Do campo ao asfalto, mulheres impulsionam novas linhas de crédito
Especial para o JC*
Quando a empresária Camila Leipelt de Freitas recebeu uma vaca leiteira como presente de casamento, não imaginava a revolução que a chegada do animal causaria na vida dela. Ao tomar a decisão de criar a vaca, ao invés de abatê-la para ter alimento para sua família como sugeriu o convidado que a presenteou, Camila não só salvou a vida do animal, que passou a produzir leite de altíssima qualidade, como também ajudou o próprio filho a superar uma disfunção alimentar.
“Salvamos a vida da Pretinha, que se aposentou em 2016, e ela salvou a do meu filho, que não podia tomar leite com conservantes. Daí, veio a ideia de criar meu próprio laticínio com leite puro, orgânico e sem aditivos químicos para que mais pessoas pudessem desfrutar desse benefício”, conta a proprietária do Laticínio Benolle, de Glorinha.
Do campo à cidade, a trajetória da empresária Quelen Caldeira Silveira — que começou como colaboradora e se tornou proprietária do negócio — é marcada pela superação: primeiro, do preconceito; depois, do desafio de reconstruir a empresa, devastada pela enchente de 2024.
Camila e Quelen estão entre as mais de 583 mil mulheres donas de empresas no Rio Grande do Sul, conforme dados do empreendedorismo feminino no Estado compilados em uma pesquisa realizada pelo Sebrae RS, o que equivale a 34% dos pequenos negócios em território gaúcho, segundo dados da GEM (Global Entrepreneurship Monitor).
Além disso, os números mostram que 60% dessas empreendedoras são chefes de domicílio e apresentam nível de escolaridade superior à média nacional. “Em comparação com o restante do Brasil, as empreendedoras do Rio Grande do Sul têm maior formação entre graduação e pós-graduação. Também se destacam pela maior maturidade, refletida em uma faixa etária mais elevada”, afirma a gestora do Sebrae Delas no Estado, Susana Ströher.
A economista-chefe da Fecomércio Patrícia Palermo atribui o número recorde ao incremento do número de mulheres chefes de domicílio no País. “Aumentou a quantidade de mães solo e de divórcios, ao mesmo tempo em que reduziu o número de casamentos, fatores que contribuem para essa realidade”, aponta a especialista.
Nos últimos 10 anos, o Brasil registrou um crescimento de 26,8% do empreendedorismo feminino, número que representa um recorde da série histórica. Esse número é 16 pontos percentuais maior do que o verificado entre homens empreendedores no mesmo período.
Entre os empreendedores, o crescimento em uma década foi de aproximadamente 11%, com o total de 19,9 milhões de homens à frente de negócios até dezembro do ano passado.
No quesito educação, o Brasil registrou um aumento substancial no nível de escolaridade das mulheres donas de negócios: entre 2012 e 2025, elas tiveram um salto de 18,6 pontos percentuais, na faixa de ensino superior incompleto ou mais e uma redução de 17,3 pontos percentuais na faixa fundamental incompleto.
O resultado dessa mudança de perfil é que existem hoje 13 pontos percentuais mais mulheres donas de negócios com ensino superior ou mais do que empreendedores do sexo masculino.
Instituições financeiras focam em linhas de crédito específicas para o público feminino
A história da família da empresária rural Camila Leipelt de Freitas, proprietária do Laticínio Benolle, de Glorinha, é uma entre tantas que vêm sendo fomentadas pelo Sicredi, através de uma série de iniciativas, como linhas de financiamento específicas para empreendedoras, já que o acesso ao crédito ainda é considerado um gargalo quando o assunto são negócios liderados por mulheres. O Sicredi fechou 2025 com uma carteira de crédito de mais de R$ 17,5 bilhões direcionada para empresas lideradas por mulheres, montante 12% superior ao disponibilizado em 2024, quando a carteira somava mais de R$ 15,6 bilhões.
A presidente do Conselho de Administração do Sicredi Conexão, Angelita Marisa Cadoná, destaca que, ao facilitar o acesso das mulheres a linhas de financiamento, o Sicredi ajuda a reduzir um dos entraves que muitas encontram na hora de empreender. "Temos algumas linhas oficiais que estimulam a inserção da mulher, além de produtos financeiros próprios, como linhas de empréstimo, de financiamento e custeio", destaca Angelita.
