uma série especial do Painel RBS para dar voz e visibilidade aos desafios e soluções para a retomada de setores-chave na economia gaúcha.

Com realização às 14h de hoje e transmissão ao vivo em GZH, a primeira edição vai debater caminhos possíveis para a atividade turística no Estado. Elói Zorzetto mediará o encontro. A estreia com foco em turismo marca o início do inverno, quando tradicionalmente se vive a alta temporada no setor - agora impactado pelas restrições de voos.

Participantes

O Painel RBS contará com participação de Luiz Fernando Rodriguez Júnior, secretário de Turismo do RS em exercício; Amanda Bonotto Paim, coordenadora de Turismo do Sebrae RS; Rodrigo Machado, sócio-diretor da Opinião Produtora e um dos fundadores do Instituto RSNASCE; Daniel Hillebrand, presidente do Contur Hortênsias e gerente de relacionamento institucional da Sicredi Pioneira; e Daniel Panizzi, presidente da União Brasileira de Vitivinicultores (Uvibra) e vice-presidente do Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura (Consevitis-RS).

Os temas abordados nesses encontros ganharão repercussão nos veículos do Grupo RBS, somando-se à cobertura diária com foco em debater soluções, amplificar bons exemplos e valorizar cada avanço na retomada.

Esta frente editorial conta ainda com o Painel da Reconstrução, ferramenta que monitora o uso de verbas públicas na recuperação do Estado. _


ADAPTAÇÃO E RESILIÊNCIA - Vinicius Coimbra

ADAPTAÇÃO E RESILIÊNCIA

Adaptação e resiliência. Como funcionará o comitê criado para ajudar o RS a lidar com crise

Grupo é formado por 43 estudiosos de diversas áreas do conhecimento. Poder Executivo quer que projetos sejam analisados antes do investimento público. Um dos primeiros trabalhos será o de avaliar planos de contenção de cheias na região metropolitana de Porto Alegre

O governo estadual instalou o Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática durante uma reunião no Palácio Piratini, em Porto Alegre, na manhã de ontem. O grupo é formado por 43 pesquisadores e especialistas de instituições do Rio Grande do Sul, outros Estados brasileiros e do Exterior. A iniciativa também terá espaço para consultores de fora do comitê.

Os cientistas terão atribuições consultivas e propositivas em ações e políticas públicas voltadas para a adaptação e resiliência climáticas.

A principal forma de atuação será por meio de pareceres, ou seja, o governo estadual pedirá a avaliação dos especialistas quando elaborar projetos para lidar com a crise climática. A decisão dos investimentos, porém, seguirá com o Executivo.

- O comitê terá absoluta liberdade para atuar. A partir do conhecimento científico, vamos orientar as ações do governo. São recursos volumosos que serão investidos e precisamos reduzir a chance de erros. A ciência tem de ser respeitada: ela terá espaço para debater, entender os caminhos e nos orientar - disse o governador Eduardo Leite, que conduziu a reunião.

O comitê tratará de diversos temas, desde sistemas de proteção de cidades até estudos voltados para a ativação econômica e questões de saúde pública. Serão abordados tópicos como desassoreamento de rios e córregos, mapeamento topográfico, sistemas de alertas mais avançados e cultura de prevenção.

Tarefas

Uma das primeiras tarefas dos estudiosos será avaliar projetos para enfrentar cheias no Delta do Jacuí, em Eldorado do Sul, e no Arroio Feijó, em Alvorada e Porto Alegre. Esses levantamentos foram feitos antes da enchente de maio. O governo quer que os estudiosos avaliem se os projetos devem ser melhorados ou se podem ser executados.

Os cientistas do grupo integram diversas áreas do conhecimento e têm projetos relacionados com a emergência e a crise climática. Três integrantes do comitê serão remunerados: Joel Goldenfum, que será secretário-executivo, e duas assessoras-técnicas, Alexandra Passuello e Eliana Dienstmann. A coordenação do Comitê Científico é de Simone Stülp, secretária de Inovação, Ciência e Tecnologia.

- São pessoas que têm uma trajetória de construção de projetos, não é somente um olhar acadêmico: há uma conexão do conhecimento produzido à sociedade e para a construção de um Estado mais resiliente - pontuou Simone.

Os especialistas terão reuniões semanais. O próximo encontro está marcado para terça-feira, 2 de julho. O Comitê Científico integra o Plano Rio Grande, criado para enfrentamento aos efeitos das cheias. _

quarta-feira, 26 de junho de 2024


Não existe tempo de qualidade

Tenho feito eventos para pediatras e eles me contam histórias bonitas e tristes e talvez a mais triste é a quantidade de pais que mandam a babá levar o bebê na consulta - de vez em quando, os pais entram por videochamada. Quase tão triste quanto aquele pai que queria que a creche abrisse no fim de semana porque o bebê chorava demais e ele precisava descansar. Quase tão triste quanto o menino que ia pra escola de Mercedes Benz, e o motorista era o responsável por comparecer às reuniões escolares.

Não são apenas os ricos que terceirizam a criação dos filhos. Todos estamos atolados de trabalho, olhando nossos celulares. Todas as crianças estão sendo criadas por iPads. E o pouco tempo que temos com eles dizemos: “pelo menos é tempo de qualidade”.

Sinceramente, acho que isso não existe. Existe tempo de qualidade se não há tempo de quantidade? Existe tempo de qualidade se não participamos também dos momentos difíceis? Não são os momentos chatos que nos fazem ver os bonitos? Não é a rotina que nos ajuda a conhecer os filhos?

Convido os pais a fazerem uma proposta aos seus chefes: a partir de agora trabalharão pouco, mas o tempo de trabalho será de qualidade. Vamos ver se seus chefes serão tão compreensivos quanto seus filhos. Vamos ver se seus empregos desmoronam como suas famílias.

