Para Aod Cunha, RS deve investir em qualidade de vida para reter população

Ana StobbeRepórterNos próximos anos, o Brasil enfrentará uma nova realidade: enquanto o número de filhos para cada mulher diminui, a longevidade avança com melhorias científicas. O resultado é de um envelhecimento populacional maior e de uma queda demográfica prevista para as décadas futuras.
No Rio Grande do Sul, o cenário será antecipado, porque esse fenômeno, chamado de transição demográfica, está avançado. E soma-se a essa projeção a de sucessivos eventos climáticos extremos que repelem a população gaúcha de determinadas regiões do território gaúcho para outras e, até mesmo, para fora do Estado. Ao mesmo tempo, o RS não tem conseguido atrair suficientemente migrantes de outros locais.
Nesse contexto, o economista Aod Cunha acredita ser necessário investir em políticas públicas para ampliar a competitividade do Estado e atrair novos moradores. Entre elas, destaca soluções no campo da irrigação para dar conta das sucessivas secas enfrentadas pelos gaúchos, e de melhorias na qualidade de vida, com foco em atrair a juventude.
Nessa entrevista exclusiva ao Jornal do Comércio, ele reflete sobre as previsões demográficas do Rio Grande do Sul para os próximos anos e os impactos previstos. Além disso, propõe soluções governamentais para possíveis impactos negativos do envelhecimento populacional.
Jornal do Comércio — Como enxerga o cenário demográfico do Rio Grande do Sul para as próximas décadas?
Aod Cunha — É bem desafiador porque o Rio Grande do Sul tem uma tendência de envelhecimento demográfico mais rápido por razões de décadas atrás. Entre elas, o fluxo migratório, o padrão de crescimento, de expectativa de vida, a taxa de natalidade mais baixa… Então, já tem um envelhecimento demográfico anterior ao do Brasil. Estamos entre o primeiro e o segundo lugar dos estados que, ao longo dos próximos anos, já vão começar a ter uma perda de população absoluta. Aqui, todos os desafios que uma demografia de envelhecimento mais rápido traz já foram antecipados e vão continuar a acontecer.
JC — Acredita que os eventos climáticos extremos dos últimos anos devem ampliar a perda populacional?
Aod — Apesar das chuvas intensas de 2024 serem o evento climático que mais teve repercussão, o mais danoso para o fluxo migratório do Estado eu diria que são as secas recorrentes. O Rio Grande do Sul é o segundo estado com mais incidência de secas graves, dado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), desde 1990. Se a gente pega 85% do território, ou seja, excluindo regiões Metropolitana, Serra e Litoral, é a região do Brasil com a maior incidência de secas nos últimos 40 anos. E, quando olhamos para os fluxos migratórios dessas regiões afetadas, eles são negativos justamente pela recorrência de secas. Então, diria que sim, o fenômeno climático das secas é uma explicação da perda de população, principalmente no Interior.
JC — Existe alguma possibilidade de reverter esse quadro de decréscimo demográfico?
Aod — Do ponto de vista dos efeitos climáticos, o Estado precisa avançar no tema de irrigação, armazenamento e reserva d’água em escala maior, principalmente no Interior. Porque quando se tem uma seca, tem também uma destruição de renda não só da agricultura, mas do comércio, dos serviços, e uma perda de oportunidades.
JC — E para a atração de imigrantes?
Aod — É fazer com que o Rio Grande do Sul tenha melhor qualidade de vida de maneira geral, principalmente para os jovens, avançando em áreas como educação, saúde, segurança e entretenimento. E fazer com que os jovens olhem mais para cá. O RS tem um problema que é maior que a perda das pessoas que saem do Estado, que é a baixa imigração, recebendo pouca gente de outros estados. Para mudarmos isso, é necessário melhorar essa atratividade. Tem alguns lugares que têm conseguido fazer isso, como o Uruguai, que é um país aqui perto e que perdeu muita gente, mas, aos poucos, foi se reinventando, melhorando a qualidade de vida, a segurança e a educação, se tornando um lugar mais tranquilo e investindo em tecnologia, e que tem conseguido reverter um pouco esse efeito demográfico. Para o Rio Grande do Sul é mais ou menos algo parecido.
JC — Como o poder público pode se preparar para essa nova realidade?