O Sicredi conta ainda com o programa Conexão Mulher que há 10 anos busca dar maior protagonismo e aproximar cada vez mais mulheres da tomada de decisão dentro da cooperativa. Havia muitas mulheres que atuavam na cooperativa, mas não eram associadas e sim segundas titulares na conta do marido, e não tinham poder decisório nas assembleias. "Hoje, mais de 45% do nosso quadro de associados do Sicredi Conexão são mulheres", relata.
O programa trabalha vários módulos ligados à gestão financeira, com três pilares:
- autoconhecimento,
- estímulo ao desenvolvimento continuado
- incentivo ao empreendedorismo.
"Quanto mais a mulher se conhece, mais ela identifica o seu potencial", afirma Angelita.
Além do fomento entre as associadas, o Sicredi também desenvolve um trabalho interno com o Comitê Mulher, uma iniciativa que busca estimular o protagonismo feminino dentro da instituição financeira. "Dentro de um universo de 100 cooperativas, temos cinco mulheres presidentes, ainda é um ambiente bastante masculino, mas temos muitas mulheres na função de vice-presidente, mulheres que participam do conselho de administração, do conselho fiscal" diz Angelita.
O Sicredi, instituição financeira cooperativa com mais de 9,5 milhões de associados, conquistou o 1° lugar na categoria "Melhor Financiador para Mulheres Empreendedoras das Américas" no Global SME Finance Awards 2025, premiação internacional promovida pelo SME Finance Forum, uma rede com mais de 300 instituições financeiras criada pelo G20 e gerida pela International Finance Corporation (IFC), membro do Grupo Banco Mundial e a maior instituição global de desenvolvimento voltada para o setor privado nos mercados emergentes.
Já o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou, em março deste ano, a criação do BNDES Procapcred Mulher, nova modalidade de financiamento que oferecerá taxas mais baixas e prazos maiores para mulheres cooperadas, com o objetivo de ampliar o acesso feminino ao crédito.
A iniciativa integra o Programa BNDES Procapcred, linha voltada ao fortalecimento das cooperativas de crédito e bancos cooperativos por meio do financiamento. Hoje, cerca de um terço das operações do programa são contratadas por mulheres (27% das operações de Pessoa Física), proporção que o banco pretende ampliar com as novas condições.
A nova modalidade prevê:
- redução do spread do BNDES nas operações contratadas por mulheres;
- a remuneração básica do banco passará de 0,85% ao ano para 0,50% ao ano para cooperadas das regiões Norte e Nordeste e cairá de 1,25% ao ano para 0,85% ao ano para cooperadas das demais regiões;
- além da redução de taxas, o programa também prevê ampliação do prazo de financiamento para até 15 anos para mulheres em todas as regiões do País, com carência de até dois anos, o que pode reduzir o valor das parcelas e ampliar a capacidade de acesso ao crédito.
Empreendedorismo feminino no Brasil
- Crescimento de 26,8% do empreendedorismo feminino, nos últimos 10 anos
- 16 pontos percentuais (p.p.) maior que o verificado entre homens empreendedores, no mesmo período.
- 2012 a 2025: aumento na escolaridade das mulheres donas de negócios.
- Aumento de 18,6 p.p ensino superior incompleto ou mais
- Redução de 17,3 p.p na faixa fundamental incompleto.
- 13 pontos percentuais mais mulheres donas de negócios ensino superior ou mais do que empreendedores do sexo masculino.
- Remuneração:
- Empreendedoras recebem uma remuneração 24% inferior à dos homens, esse hiato caiu 9,5 p.p entre 2012 e 2025.
Segundo a diretora de Crédito Digital para Micro, Pequenas e Médias Empresas do BNDES, Maria Fernanda Coelho, a mudança busca tornar o financiamento mais acessível e ampliar a presença feminina no cooperativismo financeiro. "O cooperativismo de crédito é uma ferramenta poderosa de inclusão financeira e desenvolvimento regional. Com condições mais favoráveis para mulheres, queremos estimular mais empreendedoras e trabalhadoras a acessar crédito, fortalecer suas cooperativas e ampliar suas oportunidades de geração de renda", diz.

Empreendedorismo feminino no Rio Grande do SulJC
Busca por autossuficiência impulsiona negócios femininos
O estudo sobre o comportamento das mulheres empreendedoras gaúchas mostra que o crescimento no número de donas de negócios está ligado a diferentes fatores. Segundo a gestora do Sebrae Delas no Rio Grande do Sul, Susana Ströher, muitas mulheres empreendem por necessidade, tendo o negócio como principal fonte de renda da família. Outras buscam uma nova carreira, exploram áreas diferentes ou procuram alcançar autonomia financeira — inclusive como forma de sair de relacionamentos abusivos.