Este não é um convite para a culpa, é um convite para a calma. Uma vida feliz com filhos é possível, mas ela nos pede tempo. Tempo atento, calmo, bobo. Tempo de conversa fora, de conversa séria e de conversa tola. Nossos filhos não são a interrupção do trabalho importante. Nossos filhos são o trabalho importante.

Marcos Piangers 


26 DE JUNHO DE 2024
CARPINEJAR

Gente como a gente

Com 35 anos, jogador de futebol costuma estar aposentado. Já se desacelerou do ápice da forma física, já deixou para trás os grandes clubes da sua juventude. Mas meu xará no Inter, Fabrício Barros Santana, natural de Paranavaí (PR), casado com Indianara desde os 19 anos, fez o caminho contrário.

Enquanto a maioria dá adeus, ele chega. Enquanto a maioria parte, ele começa. É uma exceção gloriosa. Encontra-se longe de pendurar as chuteiras e tem a sua primeira chance na elite aos 38 anos - o mais perto disso foi ter sido o terceiro goleiro do CSA em 2019, na Série A, porém ali não jogou por um minuto.

O acaso o trouxe para o Beira-Rio, e o talento o enraizou. Sua vinda supriu uma urgência, com a séria lesão do goleiro reserva Ivan no Gauchão, que rompeu o ligamento cruzado do joelho direito.

O arqueiro colorado desmonta qualquer padrão de carreira, desmancha o etarismo, mostra o quanto o esforço é a única sorte de quem vem da várzea. Seu maior título nacional até então foi o campeonato da Série C pelo Vila Nova. Circulou por 17 equipes de AL, CE, PR, MG, GO, SP e RJ, numa vida de caixeiro-viajante que se iniciou aos 17 anos, quando se despediu da tutela dos pais.

Chamou atenção ao ser destaque do Nova Iguaçu, vice-campeão do Carioca. Sequer aqueceu o banco no Inter. Com a convocação do uruguaio Sergio Rochet para a Copa América, enfileira sua sexta partida consecutiva. Levou apenas dois gols. Fechou as traves em cinco rodadas. Já operou milagres na Sul-Americana e no Brasileirão. Três defesas difíceis seguraram o empate com o São Paulo.

O que o diferencia é que ele não é deslumbrado pela fama, pois a ostentação e as mordomias não o pegam mais.

- Sempre joguei em time pequeno, sempre tive um plano B. Hoje eu posso me dedicar integralmente para ser goleiro - afirma Fabrício. Fabrício é gente como a gente. Não é uma coincidência que carregue nas costas o número 12, o número da torcida, o número do 12º jogador em campo, que simboliza o apoio da arquibancada.

Driblou a fome, o atraso de salários, o transporte público cheio. Após as semifinais do Carioca, confrontos que eliminaram o Vasco da Gama, voltava de metrô com a família para casa. Ele não sucumbe ao nervosismo, possui traquejo no toque de bola com a zaga e firmeza na saída pelo alto.

Ao mesmo tempo que é um veterano da sobrevivência - nem precisamos pedir garra, que ele tem de sobra -, apresenta uma felicidade própria de jovem de categoria de base subindo entre os profissionais.

- Na verdade, não queria desistir, pois sabia que tinha qualidade. Eu lutava contra o relógio - lembra.

Um dia para ele é um ano. Uma partida para ele é final de campeonato. - Jamais pensei que a torcida gritaria meu nome. Passa um filme na minha cabeça de tudo o que enfrentei de privações - celebra.

Não duvido que, pela sua simplicidade cativante, pela sua liderança coloquial, ultrapasse Fábio, 43 anos, goleiro do Fluminense, na longevidade.

Talvez tenha recebido o espírito e a bênção de Manga, o Homem-Borracha, que atuava de modo destemido, sempre sem luvas, e que se consagrou campeão brasileiro no clube gaúcho exatamente com a idade de Fabrício. Ainda é cedo para dizer que ele se tornará ídolo, mas com certeza já é um exemplo de superação. _

CARPINEJAR

26 DE JUNHO DE 2024
MARIO CORSO

Demência digital

Mas nem tudo são flores. Como criadores e cobaias dessa revolução, desconhecíamos os efeitos prejudiciais. A expressão "demência digital" começa a ser usada, por neurologistas e pesquisadores do cérebro. Referem-se a um declínio cognitivo advindo do uso de tecnologia digital.

Veja os efeitos disso na geração Z (nascidos depois de 1996). O QI dos filhos é inferior ao dos pais. Aumentaram os casos de depressão (50%), de suicídios que são mais precoces (entre 10 e 14 anos subiu 48%), além do incremento de casos de automutilação, ansiedade, fobia e pânico. Usam precocemente medicações psiquiátricas. São inábeis na comunicação. Tendem a ter pouca motivação, baixa resiliência e não lidam bem com a frustração.

Culpar apenas as telas é exagero. Existem as famílias e as escolas vocacionadas ao hedonismo. Mas são os primeiros a crescer com um smartphone na mão. Lembrem: todo novo território é um faroeste no início. A socialização nas redes sociais é selvagem, pois a criança é exposta a conteúdos e querelas adultas antes do tempo, especialmente temas sexuais.

A aprovação por "curtidas" cria obsessões por aceitação e autoestima. As pressões estéticas são esmagadoras, constituir uma imagem corporal, um drama. Os jovens vivem aterrorizados pela exposição nas redes, pelo cancelamento e pela humilhação pública.

Jogos eletrônicos substituíram brincadeiras de exploração do espaço. A pracinha não te dá estrelinhas e aplausos a cada passo. O reforço excessivo encanta a tela e desencanta o mundo. O desenvolvimento da inteligência, que depende da atividade corporal, empobreceu.

É impossível eliminar as telas, mas é possível limitar o uso. Sem proibir, para não atiçar o desejo. Dê o exemplo, se ficares mesmerizado com o celular, teu filho te imitará. Olhos postos na tela, os adultos ensinam, observam e amam menos. Isso também contribui para tantas fragilidades.

