quarta-feira, 15 de abril de 2026

 Colheita avança, mas mercado de arroz trava no RS com preços abaixo do custo

Produtividade deve cair nos 32% de área que ainda serão colhidos, diz Alexandre Velho

Produtividade deve cair nos 32% de área que ainda serão colhidos, diz Alexandre Velho

GELSON FACIONI/IRGA/DIVULGAÇÃO/JC
Claudio Medaglia
Claudio MedagliaRepórterA safra de arroz 2025/2026 no Rio Grande do Sul se encaminha para o final com bom desempenho no campo, mas encontra um ambiente de mercado adverso, marcado por preços abaixo do custo de produção, exportações enfraquecidas e elevado volume de estoques.
A colheita alcançou 68,8% da área semeada, equivalente a 614,4 mil hectares, segundo o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga). O ritmo é ligeiramente inferior ao do ano passado e indica a entrada da safra na reta final.
As regiões da Planície Costeira Externa e da Zona Sul lideram os trabalhos, enquanto parte das lavouras ainda enfrenta excesso de chuvas, especialmente no sul do Estado, o que pode afetar o rendimento nas áreas ainda por colher.
Apesar disso, a produtividade média estadual segue dentro do esperado. A projeção é de que o índice final fique acima de 8,7 mil quilos por hectare, com produção estimada entre 7,7 milhões e 7,8 milhões de toneladas.
Para o presidente do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), Alexandre Velho, os números da safra refletem desempenho positivo, ainda que com possibilidade de ajustes na reta final. “Cada ano tem suas características climáticas, porém, nos 32% que faltam colher, possivelmente teremos uma queda nos números de produtividade em todas as seis regiões arrozeiras”, afirma.
A avaliação vai ao encontro do que aponta o analista de arroz da Safras & Mercado, Evandro Silva. “O produto tem qualidade muito boa e a produtividade está dentro do esperado. Pode haver perdas pontuais, mas, na média, a safra se confirma”, diz.
Se no campo o cenário é considerado positivo, o ambiente de mercado segue mais desafiador. Um dos principais fatores de pressão é o elevado volume de estoques de passagem, que amplia a oferta disponível no momento de entrada da nova safra.
Segundo Silva, o produtor tem reduzido o ritmo de comercialização diante de preços abaixo do custo de produção, estimado entre R$ 75 e R$ 90 por saca. As cotações giram entre R$ 60 e R$ 62 na Fronteira Oeste e entre R$ 65 e R$ 70 no litoral, para produto de melhor qualidade.
O analista relata que os produtores têm optado por reter a oferta, buscando pequenas valorizações, mas avalia que a estratégia envolve riscos. “É uma estratégia perigosa. O primeiro semestre é o nosso espaço”, afirma, ao destacar a perda de oportunidades recentes.
desaceleração das exportações reforça esse cenário. Embora os embarques do primeiro trimestre tenham sido elevados, os volumes refletem negócios fechados anteriormente. “Em março praticamente não tivemos novos contratos. O mercado botou o pé no freio”, diz.
No mercado internacional, o cenário permanece pressionado. Dados do USDA indicam oferta global superior à demanda, com estoques elevados e produção robusta, especialmente na Ásia.
“O mundo ainda tem mais oferta do que demanda. Isso mantém os preços pressionados”, resume Silva.
O primeiro semestre é considerado estratégico para as exportações do Mercosul. A partir da segunda metade do ano, a entrada das safras dos Estados Unidos e da Ásia tende a ampliar a concorrência. Por outro lado, a redução de área superior a 20% nos Estados Unidos pode trazer algum suporte aos preços.
“Estados Unidos colhendo menos, uma menor pressão de oferta e tendência de preços mais altos lá fora, o que pode melhorar a competitividade do Brasil”, afirma o analista.
No ambiente interno, o setor também convive com incertezas nas políticas de apoio. Os leilões de PEP e Pepro, anunciados em fevereiro, foram autorizados, mas ainda não tiveram operacionalização efetiva.
Segundo o presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul, Denis Dias Nunes, a ausência de recursos ainda impede o avanço dos mecanismos. “Saiu a portaria autorizando, mas não temos ainda a liberação do orçamento para os editais do leilão”, afirma.
Para o dirigente, mesmo com esses instrumentos, o cenário exige foco na demanda externa. “Os PEP/Pepro têm como objetivo estimular o escoamento da produção, assegurando um preço mínimo no local de origem, o que, com a atual redução da produtividade, ainda não se mostra suficiente para nós”, diz.
Ele acrescenta que a estratégia do setor deve priorizar a exportação para reduzir os estoques e melhorar as condições de mercado. “É fundamental que nos dediquemos à exportação para reduzir os grandes estoques brasileiros”, afirma. “Aqueles que necessitam gerar receita neste semestre devem focar na exportação, visando melhora nos preços no segundo semestre, contando também com a diminuição da produção nos Estados Unidos.”
Com isso, o mercado opera em compasso de espera, em meio a uma safra volumosa, estoques elevados e incertezas sobre a demanda. O desafio passa a ser a gestão da comercialização ao longo de 2026, em um ambiente ainda marcado por pressão sobre os preços e forte concorrência internacional.

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