"Na pandemia, a gente teve um salto, pois muitas ficaram desempregadas e não tinham onde deixar os filhos e foram obrigadas a empreender. Mas também percebemos mulheres que buscavam se realizar em algo que gostassem mais, focando em um empreendimento para atender uma demanda específica, reconhecendo uma oportunidade", afirma Susana.
Para a especialista, o crescimento se justifica também pelo fato de que, nos últimos anos, muitas mulheres passaram a contar com uma rede de cuidado que as incentiva a serem mais protagonistas tanto no mercado de trabalho como em suas vidas privadas. "Muitas mulheres da periferia estão se reunindo e entendendo sobre suas potencialidades e possibilidades. Mulheres apoiando mulheres a saírem, inclusive, de situações de violência", diz Susana.
A rede de apoio começa a se estruturar também por parte do mercado, especialmente no quesito acesso ao crédito para as mulheres que querem empreender. "No Sebrae, o nosso fundo garantidor é de 80% para qualquer empreendedor e para mulheres ele é de 100%, assim como cooperativas e outras instituições que estão disponibilizando linhas para empreendedoras", pontua. Além do apoio financeiro, o suporte organizacional também tem sido fundamental para que cada vez mais mulheres busquem ter um negócio próprio como faz o Sebrae ao oferecer orientação na área de gestão com consultorias e workshops de formação.
"É o papel do Sebrae Delas, nossa frente exclusiva para empreendedorismo feminino, mostrar os benefícios da formalização, principalmente quando a gente fala de acesso a crédito, pois se o negócio é bem estruturado, tem mais chances de aporte financeiro", diz. O projeto surgiu em 2023 no Estado e trabalha muito com o pilar das competências socioemocionais para que as mulheres se sintam efetivamente empreendedoras.
"Elas se preparam muito, se comprometem muito com a gestão, mas têm uma barreira muito grande que é de pertencimento, da atitude empreendedora. De entender que o negócio, não é só para sustentar meus filhos, mas uma iniciativa com potencial de crescimento".
Muitas vezes, as empreendedoras têm um negócio bom, mas não conseguem se posicionar, não precificam corretamente por medo de que o mercado não reconheça o valor do produto ou do serviço que ela oferece. "O Sebrae Delas tem feedbacks muito positivos de conseguir destravar viés limitante que está, muitas vezes, vinculado à autoestima", avalia a especialista.
Proprietária da Purific superou preconceito e adversidades para se consolidar como liderança
O começo não foi nada fácil para a empresária e proprietária da Purific, Quelen Caldeira Silveira, desde a entrevista de emprego, quando foi admitida como colaboradora, até tornar-se dona da empresa, pouco antes da tragédia climática de 2024, que destruiu Lajeado, cidade sede do estabelecimento.
"Eu consegui a vaga porque disse para o meu ex-patrão que as empresas da região não queriam me contratar por eu ser negra, mas davam a desculpa de que a candidata deveria falar alemão. Ele me disse que não procederia dessa forma e me deu a vaga", relembra Quelen, que contou com o apoio do Sebrae para desenvolver seu negócio.
Determinada e resiliente, ela exerceu a função de secretária por muitos anos, adquirindo conhecimento sobre o mercado e relacionamento com clientes. Em 2023, antes das enchentes que atingiram o Vale do Taquari, a empresária deu um passo decisivo ao lado de um colega, tornando-se sócia na aquisição da franquia de seu antigo empregador.
No entanto, logo após essa conquista, a empresa que atua na comercialização, locação e manutenção de purificadores de água, foi severamente impactada pela enchente de maio de 2024, um dos momentos mais desafiadores da gestão dela. Com o sócio residindo em Encantado, Quelen assumiu sozinha a responsabilidade de reerguer o negócio: mudou a empresa de endereço, reestruturou suas operações e reconquistou gradualmente sua base de clientes.
"Na enchente, tudo parecia um pesadelo, nada daquilo era real. Eu ia pra casa e achava que no dia seguinte estaria tudo no lugar. Demorou para cair a ficha. Tive que me virar com o que tinha para organizar a nova loja, sendo que só havia parte do estoque, o computador, três cadeiras e uma escrivaninha que ganhei após fazer um apelo pedindo doação nas redes sociais", relembra.