Diga-me, você deixa seus pequenos nessa selva sozinhos? _

MÁRIO CORSO

26 DE JUNHO DE 2024
360 GRAUS

Chegou a hora de ouvir (e apoiar) a ciência

De lá para cá, testemunhamos mais duas grandes enchentes: a de novembro de 2023 e a de maio deste ano, considerada a maior catástrofe do gênero na nossa história. O Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do Rio Grande do Sul chega com atraso, mas chega - e é bem-vindo. Antes tarde do que tarde demais.

Tudo tem seu tempo, e o tempo de ouvir a ciência urge. Se o comitê tivesse sido criado naquela ocasião, talvez não fosse ouvido. Foi necessário um baque gigantesco para que muitos compreendessem, enfim, que os cientistas precisam ser escutados mais do que nunca, com a urgência que o momento demanda.

O comitê não terá superpoderes. Não vai alterar os rumos da história, nem mesmo terá forças para impor mudanças radicais, sabemos disso. Mas terá um papel fundamental: o de apontar caminhos e indicar por onde não devemos seguir.

Se vai dar certo e ter resultados práticos? Não sei. O que sei é que os pesquisadores que aceitaram o chamado, por convicção, dever e senso de responsabilidade, merecem nosso voto de confiança. _

Simone Stülp

Secretária de Inovação, Ciência e Tecnologia e coordenadora do Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do Rio Grande do Sul. A seguir, os principais trechos da entrevista que fiz com Simone Stülp, sobre o Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática.

A retomada no CTG que teve 400 troféus levados pela água

Como gaúcho que é gaúcho não se entrega, prendas e peões decidiram levantar a cabeça e enfrentar a crise. O trabalho começou com um mutirão de limpeza, com apoio da Corsan.

Além dos troféus, a água levou utensílios do bolicho e objetos do museu local. Até mesas e cadeiras pesadas foram arrastadas pela correnteza. Agora, é preciso recomeçar do zero.

- Não há de ser nada. Não vamos desistir, de jeito nenhum - diz Paulo Roberto da Silva Freitas, o Paulinho, patrão do CTG. 

JULIANA BUBLITZ

26 DE JUNHO DE 2024
EDITORIAL

Os adolescentes e as redes sociais

Merece ser reverberada no país a discussão que nos últimos meses ganhou nova força, em especial nos EUA, sobre o uso excessivo de redes sociais por crianças e adolescentes. O tema deve ser acompanhado com atenção por autoridades brasileiras, profissionais da área de saúde, educadores e pais.

O assunto reacendeu a partir da publicação do livro A Geração Ansiosa, do psicólogo social Jonathan Haidt, professor da Universidade de Nova York. Haidt alerta para uma epidemia de problemas de saúde mental entre a população infantil e os jovens norte-americanos, que se repete em outras nações analisadas. Aponta alta de 50% nos casos de depressão entre crianças e adolescentes de 2010 a 2019 e de 48% nos suicídios. O período inicial marca a popularização dos smartphones, que facilitaram o acesso às redes. A principal advertência é para que os país façam o possível para evitar que seus filhos cresçam na frente das telas, à mercê dos algoritmos.

Na semana passada, a maior autoridade em saúde pública dos EUA, Vivek H. Murthy, classificou o tema como uma emergência. Referiu a responsabilidade das redes sociais, consideradas viciantes. Em um contexto de cuidados das empresas de tecnologia muito aquém do necessário em relação aos conteúdos que deixam circular e de estímulo à permanência online pelo maior tempo possível, Murthy sugeriu que o Congresso dos EUA forçasse as companhias a alertar os usuários sobre os riscos existentes nas redes. Seria algo semelhante às advertências nas embalagens de cigarros. Para Murthy, trata-se de um problema tão grave que não caberia apenas aos pais a tarefa de limitar o acesso de crianças às redes sociais. Seria uma missão coletiva da sociedade.

Não é nova a associação entre uso desmedido de redes sociais por crianças e adolescentes e transtornos mentais, além de dificuldade de sociabilidade e de aprendizado. Mas ainda existem questionamentos. Holden Thorp, editor da revista científica Science, uma das publicações do gênero mais respeitadas do mundo, avaliou em artigo na semana passada que Haidt não conseguiu demonstrar a relação de causa e efeito.

Dúvidas devem servir para incentivar mais debates e estudos. Os problemas de saúde mental entre crianças e adolescentes também avançam no Brasil. De 2011 a 2022, as taxas de suicídio e automutilações na faixa etária entre 10 e 25 anos cresceram muito acima da média da população em geral, indicou pesquisa da Fiocruz. 

Em meio a essas preocupações, ganha adesão no país a ideia de evitar dar celular a crianças com menos de 14 anos e só permitir redes sociais após os 16, em linha com a pregação de Haidt. A iniciativa é defendida pelo movimento Desconecta, nascido de um grupo de mães preocupadas com o uso precoce dos smartphones pelos filhos. Há ações também de instituições de ensino restringindo o acesso aos aparelhos nas escolas.

O tema deveria estar na ordem do dia do Congresso Nacional. O parlamento, no entanto, segue omisso quanto à regulação das redes sociais. _

Na semana passada, a maior autoridade em saúde pública dos EUA, Vivek H. Murthy, classificou o tema como uma emergência

EDITORIAL

26 DE JUNHO DE 2024
POLÍTICA E PODER

Pedalada em nome da calamidade

O prefeito Sebastião Melo enviou à Câmara de Porto Alegre um projeto que autoriza a prefeitura a adiar pagamentos à previdência municipal até o final do ano.

O objetivo é economizar R$ 77 milhões para aplicar na recuperação da cidade.

Se o texto for aprovado, a prefeitura não precisará repassar ao Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) as contribuições patronais do período entre maio e dezembro. Esse valor seria restituído de forma parcelada a partir de janeiro de 2025, em 60 parcelas mensais.

Na semana passada, a prefeitura apresentou um plano de reconstrução da cidade orçado em quase R$ 900 milhões. 