Aod — Com políticas públicas claras nessas duas direções. Primeiro, com uma política mais massiva de apoio ao tema da irrigação e da reservação d’água, para evitar que as secas destruam a geração de renda de anos em anos seguidos. Por outro lado, o Estado e os municípios têm que pensar cada vez mais em políticas de promoção da melhoria na qualidade de vida, principalmente para os jovens, porque o êxodo é maior na população jovem. Precisa ter oferta de serviços, emprego, claro. Mas de qualidade de vida, eventos, arte, cultura… É uma combinação de duas vertentes, uma econômica, ou seja, irrigação e geração de empregos, e outra de oferta de serviços que melhoram a qualidade de vida e gerem uma percepção do jovem querer ficar porque a vida vai acontecer nesse lugar onde ele vai estar.
JC — Qual deverá ser o impacto do envelhecimento populacional na economia gaúcha?
Aod — Já tem alguns impactos visíveis nos últimos anos. No setor público do Estado, por exemplo, por ter também a mesma pirâmide demográfica do Rio Grande do Sul, tem envelhecido antes. E a gente tem uma conta de previdência pior. E tem efeitos na área da saúde, vamos ter uma pressão maior por demandas no campo da saúde pública, porque a população, quando envelhece, demanda mais por esses serviços. Por outro lado, estamos passando por um processo de diminuição da demanda de escolas, porque diminuiu a proporção de crianças em idade escolar no ensino básico. Com uma quantidade menor de crianças para serem atendidas, dá para investir mais em qualidade. São dois exemplos, educação e saúde, que são afetados por esse movimento demográfico.
JC — Isso deve alterar as dinâmicas das economias regionais do Estado?
Aod — Sim, principalmente porque, quando a gente olha a estrutura da evolução da pirâmide demográfica do Rio Grande do Sul, claramente tem a ver com o fenômeno climático das secas. Regiões como a Metade Sul, a Fronteira Oeste e o Centro do Estado têm perdido mais população. Enquanto isso, Serra, Produção e Região Metropolitana estão com um crescimento populacional mais dinâmico. A região de Passo Fundo e a Serra Gaúcha, que estão gerando mais empregos, de qualidade, na indústria e em serviços de valor agregado maior, tendem a crescer, atraindo mais pessoas. Tem um fluxo migratório que é interno no Estado, de umas regiões para outras e essa é uma tendência que deve continuar. A não ser que alguma dessas outras regiões (que têm perdido população) passem a ter uma dinâmica de crescimento diferente. O tema da irrigação é importante para isso.
JC — Com a reforma tributária, a guerra fiscal vai acabar. Isso deverá dificultar a atração de novos empreendimentos e, consequentemente, população ao RS?
Aod — Eu não tenho essa visão e, sim, uma mais otimista no tema da reforma tributária. O Estado, pela situação fiscal que ele teve, não houve condições para dar muitos incentivos fiscais como outros estados, como Santa Catarina, que deu muitos. Então, com a diminuição dessa parcela de atração de investimentos que vem para os incentivos fiscais, o que vai ser mais relevante é a qualidade de infraestrutura, do ambiente econômico e de mão de obra. Portanto, tem que mudar a lógica da política pública para atração de investimento, que terá que focar em qualidade de vida, infraestrutura econômica e empreendedorismo. Não vai piorar a atratividade com o fim da guerra fiscal, mas vai mudar o desafio e o perfil. É preciso entender isso para ser mais competitivo na atração de empresas e pessoas.
JC — Um problema recorrente no RS é a falta de mão de obra. Com a diminuição da população, a situação tende a se agravar. As empresas podem se preparar para isso?
Aod — Esse vai ser um desafio do Brasil como um todo, mas, talvez, seja maior no Rio Grande do Sul. Principalmente, na questão de escassez de mão de obra qualificada, a demografia vai acentuar isso. As empresas, individualmente, não vão ter muito o que fazer, a não ser se tornarem mais competitivas no seu nicho específico. O importante, para melhorar a disponibilidade e a qualidade da mão de obra, são políticas públicas de melhoria na formação, com educação melhor, de base e profissionalizante. É preciso avançar na qualificação da mão de obra porque ela vai ficar escassa e as empresas vão precisar competir e tentar buscar o nicho de trabalhadores escassos que têm.

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