A capacidade de transformar adversidades em oportunidades consolidou sua atuação como uma empreendedora forte no Vale do Taquari e hoje a Purific tem mais de 150 lojas franqueadas no Rio Grande do Sul e no Brasil. "Mesmo durante a enchente, não deixei de fazer os atendimentos personalizados, a divulgação do novo endereço nas redes sociais e o meu marketing e, nesse ponto, o Sebrae foi um suporte importante", conta.
Em 2025, Quelen decidiu seguir de forma independente, assumindo integralmente a gestão da Purific. "Toda a adversidade carrega uma lição que me torna mais forte, mais sábia e mais preparada para o próximo nível. Sabemos que empreender sendo mulher é um ato de coragem diária. Quando as adversidades aparecem, o plano pode mudar, o objetivo não", defende. Para o futuro, a empresária almeja aumentar a equipe e ter mais franqueados, com foco em mulheres "fortes e determinadas que buscam independência financeira".
Empreendedorismo feminino reflete mudanças estruturais na sociedade, diz economista
O crescimento do empreendedorismo feminino no Brasil tem chamado a atenção de especialistas e instituições ligadas ao desenvolvimento econômico, pois o fenômeno revela transformações sociais profundas, especialmente no papel da mulher dentro das famílias e no mercado de trabalho. Nesta entrevista, concedida com exclusividade ao Empresas e Negócios, a economista-chefe da Fecomércio-RS, Patrícia Palermo, analisa os fatores que impulsionam esse movimento, os desafios enfrentados, as perspectivas para os próximos anos e afirma que o empreendedorismo feminino é uma "tendência que veio para ficar".
Empresas & Negócios - Como a senhora avalia o crescimento da participação das mulheres como donas de negócios no Brasil?
Patrícia Palermo - O empreendedorismo, de maneira geral, vem crescendo no País. Entre os muitos motivos, está o fato de que as pessoas buscam no empreendedorismo uma forma de complementar a renda. Além disso, houve uma mudança de percepção social. Enquanto, no passado, o empreendedor tinha que ser necessariamente um empregador, hoje todos que trabalham por conta própria são percebidos como empreendedores. Tempos atrás, alguém que fizesse doces para fora não era chamada de empreendedor. Hoje se chama. Atualmente, mais gente empreende também porque há maior aceitação social. O empreendedorismo tem sido glamourizado pela sociedade, ou no mínimo, aceito. No passado, as pessoas torciam o nariz para quem empreendia, principalmente no começo. Hoje nós aplaudimos. Quanto ao empreendedorismo feminino, há o reflexo de várias mudanças sociodemográficas que justificam porque ele se expande mais rapidamente do que entre os homens. Além do percentual de empreendedoras ser menor, o que gera o efeito da base deprimida, o principal fator parece ser o aumento significativo do número de mulheres na condição de chefes de domicílio. Muitas pessoas buscam no empreendedorismo a flexibilidade, e isso tende a ser especialmente atraente para as mulheres, que, em muitos casos, precisam compatibilizar a geração de renda com horários mais flexíveis.
E&N - Quais fatores têm feito com que aumente o número de mulheres chefes de domicílio?
Patrícia Palermo - A taxa de casamento caiu, a taxa de divórcios aumentou, o número de filhos por mulher diminuiu e o número de mães solo cresceu. Então, todos esses elementos aumentam a responsabilidade financeira, mas alguns aumentam também a liberdade de escolha para a mulher. Além disso, as mulheres elevaram muito o seu nível de escolaridade, o que amplia o conjunto de possibilidades de trabalho.
E&N - Os setores de serviço e varejo têm sido as áreas de maior busca dessas mulheres para empreender?
Patrícia Palermo - Essas áreas sempre foram atividades em que as mulheres estiveram presentes. No entanto, elas têm muita dificuldade de penetrar em outros setores. Existe uma grande barreira para ingressar em áreas majoritariamente masculinas. Na construção civil, a presença feminina ainda é muito pequena. Na agropecuária, também. E como podemos superar essa dificuldade? Primeiro, é preciso querer. Eu sou economista e chefio uma assessoria econômica há 15 anos. As Ciências Econômicas são uma área com presença feminina reduzida. Certa vez, perguntaram-me, em uma entrevista: quantas mulheres trabalham na tua área? Naquela época, havia apenas eu. Em seguida, questionaram: por que não contratas mulheres? A minha resposta foi direta: não posso contratar quem não se inscreve nos processos seletivos. Pesquisas mostram que as mulheres tendem a ter menos autoconfiança do que os homens. Os homens acreditam mais em si mesmos e em sua competência, e a falta de confiança cobra um preço alto das mulheres. É indiscutível que há barreiras fortes culturalmente impostas. Precisamos superá-las e a legislação pode ajudar, mas nem tudo se resolve por meio de lei.