Cadastro do auxílio irá até o dia 12

Após chiadeira dos prefeitos, o ministro Paulo Pimenta anunciou a prorrogação do prazo para o cadastro no Auxílio Reconstrução. A janela, que fecharia ontem, foi postergada até 12 de julho. Pimenta reclamou que 166 prefeituras ainda não cadastraram famílias para receber os R$ 5,1 mil. _

Em meio a um burburinho de motores e marteladas e o vaivém de 140 operários, ganha forma na zona norte de Porto Alegre o centro provisório que receberá cerca de 800 pessoas que perderam suas casas na enchente. Das duas tendas principais, uma está montada e a outra exibe a estrutura metálica que será coberta pela lona branca utilizada em hospitais de campanha. A previsão é de que o complexo, no bairro Costa e Silva,

fique pronto até 10 de julho. O centro de acolhimento receberá desabrigados que hoje estão em estruturas precárias até a entrega da moradia definitiva pelo governo federal.

Além do pavilhão da Capital, outros dois estão sendo erguidos em Canoas - o primeiro deve ser entregue semana que vem. O plano original previa mais dois em Porto Alegre, totalizando cinco centros.

- Vamos avaliar se será preciso chegar aos cinco centros, erguendo outros dois na Capital, ou se apenas esse será suficiente - disse o vice-governador Gabriel Souza, que vistoriou o local ontem ao lado do secretário de Obras da Capital, André Flores. _

POLÍTICA E PODER

terça-feira, 25 de junho de 2024

25/06/2024
Frei Jaima Betttega

A esperança é o que nos impulsiona a seguir em frente

Em momentos de desânimo, uma palavra de amor pode fazer toda a diferença, iluminando os dias mais sombrios e trazendo conforto aos corações aflitos 

25/06/2024 - 08h26minBom dia! Alegria! Recomeçar é uma oportunidade incrível... Estamos na última semana do mês de junho... Vivamos intensamente cada dia, cada momento... Feliz dia!

“É preciso falar de esperança todos os dias. Só para que ninguém esqueça que ela existe.” (Mia Couto). 

A esperança surge como uma luz que nos guia para dias melhores. Falar de esperança é essencial para que ela permaneça viva em nossos corações. Cada palavra de encorajamento, cada gesto de bondade, reforça a presença dessa força vital em nossas vidas. A esperança é o combustível que nos impulsiona a seguir em frente, mesmo quando o caminho parece árduo. 

Ela nos lembra que, independentemente das circunstâncias, há sempre a possibilidade de um novo começo, de uma nova oportunidade. É através da esperança que encontramos a força para superar os desafios e a coragem para enfrentar o que tem a aparência de impossível. Manter a esperança viva exige um esforço constante de renovação. 

Não basta apenas acreditar nela; é necessário cultivá-la diariamente, lembrando a nós mesmos e aos outros que ela existe. Em momentos de desânimo, uma palavra de esperança pode fazer toda a diferença, iluminando os dias mais sombrios e trazendo conforto aos corações aflitos. A esperança não é uma mera expectativa passiva, ela é ativa e transformadora. Quando falamos de esperança, estamos plantando sementes de otimismo e fé, que podem florescer e transformar realidades. Cada um de nós tem o poder de ser um portador de esperança, espalhando palavras e mensagens de encorajamento e mostrando que, apesar das provações, há sempre um caminho a seguir. 

Em nossas vidas, a esperança se manifesta de diversas formas: no sorriso de um amigo, no abraço caloroso de um ente querido, na beleza de um novo amanhecer, no sorriso maduro de um idoso. Esses pequenos sinais nos lembram que a vida está repleta de possibilidades e que, mesmo diante de tudo o que acontece, podemos encontrar motivos para acreditar em um futuro melhor. 

Que possamos todos, a cada dia, falar e testemunhar a esperança, para que ninguém esqueça que ela existe e que ela precisa estar em movimento. Ao fazer isso, não só mantemos viva essa chama em nossos próprios corações, mas também inspiramos os outros a acreditarem em dias melhores. Viver com esperança é viver com a certeza de que cada dia traz consigo muitas promessas de vida plena. 

Bênção! Paz & Bem! Santa Alegria! Abraço!


25 DE JUNHO DE 2024
CARPINEJAR

Nomes compostos

Meus pais têm nomes compostos, seus irmãos têm nomes compostos. Na família paterna, além de meu pai, Luiz Carlos Verzoni Nejar, há os tios Luiz Paulo Verzoni Nejar e Sady José Verzoni Nejar (in memoriam), e as tias Maria do Carmo Abott, Maria Cristina Nejar, Maria da Graça Nejar e Rosa Maria Nejar.

Do tronco materno, minha mãe é Maria Elisa Carpi, minha tia é Cléa Ana Carpi.

Os nomes das pessoas mais antigas são compridos como fazendas. São extensos como estradas. Carregava-se uma lógica genealógica de prefixos na família grande. Como um princípio de ordenação, de hierarquia do caçula ao primogênito.

Eu acho bonita a existência desses seres gêmeos de nome. Gêmeos do cartório. Você contava com um nome suplente. Um nome secreto. Um nome para ser guardado. Um nome para ser economizado.

A família chamava de um jeito, os amigos de outro. O trabalho destacava uma forma de nominação, a intimidade escolhia outra. Você desfrutava de uma versatilidade em diferentes ambientes. Não se enjoava de si, dispunha de mais de uma maneira de se declarar. Meu pai prefere o Carlos - o Luiz passa a ser o seu duplo escondido. Minha mãe privilegia a Maria - a Elisa é sua alma reservada.

Quem tem hoje três irmãos, e pensa que os pais exageraram na dose, não faz ideia da multidão de crias pela casa. Um quarto sozinho era uma sandice, um desejo nababesco, uma realidade impossível. Você se via dividindo as camas, os armários, os cadernos, os livros, as roupas, os brinquedos. Prevalecia uma reação de manada. O nome coletivo nem sempre facilitava. Quando um dos filhos era repreendido, todos olhavam.

