terça-feira, 21 de abril de 2026

El Niño e aquecimento global pressionam adaptação no agro gaúcho

Chuvas intensas em 2024 alagaram lavouras inteiras em algumas áreas, como em Camaquã

Chuvas intensas em 2024 alagaram lavouras inteiras em algumas áreas, como em Camaquã

FARSUL/DIVULGAÇÃO/JC
Claudio Medaglia
Claudio MedagliaRepórterA possibilidade de formação de um El Niño de forte intensidade no segundo semestre de 2026 acende um alerta para a produção agrícola no Rio Grande do Sul. Com maior risco de chuvas intensas, doenças e eventos extremos, o cenário reforça a necessidade de adaptação no campo — movimento que já começa a ganhar corpo entre produtores e instituições.
A avaliação é compartilhada por técnicos da Secretaria da Agricultura e da assistência técnica oficial. Segundo o meteorologista Flavio Varone, coordenador do Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro-RS), os modelos indicam alta probabilidade de um evento forte, com impactos especialmente a partir do final do inverno e ao longo da primavera.
As culturas de inverno, como o trigo, devem ser afetadas principalmente na fase final do ciclo. O aumento de temperatura e umidade cria um ambiente favorável à incidência de doenças fúngicas e pode comprometer tanto a produtividade quanto a qualidade dos grãos.
Além disso, o excesso de chuva pode reduzir a janela operacional no campo.
O aumento de temperatura e umidade no final do ciclo prejudica o desenvolvimento e pode dificultar a colheita”, explicou Varone.
Para a safra de verão, o principal risco está na fase inicial. A tendência de chuvas acima da média na primavera pode atrasar o plantio de culturas como soja e milho, deslocando o calendário produtivo.
A tendência é de mais chuva durante a primavera, o que deve atrasar o início do plantio e estender a safra para dentro de 2027”, disse o climatologista.
Esse atraso pode comprometer o zoneamento agroclimático e afetar o desenvolvimento das lavouras, além de aumentar o risco de perdas por encharcamento e degradação do solo.
Diante desse cenário, o planejamento agrícola baseado em dados climáticos deixa de ser diferencial e passa a ser condição básica para a produção. Segundo o presidente da Emater/RS-Ascar, Claudinei Baldissera, a orientação técnica já incorpora essa lógica como eixo central.
Planejamento agrícola baseado em dados climáticos é um mantra”, afirmou.
Ele ressalta que, mesmo com incertezas sobre a intensidade do fenômeno, não é mais possível estruturar uma safra sem considerar os riscos climáticos.
“É inevitável que possamos nos mover estrategicamente na agricultura sem colocar isso no horizonte”, disse.
Mais do que decisões pontuais, a adaptação passa por mudanças estruturais no sistema produtivo, com destaque para o manejo do solo. A orientação técnica enfatiza a construção de sistemas mais resilientes tanto ao excesso quanto à falta de água.
Um solo bem estruturado precisa ter capacidade de reservar água quando falta e absorver quando há excesso”, explicou Baldissera.
Práticas como plantio direto, conservação do solo e sistemas integrados ganham protagonismo nesse contexto. A manutenção da palhada sobre o solo, por exemplo, contribui para reduzir o escoamento superficial em períodos de chuva intensa e aumentar a capacidade de retenção de água, favorecendo o desenvolvimento das plantas tanto em cenários de excesso quanto de escassez hídrica. Programas como o Terra Forte, conduzido pelo Estado, buscam justamente difundir essas estratégias, acrescentou.
Além da resposta agronômica, o nível de manejo também passa a ter impacto direto sobre o acesso a crédito e instrumentos de proteção. Segundo Baldissera, propriedades com melhor estrutura produtiva e adoção de práticas conservacionistas tendem a apresentar menor risco, o que influencia condições de financiamento, seguro rural e enquadramento em programas como o Proagro.

Do diagnóstico à mudança de comportamento

A percepção sobre o risco climático também evolui entre os produtores. Segundo Baldissera, o tema sempre esteve presente, mas ganhou intensidade e maior embasamento técnico nos últimos anos.
As informações hoje vêm com muito mais profundidade, e o produtor está mais atento e mais preparado para tomar decisões”, afirmou.
Esse movimento envolve tanto produtores quanto técnicos, com maior uso de dados, análises e ferramentas de monitoramento.
O cenário local se conecta a um contexto global de aquecimento, que tende a aumentar a frequência e a intensidade de eventos extremos. Na prática, isso significa maior alternância entre estiagens severas e períodos de chuvas intensas — ambos com potencial de causar prejuízos relevantes.
A tendência é de eventos mais severos e mais frequentes no Rio Grande do Sul”, alertou Varone.
Diante desse quadro, especialistas apontam que o modelo produtivo deve passar por ajustes nos próximos anos.
Entre as principais mudanças esperadas estão:
  • adoção de cultivares mais resistentes a estresses climáticos
  • maior rigor no manejo e conservação do solo
  • uso mais intensivo de dados e previsões climáticas
  • integração de sistemas produtivos
Além disso, ferramentas como zoneamento agrícola e monitoramento de doenças tendem a ganhar ainda mais relevância na tomada de decisão.
Apesar dos avanços, a disseminação de informação de qualidade ainda é desigual, especialmente entre pequenos e médios produtores. Baldissera destaca que ampliar esse acesso é um dos principais desafios.
O acesso à informação está melhorando, com mais dados e mais precisão, o que permite decisões mais assertivas, especialmente de precaução”, afirmou.
A Emater também aposta na formação de jovens rurais como estratégia de médio prazo para acelerar a adoção dessas práticas.
O que está em jogo no campo gaúcho
Culturas de inverno:
  • Maior risco de doenças fúngicas
  • Perda de qualidade dos grãos
  • Dificuldades na colheita
Safra de verão:
  • Atraso no plantio
  • Comprometimento do ciclo produtivo
  • Risco de encharcamento e degradação do solo
Estratégias de adaptação:
  • Manejo e conservação do solo
  • Uso de cultivares mais resistentes
  • Planejamento baseado em dados climáticos
  • Monitoramento constante

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