E&N - Quais os principais desafios para as mulheres que querem empreender?
Patrícia Palermo - As mulheres enfrentam mais dificuldades de acesso ao crédito. Apesar do maior nível de formalização, muitas vezes faltam garantias e estrutura gerencial que ofereçam elementos sólidos para que o agente financiador conceda crédito. Além disso, frequentemente, as mulheres empreendem em atividades que consideram interessantes, mas ignoram se há, de fato, mercado para determinado negócio. No entanto, na minha opinião, o elemento central está no fato de que as mulheres empreendedoras no Brasil dedicam menos tempo aos seus negócios do que os homens, em função do envolvimento com a vida doméstica. Ainda que o tempo de licença-paternidade aumente e que existam políticas compensatórias para as mulheres, como a possibilidade de se aposentarem mais cedo, o que, na minha opinião, deveria ser um benefício restrito às mulheres que são mães (mas essa é uma discussão para outra entrevista) —, não haverá mudanças significativas na distribuição das responsabilidades domésticas se não forem estabelecidas novas dinâmicas dentro dos lares. Como disse anteriormente, leis ajudam, mas têm alcance limitado. É no acordo tácito, que se estabelece entre mulheres e homens dentro de casa, que a verdadeira mudança precisa acontecer. O tempo de dedicação ao negócio é uma condição fundamental para o seu sucesso. Mesmo sendo proprietárias, as mulheres acabam ganhando menos nos seus negócios. E por quê? Talvez o principal motivo seja porque a remuneração está fortemente relacionada às horas trabalhadas.
E&N - Qual o papel da Fecomércio-RS nesse cenário crescente de empreendedorismo feminino?
Patrícia Palermo - A Fecomércio-RS trabalha diariamente para melhorar o ambiente de negócios aqui no Estado. Seja junto ao poder federal, seja junto ao poder estadual, o nosso esforço é reduzir as barreiras ao ato de empreender, tanto para homens quanto para mulheres. Melhorar o ambiente de negócios significa mais facilidade, menos burocracia, mais segurança e maior eficiência. No nosso braço educacional, o Senac, oferecemos cursos de formação que possibilitam a independência das pessoas, e sabemos que isso é especialmente relevante para as mulheres, que cada vez mais assumem a condição de chefes de domicílio. Capacitamos pessoas para que possam trabalhar, gerar renda e, com isso, construir um futuro melhor para si, para os seus e para a sociedade.
E&N - A senhora acredita que essa tendência de crescimento deva se manter nos próximos anos?
Patrícia Palermo - Essas taxas são muito elevadas. É difícil manter níveis dessa magnitude, como os que experimentamos nos últimos anos. O que acredito, sem sombra de dúvida, é que o percentual de pessoas que empreendem no País tende a crescer cada vez mais. E o empreendedorismo feminino veio para ficar!
- LEIA TAMBÉM: IA ou lojista: quem vai comandar a venda no varejo?Confeiteira conquista fama e sucesso em plena pandemia
A veia empreendedora muitas vezes se mostra em função das voltas que a vida dá. No caso da confeiteira Vanessa Caemerer, proprietária da Gulous Gourmet, não foi diferente: a contadora promoveu uma grande reviravolta na carreira a partir do momento em que, em plena pandemia de Covid-19, decidiu largar o trabalho para se dedicar aos cuidados com o filho, então com sete meses de idade.
“Sou formada em Ciências Contábeis e, na época, atuava na área. Mas, com um bebê em casa, abri mão da minha profissão para ficar com ele. Então resolvi fazer e vender doces temporariamente e nunca mais parei”, revela. Mesmo com os impactos da pandemia na vida das pessoas e no comércio como um todo, a marca foi crescendo, se espalhando pelo boca a boca e pelas indicações. A procura foi aumentando e Vanessa se deu conta de que o “negócio estava ficando mais sério”.
Em 2021, com toda a coragem que o momento exigia, ela se tornou oficialmente empresária, com a criação de um CNPJ. Apesar da carga de trabalho e da responsabilidade de ser dona do próprio negócio, a atividade deu a ela maior flexibilidade de horários e a possibilidade de ter mais tempo disponível para aproveitar a infância do filho.