A duplicidade não acontecia devido a um problema de memória dos pais, numa dificuldade de listar um por um da prole fértil, ou por indecisão sobre o significado dos nomes, ou por ausência de criatividade, ou num ato diplomático para compor dissidências e agradar a gregos e troianos. Tratava-se de um fundamento de sobrevivência do legado, assinalando uma homenagem a um parente - vô ou vó, bisavô ou bisavó.

Representava um artifício de perpetuação familiar. Havia a necessidade de preservar a memória sofrida dos antecessores, numa resistência genética a partir da escrita. Evitava-se a repetição dos nomes paterno e materno, com o acréscimo de Júnior, por exemplo. Procurava-se beneficiar gerações mais remotas.

O nome em comum correspondia também a um recurso para mitigar perdas. Diante da alta taxa de mortalidade infantil, nunca se sabia quem iria chegar à fase adulta.

Assim se criava uma dinastia de Luiz, ou João, ou Pedro, bem como uma escadinha de Maria ou Ana.

Observando com atenção os meus pais aos seus 85 anos, entendo cada vez mais o motivo de seus nomes numerosos. Foi providencial para o tamanho de suas tarefas. Nada veio fácil para eles. Tiveram que ser vários ao longo da vida, um exército de versões para se revezar na resiliência. Atravessaram uma guerra mundial, a Guerra Fria e as duas enchentes que devastaram Porto Alegre. _

CARPINEJAR

25 DE JUNHO DE 2024
EDITORIAL

EDITORIAL

É admirável constatar, quase dois meses após os gaúchos começarem a enfrentar a maior tragédia climática do Estado, o prosseguimento de grandes mobilizações de cidadania para amparar os mais necessitados. Uma nova demonstração de desprendimento foi vista no domingo, nos bairros Vila Farrapos e Humaitá, na zona norte da Capital, a região mais afetada pelos alagamentos na cidade. Dois mil voluntários se uniram para limpar 200 residências tomadas pelas águas e pela lama, algumas delas por semanas.

Os depoimentos dos moradores que receberam o auxílio são tocantes. Muitos, sob forte abalo emocional, pareciam estar paralisados, sem forças para iniciar a recuperação de suas residências, higienizar pertences que ainda poderiam ser aproveitados e jogar fora bens tornados imprestáveis. O mutirão, intitulado a maior faxina solidária do Rio Grande do Sul, também funcionou como uma injeção de ânimo para o recomeço, após a perda de grande parte de seus patrimônios.

A força-tarefa de limpeza foi mais um exemplo de união de esforços e colaboração entre a sociedade civil e o aparato estatal. A ação foi organizada pela plataforma gaúcha Meu Lar de Volta, que conecta quem precisa de ajuda com que está disposto a arregaçar as mangas e colaborar com pessoas que sequer conhecem. 

Além da população voluntária, tomaram parte da ação o Instituto Vakinha, a startup Trashin, o Grêmio, as Forças Armadas e o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU). Marinha e Exército, além de veículos para o transporte de materiais, se somaram à tarefa com cerca de 300 militares participantes da Operação Taquari 2. A fabricante de produtos de limpeza Ypê doou 2,5 mil kits com itens para a faxina pesada.

Os voluntários escreveram um capítulo à parte na tragédia climática que se abateu sobre o Rio Grande do Sul. Foram milhares de heróis anônimos, gaúchos e pessoas de outros Estados, movidos apenas pelo impulso de ajudar, deixando de lado afazeres e o conforto de seus lares. Outros, apesar de atingidos pela inundação, não hesitaram em estender a mão aos seus semelhantes antes mesmo de se voltarem para resolver os próprios infortúnios.

Foram arrojados e incansáveis nas ações de resgate e salvamento de pessoas e animais, em cooperação com bombeiros, polícias e Forças Armadas. Depois, no amparo aos 80 mil desabrigados, que tiveram de se alojar em locais organizados às pressas. A mobilização de domingo mostra que, a despeito da fadiga, permanece intacta a disposição de doar tempo e esforço para amenizar a dor de outras pessoas.

De acordo com o Mapa Único do Plano Rio Grande, elaborado pelo Palácio Piratini, foram 283 mil domicílios atingidos pela enchente no Estado. Muitos que tiveram a casa inundada contaram com o auxílio de vizinhos, conhecidos ou de estranhos para terem outra vez seus lares em condições de moradia. A solidariedade será sempre lembrada como uma marca indelével da catástrofe de maio de 2024. 


25 DE JUNHO DE 2024
APÓS ENCHENTE - 
Fábio Schaffner

APÓS ENCHENTE

Oposição faz ofensiva para revogar medidas ambientais de Leite

Partidos protocolaram projetos para retomar dispositivos modificados. A alegação é de que as flexibilizações facilitam tragédias. Governo nega.

Na esteira das recentes tragédias climáticas que assolaram o Rio Grande do Sul, a oposição de esquerda ao governo Eduardo Leite pretende revogar medidas que flexibilizaram a legislação ambiental gaúcha. Quatro projetos de lei (PLs) protocolados por PT e PSOL na Assembleia Legislativa retomam a redação original do Código Ambiental, protegem o bioma pampa e autorizam o governo a criar instituto para gerir os recursos hídricos, entre outras mudanças (veja ao lado).

O principal foco está na extinção do autolicenciamento ambiental, na anulação da permissão para construção de barragens em áreas de preservação permanente (APPs) e na proibição de uso e venda de agrotóxicos que são proibidos no seu país de fabricação. As medidas foram aprovadas com ampla maioria pela base aliada e sancionadas por Leite.

Criticadas por ambientalistas, as três leis são objeto de ações diretas de inconstitucionalidade que estão tramitando no Supremo Tribunal Federal (STF). Na última sexta-feira, o ministro Cristiano Zanin deu prazo de 10 dias para o governo se manifestar sobre a ação referente ao autolicenciamento.

Argumentos

Para o deputado Miguel Rossetto, vice-líder do PT, a recorrência com que o Estado tem sofrido com secas e enchentes demonstra a urgência de revisão da legislação ambiental:

- O Estado precisa voltar a discutir o ambiente. Éramos a vanguarda e agora somos o atraso na agenda ambiental.

Juntos, PT e PSOL esperam mobilizar entidades ambientais e movimentos sociais. Os partidos também vislumbram disposição para o diálogo no Palácio Piratini após as críticas recebidas pelo governador durante a enchente por causa da flexibilização de regras ambientais. Embora Leite não tenha incluído nenhuma entidade do setor entre as 169 representações que fazem parte do Conselho do Plano Rio Grande, concebido para ajudar na reconstrução do Estado, ele pediu sugestões à Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), uma das mais respeitadas instituições ecológicas do RS.

O líder do governo na Assembleia, Frederico Antunes (PP), diz que aguardará a chegada dos textos à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa para definir uma posição.

- Ainda não tive tempo de analisá-los com calma, mas sei que toda e qualquer alteração feita nos últimos anos na legislação não teve efeito para causar o desequilíbrio climático que vimos agora no Estado - comenta. _

PL 174/2024

De autoria da bancada do PSOL, o texto revoga a extinção da Fundação Zoobotânica, o autolicenciamento ambiental e as leis das barragens e dos agrotóxicos.

PL 178/2024

De autoria do deputado Luiz Fernando Mainardi (PT), o projeto, além de revogar flexibilizações, cria novas regras para parcelamento do solo, proíbe empreendimentos imobiliários em áreas alagáveis e determina que os planos diretores municipais estejam em sintonia com o plano estadual de mudanças climáticas.

PL 179/2024

De autoria do deputado Luiz Fernando Mainardi (PT), estabelece proteções ao bioma pampa, como preservação de ao menos 20% da área de cada propriedade e prazo de um ano para o governo estabelecer lei específica com normas de uso e conservação.

PL 195/2024

De autoria do deputado Miguel Rossetto (PT), o projeto autoriza a criação do Instituto das Águas do Rio Grande do Sul, autarquia cuja atribuição seria gerir os recursos hídricos e implementar o plano das 25 bacias hidrográficas do Estado.

segunda-feira, 24 de junho de 2024


24/06/2024 - 06h00min
KELLY MATOS

O som que dói 

O fenômeno ocorre porque houve, pra nós, algo como uma quebra de confiança, sentimento semelhante ao que experimentamos quando descobrimos uma traição. 

Entre os muitos elementos potencialmente traumáticos que a enchente de maio despejou sobre nós, gaúchos, há um que passou a nos atormentar sem pedir licença: ouvir o barulho da chuva. Se antes o som da água caindo poderia significar serenidade, relaxamento e uma aparente calmaria – quem sabe, um dia “bom pra dormir” –, agora, ao menor sinal de nuvens escuras, o coração aperta, a angústia invade o peito e a trilha sonora, antes perfeita para o sono, toma o rumo oposto, nos impedindo de adormecer. 

Voltou a chover. Que pesadelo. Será para sempre assim? 

Agora, ao menor sinal de nuvens escuras, o coração aperta, a angústia invade o peito. O fenômeno ocorre, explica a psicóloga Arieli Groff, especialista em luto e traumas, porque houve, pra nós, algo como uma quebra de confiança, sentimento semelhante ao que experimentamos quando descobrimos uma traição. Antes, ouvir barulho de chuva nos remetia, de modo geral, a notas de calmaria, relaxamento, era um som capaz de nos fazer desacelerar. 

Não à toa, diversas meditações guiadas têm esta trilha ao fundo. Eis que maio surgiu, e a chuva nos machucou profundamente. Perdemos amigos, familiares, a casa e os móveis conquistados com o suor de uma vida inteira. O som até outrora meditativo, agora se tornou gatilho que remete a cenas de horror e desespero: pessoas no telhado pedindo socorro, água alagando regiões inimagináveis, o bebê enrolado em uma mantinha e sendo resgatado por bravos agentes em um helicóptero. 

Difícil. 

Tal como na quebra de confiança da traição, há relações que jamais voltam a ser o que eram antes. Casais que não conseguem mais se olhar, amizades que não tornam a ser o que eram, justamente por conta dessa ruptura, desse medo que sentimos de que a dor volte a se repetir. 

É nesse estágio que estamos. Machucados, traídos pela chuva. Será possível reconstruir nossa relação com ela? Difícil. É o tempo que trará essa resposta. Recuperar confiança em alguém pode levar meses, anos. E, ainda assim, pode ser que nunca mais volte a ser aquilo que um dia foi.


24 DE JUNHO DE 2024
CARPINEJAR

Freguesia invertida

Inverteu-se a freguesia. É a terceira vitória consecutiva do Inter em Gre-Nal, quebrando a escrita de uma década e entrando no G-6 do Brasileirão com dois jogos a menos. Virtualmente, poderia ser vice-líder.

Houve o típico gol de pebolim do clássico, naquele bate-bate para se confirmar o tento contra de Gustavo Nunes a partir de cabeçada de Vitão. Ainda existiu a possibilidade de ampliação do placar colorado com duas bolas seguidas na trave, de Wesley (junto de Alan Patrick, o grande nome do jogo) e de Aránguiz.

Na cigania, o Inter tem se adaptado melhor, com 10 pontos nas últimas cinco rodadas. Se aquele pênalti no último minuto a favor do Vitória não tivesse acontecido, Coudet estaria radiante. O batismo de fogo vem sendo improvisar com redução drástica de opções. É um período de resiliência a se superar, pois falta pouco para a retomada do Beira-Rio, restaurado em prazo recorde, e o retorno dos selecionados da Copa América.