“Em 2022, quando meu filho ingressou na escolinha, começamos a perceber algumas características mais fortes do autismo. Nesse momento, tive a certeza de que meu caminho na confeitaria seria permanente, pois ela me proporcionava a flexibilidade necessária para dar toda a atenção que ele precisava”, conta.
Além do desafio de vender em plena pandemia, Vanessa conta que precisou se profissionalizar. Ela fez toda a formação na área de confeitaria no UniSenac e teve o trabalho de conclusão de curso eleito como o melhor da graduação naquele ano. “O Senac foi muito importante para o meu crescimento profissional. Eu já atuava na área há dois anos, mas ainda não me sentia, de fato, uma confeiteira. Ao fazer o curso, percebi que sabia muito mais do que imaginava e foi o momento em que eu bati o martelo e entendi que nasci para ser confeiteira”.
Em 2023, Vanessa registrou a marca do Gulous Gourmet e, no final do mesmo ano, foi reconhecida como Melhor Confeiteira de Porto Alegre, pela @MelhoresdoAnoPortoAlegreRS.
“A Gulous já existia muito antes de eu ser confeiteira de fato. O nome e a logo foram criações minhas. Sempre digo que penso em cada detalhe da Gulous, e isso vai além do doce e está presente em tudo. O registro da marca foi mais um passo para consolidar sua importância para mim e também para transmitir isso aos clientes. Assim, nos tornamos uma marca registrada”, relata.
Sobre os projetos para o futuro, Vanessa inclui a aquisição de um ateliê próprio, voltado para produção como chef e também para a realização dos cursos que costuma ministrar na área de gastronomia. “Já ministrei alguns cursos particulares em domicílio e, no futuro, pretendo ter um espaço adequado para ensinar e compartilhar tudo o que aprendi nesses seis anos de confeitaria.”
Empresária cria laticínio inspirado em vaca leiteira que salvou vida do filho
Empreender e criar uma agroindústria familiar com foco na produção leiteira nunca esteve nos planos de Camila Leipelt de Freitas, até que um presente inusitado de casamento fez a vida dela e da família mudar radicalmente: a vaca Pretinha chegou como regalo de um vizinho, com a sugestão de virar alimento para os recém-casados.
“Era uma vaca com tantas anomalias, só com três úberes, corcunda, considerada animal de descarte. Mas nos recusamos a abatê-la”, conta Camila. Pretinha não só virou uma grande produtora de leite, após ser cuidada pela família, como também foi inspiração para que Camila e o esposo criassem o Laticínio Benolle. “Montamos a indústria com foco em fornecer alimento orgânico, natural e saudável para as pessoas, especialmente para as que, como nosso filho, tivessem alguma intolerância a alimentos industrializados”, conta Camila.
Foi o leite da Pretinha que ajudou a alimentar o menino Germano quando bebê - hoje com 18 anos - já que ele era intolerante a todo o tipo de leite industrializado, desde as fórmulas até o leite de caixinha.
“O leite do peito não era o suficiente, ele estava crescendo. E aí eu comecei a tentar colocar aquelas fórmulas e ele passava muito mal. Foi então que uma vizinha disse: tenta o leite da Pretinha. Observei realmente que, dando leite de vaca, ele não passava mal. E aí depois ele foi submetido a vários exames e descobrimos que era alergia aos conservantes do leite”, relembra.
Em 2025, a agroindústria contabilizou aumento de 300% nas vendas após o lançamento da linha de iogurtes com geleias orgânicas na Expointer. A maior parte do rebanho é composta por vacas A2A2, geneticamente selecionadas para produzir leite só com a proteína beta-caseína do tipo A2, mais fácil de digerir por consumidores sensíveis à proteína A1 do leite convencional.
A criação do laticínio que hoje produz, além do leite in natura, derivados como queijos e iogurtes, exigiu da família a mudança de Viamão para Glorinha onde foram feitos investimentos para a construção da agroindústria, com auxílio do Sicredi. “Como associados, eles nos deram todo o apoio na hora da montagem da fábrica”. Entre as vantagens de empreender, Camila destaca a possibilidade de trabalhar com a família e de ter mais tempo para acompanhar o crescimento dos filhos.
- LEIA TAMBÉM: A nova força do empreendedorismo feminino*Ana Esteves é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Atuou como repórter setorista de agronegócios no Jornal do Comércio, Correio do Povo e Revista A Granja. Hoje, atua como assessora de imprensa e repórter freelancer. Também é graduada em Medicina Veterinária pela Ufrgs.






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