No outro lado da gangorra, Grêmio se atola no Z-4, no fogo-fátuo da lanterna, com estapafúrdias seis derrotas sucessivas no certame nacional. É caso de UTI, de respirador, de guinada, de ruptura. Não há como confiar que é uma fase, muito menos acreditar no bordão otimista do rebaixamento: não tem time para cair.

Eduardo Coudet, numa condição hipotética de comandante do Grêmio, com o retrospecto de Renato Gaúcho na temporada, jamais sobreviveria, estaria de regresso à Argentina há alguns meses. Coudet chega a ser criticado e posto em dúvida apresentando 72% de aproveitamento, acumulando 20 vitórias e sofrendo somente quatro derrotas. Imagine se ostentasse os 55% de aproveitamento de Renato, com o triplo de derrotas (12).

Se o técnico gremista não fosse uma estátua, já teria sido trocado. Já teria sido sacrificado. Parece que Renato Gaúcho se tornou maior do que o Grêmio, a ponto de se duvidar da necessidade de sua dispensa.

Ruim com ele, pior sem ele - eis o que pensam os torcedores mais supersticiosos. Até porque na terceira queda para a B, em 2021, testemunhamos uma narrativa similar, de Renato começando o ano.

Partilha-se a concepção mágica de que ele possui algum trunfo na cartola e logo vai dar a volta por cima. Seu trunfo está machucado, Diego Costa, ou convocado, Soteldo. Não resta nenhuma força ofensiva. JP Galvão alcançou a proeza da abstinência total, um Tréllez tricolor. A bola foge dele.

O fiapo de esperança que segura Renato Gaúcho é o Fluminense fragilizado, adversário das oitavas de final da Libertadores, pois o plantel das Laranjeiras é uma sombra pálida daquele campeão da América - o típico caso da equipe que envelheceu mal.

Mas é um confronto que está marcado para longe. Ainda é distante. Ainda é remoto.

A tragédia se avizinha. O grande risco do presidente Alberto Guerra é a preservação da comissão técnica para início de agosto. Depois, uma recuperação talvez seja excessivamente inviável numa tabela impiedosa de pontos corridos.

Caso ocorra um tropeço, não existirá nem a justificativa para ter adotado a imobilidade, a ausência de reação administrativa. Tarefa complexa que desponta no horizonte do Humaitá, agravada pela demora da reforma da Arena.

Só a torcida perto, só a avalanche provocariam uma moderação da crise, mas não uma solução.

O tempo é inimigo do Grêmio. _

Se o técnico gremista não fosse

uma estátua,

já teria sido trocado. Já teria

sido sacrificado

CARPINEJAR

24 DE JUNHO DE 2024
CLAUDIA LAITANO

Três espelhos e uma reflexão

"Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro pra fora, outra que olha de fora para dentro." A frase está no conto O Espelho (1882), de Machado de Assis. O personagem, talvez vocês se lembrem, é um jovem alferes que se embriaga com a "alma exterior" que a nova função lhe confere, ou seja, a imagem de distinção que a farda projeta. No sentido inverso, sua alma de dentro parece encolher, até o ponto em que o rapaz só consegue ver a si mesmo no espelho, com nitidez, quando está fardado: "O alferes eliminou o homem".

Oitenta anos depois, outro conto intitulado O Espelho (1962), sobre outro jovem que perde a capacidade de ver sua própria imagem. Na história de Guimarães Rosa, o personagem se espanta com a discrepância entre o rosto externo, projetado no espelho, e uma "vera forma" que ele passa então a perseguir. Procura tanto que se perde completamente: o espelho já não reflete imagem nenhuma. Reduzido à "total desfigura", ele se pergunta: "Não haveria em mim uma existência central, pessoal, autônoma?".

Entre os dois contos brasileiros, um romance italiano. A História de Um, Nenhum e Cem Mil (1926), de Luigi Pirandello, também começa diante de um espelho - e, à certa altura, por coincidência (imagino), fala de um "Deus de dentro" (a fé íntima) e de um "Deus de fora" (a Igreja). O jovem Vitangelo Moscarda está examinando o próprio rosto quando sua mulher observa que ele tem o nariz um pouco caído para a direita, detalhe que ele mesmo nunca havia notado. O incidente banal é suficiente para detonar uma crise existencial de grandes proporções. Quem afinal ele é? A pessoa que sempre pensou ser ou a que os outros veem?

E se cada pessoa que ele conhece o enxerga de uma forma diferente, quantas versões dele existem? E qual delas seria a verdadeira?

Escondida em um filme aparentemente despretensioso, Assassino por Acaso, de Richard Linklater, a resposta é que talvez não exista mesmo uma versão fixa daquilo que consideramos o nosso eu mais verdadeiro. A partir de uma história divertida, baseada no caso real de um homem que se fazia passar por matador de aluguel para prender pessoas interessadas em eliminar seus desafetos, Linklater reflete sobre a construção da personalidade e a noção de identidade. Resumo da ópera: se o universo não é fixo, você também não é. Apenas tente ser o que gostaria de ser - e se esforce para dar certo. _

Linklater reflete em seu filme sobre a construção da personalidade e a noção de identidade

CLAUDIA LAITANO

24 DE JUNHO DE 2024
PARA SORRIR

PARA SORRIR

Para sorrir

Deu pra ti Baixo Astral reúne sucessos locais

Festival

Iniciativa que começa hoje e vai até domingo leva música e 10 espetáculos para adultos e crianças ao Teatro CIEE-RS Banrisul, em Porto Alegre. A renda da bilheteria será revertida para profissionais da cultura afetados pela enchente, e as doações terão como destino instituições do Estado

A programação começa hoje e vai até o domingo, em Porto Alegre, no CIEE-RS Banrisul. A abertura, às 20h, será com o lançamento do videoclipe colaborativo da canção O Amanhã Colorido, de Duca Leindecker, que contou com o próprio compositor e nomes como Paulo Miklos, Valéria Barcellos e Humberto Gessinger. Ainda haverá show com artistas gaúchos tendo a Casa Torta como banda de apoio. A entrada para hoje é gratuita, com retirada de senhas pela Sympla.

O videoclipe e o show vieram da ideia do produtor cultural Edgar Ruther de fomentar o mais rápido possível o setor. Foi em uma conversa com o presidente do Banrisul, Fernando Lemos, que ele recebeu o apoio para o projeto, chamado Pra Poder Seguir. E mais: abraçar também outra iniciativa, Deu pra ti Baixo Astral. Assim, foi criado um trabalho unificado.

- Chega uma hora em que o músico que está sem tocar, assim como o artista de teatro que está sem atuar, precisa dessa renda para ir ao supermercado. A ideia do projeto é reverter a bilheteria para a classe, as instituições e muita gente que está no back- stage - explica Ruther.

Papel fundamental

CARLOS REDEL


24 DE JUNHO DE 2024
EDITORIAL

EDITORIAL

A compensação das perdas de ICMS

Aguarda-se que tenham uma boa evolução, nesta semana, as negociações entre o Palácio Piratini e o governo federal sobre compensações de perda de arrecadação de ICMS devido à paralisação de parte da economia gaúcha após a enchente de maio. É de interesse do Estado, mas também dos municípios, que têm direito a 25% dos recursos oriundos desse imposto. O tema deve ser tratado em uma reunião em Brasília entre o governador Eduardo Leite e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

O governo gaúcho apurou que, de 1º de maio a 18 de junho, a receita de ICMS foi R$ 1,58 bilhão aquém do esperado. As estimativas apontam que, ao longo do ano, as perdas alcançariam R$ 10 bilhões. Assim, as prefeituras deixariam de receber R$ 2,5 bilhões. Deve-se acreditar que o governo federal, cumprindo com a promessa de auxiliar o Rio Grande do Sul, será sensível à demanda.

A despeito da arrecadação afetada pelas atividades econômicas prejudicadas e da destruição da infraestrutura, Estado e municípios seguem com as despesas ordinárias, como serviços básicos prestados à população, salários e aposentadorias. Foram acrescentados ainda gastos extraordinários surgidos com a tragédia climática. 

Deve-se lembrar que os recursos originados da suspensão da dívida do Estado com a União só podem ser usados para desembolsos de reconstrução, como a recomposição da infraestrutura. O governo gaúcho pede uma ajuda semelhante à adotada na pandemia. Propõe que, a cada dois meses, verifique-se a diferença da arrecadação efetivada com a de igual período de 2023, corrigida pela inflação. O que ficasse abaixo seria compensado pela União, uma espécie de seguro-receita.

Em entrevista ao jornal Valor, na semana passada, o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, apresentou uma perspectiva diferente. Apesar de assegurar boa vontade do Planalto e admitir estudos para auxiliar o Estado, avaliou que a economia gaúcha terá uma recuperação acelerada no segundo semestre devido ao estímulo da reconstrução e aos recursos transferidos às pessoas físicas. Assim, o efeito no PIB, ao fim, seria nulo. E a arrecadação perdida nos primeiros meses seria recuperada. Se mesmo assim existisse uma diferença no encerramento do ano, a compensação seria feita de alguma forma.

Trata-se de uma visão bastante otimista. Caso se confirmasse, seria um cenário extraordinário. Mas é preciso lembrar que, quase dois meses após o início da enchente, persistem dificuldades logísticas, estradas seguem interrompidas e um grande número de empresas de regiões importantes está longe de voltar a operar normalmente. A incógnita sobre quando o aeroporto Salgado Filho será reaberto é outro elemento a elevar as incertezas de uma série de setores relevantes.

Os compromissos do Estado e dos municípios gaúchos, porém, não esperam e batem à porta a cada mês. É o que o governo federal deve considerar para não tardar com uma ajuda de curto prazo. 


24 DE JUNHO DE 2024
QUEDA DE BRAÇO

QUEDA DE BRAÇO

Agenda conservadora testa força do governo Lula no Congresso

Derrotas refletem pauta de costumes da maioria conservadora da Câmara dos Deputados e do Senado e as divisões internas nos partidos. Com menor base aliada desde a redemocratização, governo espera fortalecer articulação com mudanças no Ministério previstas para a virada do ano.

A aparente fragilidade não se traduz na pauta econômica, aprovada quase sempre com ampla maioria, mas reflete dificuldade contumaz na articulação política do governo federal, com elevado grau de traições nos partidos aliados.

A atual sensação de crise deve refluir nos próximos dias, com o esvaziamento do Congresso pelas festas juninas no Nordeste e os preparativos para a eleição municipal. A médio prazo, a pacificação vislumbrada nos corredores do Palácio do Planalto passa por uma arquitetura política que conduza Arthur Lira (PP-AL) à Esplanada dos Ministérios e eleja ao comando da Câmara e do Senado parlamentares mais alinhados ao governo.

Atual presidente da Câmara, Lira representa a dualidade enfrentada pelos articuladores do governo. Com enorme influência sobre os pares, sobretudo sobre integrantes das bancadas de direita e do centrão, manobra a pauta e o regimento para pressionar e constranger o Planalto. Criando dificuldades para oferecer facilidades, dá vazão a medidas econômicas, mas freia pautas identitárias, ao mesmo tempo em que acelera projetos de viés conservador. Por vezes, é obrigado a recuar, como no projeto de lei que equipara o aborto ao homicídio.

Para fugir dessas armadilhas, o governo costura acordo segundo o qual não apresenta candidato à presidência da Câmara, deixando Lira indicar o sucessor. Na sequência, leva o alagoano para a Esplanada. Nos bastidores, cogita-se o Ministério das Comunicações, pasta afeita às ambições de Lira por causa da capilaridade política e da proximidade com o poder, atributos que necessita para pavimentar o caminho ao Senado em 2026.

Juscelino

FÁBIO SCHAFFNER